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Política

No Estadão desta quarta-feira: “Espelho meu, haverá alguém mais indesejado do que eu?’

No Estadão desta quarta-feira: “Espelho meu, haverá alguém  mais indesejado do que eu?’

José Nêumanne

Para recuperar a paz que jogou no lixo

Bolsonaro recorreu a Temer, o impopular do Brasil

Em 8 de setembro, um dia após bolsonaristas terem ocupado ruas do País e sequestrado o verde-amarelo (apud José Murilo de Carvalho), que a soit-disant oposição lhe presenteou, Jair Bolsonaro parodiou a rainha má perguntando ao espelho: “Haverá alguém mais impopular do que eu?”. Sem resposta dela nem dos sete anões, telefonou ao general Augusto Heleno, que questionou o coronel João Baptista Lima, da PM de São Paulo, e obteve a resposta: “Temer”. Batata, retrucaria, se fosse Nélson Rodrigues. De fato, o antecessor bateu recorde de impopularidade em junho de 2018, com 82%. A própria rejeição, também segundo o Datafolha, foi de 51%, em julho de 2021. “Bateu na trave”, suspirou. E ordenou: “Liga pro Michel, tá o.k.?”.

Até aqui é tudo ficção. Como inteirinha falsa foi a campanha presidencial de 2018, vencida sem que o candidato do PSL participasse de sequer um debate com adversários e dispusesse de ínfimos segundos na propaganda eleitoral. Nesta, aliás, apenas mentiu descaradamente e se comprometeu com o que jamais cumpriria. Absolutamente verdadeiro é que, na semana em que fez mais uma promessa que não pagaria a Belzebu, o chefe do Executivo recorreu ao antecessor para pregar outra patranha: a de que não cumpriria ordens do relator dos processos que pode chamar de seus no Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. Então, Michel pai ocupou a única cadeira de um jato da FAB movido a querosene pago pelo deserdado pagador de impostos com a companhia isolada de uma folha de papel em que Bolsonaro assumiria a versão presidencial de sua “escolha de Sofia”, com a dúvida sobre que lorota negaria antes: mandar as ordens da Corte para as cucuias ou atuar dentro de quatro das inúmeras linhas da Constituição, mandada às favas, juntamente com os escrúpulos, pelos chefões de todos os Poderes?

Assim, a solidão do ex com a nota das mesóclises evitadas no colete tornou-se o símbolo de inaceitável desaforo de dois chefes de Estado, um ex e outro que se prepara para também vir a sê-lo, cometido contra a bolsa rasgada do cidadão. Mais do que o despoderado feito escriba da nota de salvação, que o exibiu à patuleia, uma vez mais humilhada, sua súbita, surpreendente, inesperada e inusitada tarefa de socorrista das instituições é o retrato do escabroso descaso dos homens públicos em relação ao público propriamente dito. A expressão deve ser entendida, pois, como metáfora da que define a profissão mais antiga… Ou seja, o detentor teórico e retórico do poder é a ficção mais absurda. A menos que o verbo constitucional emanar seja uma peça de péssimo gosto do despudor de políticos como o senador Marcos Rogério, arauto de negociatas de vacinas na CPI da Covid.

O povo, que não apoiou Bolsonaro no dia 7, ao contrário do que apregoam seus bajuladores, deu uma notória banana a quem convocou atos pelo impeachment do mandrião, cuja maior mentira é afirmar que governa o Brasil. Mas ainda não trabalhou um segundo sequer no emprego mais importante da república do faz de conta. E confessa com a maior caradura ao repetir que nada tem que ver com quase 600 mil mortos pela covid-19, 14 milhões de desempregados, a fome dos deserdados, a inflação de dois dígitos, a crise hídrica (negando-se até a alertar). Numa metáfora macabra do número sete, segundo o vulgo conta de mentiroso: o tudo que virou nada no Dia da Independência, o preço da gasolina na bomba, o aumento de 7% do gás de cozinha, etc.

Já é hora, pois, de substituir o lema “ordem e progresso” da bandeira positivista da República pelo “me engana que eu gosto” do autogolpismo negacionista e negocionista atual. Como relatou com simplicidade e sabedoria o filósofo e economista Eduardo Giannetti da Fonseca no clássico Auto-engano. E explicou com profunda clareza na entrevista que reproduzo no Blog do Nêumanne no portal do Estadão. “Bolsonaro promete descumprir ordens judiciais, mas não as descumpre na prática”. Ou seja: ruge como o leão da MGM, mas age como o ratinho esperto Jerry, escondido no buraco pelo qual não passa o gato Tom.

O capitão-terrorista prepara-se para superar todos os futuros colegas ex-presidentes quando passar o bastão adiante em violação da compostura do cargo máximo. Fernando Henrique atua como peru de pôquer, dando palpite sem assumir responsabilidade. Lula disputará a Presidência atropelando as fartas provas de sua atuação no maior escândalo de corrupção da História. Dilma beijará a mão do ex-chefe após levar uma surra vergonhosa na eleição ilícita que disputou para o Senado em Minas mercê de mimo do então presidente do STF, Ricardo Lewandowski.

E Temer patrocinou o conchavo sigiloso ao telefone entre o indiciado em quatro processos do STF e um no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o relator deles, Alexandre de Moraes. Cúmplice da decisão espúria de parcialidade do ex-juiz Sergio Moro, acusado de conversar com procuradores. Mas demolidores do óbvio ainda chamam a tríplice aliança telefônica de “diálogo entre Poderes”. Que só pode ter sido, se tanto, um acerto obsceno entre campeões do cinismo implícito.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na página A2 do Estado de S. Paulo na quarta-feira 15 de setembro de 2021)

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No Blog do Nêumanne: Mentira virou lei na república de Bolsonaro

No Blog do Nêumanne: Mentira virou lei na república de Bolsonaro

José Nêumanne

Jurista ilustre da USP protagoniza vídeo falso “encantado” com manifestação bolsonarista e jornalista respeitado faz documentário pondo em dúvida veracidade de facada de Juiz de Fora

A notícia autêntica mais recente sobre a atividade do professor da respeitável Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) Modesto Carvalhosa dá conta do lançamento de seu livro Uma nova Constituição para o Brasil – de um país de privilégios para uma nação de oportunidades. Muitos admiradores de suas críticas firmes e independentes à corrupção do PT e seus aliados, assunto em que pontifica com autoridade, e às arbitrariedades anticonstitucionais do Supremo Tribunal Federal (STF), constituído para zelar pela ordem jurídica, se assustaram com sua mais recente aparição nas redes sociais. Remetente anônimo divulgou no WhatsApp vídeo com pronunciamento de sua lavra admitindo o aval popular a arreganhos fascistoides do presidente Jair Bolsonaro. E, por conta disso, adotando as teses mais estapafúrdias deste.

 Seria absurdo, se não fosse falso. Qualquer pessoa que tenha alguma vez na vida ouvido um “bom dia” do mestre já saberia, por não ter reconhecido sua voz, que se tratava de um produto da modalidade das fake news. Isso evidentemente não bastaria. E o lesado, avisado por muitos de seus conhecidos, tratou de desmentir o conteúdo em post de sua autoria em suas contas disponíveis no mundo virtual, em tom duro e assertivo. Mas ele próprio sabe que isso seria insuficiente. Advogado profissional de militância notória no combate à corrupção, setor em que atua com autoridade e desenvoltura, ele procurou meios legais para interromper a falsidade imediatamente. E qual não foi sua surpresa ao se deparar com um obstáculo inesperado: foi alertado por um desses filtros de verificação de veracidade no universo virtual e nada virtuoso de que uma medida provisória (MP) da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, em vigência desde a segunda-feira 6 de setembro, passou a manietar redes que tentem deter a circulação de patranhas como aquela.

O cinismo absurdo ganhou fumaça de péssimo, mas institucional, direito com texto divulgado pela Advocacia-Geral da União (AGU) em resposta ao ultimato apresentado na quinta-feira 9 de setembro pela ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Rosa Weber. Num palavreado vago e sem citar nenhuma fundamentação jurídica, o órgão argumentou que as tais mudanças constituem “medidas necessárias, adequadas e proporcionais para resguardar a fruição e o exercício, pelos usuários de redes sociais, de direitos fundamentais como liberdade de expressão, ampla defesa, devido processo legal”. No universo que respeita o Direito havia a expectativa de que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, devolveria o texto ao remetente pela razão óbvia inicial de falta de urgência e relevância, condições exigidas para a existência de uma MP.

No entanto, isso não ocorreu. O “boneco de Olinda”, que oscila como biruta de aeroporto em relação aos pedidos e ordens absurdas do Palácio do Planalto, que comprou votos de senadores com emendas parlamentares para chegar à presidência do Senado e, consequentemente, do Congresso, agiu de acordo com sua natureza, mas contra a lógica, a lei e o pudor. Tratando a Casa dos “mais velhos” como se fosse um grupo escolar, decretou feriado da “semana da Pátria”, em teoria para evitar uma guerra entre Judiciário e Executivo, cancelando sessões da CPI da Covid, que desagrada ao capitão de malícias, e paralisando o funcionamento das assessorias da Casa, que não se furtaram, ainda assim, a apontar para as óbvias inconstitucionalidades contidas na providência. Até a assessoria jurídica do Ministério do Turismo, chamada a manifestar-se na espera de que avalizasse o poderoso chefão, admitiu o óbvio: o texto, tal como publicado, limita a remoção de fake news, desinformação e conteúdos de ódio em redes sociais. No caso, o óbvio ulula. Pois a defesa da liberdade de expressão usada para atribuir a terceiro opinião oposta à da vítima chega a ser inédita em matéria de escárnio. À espera de que o “boneco de Olinda” cumpra o que insinuou, a honra e a reputação intocável do atingido seguem atingidas de forma irremediável até que lhe sejam devolvidas.

No último fim de semana, outro assunto mereceu a atenção de muitos interessados na questão das mentiras à Goebbels do desgoverno do capitão artilheiro. O jornalista Joaquim de Carvalho divulgou no site 247, em que assina uma coluna, um documentário meticuloso, no qual levanta dúvidas consistentes sobre a facada de que o candidato eleito em 2018 se diz vítima por um ex-militante do PSOL em comício em Juiz de Fora, em 6 de setembro de 2018, durante a campanha. Depois que a OAB, presidida por Felipe Santa Cruz, petista, portanto interessado em garantir presença de Bolsonaro no segundo turno em 2022 para facilitar triunfo de seu candidato, Lula, impediu que se investigasse quem pagou os advogados grã-finos do pobre agressor, Adélio Bispo, dado essencial para a apuração completa dos fatos.

A estranheza ganhou corpo quando se tomou conhecimento de que a defesa da eventual vítima, na pessoa do lobista Frederick Wassef, perdeu bisonhamente o prazo do recurso contra a decisão do juiz da comarca da cidade mineira de confirmar a teoria da Polícia Federal de que o agressor seria um “lobo solitário”. O documentário, de um jornalista com currículo respeitável, tendo sido subeditor de Veja e repórter do Jornal Nacional, entre outros veículos, e ganho os Prêmios Esso (equipe, 1992), Vladimir Herzog e Jornalismo Social (revista Imprensa), poderá servir de pista para o deputado Alexandre Frota apontar razões para convocar CPI a respeito da facada, apelidada de fake-ada desde que sua colega Joice Hasselmann contou ter ouvido de Bolsonaro: “se eu levasse facada, ganhava a eleição”.

*Jornalista, poeta e escritor

 (Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira, 13 de setembro de 2021)

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No Blog do Nêumanne: Boa lição da Anvisa a Bolsonaro

No Blog do Nêumanne: Boa lição da Anvisa a Bolsonaro

José Nêumanne

A agência agiu corretamente ao suspender Brasil X Argentina, punindo malandragem em nome de falso espírito esportivo, e presidente deveria parar de dar mau exemplo e obedecer à lei sanitária

A interrupção do jogo entre Brasil e Argentina pode ter sido um péssimo negócio para as confederações de futebol dos dois países e emissoras e anunciantes envolvidos no evento. Mas, do ponto de vista da higidez das instituições republicanas, merece uma comemoração de campeonato, há muito tempo disputado, mas nunca conquistado. Ao confirmar o milenar dístico latino – dura lex sed lex (a lei é dura, mas é a lei) –, pôs no devido lugar atravessadores de um grande negócio mundial – o futebol –, que se aproveitam da paixão popular para se darem bem, nem sempre usando meios legítimos e muitas vezes abusando de privilégios.

Urge aproveitar as lições dadas e aprimorar a impessoalidade e a verdade, sob cuja égide devem viver as instituições que garantem o bom e velho Estado de Direito. A obediência à regra sanitária que inspirou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não deve ser condenada, mas imitada. Tudo partiu da desobediência de uma delegação de visitantes estrangeiros, que desafiaram portaria, assinada por três ministérios – Justiça, Saúde e Casa Civil –, dando à agência reguladora poder de fiscalizar e punir para proteger a população do País da possibilidade de contágio pela covid-19; e, para tanto, apelaram para conceitos incapazes de desafiarem o primado da proteção à saúde e à vida.

É possível questionar, mas nunca desobedecer, a inclusão do Reino Unido, ao lado de Índia, África do Sul e Irlanda do Norte, entre os países cujos cidadãos são obrigados a cumprir quarentena de 14 dias ao chegarem a território brasileiro para quaisquer fins. A afirmação do presidente da Associação de Futebol Argentina (AFA), Claudio Tapia – “O que aconteceu hoje é lamentável para o futebol, é uma imagem muito ruim. Quatro pessoas entraram para interromper o jogo para fazer uma notificação e a Conmebol pediu aos jogadores que se dirigissem ao vestiário” –, é absurda, cínica e mentirosa. Pois incidente similar ocorreu em Salvador, em 4 de maio, quando 11 jogadores do Independiente foram testados positivos e os 36 membros da delegação, autuados pela Anvisa,  atuaram normalmente. Pois a agência dispõe de poder de polícia em assuntos sanitários, mas não de instrumentos de força para fazer cumprir suas decisões. E a Polícia Federal (PF) não agiu como deveria. A Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) não puniu o clube portenho, mantendo uma antiga tradição de impunidade no que se refere a interesses de clubes portenhos. A reação do Independiente foi definida pelo zagueiro Juan Manuel Insaurralde: “Não encontramos explicação para os maus-tratos que recebemos no Brasil”. A reação da AFA agora, como se se tivesse surpreendido com a repetição do episódio com a seleção nacional, a supera em cínico surrealismo.

Assim como o fez nossa Polícia Federal, que desconheceu a exigência da portaria multiministerial e não impediu o desembarque da delegação com quatro signatários de um relatório afirmando que não haviam passado pelo Reino Unido, onde moram e atuam, nos 14 dias anteriores. Depois do incidente, que obrigou o diretor da Anvisa Alex Machado Campos a interromper o jogo com cinco minutos de bola correndo, a PF, cuja inépcia foi desconsiderada pelo presidente da Anvisa, Barra Torres, colecionou falhas. Os membros da delegação que deveriam cumprir quarentena no hotel treinaram na véspera, foram para o estádio, três deles jogaram e o quarto foi relacionado para a partida. De volta à Argentina, quando tiveram a fuga protegida pelo embaixador Daniel Scioli, agora respondem por crime de falsidade ideológica, por terem mentido em documento oficial. Embora a declaração não tenha sido assinada por eles, mas por outro membro da delegação, Fernando Ariel Batista.

Milton Neves, apresentador do programa Terceiro Tempo, da Band, registrou no Twitter: “Lei é Lei! Anvisa acertou e acerte tb, Bolsonaro! Ponha máscara e vacine-se URGENTE, cumprindo a Lei do Bom Senso. Afinal, nos seus 30% de eleitores, vc tem milhares de admiradores sem máscara e que não aceitam a imunização porque vc teima contra o melhor time do mundo: a Vacina FC!”.

De fato, a notória desobediência dos futebolistas argentinos às normas sanitárias brasileiras repete hábitos condenáveis do presidente da República, amaldiçoando vacina e máscara, que ostensivamente não usa, promovendo aglomerações e inventando o primado do negócio sobre a vida. Com a pretensão de turbinar a economia, o que, aliás, não consegue. Além disso, ele pratica ostensivamente a charlatanice, ao prescrever remédios comprovadamente ineficazes para um tal “tratamento precoce”, que a medicina não reconhece.

Aos argumentos histéricos da direita estúpida, que imita o chefe do Executivo, os autênticos vilões do grotesco episódio violaram totalmente regras básicas do espírito esportivo e, agora, apelam para o nobre princípio para justificarem o desrespeito à competição e, principalmente, às duas torcidas. A presença de Lionel Messi, travestido de repórter fotográfico, após haver avalizado a ilegalidade da equipe, da qual é capitão, é o ícone grotesco de um negócio nem sempre limpo, sob qualquer aspecto, como tem sido o futebol de Fifa, Conmebol e CBF. A nota do Ministério da Saúde, apoiando a atitude da Anvisa, é um bom sinal de que existe uma luz no fim do túnel da malandragem da ilegalidade futebolística. Falta, agora, a Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid no Senado investigar e recomendar a punição, se for o caso, da conivência do desgoverno federal com a malandragem dos compadritos de AFA, Conmebol e CBF. Náusea!

*Jornalista, poeta e escritor

No Estadão desta quarta-feira: Bolsonaro não é louco, mas um estúpido coerente

No Estadão desta quarta-feira: Bolsonaro não é louco,  mas um estúpido coerente

José Nêumanne

Disparates sem sentido do presidente

fazem parte de seu projeto de matar para mandar

“Tem que todo mundo comprar fuzil, pô. Povo armado jamais será escravizado. Eu sei que custa caro. Aí tem um idiota: ‘Ah, tem que comprar é feijão’. Cara, se você não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer comprar”, disse o presidente da República, em 27 de agosto, para fãs que se reúnem diariamente à espera da ocasião propícia para bajulá-lo.

É comum atribuir suas patacoadas sem nexo a impulsos de insanidade. Muita gente boa e lúcida propõe convocar uma junta de psiquiatras para decretar a interdição de Jair Bolsonaro. Isso condiz a lógica, porque, ao longo de sua vida de mau militar e parlamentar em ócio permanente, ele nada produziu de útil.

De farda, resumiu sua passagem pela caserna a reclamar de baixo soldo. Sob acusação de terrorismo por ter planejado atentados à bomba em quartéis e numa adutora do Guandu, como expôs o repórter Luiz Malouf de Carvalho no primoroso livro O Cadete e o Capitão, foi convidado a cair fora da vida militar, que resumiu numa frase dita em Porto Alegre em 2017: “Minha especialidade é matar, não é curar ninguém”.

Em 30 anos de política, como vereador no Rio e deputado federal, sua improdutividade parlamentar facilitou a narrativa com a qual venceu a disputa pela Presidência em 2018: a de nunca ter sido um político de verdade. De sua passagem pela Câmara deixou duas obras: uma é o projeto da “pílula do câncer”, em parceria com o médico e sindicalista do PT Arlindo Chinaglia, sancionada pela petista Dilma Rousseff, outra personagem do folclore do absurdo infeliz. A segunda, o voto pelo impeachment da ex-guerrilheira, em que saudou como herói o torturador e assassino Brilhante Ustra, acusado de tê-la torturado. Em ambos os casos, elegeu a covardia e uma aparente contradição. Neste caso, será útil lembrar que cumpriu o que sempre quis na vida pública: amealhar patrimônio pessoal, garantir a própria impunidade e deixar uma polpuda herança para o pagador de impostos sustentar sua prole. Os “rolos” imobiliários do filho senador e do adolescente festeiro, de um descaramento atroz para pagadores das contas da famiglia, são evidências que talvez Nelson Rodrigues preferisse definir como “atordoantes”, em vez de “ululantes”.

A provocação à la Maria Antonieta do “não tem feijão, compre fuzil” é a versão armada da dicotomia que engendrou no início da pandemia de covid-19, ao opor à mortandade pelo novo coronavírus o primado da economia sobre a vida. Em março de 2020, expondo-se sem máscara na periferia de Brasília, ele disparava sua artilharia contra a ciência: “Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida. Tomos nós iremos morrer um dia”. Em fevereiro de 2021, previu o que mais parecia um desejo oculto de quem cultua a morte: “Vamos conviver com o vírus a vida toda”. Sobre mais de meio milhão de cadáveres empilhados à espera de sepultamento saiu-se com algo ainda mais desumano: “Não sou coveiro”. E era.

Por mais severa que a realidade seja, ao superar sua retórica fúnebre, Sua Insolência a tem enfrentado com a coerência do “contra os fatos há seus argumentos”. Sua fidelidade aos caçadores, garimpeiros ilegais, desmatadores de biomas e outros aliados não cede à transformação da pitoresca hinterland brasileira numa encenação real de um longínquo Oeste sem lei, como no começo da semana em Araçatuba, num assalto a mãos armadíssimas com três vítimas de morte. Nem à apreensão de dez fuzis escondidos no painel, no banco traseiro e nos pneus de estepe de um carro na Via Dutra, em Guarulhos. A realidade é apenas uma “idiotice” a mais na coerência de quem já foi contra o voto impresso fraudado. Em 1993, o então deputado federal de primeiro mandato Jair Bolsonaro (à época no PPR-RJ) participou de um evento no Clube Militar, no Rio de Janeiro, para definir estratégias para a “salvação do Brasil”. Na ocasião, o capitão da reserva defendeu a informatização da apuração dos votos. O oposto do que prega agora.

No texto O projeto de Bolsonaro é um projeto de família, no Globo, Carlos Góes citou Filipe Campante, professor da Universidade Johns Hopkins, ao explicar, com realismo, as contradições entre os desejos do eleitor e as plataformas do chefão de nossa direita populista estupefaciente. “Tanto no caso do distanciamento social quanto no caso do longo atraso na compra das vacinas, o presidente teve posturas que se afastaram do desejo da maioria da população. Essas posturas eram, contudo, populares na sua base de apoiadores mais radicais. Embora reduza seu prestígio e sua própria probabilidade de reeleição, essas sinalizações tornam sua base mais fiel e podem garantir extração de renda futura para seus próprios filhos. Não no topo da pirâmide política, mas no baixo clero – espaço que a família ocupou por muito tempo. Mais do que um projeto de poder ou um projeto de país, o objetivo racionalizável parece ser usar o poder e o país para um projeto de família: uma nepocracia.”

Oscar Wilde constatou que “a coerência é a virtude dos imbecis”. Talvez mais do que louco, Bolsonaro seja coerente com seus planos. Portanto, basta! Xô! Fora!

(Publicado na página A2 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 1 de setembro de 2021)

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No Blog do Nêumanne: O sigilo é segredo de políticos como Barros

No Blog do Nêumanne: O sigilo é segredo de políticos como Barros

José Nêumanne

Vice-líder de FHC, Lula e Dilma e ministro de Temer, líder de Bolsonaro na Câmara, que personifica a nova face “negocionista” do desgoverno, fica no posto, blindado pelo chefe e pelo STF

O ex-prefeito de Maringá Ricardo Barros é um político da espécie privilegiada dos camaleões. Foi vice-líder do tucano Fernando Henrique e dos petistas Lula e Dilma, Mesmo sendo engenheiro civil, que nunca exerceu outro ofício que não fosse o da política profissional, foi ministro da Saúde no meio mandato dado de presente pelo PT a Michel Temer, do MDB. Tem, assim, a biografia de um politiqueiro ao velho estilo, sempre disposto a servir ao chefe do partido de posse do cofre. Em tese, não devia ter figurino de pau pra toda obra do capitão da antipolítica Jair Bolsonaro. Mas o falso faxineiro-geral da República é farsante-total do Executivo e o paranaense fâmulo de todos os senhores, seu líder na Câmara.

Durante a primeira metade dos trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, no Senado, o ex-secretário da Indústria, Comércio e Assuntos do Mercosul do Paraná não foi citado em depoimentos; Nem devassado em investigações comprometedoras. Até então, o presidente Jair Bolsonaro era tido como um ferrenho negacionista, que tinha deixado o total de óbitos de brasileiros pela ferocidade do novo coronavírus ultrapassar o meio milhão de vítimas fatais por ignorância ou “boa-fé” religiosa. Até que, de repente, não mais do que de repente, como diria o poeta, tudo virou de pernas para o ar e, quando a cortina caiu, apareceu na coxia o marido da ex-governadora de seu Estado do Paraná. Tudo, por obra e desgraça de um bolsonarista. O deputado Luís Miranda veio do nada no auto de fé e a história se tornou uma longa meada de negócios escusos, com muitas pontas e fios grosseiros. O parlamentar procurou o chefe do Executivo para contar a respeito dos tormentos do irmão, Luís Ricardo Miranda, chefe de importação (também de vacinas) do Ministério da Saúde, honesto servidor, assediado por pressões para dar deixar de atrapalhar uma negociata bilionária na compra de… imunizantes sem compliance.

Ora, direis, sonhas com insumos, afirmaria o senador Marcos do Val, incapaz de fugir do erro numa sentença de três palavras. Segundo a versão dos próprios, os dois irmãos ouviram do chefe do governo a promessa de mandar o “degê” (diretor-geral) da Polícia Federal (PF), Paulo Maiurino, investigar a origem e motivação das tais pressões. Dois dias depois da delação sem prêmio do aliado de boa-fé, o então ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, caiu. Mas a PF nada fez para apurar as razões do pesadelo do importador de vacinas. No depoimento, o irmão deputado contou aos senadores, após argumentos de Alessandro Vieira e Simone Tebet, que Bolsonaro em pessoa atribuiu tudo a algum indefinido “rolo” do Ricardo Barros. Sua Insolência nunca admitiu nem negou o cochicho traíra. E o mago Barros assomou ao protagonismo na cena. Pretenso pau-mandado dele, Roberto Dias perdeu o poder supremo de comprar vacinas sem prestar contas a outro chefão, o tenente-coronel Elcio Franco, e o emprego de currículo coroado. Ninguém, porém, mexeu no pretenso paraninfo, que depôs, mentiu, berrou e esperneou, mas segue incólume colosso.

A CPI decretou a quebra dos sigilos fiscal, bancário, telefônico e telemático do contratador de compradores de remédios. Barros recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF). Cármen Lúcia, aquela do “cala boca nunca mais”, manteve a quebra. Mas decretou sigilo no que a CPI descobrir no passado penal do marido da sra. Borghetti, fina-flor das araucárias.

Ricardo Barros era ministro da Saúde de Temer quando a Global Gestão em Saúde vendeu ao governo do Distrito Federal R$ 20 milhões em remédios raros e caros para doentes graves, com a mãozinha gorda e providencial do doutor. A conta foi paga, os remédios não foram entregues e o dinheiro público depositado não foi devolvido. Em depoimento de fazer corar frade de pedra, o líder do desgoverno Bolsonaro no Senado, Fernando Bezerra Coelho, disse que não pesa nenhuma condenação judicial contra a firma vendedora, que pertence a Francisco Emerson Maximiano, também dono da Precisa Medicamentos, que vendeu 20 milhões de doses de uma ignota vacina indiana, a Covaxin, por R$ 1,670 bilhão. O processo de compra levou os investigadores sérios da CPI do Senado a acreditarem que, no mínimo, R$ 230 milhões de adiantamento seriam subtraídos do erário para uma empresa de fachada do paraíso fiscal de Cingapura, a Madison; Sem que houvesse garantia nenhuma de que sequer uma dose do tal imunizante fosse aplicada em braço de brasileiro.

Os personagens da negociata – o cabo PM-MG Luiz Paulo Dominguetti, o pastor nada reverendo Amilton de Paula e mais um punhado de trambiqueiros mequetrefes – foram socorridos por vários ministros do STF com o mutismo obsequioso. E Barros terá seus segredos investigados, mas jamais revelados a quem o remunera. Que injustiça!

Com todas as vênias meritórias pela obediência à regulação democrática pela Constituição da República, alguém precisa contar ao pagador de impostos por que se chama de público o seu próprio honrado dinheirinho quando ele passa para as contas de algum emérito vigarista. Seja um amigo do peito do primogênito do presidente da República, seja o finório admirador do papai deste, o milionário “educador” Carlos Wizard.

Teremos de pedir ao deputado Aécio Neves, atualmente o Brancaleone secreto da armada de choque bolsonarista na Câmara, que consiga da conterrânea Cármen Lúcia a razão de esconder do pagador de impostos e contas públicas em geral as tenebrosas transações de políticos como os personagens dessa negociata em favor da indesejada das gentes?

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 30 de agosto de 2021)

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No Blog do Nêumanne: Bolsonaro, mais afeito ao crime que à política

No Blog do Nêumanne: Bolsonaro, mais afeito ao crime que à política

José Nêumanne

Presidente mente tanto, e com retórica tão chula, que perde até eventual razão quando argumenta, por já tê-la contrariado inúmeras vezes, como quando ameaçou o STF e insultou Moraes

O inquérito aberto pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) à época, Dias Toffoli, em 18 de junho de 2020, para investigar falsas informações em discursos políticos mereceu críticas pesadas de especialistas. Caso do professor da Universidade de São Paulo (USP) Modesto Carvalhosa. E de leigos jamais votados, como este autor.

Um crítico tem sempre menção oculta ao ser lembrado o placar da votação daquela sessão no plenário, 10 a 1, tendo sido voto derrotado o  do já tradicional outsider Marco Aurélio Mello, ex-decano, aposentado e ainda não substituído no nada excelso pretório. O habitual voto do contra foi dado com a pecha apocalíptica, que a ação ganhou, de “inquérito do fim do mundo, sem limites”. Mello também ousou profetizar que seria “natimorto”, destacando tratar-se de “uma afronta ao sistema acusatório do Brasil”, pois “magistrados não devem instaurar [inquéritos] sem prévia recepção dos órgãos de execução penal”. A profecia não se cumpriu, mas dificilmente, se submetida a nova apreciação, não terá idêntica reprovação solitária, 9 a 1, ficando o voto solidário a ser dado por uma espécie de extensão da Advocacia-Geral da União (AGU) na Corte, Kassio Nunes Marques. Se o ministro recente e o responsável pela ascensão dele, Jair Bolsonaro, quisessem ter razão, pelo menos o órgão encarregado de representar juridicamente a Presidência da República, à época dirigido por José Levi Mello do Amaral Júnior, teria apoiado o protesto isolado do ministro dissidente. “Não se pode recusar à Suprema Corte do nosso país os meios necessários para o próprio resguardo institucional”, registrou. “Nós concordamos com o inquérito porque nós queremos ter o direito de participar, sobre atos e diligências previamente”, disse o advogado especial do chefe do Executivo, Augusto Aras, na pretensa condição de procurador-geral da República, pobre coitada e desvalida pelo menos no caso.

Dois anos e quase dois meses depois, em documento também assinado pelo atual titular da AGU, Bruno Bianco, o capitão terrorista postulou: “Há violação persistente e difusa de direitos fundamentais dos acusados, há uma omissão do Supremo Tribunal Federal em neutralizar os atos destoantes dos preceitos fundamentais e há um claro bloqueio institucional para o aperfeiçoamento da temática, já que alteração regimental é dependente da iniciativa da Suprema Corte, razão pela qual somente ela pode reparar as violações constitucionais em andamento” – como reza a Ação de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF). Embora o mundo não tenha acabado, não é possível imaginar que esse arrazoado se venha a impor.

Sua remessa para o lixo do STF e da História será apressada por decisão descabida de Bolsonaro após a ADPF. Da mesma forma que esta não tem nenhuma possibilidade de sequer ser discutida, sua decisão de mandar um funcionário da Presidência ao Senado para protocolar o pedido de abertura de impeachment do relator da ação, ministro Alexandre de Moraes, pôs gasolina (a R$ 7,36 o litro) na fogueira do conflito institucional. Em 1.º de julho, Moraes mandou arquivar o inquérito sobre atos antidemocráticos dos bolsonaristas, atendendo a despacho da Procuradoria-Geral da República (PGR). Mas determinou que se abrisse investigação acerca da existência de organização criminosa que usa recursos públicos para divulgar fake news.

A decisão foi posterior à péssima repercussão da convocação aos fãs pelos cantores Sérgio Reis e Eduardo Araújo, que viajaram da Jovem Guarda falida ao sertanejo milionário, para a manifestação de apoio a Bolsonaro, na garupa do maior feriado público do Brasil, o 7 de Setembro. Em visível falha de juízo, o recriador do clássico Menino da Porteira anunciou o fechamento por locaute (crime) de estradas (crime), que provocaria desabastecimento de gêneros alimentícios (crime), reivindicando mudança da política de preços da Petrobrás (crime). Num rompante absurdo, Sérgio atropelou a Lei da Segurança Nacional, vigente, mas prestes a ser substituída pela Lei de Defesa do Estado Democrático, falando em derramamento de sangue (!) e expulsão de nove dos 11 ministros do STF, com citação especial a Alexandre de Moraes. Bolsonaro não defendeu os boissominions voadores, mas alega interesse próprio. Como lembrou o sociólogo Carlos Melo, no Estadão, recorreu à martirização usando a mãe, que foi visitar no meio da crise, ao lado do trio queridinhos do papai. “Não me reconhece mais”, gemeu. Com sofrência.

Na série Nêumanne Entrevista, no Blog do Nêumanne no Estadão, o presidenciável Ciro Gomes convocou uma vigília nacional para afastá-lo da Presidência da República e processá-lo. Antes da campanha, em que o ex-governador do Ceará pregará a exigência de um plano nacional de enfrentamento da crise, que o presidente ajudou a ampliar. Pois comanda, de forma desastrada, o colapso sanitário causado pela pandemia de covid-19, a crise econômica, com recordes de alta inflacionária, miséria, fome, desemprego e quebradeira de empresas, e as tensões política e institucional, tudo anabolizado por seus pensamentos, palavras e obras.

Neste ponto, a entrevista evoca a conclusão do editorial A asfixia da política, deste jornal, na segunda-feira 23 de agosto: “As administrações petistas levaram a política para o crime, como se viu no mensalão e no petrolão. Agora, Jair Bolsonaro impõe ao País trajetória semelhante. Em vez de oferecer propostas políticas, seu governo suscita a cada dia novos conflitos e novas investigações criminais. É preciso investigar e punir o crime, mas preservando a política – o que significa, entre outras coisas, afastar da política quem é mais afeito ao crime do que à política”. É ele!

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na segunda-feira 23 de agosto de 2021 no Blog do Nêumanne no portal do Estadão)

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