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O jagunço e o bacharel

O jagunço e o bacharel

Machado de Assis e Guimarães Rosa: ligações singulares

 Academia Brasileira de Letras – 6 de março de 2018

Ciclo de Conferências “Guimarães Rosa, escritor e diplomata”
Conferência: “Machado de Assis e Guimarães Rosa. Ligações singulares”
Coordenação: Carlos Nejar
Palestrante: José Nêumanne Pinto

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Quando Deonísio da Silva, espécie de Indiana Jones na caça à origem das palavras, me avisou que o poeta Carlos Nejar queria  me incluir na programação de seminário sobre Guimarães Rosa, tremi nas bases. E mais ainda: abrindo o ano desta Casa de Machado de Assis. Que desafio para esse cangaceiro das palavras, sem formação acadêmica para me escudar nem leitura recente em que me apoiar, ao discorrer sobre o percurso daquele jagunço das letras!  Contudo, não sou de fugir de desafios, e não me abalei com a segunda parte da proposta: teria de fazer uma conexão – provável, porém pouco estudada – entre o gênio de Cordisburgo e o bruxo do Cosme Velho. Aí, danou-se! Mas me dispus a navegar nas carrancas do Velho Chico e a viajar de carruagem nas priscas eras da República entre a rua Matacavalos e a praia do Flamengo.

José Nêumanne, Marco Lucchesi, Carlos Nejar

José Nêumanne, Marco Lucchesi, Carlos Nejar

Como diria meu avô Chico Ferreira, que diacho podia haver que identificasse o amanuense que fundou a Academia Brasileira de Letras com o diplomata e ex-médico fulminado por um infarto horas após tomar posse nesta venerável instituição cultural que reúne intelectuais e notáveis? Muito amiga de minha mulher, Isabel, aqui presente, e minha, a professora Márcia Lígia Guidin, cuja tese de doutorado na USP versa  sobre Machado, sugeriu-me que abordasse dois dos principais relatos dos gênios da literatura pelo que têm em comum. Duas de suas obras-primas, Dom Casmurro e Grande Sertão:Veredas, são relatos de velhos saudosos de episódios do passado, protagonizados pelas duas mais sedutoras mulheres da literatura nacional em todos os tempos: Capitolina,  no formoso e frenético burgo de São Sebastião do Rio de Janeiro, ex-Corte do Império e capital da República Velha, e Deodorina, nos ermos e ignotos sertões ditos dos Gerais às margens do Velho Chico e seus afluentes. Os episódios, ocorridos no século 19, presumivelmente ainda no Segundo Império, são narrados por velhos que viveram amores mal resolvidos com as damas citadas, que se tornaram as verdadeiras protagonistas, conhecidas tempos afora pelos apelidos familiares:  Capitu e Diadorim.

José Nêumanne

José Nêumanne

Aprendi desde cedo que quem tem amigo não morre pagão. Recorri à cultura inesgotável dos leitores obsessivos José Mario Pereira e Christine Ajuz e eles prontamente me socorreram. Outro leal amigo, Maurício Melo Júnior, que acaba de lançar um romance e tem obra biográfica de destaque no campo do documentário sobre grandes escritores no canal de TV do Senado Federal, citou-me a coincidência notória de que o bruxo do Cosme Velho e o filho de Cordisburgo (a cidade do coração) publicaram contos com o mesmo e significativo título – O Espelho –, o primeiro em Papéis Avulsos, o segundo em Primeiras Estórias. Em comum entre os dois, porém, apenas o tema e o título. Machado escreveu uma novela de realismo mágico avant-la-lettre. E Rosa aventurou-se por digressões psicanalíticas, como se abordasse um assunto mais científico do que ficcional.

Disposto a evitar o naufrágio de minha alocução e o tédio de meu público, eu não poderia apelar para a memória, cada vez mais escassa nesta idade em que tenho, se não alcançado, pelo menos me aproximado da dos narradores paralelos no momento em que resolveram dividir suas experiências e aventuras, no caso de Machado, com o distinto público leitor urbano da Corte e, no de Rosa, com o anônimo e silente ouvinte que passou três noites do sertão escutando, certamente com encantamento, embora não registrado nem relatado.

Prestes a completar 67 anos – se Deus, Nosso Senhor, me permitir comemorar o próximo aniversário, em maio – não podia contar com o socorro da memória de minhas leituras juvenis dos dois clássicos. Lembro-me que os li aos 14 anos, portanto há 52 distantíssimos carnavais, num quarto no quintal da casa de meus pais, no centro de Campina Grande, Paraíba, onde cursava o científico no Colégio Estadual da Prata. Adquiri-os, ambos, na Livraria Pedrosa, cujo dono, José Pedrosa, se dava ao luxo de importar da Alemanha livros para um freguês de escol, o saudoso acadêmico Ariano Suassuna. Primeiramente, devo ter lido a saga de Bento, o bacharel, que chegou à senectude, anunciada ao leitor incauto, carregando o significativo apelido infantil de Bentinho, o que não deixa de sugerir que jamais atingiria o que chamamos de maturidade. Somente depois de algum tempo, não muito longo, me deixei levar pela viagem, ou melhor, pela travessia de Riobaldo por veredas, rios e vilarejos do interior mais ermo, entre o sul da Bahia e sua cidade natal.

É claro que me apaixonei perdidamente por Capitu, mas isso não foi algo que pudesse considerar de muita relevância na minha pré-adolescência de leitor ativo, atento e deslumbrado. Afinal, o caso de identificação mais apaixonante que vivi nos meus 14 anos não foi com nenhum personagem feminino, mas com um jovem de minha mesma faixa etária à época: Werther, de Goethe. Foi tão fulminante que cheguei a considerar a hipótese de cometer suicídio, o que, como se sabe, acometeu muitos meninos de minha idade, em “Oropa, França e Bahia”. Mas isso não interessa agora. O que importa é que me deixei levar pelos devaneios, primeiro com Capitu e depois com Diadorim, apesar dos relatos abertamente opostos a respeito das duas: a adoração que virou desprezo do bacharel Bento Bentinho e a veneração ampliada com o distanciamento dos fatos narrados pelo jagunço RiobaldoTatarana Urutu-Branco sobre o mais que amigo que conheceu na infância como Reinaldo, depois transformado no companheiro Diadorim em vários bandos de jagunços aos quais a dupla pertenceu.

Desde que li Dom Casmurro, há 52 anos, não me lembro de haver voltado ao clássico de Joaquim Maria, muito embora tenha guardado todos os momentos de genialidade que o autor carioca produziu, como a progressiva descrição dos olhos de ressaca até a veneração pela forma de seus braços desnudos nos bailes que frequentava. Durante todo o enlevo do narrador pela protagonista, que ocupa pelo menos dois terços do livro, apesar de não ter em nenhum momento se referido a uma formosura que a tornasse uma Tônia Carrero do século 19, são feitas várias referências aos olhos de Capitu, tema que virou uma espécie de coqueluche para os leitores. É o caso do capítulo 32, Olhos de ressaca, no qual Bento Bentinho descreve os olhos de Capitu da seguinte maneira:

“Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que…

Carlos Nejar

Carlos Nejar

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca”.

É impossível ler essa descrição sem ser assaltado pelo êxtase causado pela emoção provocada pela beleza da narrativa, pela elegância do estilo e pela veneração do autor por nossa língua portuguesa. Do capítulo específico sobre os braços, extraí alguns parágrafos que lerei para nosso deleite:

“De dançar gostava, e enfeitava-se com amor quando ia a um baile; os braços é que… Os braços merecem um período.

Eram belos, e na primeira noite que os levou nus a um baile, não creio que houvesse iguais na cidade, nem os seus, leitora, que eram então de menina, se eram nascidos, mas provavelmente estariam ainda no mármore, donde vieram, ou nas mãos do divino escultor. Eram os mais belos da noite, a ponto que me encheram de desvanecimento. Conversava mal com as outras pessoas, só para vê-los, por mais que eles se entrelaçassem aos das casacas alheias. Já não foi assim no segundo baile; nesse, quando vi que os homens não se fartavam de olhar para eles, de os buscar, quase de os pedir, e que roçavam por eles as mangas pretas, fiquei vexado e aborrecido. Ao terceiro não fui, e aqui tive o apoio de Escobar, a quem confiei candidamente os meus tédios, concordou logo comigo.

— Sanchinha também não vai, ou irá de mangas compridas; o contrário parece-me indecente.

— Não é? Mas não diga o motivo; hão de chamar-nos seminaristas. Capitu já me chamou assim.

Nem por isso deixei de contar a Capitu a aprovação de Escobar. Ela sorriu e respondeu que os braços de Sanchinha eram mal feitos, mas cedeu depressa, e não foi ao baile; a outros foi, mas levou-os meio vestidos de escomilha ou não sei quê, que nem cobria nem descobria inteiramente, como o cendal de Camões”.

A citação deste trecho permite-me chamar-lhes a atenção para o ciúme doentio que foi tomando conta da narração, de forma sibilina e também exaltada, injetado pelo autor no pleno domínio de seu ofício.

Li, é claro, todo o Machado, e nada dos seus escritos românticos de juventude me marcou muito. Para cúmulo do que podem considerar absolutamente fora de esquadro, também guardo lembrança viva da leitura fascinada das obras da maturidade, particularmente Memorial de Aires, que ficou registrado em minha memória abalada pela vechiaia como o livro que eu gostaria de ter escrito, embora muitos críticos percebam em seu texto certo desleixo de velho distraído. No entanto, não foi este, nem Dom Casmurro, diga-se de passagem, que entrou na minha escassa obra de ficcionista, e sim Memória Póstumas de Brás Cubas. O antigo respeito que tinha pelo velho Aires terminou se transferindo para o memorialista post-mortem que inspirou meu romance O silêncio do delator, que em 2005 mereceu desta casa o prêmio Senador José Ermírio de Moraes como melhor livro de 2004, o primeiro romance a receber este prêmio, do qual muito me orgulho. À presença de Machado foi acrescentada a influência de Fazes-me Falta, da portuguesa Inês Pedrosa, narrativa em que a primeira pessoa estava sendo velada, e não já sepultada, como no caso de Brás Cubas.

Não me arriscaria a tanto, mas talvez Dom Casmurro, como, de resto, a obra inteira de Machado, possa ter em comum com a de Rosa certa referência aos deslocamentos, no caos urbano, de seus personagens. Se Xavier de Maistre intitulou sua obra Viagem em redor de meu quarto, por que não poderíamos designar a obra maior de Machado como pequenas viagens em torno de sua cidade natal? Tomo a liberdade de recorrer a esse expediente após fazer uma observação sobre algo notável do livro. Machado, como o alemão Karl May – autor de minha predileção durante minha pré-adolescência no Instituto Redentorista Santos Anjos, um seminário em Bodocongó, bairro de Campina Grande – nunca precisou sair da cidade onde nasceu para criar sua fabulação fantasiosa. May, de cujas obras compartilho similar à de nossa querida Nelida Piñon, conforme ela mesma relatou recentemente, descreveu aventuras fabulosas em selvas norte-americanas e paragens desérticas da Arábia. Machado era tão fiel ao Rio de Janeiro que desprezou os anos passados por seu narrador bacharel nas arcadas do convento de São Francisco, em São Paulo, limitando a descrição mais detalhada de sua formação escolar aos anos de seminário, e só voltando à narrativa já com diploma de Direito em punho no Rio. Ao acompanhar neste fim de semana o sucesso da branquela paulistana Rita Lee Jones ao cantar Valsa de uma Cidade, composta em homenagem ao Rio pelo paraense Ismael Netto, fundador do grupo vocal Os Cariocas, e o pernambucano Antônio Maria, tive ímpetos de falar desse amor que todos nós, forasteiros, sentimos, como ela o fez entoando “gosto de quem gosta deste mar, deste céu, desta gente feliz”. Machado é um dos mais razoáveis motivos para se amar a cidade em que ele nasceu e sobre a qual apoiou sua obra inteira. Aprendi a amar o Rio lendo Machado.

Peço licença a este paciente público para chamar atenção para mais essa similitude entre a cena urbana da Corte que virou capital da República no século 19 e o sertão de então e de hoje. O menino Bentinho, como sabemos, passou a infância atormentado por seu destino traçado pela promessa da mãe de fazê-lo padre. Nos primeiros anos de minha vida, conheci muitos meninos que cumpriram esse desatino de promessas paternas, sobretudo maternas, ou pela necessidade que as famílias de posse sentiam-se obrigadas a ter um prelado na intimidade doméstica. Dizia-se que qualquer lar de respeito deveria abrigar, pelo menos, um padre, um bacharel e, no caso de meu sertão natal, um funcionário do Banco do Brasil. Não foi o meu caso. Como Bentinho, fui seminarista, mas por outros motivos, que peço vênia para descrever. Nasci na casa de meu avô, no alto sertão, e cursei o primário no Grupo Escolar Professora Jovelina Gomes, num vilarejo que virou cidade e se chamava Belém do Arrojado, antes de, por decisão ditatorial do Estado Novo, ter adotado a denominação indígena de Uiraúna, pássaro preto em tupi. A única biblioteca existente era zelosamente guardada pelo vigário local, Cônego Antônio Anacleto, numa estante com portas de vidro, cujas chaves ficavam guardadas no bolso de sua batina. Minha mãe frequentava aquelas obras, em sua quase totalidade hagiográficas, e lá encontrou o nome com que me batizaria. Pediu que meu pai me registrasse como José Newman, em homenagem ao cardeal britânico John Henry Newman, convertido do anglicanismo para o catolicismo já em idade provecta, admiradíssimo por Gilberto Freyre, e recentemente canonizado por João Paulo II, talvez considerando o fato de ter sido um dos maiores oradores sacros em língua inglesa na passagem do século 19 para o 20. Minha mãe ficou de resguardo em casa, e meu pai, José de Anchieta Pinto, foi ao cartório providenciar o registro civil. Como resultado do desconhecimento dele e da tabeliã, Chiquinha Figueiredo, do idioma inglês, tenho, desde então, a obrigação de soletrar meu nome quase alemão aonde quer que vá.

Ao contrário de Bentinho, não fui seminarista por imposição ou promessa familiar, mas por vontade própria. E abandonei a carreira eclesiástica sem sequer ter ingressado no seminário maior. De qualquer maneira, posso testemunhar que no sertão de Riobaldo, assim como no burgo de Bentinho, o ensino religioso era, à época das narrativas comparadas, a saída encontrada por muitos jovens para suprir as carências educacionais de seus lugares de origem. Em relação a Dom Casmurro, chamo atenção para o fato de o narrador ter sido forçado a deixar a Corte para cursar leis em São Paulo de Piratininga, mas nem por isso Machado encontrou nesse périplo qualquer coisa de relevante para relatar.

Deixei a casa paterna no sertão aos 10 anos de idade e só tenho ido lá esporadicamente. Mas sou capaz de apostar que até hoje, no Semiárido nordestino como nos Gerais, deve haver jovens que migram para instituições de ensino religiosas para alcançar graus mais elevados de instrução. Isso, para conforto de vocês, nos leva de volta à saga de Riobaldo e Diadorim.

Minha relação com a obra magistral de Rosa foi mais permanente do que a que mantive com a de Machado, mas também mais casual. O exemplar de Grande Sertão: Veredas esteve sempre à mão, pois costumava lê-lo como o faço com poesia e com a Bíblia. Nunca li uma obra poética do começo ao fim, mas escolhendo aleatoriamente os poemas a serem lidos. Da mesma forma, ex-seminarista, li a Bíblia livro a livro, sem ordem predeterminada. Com o clássico de Rosa fiz o mesmo ao longo desse meio século de contato: abria ao acaso uma página e lia o que estava à minha frente. Lembro-me de ter tido acesso a magníficas obras de arte que têm como origem o escritor que desde então passei a chamar de Joca de Cordisburgo, tão íntimo me sentia da obra dele. Assim foi com a minissérie da Globo com Bruna Lombardi e Tony Ramos; algumas gravações do Fantástico com Lima Duarte; o clássico de Roberto Santos, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, o filme Noites do Sertão, de Carlos Alberto Prates Corrêa, a pretensiosa e decepcioinante e fraquinha adaptação cineatográfica de Grande Sertão: Veredas por Geraldo Santos Pereira, e, sobretudo, dois momentos capitais do teatro brasileiro e mundial: Meu Tio o Iaueretê e, acima de todos, Vau da Sarapalha, dirigido por Luis Carlos Vasconcelos, da Escola de Teatro Piolim, de João Pessoa, certamente um dos mais altos momentos de encenação teatral que pude testemunhar em minha vida.

José Nêumanne

José Nêumanne

Mas é claro que todo esse trajeto não bastava para me levar a algumas conclusões que lhes trago agora. Tinha de reler os dois clássicos para enfrentar esta plateia. A respeito desta decisão, gostaria de lhes contar uma anedota interessante. Eu trabalhava no Jornal do Brasil e fui a Buenos Aires cobrir o julgamento dos militares. Na ocasião, fui recebido pelo genial poeta e prosador argentino Jorge Luis Borges, que me disse, e eu publiquei em reportagem de capa do Caderno B: “Ler é uma atividade muito pouco inteligente, pois a imprensa é uma das mais malignas invenções da humanidade. Imprime-se muita porcaria em papel. Hoje não existe mais a seletividade de antigamente com os copistas que cuidavam dos textos em papiros, manuscritos e palimpsestos. O prelo é uma praga. O mais inteligente é reler, porque só relemos aquilo de que gostamos”.

Nessa tarefa de releitura, comprei uma edição recente e muito boa de Dom Casmurro, lançada pela Penguin/Conpanhia das Letras, dirigida pelo colega Matinas Suzuki. A introdução do professor Luís Augusto Fischer é um verdadeiro vade-mecum da fortuna crítica do romance mais comentado e criticado da literatura brasileira. Ao deparar com os nomes citados por ele, percebi que a aventura de abarcar essa fortuna crítica seria mais penosa do que o destino de Capitu depois da conclusão a que chegou Bentinho de que ela o traíra com Escobar, resultando no “fruto podre” que o levou a proferir uma das piores imprecações do histórico da relação entre pai e filho: a de que não lamentava os gastos com seu enterro, por compará-los com o alívio representado pela ausência de um bastardo, já que este só reproduzia sua vergonha de marido traído pela amada de infância com o amigo que mais respeitava, e pelo qual tinha um afeto incomum. Essa aventura seria tanto mais dificultosa pela evidência de que grandes exegetas de Machado, como não poderia deixar de ser, ocuparam ou ocupam cadeiras neste plenário, ou pertencem ao panteão da crítica literária nacional: Sílvio Romero (que foi contra), Antonio Cândido, Lúcia Miguel Pereira, Alfredo Bosi, Raimundo Magalhães Júnior, que dá nome a este auditório, Elen Caldwell, Roberto Schwarz, John Gledson, Silviano Santiago, Hélio de Seixas Guimarães, Raymundo Faoro, Otto Lara Resende, Richard Miscolci e tantos outros. Ana Maria Machado chegou a escrever uma versão do entrecho à luz de Capitu. E Antônio Carlos Secchin, num conto curto, propôs uma terceira hipótese.

A questão do adultério de Capitu preencheu páginas e páginas desde 1899, e, embora o crítico José Veríssimo a tenha negado peremptoriamente já em 1900, continua em debate fragoroso; o último petardo crítico foi disparado por Dalton Trevisan, convicto de que ela traíra, sim, e não se fala mais nisso. Não vou querer eu agora tentar decepá-la com um golpe como Alexandre o Grande fez com o nó górdio. Não vim aqui para entrar na liça, mas para sugerir, parodiando a frase de Abelardo Barbosa, Chacrinha, o Velho Guerreiro. De qualquer maneira, não posso deixar de acrescentar uma colher de puro fel de meu amigo Jacob Pinheiro Goldberg, advogado e psicólogo, que exaltou a genialidade de Machado ao incutir no narrador indignado uma desconfiança que povoa o imaginário masculino brasileiro: todo homem acha que foi, é ou virá a ser traído. Acrescento ao maldoso diagnóstico de Jacob uma observação extraída da leitura mais recente do livro máximo de Machado: o autor salpicou toda a estória do narrador (e faço questão de reforçar o e no lugar do hi no início da palavra) com um dos vários episódios de sua imaginação farta e falsa.

No capítulo 29, O Imperador, ele descreve:

“Em caminho, encontramos o Imperador, que vinha da Escola de Medicina. O ônibus em que íamos parou, como todos os veículos; os passageiros desceram à rua e tiraram o chapéu, até que o coche imperial passasse. Quando tornei ao meu lugar, trazia uma ideia fantástica, a ideia de ir ter com o Imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não confiaria esta ideia a Capitu. Sua Majestade pedindo, mamãe cede, pensei comigo.

Vi então o Imperador escutando-me, refletindo e acabando por dizer que sim, que iria falar a minha mãe; eu beijava-lhe a mão, com lágrimas. E logo me achei em casa, a esperar, até que ouvi os batedores e o piquete de cavalaria; é o Imperador! é o Imperador! Toda a gente chegava às janelas para vê-lo passar, mas não passava, o coche parava à nossa porta, o Imperador apeava-se e entrava. Grande alvoroço na vizinhança: O Imperador entrou em casa de D. Glória! Que será? Que não será? A nossa família saía a recebê-lo; minha mãe era a primeira que lhe beijava a mão. Então o Imperador, todo risonho, sem entrar na sala ou entrando, — não me lembra bem, os sonhos são muita vez confusos, — pedia a minha mãe que me não fizesse padre, — e ela, lisonjeada e obediente, prometia que não.”

— A Medicina, — por que lhe não manda ensinar Medicina?

— Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade…

— Mande ensinar-lhe Medicina; é uma bonita carreira, e nós temos aqui bons professores. Nunca foi à nossa Escola? É uma bela Escola. Já temos médicos de primeira ordem, que podem ombrear com os melhores de outras terras. A Medicina é uma grande ciência; basta só isto de dar a saúde aos outros, conhecer as moléstias, combatê-las, vencê-1as… A senhora mesma há de ter visto milagres. Seu marido morreu, mas a doença era fatal, e ele não tinha cuidado em si… É uma bonita carreira; mande-o para a nossa Escola. Faça isso por mim, sim? Você quer, Bentinho?

— Mamãe querendo…

— Quero, meu filho. Sua Majestade manda.

Então o Imperador dava outra vez a mão a beijar, e saía, acompanhado de todos nós, a rua cheia de gente, as janelas atopetadas, um silêncio de assombro; o Imperador entrava no coche, inclinava-se e fazia um gesto de adeus, dizendo ainda: A Medicina, a nossa Escola. E o coche partia entre invejas e agradecimentos.

Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de Ariosto não é mais fértil que a das crianças e dos namorados, nem a visão do impossível precisa mais que de um recanto de ônibus. Consolei-me por instantes, digamos minutos, até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus companheiros.

O gênio de Machado também incluiu na história um personagem de alta relevância, o agregado José Dias – que podia ser intrigante ou bajulador, dependendo da circunstância – e este cultivava o vício de reforçar seus argumentos com o uso exagerado dos aumentativos. Não é de estranhar que, convivendo com essa figura, Bentinho se tornasse, ele mesmo, um narrador exagerado, e assim não seria gratuito incluir a questão do adultério da mulher nesse vício retórico aumentativo.

Uma aventura pelo território da crítica publicada ou falada também poderia ser mais fatal do que os tiroteios em que Riobaldo e Diadorim se envolviam contra e a favor de Zé Bebelo, principalmente os que empreenderam perseguindo Hermógenes, o assassino de Joca Ramiro, espécie de heterônimo de Joca de Cordisburgo e pai de Diadorim. Por isso, reli Grande Sertão: Veredas em voz alta para Isabel, jeito diferente do silêncio com que o li pela primeira vez, como agora o fiz no caso da releitura de Dom Casmurro. A leitura falada me propiciou uma abordagem nova da linguagem de Rosa, que eu tentarei resumir, não tanto para surpreendê-los, encantá-los ou informá-los, e sim, muito mais, para lançar algumas inquietações de leitor sobre a possibilidade de preservar o legado canônico da língua de Camões e Eça em terras de Machado e Rosa, cujas obras-primas, como definiu um colega de ofício que também pertenceu a essa Academia, Antônio Callado, compõem em paralelo o díptico que mostra, de um lado o Brasil  profundo do sertão e, do outro, o país urbano, paradoxo quem desde então, está sempre a nos desafiar.

José Nêumanne e Marco Lucchesi

José Nêumanne e Marco Lucchesi

Vim morar no Rio em 1969 e meu primeiro emprego aqui foi na Editorial Bruguera, na Rua Filomena Nunes, em Olaria. Chefiei no escritório o departamento de reembolso postal, responsável por parte considerável das vendas da editora espanhola, cujas publicações populares em paperback, das quais até os autores eram inventados, caso de Corín Tellado, e histórias em quadrinhos com os heróis gauleses Asterix e Obelix, o detetive francês Tintin e o cowboy americano Lucky Luke eram verdadeiros arrasa-quarteirões. O chefe da redação, o poeta, escritor e tradutor Leonardo Fróes, chegava de uma viagem aos Estados Unidos, onde peregrinara pelo roteiro empreendido por Holden Caulfield, o herói de O Apanhador no Campo de Centeio, para mim um dos livros capitais da ficção no século 20. Leonardo era um grande fã do inglês Lawrence Sterne e incutiu em mim a missão de ler sua obra-prima The Life and Opinions of Tristram Shandy, segundo ele grande fonte de inspiração do estilo machadiano, Meu inglês insuficiente para a árdua tarefa forçou-me a esperar até que o poeta José Paulo Paes, autor do prefácio de meu primeiro livro de poesia, As Tábuas do Sol, fizesse a tradução para português. Sei que, apesar desse contato com um escritor de língua inglesa, nosso maior gênio literário se destacou sempre pelo uso elegante daquela que Olavo Bilac chamou de “última flor do Lácio, inculta e bela”. Ler e reler o mestre é ter sempre o conforto de reencontrar a língua em que minha mãe, a professora Mundica Ferreira Pinto, dizia de cor para os filhos, em meio às trevas sem eletricidade no sertão do Rio do Peixe, os versos imortais de Navio Negreiro, de Castro Alves, entre outros. Desde então, dedico-me a ler os melhores textos em português, pois aprendi e pratico duas lições de meu mestre e pai no jornalismo, o capixaba J. B. Lemos, meu primeiro chefe de reportagem na Folha de S.Paulo. Lemos dizia sempre que só escreve bem quem lê muito e seleciona os textos que lê entre os de melhor qualidade. E também que fazer ironia em texto escrito é uma temeridade, porque o único capaz de fazer isso bem era justamente Machado.

Reler Dom Casmurro,  mantendo contatos esporádicos com os textos de Machado, foi a chamada oportunosa ensancha para aprimorar o gosto e, em seguida, o texto, em que pontifica a verve do Bruxo, capaz de produzir no idioma de Camões e Eça o suprassumo da melhor embocadura do sense of  humour da verve na língua de Shakespeare, reconhecida como ponto máximo da fina ironia. E esta oportunidade, que me foi dada pela Academia pela intercessão de Nejar, só será bem aproveitada se eu lhes disser que aqui volto ao tema de uma palestra anterior, feita neste mesmo auditório, em que tive a chance de clamar pela preservação da melhor língua canônica. Especialmente agora, quando ela é insistentemente combatida pelos populistas, que adotam o barbarismo como manifestação democrática e de igualdade social, e as canhestras e aberrantes abreviações dos textos de computador como um meio de simplificar a transmissão de informação e o debate das ideias. Hoje como à época da palestra anterior, continuo  empenhado em manter o inestimável tesouro da literatura portuguesa produzida no Brasil, de Gregório de Matos Guerra a Jorge Amado.

A releitura em voz alta, às vezes interrompida por exclamações de deleite e entusiasmo, tanto de minha parte quando da parte de Isabel, nos fez perceber que a obra-prima de Guimarães Rosa também tem esse condão de preservar o melhor de nosso vernáculo na urdidura de sua escrita, em que a trata de forma erudita e com apoio em seu notório e notável conhecimento de várias línguas estrangeiras, com as quais demonstrava intimidade E o faz de tal forma que consegue reproduzir expressões de um arcaísmo saboroso, que se perderam na algaravia urbana, mas se mantêm intactas tanto no sertão de onde Isabel e eu viemos quanto naquele em que Rosa viveu. E que reproduziu de forma magistral em suas narrativas. Esta observação pode parecer estranha, pois o mineiro é tido e havido como um dos mais habilidosos criadores de neologismos da literatura universal em seu tempo. Na primeira vez em que li Grande Sertão: Veredas, tive evidentemente contato com palavras e expressões criadas e outras que parecem bebidas nos potes de barro de minha infância. Desde então, sempre me senti tentado a incluir o ápice da literatura tida como de vanguarda na estirpe de escritores que, em minha opinião de leitor, bebem da mesma água com que se destila o uísque irlandês. Exatamente na época em que tive o primeiro contato com Dom Casmurro e Grande Sertão: Veredas, até mesmo antes, graças a Sagarana, percebi no autor sua filiação à corrente recriadora da ficção com a metamorfose das palavras a partir de um conhecimento enciclopédico das estruturas das línguas todas da literatura ocidental, cujo ápice está na obra de James Joyce. Não me refiro a Finnengans Wake, mas especificamente à tradução de Ulysses feita pelo grande mestre da filologia nacional, Antonio Houaiss. Peço, porém, vênia para reafirmar que o recurso ao neologismo não contradiz o uso criativo e ao mesmo tempo respeitoso de Rosa da nossa língua materna e de João Cabral, Bandeira e Drummond. Neste esforço para fazer ligações singulares entre nossos dois gênios, encontrei a incomum palavra espórtulo, usada por Machado no conto O Espelho e por Rosa em seu clássico sobre o qual tratamos neste momento.  É apenas uma boutade, pela qual talvez J. B. Lemos me repreendesse, mas não resisti ao registro.

E, por falar em boutade, domingo passado, em visita à impressionante e invejável biblioteca do poeta Antonio Carlos Secchin, este me contou uma que não podia faltar aqui.  Segundo o acadêmico, diz-se que, certo dia, um dos poetas concretistas de São Paulo teria dito a Rosa que identificava sua obra com a de outro grande romancista brasileiro: Oswald de Andrade. O interlocutor logo percebeu um visível desapontamento do interpelado, que confessou que esperava que fosse Machado de Assis. Pois Rosa tinha toda razão: nenhum outro escritor no Brasil poderia ser comparado com o autor de Grande Sertão: Veredas. E esta seria mais uma das chamadas “ligações singulares”, concordam?

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Voltando a meus 14 anos, em Campina Grande, o contato com a obra-prima de Rosa me levou a outras aventuras no universo da leitura. Foi ao encerrá-la que me senti impelido a conhecer melhor o tema que motiva o projeto do romance: o  pacto de Fausto com o Diabo. Não me lembro mais nem tenho a edição lida  àquela época para registrar o tradutor do Fausto, de Goethe, que adquiri na mesma Livraria Pedrosa onde havia comprado os outros livros. Mas me recordo que li depois a tradução do Doutor Fausto, de Thomas Mann, da lavra de Herbert Caro. E esta me introduziu no universo de Mefistófeles, levando-me a encarar outras obras-primas do romancista: Os Buddenbrook, A Montanha Mágica, Morte em Veneza e, sobretudo, a tetralogia José e seus Irmãos.

Ainda há pouco lhes narrei que quase acompanhei os jovens eu seguiram o impulso suicida de Werther. E lhes digo agora que só não o fiz porque, ao contrário de Euclydes da Cunha, acho que a principal característica do sertanejo não é a força, mas, sim, a capacidade de sobreviver às intempéries.

E este sertanejo que lhes fala passou por muitas intempéries até descobrir num livro como é grande a genialidade, a ponto de transmitir a uma pessoa comum, a capacidade de repassar ao leitor a luz e a energia de seu talento incomum. Este foi o caso de Goethe, e não apenas pelo fato de seu poema seminal ter inspirado obras-primas como a de Mann e a de Rosa. Desde que li A Segunda Morte de Ramón Mercader, tornei-me fã de carteirinha do espanhol Jorge Semprun, que escreveu quase toda a obra literária em francês. Um de seus livros que muito me encantaram é Um Belo Domingo, no qual ele narra conspirações armadas na proximidade da latrina de cheiro insuportável e, por isso mesmo, menos vigiada pelos guardas no campo de concentração de Buchenwald, perto de Weimar, onde Goethe tinha vivido. No romance Semprun refere-se às conversas que o poeta manteve com um cidadão comum, que terminou escrevendo um livro fundamental não apenas para o conhecimento da obra do criador de Fausto, mas também para servir de iniciação à compreensão da poesia, prosa e até da filosofia alemã e mundial. Falo de Conversações com Goethe, de Johann Peter Eckermann, que li numa versão em castelhano, mas acabo de saber que acaba de sair uma edição em português, cuja leitura recomendo. E aqui o registro porque, assim como outros livros já citados, esse me permitiu avaliar de forma ampla a importância do tema do Fausto na obra de Rosa.

Peço licença para narrar outro episódio pessoal que me permitiu entender melhor a escritura do Grande Sertão: Veredas. Fui a Cordisburgo para conhecer a casa onde João Guimarães Rosa nasceu e passou a infância, e ali me deparei com algo que chamaria de iluminação. Depois de percorrer a gruta de Maquiné, visitei o museu e fiz uma parada mais longa na vendinha de seu Rosa, o pai de João. Ali imaginei que o futuro prosador, na infância, se escondia no balcão da venda para ouvir os relatos de jagunços, tropeiros e boiadeiros que paravam para comprar mantimentos, arreios e outras utilidades para suas marchas. É possível que lá o romancista tenha começado a engendrar o idioleto que criaria depois em contos como A Hora e a Vez de Augusto Matraga e no roman-fleuve de que aqui tratamos. A releitura deste me permitiu compreender melhor essa descoberta infantil e, depois, todas as viagens que o autor faria pelo sertão, narradas em livros como o de Fernando Granato e em documentários como o de Pedro Bial para a televisão. Lendo em voz alta o texto seminal de Rosa, pude me deparar com esse linguajar que, em muitas ocasiões, se assemelha muito ao universo vocabular a que Isabel e eu nos acostumamos em nossa infância e juventude no sertão de Uiraúna, Pombal e Condado, no Semiárido paraibano, e em Campina Grande, que, no alto do Planalto da Borborema, sempre tem acolhido esses vocábulos.

José Nêumanne

José Nêumanne

Aliás, não posso omitir o fato de que, em 1969, trabalhei na Bruguera com Nei Leandro de Castro, que havia conhecido antes, pois, tal como ele, eu havia feito parte do grupo Poema/Processo, liderado pelo carioca do Mato Grosso Wlademir Dias Pino, pelo camoniano Álvaro de Sá e por sua mulher e musa, a poeta e artista plástica Neide Dias de Sá, ambos do Rio. Naquele ano, Nei, hoje publicitário de ofício, ganhou o prêmio do Instituto Nacional do Livro (INL) com a obra resultante de sua pesquisa ortográfica, Universo e Vocabulário do Grande Sertão, publicada em 1970 pela Vozes, cujo catálogo à época era feito por Rosemarie Muraro e frei Clarêncio Neotti, diretor da Revista de Cultura Vozes, na qual publiquei muitos textos e resenhas de livros. Mais do que um fato biográfico, dos quais aqui abusei, esse é também o resgate de uma obra importante, que caiu no ostracismo e merecia maior atenção no debate sobre o clássico dos clássicos em matéria de registro literário do Brasil rural profundo.

Convém registrar ainda que refiz alguns conceitos de minha primeira leitura do grande romance de um fôlego só, e uma delas diz respeito ao gênio que escreveu Os Sertões, de que acaba de sair mais uma edição crítica, organizada por Walnice Nogueira Galvão. À primeira leitura, concluí que o sertão de Joca de Cordisburgo não era o mesmo meu, de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e José Américo de Almeida, nem mesmo o de Canudos. Hoje, contudo, percebo que me enganei redondamente. Como diz Riobaldo, o sertão é um só, e, embora todos os escritores citados aqui, e muitos outros, sejam luminares e superiores, não têm hoje a repercussão ao=lcançada pela obra de Rosa e Euclydes. A minúcia enciclopédica com que o diplomata e ex-médico mineiro descreveu a terra, a flora e a fauna do Norte de Minas em tudo se assemelha ao trabalho ciclópico do fluminense que relatou a campanha de Canudos como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, onde hoje milito.

Encontrei, ao longo da releitura do Grande Sertão, referências à luta entre Deus e o Diabo que lembram alocuções de Antônio Conselheiro, relatadas por Euclydes e usadas por Glauber Rocha num dos mais esplendorosos momentos do cinema brasileiro, Deus e o Diabo na Terra do Sol. E também em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, que, segundo definiu genialmente seu Zé, porteiro do Cine Capitólio em minha pré-adolescência em Campina Grande, é um “faroeste de cangaceiros”. Destaco que as pregações do profeta cearense Antônio Vicente Maciel, o Conselheiro, citadas por Euclydes, usadas por Glauber e hoje também recolhidas em livro específico, espalham-se pelas referências permanentes de Rosa ao pacto com o demônio, leitmotiv de seu clássico. Resumo-as na toada de Sérgio Ricardo com que Glauber encerra o filme citado: “Que a terra é do homem, não é de Deus nem do diabo”, talvez o resumo do relato de Riobaldo Tatarana, marcado pela repetição de frases que causaram o maior impacto neste locutor que vos fala. Tudo isso é da mesma inspiração de Rosa ao concluir seu romance imenso: “Nonada. O diabo não há. É o que digo, se for… Existe é homem humano. Travessia”.

Antes de chegarmos a esse fecho magnífico, tropeçamos em pérolas do vernáculo, como o é o caso de “viver é muito perigoso”. Se é! Mas, sobretudo, na epígrafe mais adequada que já encontrei numa obra em minha trajetória de leitor: “o diabo na rua no meio do redemoinho”. Na primeira vez em que deparei com essa epígrafe, li, parei, repeti e fiquei  meia hora pensando, lendo e relendo. Só depois é que aventurei-me a navegar no curso do texto-rio para saber que muitas frases ainda me fariam parar a leitura, algumas, aliás, repetidas por ele. Selecionei uma:

“É preciso de Deus existir a gente, mais: e do diabo divertir a gente com a sua dele nenhuma existência. O que há é uma coisa, – uma só, diversa para cada um – que Deus está esperando que esse faça. Nesse mundo tem maus e bons – todo grau de pessoa. Mas, então, todos são maus. Mais, mais então, todos não serão bons? Para o prazer e para ser feliz, é que é preciso a gente saber muito, formar alma, na consciência, para se pensar, não se carece. Bicho tem dor, e sofre sem saber mais porque. Digo ao senhor: tudo é pacto”.

E, antes de encerrar, preciso abordar as “ligações mais singulares” entre o tema do seminário e o fundador desta casa de sábios: a beleza, o charme e o veneno da mulher brasileira. Refiro-me, naturalmente, à carioca Capitolina e à sertaneja Deodorina. São dois nomes estranhos e incomuns. A única referência que conheço em relação à musa que Machado presenteou ao bacharel Bentinho é o nome da escola em que Isabel lecionou, em João Pessoa, capital da Paraíba: Capitulina Sátiro. De Deodorina, nome que só é revelado junto com a citação do batistério nas últimas páginas da saga, que apelidei, de forma roseana, de “ságua” do jagunço tiro certo, só me ocorre que pode ser o feminino de Deodoro, general que deu o primeiro golpe bem-sucedido da nossa História: a República que pegou o povo bestializado, no dizer do jornalista socialista Aristides Lobo, lembrado no clássico de nossa historiografia, da lavra do acadêmico José Murilo de Carvalho. Como a República insana já tinha dez anos quando a obra veio a lume, talvez não se devesse levar demasiado em conta essa ironia, associando-a ao mito de Hua Mulan, a guerreira mais famosa da China ancestral de Reinaldo/Diadorim.

De qualquer forma, isso não teria importância maior, pois Machado realizou em Dom Casmurro a narrativa espetacular sobre uma mulher fascinante e uma dúvida cruel. E isso foi tão celebrado já em seu tempo que, conforme registra notícia de jornal à época, seu caixão foi levado da casa do Cosme Velho ao coche fúnebre que o transportaria à Academia por mocinhas, entre as quais as muito jovens filhas de Fausta (mais uma coincidência, hein?), prima  de o arqueólogo Edgardo Pires Ferreira, que recentemente nos contou que ainda as conheceu. A mulher é Capitu, cujo apelido, este sim, é mais usado do que o próprio nome em nossos dias; e a dúvida que Machado lançou no ar é a do possível adultério que atormentou Bento /Bentinho, o bacharel da capital. Peço licença aos ilustres ouvintes para afirmar que não considero capital a questão do adultério de que a verdadeira protagonista do romance foi acusada, e pelo qual se exilou e morreu em solidão no exterior. Capitu é de longe, muito longe, longe mesmo, a figura que merece destaque e simpatia. Bento Bentinho é a criação genial de um personagem mesquinho, medíocre, de pouca relevância e escasso brilho intelectual, sempre socorrido pelo agregado José Dias e pelo melhor amigo Escobar nas empreitadas que exigiam lógica e raciocínio. Ele resumiu este episódio difamatório a um ponto final no qual só restou a tirânica palavra do narrador contra o silêncio sepulcral de sua vítima. A Bento o que é de Bento, a Capitu o que a Capitu pertence.

E, se há ainda a contar uma ligação singular entre estes dois entre os pontos altos da literatura brasileira é o fato de que o julgamento de Zé Bebelo, do qual não falarei porque se trata do tema da palestra de Deonísio da Silva, terça-feira próxima nesta mesma hora e lugar, de certa forma também se aplica a Capitu. Sim, minhas senhoras e meus senhores, Zé Bebelo foi julgado e exilado, num marco civilizatório inverossímil em romance de aventuras de jagunços sertanejos. E Capitu está sendo julgada até hoje, após ter morrido no exílio, ao qual a relegou seu próprio criador e carrasco.

Quanto a Deodorina, ficou a glória de ser a mais deslumbrante, mas também a menos verossímil heroína de romance da história da literatura mundial. Guerreira como ela foi a francesa Joana d’Arc, mas o martírio desta é verossímil porque aqueles com quem conviveu sabiam que era mulher, e do povo, com armadura de soldado. E ela terminou sendo o marco da identidade francesa. O mesmo se pode dizer de personagens do mesmo gênero, tais como Luzia-Homem, de Domingos Olímpio, e Maria Moura, de Rachel de Queiroz. Diadorim é uma espécie de anjo inefável que acompanha o atirador de tiro certo dos bandos de jagunços do norte de Minas como uma espécie de brisa benfazeja, a guiá-lo para longe das encruzilhadas onde poderia vender a alma ao Mefisto das margens do São Francisco, nos sertões de Bahia e Minas Gerais. Confundi-la com concessão à moral, como fez o escritor Dominique Fernandez em entrevista a Betty Milan no livro O Poder da Palavra,  é engano similar à confusão recente de que se teve notícia de Diadorim com transgêneros. Poucas personagens poéticas terão seu charme relatado pelo amante ao qual o mistério só foi desvendado com a morte, que o liberou para a noiva dos sonhos, uma entre muitas mulheres de um narrador mulherengo como o autor das memórias de Giácomo Casanova. Como Bento Bentinho, Riobaldo Tatarana é um velho nostálgico contando uma história de amor impossível. Mas, diferentemente daquele outro, este era merecedor da mulher disfarçada de companheiro de jagunçagens  pelo fato de ter sido fiel a seu mistério até o fim.

Ao concluir, lerei um do texto de Rosa em que ele narra a descoberta poética de que o parceiro tão amado era fêmea; algo poético, simbólico e, por isso mesmo, inverossímil, como o marco civilizatório que foi o julgamento de Zé Bebelo. Encantemo-nos com o texto de Joca de Cordisburgo:

“Eu dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo o mundo sair.

Eu fiquei. E a Mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal-entendia.

Não me mostrou de propósito o corpo. E disse… Diadorim — nu de tudo. E ela disse:

— ‘A Deus dada. Pobrezinha…’

E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu não contei ao senhor — e mercê peço: — mas para o senhor divulgar comigo, a par,  justo o travo de tanto segredo, sabendo somente no átimo em que eu também só soube… Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita… estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d’arma, de coronha…

Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer — mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero.

O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.

Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável; abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca.

Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata… Cabelos que, no só ser, haviam de dar para abaixo da cintura… E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:

— ‘Meu amor!…’

Foi assim. Eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo.

A Mulher lavou o corpo, que revestiu com a melhor peça de roupa que ela tirou da trouxa dela mesma. No peito, entre as mãos postas, ainda depositou o cordão com o escapulário que tinha sido meu, e um rosário, de coquinhos de ouricuri e contas de lágrimas-de-nossa- senhora. Só faltou – ah! – a pedra-de-ametista, tanto trazida…

O Quipes veio, com as velas, que acendemos em quadral. Essas coisas se passavam perto de mim. Como tinham ido abrir a cova, cristãmente. Pelo repugnar e revoltar, primeiro eu quis: — ‘Enterrem separado dos outros, num aliso de vereda, adonde ninguém ache, nunca se saiba … ’

Tal que disse, doidava. Recaí no marcar do sofrer. Em real me vi, que com a Mulher junto abraçado, nós dois chorávamos extenso. E todos meus jagunços decididos choravam… Daí, fomos, e em sepultura deixamos, no cemitério do Paredão enterrada, em campo do sertão.

Ela tinha amor em mim. E aquela era a hora do mais tarde. O céu vem abaixando. Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez até ache mais do que eu, a minha verdade. Fim que foi”.

Resta-nos, com a chegada da noite, o encantamento e o espanto. Quanto a mim, não posso encerrar sem agradecer a enorme generosidade da Academia, dos acadêmicos que me prestigiaram e deste atento e simpático publico que aqui compareceu. Agradecidíssimo a todos, pois!

Paulo César Lima, tricampeão mundial de 1970, foi à ABL

Paulo César Lima, tricampeão mundial de 1970, foi à ABL

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Ciclo de Conferências “Guimarães Rosa, escritor e diplomata”
Conferência: “Machado de Assis e Guimarães Rosa. Ligações singulares”
Coordenação: Carlos Nejar
Palestrante: José Nêumanne Pinto
Data: 06/03/2018

Imagens: recortes da transmissão ao vivo da Academia Brasileira de Letras. Acesso ao vídeo  com a conferência completa: Clique aqui!

Na revista Leia Felc: O sertão eterno em xilo, por José Nêumanne

Na revista Leia Felc: O sertão eterno em xilo, por José Nêumanne

Ciro foge do lugar comum em todos os sentidos. Em primeiro lugar, é um sertanejo de origem, de uma família de camponeses e artesãos, mas chegou às artes plásticas por duas vias diferentes, ambas de alguma forma ligadas ao mercado capitalista, e não às feiras livres de nossa cidade natal, Uiraúna, no interior mais ermo da Paraíba. Seu talento inato para o desenho não o levou, de início, à arte do povo, mas ao comércio propriamente dito. Migrou do sertão, foi morar num bairro distante da Zona Leste de São Paulo, Itaquera, o mesmo que abriga hoje o estádio do Corinthians, usado para a abertura da Copa do Mundo do Brasil em 2014. Hospedava-se na pensão de um conterrâneo e nela conheceu, apaixonou-se, noivou e se casou com Ritinha, com quem vive e tem dois filhos, Bruno e Milena. O prenome do filho evoca o sobrenome do mártir do livre pensar, o monge Giordano Bruno, queimado em praça pública no Campo dei Fiori na eterna capital do mundo, Roma. Milena herdou o nome das leituras do pai sobre a noiva sempre amada de Franz Kafka, não um artista plástico, mas o maior romancista da literatura ocidental no século XX. Não um nome comum aos Fernandes da Quixaba, mas um belo nome de mulher tirado de um clássico da literatura epistolar da cultura judaico-alemã de Praga, capital da República Checa e centro da rebelião contra a ocupação imperialista soviética nos emblemáticos anos 60 do “é proibido proibir”.

Retro de Ciro de Uiraúna por Chico Caruso. Capa da revista Leia Felc

Retrato de Ciro de Uiraúna por Chico Caruso. Capa da revista Leia Felc.

Ciro começou nas artes plásticas pintando bois para açougues e cartazes de lojas do comércio popular da periferia onde conheceu Ritinha. Por coincidência, as mesmas origens do catalão Francesc Petit, imigrante que se juntou a outro barcelonês, José Zaragoza, e a um descendente de fenícios, Roberto Duailibi, para formarem em São Paulo uma das agências de publicidade reconhecidas como das mais criativas do Ocidente em todos os tempos. E Ciro também passou pela publicidade. Quando o conheci, ele era diretor de arte de uma pequena agência com sede num modesto escritório no centro do Rio. A prolífica família Fernandes, oriunda da mesma Uiraúna, lá de onde vim, morava a poucos metros da Vila da Penha, onde foi criado um dos deuses do futebol carioca, o baixinho Romário. Mas num determinado momento Ciro sentiu pulsar a alma do artista matuto ao longo das veias das mãos, que  até então usava para fazer caprichados past ups de arte final de anúncios, um passo acima na escala social do desenhista de letras e algarismos das lojas de Itaquera. Em sua vida de peregrino pela cidade grande, egresso do ermo do Rio do Peixe, Ciro cruzou com outro paraibano, Zé Altino, artista plástico (colega de Antônio Dias, Raul Córdula, Waldemar Solha, Flávio Tavares, Miguel dos Anjos, Chico Pereira), com prestígio entre os atores (Ednaldo do Egito, Marcélia Cartaxo, Zezita Matos, Sávio Rolim), maestros (Marcus Vinicius, Kaplan, Siqueira), poetas (Marcos Tavares, Sérgio de Castro Pinto, Jomar Moraes), humoristas (Anco Márcio, Chaolin, Jessiere Quirino), cantores e compositores (Zé Ramalho, Kátia de França, Chico César, Jaguaribe Carne), críticos (Virginius da Gama e Melo, Barreto Neto, Jurandy Moura), cineastas (Carlos Aranha, Linduarte Noronha, Willis Leal, Ipojuca Pontes, José Marinho, Vladimir Carvalho, Walter Carvalho, Machado Bitencourt).

Casal Isabel e José Nêumanne Pinto, em bico de pena de Chico de Uiraúna

Casal Isabel e José Nêumanne Pinto, em bico de pena de Chico de Uiraúna

A relação incompleta dos grandes talentos daquela geração  servirá apenas para aduzir que Zé Altino não era propriamente um artista conectado em linha direta com folclore e artesanato, mas muito mais com o mercado, do qual Ciro fugiu quando encontrou nele o professor adequado para ensinar a técnica artística que podia ter aprendido na casa materna com o tio Chico de Marocas, artesão de talento e gosto. Foi o encontro do sertanejo na diáspora com o artista múltiplo com quem poderia dialogar entre irmãos de opa, embora de origens e formação diferentes. Zé Altino encontrou em Ciro de Uiraúna o discípulo talhado para a xilogravura, a modalidade dos gravadores sertanejos que encontravam na madeira material para produzir capas de folhetos de cordel, vendidos em barracas. E lá foi Ciro talhar nas formas de pau santos e putas, cangaceiros e soldados, políticos e capiaus. Suas memórias do sertão reproduziram talhas geniais de Dom Quixote e Dulcineia, Lampião e Maria Bonita, quengos e boçais.

Ciro de Socorro de Abdoral não fez muitas vezes nem de forma definitiva uma viagem de volta ao sertão de origem, mas o sertão do Rio do Peixe não está presente nele apenas no nome do vilarejo que virou cidade e ele adotou como pseudônimo artístico. Uiraúna do fogueteiro Vitô, do cozinheiro Verton, da assistente social Erundina, do doido Labrada, da puta Escurinha, do cônego Anacleto, do saxofonista Zé de Milta, do cego Dedé, do bispo dom Luiz Fernandes, do monsenhor Manuel Vieira, do artista de rádio Barros de Alencar, do cirurgião do Senado que operou Tancredo, dr. Pinheiro da Rocha, e deste escriba que lhes toma o tempo desta leitura, está entranhada na sua memória afetiva como a tinta que imprime no papel as ranhuras feitas com cinzel na forma de suas xilogravuras. Nas bandeirolas juninas, nas cenas de cantorias de viola e rebeca, nos touros bravos das vaquejadas, nos amarelos que engabelam valentões o sertão se reproduz na obra dele como marcas vivas de suas raízes de mandioca e da floração dos cactos do semiárido. Ciro é o calor e a fresca, a amargura e a doçura, a soleira e o luar do ambiente que se transplanta para as margens da Baía da Guanabara sempre que de suas mãos brota a própria arte bela, singular e afoita.

José Nêumanne

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no encarte especial Ciro Fernandes da revista Leia Felc de janeiro de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/o-sertao-eterno-em-xilo/

No Aliás do Estadão: O rendez-vous do sórdido com o sublime

No Aliás do Estadão: O rendez-vous do sórdido com o sublime

Poesia Completa é um livro à altura do fino ofício de Alberto da Cunha Melo

O volume de mil páginas provoca o primeiro impacto: como pode o pernambucano de Jaboatão dos Guararapes Alberto da Cunha Melo ter sido um poeta tão produtivo e copioso nos 65 anos em que viveu? Impacto ainda maior terá o leitor, habituado ou não à arte do romano Horácio (seu ícone e cânone), ao percorrer cada uma delas e nada encontrar que considere jaça. Há ainda, no caso desta Poesia Completa, a inserção do gesto criador, do labor exaustivo do autor, permitindo o acesso a poemas inacabados, esboços ou exercícios poéticos, alguns intocados há décadas: belos diamantes brutos, ainda não lapidados.

poesia completaA poesia publicada em vida do autor foi louvada por críticos respeitáveis. Destaco dentre eles o poeta e professor paraibano Hildeberto Barbosa Filho, que parafraseou Johannes Pfeiffer em Introdução à Poesia: “devido à sua verdade, esta poesia é necessária; devido à sua beleza, é beatificante!” Alberto foi sociólogo e jornalista competente e pontual, mas revelava que essas atividades apenas lhe serviam como fonte de sobrevivência e, algumas vezes, de leitmotiv de seus poemas. Uno e indivisível, é poeta, e a terceira pessoa do singular rege o verbo no presente do indicativo, porque sua poesia atravessa o tempo e ganha uma dimensão que, apesar de todas as honras e gratificações em vida, ainda carece de maior reconhecimento a seu mérito.

A primeira vez que vi falarem dele foi em entrevista de Bruno Tolentino nas páginas amarelas da Veja. O implacável avaliador lançou-o às alturas de maior nome da poética nacional desde João Cabral de Melo Neto. A fé em Bruno me levou a adquirir os livros de Alberto, todos editados no Recife, berço de Cabral e Bandeira, sem penetração no Sudeste. O faro fino do editor Pedro Paulo de Sena Madureira, meu sócio na Girafa Editora, permitiu que a obra imensa e singular circulasse nas metrópoles a bordo de uma edição caprichada e magnífica de O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos. Os adjetivos usados descendem, mais do que do entusiasmo deste autor, da concessão do prêmio para o melhor livro de poesia dado pela Academia Brasileira de Letras em 2007. Debilitado, o poeta não foi à Casa de Machado de Assis recebê-lo e me honrou, como editor, pedindo para representá-lo.

Alberto da Cunha Melo, no lançamento do livro "O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos". Recife: A Girafa, 2006.

Alberto da Cunha Melo, no lançamento do livro “O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos”. Recife: Girafa Editora, 2006.

Certa vez, Astier Basílio, precoce candidato a Arthur Rimbaud de Campina Grande (na comparação feita por Alberto e glosada por outro pernambucano, Jomard Muniz de Britto, que indagou quem seria, então, o Paul Verlaine da Borborema), pôs-me nas mãos um exemplar da edição artesanal de 200 exemplares numerados de Yacala, à beira do balcão do Café Aurora, na Praça da Bandeira, em Campina. Exórdio, o primeiro dos 140 poemas reunidos, sacudiu minha alma como um vagalhão na tempestade: “Levamos fogo, não esponjas, / ao trono sujo de excremento, / disputando o mesmo vazio / de uma estrela no firmamento; // jarros negros e estrelas, tudo / é uma busca de conteúdo; // ou somos renúncia ou cobiça, / atravessando esses planaltos / feitos de cinza movediça; // mas todos estamos em casa, / como os voos dentro das asas”.

Manuscrito da segunda versão do "Exórdio", do livro "Yacala"/ Alberto da Cunha Melo exibe uma matriz de chumbo do seu livro "Yacala". Recife, Gráfica Olinda, 1999.

Manuscrito da segunda versão do “Exórdio” do livro “Yacala”/ Alberto da Cunha Melo exibe uma matriz de chumbo do seu livro “Yacala”. Recife, Gráfica Olinda, 1999.

A emoção desse rendez-vous do sórdido com o sublime se repetiu ao reunir-me a um grupo de atentos e devotos espectadores que lotaram o auditório da Livraria da Vila no lançamento paulistano da obra magna. Entre os presentes, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, professora de literatura, mulher, viúva, a mais completa e mais autorizada crítica (o que permitiu ao poeta conviver com a própria exegeta e permitirá ao estudioso acompanhar neste livro seu processo de criação); Martim Vasques da Cunha, herdeiro de Tolentino, autor do texto da orelha e timoneiro do projeto; e, last but not least, Carlos Andreazza, o bravo editor que trouxe a lume o monumento.

Lançamento do "Poesia completa". São Paulo, 19 de dezembro de 2017: Auditório/ José Nêumanne, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, Maria do Carmo Ducco / Carlos Andreazza, Cláudia, Isabel Moliterno, Dionísius Amêndola, Rafael Tahan e Martim Vasques da Cunha.

Lançamento do “Poesia completa”. São Paulo, 19 de dezembro de 2017: Auditório/ José Nêumanne, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, Maria do Carmo Ducco / Carlos Andreazza, Cláudia, Isabel Moliterno, Dionísius Amêndola, Rafael Tahan e Martim Vasques da Cunha.

Melhor não teria a dizer sobre o livro que não seja o simples reconhecimento de que está à altura da obra que abriga pela fé, pela autenticidade, pela força, pela verdade, pela beleza e pelo compromisso ético com o que há de mais puro, cru e autêntico na arte maior. O cartapácio é o altar digno da obra que merece o mais alto posto no panteão da poesia em língua de Camões e Vieira.

José Nêumanne

  • Jornalista, poeta, escritor e autor de Solos do Silêncio

Resenha publicada no Aliás, neste domingo, 28 de janeiro de 2017.

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No Blog do Nêumanne: De volta ao curral onde jaz meu umbigo

No Blog do Nêumanne: De volta ao curral  onde jaz meu umbigo

Lembranças do vaqueiro Eloi e seu patrão Chico, meu avô

O primeiro ponto de referência de minha vida foi a porteira do curral em frente à casa de meu avô materno, onde nasci. Afinal, foi lá que enterraram meu cordão umbilical. Desde muito cedo me contaram isso. Desde muito cedo me acostumei a tirar os paus que impediam a saída das reses e a entrada dos vaqueiros. Nunca tive um gibão, nunca uma perneira, nunca um bornal pra encher de farinha seca e pedaços de rapadura que amoleciam ao sol. O velho Chico Ferreira também não usava os trajes dos meeiros de confiança que apartavam seu gado vacum, levavam-no cedo para o pasto e, ao anoitecer, o traziam para ruminar no leito macio e quente de bosta de vaca. Ao que me lembre, meu avô, magro e míope, muito míope, usava camisas e calças de tecido rústico, sempre muito limpas, com cheiro de sabão de pedra, anis e goma de mandioca, usada para passá-las.

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Eu, gorducho, meio inseguro sobre coxas grossas e pernas bambas, acordava muito cedo para tomar meu café. Carregava com zelo um copo de vidro grosso no qual jorrava o leite gordo da teta que o dono ordenhava com calma, paciência e um amor que exalava por todos os seus poros. Ali era o pai de minha mãe, sua primogênita, o sogro de meu pai, seu sobrinho, ao mesmo tempo seu compadre, pois tinha sido padrinho de meu irmão um ano mais novo.

Foto de mamãe, meu tio Quincas e meu irmão Neudson na Fazenda Rio do Peixe, onde nasci.

Foto de mamãe, meu tio Quincas e meu irmão Neudson na Fazenda Rio do Peixe, onde nasci.

O líquido branco e morno já era despejado sobre o café, que dona Quinou Moreira, minha avó, havia feito na primeira hora, antes de a barra alumiar de rubro e o sol surgir luminoso, forte, quente e ameaçador. Quando meus pais se mudaram para a cidade, um vilarejo à época, o leite chegava em baldes e era fervido no fogão de lenha por minha mãe, Mundica, que o passava de tigela em tigela até atingir minha temperatura favorita, um pouquinho mais quente do que o leite mugido.

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Até seu Chico morrer, e eu tinha apenas 6 anos, contudo, meu desjejum era no curral, ao qual só tinha acesso depois de pisar o chão que ocultava os restos em decomposição de meu cordão umbilical. Isso era muito cedo e o dia se alongava, de forma preguiçosa e lenta, até que eu me juntava ao ancestral para a cerimônia mais esperada do dia. Sentávamo-nos os dois na calçada alta e esperávamos a chegada do rebanho. Ao som dos chocalhos, o sol desmaiava aos poucos, desmanchando-se em cor de sangue. Aquela longa conversa muda entre o velho e a criança se reproduz até hoje em minhas lembranças e em meus gostos.

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Às vezes, muito raramente, o ancião esticava o braço torrado da soleira na direção do ocidente e me mostrava nuvens carregadas ao perder de vista no horizonte:

– Veja, esse menino. Está chovendo em Souza. Pode ser que amanhã chegue por aqui. Estamos precisados.

Quando o dia morria, ouvíamos a voz da mulher, vinda da cozinha:

– Traga o menino pra dentro, seu Chico. É hora da ceia.

O idoso (e ele morreria tão cedo) sacava, então, sua peixeira e a amolava numa pedra, depois rapava uma rapadura que seus empregados traziam da Baixa Verde, sua propriedade no Rio Grande do Norte, onde nascera parte de sua prole, inclusive minha mãe. Despejava a rapadura rapada no prato fundo, acrescentava coalhada e soro. E os dois – o ancestral e parte de sua descendência – comíamos solenemente, em silêncio. Gostaria muito de um dia me lembrar da voz daquele homem tão íntimo de mim naquele tempo, mas ele foi e com ele levou a lembrança de seu timbre amável. Cruzava as pernas, sentava-me no colo e, antes de pitar um cigarro de palha, depositava a criança quieta no banco de madeira ao lado de uma mesa longa, à qual somente nós dois tomávamos assento. Minha avó comia na cozinha, de pé, ao lado do fogão, depois que os pratos dos homens estavam lavados, postos para a água escorrer logo ali ao lado.

Avós paternos Chico Ferreira e Quinô Pinto

Avós paternos Chico Ferreira e Quinô Pinto

Dormíamos em redes, ele no quarto com a mulher, eu na sala, insone pelo tique-taque do pêndulo do relógio de parede que dava os minutos e tocava as horas, contadas em algarismos romanos fora do padrão: quatro era IIII, não IV, como no império dos Césares se grafava. De onde algum desavisado teria tirado essa ideia de subverter o IV com que Marco Aurélio fazia suas contas na Antiguidade longínqua?

Quando chovia, contudo, eu dormia bem, embalado pelo ronco pesado de minha avó, as bátegas açoitando as telhas da casa antiga e o ranger dos armadores submetidos ao peso do velho se balançando para conciliar o sono. Uma vez, já adolescente, morto o avô, a avó surda e implicante ainda viva por um bom tempo, escrevi um poema sobre esta cena doméstica. É o único de todos os meus poemas que sei de cor. E tem o fecho mais comum, menos interessante, mas que me emociona até me levar aos prantos. O poema intitula-se “Na casa avoenga”. E termina com um verso súbito e impaciente: “eta emoção!” Só que o ritmo dos versos não lembra as noites de chuva e paz ou de ronco e vigília. Mas, sim, sempre, a chegada da boiada de volta ao curral, onde apodrece o cordão que me ligava ao ventre materno antes do parto complicado de que vim ao mundo.
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Não sei por que, vou morrer sem saber, talvez nasça de novo e ainda não aprenda por que, com mil e seiscentos diachos, como praguejava seu Chico Ferreira, me senti pessoalmente agredido pelos bondosos defensores dos animais, pelos burocratas do Estado do Ceará que, a poucos quilômetros do alpendre da casa onde minha mãe me pariu, proibiram a vaquejada. Um ministro do Supremo Tribunal Federal me fez a suprema desfeita de decepar um pedaço da infância, a lembrança afetuosa que tinha do pai de minha mãe, com os quais, ele e ela, compartilho feições bem parecidas. Senti-me um irmão distante de Aldo Rebelo quando ele escreveu, na mesma página onde rabisco linhas sobre política no Estadão velho de guerra e paz, um protesto assim lírico e manso como o meu contra a medida Segundo Aldo, esta matou o vaqueiro e o sertanejo, os heróis da saga da conquista dos ermos pelas patas das boiadas da Casa da Torre, dos Garcia d’Ávila, na Bahia.

Lendo o noticiário posterior sobre o pretexto do conflito em torno da vaquejada, que teria ajudado a derrubar Marcelo Calero do Ministério da Cultura, que era contra, e da penada com que o presidente Temer a recolocou no altar da cultura popular, aproximei-me de novo de meu avô materno. E me senti de novo o bebê que Levina, filho de seu Natan, pesou na balança de pesar algodão de meus ancestrais e depois banhou pela primeira vez com sabonete Vale Quanto Pesa. Moradora de meu bisavô coronel, ela era mulher de Eloi, vaqueiro tresmalhado que chegou de Monte Santo, Bahia, onde o beato Conselheiro perdeu a vida para adentrar a lenda.
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Quem sabe essa lembrança com gosto de leite recém-ordenhado no sertão do Rio do Peixe me consiga o perdão dos defensores dos animais, embora talvez seja impossível convencê-los de que, por mais que se esforcem, nunca cuidarão de uma rês ou uma rã tão bem como um vaqueiro do sertão. Seja como for, este idoso com o umbigo amarrado ao curral do avô sempre lhes será grato por terem eles permitido voltar à infância amputada por causa do episódio sem nexo nem razão da proibição da vaquejada. Tengo, lengo, tengo, lengo, tengo, ê boi.

José Nêumanne

José Nêumanne Pinto, poeta, escritor e jornalista, nasceu na Fazenda Rio do Peixe, em Uiraúna, Paraíba.

Imagens: recortes do vídeo da reportagem da TV Tambaú feita pelo jornalista José Vieira Neto sobre a vida do Jornalista e escritor José Nêumanne Pinto – 5 de maio de 2007.

 

“Inútil! A gente somos inútil!”

“Inútil! A gente somos inútil!”

José Nêumanne

Não terá o povo cansado de sair de casa para berrar e não ser ouvido pelos políticos?

Em 17 de junho de 2013, cerca de 2 milhões de brasileiros protestaram nas ruas contra o statu quo. Em 15 de março deste ano, cidadãos em número similar queixaram-se de Dilma, Lula e do PT deles. Em 12 de abril, 660 mil. Em 16 de agosto, 790 mil. Neste domingo, 73 mil exigiram impeachment, cassação, deposição ou renúncia da presidente Dilma Rousseff. O povo está se calando? Ou já se cansou de berrar o óbvio, à toa?
Para entender o esvaziamento progressivo das ruas este ano convém, primeiro, ouvir o que dizia quem saiu de casa e relatar como a elite política dirigente do País lhe respondeu. Em 2013, o Movimento Passe Livre (MPL) convocou protestos contra o aumento de tarifas de transporte urbano e evoluiu para reivindicar a gratuidade. A multidão aproveitou para exigir direitos que a Constituição garante e os três Poderes da República lhe negam: segurança pública, saúde e educação, principalmente.
Quem, em sã consciência, garante que o povo foi atendido? Fingindo só ter percebido o pedido de dispensa de R$ 0,20, governadores, entre eles o paulista Geraldo Alckmin, do PSDB, e prefeitos de grandes cidades, incluído o paulistano Fernando Haddad, do PT, adiaram o aumento, fingindo que assim eliminariam a causa da revolta. Mitigariam a ira popular por R$ 0,20 a cabeça?
Ledo e ivo engano, dir-se-ia na minha adolescência em Campina Grande, quando grande parte dos adolescentes sabia ler. O PT no poder, sob a égide de Dilma Rousseff, fez ouvidos surdos ao clamor e prometeu Constituinte exclusiva para reforma política, com financiamento das milionárias campanhas eleitorais dos políticos pelo suado dinheirinho escasso do cidadão. Mera embromation, diz-se na pré-adolescência de meu neto. E a oposição prometeu dar o que o povo pedia e o governo não atendia. Só que não contou como. Um ano e meio depois, Dilma e o PT venceram Aécio e o PSDB. Se o pleito foi fraudado, como muitos desconfiam, ninguém na rua jamais saberá, pois é impossível recontar votos.
O que qualquer cidadão que protestou contra gregos e baianos no inverno de 2013 e contra o 13 petista nas quatro estações no primeiro ano do segundo desgoverno Dilma viu foi tudo piorar muito nestes 30 meses. Inocentes morrem em tiroteios nos bairros pobres de grandes cidades em maior número do que antes. E a saúde pública, totalmente sucatada, não honra seu patrono, Oswaldo Cruz, que expulsou o Aedes aegypti, transmissor da febre amarela, destes tristes trópicos há cem anos. Mas este voltou para ficar em pleno século 21, transmitindo dengue, zika e chikungunya antes mesmo de o ovo virar inseto, segundo explicação da douta presidenta no ápice de sua sesquipedal ignorância sobre todos e tudo.
O símbolo da educação desbaratada são sem-teto organizados, black blocs alucinados e partidecos de extrema esquerda sem eleitores que, beneficiados pelo aparelhamento generalizado dos Poderes republicanos, invadem escolas públicas no Estado mais rico da Federação. Enquanto o governo tucano brinca de fechar e reabrir escolas ao sabor da queda nos índices de popularidade
Essa explicação não é única. Há outra, além da falta de líderes à altura da crise, do curto prazo da organização e da proximidade das festas de fim de ano: é que todos concordam quanto ao diagnóstico da situação, mas falta consenso sobre o que fazer para lhe dar o xeque-mate. A solução para a crise, ulula o óbvio (apud Nelson Rodrigues), será tirar de Dilma qualquer poder. Todos sabem que ela condescendeu com a metástase do câncer moral que nos assola, erigiu tijolo por tijolo a ruína econômica, como o faz na transposição do Véio Chico, e afagou a fera política com as garras da arrogância e da ignorância que formam sua personalidade. E é incapaz de debelá-las pelas mesmas deficiências próprias que as produziram: como poderá liderar a conciliação se não convive em paz sequer com o seu vice?
A carta de desamor de Michel Temer a Dilma é criticada por explicitar o fisiologismo reinante no presidencialismo de coalizão, que vira de colisão – o caso no momento. Nunca antes na História tantas queixas pessoais exibiram com tanta crueza as mazelas deste sistema que \joga o público na privada.
Três processos dentro dos conformes do Estado Democrático de Direito se propõem a remover o obstáculo à pacificação nacional e à entrega da administração a gestores com QI de mais de dois dígitos. Impeachment, ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) investigando uso de propina no financiamento da campanha presidencial e votação no Congresso da violação explícita da Lei de Responsabilidade Fiscal, que a presidente jurou cumprir, não são lana caprina. Mas talvez nem a divulgação pelo Valor Econômico de documento obtido por Leandra Peres, revelando o que os “juristas” vassalos do Planalto não conseguirão provar que ela “jura” que não sabia, tenha o condão de evitar que 5.600 trabalhadores percam o emprego no Brasil diariamente sob o jugo de uma chefe de governo que tem provado diuturna, noturna e madrugadurnamente não saber de nada em geral.
A Nação suporta o Legislativo contaminado por presidentes da Câmara e do Senado investigados por corrupção milionária. E a oposição muda ao capricho do vento, só que na direção contrária, não sendo alternativa de poder e só gemendo no muro das lamentações.
Tardando a enquadrar os maganões, a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Supremo Tribunal Federal (STF) negam à cidadania o tratamento igual dado pelo juiz Sergio Moro, pela PF e pelo MPF na Lava Jato, que processam ricos e pobres sem distinção. Ao distinguir quem tem mandato de quem não tem, PGR e STF tornam letra morta a igualdade de todos perante a lei. Nesta democracia capenga, em que uns são mais iguais que outros e não se ouve o cidadão, é o caso de trocar o Hino Nacional pela canção do Ultraje a Rigor: “Inútil! A gente somos inútil!”.

Jornalista, poeta e escritor.
(Publicado na PagA2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 16 de dezembro de 2015)

O mar chega ao sertão pelo Recife

O mar chega ao sertão pelo Recife

José Nêumanne Pinto

Meu caminho do sertão ao mar foi feito com uma escala: de Uiraúna a Campina Grande e, sem passar em João Pessoa, direto para Recife. O fascínio pela Rainha da Borborema começou cedinho, na infância. Cheguei, ainda pré-adolescente, ao burgo fundado por Nassau, seguindo o rumo do Atlântico, traçado por meus pais desde os ermos do Vale do Rio do Peixe.

Campina Grande, Açude de Bodocongó - Foto Divulgação

Campina Grande, Açude de Bodocongó – Foto Divulgação

Fui estudar num internato em Campina Grande e na biblioteca do seminário redentorista de Bodocongó encontrei-me com Karl May, com quem viajei pelo mundo afora em mil aventuras, os livros de capa azul do Tesouro da Juventude e as obras completas dos poetas cuja obra minha mãe, Mundica Ferreira, costumava dizer de cor nas noites quentes e escuras do sertão sem luz de Paulo Afonso. Destas leituras emergiu minha opção pelo mundo dos estudos, que me levou à galáxia das letras. E a paixão pela cultura fomentou e fermentou meu amor pela cidade de que tinha ouvido falar ainda menino, na leitura dos poemas de Augusto dos Anjos. Ela foi marcada pela cadência repetida dos versos iniciais de seu poema As cismas do destino: “Recife. Ponte Buarque de Macedo. Eu, indo em direção à Casa do Agra, assombrado com a minha sombra magra, pensava no destino, e tinha medo!”.

Ponte Buarque de Macedo - Foto Divulgação

Ponte Buarque de Macedo – Foto Divulgação

Ali me hospedava na casa de uma família sertaneja no Derby e perto dela, na Ilha do Retiro, campo do Sport, vi um jogo de futebol inesquecível entre o Náutico e o Cruzeiro de Belo Horizonte. Este, com Dirceu Lopes e Tostão. Mas, desculpe, não consigo escalar o time todo. O anfitrião sustentou o zero a zero com Lula; Gena, Mauro, Fraga e Clóvis: Salomão e Ivan; Nado, Bita, Nino e Lala. Salomão, médico campinense, era um volante como não há mais: clássico e elegante. Como Carlinhos, do Flamengo. Ou Araponga, que, como ele, também jogou no Campinense.

Recife, Ilha do Retiro. Foto Divulgação

Recife, Ilha do Retiro. Foto Divulgação

Ainda imberbe, passei a frequentar a intelligentsia recifense, meio sem querer querendo, forçando a barra. Numa incursão noturna, imprópria para menores de 18 anos (e eu tinha 15), fui ver o show Memórias de dois cantadores, com Edy e Teca, acompanhados por Geraldinho Azevedo, Naná Vasconcelos e Marcelo Melo (depois do Quinteto Violado), dirigidos por Carlos Fernando. Era um espetáculo de poesia popular e cancioneiro folclórico. Edivaldo Souza virou Edy Star, um dos Dzi Croquettes, e morou na Espanha. Teca Calazans casou-se com Ricardo Villas, com quem formou dupla na guerrilha de esquerda contra a ditadura militar e na música brasileira.

Foto Divulgação. Um anúncio original do TPN

Foto Divulgação. Um anúncio original do TPN

Nunca mais me esqueci de um episódio ocorrido no bar defronte ao Teatro Popular do Nordeste (TPN). Lá estavam Zélia e Ariano Suassuna, ao lado de Leda e Hermilo Borba Filho. Leda é muito amiga de meu amigo de infância Marcus Vinicius de Andrade, maestro, poeta, recifense, criado em João Pessoa. Abordei os quatro a partir daí e a conversa rolou. Na platéia, mas em fila diferente, estava o professor Jomard Muniz de Britto, acompanhando seu amigo Roberto Cavalcanti a irmã deste, a adolescente Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque. Lembrado do episódio na Casa das Rosas em São Paulo, JMB comentou:

– Pois é. Cristina me analisa desde a adolescência dela.

Na platéia, Edy Star, que mora a alguns quarteirões dali, aplaudiu. Naquela noite eu, pré-adolescente conheci de uma vez só Ariano, Hermilo, Jomard, Cristina, Roberto (co-autor de Coronel, coronéis com Marcus Vinicius Villaça), Geraldinho Azevedo, Naná, Marcelo – a fina flor da tradicionalista e da vanguardista Pernambucália de todos os tempos.

Reencontrei Jomard em jornadas pré-tropicalistas. E nunca mais perdi seu arqui-inimigo Ariano de vista. Certa vez, ele me telefonou para pedir licença (imagine!) para citar uma frase que usei ao falar de meu livro Veneno na veia num seminário de literatura em Campina Grande: “Este não é um romance de aventuras, mas o romance de nossa desventura”. Na ocasião em que o convidei para minha posse na Academia Paraibana de Letras, da qual ele fez parte e na qual ocupo a cadeira nª 1, cujo patrono é Augusto dos Anjos, Ariano me avisou que a dita sentença seria a epígrafe do capítulo em que tratava da morte do pai em seu romance inédito. E me perguntou quantos enes tinha meu nome. Respondi que eram três.

–  Como três? – questionou, intrigado.

E eu soletrei:

– Ene (primeiro)-e-u-eme-a-ene (segundo) -ene (terceiro)-e.

– Sujeitinho mais ordinário, você – ele disparou, depois de gargalhar.

Mas Ariano não foi o único interlocutor que tive na capital pernambucana. Depois que virei jornalista no Sudeste, passei a visitar a cidade por conta de compromissos profissionais. O diretor do Jornal do Brasil Mauro Guimarães me escalou para fazer a cobertura de uma reunião da Sudene. Nela Tancredo Neves, então governador de Minas, foi indicado para ser protagonista da coligação civil armada para derrubar a ditadura militar. Tomando um uísque com gelo no salão de refeições opíparas do Palácio do Campo das Princesas, arrisquei:

– Então, o sr. vai ser presidente, hein, dr. Tancredo?

– Que é isso, Zé Nêumanne? O presidente vai ser o Andreazza. Figueiredo não vai permitir que Maluf sequer se candidate.

Maluf se candidatou, Tancredo o venceu, mas não tomou posse.

Recife, Palácio do Campo das Princesas. Foto Divulgação

Recife, Palácio do Campo das Princesas. Foto Divulgação

A política seria o motivo de minhas visitas seguintes a Recife. Fui comensal dos banquetes magníficos que Gustavo Krause dava no palácio. Com meu primo Sávio Vieira (também uiraunense), passei a acompanhar em outras refeições, às vezes em suas casas, às vezes em restaurantes, Roberto Magalhães, Joaquim Francisco, José Múcio Monteiro, Marco Antônio Maciel e, naturalmente, Miguel Arraes.

Certa vez, eleito governador após o interregno do exílio durante a ditadura militar, dr. Miguel me recebeu numa casa majestosa no bairro dos Aflitos, na qual tinha funcionado o QG de sua campanha vitoriosa. Ali me deu uma entrevista para o Estadão, do qual eu era editor de Política. Fazia muito calor, o ar condicionado era muito barulhento e o assessor de Arraes, Ricardo Leitão, fazia ouvidos de mercador a meus insistentes apelos para desligá-lo. Carlos Garcia, correspondente do jornal, também não pôde me ajudar, pois nada havia entendido do que Arraes tinha dito. A única frase que consegui captar foi quando este me anunciou:

– Você não acha que já dei tempo demais para um adversário político?

– Mas, Dr. Arraes, quem sou eu para ser seu adversário político?

– Você pode não ser. Mas seu jornal é.

No arquivo do Estadão encontrei frases do governador eleito para escrever uma página de perguntas e respostas. Foi publicada domingo. Na segunda, ele me telefonou, feliz e solícito:

– Jornalista, cumprimento-o pela extrema fidelidade do que o sr. publicou em seu jornal. Não me lembro se falei aquilo. Mas pensei…

Foi Arraes quem me apresentou seu neto Eduardo Campos, primo de Malu, mulher de Bob Viana, cuja casa, herdada de Pompeia, mãe dela, na Rua das Pernambucanas, era um museu com quadros de Brennand, Cícero Dias, Vicente do Rego Monteiro e de seu chefe, meu conterrâneo e amigo João Câmara, que fez da mansão a sede da fundação que leva seu nome. Meu logradouro favorito no mundo todo é o Largo de Apipucos, onde já morava Letícia, filha de Osman Lins (autor de Avalovara e que conheci em São Paulo) e à época minha colega no Jornal do Brasil. No bairro, notório refúgio de Gilberto Freyre, também morava Thales Ramalho para cuja casa avarandada de Brasília o Recife se mudava sempre que Sávio Vieira, Helena, ele e eu nos reuníamos por lá.

Cidade do Recife vista do Alto da Sé, em Olinda. Foto Divulgação

Cidade do Recife vista do Alto da Sé, em Olinda. Foto Divulgação

Agora que Alberto da Cunha Melo, Toinho Alves, Lula Cortes, Carlos Fernando e Zé Fernandes morreram, resta-me voltar à Livraria do Paço da Alfândega, uma das mais lindas do mundo, de preferência para mais um lançamento de Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque, cuja obra-prima, Luz do abismo, foi editada no Sudeste pela Girafa, da qual eu era sócio. Ou vadear pelas ruas de Olinda com Yanê e Alceu Valença, Amelinha e Raul Córdula, Chico Pereira e Cláudia Cordeiro. Sem me esquecer de comer uma cartola supimpa no Leite, o melhor restaurante do planeta, com Lectícia e Zé Paulinho Cavalcanti, ao som do pianista Edson, de cujos dedos mágicos brota a mais pura vertente da obra do maestro brasileiro Tom Jobim.

É lá que o mar entra Pernambuco adentro até se resumir ao Riacho da Brígida, de volta às brenhas de meu sertão de origem.

Jornalista, poeta e escritor.

(Publicado na revista Uiraúna, 12a. edição, dezembro de 2014, Págs. 54 e 55)

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