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Política

No Blog do Nêumanne: Tiroteio no curral dos Gomes em Sobral

No Blog do Nêumanne: Tiroteio no curral dos Gomes em Sobral

José Nêumanne

Duelo de retroescavadeira e pistola em quartel no Ceará exibe resultados funestos de conluio entre populismo e impunidade, que prejudica cidadãos comuns e democracia, que devia lhes servir

Indiferença, desinteresse e um grau repugnante de desumanidade caracterizam a reação pública nacional diante da crescente violência no Estado do Ceará. Esta atinge prioritariamente os cidadãos, em especial os desvalidos, e mantém livres, leves e soltos políticos vorazes, corruptos e maus gestores. A crise da Polícia Militar cearense com os governantes do PT e seus asseclas do PDT não é exclusiva da Unidade da Federação nem resulta apenas da realidade interna. Mas uma grossa camada de pó e fumaça na cena do conflito toma conta do restante do País, como se fosse uma fatalidade, que põe os beneficiários à distância da responsabilização criminal e da punição eleitoral.

A Constituição de 1988 proíbe greves no serviço público, em especial em casos em que agentes da lei portem armas e exerçam na prática das ruas, cujos ecos não chegam aos palácios, sob a indiferença generalizada dos que se arvoram na condição de monopolistas da consciência nacional. Os parlamentares, que, neste momento, disputam com o Executivo o domínio sobre fatias bilionárias do Orçamento da União, sem controle algum, para poderem usar apenas o próprio arbítrio para administrar as chamadas emendas individuais, nunca moveram uma palha para regulamentar essa restrição. E se aproveitam das brechas abertas por sua indiferença e seu insidioso cinismo para levarem vantagem na narrativa partidária e na disputa dos votos de cidadãos e vítimas.

Nessa regra geral parece não haver exceções. O estopim da dinamite de brutalidade que explodiu no Estado de José de Alencar foi aceso pela covardia, incompetência gerencial e incapacidade de enxergar um palmo adiante do nariz do partido chamado de Novo e de seu governador de Minas, Romeu Zema. Esse senhor, dos baixos da pusilanimidade cívica, concedeu um reajuste inviável de 46% aos PMs do Estado de Tiradentes. O aumento é ínfimo para cobrir as reais necessidades da tropa policial, incapaz de manter a ordem necessária para que ele governe a contento. Mas qualquer aluno do curso primário em Alfenas será capaz de perceber que seu Estado, quebrado, não tem condição de honrá-lo.

Mas o ocupante do posto pelo qual Juscelino Kubitschek passou fez o mais fácil a seu alcance. Pois pelo menos não faltou à aula de Sociologia Política no curso de Administração que ensina que a União sempre socorre Unidades Federativas em estado falimentar. A Pátria amada, idolatrada, salve, salve, não deixará os colegas contemporâneos do alferes morrerem de fome. Essa conta oportunista sempre ficou ao alcance dos governadores e foi paga por gestores federais escravos da demagogia militante.

No entanto, nunca nenhum deles se atreveu a romper esse círculo vicioso, seja por cálculo oportunista, seja por confiança comodista de que o destino manifesto de provedor-geral da República sempre será exercido além dos limites do Estado. O disparo de Zema no próprio pé, jogando no lixo a “novidade” de sua proposta de gestor, mais um irresponsável como os demais, passa ao largo, como sempre passou, das obrigações de seus colegas espertalhões, que deixam mofando nas gavetas a Lei de Responsabilidade Fiscal e o exemplo dado pelo santista Mário Covas em São Paulo de que a prioridade deve ser sanear financeiramente o Estado.

O Ceará de padre Cícero e Floro Bartolomeu, que deram ao bandido mais famoso do Nordeste, Lampião, uma falsa patente de capitão do Exército para combater a Coluna Prestes, sob a também falsa promessa de enfrentar a peregrinação iniciada sob o comando do general Miguel Costa, tem uma tradição de rotina sangrenta. Durante os governos do PDT dos irmãos Ferreira Gomes, do feudo de Sobral, e do PT de Camilo Santana, essa tradição foi radicalizada pela farsa da leniência disfarçada de tolerância. Uma rápida, e até preguiçosa, consulta ao Google velho de guerra alcançará a constatação dessa evidência: em 30 de maio de 2019, Cadu Freitas, do G1 da terra natal do beato Antônio Conselheiro, que enfrentou a República em Canudos (BA), descreveu: “O número de mortes provocadas por agentes da segurança pública no Ceará cresceu 439% entre 2013 e 2018, de acordo com a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). No início da série histórica, foram contabilizados 41 assassinatos por agentes do Estado; já no ano passado, o total foi de 221. O crescimento percentual estadual, em números gerais, é maior do que o ocorrido no Brasil, que teve aumento de 178,4%”. Quem acreditar na justificativa de defender os direitos humanos dos jagunços fardados da terra de Iracema na certa também aposta na inocência e na perseguição de Lula. Fazer o quê?

A entrada dos irmãos Ferreira Gomes, caudatários da política dos coronéis da Guarda Nacional desde a República Velha, incorporou à prática da violência pitadas de cinismo e cafajestice. Da dita “república de Sobral” a elite coronelista interiorana incorporou a essa tragédia de pólvora e sangue um típico componente de farsa de ocasião. O ridículo em série misturou componentes de ficção de A Peste, de Albert Camus, e Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, e cenas de chanchada da Atlântida na Copacabana dos anos 50. Na quarta-feira 19 o ex-governador Cid Gomes tentou atropelar com uma retroescavadeira uma malta de PMs amotinados, de capuz, derrubando o portão do quartel em que se abrigaram. A óbvia tentativa de assassinato em massa tinha conotações de piada de caserna, mas, de fato, configurou crime previsto no Código Penal. Se o invasor frustrado não for processado e preso por isso, o Brasil terá assumido a condição de satélite da truculência irresponsável e desmedida dos fanfarrões de Sobral, que se destacam por tratar política como briga de rua.

Para isso contribuíram socos e pontapés retóricos trocados pelo vereador do Rio Carlos Bolsonaro, o ex-ex-tudo Ciro Gomes, irmão do meliante, e o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), coadjuvante estridente da guerra que a esquerda sem votos pretende mover contra o governo constitucional. “‘Vambora’, Ciro. Já estou indo para Sobral, me espera aí!”, diz Randolfe em vídeo em cima de um trator. “(Randolfe) quer passar por cima de crianças e mulheres com o pessoal do nariz nervoso e lambedor de beiço do Ceará”, comentou Carlos. A esses golpes de MMA abaixo da linha da cintura o irmão mais velho do valentão da retroescavadeira reagiu como dele se espera, é claro. “Libélula deslumbrada, nós aqui no Ceará somos e seremos o pior pesadelo de sua família de canalhas, milicianos e peculatários corruptos. Quanto dinheiro roubado o Queiroz depositou na conta da mulher de seu pai, o canalha maior?”, reagiu o fracassado expelido no primeiro turno da eleição de 2018 pelo eleitor previdente. E o incauto terceiro pulou fora, que não é besta. Randolfe saiu de fininho temendo que seu fio de voz se perdesse nos berros do ex-componente da base da Arena, partido da ditadura: “Fiz um vídeo, em clima de carnaval, em que me solidarizava com a luta do senador licenciado Cid Gomes”, escreveu no Twitter. Ou seja, tentou se escafeder do boteco antes que o conflito entre Sobral e Barra da Tijuca produza um duelo sangrento no curral dos Ferreira Gomes. A guerra eleitoral no Amapá não leva a esses extremos, mas também é pródiga em mentiras pusilânimes.

Rodrigues, intrometido inconveniente, que entrou na briga sem ser chamado, trouxe valiosa compreensão da falsidade como arma política. Foi solidário aos rebelados, tratados como “desertores”, que é mesmo o que são, pelo governador petista, aliando-se aos cowboys sobralenses. Mas contra motins. Então, façamos chegar aos pubs festivos da esquerda a realidade das vaquejadas cearenses. Os PMs rebelados não são grevistas, mas promoveram um motim, cujo resultado pode ser contabilizado no total das inocentes vítimas de morte da guerrilha da retroescavadeira: pelo menos 122 da quarta-feira 29 do insano ato do coronelzinho Cid ao domingo 23 do debate entre o mano Ciro e Carlos, o filhinho do capitão.

Pela paz desses filhos de Deus sacrificados por incúria e indiferença gerais, urge tomar decisões. Processar o senador licenciado por tentativa de assassinato. Em seguida, localizar e prender suas vítimas eventuais, uma das quais atirou nele. Nunca anistiar desertores, contrariando a chusma de ex-oficiais de PM que ocupam Legislativo e Executivo federais. Um deles, o ex-major Jorge Oliveira, Jorginho para o clã Bolsonaro, cujo chefe anunciou que o nomeará para o Supremo Tribunal Federal, mesmo sendo bacharel em Direito há apenas 13 anos. E nada de intervenção federal no Estado. O PT precisa pagar pelo menos por seus erros de gestão, já que o STF se exime de pôr na cadeia seus excelentíssimos dirigentes, no caso de Lula pelo assalto impune ao erário.

·        Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 24 de fevereiro de 2020)

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Coluna semanal do Nêumanne: Brasil, república de cafajestes

Coluna semanal do Nêumanne: Brasil, república de cafajestes

José Nêumanne
Coluna semanal, distribuída pela Ric para vários jornais

Condenado por 9 a 0 em três instâncias, Lula passeia em Roma e Brasília posando de herói, socialista Coutinho é absolvido e fica solto e Bolsonaro insulta repórter na maior cafajestice

Parecia chanchada da época gloriosa de Oscarito e Grande Otelo nos velhos tempos da Atlântida. Ladrão e lavador de dinheiro julgado e condenado por nove magistrados, juiz, desembargadores e ministros, o ex-presidente Lula tinha um interrogatório marcado com o juiz federal Vallisney de Souza Oliveira, no âmbito da Operação Zelotes, em 11 de fevereiro último. Pediu para faltar ao compromisso, pois o papa Francisco o receberia no Vaticano no dia 13. Poderia ter viajado no dia 12 à noite, pois não faltam aviões de carreira para Roma nem empresários milionários dispostos a pagar velhos favores, ou conquistar futuros prováveis, dispostos a embarcá-lo num jatinho particular para recolhê-lo em Brasília e deixá-lo no aeroporto mais próximo da Praça de São Pedro.

Difícil mesmo era o bispo de Roma justificar o compromisso, marcado pelo amigo do amigo, condição lembrada pela empreiteira corrupteira Odebrecht para adotar como codinome do ilustríssimo advogadinho do PT alçado pelo mesmo Lula ao pináculo do Judiciário, Dias Toffoli. Em território brasileiro, dizem, vive a maior população católica cá da Terra. E a maioria dos brasileiros maiores de idade e aptos a votar elegeu presidente um obscuro parlamentar da direita, o capitão reformado Jair Bolsonaro, pelo simples fato de representar a esperança da população de afastar os gatunos travestidos de socialistas (et pour cause) por todos os séculos, amém, das chaves dos cofres do erário, preenchidos pela suada poupança de todos. O pontífice argentino e esquerdista, já havia resistido à tentação de vir ao Brasil para prestigiar a festa de uma negrinha, Nossa Senhora Aparecida, porque as instituições republicanas, constatados o crime e o pecado contra o oitavo mandamento (“não furtarás”) presente nas tábuas da lei, haviam decretado a aposentadoria perene e o ostracismo eterno ao Ali Babá de Caetés.

Mas o sumo pontífice recebeu e se permitiu fotografar pelo retratista oficial do líder da esquerda estelar pousando a caridosa mão habituada a empunhar o cajado simbólico de pastor do pescador Pedro sobre a fronte do condenado que nunca se arrependeu de seus crimes. E, depois, ainda manifestou sua satisfação por ter propiciado um périplo do gatuno pelas ruas da Cidade Eterna, num ato falho em que omitiu o fato de que seu dileto filho pródigo não frequenta aviões de carreira nem vias públicas, no lado de lá do Atlântico, para evitar insultos dos cidadãos que roubou.

De volta da Europa, o líder sindical que vendia greves e dirigente político que fazia favores remunerados a empreiteiros corruptores por América e África deu-se ao luxo de conduzir seus companheiros de rapina e fortuna a salões de hotéis de alto luxo para combinar a volta ao comando dos cofres públicos nas próximas cruzadas de engana-povo.

Trata-se de um caso espantoso, mas jamais singular. O socialista paraibano Ricardo Coutinho, protagonista de vídeos exibidos nos noticiários da televisão cobrando propinas de um lobista da Cruz Vermelha gaúcha, passou pela capital federal na mesma semana da visita do petista para ser ouvido pela direção de seu partido, o PSB de Miguel Arraes e Eduardo Campos, sobre os passos a dar para enganar os incautos nas eleições municipais deste ano e na presidencial e estadual de 2022.

Acusado de ter amealhado fortuna pessoal de R$ 130 milhões (o que significa que tungou dos cofres de um dos Estados mais pobres do Brasil, a Paraíba, pelo menos R$ 1,3 trilhão), sua insolência insolentíssima recebeu a grata (para ele) notícia de que continuará gozando de liberdade para conduzir os destinos da Orcrim Ricardo Coutinho com o mesmo pulso de ferro com que liderava o Coletivo Ricardo Coutinho, à época em que começou carreira política sob a sigla do PT do mesmo Lula. A 6.ª Turma do Superior Tribunal de Justiça manteve a decisão de soltura de que gozava com a condição de cumprir restrições que somente um néscio total acredita que serão fiscalizadas a contento pelas autoridades responsáveis.

Enquanto a esquerda comemorava em silêncio o patético desfile dos zumbis políticos Silva e Coutinho, a direita se refestelava em gargalhadas ao ouvir o inédito insulto desferido pelo inimigo de ambos, futuro adversário na eleição presidencial de 2022, Jair Bolsonaro, à repórter da Folha de S.Paulo Patrícia Campos Mello. Nunca o calão foi tão baixo no alto poder concedido ao ex-oficial pelo voto popular milionário.

A jornalista publicou uma reportagem implausível atribuindo a vitória eleitoral do presidente a disparos de WhatsApps nunca comprovados. Mas, talvez por ser usuário frequente da postura de acusar sem ter prova da acusação, Sua Insolência jogou a excelência do comportamento na vala comum e apelou para a ignorância (aliás, nunca uma expressão foi usada de forma tão precisa quanto esta). O pai do senador Flávio Bolsonaro, que distribuiu no Twitter vídeo apócrifo de um cadáver identificado não por suas notórias feições, mas por um esparadrapo nas costas com as inscrições Adriano Magalhães, fez a versão sangrenta do mesmo espírito que comandou a piada do pai, consagrando uma das práticas mais empregadas no buliçoso clã presidencial – a cafajestice.

 A maioria dos brasileiros deplora as atitudes de cafajestes e não as pratica, mas convive pacificamente sob o comando de gente como Lula, Coutinho, Jair e Flávio, que usam o baixo calão no bélico discurso político como se isso representasse um diferencial para o alto da glória, nunca para baixo da linha da cintura.

*Jornalista, poeta e escritor

 

 

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No Estadão desta quarta-feira: As memórias assassinadas de um ex-capitão de milícias

No Estadão desta quarta-feira: As memórias assassinadas de um ex-capitão de milícias

O silêncio forçado do bandido Adriano

é recebido com alívio por  criminosos  ocultos

O presidente da República, Jair Bolsonaro, tem feito das tripas coração para evitar que o primogênito, Flávio, responda por seus atos quando deputado estadual no Rio de Janeiro. Conseguiu dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, presidente, e Gilmar Mendes a interrupção do inquérito do Ministério Publico sobre movimentação atípica de verbas de seu gabinete pelo ex-assessor Fabrício Queiroz. Como a decisão foi tomada ao arrepio da lei, o plenário paralisou-a por 9 a 2, tendo Gilmar e Toffoli mudado seus votos. Agora resolver assumir publicamente que mandou o filho condecorar o miliciano Adriano da Nóbrega com a Medalha Tiradentes, a mais importante do Legislativo do Estado fluminense.

“Para que não haja dúvida. Eu determinei. Manda pra cima de mim”, disse, sábado 15, na inauguração da alça que liga a ponte Rio-Niterói à Linha Vermelha, no Rio. O fato data de 2005, quando o atual chefe do governo era deputado federal e seu filho senador, deputado estadual. Ou seja, não havia subordinação oficial deste ao pai, que, na ocasião, criticou da tribuna da Câmara a condenação do então tenente PM por homicídio do guardador de carros Leandro dos Santos Silva, 24 anos. “Naquele ano (2005) era herói da Polícia Militar. Como é muito comum, um PM quando está em operação mata vagabundo, traficante”, disse. De fato, Adriano comandou a operação em que o flanelinha foi morto, mas não atirou na vítima. Solto em 2006, foi absolvido em 2007. Havemos de convir que daí a ser herói da PM distam muitas léguas-luz.

Sábado ele fez referência ao fato de o suspeito de ter participado da execução de Marielle Franco não ter passado pelo trânsito em julgado para ser considerado culpado. E assim o exige o STF em nova jurisprudência, que tornou inútil a condenação em segunda instância para permitir que um condenado comece a cumprir pena.

O Bope, como é público e notório, tornou-se uma espécie de ai-jesus da repressão policial ao banditismo mercê do sucesso de público e crítica do filme Tropa de Elite, de José Padilha. A ironia do episódio é que o herói na tela é o capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, astro máximo da esquerda estelar, que execra a violência de qualquer ação policial e justifica o crime contra inocentes como resultado de injustiça social.

A ironia atinge o paroxismo ao se acrescentar que Moura é baiano como Rui Costa, governador de seu Estado. Foi lá que o herói que virou chefe de milícia, atividade criminal similar, mas oponente do tráfico de droga nos morros cariocas, foi cercado e fuzilado por 70 policiais locais e fluminenses (chefiados por Wilson Witzel).

O tiroteio foi evitado no domingo 9 de fevereiro em Esplanada (BA), cujo cemitério fora construído pelo beato Conselheiro a caminho de Canudos. Duas balas certeiras eliminaram o risco, temido pelos “bravos” que o cercaram pela habilidade no manejo do gatilho de arma capaz de produzir rajadas de tiros, de o assediado atirar. Setenta contra um, no caso, seria covardia, mas foi só cálculo. Pois a adoção num cerco de execução sob a inspiração do lema dos néscios – “bandido bom é bandido morto” –, de fato, serviu mesmo foi para emudecer um arquivo capaz de sujar a reputação de muitos meliantes vivos e poderosos.

A guerra suja da política expôs estupidez similar. Bolsonaro apontou o dedo em riste para o mando do PT de Costa. Este também adotou um tom falangista: policiais têm direito de salvar sua própria vida quando atacados, “mesmo que os marginais tenham laços de amizade com a Presidência”.

O eco dos disparos verbais com o passar dos dias deverá ser depositado nos paióis para a guerra já declarada entre os protagonistas deste faroeste caboclo até que o campo de batalha mude do roteiro do beato massacrado há mais de cem anos para os palanques em 2022. O silêncio forçado do ex-falso herói abatido produzirá o conforto e o consolo de bandidos secretos que operam por trás do palco na encenação diária da gestão pública sobre os inocentes explorados pelos maus costumes políticos.

Este artigo é publicado a 23 dias do segundo aniversário da execução da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes. Pressionada pela cobranças internacionais, a polícia de Witzel, o mais novo inimigo jurado da reeleição de Bolsonaro, dificilmente terá chegado ao que realmente interessa: quem mandou matá-los. Afinal, executantes do crime, apontados na investigação, são gafanhotos cujo estrago não se compara ao poder mortal dos mandantes que os contrataram para eliminá-los. A impossibilidade de contar com informações que poderiam ser dadas pelas memórias do ex-capitão de milícias certamente contribuirá – e muito – para adiar essa identificação para as calendas gregas.

Pouco mais de um ano depois desse assassinato, dois prédios desabaram, matando 24 pessoas em Muzema, no Itanhangá, no Rio, onde Marielle atuava. Além do saldo fatal, ecoa a frase infeliz do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, a respeito do tema deste texto: “A milícia começou numa intenção de proteger as comunidades. Na boa intenção. Começou com uma intenção de ajudar, mas desvirtuou e são bandos armados”.

Adriano tinha informações que foram apagadas perto do cemitério construído pelo Conselheiro: um bandido morreu para livrar muitos outros .

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pág. A 2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 19 de fevereiro de 2020)

 

No Blog do Nêumanne: A República treme à espera de quatro delações

No Blog do Nêumanne: A República treme à espera de quatro delações

José Nêumanne

Figurões da cúpula do Judiciário, advogados abonados, banqueiros de renome e até um ídolo da seleção temem o que Cabral, Schroeder, Santiago e Eike podem delatar sobre autoridades

Ainda a roubalheira do PT – em artigo sob esse título, publicado neste espaço semanal no blog, avisei: “A Lava Toga, anunciada pelo site Antagonista, vem aí.” Não me vanglorio de profecias, pois não sou bom profeta e não costumo exagerar nelas, preferindo seguir o que me ensinou meu primeiro chefe de reportagem, JB Lemos, na Folha de S.Paulo: “Bola de cristal não é instrumento a ser usado por jornalista”. Mas a afirmação data de 8 de janeiro de 2019, mais de ano atrás. Não tinha muita chance de dar certo, mas deu. Pois com a cumplicidade do primogênito do presidente da República, Flávio Bolsonaro, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a detona todo dia, toda hora.

Mas na quinta-feira passada, 6, o ministro Luiz Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), logo lá, homologou a delação premiada do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, preso desde 2016 e colecionador de 13 condenações que somam mais de 280 anos de prisão. Tudo o que é preciso saber a respeito da delação está na reportagem no Blog do Fausto Macedo no Portal do Estadão, que pode ser acessado ao clicar aqui.

O leitor saberá, então, que tal acordo contém 20 anexos que se referem a pessoas com foro especial, principalmente nomes do Judiciário. Cabral revelou ainda uma lista de 97 nomes de juízes, desembargadores, ministros de tribunais superiores e membros do Ministério Público. Custou para sair, mas a Lava Toga vem ou não vem?

Vem, e pode vir ainda mais pesada. Regis Fichtner, ex-chefe da Casa Civil do governo do delator, foi preso e, então, anunciou que pretendia assinar um acordo de delação premiada e contar “causos” do Judiciário. Só que ele foi solto rapidamente pelo desembargador Paulo Espírito Santo, do Tribunal Regional Federal da 2.ª Região (TRF-2), sumiu e calou. Seu padrinho era o todo-poderoso em indicações para Cortes superiores. E por causa da “indicação” o ex-governador chegou a se separar da mulher, Adriana Ancelmo, tida como sua cúmplice e que também foi presa, mas depois solta com tornezeleira eletrônica. O casal desentendeu-se porque ele se recusou a indicar o sócio e ex-marido dela, Sérgio Coelho, para o Superior Tribunal de Justiça (STJ), preferindo apadrinhar Marco Aurélio Belizze, cunhado do já então poderosíssimo Fitchner. Como tendo bom padrinho ninguém morre pagão, a ameaça de delação de Fichtner tomou doril. Em nome dele mesmo, de Belizze e de Espírito Santo, amém!

Cabral também soprou a promoção do ministro Luiz Fux do Superior Tribunal de Justiça (STJ) para o STF. E o futuro presidente do Judiciário beijou o pé de Adriana Ancelmo pelo feito. Quem esqueceu o fato poderá ter a memória reavivada agora na delação do profano padrinho de todos. Durante este último ano inteiro, tenho lembrado que a delação do ex-governador só vale se atingir o pináculo do Judiciário. E alguns grã-finérrimos escritórios de advocacia dificilmente escaparão.

A maioria “garantista” do STF poderá desautorizar Fachin, alegando que a Polícia Federal (PF) não é adequada para acolher uma delação que foi negada pela Lava Jato. Certo é, porém, que, em suas confissões ao juiz Marcelo Bretas, da Lava Jato do Rio, o candidato a delator andou antecipando alguns casos. Contou, por exemplo, que foi achacado por parlamentares federais e teve de fazer tratos com ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) e do STJ.  A julgar pelos depoimentos já feitos, ele  vai denunciar ainda negócios nada republicanos entre o governo do Estado do Rio e a Gamecorp, do primogênito de Lula, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, seus parceiros Fernando e Kalil Bittar e o agora ex-sócio Jonas Suassuna. E as chuteiras do campeão mundial Romário podem lhe queimar os pés por conta do que teria recebido de propinas pelo apoio do senador à eleição de Luiz Pezão no segundo turno, em 2014.

Luiz Vassalo, Pepita Ortega e Fausto Macedo, em furos diários, estão abrindo a caixa-preta da supertele do calote, Telemar/Oi, e da Gamecorp, do Lulinha, investigados na Operação Mapa da Mina, da PF. Atenção, essa investigação é da Lava Jato de Curitiba, porque o Ministério Público de São Paulo nada apurou e pediu arquivamento. O relatório da PF, publicado pelo Estado, datado de 13 de janeiro de 2019, contém 25 itens arrecadados na sede da Gamecorp, de Lulinha, sócios e ex-sócio, na sua maioria contratos com a Oi. Chamou a atenção de Pepita e Fausto contrato assinado em 24 de abril de 2008, com montante mensal de R$ 450 mil. Unindo os pontos, a supertele foi anunciada em 25 de abril de 2008. Que coincidência, não é mesmo? Lembra-se da lei que apelidei de Telesoca, lembrando a Lei Teresoca, de 1943, com a qual Getúlio presenteou Chatô com o pátrio poder sobre a filha Teresa Acuña?

Tudo isso é material para a Operação Mapa da Mina, que investiga os R$ 132 milhões transferidos da tele dos amigos Sérgio Andrade e Carlinhos Jeireissati para a Gamecorp, em contrapartida por diversas decisões favoráveis a ela, incluindo a lei de pai para filho, assinada pelo benemérito Lula papi, permitindo a criação da supertele, proibida pelo marco regulatório das comunicações. Essa caixa-preta será aberta e levará a outras aberturas. As investigações de Curitiba avançam e Marco Schroeder, ex-executivo da Oi, testemunha ocular do caso, revelará o “mapa da mina”.

Na sexta-feira 7, a juíza Gabriela Hardt, da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba, manteve públicas as investigações da 69.ª fase da Lava Jato, sobre as transferências paternais da Oi a empresas de Lulinha. Ela negou representação da defesa para investigar abuso de autoridade após reportagens revelarem relatórios da PF nas investigações.

Para a juíza, a “retirada do sigilo tem o condão de propiciar “não só o exercício da ampla defesa pelos investigados, mas também o saudável escrutínio público sobre a atuação da administração pública e da própria Justiça criminal, o que tem se mostrado importante em operações de relevo como esta, tudo em consonância com a devida ponderação de valores constitucionais”. Muito bem feito e bem escrito, pois a alteração paternal da norma permitiu a criação da supertele caloteira. E as investigações da Mapa da Mina avançam como manda o interesse público: às claras.

A delação do ex-presidente da Oi Marco Schroeder tratará de detalhes da criação da supertele, incluindo repasses milionários à Gamecorp, a Lulinha, a Lula e a Dilma, com referências à Previ. As investigações ganham outra testemunha da criação da supertele e da atuação da Previ, Gerardo Xavier Santiago, ex-advogado da Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil. Mais uma memória viva: o delator advogou para a Previ de 2000 a 2007. Em entrevista à revista Veja, em 2010, afirmou que o fundo, sob o comando de Sérgio Rosa, era uma fábrica de dossiês,  um braço partidário a serviço do PT, que mantinha um esquema de espionagem, como denunciei no livro O que Sei de Lula (Topbooks, 2011). Vale a pena assistir à entrevista de Gerardo Santiago. Ainda está na internet, clique aqui.

Na última edição da revista, o advogado relatou a existência de um grupo que ajudava a preparar dossiês contra adversários políticos no maior fundo de pensão da América Latina. Na entrevista em vídeo, ele detalha os tipos de documentos levantados e como eram trabalhados. Diz que o “conjunto da instituição” trabalhava em benefício de interesses de grupos políticos e do governo. “Era pedido como se fosse uma tarefa normal, um serviço rotineiro.” Esclarece e estarrece. Como um fundo de pensão virou bunker do PT? Isso resulta do aparelhamento do Estado e da corrupção generalizada que assolou o Brasil na gestão petista. Como tudo o mais…

E vem mais aí: na delação premiada que negocia com a Procuradoria-Geral da República (PGR), o empresário Eike Batista entregará executivos de três bancos que teriam participado de esquemas heterodoxos quando os seus negócios começaram a naufragar, conforme informou Lauro Jardim no Globo. Os anexos que tratam do mercado financeiro e de Aécio Neves são tidos como o filé mignon da colaboração.

Louvada será a Lava Toga e mais ainda seja a Lava Jato, que continua a quebrar a “simbiose ilícita” entre empresas e partidos. Certo, dr.  Moro?

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicada no Blog do Nêumanne, na segunda-feira 10 de fevereiro de 2020)

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Nesta quarta-feira no Estadão: Supremo reduzido a elemento da briga eleitoral

Nesta quarta-feira no Estadão: Supremo reduzido a elemento da briga eleitoral

Moro no STF pode ser a solução para Bolsonaro,

Centrão e esquerda o afastarem das urnas

A dois anos e meio da campanha eleitoral em que o sucessor de Jair Messias Bolsonaro será eleito pela maioria dos cidadãos aptos a votar e a três do começo do futuro governo, a sucessão em questão está introduzindo no debate uma novidade insólita e maligna. Pela primeira vez na História cada vez mais insana desta República, uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) poderá ser preenchida por interesses eleiçoeiros. O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, entra no páreo não mais para preencher a condição de jurista de notório saber e reputação ilibada, como exige a ordem constitucional vigente. Mas por poder representar eventual empecilho a seu chefe e ser, com certeza, disparado favorito na disputa contra qualquer adversário.

Durante o ano inteiro de 2019, primeiro da nova legislatura e também do mandato presidencial, os condenados, acusados, denunciados e suspeitos de corrupção na cúpula dos três Poderes da República fizeram das tripas coração para reduzir seu poder. E, se possível, desalojar do cargo de primeiro escalão o ex-juiz federal que comandou a mais bem-sucedida e popular operação de combate à corrupção no País. Congressistas sabotaram, primeiro, suas dez medidas contra o furto levadas ao Legislativo por procuradores. Em seguida, fizeram o diabo para desidratar as sugestões que o agora chefe da pasta lhes encaminhou oficialmente sob o nome genérico de fantasia “pacote anticrime”. Nesse afã, introduziram no texto projeto soprado pelo ministro do STF Alexandre de Moraes e adotado por Margarete Coelho (do PP de Paulo Maluf no Piauí governado por Wellington Dias, do PT), presidente da comissão instalada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Nada disso, contudo, reduziu em um mísero ponto porcentual a popularidade de quem pretendiam atingir.

A esquerda, que atribui a Moro a liderança da conspiração para excluir da disputa eleitoral seu ídolo Lula, recorreu para tanto a um expediente em que misturou delito com cavilação. Um grupo de estelionatários habituados a crimes virtuais, hackers de Araraquara (daí o neologismo genial da colega Cora Rónai, “arararraquers”) invadiu os diálogos de cerca de mil autoridades, entre as quais o inimigo comum, no aplicativo russo Telegram. E neles encontrou – em alguns casos, inseriu – diálogos com os quais tentaram insinuar que o magistrado que condenou seu líder na primeira instância comandou as ações do Ministério Público em relação ao réu. O resultado, divulgado pelo site The Interecept Brasil, passou a ser a bola sete para desmoralizar a Lava Jato.

A conspiração, comandada pelo próprio Lula na chamada sala “de estado-maior” da Superintendência da Polícia Federal (PF) em Curitiba, contou com a ajuda da candidata a vice na chapa do poste 2 do ex-metalúrgico, Manuela d’Ávila, e os serviços do americano Glenn Greenwald. Este deixou no condado de Nova York, onde vivia, um rastro de participação em pornografia numa empresa em que era associado de seu então companheiro e uma prática pouco recomendável de sonegação de impostos.

O conta-gotas de ácido venenoso usado no estratagema, efetuado em parceria com a Folha de S.Paulo, a Band News e a revista Veja, também em nada atingiu o objetivo do truque empregado. Recentes pesquisas de opinião, inclusive da Datafolha, de uma das empresas parceiras, revelam, ao contrário, a alta dos índices de popularidade do ministro da Justiça, superando os do chefe e dos empenhados em derrubá-lo.

O fiasco da invasão criminosa das mensagens telefônicas – nunca submetidas a perícia – e a constatação de que o inimigo continua fora do alcance de suas punhaladas parecem ter levado os desafetos políticos do juiz paranaense a alterar a tática. Isso inclui a mudança de planos do próprio presidente da República para a indicação do sucessor do decano do STF, Celso de Mello, em dez meses. É público e notório que ele há muito havia desistido de indicar Moro para a vaga, sob a falsa alegação de que o Senado não aprovaria. E já anunciou nomes para essa cadeira e para a que será desocupada no ano que vem por Marco Aurélio Mello.

Para a primeira Bolsonaro sacou do colete o advogado-geral da União, André Mendonça, bajulador de Lula e de Dias Toffoli. Para a outra já foi anunciado o ex-major da PM Jorge Oliveira, “Jorginho” para o clã presidencial, secretário-geral da Presidência e bacharel em Direito há 13 anos. A razão para a nomeação foi dada sem subterfúgios pelo deputado Eduardo Bolsonaro: ele é de todos os pretendentes o mais leal a Jair Messias Bolsonaro.

As duas eventuais indicações seriam o apanágio da decadência do STF. Mas o próprio chefe do governo já parece ter entendido o recado dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Rodrigo Maia, de que o herói do populacho em justiça seria aprovado na sabatina pelos senadores.

Conselhos de interlocutores palacianos parecem ter convencido o capitão a se livrar e deixar os chefões partidários liberados da disputa talvez inglória com a eventual presença do nome de Moro na urna eletrônica em 2022. O custo dessa operação “salve-se quem puder” poderá ser uma quarentena de seis anos sem disputa nas urnas para o ministro. Será a confirmação de que Deus escreve certo

José Nêumanne Pinto. Jornalista, poeta e escritor

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No Blog do Nêumanne: Bob Dylan, BNDES e Oi na mesma parada dura

No Blog do Nêumanne: Bob Dylan, BNDES e Oi na mesma parada dura

José Nêumanne

A Justiça e o Congresso tornarão inúteis explicações toscas do presidente do BNDES sobre propinas no banco e ex-executivo da Oi promete mais uma delação bomba sobre supertele

Sabe aquela canção de Bob Dylan que o colocou nas paradas como ídolo no topo da roda-gigante do mercado musical e o consagrou como ícone da cultura pop, Blowin’ in the wind? Se não sabe, lembre-se que o petista Eduardo Suplicy adorava cantá-la no microfone da tribuna do Senado. E os ventos, ao que tudo indica, estão mudando mesmo. Seu refrão irresistível é: “A resposta, meu amigo, está soprando no vento”. E também mudam os tempos, como revela outro clássico de Dylan em canção de protesto, The times they are a-changing.

Algum bom amigo, desses que não se acham normalmente em subordinados, mas podem florescer em parceiros de verdade, poderia avisar ao presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, que seu enorme esforço de originalidade, cinismo e interpretação na entrevista que deu a respeito do relatório dos auditores dos escritórios de advogados Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP (americano) e Levy &. Salomão Advogados (seus associados brasileiros) não enganou ninguém, nem o mais tolo dos interlocutores.

Em nenhuma resposta foi justificado o fato de a auditoria contratada por Paulo Rabello de Castro no governo Temer ter seguido a um custo muito maior nas gestões de Joaquim Levy e do próprio “yuppie da Tijuca” sob nova direção. Seja qual for o custo – R$ 70 milhões, como dizem alguns incrédulos do mercado, R$ 48 milhões, conforme foi divulgado anteriormente pelo próprio banco público, ou R$ 42,7 milhões, valor, enfim, informado pelo atual presidente –, ele é absurdo. Com propinas citadas nas delações de Antônio Palocci, vasculhadas na comissão parlamentar de inquérito (CPI) da Câmara dos Deputados, graças, sobretudo, aos esforços da vice-presidente Paula Belmonte (CID-DF), não havia por que omitir os resultados até agora alcançados por esses instrumentos de investigação e ficar na dependência exclusiva de um escritório de advocacia que nunca, em momento algum, poderia alegar a necessária imparcialidade para produzir o que dela a Nação (e o próprio presidente Jair Bolsonaro) esperava. Cleary Gottlieb advogou para a Petrobrás, que fez acordo com os acionistas americanos, aos quais pagou US$ 3 bilhões (R$ 12 bilhões em valores atualizados) para desistirem das ações movidas contra a petroleira. A Odebrecht, que está dando um calote de R$ 4,7 bilhões no banco presidido pelo jovem operador de mercado, também foi cliente do mesmo escritório. Faltou Montezano explicar por quê. Será que encontrar podres na contabilidade do BNDES será semelhante a topar com água no Mar da Tranquilidade, na Lua?

Paulo Rabello de Castro, Joaquim Levy e Gustavo Montezano também deveriam saber que foi por isso que essas empresas não acharam irregularidades no BNDES. Primeiro, seu relatório, ainda escondido do contribuinte, que paga o salário dos dois ilustres economistas e do boy do clã Bolsonaro e de Paulo Guedes, reconhece que não teve acesso a toda a documentação sobre a relação dos marchantes Batista de Anápolis com a mais generosa instituição bancária de que há notícia ter existido cá entre nós. Juan Giráldez, um dos sócios do escritório, testemunhou a favor de Lula no processo da cobertura no Guarujá. Uma audiência com o ministro da Justiça, Sergio Moro, explicaria por que este determinou que Cleary Gottlieb pagasse a tradução do depoimento favorável do gringo. Por que não foi pedida? Na verdade, o trio citado liderou uma operação abafa.

Mas a CPI do BNDES, a Justiça e Palocci já fizeram o serviço pelo qual a empresa Cleary foi contratada, e não o fez. O clã Bolsonaro e o dr. Paulo Guedes não estão cobrando do “yuppie da Tijuca” que assuma as consequências? Afinal, seus dois antecessores já pularam fora do barco.

E com os ventos que mudam vêm mais boas notícias, prenunciando bom tempo. No final de 2019 Paulo Guedes baixou uma norma que acabou com as eleições para o comando dos fundos de pensão Previ, do Banco do Brasil, Funcef, da Caixa Econômica Federal, e Petros, da Petrobrás. O objetivo é pôr fim a indicações políticas no comando das fundações, que eram o último reduto do PT, um bunker de onde vinha parte dos recursos para o financiamento ilegal de campanhas políticas. A ideia é que os Pizzolatos, os Sergios Rosas, os  Wagners Pinheiros não venham a existir mais. Até que enfim, a influência do PT nessas fundações vai acabar. Nesta semana o Banco do Brasil nomeou um novo diretor para o Previ, profissional experiente sem ligações partidárias. É assim que deve ser. A ordem do Bolsonaro e do Paulo Guedes é faxinar.

E olha que vem bomba aí. Lula e o BNDES são alvo de novas delações premiadas. A abertura da caixa-preta do BNDES não perde por esperar. Sem o yuppie e o contrato milionário de mais de R$ 42 milhões, da Cleary Gottlieb, a caixa-preta já aberta pela Justiça será escancarada por novas delações premiadas. Já comentei neste blog sobre as omissões premiadas que começam  aparecer. Otávio Azevedo, da Andrade Gutierrez, omitiu de sua delação premiada as irregularidades envolvendo o filho de Lula. O executivo nada mencionou sobre a compra do sítio em Atibaia. Essas omissões levam a força-tarefa do Ministério Público a rever a delação premiada do desmemoriado. Por isso ele foi alvo de três mandados de busca e apreensão na Operação Mapa da Mina, 69.ª fase da Lava Jato, deflagrada em dezembro de 2019, que  apura repasses milionários da Oi para a Gamecorp, do Lulinha. Enquanto isso, as omissões premiados estão sendo reveladas em outra seara, a das maracutaias telefônicas.

Otávio Azevedo, por exemplo, terá sua delação premiada revisada por haver omitido o pagamento da Telemar, da Andrade Gutiérrez, para Fábio Luiz Lula da Silva, o prodigioso Lulinha, e sua empresa Gamecorp.

A força-tarefa ligou Azevedo, à frente da Oi, aos repasses de R$ 132 milhões à empresa do filho de Lula e concluiu que parte de tais recursos pode ter sido usada na compra do Sítio Santa Bárbara, em Atibaia. E mais: nova delação – vamos dizer, a delação das delações, a bala de prata no Lula – está a caminho e vai deixar Lula, Lulinha, Gamecorp, supertele e seus maestros e cúmplices mais enrolados ainda na Justiça. É que Marco Schroeder, ex-executivo da Oi, fechou acordo de delação premiada. Ele foi executivo da Oi de 2002 a 2017, ocupou  vários postos de comando na telefônica, da Contax, empresa controlada pela  Andrade  Gutierrez, e foi conselheiro da Gamecorp, do “gênio” Lulinha, indicado por  Azevedo. Schroeder participou de todos os principais eventos da história da Oi.

A recompensa da Oi pela assessoria do ex-catador de fezes no Simba Safári, a criação da supertele, que não sairia sem mudança na legislação, uma lei de pai para filho, foi permitida e assinada pelo próprio presidente (chamo-a de Lei Telesoca, lembrando a Lei Teresoca, com que Getúlio Vargas presenteou Chatô para permitir que exercesse o pátrio poder sobre a filha Teresa Acuña). E Lula não vai ter como dizer que não sabia.

Pois a supertele remunerava a empresa do Lulinha com uma verba corporativa contabilizada como assessoria jurídica. Com esse notório saber jurídico, Lula deve estar arrependido  de não ter indicado seu filho  para o Supremo Tribunal Federal. E vai sobrar para a Dilma também, pois ela era a ministra todo-poderosa que cuidava da criação da tal da supertele.

Schroeder, como  diretor da Contax, havia sido  citado na Lava Jato e foi alvo de busca e apreensão na Operação Mapa da Mina. Ele fechou um acordo de delação premiada e está delatando a supertele. Vai envolver Lula, Dilma, Lulinha, sítio em  Atibaia e Previ, que estava  na moita, bem escondidinha. É, minha gente, só a verdade nos salvará.

E não vai ficar nisso, não, viu? Nessa tarefa de fuçar o lixo enterrado, advogados também estão na mira da Polícia Federal e do Ministério Público (MP). Causídico a serviços de famosos como Delcídio Amaral e Palocci, especializado em delações, ou, melhor dizendo, em omissões premiadas, Figueiredo Basto foi denunciado pelo MP por enviar dinheiro ilegalmente para fora do País. Agora, o doutor é investigado pela acusação de receber mesada de US$ 50 mil (R$ 200 mil) por mês para proteger Dario Messer, doleiro dos doleiros, das autoridades.

Como é apropriado recordar nesta temporada de chuvas de véspera de carnaval, as águas vão rolar…

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 3 de fevereiro de 2020)

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