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No Estadão, desta quarta-feira: Instituições insultadas

No Estadão, desta quarta-feira: Instituições insultadas

Interesse pessoal leva poderosos a tentarem dificultar atuação do Estado de Direito

A série de insultos às instituições republicanas culminou ontem com o sequestro da Mesa do Senado por uma horda de bandalheiras – as senadoras Fátima Bezerra (PT-RN) e Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM,) à frente – para impedir a votação da reforma trabalhista. Ao mandar apagar as luzes do plenário, o presidente da Casa, Eunício Oliveira (PMDB-CE), fez a metáfora típica de membro do baixo clero num cargo do qual não está à altura.

Essa submissão da coisa pública às mesquinhas ambições pessoais da baixa política teve início após o impeachment de Dilma Rousseff (PT-RS), quando seus sequazes percorrerem o Brasil e o mundo a denunciar o “gópi” (da lavra da acima citada Fátima Bezerra), garantindo que a democracia havia sido interrompida por uma intervenção ilegítima. Agora que o governo Temer se assemelha cada vez mais a um zumbi assombrando um Brasil espoliado e intranquilo, os mesmos pregoeiros da desgraça garantem que o eventual substituto provisório e, quem sabe, provável sucessor até 2018, Rodrigo Maia (DEM-RJ), estaria protagonizando o golpe do golpe. Mas as instituições parecem funcionar e Deus queira que as aparências não nos enganem.

O que não falta desde então, entretanto, são tentativas insidiosas de desmoralizá-las em proveito próprio. O Partido dos Trabalhadores (PT) foi o primeiro a entrar nesse cordão dos “arrasa-instituições”. Defenestrada em processo constitucional normalíssimo, a mineira dos Pampas não perde uma oportunidade de maldizer os Poderes Legislativo e Judiciário, que a depuseram para punir crimes de responsabilidade que ela cometeu, como as famigeradas “pedaladas fiscais”. Sua narrativa da deposição ilícita de uma “presidenta” honesta, sem contas no exterior, pelo vingativo e corrupto inimigo, o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que presidia a Casa que a destituiu, com o voto de mais de dois terços do total dos seus membros, correu o mundo para macular o seu afastamento definitivo, satanizando o sistema que a deserdou.

Responsável por sua insensata e inesperada ascensão ao posto máximo da República, o antecessor e padrinho dela, Luiz Inácio Lula da Silva, recorreu a idêntico expediente ao tentar transferir para investigadores, acusadores e julgadores de seus crimes as penas que lhe cabem. Após constatar, em telefonema a um comparsa, que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, seria “ingrato”, incapaz de ser minimamente leal a benfeitores que o promoveram, abusa de ataques insanos ao Ministério Público (MP), à Polícia Federal (PF) e ao juiz federal Sergio Moro, responsáveis pelos cinco processos a que responde. E, dizendo-se vítima de ditadura inexistente, avisou que, se condenado, apelará a Cortes no exterior.

Na guerra de vaidades e por poder nem todos os chefes dessas instituições têm agido de forma incontestável no uso de suas atribuições. Rodrigo Janot, que se jacta de enfrentar, de forma imparcial e sobranceira, os mais poderosos varões nada impolutos da República, escorregou na baba da própria ambição. Em busca de um lugar no pódio da corrida do combate à corrupção, autorizou uma negociação nefasta para o interesse público com os marchantes da família Batista de Anápolis, propiciando-lhes impunidade absurda por sua participação numa ação programada de que a principal vítima foi o presidente da República. A obra-prima dele, a delação premiada de Joesley Batista, seu irmão e seus empregadinhos, resultou num desastre de relações públicas. A troca de 2 mil anos de pena por uma gravação do chefe do governo em flagrante delito empata em desconfiança e impopularidade com a desastrada atuação no comando do Executivo do mais poderoso de seus acusados. Comparar a troca com a “escolha de Sofia”, referência à opção entre dois filhos, salvando um em troca da morte do outro, da protagonista de William Styron, é a metáfora que sai pior do que a tentativa de correção.

A desastrada estratégia do tudo ou nada de Janot terminou por prejudicar muito mais a ação dos procuradores, incluindo os da força-tarefa da Operação Lava Jato, do que todas as tentativas de barrar suas iniciativas feitas pelos suspeitos de corrupção que ocupam cargos de mando na República. Sua sucessora, Raquel Dodge, terá uma missão árdua para corrigir isso, ao mesmo tempo que terá de esgarçar a teia de cumplicidade em que Temer e aliados pretendem enredá-la.

Impossível ainda será deixar o presidente de fora dessa tentativa malfazeja de desmoralizar as instituições da República para tentar safar-se dos próprios erros. Por mais inepta e frágil que seja a peça da acusação da lavra de Janot, que deu entrada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, ela tem como núcleo um fato incontestável: o encontro injustificável de Temer com Joesley na calada da noite, no porão do Jaburu, para tratar de assuntos pra lá de suspeitos e da forma mais inconveniente.

Desde que a reunião foi divulgada, a expectativa de delação de ex-parceiros, como o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e o contador Lúcio Funaro, desafia a reputação impecável alegada pelo morador do Jaburu. Nada disso, contudo, viria à baila se ele não tivesse permitido a constatação lógica de que pode ter cometido delitos de corrupção passiva, obstrução à investigação e formação de organização criminosa no único prazo em que não poderia tê-lo feito: os dois anos e meio em que completaria o mandato reduzido de Dilma Rousseff.

Sem fatos que possam socorrê-lo, o presidente contratou seu amigo fiel e conviva semanal Antônio Cláudio Mariz de Oliveira para enxovalhar a reputação da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e de um órgão técnico em cuja boa-fé repousam inquéritos criminais da maior relevância, o Instituto Nacional de Criminalística. Mas o Estado de Direito depende do funcionamento de instituições que a defesa de Temer tem enxovalhado para garantir o bom emprego dele.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na PagA2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 12 de julho de 2017)

 

No Blog do Nêumanne: Selvageria no futebol

No Blog do Nêumanne: Selvageria no futebol

Violência depois de jogos do Brasileiro no Rio desmentem lugares-comuns

A morte de um torcedor do Vasco logo após o clássico contra o Flamengo sábado, à tardinha, em São Januário, os riscos compartilhados por crianças, mulheres e famílias inteiras no velho estádio e a confusão antes do jogo do Botafogo contra o Atlético Mineiro na Arena do Engenhão domingo cedo resultarão, enfim, num basta na impunidade dos bandidos que se misturam às torcidas para brigar e ferir? Esta é a pergunta que não quer calar, mas infelizmente ainda não dá para respondê-la.

O procurador-geral do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), Felipe Bevilacqua, no calor da hora, antes de terminarem as transmissões dos canais de TV por assinatura, informou que  encaminharia a denúncia contra o clube no início desta semana. Ele admitiu que, independentemente do julgamento, que pode resultar em perdas de mando de campo na primeira divisão do Brasileirão, o local da dita porfia poderá ser interditado, a exemplo do que ocorreu em junho com o Serra Dourada, em Goiânia. E interditou segunda, à tarde… Até a próxima vistoria…

O Ministério Público (MP) do Rio de Janeiro também prometeu exigir, com igual presteza, a interdição do campo por um longo período. O promotor Rodrigo Terra ressaltou que o pedido do MP ocorrerá de forma distinta ao do STJD. De acordo com ele, o objetivo do pedido de interdição é que sejam apresentados planos estratégicos de segurança para a realização de eventos no estádio. “É uma exigência do Estatuto do Torcedor que haja planos de ação para jogos e campeonatos. Vamos pedir a interdição até que estes documentos sejam apresentados, examinados e aprovados pela Polícia Militar” disse Terra, em entrevista ao canal Sportv.

O que houve duas vezes no fim de semana na zona norte do Rio não foi algo insólito. Mas apenas a repetição de ocorrências mais ou menos graves dentro dos estádios de futebol ou em seus arredores em praticamente todas as cidades brasileiras que sediam partidas de campeonatos estaduais, regionais, federais ou internacionais. A diferença do que se sucedeu dentro e perto do campo do Vasco é que dessa vez os incidentes tiveram início antes do jogo, atingiram o clímax pouco antes de a partida terminar e continuaram nas ruas do entorno, culminando com uma morte.

 Do lado de fora do estádio histórico das celebrações do Dia do Trabalho com o presidente Getúlio Vargas, foi morto a tiros Davi Rocha, de 26 anos, que fazia parte da 9.ª Família da Força Jovem do Vasco, da zona oeste do Rio. Morador de Santa Cruz, o ajudante de eletricista saiu sozinho de casa, mas teria integrado um comboio da torcida. A família até tentou desmentir sua ligação com a “torcida organizada”, mas O Globo a comprovou com fotografias e a reprodução de mensagens em redes sociais.

A ligação da vítima com parte dos agressores não é inusitada, mas, ao contrário, confirma que a paixão por um time ou pelo esporte profissional não passa de pretexto. Todos os eventuais motivos aventados para a eclosão da fúria nas arquibancadas foram negados no desenrolar dos acontecimentos. Antes do apito inicial do árbitro, os repórteres encarregados da cobertura do clássico de maior rivalidade no futebol carioca foram advertidos pelo próprio corpo de segurança do clube anfitrião de que deveriam passar rapidamente, sem demonstrar estranhamento, que poderia ser confundido com hostilidade, num determinado ponto da arquibancada apelidado de “Faixa de Gaza”.

No gramado, diante das duas maiores torcidas da antiga capital federal (daí, a denominação de “clássico das multidões”), os dois times desempenharam uma exibição tensa e faltosa, de baixíssima qualidade técnica, com as atuações merecendo a nota explicitada no placar: 0 a 0. Com a torcida do time visitante segregada a um canto tido como mais seguro da arquibancada, sem esboçar reação notória, o segundo tempo foi iniciado com uma leve melhora da qualidade do prélio.

Numa jogada violenta no campo de ataque do dono da casa, o artilheiro Luís Fabiano, conhecido como Fabuloso, deu uma entrada de extrema violência num adversário, o zagueiro Leo Duarte, que saiu machucado de campo. O lance foi interrompido e o gol anotado pelos anfitriões em seguida, anulado com a paralisação da partida. Foi uma espécie de senha para o começo da violência: bombas, água em copos de plástico, barras de ferro e varetas transformadas em lança foram jogadas no gramado, no qual o visitante terminou marcando o único tento, da vitória.

O melhor relato da batalha campal que se seguiu ao apito final do árbitro foi escrito pelo repórter Pedro Ivo Almeida, do Uol, que salvou uma criança de nove anos, com incômodo respiratório provocado pelo gás de pimenta jogado pela Polícia Militar (PM) para tentar acuar os arruaceiros. Depois de molhar os olhos, a boca e o nariz do menino envergando uma camisa do Vasco com seu nome – Carlos Henrique – estampado abaixo do número 10, usado pelo ídolo do time, Nenê, o repórter teve a lucidez de chamar a atenção de seus leitores para alguns lugares-comuns que em nada ajudam a entender. Mas, ao contrário, só trazem mais confusão às vãs tentativas de acabar com a insensatez reinante nas explosões de violência e nos métodos utilizados sem resultado para detê-las.

Um lugar-comum negado é o de que a violência resulta da paixão exacerbada dos torcedores por seus clubes de coração e sua rivalidade com os adversários. Na verdade, tudo foi planejado antes. A guerra se travou no espaço reservado unicamente à torcida “da casa” e foi exercida por quem acorreu ao jogo para bater e matar, não para torcer. Esporadicamente as torcidas se aproximaram e jogaram objetos nos adversários tornados inimigos.. Mas o conflito travou-se apenas entre cruz-maltinos.

Dessa forma, o martírio de São Januário desafiou a falsa solução da torcida única, a que as autoridades responsáveis pela segurança recorrem sempre para evitar desforços físicos entre rivais, sendo que, na verdade, as brigas entre quadrilhas organizadas fantasiadas de torcedores de um time são mais comuns do que imagina a vã filosofia de policiais e promotores.

O presidente do Vasco, Eurico Miranda, inculpou a PM por não ter feito com competência a revista de quem teve acesso às arquibancadas com bombas. O major PM Hilmar Faulhaber, do Grupamento Especial de Policiamento de Estádios, deu entrevista insinuando que funcionários do clube podem ter guardado as bombas no campo da batalha para serem usadas durante o jogo disputado no gramado. Nenhum dos dois convence. Eurico quis provar que seu estádio é seguro e foi desmentido pelos fatos: ficou evidente que o imóvel é velho e não dispõe das condições exigidas para a realização de clássicos em suas dependências. O oficial não apresentou provas de que sua hipótese não passava de mera desconfiança.

A tentativa feita pelo cartola de explicar a tragédia como reação indignada à situação calamitosa do Estado do Rio, a cuja elite política, aliás, ele pertence, ou à crise econômica, moral e política do Brasil padece de extremado irrealismo. A culpa do Estado pelas ocorrências lamentáveis de sábado limita-se ao abandono em que se encontra o Maracanã, construído pela prefeitura do Rio para a Copa de 1950 e hoje gerido pelo governo do Estado, mas no centro de uma polêmica judicial depois que o consórcio, formado por uma empresa gestora americana e a empreiteira Odebrecht, envolvida na corrupção investigada pela Operação Lava Jato, decidiu devolver ou transferir a concessão. Eurico não pode, contudo, usar essa justificativa, pois o jogo de sábado só foi realizado na praça esportiva obsoleta do clube que preside por ele ter exigido exercer seu direito de mando, com evidente prejuízo neste particular desde a interdição decretada dois dias depois da tragédia num bairro que o samba consagrou como símbolo da adesão do malandro ao operário que ia de bonde ao emprego.

Na manhã do domingo seguinte, antes da disputa entre Botafogo e Atlético-MG no Estádio Nilton Santos, construído para os Jogos Panamericanos do Rio e adaptado para ser uma moderna arena, usada na Olimpíada do Rio em 2016, torcedores cariocas e mineiros entraram em confronto perto da estação de Engenho de Dentro, da Supervia. Ou seja, e la nave va e vida que segue. Ou melhor, a violência, a mortandade e a impunidade continuam… Também no futebol.

  • Jornalista, poeta e escritor

( Publicado no Blog do Nêumanne, Politica, Estadão, na segunda-feira 10 de julho de 2017)

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Estadão às 5 da TV Estadão: Leal a quem, cara-pálida?

Estadão às 5 da TV Estadão: Leal a quem, cara-pálida?

Na Argentina, o mais cotado dos eventuais sucessores de Temer, que balança e está para cair da Presidência da República, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), erra ao se declarar leal ao presidente e que aprendeu isso em casa. Na verdade, como parlamentar, deve lealdade à República, a seu Estado e a seu eleitorado. Como presidente da Câmara, deveria ser leal aos deputados, particularmente a seus apoiadores. Não é, ao contrário do que deu a entender, subordinado ao chefe do Executivo. Ainda que fosse, declarações do tipo em nada ajudam o presidente que está para ser substituído. Este foi o primeiro tema da conversa com Adriana Ferraz, do Estadão, no Estadão às 5 da TV Estadão.

(Estadão às 5, transmitido por Youtube, Twitter e Facebook na sexta-feira 7 de julho de 2017, às 17 horas)

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Estadão às 5, da TV Estadão: O fim da Lava Jato

Estadão às 5, da TV Estadão: O fim da Lava Jato

Comunicado da PF noticiando a dissolução da força-tarefa da Operação Lava Jato, embora fosse esperada e demonstre que as investigações de Curitiba se espalharam por outros lugares, foi recebido com desconfiança pela população e indignação pelos procuradores, que veem na medida uma consequência do acordão de políticos investigados de vários partidos. É difícil convencer a população de que o combate à corrupção continua e que não houve nada de trágico. Este é o primeiro tema de minha conversa com Adriana Ferraz, repórter de politica no Estadão e âncora do Estadão às 5, no qual também debatemos a polêmica sobre a ida de Rodrigo Janot para acusar Temer na CCJ da Câmara e outros temas.
(Estadão às 5, da TV Estadão, transmitido por Youtube, Twitter e Facebook na quinta-feira 6 de julho de 2017, às 17 hs)
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O fim da Lava Jato

Perfil fúnebre de Walter: Dublê de repórter  e empresário

Perfil fúnebre de Walter: Dublê de repórter  e empresário

Com a morte de Walter Fontoura em São Paulo, na madrugada desta terça-feira, 4 de julho, saiu de cena mais um representante de uma geração de jornalistas que tinham ao mesmo tempo faro de notícia, vocação de chefiar equipes e visão de mercado. Há 15 anos, morreu o carioca (como ele) Evandro Carlos de Andrade. Em fevereiro deste ano, foi a vez de Mauro Guimarães, com os mesmos 80 anos de Walter, seu maior amigo. Outro expoente, Oliveiros S. Ferreira, está aposentado, aos 89 anos. Mauro e Walter tiveram importância capital no apanágio jornalístico e empresarial do Jornal do Brasil, hoje limitado à edição virtual. E Walter também participou, como Evandro, do crescimento das Organizações Globo. Oliveiros, celebrado professor da Universidade de São Paulo (USP), teve atuação decisiva na consolidação do Estado de S. Paulo.

walterfontoura

Filho de um oficial da Aeronáutica, Walter passou a infância em Natal, capital do Rio Grande do Norte, cidade e Estado aos quais sempre dedicou carinho filial. Mas sua ligação com o Rio de Janeiro foi muito mais intensa e significativa. Foi redator da primeira coluna política importante na imprensa brasileira contemporânea: o Informe JB, inspiração da Coluna do Estadão, do Painel da Folha de S.Paulo, de SwannAncelmo Góes e Jorge Moreno, no Globo. A prioridade da informação na coluna, cuja marca registrada era o anonimato do autor, contaminou outras tidas como sociais, deixando suas marcas em Zózimo Barroso do Amaral, que foi seu subordinado no Caderno BDireto da Fonte, no Caderno 2, e Mônica Bergamo, na Folha Ilustrada.

Desde muito cedo, Walter chefiou equipes, o mais evidente de seus muitos talentos na gestão de empresas e redações jornalísticas. Fidalgo, com talento de diplomata, empregado na direção do escritório do Instituto Brasileiro do Café em Nova York, ele sempre cultivou fontes e foi, enquanto trabalhou cotidianamente, um feroz caçador de “barrigas”. Graças às fontes que consultava, usou o poder da chefia, por exemplo, para impedir que saísse a nota de uma coluna que desinformava sobre a preferência do presidente Geisel para suceder-lhe pelo general Hugo Abreu, no dia em que João Figueiredo seria anunciado. À época dirigia o “jornal da condessa”, em que trabalhou 18 anos como repórter, redator, editorialista, diretor da sucursal de São Paulo, redator-chefe e vice-presidente da empresa. Nele comandou, nos anos 70, uma equipe de destacados jornalistas, como Carlos Castelo Branco e Villas-Bôas Corrêa. De 1985 a 1997, dirigiu a sucursal paulista do então maior concorrente do JBO Globo.

"Walter, a mulher Arlete e as filhas, ainda pequenas, Claudia e Ana Cristina." Foto do perfil do jornalista no FaceBook https://www.facebook.com/walter.fontoura.5

“Walter, a mulher Arlete e as filhas, ainda pequenas, Claudia e Ana Cristina.”
Foto do perfil do jornalista no FaceBook – https://www.facebook.com/walter.fontoura.5

Fora do jornalismo, empregou o talento de executivo no Conselho Consultivo do Banco Mercantil de São Paulo, para o qual foi convidado por seu amigo, Gastão Vidigal, que ele considerava o banqueiro-síntese do Brasil. Sobre o Mercantil escreveu o livro O Banco, São Paulo e o Brasil. Foi também diretor da Associação Comercial do Rio de Janeiro, vice-presidente da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, membro do Conselho de Orientação Superior da Fiesp, da Editora Páginas Amarelas e do Masp.

Em 2000, Walter Fontoura juntou-se aos amigos publicitários Luiz Sales, Alex Periscinoto e Sergio Guerreiro para fundar a SPGA Consultoria de Comunicação e prestou serviço a presidentes de empresas como Vale, Santos Brasil, Votorantim, Basf e Bradesco.

Caricatura de Walter Fontoura (08/06/1936 a 04/07/2017) de autoria não identificada, copiada da página dele no Facebook.

Caricatura de Walter Fontoura (08/06/1936 a 04/07/2017) de autoria não identificada, copiada da página dele no Facebook.

Por todos esses lugares compartilhou competência, simpatia, elegância e cavalheirismo. Deixa viúva Arlete, com quem teve três filhos, Walter (morto na juventude), Cláudia e Ana, além de cinco netos.

Antonio Foutoura D'Angelo com Walter Fontoura. Foto copiada do perfil do FaceBook: https://www.facebook.com/walter.fontoura.5

Antonio Foutoura D’Angelo com Walter Fontoura. Foto copiada do perfil do FaceBook: https://www.facebook.com/walter.fontoura.5

José Nêumanne Pinto

Jornalista, poeta e escritor

No Blog do Nêumanne: A flecha e o bambu

No Blog do Nêumanne: A flecha e o bambu

Janot recorre a metáforas e Fachin cala sobre falhas da delação de Joesley

Na semana em que o relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF) comemorou, em silêncio cerimonioso, a vitória por 11 a 0 contra os colegas que desafiam seu poder absoluto sobre os destinos dos réus sob o peso de seu martelo, seu parceiro procurador-geral da República recorreu a uma metáfora primitiva. O ministro do STF Luiz Edson Fachin e o chefão do Ministério Público Federal (MPF), Rodrigo Janot, este em fim de linha não se sentem forçados a dar explicações por terem patrocinado a delação premiada mais generosa da História da humanidade, que ambos concederam a Joesley Batista, o bamba do abate.

Todo mundo sabe, pelo menos dentro dos limites do Distrito Federal, que Ricardo Saud, um dos delatores premiados da holding J&F, que deixaram Anápolis, em Goiás, para brilhar nesse mundão grandão de Deus, foi solícito parceiro do excelentíssimo e eminentíssimo relator em sua peregrinação à cata de votos a seu favor na sabatina do Senado para aprovar sua nomeação para o Supremo. É ainda de conhecimento público que sua escolha não foi abençoada pela ausência de suspeitas e desconfianças, no momento em que a dra. Dilma Vana Rousseff Linhares resolveu substituir o relator do mensalão, Joaquim Barbosa, por ele. E não eram meros detalhes desprezáveis, como diria o dr. Michel Miguel, devoto de palavras dicionarizadas que não têm uso corriqueiro. Ou, como o lente de Direito Constitucional da PUC de São Paulo podia preferir, lana caprina.

Assim que findou sua passagem pela presidência do STF, alegando ter sido ameaçado, Barbosa aposentou-se. A chefa do Poder Executivo levou oito longos meses, quase uma gestação, para substituí-lo. Os cheios de pruridos éticos na escolha para ser membro tão poderoso de uma instituição que deveria ficar acima de qualquer suspeita na vida toda –  entre os quais o autor destas linhas – insistiram na tecla de que o ilustre jurista tinha advogado quando ainda era procurador do Estado do Paraná, o que fora proibido pela Constituição. Usei fora e não era porque a mudança constitucional foi usada como argumento para defendê-lo por entidades que não tinham por que se meter no caso: a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação dos Procuradores do Estado do Paraná, que apresentaram pareceres jurídicos a respeito. Ao aprová-lo na sabatina, o Senado estendeu aos pretendentes ao STF o princípio básico do direito de defesa no Direito Romano in dubio pro reo (ou seja, na dúvida a favor do réu) para os insignes candidatos à colenda Corte. Outro princípio dos tempos de Roma – à mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer – foi às favas, como os escrúpulos do coronel Passarinho e a modéstia daquele que seria seu colega e contendor no órgão máximo, o ministro Gilmar Mendes. Escrúpulos e modéstia não são comuns no grupo em tela.

Em benefício da dúvida velha de guerra, o doutor foi liberado para exercer a extrema magistratura, mas seus aliados também tiveram de superar outros óbices, hoje já não se sabendo se mais ou menos espinhosos. Jurista respeitado por colegas de ofício de ideologias opostas, ele se fez conhecido por duas posições que põem eleitores e eleitos em pé de guerra. Esquerdista, militou em favor das causas de movimentos sociais que passam ao largo da legalidade, como o famigerado Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). E, católico devoto, frequentador de missas dominicais com a mulher, com quem é casado há longa data, esposou com fervor causas do Instituto Brasileiro do Direito de Família (IBDFAM), presidido pela gaúcha Maria Berenice Dias. Aos senadores conservadores explicou que a Constituição se sobreporia a eventuais posições políticas, partidárias ou referentes a causas que defendeu, entre elas, a múltipla paternidade e o convívio conjugal entre parceiros casados (ou não) de quaisquer opções sexuais. Convincente, foi aprovado.

Críticos mais renitentes lembraram que o professor foi remunerado por uma empresa controlada pelo Estado do Paraná numa causa contra uma concorrente americana, ao arrepio da lei, pois, sendo procurador, teria obrigação de defender a estatal estadual gratuitamente. Como titular do mesmo escritório de advogados, prestou serviços a uma empresa paraguaia contra a estatal binacional (meio brasileira) Itaipu. O mesmo escritório atuou em causas julgadas no Tribunal de Justiça do Paraná, no qual sua mulher, Rosana Amara Girardi Fachin, é desembargadora.

Sua Excelência também postou vídeo de apoio à candidata do PT à Presidência da República em 2010, Dilma Rousseff, que o indicaria. Não há proibição legal para fazê-lo. Mas isso criou mais problemas do que os outros seis pecados capitais, pois põe em dúvida a imparcialidade. No STF, contudo, isso não é lana caprina e, sim, favas contadas. Gilmar Mendes foi advogado-geral na gestão tucana de Fernando Henrique. Ricardo Lewandowski é amigo antigo da família Lula da Silva. Dias Toffoli foi advogado do PT e, depois da União nos mandatos de Lula. E Alexandre de Moraes é duas vezes comprometido: com o governador tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin, de quem foi secretário de Segurança Pública, e do presidente Michel Temer (PMDB-SP), de quem é amigo pessoal e foi ministro da Justiça. Vai longe a data em que Marco Aurélio Mello, primo de Collor e por ele nomeado para o STF, se declarou impedido de participar da decisão final sobre o impeachment do parente e benfeitor.

Aliás, quando o assunto foi aventado, Gilmar Mendes, inimigo declarado da Lava Jato e da delação premiada em geral, não apenas a dos irmãos Batista, recorreu ao princípio evangélico do “atire a primeira pedra”, advertindo que muito poucos colegas não contaram com a ajuda de empresários ou políticos investigados, processados ou apenados.

É difícil encontrar em Brasília quem não saiba que o substituto de Joaquim Barbosa foi instruído por um caríssimo gestor de crises contratado para o serviço não pelo ministro, mas pela mesma mão que o indicou para o cargo, a de Dilma. Pode não ter sido ilícito, mas não é nenhum indício de lisura a se exigir do membro da cúpula de um poder que decide querelas judiciais em última instância. Pode não ser o oitavo pecado, mas não deixa de ser uma mácula na fantasia de Batman que o ministro usa no trabalho.

Antes de chegar a Fachin, contudo, a generosíssima delação premiada de Saud & Batista foi negociada com o MPF, com o beneplácito de seu chefe, Janot, E este, com informações colhidas pelos depoimentos dos delatores, está entrando na História como autor do primeiro libelo acusatório contra um presidente da República no exercício da função

Os procuradores chefiados por Janot não deram a menor importância à lacuna imensa existente na delação dos irmãos Batista e do parceiro de Fachin na preparação da sabatina. Zé Mineiro, cujas iniciais inspiraram o nome JBS com a qual a carne da Friboi ganhou o mundo todo, começou sua vida num açougue de duas portas no longínquo interior goiano. Seus filhos Joesley e Wesley são hoje os mais bem-sucedidos produtores e vendedores de proteína animal do planeta. Até a neta grávida de Lula, notória por sua sem-cerimônia no uso de gestos obscenos, sabe que isso ocorreu mercê do uso de empréstimos pra lá de beneméritos do BNDES.

Aos federais e procuradores que negociaram sua delação a prêmio Joesley Batista contou que administrara contas de Lula e Dilma, que movimentaram US$ 150 milhões, na Suíça. A denúncia tem o valor de uma nota de R$ 3, pois o público pagante de seu vertiginoso enriquecimento não ficou sabendo de um documento habilitado a comprovar “no papel” a denúncia. É, digamos, uma delação de saliva, mas sem prova de tinta.

Depois de acusar Temer, alvo preferencial de uma ação controlada, que os sócios e amigos do presidente chamam de “armação”, Janot, aprovado por Fachin, que homologou os prêmios, pode até acusá-lo de ser réu confesso. Pois o presidente nunca negou as circunstâncias delituosas de seu encontro noturno em palácio com um bandido conhecido até em Tietê, sua cidade natal. Pode ser que isso dê um pouco de substância probatória à denúncia histórica do procurador. Mas não justifica o desinteresse dele pelas origens da fortuna criminosa da família Batista, em si só um delito.

Temer vingou-se dele nomeando uma desafeta, Raquel Dodge, para o lugar que Janot terá de abandonar em 17 de setembro. Mas, como Bento Carneiro, o vampiro brasileiro, Janot prometeu uma “vingança maligna” até lá: “Enquanto houver bambu, vai ter flecha”. Resta saber quem, Janot ou Fachin, é a flecha. E qual dos dois é o bambu.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, segunda-feira 3 de julho de 2017)

Para ouvir Tiro ao Álvaro, com Elis Regina e Adoniram Barbosa, clique no Play abaixo:

Para ouvir no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/a-flecha-e-o-bambu/

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