Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

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No Blog do Nêumanne: Fabrício, Adriano e os Bolsonaros

No Blog do Nêumanne: Fabrício, Adriano e os Bolsonaros

José Nêumanne

São cada vez mais evidentes laços entre guarda-livros do esquema de peculato na Alerj, miliciano e o clã presidencial, mas nada de relevante fez investigações atingi-los

A presença do ex-capitão do Bope, “tropa de elite” endeusada em “ficções” de grande êxito de vendas e crítica, na vida da famiglia Bolsonaro não é segredo para ninguém e nunca ninguém do clã presidencial fez questão de ocultá-la. Há 15 anos, o então deputado federal Jair Bolsonaro fez emocionado discurso de defesa de Adriano da Nóbrega na tribuna da Câmara dos Deputados, chamando o então condenado por homicídio de “brilhante oficial”, depois de tê-lo apoiado indo ao julgamento. Nele o ex-PM tinha sido condenado quatro dias antes a 19 anos e seis meses de prisão pela morte do guardador de carros Leandro dos Santos Silva, de 24 anos, na favela de Parada de Lucas, zona norte do Rio. À época do crime, familiares da vítima contaram que ela havia denunciado PMs que praticavam extorsão contra moradores da comunidade. O presidente também sempre fez questão de dizer que foi ele que mandou seu primogênito, Flávio, condecorar o presumível matador com a medalha mais importante da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), que tem o nome do proto-mártir da Independência, Tiradentes. Flávio o fez sob o pretexto de que Adriano comandou a patrulha que executou o crime, mas não teria sido o autor dos disparos fatais. Do júri popular o condenado foi para a cadeia cumprir pena e em sua cela recebeu das mãos do então deputado estadual a honraria. Tal visita não foi a única, de acordo com relatos de testemunhas.

Esses fatos eram sobejamente conhecidos por todos quantos sufragaram pai e filho nas eleições subsequentes, seja para a mesma Alerj e para o Senado, no caso de Flávio, mais três para a Câmara dos Deputados e, finalmente, uma para a Presidência da República, no do pai. Ambos, de 2005 para cá, nunca deixaram de defender – usando todo o poder de então até hoje – o chamado “excludente de ilicitude”, figura legal de denominação complicada para livrar de punição policiais que protagonizam os chamados “autos de resistência”, matando suspeitos sob a alegação de o terem feito em defesa da própria vida em conflitos nem sempre contra alvos armados. Mais do que isso, o capitão reformado do Exército, depois de flagrado planejando o uso de explosivos em quartéis e na adutora do Rio Guandu, transformou o expediente num argumento para a conquista de votos de uma parte do eleitorado em busca de segurança a qualquer custo. Embora não confessem, seus defensores adotam na vida real o lema “bandido bom é bandido morto”. Mesmo que nem sempre as vítimas tenham delinquido, o que explicam pela “lógica” de que mortos inocentes são inevitáveis em embates em que nem sempre é possível distingui-los.

Da execução do guardador de carros até hoje, são inumeráveis as evidências da intimidade com o ex-herói do Bope, que, segundo a polícia fluminense, se tornou chefão da milícia de Rio das Pedras e de uma empresa de pistoleiros de aluguel, batizada cinicamente de Escritório do Crime. Os dois “empreendimentos” e seu chefão tiveram sua presença detectada nas apurações do assassínio da vereadora Marielle Franco, do PSOL, e de seu motorista, Anderson Gomes, em 18 de março de 2018. A polícia chegou aos executantes do crime, tidos como assassinos profissionais, Roni Lessa e Élcio Queiroz, ambos moradores do mesmo condomínio Vivendas da Barra onde Jair e Carlos, seu filho nota zero dois, também têm casa. Mas, claro, tudo tem sido tratado como coincidência.

Há, contudo, fatos que não podem deixar de ser levados em conta. Fabrício Queiroz, ex-companheiro de Adriano no quartel da PM em Jacarepaguá, foi apanhado em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) constatando “movimentações atípicas” de pelo menos R$ 1,2 milhão, numa investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) sobre peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, apelidados na intimidade carinhosa de “rachadinha”. Parentes do ex-capitão do Bope, incluindo a mãe, Raimunda Vera Magalhães, foram relatados como servidores da Alerj que teriam participado do esquema, em que, contratados por vencimentos acima de suas qualificações, devolviam parte de sua remuneração, na verdade, quase toda, para contas do guarda-livros, que, por sua vez, repassava o saldo para o então deputado estadual, o pai e a madrasta.

Estado revelou a existência do esquema em reportagem de Constança Rezende em dezembro de 2018. Mas o inquérito sofreu interrupções dignas de nota. A pedido do então defensor do senador Flávio, Frederick Wassef, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, interrompeu todas as investigações de delitos financeiros do País, entre os quais o do peculato na Alerj. Meio ano depois, o plenário do dito “pretório excelso” cancelou a ordem esdrúxula, para dizer o mínimo, e o processo voltou a andar. Mas o senador e seu guarda-livros recusaram-se terminantemente a depor ao MP-RJ, que aparentemente não fez grande esforço para exigir o cumprimento das ordens judiciais. Tanto que Wassef alegou que Fabrício não podia ser considerado fugitivo quando se homiziava no escritório fake de advocacia que mantinha em Atibaia  (SP). Flávio, por sua vez, apresentou dez tentativas vãs de interromper o processo, perdendo nove até conseguir do Tribunal de Justiça do Estado do Rio (TJRJ) mudança de foro absurda, como se seu mandato de deputado estadual tivesse sido mantido depois do quarto e último ano.

Na mesma ocasião, depois de o espalhafatoso Wassef ter deixado o caso, o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), João Otávio de Noronha, concedeu privilégio de prisão domiciliar a Fabrício de Queiroz e a sua mulher, Márcia Aguiar, embora sendo esta então foragida da Justiça. Com isso o presidente Jair Bolsonaro ficou devendo favor a um pretenso candidato à vaga que será aberta no STF com a aposentadoria do decano, Celso de Mello. É notório que o filho de Noronha é sócio em escritório de advocacia de Antônio Rueda, amigo dos filhos do presidente. A generosa prebenda, atualmente garantida pelo recesso do STJ, poderá ser extinta pelo plenário, a partir de uma aguardada iniciativa do relator, Félix Fischer, tamanho foi o mal-estar causado no colegiado pela decisão autocrática que contraria a lógica, o Direito e a própria atuação de Noronha. Afinal, este negou pedidos similares a quem mais a ele tenha recorrido.

É de imaginar que tenha caído a venda de Rivotril nas farmácias a que Jair Bolsonaro recorre para se expor ao convívio social e, assim, desmoralizar medidas de isolamento social adotadas por governadores e prefeitos, adversários políticos que, de hábito, trata como inimigos figadais. Mas o passado da dupla Fabrício-Adriano não esgotou ainda o estoque de assombrações rondando as proximidades do Palácio da Alvorada.

No domingo 12, o Fantástico, da Globo, que o clã trata como inimiga, ressuscitou um caso escabroso protagonizado pela dupla, que, então, a zona oeste do Rio tinha boas razões para temer. Segundo a reportagem, a 32.ª Delegacia de Polícia do Rio mantém em aberto, desde 15 de maio de 2003, um inquérito para investigar a morte do estudante Anderson Rosa de Souza, de 29 anos. O tenente Adriano Nóbrega e o sargento Fabrício Queiroz, do 18.º Batalhão da PM, o teriam executado, deitado e desarmado, na Cidade de Deus, com um tiro na cabeça e dois no tórax e registrado o caso como “homicídio proveniente de auto de resistência” em suposto revide a ataque a tiros. O processo apodrece em providencial gaveta da delegacia da Polícia Civil, o que levou o Ministério Público do Rio a exigir a reabertura da investigação cheia de falhas: ausência de exame nos fuzis usados na operação e de perícia de resíduos nas mãos do cadáver, além da falta de depoimentos de outros dois policiais que participaram da ação e de familiares da vítima. Ao contrário dos policiais, que dizem ter-se esquecido de tudo, pois já lá se vão 17 anos, a viúva disse à repórter que vizinhos lhe contaram que a vítima foi posta de joelhos e executada friamente. O crime prescreverá em três anos.

pax Noronha poderá ter seu efeito reduzido pelo impacto dessas revelações. E a elas podem ser acrescentadas descobertas do inquérito sobre o peculato na Alerj. Como, por exemplo, os R$ 400 mil depositados por Adriano na conta de Fabrício e o encontro de Márcia Aguiar com Raimunda Veras Magalhães, mãe do ex-capitão do Bope, cujo flagrante foi inserido no inquérito como sendo prova de recado mandado por Fabrício ao antigo companheiro PM pouco antes de este ter sido fuzilado, em 9 de fevereiro último, na Costa do Sauipe, na Bahia, num incidente que tem todo o jeitão de queima de arquivo. Aí, então, haja ansiolítico! Arre, égua!

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 13 de julho de 2020)

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Artigo semanal na coluna do Grupo Ric Mais: A formidável fábrica de calúnias do capitão Bolsonaro

Artigo semanal na coluna do Grupo Ric Mais: A formidável fábrica de calúnias do capitão Bolsonaro

O Grupo Ric de Comunicação põe à disposição de emissoras de rádio e jornais impressos ou em edição virtual três podcasts de três minutos cada e um artigo por semana. Interessados em publicar este material original deve entrar em contato com mash.leonardo@gruporic.com.br

A formidável fábrica

de calúnias do capitão Bolsonaro

José Nêumanne

Ameaçado de boicote por anunciantes poderosos, Facebook removeu contas, páginas e grupos do gabinete do ódio

Um ene separa o mito do minto. Pela primeira palavra o presidente Jair Bolsonaro é chamado por seus fanáticos apoiadores. Pela segunda por um enorme contingente de adversários, vítimas e decepcionados com sua gestão negacionista, incompetente e inoperante. Não será exagero atribuir à repartição que funciona a 20 metros do gabinete presidencial no Palácio do Planalto como a mais bem-sucedida repartição de seu governo: o gabinete do ódio.

O departamento mais poderoso da República produz peças de ficção de propaganda que se define como “ideológica”, mas não passa de obscurantismo de mesa de boteco. E extermina reputações dos eleitos da paranóia de que se nutrem o chefe da “famiglia”, Jair Bolsonaro, e os miquinhos abestados no circo de horrores da política de chumbo, pólvora e sangue, os filhotes Flávio, Carlos e Eduardo.

O bombardeio é comandado pelo do meio, Carlos, vereador no Rio, mas aboletado em Brasília desde que, armado, ocupou o banco traseiro do Rolls Royce presidencial no dia da posse do pai. Sua atuação infame e escatológica fez dele alvo em investigações no Supremo Tribunal Federal (STF), no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Congresso. A essas ações do lerdo, pesado e corrupto Estado brasileiro acaba de juntar-se o perfil social Facebook. Ameaçado de boicote por gigantes da publicidade mundial, o negócio biliardário de Mark Zuckerberg viu-se forçado a estancar a farra criminosa nos domínios tupiniquins com uma devassa completa e profunda. Dela resultou a remoção de 35 contas, 14 páginas e 1 grupo no próprio Facebool e mais 38 no Instagram.

Isso complica tudo para a “famiglia”. O amigão Dias Toffoli, presidente do STF, não tem como paralisar os inquéritos abertos. Nem mesmo a nova paixão declarada em público do capitão cloroquina, João Octávio Noronha, presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), terá condições de interromper decisões da “rede de intrigas”, como fez com a prisão do guarda-livros da gangue do peculato, Fabrício Queiroz. Nem Frederick Wassef obrará o milagre de por de molho o que já está posto em fervura. Introibo ad altare Dei.  Assim, seja o que Deus quiser. E ódio, como se sabe, é coisa de Satã. Ou será que essa turma não aprendeu que Deus é amor?

*Jornalista, poeta e escritor

(Artigo para a coluna do Grup Ric Mais de Comunicação)

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No Estadão desta quarta-feira: Até quando Jair fará pouco de nossa sobrevivência?

No Estadão desta quarta-feira: Até quando Jair fará pouco  de nossa sobrevivência?

Furto não é “rachadinha”;

Wassef é cúmplice, não advogado;

e Bolsonaro está é apavorado

O Brasil não é mais um Estado de Direito a respeitar, mas um país do faz de conta em que os mandatários recorrem à picaretagem malandra de eufemismos para maquilar crimes abomináveis, dando-lhes nomes simpáticos e leves para agradar a vassalos e enganar os tolos incautos. Dilma, a Weintraub petista de saias, reduziu o peso dos delitos pelos quais seus companheiros foram condenados, chamando-os de malfeitos. Eles, aliás, são malfeitores mesmo.

As enganações do momento têm apodo carinhoso ou são batizados em inglês: “rachadinha”, fake news… A primeira deriva de “rachid”: parlamentares de baixos clero e nível cometem a prática de contratar funcionários fantasmas, dos quais tomam de volta a parte do leão da injusta remuneração que recebem sem dar expediente. O nome do crime de que Flávio Bolsonaro foi acusado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) é peculato, administrado pelo operador, Fabrício Queiroz. O dito representante do povo remunera com dinheiro público quem não tem qualificação para exercer cargo com alto vencimento e furta, no mínimo, 80% deste. Trata-se de nefanda prática criminosa vigente em Casas Legislativas federais, estaduais e municipais, associada a lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa. Antes que algum bolsonarista, em defesa do hoje senador, aponte para o presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), o petista André Ceciliano, cuja assessoria foi flagrada pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) com “movimentações” 20 vezes superiores às do gabinete do nota zero um, ele tem de ser investigado. Mas furto é furto, seja qual for o valor. Teria de ser investigado no inquérito do MP-RJ, mas não inocenta Flávio por ser menor sua quantia.

Circula nos meios jurídicos uma boutade sobre inútil busca em foros de alguma petição redigida pelo ex-satanista Frederick Wassef, que defendeu o titular do mandato na Alerj, conquistado pelo voto. Mas isso não elimina o fato de que, como advogado, ele exibe feito memorável, do qual jamais se poderiam orgulhar colegas celebrados, como Sobral Pinto, Rui Barbosa ou Victor Nunes Leal. Com sua lábia de “jurista de porta de cadeia”, ele convenceu o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, a suspender todas as investigações do Coaf sobre crimes financeiros no País inteiro, só para manter o cliente longe das grades.

Mesmo, porém, que escape da justa punição da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que deixou de ser uma respeitável instituição da cidadania para se defender do arbítrio e virou mero sindicato de causídicos a serviço de ricaços, responderá pela condição de “coiteiro” de suspeito de miliciano. Esse termo define fazendeiros que davam guarida a cangaceiros no sertão e serviram de tema para um romance de José Américo de Almeida. Foi criminoso o papel que exerceu ao homiziar Fabrício Queiroz num escritório fake em Atibaia. Sua impunidade é um acinte. Por favorecimento pessoal, como acha o professor Miguel Reale Júnior, ou por eventual participação em organização criminosa, como aventa o desembargador Walter Maierovitch. E uma sanção administrativa da OAB.

Não dá para omitir o fato de que o cavalheiro em questão também se jactava de ser, mais que representante legal, íntimo do presidente Jair Bolsonaro. Que tem defendido, em preito à sua insensibilidade desumanista, lares não ameaçados de invasão por “esbirros” de seus inimigos prefeitos e governadores por desobediência à obrigatoriedade e portar máscara nas ruas. É evidente que o capitão cloroquina não leu os tratados antropológicos de Roberto DaMatta sobre a oposição entre rua e casa, mas é lamentável que sua sesquipedal ignorância oportunista o impeça de distinguir ambiente doméstico de espaço público.

Outra obsessão dele, de garantir a asseclas o direito constitucional de ir e vir, levou o mesmo político do mais baixo clero a confundir liberdade de expressão com fake news, associação de palavras inglesas que têm equivalente em português significando mentira, tema que ele domina.

E já que Bolsonaro foi citado neste panorama de proteção por eufemismos, é útil acrescentar que o presidente da República tem sido favorecido pela covardia dos pais da Pátria, que fingem não perceber que sua atual interpretação de “Jairzinho paz e amor”, inspirada em desempenho de seu antípoda e aliado secreto Lulinha, não passa de mera manifestação de pavor. Tendo levado a função presidencial à completa desmoralização mundial por sua indiferença criminosa, quiçá genocida, à maior pandemia do último século e temendo revelações incômodas do colega de paraquedismo, abandonou seu apoio a atos golpistas antidemocráticos e insultos às instituições da democracia representativa. E adotou o hábito de falso monge trapista. Com esse truque não será punido, como deveria, pelos crimes que cometeu no exercício da Presidência e puseram em risco diploma e mandato.

Parodiando Cícero contra o também populista Catilina, até quando Jair vai caçoar de nossa sobrevivência?

*Jornalista, poeta e escritor

(Artigo publicado na Página A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 9 de julho de 2020)

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Artigo para coluna do Grupo Ric Mais: Sócios de Bolsonaro para glória da morte, amém

Artigo para coluna do Grupo Ric Mais: Sócios de Bolsonaro para glória da morte, amém

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Sócios de Bolsonaro

para glória da morte, amém

José Nêumanne

Presidente, Mandetta, Doria, Covas, Witzel e Caiado têm culpas na tragédia da pandemia

Quando se escrever sobre o impacto do novo coronavírus nestes tristes tempos de doença e morte, papel relevante terá um brasileiro, não de herói, mas de vilão: o presidente Jair Bolsonaro. É difícil encontrar nos registros de séculos de civilização tão bizarra obra de barbárie quanto a desse capitão do obscurantismo, que apostou quase 58 milhões de votos no cassino da política em óbitos e na negação total da empatia, da sensibilidade, do amor e do instinto animal da sobrevivência. Entorpecido pelo servilismo ao pajé ianque Donald Trump, messias da picaretagem como código de honra, nosso tosco propagandista de placebos como panacéia em feiras livres embarcou com entusiasmo cego nas práticas cientificamente inócuas de pílula do câncer, cloroquina e contágio do rebanho como poções mágicas para a cura universal da moléstia ignota. Sumo sacerdote de crendices bárbaras de terraplanismo, criacionismo e demonização da vacina que não previne, mas mata, ele investiu em teorias absurdas como a prevenção pelo banho no esgoto e o convívio com a doença como prova de bravura.

A ajuda dada ao microrganismo por sua meta de contaminar 70% da população não tem paralelo nem mesmo com as idiotices de seus comparsas, os ditadores Daniel Ortega, da Nicarágua, Gurbanguly Berdimuhamedow, do Turcomenistão, e Alexander Lukashenko, da Bielorús.

Sua teimosia estúpida o levou à antecipação da guerra eleitoral em dois anos e a se inimizar publicamente com governadores e prefeitos do País todo, que adotaram a estratégia óbvia de reduzir contato social para atenuar contágio viral. Sua obsessiva cruzada contra a vida e em prol da renda terminou por ocultar as participações desses inimigos eleitorais na disseminação do microrganismo. Luiz Henrique Mandetta, o ministro que abateu por ciúme, inveja e cálculo, deixou o Ministério da Saúde como herói e eventual adversário dele no pleito de 2022. Mas sem ter de explicar por que não comprou testes suficientes para repetir o sucesso da Coreia do Sul. João Doria nunca foi cobrado por ter feito o antigo túmulo do samba de Vinicius tornar-se permanente quarta-feira de cinzas da farra das funerárias sambando sobre sepulturas. Como Dória, Bruno Covas, Wilson Witzel e Ronaldo Caiado caíram na cantiga da sereia da abertura das ruas para a tragédia escancarada da crueldade de capitalistas desumanos, Eles e outros, em associação com as ratazanas da elite dirigente do Estado e do rentismo, investiram pesado em sobrepreços em alta e decência em queda vertiginosa.

Como nas priscas eras de El Rey fujão, a Terra de Santa Cruz manteve o protocolo ritual de eliminar pobres e velhos para nutrir maganões da Corte.

*Jornalista, poeta e escritor

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No Blog do Nêumanne: Os brutos também furtam

No Blog do Nêumanne: Os brutos também furtam

José Nêumanne

Cara de sério e índole casmurra não evitaram que Serra juntasse R$ 40 milhões num banco suíço, algo impensável para um professor universitário, filho de um imigrante de classe baixa

José Serra, quem diria, acabou na Lava Jato.

Ou melhor, os brutos também furtam.

É possível afirmar que esse paulistano, de 78 anos, entrou na política pelas portas mais certinhas da História num século 20 conturbado por duas grandes guerras, fascismo, nazismo e comunismo, sangue, suor e lágrimas, como definiu magnificamente o maior estadista que atuou nele, o britânico Winston Churchill. No entanto, está deixando a cena da forma mais lamentável que poderia ter escolhido, depois de ter construído uma fama de gestor público reto e duro. De uma conta conjunta com a filha, Verônica, possivelmente a pessoa que mais ama, na Suíça das grandes contabilidades paralelas e dos códigos secretos de contas sem nome, foi bloqueada a quantia astronômica de R$ 40 milhões, grande até para os maganões da empresa privada que conviveram com ele em 56 anos de política.

Começou como militante da Ação Popular (AP), grupo armado que pretendia derrubar a ditadura militar, instalada exatamente depois de sua estreia em palanques no Comício da Central do Brasil (ou das Reformas), em 24 de março de 1964. Na presença do então presidente João Goulart, ele, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), deu apoio da juventude estudantil ao projeto de “reformas de base” do herdeiro político de Getúlio Vargas e líder do Partido Trabalhista Brasileiro. Uma semana depois, as famílias católicas fizeram passeatas contra a “ditadura sindicalista”, os generais se irritaram com a movimentação considerada subversiva de suboficiais e o general Olímpio Mourão marchou de Minas para o Rio, o que serviu de senha para o golpe. Então na Juventude Universitária Católica (JUC), foi para a clandestinidade e seguiu para o Chile, exilado. Lá conheceria Mônica, sua ex-mulher e mãe de Verônica.

Com a anistia, emprestou sua fama de durão ao primeiro governador de São Paulo eleito pelo povo pós-golpe, Franco Montoro, emedebista egresso do Partido Democrata Cristão (PDC). Secretário de Planejamento do Estado mais rico do País, foi um ponto de referência na economia, embora tenha estudado engenharia na Universidade de São Paulo (USP). Em nome do combate à corrupção do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), entregue em São Paulo ao governador Orestes Quércia, juntou-se a Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e outros dissidentes no Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB). FHC nomeou-o, para surpresa geral, ministro da Saúde. Na sua gestão, deu força aos medicamentos genéricos e combateu com fervor antitabagista o tabaco. Foi ainda governador de São Paulo, prefeito da capital e perdeu duas eleições presidenciais, para Lula, em 2002, e para Dilma Rousseff em 2006.

Uma língua ferina diria que sua descida começaria no Ministério das Relações Exteriores do emedebista Michel Temer. Depois, passou a  ocupar uma das vagas no Senado, desde 2015, e foi pilhado com a boca na botija pela Operação Lava Jato, justamente agora, nos estertores dela.

Reagiu queixando-se publicamente da data de vencimento da investigação, argumentando que eventuais ilícitos estariam prescritos. Mas se esqueceu de negar a prática furtiva de corrupção. Os tucanos sempre foram favorecidos pela leniência do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), incluindo a Lava Jato, sucesso em Curitiba e no Rio. Só que o saldo bloqueado grita mais alto do que qualquer queixa por ele utilizada em estilo sussurrante, que contraria seu perfil orgulhoso e antipático.

Há outro detalhe. A Operação Revoada, deflagrada em 3 de julho, joga luz num personagem já conhecido da Lava Jato, o lobista de fama internacional José Amaro Pinto Ramos. Este foi indiciado pelo Ministério Público da Suíça pelos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção passiva de agentes públicos nos casos Alstom e Siemens, no governo do PSDB de São Paulo. Os esquemas do PSDB e do PT passaram por ele. Foi sócio de várias empresas do vice-almirante da Marinha Othon Pinheiro da Silva, ex-presidente da Eletronuclear, condenado em primeira instância pelo juiz Marcelo Bretas, da Justiça Federal do Rio, e delatado por diversos executivos da Odebrecht. Um dos 77 delatores do dito “Departamento de Operações Estruturadas”, nome pomposo para o propinoduto da empreiteira corrupteira, Benedito Barbosa da Silva Junior, confessou à Lava Jato que a Odebrecht pagou E$ 40 milhões ao lobista José Amaro Pinto Ramos para fechar o contrato de parceria com a empresa francesa DCNS para a construção de cinco submarinos. Othon Luís Pinheiro da Silva e o PT, por intermédio do ex-tesoureiro João Vacari, levaram propina. O negócio dos submarinos foi fechado, em 2008, por Lula.

Benedito Barbosa da Silva Junior confessou ainda que José Amaro Pinto opera no mercado de armas há muitos anos. A casa caiu para o lobista internacional do PSDB e do PT, ligado a Serra, Lula e às empreiteiras corrupteiras. Sua blindagem simplesmente derreteu.

Em 2017 comentei que o senador José Serra (PSDB-SP) poderia ter sido investigado a fundo em 2008, quando o Ministério Público da Suíça informou às autoridades brasileiras que havia indícios de que a multinacional Alstom teria pago propinas para obter contratos nas áreas de energia e transporte. Mas o procurador Rodrigo de Grandis, à frente do caso, engavetou o pedido da Suíça numa pasta errada!!! E não deu em nada para ninguém.

Esse caso de propina revelado agora e que é a base da denúncia do Ministério Público de São Paulo envolvendo o senador José Serra e as corrupteiras Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez, assim como o caso Alstom, poderiam ter sido investigados e punidos na Operação Castelo de Areia, anulada por intervenção do ex-ministro e advogado de Lula, Márcio Thomaz Bastos. Este pagou RS 5 milhões em propina e prometeu uma vaga ao então presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Asfor Rocha, no Supremo Tribunal Federal (STF) Mas Teori Zavascki foi nomeado por Dilma Rousseff para a vaga. Essa anulação atrasou o combate à corrupção em pelo menos oito anos. Blindou o PT, o PSDB e o lobista internacional José Amaro Pinto Ramos. A Lava Jato só foi um sucesso porque foi feita por Curitiba. Em São Paulo, território de Márcio Thomaz Bastos e seus advogados associados – cupinchas, melhor dizendo –, nada andou.

Agora vou além. O filho de Luiz Gushiken, Guilherme Gushiken, em delação premiada na Operação Greenfield, que apura em Brasília a corrupção nos fundos de pensão Previ, Petros e outros, confessou que a Camargo Corrêa pagou propinas milionárias ao PT e aos dirigentes da Petros. Pois é. Quantos crimes poderiam ter sido evitados se o Ministério Público de São Paulo tivesse agido? As corrupteiras são todas de São Paulo e formavam um cartel. Pegando uma, no caso, a Camargo Corrêa, na Castelo de Areia, pegavam todas. Como diz a metáfora de puxar uma pena e pegar a galinha inteira, da lavra do ministro do STF Gilmar Mendes.

O ex-governador de Pernambuco e ex-ministro da Fazenda Gustavo Krause escreveu-me a respeito das acusações contra Serra: “Nosso memorável Nélson Rodrigues dizia, com a licença que o talento lhe deu: ‘o que o sujeito tem de bom ou sublime está na cara’. Um exagero lombrosiano? Bom, além de uma chatice esculpida em granito, Serra era insuperável. Tinha o que chamo de ‘cara de critério’, máscara que parecia impenetrável aos peccata mundi”. E completou: “Eis que o ventilador cumpriu sua função e nós, nordestinos, a quem ele dispensava especial desdém, assistimos ao espetáculo da desfaçatez do ‘honorável tucano’. Que peste a corrupção! Ou nasce vacinado ou não há anticorpo que imunize”.

O saldo bloqueado da conta na Suíça, em que comprometeu a filha amada, ao estilo pós-petista, revela no sério só na aparência José Serra um traidor da memória impecável de dois antecessores tucanos dele. Franco Montoro, que o lançou na política. E Mário Covas, que não transigia com corrupção, terminou tornando possível a roubalheira ao fazer um trabalho notável na recuperação financeira do Estado mais rico da Federação, depois de Orestes Quércia, que levou o trio a deixar o MDB com o dr. Ulysses e tudo, ter dito: “Quebrei o Banespa (banco do Estado), mas elegi Luiz Antônio Fleury governador”. E assim foi feito.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 6 de julho de 2020)

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Artigo para a coluna da Ric Mais: Sócios de Bolsonaro para glória da morte, amém

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Sócios de Bolsonaro para glória da morte, amém

José Nêumanne

Presidente, Mandetta, Doria, Covas, Witzel e Caiado têm culpas na tragédia da pandemia

Quando se escrever sobre o impacto do novo coronavírus nestes tristes tempos de doença e morte, papel relevante terá um brasileiro, não de herói, mas de vilão: o presidente Jair Bolsonaro. É difícil encontrar nos registros de séculos de civilização tão bizarra obra de barbárie quanto a desse capitão do obscurantismo, que apostou quase 58 milhões de votos no cassino da política em óbitos e na negação total da empatia, da sensibilidade, do amor e do instinto animal da sobrevivência. Entorpecido pelo servilismo ao pajé ianque Donald Trump, messias da picaretagem como código de honra, nosso tosco propagandista de placebos como panacéia em feiras livres embarcou com entusiasmo cego nas práticas cientificamente inócuas de pílula do câncer, cloroquina e contágio do rebanho como poções mágicas para a cura universal da moléstia ignota. Sumo sacerdote de crendices bárbaras de terraplanismo, criacionismo e demonização da vacina que não previne, mas mata, ele investiu em teorias absurdas como a prevenção pelo banho no esgoto e o convívio com a doença como prova de bravura.

A ajuda dada ao microrganismo por sua meta de contaminar 70% da população não tem paralelo nem mesmo com as idiotices de seus comparsas, os ditadores Daniel Ortega, da Nicarágua, Gurbanguly Berdimuhamedow, do Turcomenistão, e Alexander Lukashenko, da Bielorús.

Sua teimosia estúpida o levou à antecipação da guerra eleitoral em dois anos e a se inimizar publicamente com governadores e prefeitos do País todo, que adotaram a estratégia óbvia de reduzir contato social para atenuar contágio viral. Sua obsessiva cruzada contra a vida e em prol da renda terminou por ocultar as participações desses inimigos eleitorais na disseminação do microrganismo. Luiz Henrique Mandetta, o ministro que abateu por ciúme, inveja e cálculo, deixou o Ministério da Saúde como herói e eventual adversário dele no pleito de 2022. Mas sem ter de explicar por que não comprou testes suficientes para repetir o sucesso da Coreia do Sul. João Doria nunca foi cobrado por ter feito o antigo túmulo do samba de Vinicius tornar-se permanente quarta-feira de cinzas da farra das funerárias sambando sobre sepulturas. Como Dória, Bruno Covas, Wilson Witzel e Ronaldo Caiado caíram na cantiga da sereia da abertura das ruas para a tragédia escancarada da crueldade de capitalistas desumanos, Eles e outros, em associação com as ratazanas da elite dirigente do Estado e do rentismo, investiram pesado em sobrepreços em alta e decência em queda vertiginosa.

Como nas priscas eras de El Rey fujão, a Terra de Santa Cruz manteve o protocolo ritual de eliminar pobres e velhos para nutrir maganões da Corte.

*Jornalista, poeta e escritor

 

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