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No Blog do Nêumanne: De volta ao curral onde jaz meu umbigo

No Blog do Nêumanne: De volta ao curral  onde jaz meu umbigo

Lembranças do vaqueiro Eloi e seu patrão Chico, meu avô

O primeiro ponto de referência de minha vida foi a porteira do curral em frente à casa de meu avô materno, onde nasci. Afinal, foi lá que enterraram meu cordão umbilical. Desde muito cedo me contaram isso. Desde muito cedo me acostumei a tirar os paus que impediam a saída das reses e a entrada dos vaqueiros. Nunca tive um gibão, nunca uma perneira, nunca um bornal pra encher de farinha seca e pedaços de rapadura que amoleciam ao sol. O velho Chico Ferreira também não usava os trajes dos meeiros de confiança que apartavam seu gado vacum, levavam-no cedo para o pasto e, ao anoitecer, o traziam para ruminar no leito macio e quente de bosta de vaca. Ao que me lembre, meu avô, magro e míope, muito míope, usava camisas e calças de tecido rústico, sempre muito limpas, com cheiro de sabão de pedra, anis e goma de mandioca, usada para passá-las.

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Eu, gorducho, meio inseguro sobre coxas grossas e pernas bambas, acordava muito cedo para tomar meu café. Carregava com zelo um copo de vidro grosso no qual jorrava o leite gordo da teta que o dono ordenhava com calma, paciência e um amor que exalava por todos os seus poros. Ali era o pai de minha mãe, sua primogênita, o sogro de meu pai, seu sobrinho, ao mesmo tempo seu compadre, pois tinha sido padrinho de meu irmão um ano mais novo.

Foto de mamãe, meu tio Quincas e meu irmão Neudson na Fazenda Rio do Peixe, onde nasci.

Foto de mamãe, meu tio Quincas e meu irmão Neudson na Fazenda Rio do Peixe, onde nasci.

O líquido branco e morno já era despejado sobre o café, que dona Quinou Moreira, minha avó, havia feito na primeira hora, antes de a barra alumiar de rubro e o sol surgir luminoso, forte, quente e ameaçador. Quando meus pais se mudaram para a cidade, um vilarejo à época, o leite chegava em baldes e era fervido no fogão de lenha por minha mãe, Mundica, que o passava de tigela em tigela até atingir minha temperatura favorita, um pouquinho mais quente do que o leite mugido.

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Até seu Chico morrer, e eu tinha apenas 6 anos, contudo, meu desjejum era no curral, ao qual só tinha acesso depois de pisar o chão que ocultava os restos em decomposição de meu cordão umbilical. Isso era muito cedo e o dia se alongava, de forma preguiçosa e lenta, até que eu me juntava ao ancestral para a cerimônia mais esperada do dia. Sentávamo-nos os dois na calçada alta e esperávamos a chegada do rebanho. Ao som dos chocalhos, o sol desmaiava aos poucos, desmanchando-se em cor de sangue. Aquela longa conversa muda entre o velho e a criança se reproduz até hoje em minhas lembranças e em meus gostos.

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Às vezes, muito raramente, o ancião esticava o braço torrado da soleira na direção do ocidente e me mostrava nuvens carregadas ao perder de vista no horizonte:

– Veja, esse menino. Está chovendo em Souza. Pode ser que amanhã chegue por aqui. Estamos precisados.

Quando o dia morria, ouvíamos a voz da mulher, vinda da cozinha:

– Traga o menino pra dentro, seu Chico. É hora da ceia.

O idoso (e ele morreria tão cedo) sacava, então, sua peixeira e a amolava numa pedra, depois rapava uma rapadura que seus empregados traziam da Baixa Verde, sua propriedade no Rio Grande do Norte, onde nascera parte de sua prole, inclusive minha mãe. Despejava a rapadura rapada no prato fundo, acrescentava coalhada e soro. E os dois – o ancestral e parte de sua descendência – comíamos solenemente, em silêncio. Gostaria muito de um dia me lembrar da voz daquele homem tão íntimo de mim naquele tempo, mas ele foi e com ele levou a lembrança de seu timbre amável. Cruzava as pernas, sentava-me no colo e, antes de pitar um cigarro de palha, depositava a criança quieta no banco de madeira ao lado de uma mesa longa, à qual somente nós dois tomávamos assento. Minha avó comia na cozinha, de pé, ao lado do fogão, depois que os pratos dos homens estavam lavados, postos para a água escorrer logo ali ao lado.

Avós paternos Chico Ferreira e Quinô Pinto

Avós paternos Chico Ferreira e Quinô Pinto

Dormíamos em redes, ele no quarto com a mulher, eu na sala, insone pelo tique-taque do pêndulo do relógio de parede que dava os minutos e tocava as horas, contadas em algarismos romanos fora do padrão: quatro era IIII, não IV, como no império dos Césares se grafava. De onde algum desavisado teria tirado essa ideia de subverter o IV com que Marco Aurélio fazia suas contas na Antiguidade longínqua?

Quando chovia, contudo, eu dormia bem, embalado pelo ronco pesado de minha avó, as bátegas açoitando as telhas da casa antiga e o ranger dos armadores submetidos ao peso do velho se balançando para conciliar o sono. Uma vez, já adolescente, morto o avô, a avó surda e implicante ainda viva por um bom tempo, escrevi um poema sobre esta cena doméstica. É o único de todos os meus poemas que sei de cor. E tem o fecho mais comum, menos interessante, mas que me emociona até me levar aos prantos. O poema intitula-se “Na casa avoenga”. E termina com um verso súbito e impaciente: “eta emoção!” Só que o ritmo dos versos não lembra as noites de chuva e paz ou de ronco e vigília. Mas, sim, sempre, a chegada da boiada de volta ao curral, onde apodrece o cordão que me ligava ao ventre materno antes do parto complicado de que vim ao mundo.
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Não sei por que, vou morrer sem saber, talvez nasça de novo e ainda não aprenda por que, com mil e seiscentos diachos, como praguejava seu Chico Ferreira, me senti pessoalmente agredido pelos bondosos defensores dos animais, pelos burocratas do Estado do Ceará que, a poucos quilômetros do alpendre da casa onde minha mãe me pariu, proibiram a vaquejada. Um ministro do Supremo Tribunal Federal me fez a suprema desfeita de decepar um pedaço da infância, a lembrança afetuosa que tinha do pai de minha mãe, com os quais, ele e ela, compartilho feições bem parecidas. Senti-me um irmão distante de Aldo Rebelo quando ele escreveu, na mesma página onde rabisco linhas sobre política no Estadão velho de guerra e paz, um protesto assim lírico e manso como o meu contra a medida Segundo Aldo, esta matou o vaqueiro e o sertanejo, os heróis da saga da conquista dos ermos pelas patas das boiadas da Casa da Torre, dos Garcia d’Ávila, na Bahia.

Lendo o noticiário posterior sobre o pretexto do conflito em torno da vaquejada, que teria ajudado a derrubar Marcelo Calero do Ministério da Cultura, que era contra, e da penada com que o presidente Temer a recolocou no altar da cultura popular, aproximei-me de novo de meu avô materno. E me senti de novo o bebê que Levina, filho de seu Natan, pesou na balança de pesar algodão de meus ancestrais e depois banhou pela primeira vez com sabonete Vale Quanto Pesa. Moradora de meu bisavô coronel, ela era mulher de Eloi, vaqueiro tresmalhado que chegou de Monte Santo, Bahia, onde o beato Conselheiro perdeu a vida para adentrar a lenda.
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Quem sabe essa lembrança com gosto de leite recém-ordenhado no sertão do Rio do Peixe me consiga o perdão dos defensores dos animais, embora talvez seja impossível convencê-los de que, por mais que se esforcem, nunca cuidarão de uma rês ou uma rã tão bem como um vaqueiro do sertão. Seja como for, este idoso com o umbigo amarrado ao curral do avô sempre lhes será grato por terem eles permitido voltar à infância amputada por causa do episódio sem nexo nem razão da proibição da vaquejada. Tengo, lengo, tengo, lengo, tengo, ê boi.

José Nêumanne

José Nêumanne Pinto, poeta, escritor e jornalista, nasceu na Fazenda Rio do Peixe, em Uiraúna, Paraíba.

Imagens: recortes do vídeo da reportagem da TV Tambaú feita pelo jornalista José Vieira Neto sobre a vida do Jornalista e escritor José Nêumanne Pinto – 5 de maio de 2007.

 

“Inútil! A gente somos inútil!”

“Inútil! A gente somos inútil!”

José Nêumanne

Não terá o povo cansado de sair de casa para berrar e não ser ouvido pelos políticos?

Em 17 de junho de 2013, cerca de 2 milhões de brasileiros protestaram nas ruas contra o statu quo. Em 15 de março deste ano, cidadãos em número similar queixaram-se de Dilma, Lula e do PT deles. Em 12 de abril, 660 mil. Em 16 de agosto, 790 mil. Neste domingo, 73 mil exigiram impeachment, cassação, deposição ou renúncia da presidente Dilma Rousseff. O povo está se calando? Ou já se cansou de berrar o óbvio, à toa?
Para entender o esvaziamento progressivo das ruas este ano convém, primeiro, ouvir o que dizia quem saiu de casa e relatar como a elite política dirigente do País lhe respondeu. Em 2013, o Movimento Passe Livre (MPL) convocou protestos contra o aumento de tarifas de transporte urbano e evoluiu para reivindicar a gratuidade. A multidão aproveitou para exigir direitos que a Constituição garante e os três Poderes da República lhe negam: segurança pública, saúde e educação, principalmente.
Quem, em sã consciência, garante que o povo foi atendido? Fingindo só ter percebido o pedido de dispensa de R$ 0,20, governadores, entre eles o paulista Geraldo Alckmin, do PSDB, e prefeitos de grandes cidades, incluído o paulistano Fernando Haddad, do PT, adiaram o aumento, fingindo que assim eliminariam a causa da revolta. Mitigariam a ira popular por R$ 0,20 a cabeça?
Ledo e ivo engano, dir-se-ia na minha adolescência em Campina Grande, quando grande parte dos adolescentes sabia ler. O PT no poder, sob a égide de Dilma Rousseff, fez ouvidos surdos ao clamor e prometeu Constituinte exclusiva para reforma política, com financiamento das milionárias campanhas eleitorais dos políticos pelo suado dinheirinho escasso do cidadão. Mera embromation, diz-se na pré-adolescência de meu neto. E a oposição prometeu dar o que o povo pedia e o governo não atendia. Só que não contou como. Um ano e meio depois, Dilma e o PT venceram Aécio e o PSDB. Se o pleito foi fraudado, como muitos desconfiam, ninguém na rua jamais saberá, pois é impossível recontar votos.
O que qualquer cidadão que protestou contra gregos e baianos no inverno de 2013 e contra o 13 petista nas quatro estações no primeiro ano do segundo desgoverno Dilma viu foi tudo piorar muito nestes 30 meses. Inocentes morrem em tiroteios nos bairros pobres de grandes cidades em maior número do que antes. E a saúde pública, totalmente sucatada, não honra seu patrono, Oswaldo Cruz, que expulsou o Aedes aegypti, transmissor da febre amarela, destes tristes trópicos há cem anos. Mas este voltou para ficar em pleno século 21, transmitindo dengue, zika e chikungunya antes mesmo de o ovo virar inseto, segundo explicação da douta presidenta no ápice de sua sesquipedal ignorância sobre todos e tudo.
O símbolo da educação desbaratada são sem-teto organizados, black blocs alucinados e partidecos de extrema esquerda sem eleitores que, beneficiados pelo aparelhamento generalizado dos Poderes republicanos, invadem escolas públicas no Estado mais rico da Federação. Enquanto o governo tucano brinca de fechar e reabrir escolas ao sabor da queda nos índices de popularidade
Essa explicação não é única. Há outra, além da falta de líderes à altura da crise, do curto prazo da organização e da proximidade das festas de fim de ano: é que todos concordam quanto ao diagnóstico da situação, mas falta consenso sobre o que fazer para lhe dar o xeque-mate. A solução para a crise, ulula o óbvio (apud Nelson Rodrigues), será tirar de Dilma qualquer poder. Todos sabem que ela condescendeu com a metástase do câncer moral que nos assola, erigiu tijolo por tijolo a ruína econômica, como o faz na transposição do Véio Chico, e afagou a fera política com as garras da arrogância e da ignorância que formam sua personalidade. E é incapaz de debelá-las pelas mesmas deficiências próprias que as produziram: como poderá liderar a conciliação se não convive em paz sequer com o seu vice?
A carta de desamor de Michel Temer a Dilma é criticada por explicitar o fisiologismo reinante no presidencialismo de coalizão, que vira de colisão – o caso no momento. Nunca antes na História tantas queixas pessoais exibiram com tanta crueza as mazelas deste sistema que \joga o público na privada.
Três processos dentro dos conformes do Estado Democrático de Direito se propõem a remover o obstáculo à pacificação nacional e à entrega da administração a gestores com QI de mais de dois dígitos. Impeachment, ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) investigando uso de propina no financiamento da campanha presidencial e votação no Congresso da violação explícita da Lei de Responsabilidade Fiscal, que a presidente jurou cumprir, não são lana caprina. Mas talvez nem a divulgação pelo Valor Econômico de documento obtido por Leandra Peres, revelando o que os “juristas” vassalos do Planalto não conseguirão provar que ela “jura” que não sabia, tenha o condão de evitar que 5.600 trabalhadores percam o emprego no Brasil diariamente sob o jugo de uma chefe de governo que tem provado diuturna, noturna e madrugadurnamente não saber de nada em geral.
A Nação suporta o Legislativo contaminado por presidentes da Câmara e do Senado investigados por corrupção milionária. E a oposição muda ao capricho do vento, só que na direção contrária, não sendo alternativa de poder e só gemendo no muro das lamentações.
Tardando a enquadrar os maganões, a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Supremo Tribunal Federal (STF) negam à cidadania o tratamento igual dado pelo juiz Sergio Moro, pela PF e pelo MPF na Lava Jato, que processam ricos e pobres sem distinção. Ao distinguir quem tem mandato de quem não tem, PGR e STF tornam letra morta a igualdade de todos perante a lei. Nesta democracia capenga, em que uns são mais iguais que outros e não se ouve o cidadão, é o caso de trocar o Hino Nacional pela canção do Ultraje a Rigor: “Inútil! A gente somos inútil!”.

Jornalista, poeta e escritor.
(Publicado na PagA2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 16 de dezembro de 2015)

O mar chega ao sertão pelo Recife

O mar chega ao sertão pelo Recife

José Nêumanne Pinto

Meu caminho do sertão ao mar foi feito com uma escala: de Uiraúna a Campina Grande e, sem passar em João Pessoa, direto para Recife. O fascínio pela Rainha da Borborema começou cedinho, na infância. Cheguei, ainda pré-adolescente, ao burgo fundado por Nassau, seguindo o rumo do Atlântico, traçado por meus pais desde os ermos do Vale do Rio do Peixe.

Campina Grande, Açude de Bodocongó - Foto Divulgação

Campina Grande, Açude de Bodocongó – Foto Divulgação

Fui estudar num internato em Campina Grande e na biblioteca do seminário redentorista de Bodocongó encontrei-me com Karl May, com quem viajei pelo mundo afora em mil aventuras, os livros de capa azul do Tesouro da Juventude e as obras completas dos poetas cuja obra minha mãe, Mundica Ferreira, costumava dizer de cor nas noites quentes e escuras do sertão sem luz de Paulo Afonso. Destas leituras emergiu minha opção pelo mundo dos estudos, que me levou à galáxia das letras. E a paixão pela cultura fomentou e fermentou meu amor pela cidade de que tinha ouvido falar ainda menino, na leitura dos poemas de Augusto dos Anjos. Ela foi marcada pela cadência repetida dos versos iniciais de seu poema As cismas do destino: “Recife. Ponte Buarque de Macedo. Eu, indo em direção à Casa do Agra, assombrado com a minha sombra magra, pensava no destino, e tinha medo!”.

Ponte Buarque de Macedo - Foto Divulgação

Ponte Buarque de Macedo – Foto Divulgação

Ali me hospedava na casa de uma família sertaneja no Derby e perto dela, na Ilha do Retiro, campo do Sport, vi um jogo de futebol inesquecível entre o Náutico e o Cruzeiro de Belo Horizonte. Este, com Dirceu Lopes e Tostão. Mas, desculpe, não consigo escalar o time todo. O anfitrião sustentou o zero a zero com Lula; Gena, Mauro, Fraga e Clóvis: Salomão e Ivan; Nado, Bita, Nino e Lala. Salomão, médico campinense, era um volante como não há mais: clássico e elegante. Como Carlinhos, do Flamengo. Ou Araponga, que, como ele, também jogou no Campinense.

Recife, Ilha do Retiro. Foto Divulgação

Recife, Ilha do Retiro. Foto Divulgação

Ainda imberbe, passei a frequentar a intelligentsia recifense, meio sem querer querendo, forçando a barra. Numa incursão noturna, imprópria para menores de 18 anos (e eu tinha 15), fui ver o show Memórias de dois cantadores, com Edy e Teca, acompanhados por Geraldinho Azevedo, Naná Vasconcelos e Marcelo Melo (depois do Quinteto Violado), dirigidos por Carlos Fernando. Era um espetáculo de poesia popular e cancioneiro folclórico. Edivaldo Souza virou Edy Star, um dos Dzi Croquettes, e morou na Espanha. Teca Calazans casou-se com Ricardo Villas, com quem formou dupla na guerrilha de esquerda contra a ditadura militar e na música brasileira.

Foto Divulgação. Um anúncio original do TPN

Foto Divulgação. Um anúncio original do TPN

Nunca mais me esqueci de um episódio ocorrido no bar defronte ao Teatro Popular do Nordeste (TPN). Lá estavam Zélia e Ariano Suassuna, ao lado de Leda e Hermilo Borba Filho. Leda é muito amiga de meu amigo de infância Marcus Vinicius de Andrade, maestro, poeta, recifense, criado em João Pessoa. Abordei os quatro a partir daí e a conversa rolou. Na platéia, mas em fila diferente, estava o professor Jomard Muniz de Britto, acompanhando seu amigo Roberto Cavalcanti a irmã deste, a adolescente Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque. Lembrado do episódio na Casa das Rosas em São Paulo, JMB comentou:

– Pois é. Cristina me analisa desde a adolescência dela.

Na platéia, Edy Star, que mora a alguns quarteirões dali, aplaudiu. Naquela noite eu, pré-adolescente conheci de uma vez só Ariano, Hermilo, Jomard, Cristina, Roberto (co-autor de Coronel, coronéis com Marcus Vinicius Villaça), Geraldinho Azevedo, Naná, Marcelo – a fina flor da tradicionalista e da vanguardista Pernambucália de todos os tempos.

Reencontrei Jomard em jornadas pré-tropicalistas. E nunca mais perdi seu arqui-inimigo Ariano de vista. Certa vez, ele me telefonou para pedir licença (imagine!) para citar uma frase que usei ao falar de meu livro Veneno na veia num seminário de literatura em Campina Grande: “Este não é um romance de aventuras, mas o romance de nossa desventura”. Na ocasião em que o convidei para minha posse na Academia Paraibana de Letras, da qual ele fez parte e na qual ocupo a cadeira nª 1, cujo patrono é Augusto dos Anjos, Ariano me avisou que a dita sentença seria a epígrafe do capítulo em que tratava da morte do pai em seu romance inédito. E me perguntou quantos enes tinha meu nome. Respondi que eram três.

–  Como três? – questionou, intrigado.

E eu soletrei:

– Ene (primeiro)-e-u-eme-a-ene (segundo) -ene (terceiro)-e.

– Sujeitinho mais ordinário, você – ele disparou, depois de gargalhar.

Mas Ariano não foi o único interlocutor que tive na capital pernambucana. Depois que virei jornalista no Sudeste, passei a visitar a cidade por conta de compromissos profissionais. O diretor do Jornal do Brasil Mauro Guimarães me escalou para fazer a cobertura de uma reunião da Sudene. Nela Tancredo Neves, então governador de Minas, foi indicado para ser protagonista da coligação civil armada para derrubar a ditadura militar. Tomando um uísque com gelo no salão de refeições opíparas do Palácio do Campo das Princesas, arrisquei:

– Então, o sr. vai ser presidente, hein, dr. Tancredo?

– Que é isso, Zé Nêumanne? O presidente vai ser o Andreazza. Figueiredo não vai permitir que Maluf sequer se candidate.

Maluf se candidatou, Tancredo o venceu, mas não tomou posse.

Recife, Palácio do Campo das Princesas. Foto Divulgação

Recife, Palácio do Campo das Princesas. Foto Divulgação

A política seria o motivo de minhas visitas seguintes a Recife. Fui comensal dos banquetes magníficos que Gustavo Krause dava no palácio. Com meu primo Sávio Vieira (também uiraunense), passei a acompanhar em outras refeições, às vezes em suas casas, às vezes em restaurantes, Roberto Magalhães, Joaquim Francisco, José Múcio Monteiro, Marco Antônio Maciel e, naturalmente, Miguel Arraes.

Certa vez, eleito governador após o interregno do exílio durante a ditadura militar, dr. Miguel me recebeu numa casa majestosa no bairro dos Aflitos, na qual tinha funcionado o QG de sua campanha vitoriosa. Ali me deu uma entrevista para o Estadão, do qual eu era editor de Política. Fazia muito calor, o ar condicionado era muito barulhento e o assessor de Arraes, Ricardo Leitão, fazia ouvidos de mercador a meus insistentes apelos para desligá-lo. Carlos Garcia, correspondente do jornal, também não pôde me ajudar, pois nada havia entendido do que Arraes tinha dito. A única frase que consegui captar foi quando este me anunciou:

– Você não acha que já dei tempo demais para um adversário político?

– Mas, Dr. Arraes, quem sou eu para ser seu adversário político?

– Você pode não ser. Mas seu jornal é.

No arquivo do Estadão encontrei frases do governador eleito para escrever uma página de perguntas e respostas. Foi publicada domingo. Na segunda, ele me telefonou, feliz e solícito:

– Jornalista, cumprimento-o pela extrema fidelidade do que o sr. publicou em seu jornal. Não me lembro se falei aquilo. Mas pensei…

Foi Arraes quem me apresentou seu neto Eduardo Campos, primo de Malu, mulher de Bob Viana, cuja casa, herdada de Pompeia, mãe dela, na Rua das Pernambucanas, era um museu com quadros de Brennand, Cícero Dias, Vicente do Rego Monteiro e de seu chefe, meu conterrâneo e amigo João Câmara, que fez da mansão a sede da fundação que leva seu nome. Meu logradouro favorito no mundo todo é o Largo de Apipucos, onde já morava Letícia, filha de Osman Lins (autor de Avalovara e que conheci em São Paulo) e à época minha colega no Jornal do Brasil. No bairro, notório refúgio de Gilberto Freyre, também morava Thales Ramalho para cuja casa avarandada de Brasília o Recife se mudava sempre que Sávio Vieira, Helena, ele e eu nos reuníamos por lá.

Cidade do Recife vista do Alto da Sé, em Olinda. Foto Divulgação

Cidade do Recife vista do Alto da Sé, em Olinda. Foto Divulgação

Agora que Alberto da Cunha Melo, Toinho Alves, Lula Cortes, Carlos Fernando e Zé Fernandes morreram, resta-me voltar à Livraria do Paço da Alfândega, uma das mais lindas do mundo, de preferência para mais um lançamento de Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque, cuja obra-prima, Luz do abismo, foi editada no Sudeste pela Girafa, da qual eu era sócio. Ou vadear pelas ruas de Olinda com Yanê e Alceu Valença, Amelinha e Raul Córdula, Chico Pereira e Cláudia Cordeiro. Sem me esquecer de comer uma cartola supimpa no Leite, o melhor restaurante do planeta, com Lectícia e Zé Paulinho Cavalcanti, ao som do pianista Edson, de cujos dedos mágicos brota a mais pura vertente da obra do maestro brasileiro Tom Jobim.

É lá que o mar entra Pernambuco adentro até se resumir ao Riacho da Brígida, de volta às brenhas de meu sertão de origem.

Jornalista, poeta e escritor.

(Publicado na revista Uiraúna, 12a. edição, dezembro de 2014, Págs. 54 e 55)

Suingue, forró e chamego

Suingue, forró e chamego

José Nêumanne

Chico Salles é um cabra atrevido do Chabocão, no sertão do Rio do Peixe, lá de onde fui vindo. Um dos ídolos dele, como meu, como de qualquer nordestino, ou melhor, brasileiro que aprecie suingue, forró e chamego é Jackson do Pandeiro. Pois então! Ele sabe que, embora seja um dos pilares da chamada Música Popular Brasileira, seu Zé Gomes não compôs lá muita coisa e gravava o que compunha uma reca de gênios, da qual fazia parte Rosil Cavalcanti, que era pernambucano de origem, mas viveu, trabalhou e ficou famoso, com nariz de palhaço e a alcunha de Zé Lagoa, o campeão de audiência em rádio, na Campina Grande de minha adolescência. Nunca ninguém conseguiu emular Zé Jack no ritmo e na divisão. Mas Chico ousou mostrar que por trás dele havia o Rosil do Brasil. E não é que o danado se saiu bem demais na missão?! Este CD é a melhor prova de que é possível resgatar a genialidade por trás de Jackson exibindo autores do naipe de Rosil. O melhor da verve do autor na interpretação do rei do coco de umbigada foi resgatado numa coletânea primorosamente arranjada e cantada. O sousense da peste tratou o ex-entregador de pão da Panificadora das Neves em Campina Grande como ele merece: com veneração, mas sem endeusá-lo. Com isso, saem ganhando todos: a memória de Jackson, a obra de Rosil, a carreira de Chico Salles. Mas, sobretudo, acima de tudo, o prazer de ouvi-lo, de remexer com ele, ao som do xote Sebastiana, de rolar de rir com A lei da compensação, de tomar conhecimento do melhor do cerne da cultura regional em Cabo Tenório e de chorar de emoção e saudade ouvindo Tropeiros da Borborema, que foi gravada por Luiz Gonzaga, o rei do baião. Pois saiba que a versão de seu Salles não fica devendo nada ao original. Ouça e confira.

José Nêumanne é jornalista, poeta e escritor.

Suingue, forró e chamego

Suingue, forró e chamego

José Nêumanne

Chico Salles é um cabra atrevido do Chabocão, no sertão do Rio do Peixe, lá de onde fui vindo. Um dos ídolos dele, como meu, como de qualquer nordestino, ou melhor, brasileiro que aprecie suingue, forró e chamego é Jackson do Pandeiro. Pois então! Ele sabe que, embora seja um dos pilares da chamada Música Popular Brasileira, seu Zé Gomes não compôs lá muita coisa e gravava o que compunha uma reca de gênios, da qual fazia parte Rosil Cavalcanti, que era pernambucano de origem, mas viveu, trabalhou e ficou famoso, com nariz de palhaço e a alcunha de Zé Lagoa, o campeão de audiência em rádio, na Campina Grande de minha adolescência. Nunca ninguém conseguiu emular Zé Jack no ritmo e na divisão. Mas Chico ousou mostrar que por trás dele havia o Rosil do Brasil. E não é que o danado se saiu bem demais na missão?! Este CD é a melhor prova de que é possível resgatar a genialidade por trás de Jackson exibindo autores do naipe de Rosil. O melhor da verve do autor na interpretação do rei do coco de umbigada foi resgatado numa coletânea primorosamente arranjada e cantada. O sousense da peste tratou o ex-entregador de pão da Panificadora das Neves em Campina Grande como ele merece: com veneração, mas sem endeusá-lo. Com isso, saem ganhando todos: a memória de Jackson, a obra de Rosil, a carreira de Chico Salles. Mas, sobretudo, acima de tudo, o prazer de ouvi-lo, de remexer com ele, ao som do xote Sebastiana, de rolar de rir com A lei da compensação, de tomar conhecimento do melhor do cerne da cultura regional em Cabo Tenório e de chorar de emoção e saudade ouvindo Tropeiros da Borborema, que foi gravada por Luiz Gonzaga, o rei do baião. Pois saiba que a versão de seu Salles não fica devendo nada ao original. Ouça e confira.

José Nêumanne é jornalista, poeta e escritor.

(Este texto, que está na contracapa do novo CD de Chico Salles, Rosil do Brasil)

Chico Salles

Chico Salles

“Duas ou três coisas que sei de monsieur Morin”, por José Nêumanne Pinto

“Duas ou três coisas que sei de monsieur Morin”, por José Nêumanne Pinto

Na segunda-feira 23 de fevereiro de dois mil e cinzas, estava eu posto em sossego no sofá da sala mexendo no Twitter nos intervalos comerciais das peripécias de José Alfredo de Medeiros, tentando aprender como se narra com Aguinaldo Silva, colega de escola de Fernando Portela em Pernambuco, quando me deparei com a notícia de que, às 23h30m, a GloboNews levaria ao ar entrevista de Edgar Morin. Retuitei a boa notícia imediatamente, acrescentando a citação: “Gênio contemporâneo!”

Quem me apresentou a Morin foi o cinema. Presidente do Cineclube Glauber Rocha na minha adolescência em Campina Grande, lia tudo o que encontrasse na Livraria Pedrosa sobre a sétima arte. Um dia me deparei com um livro dele editado pela José Olympio: As estrelas: mito e sedução no cinema. Apaixonei-me, é claro, por seu estilo, ao mesmo tempo, simples e instigante. Iniciado na semiologia e na teoria da comunicação por Semiótica & literatura, do poeta concreto paulista Décio Pignatari, devorei avidamente tudo o que Umberto Eco, Roland Barthes, Marshall Mc Luhan, Abraham Moles, Max Bense e Edgar Morin publicaram nos anos 60.  Encantei-me, desde sempre, com a simplicidade do estilo deste último ao falar da complexidade, sua ideia capital, que resume sua crítica demolidora à especialização e à compartimentação do conhecimento.

Edgar Morin

Edgar Morin

Parênteses: Isabel me perguntou como foi possível conhecer tanta gente sem sair de Campina Grande àquela época. O milagre da importação do conhecimento se deveu a Zé Pedrosa, dono de uma livraria que não existe mais e uma espécie de José Olympio da Borborema. E também a uma geração de gente irrequieta que queria conhecer para debater e debater para conhecer. Bráulio Tavares, Marcus Vinicius de Andrade, José Umbelino Brasil, Zé Romão, Ronaldo Pintado, Iremar Maciel de Brito, Agnaldo Almeida, Regina Coeli do Nascimento, Carlos Aranha, Manfredo Caldas, Aderaldo Tavares, Arnaldo França Xavier, Martinho Moreira Franco, Luiz Augusto Crispim, José Adalberto Ribeiro os galegos de Dona Wanda, Ariosvaldo Guimarães, Rômulo de Araújo Lima, Flamarion Tavares Leite…

Em minha curta aventura como editor, na Girafa, publiquei, com Pedro Paulo de Sena Madureira, o belíssimo texto sobre seu pai, Vidal e os seus. E desde então o tenho acompanhado, desde uma visita remota ao Rio de Janeiro, quando revelou: “Chacrinha é um gênio da comunicação de massas”. Até as palestras recentes que andou fazendo na mesma cidade, sob o patrocínio do jornal O Globo.

A entrevista foi luminosa, incandescente, embora em alguns momentos, do alto de sua idade provecta, ele tenha incorrido numa imagem ingênua e colorida do Brasil, metamorfoseando impressões de turista com observações de filósofo.

Corri para o Twitter e registrei alguns momentos que considerei antológicos:

“Só se pode encarar a angústia da incerteza do futuro com o amor e a vida em comum”. A anotação tem que ver com a quadra atual de minha existência, em plena vivência de um casamento feliz com Isabel.

“Há duas formas de barbárie: a da crueldade e da tortura, e a gélida do poder do dinheiro e da burocracia”. Considero esta uma visão precisa, exata e profunda da realidade global. E brasileira: ele poderia estar comentando, por exemplo, a reunião da direita avara, na pessoa do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, com o centro fisiológico, representado pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, do PMDB, e a esquerda, afundada em corrupção até o pescoço, encarnada por Aloizio Mercadante, conspirando contra o trabalhador e o cidadão, negociando as medidas com que Dilma cuspiu nas conquistas dos trabalhadores e adiando a votação do veto dela à devolução do dinheiro tungado do contribuinte no Imposto de Renda.

Edigar Morin

Edigar Morin

“Informação não é conhecimento. Conhecimento é a organização das informações”. Um breve contra a arrogância dos comunicadores, entre os quais me incluo, e também uma visão filosófica sobre nossa atividade profissional cotidiana.

“Nada é para sempre. Tudo se regenera ou degenera”. Ou, como diria Lourenço Dantas, meu colega de trabalho, aqui ao lado, e que foi seu aluno na École Pratique des Hautes Études, em Paris, em 1971: “tudo o que não se regenera fatalmente degenera”. Isso me lembra a frase famosa de Claude Levi Straus sobre as cidades do Novo Mundo: “Vão direto da barbárie à decadência sem passar pelo apogeu”. Pois é. Sabe aquela lei de Lavoisier – “na natureza nada se perde, tudo se transforma”? O Velho Guerreiro se inspirou nela e em Morin para criar o “nada se cria, tudo se copia”.

Minha última mensagem no Twitter não registrou uma frase dele, mas uma constatação minha: “Quando todos só viam o popularesco em Chacrinha, Boni, Edgar Morin e Muniz Sodré perceberam o fenômeno cultural nele”. Um tributo meu ao legado desta grei que me abriu os olhos em plenos anos rebeldes.

Ou seja: “Abelardo Barbosa tá com tudo e não tá prosa”.

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