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No Blog do Nêumanne no Estadão: De volta Eike, Rivotril, Mallarmé e o acaso…

No Blog do Nêumanne no Estadão: De volta Eike, Rivotril,  Mallarmé e o acaso…

Cármen homologou as delações da Odebrecht. Eike voltou. E a sorte está lançada!

O tropicalista de primeira hora Antônio José Santana Nascimento, de codinome artístico Tom Zé, baiano da cidade sertaneja de Irará, 80 anos, acordou em plena madrugada da sexta-feira 27 de janeiro de 2017, às 3h30m, e falou lá pros seus botões: “Nossa Senhora, esse negócio das delações tá tão no coração de todo mundo. Era ótimo fazer uma música”. Pelo menos foi isso que ele contou à coleguinha Anna Virgínia Balloussier, da Folha de S.Paulo, que publicou a decisão. Propôs a parceria a Paulo Lapetit e os versos e melodia dos dois ganharam o País inteiro pelas redes sociais. “Estamos pagando por elas vintém a vintém, Sofremos com elas do Rio de Janeiro a Belém”, canta. O gran finale chega no refrão impagável: “Logo logo esse baralho, / homologa esse cascalho”.

“Homologa esse cascalho” foi o recado de Tom Zé pra Cármen Lúcia.

“Homologa esse cascalho” foi o recado de Tom Zé pra Cármen Lúcia.

Não se sabe se a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, que na canção a dupla chama de “Senhora Lucidade”, ouviu o apelo. O que se sabe e já está circulando é que, tendo ou não ouvido, ela atendeu ao pedido e homologou os mais de 900 depoimentos contendo as delações de 77 executivos e ex-executivos da empreiteira Odebrecht na Operação Lava Jato. Dona Cármen, no entanto, decidiu manter o sigilo do processo e o conteúdo dos depoimentos ainda não pode ser tornado público. Com isso atendeu a pedido feito pelo mineiro Rodrigo Janot, procurador-geral da República, permitindo-lhe que tomasse a atitude que tomou. Mesmo decidindo ao contrário do que se dizia que faria Teori Zavaski, o ex-relator morto, que seria permitir sua divulgação, ela não tornou esses depoimentos públicos, mas fez o mais importante: liberou o reinício das investigações com dados cuja revelação apavora “Deus e o mundo” na politica brasileira. Ou seja, a “delação do fim do mundo” vem aí. E a turma que comemorou a queda do avião do ministro do STF já pode voltar a tomar Rivotril para conciliar o sono. Haja insônia…

Quando o avião caiu no mar de Paraty, a Nação temeu pelo destino das delações da Odebrecht à força-tarefa e aos policiais federais da Lava Jato. Imediatamente as Cassandras de plantão apregoaram suas piores profecias. Zavascki poderia ser substituído pelo novo ministro, a ser indicado por Temer, citado 45 vezes só num dos quase mil depoimentos. Logo, o presidente poderia usar seu poder para pôr alguém de sua confiança na cadeira vaga no plenário do STF. Ainda no velório do pranteado relator, contudo, Michel Miguel mostrou que pode até não ser santo, mas tonto ele também não é. Avisou que só indicaria o undécimo membro do colegiado depois que este resolvesse, interna corporis, qual dos nove remanescentes seria o novo relator.

Com isso Temer também evitou dúvidas sobre alguma interferência malfazeja do Senado, composto por muitas cabeças a prêmio no “cascalho” da relação, que têm mostrado natural desapreço pelas investigações daquilo que se convencionou batizar de “república de Curitiba”. É o caso de dizer que o chefe do governo matou nove coelhos com uma só cajadada.

A carcaça sobrou, então, para a presidente do STF descarnar. A mineira Cármen Lúcia agiu com sabedoria salomônica. Assim como o filho de Davi resolveu uma questão de maternidade polêmica propondo dividir o disputado rebento com a espada e decidiu a favor da litigante que preferiu manter o filho vivo, e encerrar a querela, a chefe do Poder Judiciário dividiu em três tempos a decisão. Primeiro, homologar e só depois escolher o relator. Resolvida a questão da premência, alegada por Janot, ela pode deixar o acaso decidir em sorteio de praxe qual dos seus pares herdará os abacaxis judiciais, azedos e espinhentos, que sobraram à mesa de Zavascki. E, depois, dar tempo ao chefe do Executivo para tratar do substituto deste.

A homologação destravou várias outras propostas. Léo Pinheiro, o empreiteiro da OAS, pode voltar a depor. O casal João Santana e Mônica Moura está com a negociação parada. Na segunda-feira de manhã, Eike Batista pousou no Galeão e sua presença é uma promessa de outra delação premiada assustadora para muita gente. Não se sabe se ele foi a Nova York para tomar providências bancárias e salvar parte do patrimônio depositado em bancos no exterior, ou se foi exatamente condicionar o retorno a uma delação premiada que o livre de conviver com a bandidagem comum no inferno prisional nacional. Seja o que for, pode provocar dor de cabeça.

Quem quer que seja o sorteado, este terá de conviver com a mesma pressão da opinião pública a que foi submetido o ministro acidentado. E o será qualquer outro que for indicado para seu lugar. Ainda está a ser decidido se Luiz Edson Fachin, da primeira turma, o único entre cinco pares a solicitar esse movimento (que já comparei aqui a um roque numa partida de xadrez), participará, ou não. Caso seja autorizado a trocar da primeira para a segunda turma, com o benefício de o novo indicado não ser destinado para a segunda, mas para a primeira turma, isso seria conveniente porque o indicado pelo chefe do governo não estaria tão familiarizado com o caso quanto os colegas de plenário e Fachin teria a vantagem de ter o perfil próximo ao de Zavascki.

Os quatro membros atuais são o decano Celso de Mello, o ex-presidente Ricardo Lewandowski, o vice-presidente, Dias Toffoli, e o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Gilmar Mendes. Este já disse que não disputa o lugar, mas ainda não anunciou se ficará fora da escolha aleatória. Poderia dar-se por impedido, tanto por ser inimigo declarado da Lava Jato quanto por ser amigo notório de Michel Temer, sobre cuja sorte decidirá no julgamento da ação do PSDB contra a chapa vencedora de 2014, na qual o presidente foi parceiro da ex.

Dias Toffoli também ficaria numa situação desconfortável, próxima a exigir dele decisão similar de se julgar suspeito por ter sido advogado do Partido dos Trabalhadores (PT), à época em que foi chefiado pela maioria dos denunciados na operação. E, sobretudo, pelo alvo mais evidente de todos, Luiz Inácio Lula da Silva. Mas o ministro não tomou tal atitude quando teve de julgá-los no julgamento do mensalão. Lewandowski também dificilmente se julgaria suspeito, mesmo sendo o único ministro do Supremo que continua manifestando sua lealdade ao casal Lula da Silva, desde os tempos de revisor da citada Ação Penal 470 até o julgamento final do impeachment de Dilma. Neste caso, foi cúmplice do abominável fatiamento da Constituição, ao decepar parte da pena que tinha de ser atribuída à condenada, deposta, mas em gozo do direito de assumir cargos públicos, o que não aconteceu com Collor, apenado em julgamento igual.

De mais a mais, seja qual for a decisão do colegiado a respeito do método de escolha do relator substituto e a quem caberá a missão, ficará sempre valendo o verso mais importante da poesia contemporânea: “un coup des dés jamais abolira l’hasard” –  “um lance (ou golpe, vixe!) de dados jamais abolirá o acaso”. Ou como diria outro gênio da literatura, o general romano Caio Júlio César, “alea jacta est” (“a sorte está lançada”).

José Nêumanne

*Poeta, jornalista e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, na segunda-feira 30 de janeiro de 2017)

Para ouvir no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique aqui

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/lucidez-e-coragem/

 

No Blog do Nêumanne: Nascido para chefiar (texto e áudio).

No Blog do Nêumanne: Nascido para chefiar (texto e áudio).

Mauro Guimarães era um jornalista tão completo que morreu enquanto o ofício definha

Mauro Guimarães era pau pra toda obra em matéria de jornalismo. Devoto de Gutenberg, escrevia artigos sobre política com um estilo límpido e sem floreios. Seus textos críticos eram construídos argumento a argumento, informação sobre informação, palavra por palavra. Eram, sobretudo, caprichados. Caprichadíssimos. Escrevia como Ademir da Guia jogava: lento, calculista, sem firulas nem arroubos. Nada de sentimentalismos. Na medida, para não cansar nem seduzir o leitor com brilharecos ou citações desnecessárias.

Paulista de Jaboticabal, filho de seu Florindo, corretor de café, e de dona Maria, mestra-escola, começou muito cedo na profissão, carregando gravadores pesados da Rádio Paulista em dupla com um amigo que atravessou a vida inteira deste: João Batista Lemos. Não há memória de suas reportagens ou transmissões radiofônicas ou de televisão. Teve desde muito cedo aproveitado seu talento para liderar grupos e chefiar equipes. Como diretor de departamento, convivia no mesmo diapasão com os colegas e os patrões – Victor Costa, na Rádio Nacional e TV Paulista; Wallace Simonsen, na TV Excelsior de São Paulo; João Saad, na Rádio e depois na TV Bandeirantes; Roberto Marinho, na Rádio e depois na TV Globo; a Condessa Pereira Carneiro e seu genro, Maneco Brito, no Jornal do Brasil. Dirigiu, ainda, o jornalismo da TV Manchete, em São Paulo. E, nos anos 70, foi secretário de Comunicação do governo Abreu Sodré

A paixão pela crônica política, traduzida em artigos publicados nas páginas de Opinião dos jornais pelos quais passou, levou-o ao convívio amigo com poderosos gestores públicos. À mesa do restaurante do Four Seasons, no Hotel Othon, na Praça do Patriarca, em São Paulo, participou da conspiração tecida por Thales Ramalho e Roberto Gusmão para fazer de Tancredo Neves presidente da conciliação nacional no desmanche da ditadura, na eleição indireta do Colégio Eleitoral. Tancredo morreu antes de assumir, mas ele tinha acesso como poucos ao gabinete do sucessor, José Sarney.

Na época da consolidação empresarial da imprensa e dos meios eletrônicos de comunicação, poucos profissionais talentosos tinham como ele conhecimento de causa e respeito pela publicidade, pelo processo industrial e pela administração dos veículos. O toque dessa versatilidade tornou-o importante na consolidação empresarial da Rede Globo e na fixação da vocação pelo jornalismo da Bandeirantes. Dirigiu o Jornal do Brasil no ápice do prestígio do diário nas bancas e no mercado, ao lado de seu parceiro de todas as horas, Walter Fontoura.

Seu instinto de chefiar equipes e a amizade com titãs empresariais o aproximaram muito de Omar Fontana, da Sadia e Transbrasil. Com Mauro e Luis Salles na agência de publicidade dos irmãos, Alcides Tápias, da Febraban, e Rolim Amaro na TAM chegou a dar sua contribuição como executivo experimentado com o trato da notícia e da opinião.

Sem seu talento para chefiar nem organizar, segui-lhe a sombra carreira afora e, quando o negócio da comunicação começou a fraquejar, ele definhou, fiel a seu ofício até morrer em casa, em Santos, aos 80 anos, deixando Tereza Francisca, sua mulher da vida inteira, os filhos Marjan, Guilherme e Rodrigo e cinco netos. Tentarei viver de seu exemplo.

José Nêumanne Pinto

*Jornalista, poeta e escritor

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/nascido-para-chefiar/

Para ler o perfil de Mauro na coluna Mortes da Folha clique no link abaixo:

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/02/1854655-mortes-jornalista-discreto-vagaroso-e-de-texto-perfeito.shtml

 

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No Periscope: Eike reincidente (podcast)

No Periscope: Eike reincidente (podcast)

Podcast do comentário de Nêumanne no Periscope da quinta-feira, 26 de janeiro de 2017, às 18h30.

Para ver o vídeo do Periscope clique aqui

 

Nêumanne no Periscope: Coragem, Dona Cármen (podcast)

Nêumanne no Periscope: Coragem, Dona Cármen (podcast)

Podcast do comentário de Nêumanne no Periscope da terça-feira, 24 de janeiro de 2017.

Acesse!

www.periscope.tv/w/a1e10Tk3Mzg4NTJ8MWpNSmdacFBsd2JHTAmjYUVbsOZdbWjXkvMzlnuaPE-WFa6zmo2lpbtqfUm7

Nêumanne no Periscope: Pressão descabida (podcast)

Nêumanne no Periscope: Pressão descabida (podcast)

Comemorando o aniversário de São Paulo, que me adotou como filho, falei no Periscope da pressão descabida que está sendo exercida sobre o presidente Temer para que escolha o novo ministro do STF para atender a interesses grupais e pessoais de corporações, políticos e profissionais do direito. Essa pressão mostra que a premência da crise não desperta os interesses cívicos de nossa elite dirigente, mas, ao contrário, estimula sua busca desesperada pela satisfação dos interesses pessoais, alguns dos quais escusos.

Para ver o vídeo do Periscope clique aqui

Podcast do comentário de Nêumanne no Periscope da quarta-feira, 25 de janeiro de 2017, aniversário de São Paulo.

Acesse!

 

Nêumanne no Periscope. 25 de janeiro de 2017. Podcast

Nêumanne no Periscope. 25 de janeiro de 2017. Podcast

 

Especial: Doação às teles

Especial: Doação às teles

Comentário especial: Doação às Teles

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