Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Política

Artigo no Estadão desta quarta-feira: A ignorância racista de Bolsonaro e Mourão

Artigo no Estadão desta quarta-feira: A ignorância racista de  Bolsonaro e Mourão

José Nêumanne

Ao negarem legado racista da escravidão,

presidente e vice se revelam seus arautos

Na quinta-feira 19, os brancos Giovane Gaspar da Silva, de 24 anos, policial militar temporário e, segundo a Polícia Federal, sem registro nacional para atuar como segurança, e Magno Braz Borges, ambos funcionários da Vector Segurança, mataram o soldador negro João Alberto Silveira Freitas. O massacre no estacionamento de uma loja do Carrefour em Porto Alegre provocou protestos a partir do dia seguinte, feriado da Consciência Negra em vários municípios brasileiros, incluindo São Paulo.

O presidente Jair Bolsonaro e seu vice, Hamilton Mourão, ambos da reserva do Exército, execraram esses protestos. “No Brasil não existe racismo”, pontificou o general. O capitão foi além ao comentar o fato, sem citar o nome da vítima, em suas redes sociais e em discurso em reunião virtual do G-20, afirmando que o Brasil é um país miscigenado e “foi a essência desse povo que conquistou a simpatia do mundo.” Disse ainda: “Contudo há quem queira destruí-la e colocar em seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre raças, sempre mascarados de ‘luta por igualdade’ ou ‘justiça social’. Tudo em busca de poder”. E mais: “Aqueles que instigam o povo à discórdia, fabricando e promovendo conflitos, atentam não somente contra a Nação, mas contra nossa própria História. Quem prega isso está no lugar errado, seu lugar é no lixo”.

Aprendi no curso primário do Grupo Escolar Jovelina Gomes, em Uiraúna (PB), que a escravidão dos indígenas foi meio dominante de produção agrícola e extração mineral na colônia, usado por colonizadores brancos desde a descoberta até o século 18, quando o marquês de Pombal o extinguiu. Os bandeirantes paulistas, grandes heróis da conquista dos territórios aquém da imensa costa, recorreram à prática nos séculos 16 a 18: Fernão Dias e Raposo Tavares são cultuados em nomes de escolas. O crudelíssimo Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, conhecido pela crueldade na captura dos nativos, é cultuado da mesma forma.

Proibidos pela coroa portuguesa de escravizar índios, os brasileiros entraram num dos capítulos mais infames da História da humanidade: o tráfico de escravos importados da África. Em compensação, aqui existiu um dos movimentos políticos de maior nobreza: o abolicionismo. Negros, como José do Patrocínio, e brancos, como Joaquim Nabuco, edificaram o que de mais nobre o gênero humano produziu no meio de tantos réprobos, como o mulato Chachá, riquíssimo mercador de escravos nascido na Bahia e morador durante a maior parte de sua vida em Angola, onde se aproveitava dos costumes das tribos locais para viver à tripa forra, como descreveu com brilho o poeta Alberto da Costa e Silva.

Nas noites de breu do sertão, ouvi na récita de cor de minha mãe, Mundica Ferreira Pinto, os versos inspirados de outro baiano, Castro Alves, narrando o horror desse comércio em seu poema antológico Navio Negreiro: “E existe um povo que a bandeira empresta/ Pr’a cobrir tanta infâmia e cobardia!…/ E deixa-a transformar-se nessa festa/ Em manto impuro de bacante fria!…/ Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,/ Que impudente na gávea tripudia?!/ …Silêncio!… Musa! chora, chora tanto/ Que o pavilhão se lave no teu pranto…// Auriverde pendão de minha terra,/ Que a brisa do Brasil beija e balança,/ Estandarte que a luz do sol encerra,/ E as promessas divinas da esperança…/ Tu, que da liberdade após a guerra,/ Foste hasteado dos heróis na lança,/ Antes te houvessem roto na batalha,/ Que servires a um povo de mortalha!…”. E Freitas seria massacrado na data dedicada a essa bandeira.

Joaquim Nabuco, vulgo Quincas, o Belo, político e diplomata abolicionista, marcaria sua passagem como autor da obra-prima literária Um Estadista do Império e condenou de forma implacável o modo irresponsável como a princesa regente Isabel aboliu a escravatura. Os negros forros saíram de senzalas humilhantes para o degredo do desemprego, da mendicância, da discriminação e da miséria como regra. Isso, é claro, não impediu a genialidade de afrodescendentes, como o maior dos escritores brasileiros, Machado de Assis, parceiro de Nabuco na criação da Academia Brasileira de Letras, Lima Barreto e Cruz e Souza, entre tantos outros. Também tinham origem na África tribal escravagista o engenheiro André Rebouças e o maior esportista brasileiro de todos os tempos, simplesmente Pelé.

Jair Bolsonaro, descendente de colonos italianos, não tem autoridade política nem pessoal para insultar, como o fez, brasileiros sensíveis que sabem que o legado histórico da escravidão negra assombra a realidade brasileira ainda hoje. Nada, portanto, o autoriza a considerar “lixo” o patrício que condene o abominável massacre de Porto Alegre como resultado dele. Ao eliminar o nome da vítima de sua manifestação execrável, ele deu força à expressão Homem Invisível, da lavra do norte-americano Ralph Ellison, como a mais completa definição de racistas que se escondem como “daltônicos”, entre os quais ele e seu vice-presidente, orgulhosos da própria ignorância e executantes de uma política que ignora a História para reproduzir suas infâmias.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estadão da quarta-feira 25 de novembro de 2020)

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No Blog do Nêumanne: Brasil e Amapá ao deus-dará

No Blog do Nêumanne: Brasil e Amapá ao deus-dará

José Nêumanne

Bolsonaro e Alcolumbre foram a Macapá em missão oficial inaugurar um gerador a Diesel e pedir votos para o irmão do beneficiário da fraude da eleição da Mesa do Senado, e o apagão continua

Em 3 de novembro, choveu forte no Amapá, e um incêndio na transmissora privada de eletricidade para a rede paralisou o fornecimento do Estado em cujo território corre o rio Oiapoque, no extremo norte do mapa do Brasil. No sábado 21, 17 dias depois, o presidente Jair Bolsonaro deu o ar de sua desgraça, inaugurou um gerador a Diesel, prometeu não cobrar a conta da luz que não foi entregue e pediu votos para José Samuel, irmão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, escolhido para o posto na Mesa em eleição fraudulenta com 81 eleitores e 82 votos. Pobre Amapá nas trevas, miniatura do Brasil, em cujo mapa no  extremo oposto fica o rio Chuí, durante o maior apagão de gestão da História.

Enquanto no Estado sem força, o povo sofre sem água nem urna e não se decidiu quem é o responsável pelo inferno de calor, treva e seca. E não faltam suspeitos. O primeiro deles é a privatização. A responsável pela transmissão de energia no estado do Amapá, desde 2008, é a Linhas de Macapá Transmissora de Energia, que até o ano passado pertencia à empresa espanhola Isolux, que venceu o leilão de privatização da Linhas de Macapá Transmissão de Energia em 2008, mas a transferiu no ano passado à Gemini Energia. A transmissão passou a depender de concessões de transmissão de empresas privadas, que não prestam o melhor serviço do mundo. O Valor Econômico informou que documentos do Ministério de Minas e Energia e do Operador Nacional do Sistema (ONS) atestam que a subestação atingida opera há mais de dois anos no limite de sua capacidade.

Da discussão em torno da privatização, quimera do liberal Paulo Guedes, que mantém o emprego, mas abandonou as convicções, a responsabilidade pelo caos é transferida para a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). É ocioso lembrar que as agências que, em teoria, fiscalizam as empresas para as quais foram repassadas subsidiárias das antigas estatais, sempre foram dirigidas por paus-mandados dos governantes federais de plantão. O caso mais angustiante, mas não o único, é o da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), dirigida pelo contra-almirante Antônio Barra Torres, negacionista e bajulador do presidente Bolsonaro. André Peppitone foi nomeado para a presidência da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em agosto de 2018 pelo ex-presidente Michel Temer. O diretor do ONS,  Luiz Eduardo Barata Ferreira, é petista, foi nomeado por Dilma Rousseff e reconduzido por Temer. Peppitone e Barata foram afastados dos cargos pelo juiz federal João Bosco Costa Soares Batista como óbvios culpados. E as diretorias foram mantidas por decisão do 1.ª Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF 1).

A mera leitura do parágrafo anterior permitirá ao leitor ter uma ideia do saco de gatos que mantém o povo de Macapá no inferno de Dante Alighieri na vida real. Aneel e ONS mantêm relações estreitas com o Ministério das Minas e Energia. O ministro é o contra-almirante Bento Albuquerque que, ao contrário de seu chefe imediato, o capitão Jair Messias, viajou para o Estado em pane duas vezes antes da terceira, agora em companhia do próprio no sábado passado. Dois dias antes, respondeu, meio irritado, a um repórter que ele já tinha cumprido seu dever ao mandar publicar no Diário Oficial instruções para a retomada da normalidade. Em seguida, outra chuva provocou mais um apagão. Que lambança, hein?

Na sexta-feira, 20, o presidente Bolsonaro recebeu no Palácio do Planalto o corregedor-geral do Tribunal de Justiça do Rio (TJ/RJ), desembargador Bernardo Garcez. Este fugiu da imprensa escondendo-se atrás de uma pilastra, onde, imaginou, não seria visto. Como lembrou O Antagonista, Garcez integra o órgão especial que julgará denúncia do MP/RJ contra o senador sonso Flávio Bolsonaro, primogênito do capitão.

No sábado, 21, após ter acompanhado o fiasco de candidatos por ele apoiados, de forma criminosa, em lives gravadas em próprios públicos, o chefe do governo foi a Macapá a convite do presidente do Senado e do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre. Este perdeu, em 2014, a eleição para o governo do Amapá e conquistou, em 2018, vaga para o Senado, cuja presidência ocupou em fevereiro de 2019 em eleição fraudada, na qual de um total de 81 senadores 82 “votaram”.

Na viagem-relâmpago dos dois presidentes de Poderes, Bolsonaro e Alcolumbre, foi inaugurado, pasme a Nação, um gerador a óleo Diesel, que não encerrou o calvário do rodízio de eletricidade. Pois a providência que o contra-almirante Bento, também protagonista do ridículo atroz, mandou publicar dela não deu cabo. O povo do Amapá, que garantiu a sobrevida de José Sarney na política, quando o ex-presidente foi enxotado do Estado em que reinava, o Maranhão natal, na certa não terá muito a se orgulhar do fato de ter fornecido a tragédia pronta para definir o país inteiro. Como faz com  fúria contra a imunização da covid-19, o chefe do Executivo fez propaganda do irmão do comparsa do Centrão, que preside o Legislativo, sem a menor cerimônia. E este não se fez de rogado ao produzir a pérola que não é besta de jogar aos porcos: “o maior prejudicado com o apagão é meu irmão”. Outra rima que não é solução. Essa versão nortista das irmãs Cajazeiras da telenovela O Bem Amado, de Dias Gomes, inspira Bolsonaro a usar sem medo de ser feliz a retórica de Odorico Paraguaçu, de Sucupira.

Em homeagem à “banana, menina, tem vitamina, engorda e faz crescer”, esta não é a republiqueta de bananas, mas, sim, o principado das trevas, sob um príncipe que dispensa o cérebro para governar com o fígado azedo. O coitado do Amapá continua ao deus-dará, produzindo mais uma mísera rima, que não é solução de nada. E o Brasil todo idem ibidem.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, segunda-feira 23 de novembro de 2020)

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No Blog do Nêumanne: A força da velha política de hábito

No Blog do Nêumanne: A força da velha política de hábito

José Nêumanne

Do naufrágio de Bolsonaro e Lula nas eleições emergiram seculares e ancestrais oligarquias remoçadas e o aumento do custo do ansiolítico do Centrão de sempre na governabilidade dos espertos

Como em todo evento político brasileiro, o primeiro turno do pleito municipal trouxe motivos de sobra para a necessidade cada vez maior do combate à pós-verdade pelo esclarecimento criterioso de fatos e fakes.

FATO – É possível sempre argumentar que eleições restritas aos municípios não definem resultados posteriores da federal e das estaduais de dois anos depois. O exemplo mais recente desse aforismo pode ser encontrado na comparação entre 2016 e 2018. Há quatro anos o Partido dos Trabalhadores (PT) foi sepultado numa avalanche de votos de repulsa às gestões corruptas de petistas e asseclas pelo mensalão e pelo petrolão. No ano seguinte, a fênix barbuda, Luiz Inácio Lula da Silva, impôs seu poste Fernando Haddad no segundo turno, para tornar inevitável a vitória da direita de reses e robôs e impor o domínio do mau militar sobre civis inocentes. A apuração de agora impôs vexame maior ao maior líder da esquerda, transferindo a banda sinistra da disputa tradicional do segundo turno em São Paulo para o PSOL de Guilherme Boulos e Luíza Erundina, uma das primeiras vítimas da truculência sindical do chefão da organização criminosa. A maior vítima da dicotomia Covas x Boulos agora é o próprio patriarca, que desembarcou do inutilizado “Lula livre” para o atualizado “Xô, Lula”. A situação favorece o presidente Jair Bolsonaro, que fará o possível e o improvável para fazer do PT adversário preferencial em eventual segundo turno da eleição presidencial de 2022. Ou seja, agora é bolsalulismo ou ninguém. Ou melhor, ou nada.

FAKE –Bandeiras ridículas da direita indigesta da fraude eleitoral nas urnas venezuelanas, que levou seu “mito” que mente a denunciar sem provas fraude na disputa por ele vencida, o supremo do grotesco, e do voto impresso como condição de correção deverão ser guardadas no quarto de despejo da retórica. A tentativa mal-sucedida de blogueiros acusados de usarem fake news em inquérito adormecido em mesas do ministro Alexandre de Moraes e do Supremo Tribunal Federal (STF) – como Bernardo Küster  e Oswaldo Eustáquio – é prova cabal de que a direita minoritária é a maior suspeita de tentar fraudar essas eleições. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro do STF Luís Roberto Barroso, garantiu em entrevista exclusiva publicada extraordinariamente na série Nêumanne Entrevista, no YouTube, levada às redes domingo 15, dia da eleição, teve nela o maior aval. Da mesma forma, isso ocorreu com outra afirmação no mesmo vídeo de que disparos de WhatsApp e ações de reses e robôs do gabinete do ódio foram reduzidos em parceria com as redes sociais à insignificância na apuração da Justiça Eleitoral.

FATO – O aval da realidade à lisura dos resultados eleitorais neste pleito não isenta, contudo, a Justiça Eleitoral de seu pecado capital: ela continua inócua na repressão ao crime na eleição. Permitir que Jair Bolsonaro fizesse – como fez – campanha eleitoral em lives gravadas em palácio é um acinte que merece reproche a todos: do criminoso confesso, do juiz omisso e da oposição leniente. Não vale o argumento de que o eleitor lhe puxou a orelha na hora de votar. Dos 59 beneficiários do delito impune, só 9 foram eleitos. Dos 13 candidatos a prefeito de Bolsonaro, 2 foram eleitos, 2 passaram para o segundo turno e um terço permanece na disputa. No Estado de Direito, eleitor escolhe, não pune. Punição é assunto de polícia, Ministério Público e Poder Judiciário, que falharam gravemente no caso. O capitão de milícias jogou todas as suas fichas na votação do filho 02, Carlos, comandante do gabinete do ódio no Planalto, para a Câmara do Rio, base eleitoral e sede territorial da famiglia. Num eleitorado maior e mais exposto à mídia do sobrenome, ele teve 70 mil votos, 36 mil (34%) a menos do que em 2016, quando se contaram 106 mil. Perdeu o primeiro lugar para Tarcísio Motta, do PSOL, com 86.243. E conviverá com uma bancada de 7 “comunistas”, um a mais do que a meia dúzia de quatro anos atrás. Para completar o mal-estar, terá de esperar a próxima passagem do elevador do Palácio Tiradentes quando a viúva de Marielle Franco, Mônica Benício, eleita com 22.99 sufrágios, ocupar um lugar nele.

FAKE – Ressalvando a minoria lúcida, analistas profissionais, amadores ou interessados no resultado das urnas pisaram no tomate ao atribuírem à derrota do “bolsalulismo” o ímpeto nostálgico da experiência administrativa e da velha política e a renovação nos quadros dirigentes do Estado. Mas não houve renovação, estes foram apenas remoçados. João Campos e Marília Arraes, que disputam o segundo turno no Recife, não são apenas netos de Miguel Arraes, ícone da esquerda pré-golpe militar. São herdeiros da mais antiga oligarquia brasileira desde o Império, os Alencar do Cariri cearense. Bruno Covas é neto de Mário Covas, patriarca do PSDB. O fato de as linhagens da nobreza política terem chegado à segunda geração está longe de representar novos ares limpos e arejados no pedaço. Isso também vale para o caso da primeira capital do Brasil, São Salvador da Bahia, na qual o prefeito, neto e xará do cacique Antônio Carlos Magalhães, elegeu no primeiro turno Bruno Reis, que assumirá o bastão na passagem de poder no carlismo baiano.

FATO – Bruno Reis faz parte dos prefeitos que já garantiram seu lugar no poder municipal ao lado de dois correligionários do DEM de Rodrigo e César Maia, este também ungido pelo voto no domingo em que se celebraram 131 anos da insana República. Reforçando a força do Centrão para a barganha com Bolsonaro, Rafael Greca, de Curitiba, e Gean Loureiro, de Florianópolis. O custo da indiferença a 48 processos de impeachment na gaveta de Rodrigo Maia, o Botafogo do propinoduto da Odebrecht, certamente subirá mais do que o dólar norte-americano sob Joe Biden. Quem viver verá crescerem o “Xô, Lula” e o “Vai trabalhar, presidente”, título do editorial do Estadão de segunda-feira, 16, cuja leitura será a cada dia mais recomendável para ele e os brasileiros em geral.

*Jornalista, poeta e escritor

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Artigo na página 2 do Estadão: De volta à boa e velha democracia

Artigo na página 2 do Estadão: De volta à boa e  velha democracia

Derrota de Trump propicia o retorno às

origens do governo para todos, não para alguns

Na terça-feira 3, o candidato da oposição democrata, o ex-vice-presidente Joe Biden, foi escolhido pelo longevo sistema da representação federativa dos Estados coloniais da Inglaterra para suceder ao republicano Donald Trump. Só quatro dias depois a maior potência política e militar do Ocidente comunicou o fato ao mundo. E o derrotado não recuou de sua postura de denunciar o “roubo” dos vencedores, sem narrar um fato que fosse para apoiar seu “jus sperniandi’, expressão jocosa do juridiquês para o direito de espernear.

Nos quatro anos em que deu expediente no Salão Oval da Casa Branca, o presidente fez o que pôde para impor as ideias de uma direita truculenta e inculta que mantém vivas velhas crendices de obscurantismo, negacionismo, terraplanismo, criacionismo, armamentismo, ignorantismo e anti-imunização. O governo do povo, pelo povo e para o povo, que inspirou os pais fundadores na Revolução Americana, no século 18, e desde então em voga em muitos países – entre os quais o nosso, com interrupções no Estado Novo e sob o golpe militar de 1964 –, depende da Justiça.

Desde sábado, 7 de novembro, ao informar que a apuração lhe dava acesso ao poder na segunda economia do mundo, o vice de Barack Obama esclareceu que a batalha que acabava de vencer tinha o condão de ressuscitar um princípio dos ancestrais. Biden ressaltou o fato de que, embora tenha sido escolhido por mais da metade dos representantes dos Estados da única Federação merecedora dessa definição no mundo, governará para todos os cidadãos norte-americanos. Aí estão incluídos os mais de 70 milhões que sufragaram o atual presidente. Aparentemente esse é um princípio indiscutível, mas não é bem assim. O bilionário eleito em 2016 exerceu o poder em benefício de seus prosélitos, que apressadamente têm seu ideário definido como “ideologia”. Produto político da reação à entrada em cena da nova potência governada pelo Partido Comunista Chinês numa mixagem de capitalismo selvagem com escravidão social e política, o empreendedor imobiliário de sucesso na vida privada armazenou num quarto de despejo bandeiras tradicionais da política ianque, tais como o multilateralismo, o combate à degradação natural e a generosa entrada de estrangeiros no mercado de trabalho mais ambicionado do mundo.

Dos países ao sul do Rio Grande, o que mais tem oscilado na relação com a potência do norte é o nosso. Exemplo mais óbvio disso foi dado por Getúlio Vargas no Estado Novo, quando flertou explicitamente com o nazi-fascismo, mas, ao fim e ao cabo, entrou na guerra mundial contra Hitler e Mussolini. E ainda cedeu aos aliados uma posição geográfica invejável no extremo nordeste de sua conformação continental, onde os norte-americanos instalaram uma base aérea em troca da Companhia Siderúrgica Nacional.

A volta da ditadura após a democracia liberal de 1946, com o golpe de 1964, resultou na sentença mais sabuja da relação de mendicância estabelecida: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, disse Juracy Magalhães, embaixador do Brasil em Washington no primeiro governo militar. Só que, antes de cair a ditadura, o chanceler Azeredo da Silveira, sob o presidente Ernesto Geisel, chefiou uma diplomacia de não alinhamento ainda em plena guerra fria, em reação às objeções ianques ao acordo nuclear com a Alemanha para a construção de uma usina em Angra.

Nunca antes na História das duas nações a relação entre a maior potência e o nosso país, aonde o futuro nunca chega, houve, contudo, subserviência similar à estabelecida entre o Brasil de Bolsonaro e os Estados Unidos de Trump. O laço forte entre os dois é precisamente a comunhão do fanfarrão do norte com o charlatão dos nossos tristes trópicos. Eleito dois anos depois do ídolo, Jair Bolsonaro abandonou provisoriamente seu ideário de baixíssimo clero na Câmara dos Deputados – corporativista, patrimonialista e de simpatia por gestores estatizantes, como o venezuelano Hugo Chávez e o patrício Lula da Silva – por uma narrativa oposta. Na eleição surfou nas ondas do combate à corrupção da Operação Lava Jato de Sergio Moro, por ele nomeado ministro da Justiça, e da privatização, representada pelo ainda ministro da Economia, Paulo Guedes.

No entanto, a derrota de Trump acaba de surpreender seu discípulo latino, tendo doado o governo para o qual foi eleito legitimamente a suspeitos, acusados e condenados por corrupção de um grupo sem princípios e com interesses chamado inadequadamente de Centrão. Tendo defenestrado Moro da Esplanada, renunciou explicitamente à obrigação constitucional de governar para todos para atender a trumpistas olavistas, agora nocauteados pelo malogro do canastrão do pescoço rubro. E, principalmente, para livrar os filhos políticos de velhos hábitos em geral e, em especial, o senador sonso Flávio, seu primogênito, dos rigores da lei. Conforme disse na reunião de 22 de abril, quando admitiu que não permitiria que a polícia os alcançasse. É a famiglia acima de tudo que o afasta do presidente eleito dos Estados Unidos, que reconhece o primado de todos sobre alguns.

*Jornalista, poeta e escritor

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No Blog do Nêumanne: E se Juracy e Jair estiverem certos?

No Blog do Nêumanne: E se Juracy e Jair estiverem certos?

José Nêumanne

Seis redes de emissoras da TV comercial do EUA fizeram bem ao interromper fala de Trump na Casa Branca acusando eleição que perdia de ter sido “roubada” sem se referir a fato nenhum?

Na sexta-feira, 6 de novembro de 2020, correspondentes de meios de comunicação e seus públicos foram mantidos em suspense à espera de um pronunciamento do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cuja derrota no pleito de terça-feira, 3, parecia a cada segundo mais próxima de ser anunciada. O republicano assomou ao púlpito do qual faz seus pronunciamentos e respondeu a perguntas em entrevistas coletivas, na sala de imprensa da Casa Branca, dando início a um exaustivo e cansativo destampatório, acusando o sistema eleitoral da democracia fundada em 1776 de ter sido fraudado em prejuízo de suas pretensões à reeleição para o cargo político mais importante do mundo. Perdeu tempo quem esperou que ao longo de uma teoria conspiratória surrealista — incluindo o autor destas linhas — surgisse alguma bala de prata, um argumento fatal que desmentisse o otimismo dos adversários. Em vão.

Espectadores de seis redes de televisão comercial em seu país, porém, foram poupados ou não puderam seguir até o fim aquela narrativa absurda, mais apropriada na obra teatral do surrealista romeno Eugène Ionesco. Elas tomaram uma atitude radical, inesperada e arriscada de suspender a transmissão da fábula autoindulgente do potentado vencido. Não era esperado, nem seria comum, que canais de televisão tivessem o topete de suspender uma transmissão ao vivo no momento em que era enunciado o primeiro de episódios sem nomes, endereços e evidências da fala oficial à qual o orador tem o privilégio ao menos até 20 de janeiro de 2021. Todos deram como único motivo o fato de que o principal mandatário da mais importante democracia mundial simplesmente não aprendeu a perder. Esse é, pelo menos na convicção dos executivos dos canais e dos noticiários, motivo suficiente para negar a seus telespectadores o rosário que tem repetido o ocupante do Salão Oval da Casa Branca desde que percebeu que sairia do jogo assim que os votos fossem conhecidos.

A decisão desses profissionais foi, além de inédita, ousada. Pois chegava de forma muito arriscada à margem de um dos direitos mais elementares da democracia instaurada naquele país há 244 anos na convenção que fundou os Estados Unidos da América, em Filadélfia, na Pensilvânia. A direita armamentista mundial, que tem no republicano no poder em Washington seu ícone, agarrou-se, desde então, a alguns conceitos que nunca defendeu, e agora com ardor mais do que inusitado. Ou seja, o máximo palavrão com que nenhum liberal sequer suporta conviver: a censura à expressão e opinião. Estabeleceu-se incontinenti o maior conflito na história da democracia contemporânea: entre liberdade e verdade, seus princípios basilares, nem sempre coincidentes.

A essa dicotomia acrescente-se, nestes tempos de libertinagem das redes sociais na cibernética, o conceito elástico e amoral da pós-verdade: a primeira condição para uma argumentação civilizada dos limites da liberdade que não aceita o direito de mentir, deixando de fora o cinismo. É possível até negar a concessionários de serviços de interesse público como emissoras de televisão o poder de cortar, sem nenhuma delegação popular,  a transmissão que agora, quando parece definida a apuração dos votos dando vitória ao oponente, conta com a adesão de 70 milhões de eleitores norte-americanos que sufragaram o presidente. As redes sociais, que tateiam em busca de um ponto intermediário, têm alertado nos EUA que as declarações de Trump são, no mínimo, duvidosas. A decisão das emissoras ­– que, particularmente, não confundo com censura — poderá ser submetida à Justiça por qualquer cidadão que se sinta prejudicado por ela.

“A democracia às vezes é confusa, então às vezes requer um pouco de paciência”, disse Joe Biden em Wilmington, Delaware, onde vive, quando ainda não tinha certeza da vitória. Naquele momento, ainda era noticiada certa confusão na eleição presidencial, com manifestantes dos dois lados nas ruas e ações judiciais pedindo a paralisação da contagem. Convém esclarecer que a democracia dos pais fundadores, que sempre tentamos copiar, mas nunca conseguimos, é genuína e continua hígida e a salvo de eventuais tentativas de prepotência, de um lado ou de outro.

Seja qual for o resultado a que se chegue sobre essa confusão, fica patente que Donald Trump tem usado o fato de morar na Casa Branca para usá-la como palanque e seu discurso se configura como absurdo por denunciar fraudes sem provas, e apenas em Estados onde perdeu para Joe Biden. Ou onde perdeu terreno no final da apuração em progressão.

É justo esclarecer que, por mais confusos resultados pareça permitir, e apesar de o sistema eleitoral norte-americano não dispor de Justiça Eleitoral nacional, mas estadual, é constrangedor ver o presidente, no exercício de suas funções, questionar a lisura de apurações eleitorais quatro anos após ter vencido numa. É um mau exemplo, vindo de um país que tem a pretensão de servir de modelo democrático para o mundo. Essa atitude representa um sério problema para o funcionamento do sistema eleitoral no futuro, pelas incertezas que desperta, embora não chegue a ameaçar a democracia nem a credibilidade do país no planeta. Como denotam manifestações de aplauso de vários estadistas, incluídos aliados do vencido.

A interrupção da fala de Trump é um momento histórico na ação dos modernos meios de comunicação. Se Juracy Magalhães, autor da sentença “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, e Jair Bolsonaro, que adota aquele país como guia universal dos bons costumes cívicos, estiverem certos, seria talvez provável imitá-los por aqui. Ou não?

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 9 de outubro de 2020)

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No Blog do Nêumanne: O Bolsonaro como ele é de verdade

No Blog do Nêumanne: O Bolsonaro como ele é de verdade

José Nêumanne

Revelações do deputado federal bolsonarista e arrependido de primeira hora, explicam por que o presidente só surpreende muita gente que desconhece quem ele é e sempre foi, nunca tendo sido confiável

Veterano repórter e comentarista de política, conheci razoavelmente todos os presidentes brasileiros desde a queda da ditadura militar, à exceção de dois: Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro. Sacada da algibeira de Luiz Inácio Lula da Silva, ela foi eleita mercê da popularidade de quem a elegeu duas vezes, na segunda evidentemente contrariado. Sobre o outro há literatura confiável, seja nos autos do processo de que foi absolvido no Superior Tribunal Militar (STM), seja no competente relato deste por Luiz Maklouf de Carvalho no livro O Cadete e o Capitão. Mas a obra ganhou merecida notoriedade tarde demais, quando o oficial acusado de terrorismo e indisciplina já envergava a faixa presidencial.

Entrevistar o deputado federal Alexandre Frota (PSDB-SP) para a série Nêumanne Entrevista, apresentada no YouTube e reproduzida no Blog do Nêumanne no portal do Estadão, foi a oportunidade de entender por que o capitão conquistou a maioria do eleitorado com a perspectiva de apoio à luta contra a corrupção, sob os auspícios do ex-juiz Sergio Moro. E ainda a adesão ao livre-mercado, personificado no economista Paulo Guedes. E, depois, jogou a narrativa no lixo da História para abraçar, em plena pandemia da covid-19, velhos parceiros de baixo clero do Centrão. A aposta no entrevistado terminou sendo muito bem-sucedida.

Pois na entrevista Frota esclareceu um episódio fundamental na virada de mesa do presidente, ao demitir e tentar desmoralizar um aliado de importância capital na sua campanha: o advogado carioca Gustavo Bebianno. Bolsonaro e os filhos, que movem os cordéis do gabinete do ódio da militância nas redes sociais, divulgaram a versão de que o chefe havia sido traído pelo relevante ministro da Secretaria-Geral da Presidência, na qual foi substituído pelo general da reserva Floriano Peixoto Neto, depois trocado por outro reservista da mais alta patente, Luiz Eduardo Ramos. Este hoje é tido como a vítima da vez na dança das cadeiras, tendo o cargo cobiçado pelo Centrão, eminência parda do atual governo: cabem-lhe as relações com os chefões do Poder Legislativo.

Frota contou agora um episódio que desmente a versão bolsonarista, que poderia ser tida como fake news, assunto da comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) que o deputado ajudou a criar e a dirigir. Segundo ele, perambulando pelos corredores do prédio do Banco do Brasil onde funcionava o comando da transição do governo, deparou-se com um grupo de civis de terno e militares de farda, cada um dirigindo-se à própria sala. E, à sua frente, sobrou um engravatado: Gustavo Bebianno. “Você não vai para sua sala?”, indagou. “Não tenho sala”, respondeu. Ou seja, a nomeação do participante do comando da campanha para o Ministério do governo foi uma farsa, que durou pouco tempo. E nada teve que ver com a versão oficial usada à época, segundo a qual o presidente do PSL durante a campanha eleitoral teria autorizado repasse de verbas do Fundo Partidário para uma candidata “laranja” em Pernambuco, com o suposto apoio de Luciano Bivar, atual presidente da sigla. O então porta-voz, general Otávio Rêgo Barros, não mentiu ao atribuir a defecção ao “foro íntimo do nosso presidente”. O isolamento de Bebianno na transição explica também a brusca retirada do capitão do partido e seu afastamento de Bivar.

Na entrevista Frota contou ainda que, ao assumir uma cadeira na Câmara dos Deputados, pediu da tribuna a prisão do subtenente PM do Rio Fabrício Queiroz. Fê-lo na eclosão do escândalo da extorsão de servidores de gabinetes da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), com a abertura de inquérito pelo Ministério Público do Estado (MP-RJ) contra o então deputado estadual, após ser divulgado o relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre movimentações atípicas, de R$ 1,2 milhão, em contas do assessor do atual senador. Incontinenti o próprio presidente, conforme contou o deputado, telefonou-lhe, aos berros, chamando-o de traidor. Expulso do PSL, o parlamentar mudou-se para o PSDB do hoje principal inimigo dos muitos que o capitão de Artilharia coleciona, o governador de São Paulo, João Doria.

A explosão ao telefone teria sido, segundo Frota, o primeiro indício de que o chefe do governo faria o possível, mesmo que improvável, para tirar o primogênito da enrascada. Isso explica a pressão para o ex-ministro da Justiça e da Segurança Pública Sergio Moro demitir-se, tema do processo no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre interferência política de Bolsonaro na Polícia Federal (PF). E ainda a nomeação de Augusto Aras, fora da lista tríplice do Ministério Público Federal (MPF), para a Procuradoria-Geral da República (PGR) e as indicações de Kassio Nunes Marques para o STF e de Jorge Oliveira para o Tribunal de Contas da União (TCU).

O empenho do chefe do Executivo em obstruir o inquérito do peculato na Alerj desvelou-se recentemente, em agosto, quando se reuniu com o diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, da intimidade da família e impedido de assumir a direção da PF por decisão monocrática do ministro do STF Alexandre de Moraes, que ele chamou de “canetada”. E com o chefe do Gabinete da Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno. Isso para que as advogadas de Flávio, Luciana Pires e Flávia  Bierrenbach, lhes pedissem ajuda para espionar fiscais da Receita Federal que, de acordo com sua teoria conspiratória, teriam cometido crime ao fornecerem dados da contabilidade do senador ao MP-RJ para prejudicarem simultaneamente o filho e o pai.

Por tudo o que relatou, Frota arrependeu-se e pediu desculpas a quem houver votado em Jair Bolsonaro a conselho dele. Conforme disse na entrevista, porque “ele não é confiável”. Mas, sim, um “rato de porão”.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 2 de novembro de 2020)

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