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No Blog no Nêumanne: Suprema embromação federal

No Blog no Nêumanne: Suprema embromação federal

Lobby do presidente do STF para garantir aprovação pelo Senado de reajuste do próprio subsídio é tão absurdo quanto o é garantia de suspender auxílio-moradia para juízes em geral para justificar tal descalabro.

Nada se salva no grotesco episódio do reajuste de subsídios dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) para R$ 39,2 mil por mês, autorizado em lei aprovada por folgada maioria de parlamentares presentes à sessão convocada pelo presidente do Senado, Eunício Oliveira. E este já fora dispensado de cumprir mais um mandato de oito anos na Casa por decisão sábia e soberana dos eleitores de seu Estado do Ceará.

O reajuste começou a ser exigido no mandato presidencial de dois anos do ministro Ricardo Lewandowski, que antes fora revisor do julgamento da Ação Penal n.º 470, a do mensalão, ocasião em que travou pesados embates com o relator e depois presidente, Joaquim Barbosa. Em dois anos no cargo, Sua Excelência comportou-se como dirigente sindical, reivindicando privilégios para ele próprio e também para todos os membros da magistratura, da qual, como comandante da Corte Suprema, se considerava “poderoso chefão”. A pauta sindicalista do membro do colegiado no topo do Judiciário já era totalmente imprópria, mas à época foi pouco levada em conta, por não ser surpreendente partindo de quem partia e, ainda, porque, mesmo existente, a crise econômica da família brasileira não tinha chegado ao estado de crueldade atualmente sofrido.

O índice que mais clama na exposição dessa situação é o total dos desempregados em seu nível mais elevado, até estonteante, de 14 milhões de trabalhadores, alcançado sob a presidência de sua sucessora, Cármen Lúcia. Esta, justiça lhe seja feita, comportou-se de forma exemplar nesse particular. A procuradora pública mineira, que sempre teve vida social muito recatada, ao contrário de colegas muito mais pródigos no uso de seus vencimentos, que, aliás, servem de limite para as folhas de pagamento não apenas do Poder a que servem, mas de toda a União, nunca misturou sua atividade judicante com reivindicações de remuneração. Na condição de chefe do plenário de última instância, ela nunca encaminhou o pleito e, com isso, seus subsídios e os dos colegas ficaram estagnados desde 2014, como propagam os que agora o reivindicam como se fossem recuperação de perdas acumuladas do passado. Por mais realista que seja o argumento, ele se torna, mais do que hipócrita, cínico, se se partir do princípio de quem paga a conta, e não de quem se beneficia do alto cargo para se dar bem. De 2014 para cá a economia brasileira andou para trás e os trabalhadores que remuneram os ministros foram desempregados ou, no mínimo, não tiveram reajuste nenhum ou, ainda pior, receberam os salários reduzidos. A cobrança da “recuperação da perda” passou a ser, então, uma reivindicação sem nenhum senso de justiça social, virtude da qual eles tanto se jactam.

Dias Toffoli, que chegou ao “supremo” posto sem nunca ter sido aprovado num concurso para juiz de primeira instância, não se fez de rogado. E, ao substituir Cármen Lúcia, repetiu a pauta de reivindicações antes adotada por Lewandowski, com quem se acostumou a soltar criminosos abonados de colarinho branco, sob alegação errada de respeito à letra constitucional, na qual “ser considerado culpado” passou a ter o mesmo significado de “ser preso”, o que os dicionários não avalizam. Reforçado pelo argumento da reposição da perda salarial, típica alegação de sindicalistas operários em datas de dissídios coletivos, o ministro que liberou o ex-patrão José Dirceu, condenado a 30 anos e meio de cadeia, até da obrigação de usar tornozeleiras, não teve pudor de reclamar publicamente do pleito da “categoria”. E, segundo noticiário nunca desmentido, apelou pelo telefone aos senadores responsáveis pela aprovação final do pedido para lhe ouvirem o pleito, como faziam os chefes de polícia avisando aos sambistas nas primícias dos desfiles de carnaval. Ou seja, um magistrado sem concurso agiu como um mendigo com Chanel para tirar o pão dormido sem manteiga da boca do desempregado em nome da democracia, que, desde as raízes gregas, é tida como “igualitária”.

Não sendo impossível agravar algo tão degradante, não é possível omitir que Dias Toffoli tentouamenizar a dureza de uma medida impopular como a que exigia de políticos cuja liberdade depende de sua penada autocrática, ou combinada com os colegas de regabofe, com uma compensação. Em troca, eles negariam a si mesmos e aos outros magistrados em geral o benefício do auxílio-moradia. Ora, o adicional ao vencimento é um privilégio absurdo, gozado por juízes, promotores e outros membros da casta dos marajás do serviço público, que não podem ser confundidos com os coitados dos barnabés. Os próprios defensores desse abono de casta reconhecem publicamente e sem pudor algum que não precisam da esmola para pagar o lugar de morar no exercício da função, o que só seria defensável para garantir a segurança de titulares de comarcas em ermos violentos e desprotegidos, o que está longe de ser o caso dos membros dos tribunais sediados em capitais. A mera enunciação dessa desigualdade patente entre julgadores e julgados é algo muito distante do que significa “justiça” pelos mesmos dicionários que não autorizam a tentativa deles de contestar a jurisprudência da autorização para tribunais de segunda instância determinarem a prisão de criminosos factualmente definidos como aptos a iniciarem o cumprimento de suas penas.

Destarte, fique aqui combinado que não tem propósito nenhum cobrar o reajuste a ser pago pelos que perderam o emprego ou não tiveram seus salários aumentados e continuam bancando cada centavo dos milhares de reais que são depositados em suas contas polpudas. E também que a contrapartida oferecida é, de igual forma, injusta e carente de qualquer conceito de ética que seja aplicável no convívio civilizado de iguais.

A troca proposta por Toffoli, sem pudor, assemelha-se à “Lei da Compensação” consagrada por Jackson do Pandeiro no sucesso que fez com a interpretação do hilariante forró de Rosil Cavalcanti e oculta pelo sigilo telefônico entre ministro e senador. Se o reajuste esfola o pobre para garantir o luxo de maiorais do Judiciário, que têm garantia perpétua de emprego, aposentadoria pela mais alta remuneração e mais um rosário de benesses asseguradas por lei, o auxílio-moradia estabelece a injustiça como padrão para toda a magistratura. Ou seja, no afã de “compensar”, Toffoli dispensou gasto contestado no próprio STF. E mandado para as calendas da burocracia mercê de uma decisão pra lá de corporativista do ministro Luiz Fux, ao dar seis meses de prazo à Câmara de Conciliação e Arbitragem da Administração Federal da Advocacia-Geral da União. Enquanto o reajuste causa ônus permanente, que produzirá um rombo que se repete. É como se ele oferecesse a troca de uma gaiola de belos e melodiosos canários belgas por um bando de andorinhas em revoada ruidosa em sua rota de migração.

E, mais grave, o acinte está sendo perpetrado com base em cálculos falsificados. O auxílio-moradia é uma despesa permanente e ilegal, apesar do lero-lero dos beneficiados e da cumplicidade dos “supremos”, mas o desembolso do erário para pagá-lo não produz efeitos paralelos e colaterais no Orçamento federal. Já o reajuste produz um efeito-cascata bilionário de tal monta que os técnicos têm dificuldade até para calcular. Especialistas avaliam entre R$ 4 bilhões e R$ 6 bilhões o resultado dessa “reposição de perdas salariais” do time de morcegos protegidos pela venda que tapa os olhos da Justiça na estátua em frente ao prédio de seusgabinetes. O auxílio-moradia transfere do bolso do trabalhador para as togas dos magistrados R$ 1 bilhão 627 milhões 990 mil e 232 por ano e isso é, de fato, extravagante, mas representa menos da metade do gasto para compensar essa eventual economia, que não será feita. Toffoli sabe disso. Embora talvez sua massa encefálica não avalie o fosso abissal entre reajuste e prebenda. Nós, que pagamos ambas as contas, não devemos desprezar a consciência que tem do volume de dinheiro do Brasil real (da crônica atual de Machado de Assis) que gasta na parte que lhe toca de banquetes e regabofes da farra em que a suprema embromação federal do País oficial se refestela.

Nem tente calcular seu prejuízo pessoal nessa ignomínia, pois não dá. Mas convém guardar com zelo a lista dos senadores que a tornaram lei e sempre se lembrar de esquecê-los nas próximas eleições que vierem a disputar. Em particular, do autor da tramoia, Eunício Oliveira. E por falar no sujeito em questão: Vade retro etchau, cabrão!

José Nêumanne

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 12 de novembro de 2018)

Para ler no  Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique aqui. 

No Blog: Nêumanne entrevista Deonísio da Silva

No Blog: Nêumanne entrevista Deonísio da Silva

Conversa clara e prosa justa

com Deonísio da Silva

 

Professor, escritor e colunista sobre origem das palavras na revista Caras, Deonísio celebra invasão dos currais e libertação de eleitores de votos de cabresto

O escritor catarinense Deonísio da Silva, ganhador do prêmio Casa das Américas com o romance Avante, Soldados: Para Trás, comemora a eleição na qual “o Brasil enfim se politizou por meio de um recurso inesperado, o recurso digital. Ninguém o previu com as vestes democráticas com que irrompeu este novo recurso, que tornou possível invadir os currais e libertar aqueles que votavam pelo cabresto”. Para ele, isso era necessário e urgente, porque “nossa elite política perdeu a visão de nação, seus representantes pensam apenas em si mesmos e formaram dinastias familiares para os saques ao erário”. Por causa disso, o acadêmico diz, brincando, que depende das autoridades educacionais um câmpus universitário não se tornar “câmpus de concentração”, protagoniza o Nêumanne entrevista da semana no blog, em que constata: “O Brasil se mediocriza sem parar”. E dispara um petardo contra a primazia da ideologia de gênero no lugar da seleção pela excelência dos candidatos ao ensino superior. “Os autores de certas perguntas no Enem incorrem num equívoco de raiz: querem enganar os trouxas com artimanhas pueris. Citam Guimarães Rosa e Graciliano Ramos para poder enfiar excertos de obras e de autores fora da casinha. Os alunos nem foram ensinados a consultar um dicionário, mas são obrigados a conhecer certos verbetes de Aurélia, a Dicionária da Língua Afiada, de expressões gueis. Os culpados não são os autores desse curioso minidicionário. São aqueles que usam o  Estado – isto é, o dinheiro dos impostos: quanto custa cada Enem? – para impor a indefesos um conteúdo confuso, um norte desbussolado. Assim, prejudicam a todos, incluindo as autoridades às quais servem e pelas quais foram designadas”.

Deonísio: "a prosa política, em seu sentido mais sólido, a participação nos destinos da pólis, está na ordem do dia e vai reordenar o Brasil". Foto: Acervo pessoal

Deonísio: “a prosa política, em seu sentido mais sólido, a participação nos destinos da pólis, está na ordem do dia e vai reordenar o Brasil”. Foto: Acervo pessoal

O catarinense Deonísio da Silva é professor federal aposentado  e professor titular visitante da Universidade Estácio de Sá, onde atualmente dirige o Instituto da Palavra. Integrante da bancada brasileira na Academia das Ciências de Lisboa e respeitado escritor, por sua independência intelectual, é doutor em Letras pela USP e mestre em Letras pela UFRGS, mas não destaca esses títulos, e sim o que aprendeu no ensino médio em colégios de padres. “Obter um doutorado na USP não é para quem quer, é para quem pode, mas passar num exame de Latim do cônego Germano Peters ou confessar-se com o padre espiritual, investigando a própria alma, ou uma vez ao ano com o bispo diocesano dom Anselmo Pietrulla, era só para quem fosse antes orientado por Wilson Volpato e evitasse os escrúpulos”, diz ele, em sua habitual prosa bem humorada, um pouco antes de responder às perguntas que seguem, lembrando um de seus melhores amigos daqueles verdes anos, hoje setentão como ele. Deonísio é autor de 35 livros, entre os quais romances como Goethe e Barrabás, Lotte e Zweig (sobre o famoso suicídio tratado por ele como duplo assassinato, já publicado na Itália, com capa da artista plástica Arlinda Volpato), Teresa DÁvila (premiado pela Biblioteca Nacional e a ser levado ao teatro pela segunda vez por Carlos Vereza) e A Cidade dos Padres. Mas a referência solar de seus romances é Avante, Soldados: Para Trás (1992), no Brasil em 10.ª edição, já publicado em Cuba, Itália e Portugal, depois de receber o Prêmio Internacional Casa de las Américas, em júri integrado por José Saramago. Na mídia, faz um trabalho muito relevante em Etimologia, tal como se vê no livro De Onde Vêm as Palavras, reunião de suas colunas nas revistas Caras. Mantém colunas semanais também no http://portal.estacio.br/instituto-da-palavra, na Veja online, no blog de Augusto Nunes e na Rádio Bandnews Rio., com Ricardo Boechat.

A seguir, Nêumanne entrevista Deonísio da Silva

1 – Em abril, o senhor fez uma palestra sobre o julgamento de Zé Bebelo num seminário a respeito de Guimarães Rosa e Machado de Assis, abrindo o ano cultural da Academia Brasileira de Letras. O que o fez escrever que, neste ano em que se comemoram o cinquentenário do lançamento da obra-prima Grande Sertão: Veredas, do primeiro, e os 80 anos da primeira edição de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, os organizadores do Enem os tenham citado “por esperteza: para justificar a presença dos dispensáveis e até dos que escrevem mal” ou originalmente em outra língua, como Eduardo Galeano, que, convenhamos, não é um grande autor nem no restrito panorama da literatura uruguaia, como escreveu no Facebook?

Você me permite uma longa resposta? (José Nêumanne Pinto: fale quanto quiser, eu também sei que algumas coisas muito importantes não podem ser ditas em poucas palavras.) Pois é, às vezes tenho vontade de postar inteirinho no Facebook o Sermão do Bom Ladrão, do padre Vieira, especialmente para aqueles que, elevados a reis, acompanham ao cárcere os bandidos com os quais negociaram. Quando assumi a Vice-Reitoria da Universidade Estácio de Sá, no Rio, onde estou desde que me tornei professor federal aposentado, em 2003, disse na primeira reunião com a equipe que meu binômio era: conversa clara e trato justo. Abri a palestra proferida na Casa de Machado de Assis com este lema, citando a seguir, obviamente, belos trechos de Guimarães Rosa, como esta fala de Zé Bebelo, ao ser advertido por Joca Ramiro de que está em julgamento: “Toda hora eu estou em julgamento”. Você falou lá também, assim como outros romancistas, como José Carlos Gentili – aliás, autor de um premiado livro em que rastreia nas Ordenações Afonsinas o primeiro hífen da língua portuguesa – e Benito Barreto, autor de grandiosos romances sobre a Inconfidência Mineira. No final de minha palestra, o Merval Pereira veio me cumprimentar e disse: “Tomara que o Lula não conduza o julgamento como o Zé Bebelo”, E rimos juntos. Você deve lembrar-se de que, réu, Zé Bebelo conduz o próprio julgamento. Lula tentou fazer o mesmo, mas encontrou pela frente não um homem misericordioso como Joca Ramiro, e sim um juiz implacável como Sergio Moro, que deve seguir o lema latino tão em voga em São Paulo “non ducor duco” (conduzo, não sou conduzido). Hoje, já realizado o julgamento, continuo achando Lula parecido com o personagem de Rosa, que também diz dele: “Zé-Bebelo quis ser político, mas teve e não teve sorte: raposa que demorou”. Já de Graciliano Ramos, considero que seu grande romance não é Vidas Secas, é São Bernardo. Quem cita muito Vidas Secas em geral não leu outros. No Brasil existe o costume de citar sem ler. Você pode ver que os erros de citações são sempre os mesmos ou muito semelhantes. Não me refiro apenas ao ipsis litteris, mas a citações confusas no contexto e sem pés nem cabeça, como álibi para a enxurrada de textos desconexos e fora de lugar e de propósito, como fez o Enem. No caso do trabalho intelectual, entendo que nossa arma é a dos saberes de nosso ofício. É falsa a humildade de igualar-se àqueles que fizeram outra coisa na vida ou tratar igual quem é desigual na profissão: se meus pares em Letras são esses que pontificam sobre tudo, especialmente nas redes sociais, eu estou perdendo o meu tempo há 50 anos, pois estudo, pesquiso e ensino português e suas literaturas há meio século. Se romances de minha autoria como Avante, Soldados: Para Trás, Teresa D’Ávila e Goethe e Barrabás estão no mesmo nível dos livros daqueles autores que não representam de jeito nenhum a nossa literatura, mas estão sempre nas bibliografias oficiais ou oficialescas, nas feiras de livros e em outras delegações, eu estarei contrariando minha sábia avó, que dizia que quem muito se abaixa mostra o bumbum. É justo você ter orgulho dos pontos altos de sua carreira, assim como é saudável assumir seu madalenismo e arrepender-se das más escolhas que você fez na vida.  Isso talvez possa explicar a exagerada admiração dos autores da prova do Enem pelo autor uruguaio. É coisa de quem olha a literatura do mundo inteiro por uma pequena fresta. Mas esta pequena restrição não pode ser creditada a Eduardo Galeano, que, aliás, deve muito ao exílio vivido na Espanha, de onde seu nome foi divulgado mundo afora. A censura, ato execrável, predatório e inútil, às vezes consagra medíocres, no sentido etimológico de palavra, isto é, de qualidade abaixo da média, que é o caso do best-seller em causa. Ele vende menos pela relevância de sua obra e mais por agradar a nichos eficientes de produção de leitores em determinada direção ideológica. Esses nichos têm pontífices que conhecem poucos autores de qualidade e são incapazes de reconhecer talento em escritores dos quais discordem. Por isso se tornam medíocres também, formam medíocres, etc. Em suma, o Brasil se mediocriza sem parar.

Deonísio integra bancada brasileira na Academia de Ciências de Lisboa e dirige o Instituto da Palavra da Universidade Estácio de Sá. Foto: Acervo pessoal

Deonísio integra bancada brasileira na Academia de Ciências de Lisboa e dirige o Instituto da Palavra da Universidade Estácio de Sá. Foto: Acervo pessoal

2 – O que no referido exame o levou a escrever, no mesmo post, que “quem fez as perguntas do Enem na área de letras precisa reciclar-se” e, mais, “quem desconhece o dialeto secreto de gueis e travestis não pode entrar na universidade?”

Não sei quem faz os exames do Enem. Entro em brigas de foice no escuro em defesa da independência intelectual e docente desde que saiba onde estão o interruptor e a porta de saída, como um dia ouvi do escritor Marcos Rey. Mas os autores de certas perguntas no Enem incorrem num equívoco de raiz: querem enganar os trouxas com artimanhas pueris. Citam Guimarães Rosa e Graciliano Ramos para enfiar excertos de obras e de autores que estão fora da casinha. E há mais o seguinte: os alunos nem foram ensinados a consultar um dicionário, mas são obrigados a conhecer certos verbetes de Aurélia, a Dicionária da Língua Afiada, de expressões gueis. Os culpados não são os autores desse curioso minidicionário. São aqueles que usam o Estado – isto é, o dinheiro dos impostos: quanto custa cada Enem? – para impor a indefesos um conteúdo confuso, um norte desbussolado. Assim, prejudicam a todos, incluindo as autoridades às quais servem e pelas quais foram designadas. Seus asseclas passaram a defender a pergunta, e não apenas nas redes sociais, mas em todos os lugares onde pontificam, não para esclarecer, mas para dar como correta uma pergunta fora de propósito. Há reprovação em massa nas redações do Enem. Quer dizer, o ensino médio não ensinou os alunos sequer a escrever um texto curto. Aliás, nem a ler direito, pois a maioria tropeça no léxico e na interpretação. Mas ensinou-lhes dialeto, uma questão controversa até nos estudos avançados sobre línguas. Isto é conversa mole para boi da cara preta cochilar e assustar quem tem medo de careta. E de resto ainda não é obrigatório conhecer as palavras-chave do mundo guei para entrar para a universidade. Na universidade, um dos requisitos é dominar um conjunto de saberes que permitam ao usuário acompanhar um curso superior. Nas universidades francesas, o francês; nas italianas, o italiano. Etc. Quais são as gírias do mundo guei nessas línguas? É preciso conhecê-las para estudar lá? Para maior clareza, imaginemos o seguinte: e se o curso fosse ministrado numa língua estrangeira? Pois o português está se tornando isso para nossos alunos escreventes e legentes, uma língua estrangeira. E, em alguns casos, morta. Outro dia lamentei em congresso onde fiz pequena intervenção o desaparecimento acelerado, não mais paulatino, do mais-que-perfeito. Na saída, um professor me disse: “Não quis dizer em público para não ofender o senhor, mas o mais-que-perfeito não é mais necessário”. Veja você, já se considera ofensa a simples discordância.  Repliquei na hora: é mesmo? E como faremos com os versos de Camões “mais servira se não fora para tão longo amor tão curta a vida” e “na quarta parte nova os campos ara e se mais mundo houvera lá chegara”? Tome um prova de Português, qualquer prova: você vê trechos de autores clássicos, tais como Castro Alves, Cecília Meireles, Machado ou José Lins do Rego, servindo de base a uma questão? Predominam recortes da mídia, em geral pobres de estilo e, sobretudo, indicadores de que quem os selecionou só leu aquilo ali, mesmo, aquele é o nível dos examinadores, não apenas dos examinandos.

Deonísio, catarinense, e a mulher, a gaúcha Michele, nos jardins da Embaixada Brasileira em Lisboa, para onde viajam amiúde. Foto: Acervo pessoal

Deonísio, catarinense, e a mulher, a gaúcha Michele, nos jardins da Embaixada Brasileira em Lisboa, para onde viajam amiúde. Foto: Acervo pessoal

3 – Quem lhe faz estas perguntas teve uma formação no ensino médio em escola religiosa e num colégio público e testemunha que, há meio século, as escolas desse grau de ensino eram muito melhores do que as de elite, frequentadas pelos filhos, na faixa dos 40 anos, e ainda mais dos netos agora. Até que ponto o senhor, que é da geração que estudou latim, grego e, sobretudo, o português canônico, abandonado pela linha populista de esquerda do “povo é que manda na língua”, abona esta constatação?

Minha formação básica se deu nos bons tempos da escola pública e em seminários de padres. Depois do primário, onde pontificavam as célebres e bem preparadas professoras normalistas, meus mestres foram padres. Meus professores da graduação em Letras na Unijuí também eram ex-padres ou ex-seminaristas em sua maioria. Sou doutor em Letras pela USP e mestre em Letras pela UFRGS.  Chutatis chutandis, essas prestigiosas instituições, em algumas disciplinas, nem sempre alcançavam os saberes ministrados em seminários e em outros colégios mantidos pela Igreja, por ordens religiosas ou por igrejas confessionais,  ou em escolas como o Colégio Pedro II, no Rio; o Júlio de Castilhos, em Porto Alegre; ou o Colégio Estadual de Curitiba. E poucos mais.  Quer dizer, tivemos uma qualidade de ensino reservada aos filhos da elite e duramente conquistada por nós, depois de “honesto estudo com longa experiência misturados”, como diz aquele poeta que, de tão popular, é até nome de bife no Brasil, o bife à Camões. E este “a” tem crase porque é à moda de Camões. O pessoal que faz o Enem dá mais valor a outros, assim como, na prática, continuam a maltratar Machado de Assis, ao desprezá-lo, depois que ele virou o jogo e passou de negro, pobre, órfão, epiléptico e gago a maior escritor do Brasil por esforço próprio e contra todas essas conhecidas adversidades. Epocais. Um bom ensino médio é mais decisivo para a vida do que graduação e pós-graduação. O embaixador Jerônimo Moscardo, ministro da Cultura do governo Itamar Franco, estudou no Pedro II e me disse que o salário dos professores era o mesmo dos ministros do STF. Um bom ensino começa com professores bem remunerados. Você acha que alguma vez alguma ordem religiosa considerou um problema a previdência dos frades ou dos padres professores? Estava no pacote, era normal. Então, eles podiam exercer o ofício docente despreocupados com a sobrevivência, ao contrário do que acontece hoje com os professores.

4 – Já que o assunto foi tratado, é inevitável pedir-lhe uma análise crítica sobre os efeitos deletérios da massificação do ensino superior sob a gestão de Jarbas Passarinho no Ministério da Educação e Cultura (MEC) dos governos militares e da didática da demagogia adotada nos governos petistas, da qual o candidato substituto do PT à Presidência na última eleição, Fernando Haddad, tanto se orgulhou na campanha, apesar da constatação do Índice de Desenvolvimento Humano da tão badalada Organização das Nações Unidas de que justamente o setor educacional se manteve estagnado?

A massificação do ensino não é um mal em si, nem chega a ser nociva. Dou-lhe um exemplo concreto e facilmente verificável: o professor que ministra aula, hoje, pelo Ensino à Distância, não pode chegar atrasado. E a pontualidade de professores e alunos, vale dizer, a disciplina, é essencial ao ensino e à aprendizagem. Na gestão de Passarinho, vários cursos superiores foram ministrados de modo intensivo e nas férias, com a mesma carga dos cursos diários. Até com as mesmas ementas. Como se sabe, o ano letivo tem no Brasil, em média, um terço dos dias do ano. Pode ser ministrado em quatro meses integrais, portanto. Então, sempre dependerá da qualidade do ensino ministrado, a começar por seleção de professores pela competência e de boas condições para exercer a docência, e não pela escolha de apaniguados para a direção das instituições de ensino superior. O coronel Jarbas Passarinho e o general Rubem Ludwig fizeram boas gestões no ensino à frente do MEC. Não se pode negar, porém, que o Brasil desaba nas classificações internacionais de avaliação. Na campanha, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad fez más escolhas de orientação, recebeu apoios e recomendações que lhe tiraram milhões de votos, segundo minha modesta opinião, mas acho que ele e o ministro Tarso Genro tiveram bons momentos como gestores à frente do MEC. Infelizmente, serviram a dois apedeutas, um dos quais sempre se orgulhou de não estudar. Mas de um profissional da qualificação de Fernando Haddad esperamos naturalmente mais do que bons momentos, esperamos visão estratégica e mudanças concretas. Para isso não pode nomear para postos-chave por indicação ideológica. Às vezes, seu melhor aliado é seu crítico. E seu pior parceiro é quem diz sempre amém.

5 – Em seu romance Goethe e Barrabás, talvez sua maior obra de ficção, lançada em 2008, o senhor contou a história do famoso bandoleiro bíblico iluminado pelo genial poeta de Fausto, aprendendo que Satanás não negocia com mulheres porque elas, na visão diabólica, vendem a alma, mas não a entregam. Antes que os apressadinhos o confundam com algum machista empedernido, o senhor não acha que convém esclarecer que, de fato, o texto revela em profundidade a baixeza da elite brasileira, responsável pela caminhada que nosso país, principalmente neste momento histórico, faz rumo ao inferno de Dante?

Esse romance conta uma história que poderia ser factual. De todo modo, é verdadeira: por más escolhas que fazemos na vida, caímos em tentações que nos destroem ou nos salvam. Como discernir? Não apenas no plano individual. Eu recebi depoimentos sinceros de leitoras que disseram: “Eu sou a Salomé”. Outras disseram: “Que pena que eu não tive a coragem de fazer a escolha de Salomé”. Leitores disseram: “Eu queria ser Barrabás, daí, sim, eu seria livre e viveria com mais gosto”. No romance eu lido com os dois Barrabás, o bíblico e o personagem Bar, seu apelido. E dei o nome de Salomé porque um homem perde a cabeça por ela, como no episódio bíblico. Quanto a Goethe, aprecio demais as reflexões sobre esse negócio de vender a alma ao diabo. O agraciado queixa-se a Satanás: por mais que gaste, não gasta todo o dinheiro obtido com a venda da alma. E Satanás sugere: “Já experimentou a caridade?”. Inseri esse capítulo porque nos governos do ciclo petista eu achava espantoso que se orgulhassem de aumentar o número de atendidos por bolsas disso e daquilo. Era um dos sinais do fracasso que se avizinhava. Um benefício necessário e provisório foi colocado como programa permanente. É como orgulhar-se sempre de um remendo, não da roupa nova, um problema do cidadão resolvido pelo governante. No Brasil a tentação totalitária é muito forte. A educação não está inculcada em nossa alma. A prisão e o medo estão. A expressão teje preso não é apenas uma brincadeira, ela revela a nossa alma. Nós não acreditamos na tarefa de educar, nós acreditamos na de punir, de preferência com a perda da liberdade. Há outro bom exemplo no trânsito: o objetivo é arrecadar, não é melhorar o trânsito. Acompanhei muito de perto a educação de minha filha e percebia o espanto que sobrevinha quando a coleguinha era posta de castigo pelos pais porque tinha transgredido alguma norma. Sabe o que era ficar de castigo? Estudar! Os pais, provavelmente sem querer, davam a ideia de que estudar é um castigo. O Brasil vem fazendo más escolhas há muito tempo. A elite que imagina estar ainda na casa-grande é um caso de polícia. A segurança tem problemas? A casa ou mansão vira uma fortaleza, com guarita, muros altos e guardas particulares. Há violência no trânsito? A solução passa a ser comprar carros blindados. O sistema de saúde não funciona? Surgem planos caríssimos, que só a elite pode pagar. O ensino público vai mal? Eles pagam para seus filhos estudarem em escolas de elevado padrão, sobretudo no exterior. A elite brasileira não pensa mais no Brasil. Mas houve um tempo em que pensou, proclamou a independência política, programou a República, organizou o Exército para se defender dos inimigos externos. O étimo remoto de elite é o mesmo de recolher, escolher e ler, e até os finais do século 12 significava apenas escolhida. Uma escolha supõe o melhor, não é mesmo? Mas no Brasil, as elites – prefiro o plural – têm complexas formações. Nossa elite econômica, por exemplo, tem saqueadores, ladrões e outros malfeitores nas árvores genealógicas. Nossa elite política perdeu a visão de nação, seus representantes pensam apenas em si mesmos e formaram dinastias familiares para os saques ao erário.

Deonísio, abraçado por Pedro Thompson, professor da Universidade Estácio de Sá, da qual é titular aposentado. Foto: Acervo pessoal

“Deonísio, professor titular visitante da Universidade Estácio de Sá, abraçado por Pedro Thompson, presidente da Casa”.

 6 – Em outra obra em que sua verve mordaz se manifesta, Os Guerreiros do Campo, lançada em 2000, o senhor se refere de forma muito irreverente aos ditos movimentos sociais de trabalhadores sem terra e sem teto, que, nestes 18 anos, têm sido tratados com muita condescendência, ao mesmo tempo que vêm perdendo relevância, embora ainda protagonizem os sonhos revolucionários da esquerda Rouanet. Sem cair na folclorização do mortadela contra coxinha, que papel o senhor lhes atribui neste momento histórico crucial, em que a intervenção do chamado “exército do Stédile” ameaça menos do que uma pipa ao vento?

Quando escrevi Os Guerreiros do Campos, os sem-terra, liderados por Stédile e seus red caps, ocupavam no Brasil um território maior do que a Dinamarca. Mas isso diz pouco: um empresário paranaense tinha no Pará uma fazenda maior do que a Bélgica. Visitei os acampamentos para escrever o romance, num deles me encontrei com a moça que tinha posado para a Playboy – na época eu escrevia para essa revista, fazia perfis, fiz o de Maguila, do Samelo, etc., e publiquei ali alguns contos. Sempre fui a favor da reforma agrária, principalmente depois de ler o melhor livro de Graciliano Ramos, São Bernardo, em que o latifúndio mostra suas devastações também na alma do proprietário. E não fui a favor como é a favor a personagem tão amorosa do romance, a fazendeira Camila, que diz: “Desde que não comece por minha fazendas”. Ela vive um complicado amor com Gregório, um professor que a faz mudar muito. Mas é raro um petista ter humor, já percebeu isso? Frei Betto me disse que eu ia ganhar a Margarida de Prata, um troféu da CNBB para bons livros. Mas daí foram ler o romance e a abertura traz uma cena insólita: São Pedro está fazendo o cadastramento das almas dos sem-terra que chegam assassinados ao céu, eu me baseara em várias chacinas, e o príncipe dos apóstolos pergunta algo assim: por que os brasileiros não morrem como os suíços, que chegam aqui arrumadinhos? Acharam que eu estava debochando da religião. Justo eu, católico de formação, que rezo todos os dias, vivo a clamar que falta uma editoria de religião na mídia e leio as encíclicas papais no original? Quanto ao sem-terra, hoje, não sei mais o que lhe dizer, a não ser revelar uma antiga perplexidade: sem verba do governo eles não sobrevivem. Tornaram-se profissionais, servem a outros interesses, como todos sabem, mas esse é um pequeno problema perto das safadezas bancárias praticadas todos os dias em nome da independência do Banco Central. Olhe as taxas de juros, não apenas dos bancos, mas sobretudo dos cartões de crédito populares. Que vergonha para nossas autoridades monetárias permitirem e autorizarem algo assim! Perto disso, os sem-terra são moscas no açucareiro.

Deonísio no estúdio onde apresenta seu programa Sem Papas na Língua no estúdio da BandFM no Rio. Foto: Acervo pessoal

Deonísio no estúdio onde apresenta seu programa Sem Papas na Língua no estúdio da BandFM no Rio. Foto: Acervo pessoal

7 – Por falar em ameaça, está sendo noticiado, com relevância que, na realidade, não deveria ter, o alerta feito pela ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia de que há uma perigosa onda conservadora no mundo e, particularmente, entre nós. Como perigo não combina com conservação, para o bem geral da Nação, que remédio o senhor ministraria a esses magistrados que falam tantas batatadas: um bom dicionário na cabeceira ou uma dose de Rivotril antes de falar em solenidades públicas?

Tornou-se um meme nas redes sociais a tua célebre ponderação ao ministro Marco Aurélio Mello, do STF. Aliás, antigamente sabíamos a seleção brasileira de cor e nenhum nome de ministro do STF. Hoje sabemos a escalação completa do STF, até de quem joga mais à esquerda, mais à direita ou mais ao centro, e ignoramos a seleção brasileira. Não deveria, mas vou dizer: discrepo, por norma, das opiniões da ministra Cármen Lúcia. A cada vez que ela emite uma de suas platitudes, eu penso num trecho de Sêneca: fallaces sunt rerum species et hominum spes fallunt. Está na obra De Beneficiis, que a ministra ou quem a nomeou deveria ler ou ao menos consultar, pois há boas traduções. Mas quem a nomeou não lê nada. Acho que não soa pernóstico citar um clássico latino por dois motivos: a amizade tinha valor absoluto na Roma antiga. E essas frases já foram pronunciadas em latim pela bela Scarlet Johansson no filme Iron Man 2. Sua tradução aproximada é: “As aparências enganam e traem a esperança dos homens”. Lembro que para os antigos gregos a esperança era um dos males do mundo, porque podia enganá-los sobre o futuro. Aliás, era um jarro, não uma caixa, termo adaptado para designar o objeto oval que Pandora abriu, soltando todos os males do mundo, menos a esperança. O antigo nome virou palavrão, como se sabe.

Deonísio, em congraçamento ecumênico com ex-ministros de Temer, Calero, e de Dilma, Martins, e ex-secretário de Alckmin, Chalita. Foto: Acervo pessoal

Deonísio, em congraçamento ecumênico com ex-ministros de Temer, Calero, e de Dilma, Martins, e ex-secretário de Alckmin, Chalita. Foto: Acervo pessoal

8 – Ainda dentro desta luta com as palavras, que, para o poeta Drummond, é a mais vã, este apaixonado por vocabulários, gramáticas e que tais, que o interroga, tem a ousadia de lhe apresentar um problema de hermenêutica. Há anos o Supremo Tribunal Federal se divide entre garantistas e punitivistas em torno do artigo 5.º, inciso VLII, da Constituição federal, que expressamente proíbe considerar culpado cidadão cujo processo não tenha transitado em julgado. Em que dicionário ou tratado de sinonímia é autorizada a substituição de considerado culpado por ser preso, como pretendem os rigorosos garantistas? E será que transitado em julgado, na verdade, ultrapassaria as calendas gregas?

Em nenhum dicionário. Só se for um compêndio deles mesmos. O mundo jurídico não tem essa proclamada precisão. Sentença tem o mesmo étimo do verbo sentir. Não é inteiramente objetiva. Cada juiz julga como sente o problema. Parece que às vezes há outras influências, mas isso pode ser fofoca, esse recurso de modéstia (a pessoa não fala de si), de solidariedade (a pessoa está preocupada com a vida alheia) e de delicadeza (fala pelas costas porque pela frente poderia magoar o interlocutor). Mas todos sabem que alguns ministros do STF adoram navegar na maionese, como se diz em linguagem científica (risos). Outros, menos delicados de trato, às vezes nos dão a ideia de que gostariam, como o mais vulgo dos vulgos, de resolver no braço, insinuando os benefícios do pugilato, e às vezes nos fazem imaginar que poderá advir dos conflitos uma antiga solução, o duelo. Mas eu confesso que sempre gosto de assistir às sessões: pelas palavras, pelos gestos, por caras e bocas. E não aprecio o que considero exagerada verborragia contra alguns deles. Se certas decisões do STF merecem providências, sou de parecer que deveriam ser tomadas no ambiente civilizado das leis. Eles não são deuses, homens é que são. E por isso falham também. Quanto às calendas gregas, os gregos não tinham calendas, mas tinham calendário. O STF deveria ter o seu também. Talvez eles tenham, além de dialeto e idioleto, um cronoleto, um tempo que valha só para eles.

9 – Seu ofício de professor universitário, escritor e etimologista à disposição dos meios de comunicação já lhe permite decidir se hoje o português falado no País real e escrito no Brasil oficial, distinção feita em crônica clássica de Machado de Assis, ainda seria a “última flor do Lácio inculta”, mas não necessariamente tão “bela”, como a descreveu o poeta Olavo Bilac?

Pois é, os modernistas odiavam Bilac porque não escreviam tão bem quanto ele, e porque ele tinha criado o serviço militar e o livro didático. O português das ruas a cada dia fica mais rico, mas eu temo que a falta de leitura dos clássicos e de outros bons autores da língua maculem deliciosas expressões e tendam a baixar o nível. O povo é bom, a escola ainda não, ou não é mais, para os mais pessimistas. Mas há bons indicadores de que a qualidade do ensino do português venha a ser retomada e seja enfim interrompido esse processo de usar incultos como referência. Sabe que a etimologia de clássico é muito curiosa: clássico é aquilo que você precisa para uma viagem. Começou a designar o que era necessário levar numa embarcação, depois numa frota. Temos de portar de novo os clássicos. E há novos clássicos na praça.

Do Sermão do Bom Ladrão, de Vieira, Deonísio cita os "reis, que acompanham ao inferno ou ao cárcere bandidos com os quais negociaram" (Foto: Acervo pessoal)

Do Sermão do Bom Ladrão, de Vieira, Deonísio cita os “reis, que acompanham ao inferno ou ao cárcere bandidos com os quais negociaram” (Foto: Acervo pessoal)

10 – Como cidadão, que trabalha entre jovens, no pleno calor da batalha ideológica travada no Brasil em termos candentes, levada a extremos na última eleição, como o senhor acha que essa súbita paixão nacional pela política, substituindo até o fanatismo pelo esporte bretão que consagrou Terto, nos meios de comunicação e nas “ágoras” do boteco, desviará o Brasil do abismo ou, ao contrário, guiará o povo à desgraceira geral?

Prezado José Nêumanne Pinto, antes de responder à última pergunta, permita-me agradecer-lhe este espaço: Jesus curou dez leprosos e apenas um voltou para agradecer. Gosto muito das lições dessa parábola: a taxa de agradecimento para Deus é de apenas 10%. Para nós, saiba que é muito menor. Pessoas como você, o Augusto Nunes, o Luiz Fernando Emediato, o Aluizio Maranhão e poucas mais sempre deram comovente atenção ao que escrevo. A minha participação na mídia não é bem vista por alguns colegas. No antigo câmpus de concentração onde eu ensinava, certo dia uma professora me fulminou à queima-roupa: “Bonito, hein, um professor e escritor escrevendo na Caras, não tem vergonha, não?”. No susto, eu só tive espírito (de porco) para perguntar: “Como é que a senhora soube?”. Quanto às conversas das ágoras do boteco, que venham mais ágoras e mais eclésias (originalmente, eram assim chamadas as assembleias dos cidadãos), não apenas as comunidades eclesiais de base a cuja formação dediquei três anos de minha vida em tempo integral, numa experiência sofrida e bonita de convivência com pessoas das mais diversas características. Morávamos todos juntos num prédio que tinha sido convento, estudávamos uma semana em tempo integral e passávamos três semanas no meio rural formando esses grupos. A equipe era composta por homens e mulheres que eram brasileiros, alemães, belgas, austríacos, holandeses. Para mim valeu, em certo sentido, muito mais do que os cursos universitários que fiz. Foi uma experiência singular. Sou esperançoso e acho que o Brasil enfim se politizou por meio de um recurso inesperado, o recurso digital. Ninguém previu, com as vestes democráticas com que irrompeu , esse novo recurso, que tornou possível invadir os currais  eleitorais e libertar aqueles que votavam pelo cabresto. Tal como na antiga Grécia, berço da democracia, a prosa política, em seu sentido mais sólido, o da participação nos destinos da “pólis”, está na ordem do dia e vai reordenar o Brasil. E que a pátria deixe de ser ordenhada pelos velho costume de mamar nas tetas do governo, que já deixou torta a boca de alguns poucos.

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/conversa-clara-e-prosa-justa-com-deonisio-da-silva/

Legendas

Foto deonaestácio: Deonísio: “a prosa política, em seu sentido mais sólido, a participação nos destinos da pólis, está na ordem do dia e vai reordenar o Brasil”. Foto: Acervo pessoal

Foto deonacademia:  Deonísio integra bancada brasileira na Academia de Ciências de Lisboa e dirige o Instituto da Palavra da Universidade Estácio de Sá. Foto: Acervo pessoal

Foto: Deon&mi Deonísio, catarinense, e a mulher, a gaúcha Michele, nos jardins da Embaixada Brasileira em Lisboa, para onde viajam amiúde. Foto: Acervo pessoal

Foto: deonpedro Deonísio, abraçado por Pedro Thompson, professor da Universidade Estácio de Sá, da qual é titular aposentado. Foto: Acervo pessoal

Foto deonaband: Deonísio no estúdio onde apresenta seu programa Sem Papas na Língua no estúdio da BandFM no Rio. Foto: Acervo pessoal

Foto deoncalero Deonísio, em congraçamento ecumênico com ex-ministros de Temer, Calero, e de Dilma, Martins, e ex-secretário de Alckmin, Chalita. Foto: Acervo pessoal

Fotodeonmicro Do Sermão do Bom Ladrão, de Vieira, Deonísio cita os “reis, que acompanham ao inferno ou ao cárcere bandidos com os quais negociaram” (Foto: Acervo pessoal)

Links

Para ouvir Deonísio e Boechat no Sem Papas na Língua na Band clique aqui

Para ouvir entrevista de Deonísio a Prisco Paraíso no SBT de Florianópolis clique no play abaixo:

Para ouvir entrevista a Augusto Nunes na Jovem Pan clique aqui:

Para ver vídeo que alunos da FACHA fizeram sobre a obra de Deonísio clique aqui  

Nêumanne entrevista: Deonísio da Silva. 30ª edição da série DEZ PERGUNTAS.

Nêumanne entrevista: Deonísio da Silva. 30ª edição da série DEZ PERGUNTAS.

 

No Blog do Nêumanne: “Estamos todos no mesmo barco”

No Blog do Nêumanne: “Estamos todos no mesmo barco”

Boa governança depende mais do Congresso e dos tribunais superiores que do chefe do Executivo, de quem se costuma exigir tudo, muito mais do que, de fato, pode

No templo batista Atitude, o presidente eleito, Jair Bolsonaro, pediu a união de todos os brasileiros, argumentando que “estamos todos no mesmo barco”. A união é necessária e estarmos, de fato, todos no mesmo barco é tão evidente como água molha e fogo queima. Cabe-lhe governar para todos os brasileiros, e não apenas para os 57.797.456 eleitores que votaram nele no segundo turno da eleição presidencial de 2018, em 28 de outubro. É o que prometeu resta saber se cumprirá. O “para todos” não exclui minorias, cujos direitos humanos – ou será “humanos direitos”, como exige seu futuro ministro da Defesa, general Augusto Heleno? – têm de ser respeitados pelo governo da maioria e pela própria maioria. Vale para mulheres, negros, índios, pardos, homossexuais e “vermelhos”, que não são a turma do cordão encarnado, mas a esquerda sempre insultada por Bolsonaro, desde que eles aceitem a mesma regra de tolerância que vale para os adversários. Vale também para os telespectadores, ouvintes de rádio e leitores de jornais e revistas que preferem se abrigar na garantia de verdade que o mercado lhes oferece, fora do território pantanoso das fake news da terra de ninguém que é a internet, à qual o presidente eleito pode continuar recorrendo, mas que não deveria adotar como se fosse outra forma do verbo divino na Terra.

Nada disso aí é fácil. Aceitar o outro, diferente, sem que ele seja o “inferno”, como definiu Jean-Paul Sartre na peça Huis Clos (Entre Quatro Paredes), é norma básica de convívio social e condição sine qua nonpara o exercício do governo democrático em nome do povo, com o povo e para o povo, como manda a Constituição. Quem detém o poder tem a obrigação da iniciativa: é quem estende a mão. Afinal, o poder político numa República (res publica, coisa do povo em latim) dita representativa não pode ser exercido de forma indiscriminada, de cima para baixo, como nas tiranias. Mas, sim, com o respeito à Constituição, em primeiro lugar, e às leis e instituições em geral. Em nosso específico caso, pelo menos em teoria, o monopólio da força em mãos do Estado, sob a chefia do mandatário-mor, escolhido pelos cidadãos aptos a votar, não é absoluto, mas relativo. Na moderna escola institucional, estabelecida desde os tempos da Revolução Francesa, em 1792, há equilíbrio entre Executivo, Legislativo e Judiciário, como imaginou Montesquieu. O primeiro governa e executa as leis, criadas pelo segundo e sob julgamento do terceiro. E aí é que está o que padre Bernardo, meu inesquecível professor de Latim e Lógica (e a Matemática é uma ciência do raciocínio lógico) no seminário redentorista de Bodocongó, em Campina Grande, chamava de busílis.

Por falar em Campina Grande, na Paraíba, onde passei minha adolescência, a turminha que se reunia todas as noites, depois da sessão de cinema no Capitólio, proseava na praça do Rotary, bem em frente, e criou um jargão particular. Chamava, por exemplo, de Belém-Brasília qualquer mulher alta, magra e desprovida de curvas nas ancas, como a estrada que ainda gozava as famas das primícias. O mesmo vale para essa palavra imensa, caquética e feiosa que é governabilidade. Por mais desacunhada (desajeitada, como se dizia naquela roda implacável) que ela seja, tem caprichos de formosa donzela e poder de sedução de beleza ímpar. Sem governabilidade, na República de Montesquieu, ninguém governa, com o perdão do trocadilho infame e pleonástico. Em nosso caso, costuma-se exigir isso apenas do chefe do governo, principalmente, como é o caso de Jair Bolsonaro, eleito por maioria de 10 milhões de votos sobre seu adversário, o presidiário Lula, representado pelo boneco de ventríloquo Haddad, como se só a ele coubesse a obrigação da moderação e da humildade: estender uma mão à outra e abraçar quem tenta apunhalá-lo.

Não é bem assim. A obrigação é de todos, a começar das instituições representativas do poder republicano. A primeira delas é o Congresso. O mostrengo do presidencialismo de coalizão, gerado e cevado pelo tucano Fernando Henrique em seus oito anos de dois mandatos e seguido à risca pelos sucessores petistas,Lula e Dilma. Este, em que se compra apoio e se combate a oposição ferozmente, acabou virando mais propriamente “de colisão”. E pode explodir como bomba nas mãos que Bolsonaro estendeu na igreja apropriadamente intitulada Atitude, no domingo 4 de novembro, no Rio. No caso dele, a barroada (sinônimo vulgar de abalroamento) promete aparecer atravessando o sinal fechado na esquina.

Do ponto de vista ideológico, o carro desgovernado na contramão é conduzido por uma esquerda feroz, impiedosa, mentirosa, rapace, irresponsável, leviana e impatriótica. Ela já se manifesta na intolerância com que se apresenta ao transe, corruptela de transição, termo mais suave para definir a travessia do ex-governo em extinção para o futuro. E sob a mira dos snipers que não aceitam a derrota no voto, com que pretendia consagrar a impunidade de seu líder-mor, Lula, ladrão e lavador de dinheiro, assim definido por definitiva decisão da segunda instância do Judiciário, um dos Poderes autônomos da República. André Singer, professor da USP e ex-porta-voz do corrupto, no artigo A hora mais escura, não deixa por menos: “A maioria nas urnas dá mais poder aos antidemocratas do que os tanques de 1964”, Cumpre-se, segundo o titular de Ciência Política na mais venerada escola superior pública do País, a profecia de sua colega filósofa Marilena Chaui, que, em entrevista à revista Cult falou de uma ditadura mais nociva às instituições do que a militar. Parece piada de mau gosto, mas é sério. Trêfegos discípulos aloprados estenderam em seus câmpus, no País inteiro, faixas com paródias de Sílvio Santos: “O fascismo vem aí”.

A mídia, que a esquerda e Bolsonaro execram, não noticiou, contudo, presença de tropas de assalto,pogroms em bairros judeus nem noites dos cristais, com quebra-quebra de vidraças de lojas dos herdeiros de Abraão. Isso aconteceu na Alemanha de Weimar, prenúncio do nazismo de Adolf
Hitler, personalidade política favorita de Lula, quando era líder sindical, em entrevista à Playboy. Mas o PT não faz oposição e, sim, “resistência”, como se opuseram os franceses à invasão alemã na 2.ª Guerra. E a palavra golpe voltou a ser usada, como se o partido sob cuja égide foi promovido o maior saque ao erário da História tivesse o direito sagrado de representar o povo, mesmo quando este se manifesta, como aconteceu, contra essa contrafação de monarquia populista. Eis a oposição que o presidente eleito enfrentará daqui a dois meses, após ser empossado.

E há outra, sub-reptícia, sibilina e ao abrigo da mais que poderosa Câmara dos Deputados. Em 5 denovembro passado, o Estado publicou em manchete de primeira página: 1/3 do Congresso eleito responde a processos na Justiça. Esse terço é o remanescente reduzido da maioria silenciosa que resiste ao combate à corrupção pela banda sadia da polícia, do Ministério Público e da Justiça e, protegida pelo foro privilegiado, não entregará ao inimigo a rapadura, que não é mole, mas é doce.

Para tanto contará com a cumplicidade da cúpula do Poder Judiciário, em especial do Supremo Tribunal Federal (STF). O presidente deste, ministro Dias Toffoli, prega um pacto, mais bem definido no título da chamada de primeira página do Estado de domingo 4: STF prevê protagonismo maior em novo governo. São sete os profetas da “nova aliança”: além do presidente, o decano Celso de Mello, o indefectível Marco Aurélio Mello e mais quatro embuçados em sua fantasia de morcego máximo. Sob o selo Jurisprudência, a manchete do Globo de segunda-feira 6 é mais explícita: STF resiste a propostas de Bolsonaro sobre prisões.

O deputado federal reeleito pelo PSL de São Paulo com 1.843.735 votos, a maior votação para a Câmara da História, disse ao Globo: “A gente fez um pacto: a gente não vai para a cadeia. A gente não vai cair na mão do Sergio Moro nem da Lava Jato. Se o partido colocar a faca no pescoço: ‘O partido tal vota se tiver o ministério tal’, sinto muito, mas não vai ter. Será que eles conseguem aprovar o impeachment de um presidente recém-chegado? Olha para o Collor e para a Dilma. Como estava a popularidade deles quando receberam o impeachment?”. Gente, se a promessa for cumprida, este será o bom primeiro passo na direção desejada para o novo governo, mas não será tudo. A governabilidade dependerá de paciência, tolerância e disposição infinita para o diálogo. Sem essas preliminares será difícil vencer “resistências” no Congresso e no STF.

  • José Nêumanne: Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 5 de novembro de 2018)

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No Blog: Nêumanne entrevista Fernando L. Schüler

No Blog: Nêumanne entrevista Fernando L. Schüler

Para professor, Moro será fiador

para Bolsonaro andar na linha

Cientista político Fernando L. Schüler, do Insper, acha que todos saem ganhando com a decisão de Bolsonaro de nomear Moro ministro da Justiça e este aceitar

“Moro funciona como um fiador a mais da ordem constitucional e da sociedade de direitos. Agora teremos uma experiência diferente. É preciso estar vigilante, manter o espírito crítico, mas é preciso tolerar o grupo que pensa diferente. É simples assim. Quem não entender isso não compreende como funciona uma democracia”, diz o professor gaúcho de Ciências Políticas Fernando L. Schüler, da Cátedra Insper Palavra Aberta. Protagonista desta semana da série Nêumanne Entrevista neste blog, ele argumentou ainda contra a opinião dos que temem surtos autoritários do presidente eleito, Jair Bolsonaro, por causa da retórica de direita dele: “Nossas instituições são sólidas e não há sinal de que os militares queiram se afastar de seu papel constitucional. Qualquer líder político, hoje em dia, no Brasil, precisa andar na linha. É o que fará Bolsonaro”.

Foto Schüler2: Sobre gestão Bolsonaro, Schüler previu: "penso que será um governo instável, com previsíveis tensões com o Congresso, mas dentro da normalidade democrática." Foto: Acervo pessoal

Sobre gestão Bolsonaro, Schüler previu: “penso que será um governo instável, com previsíveis tensões com o Congresso, mas dentro da normalidade democrática.” Foto: Acervo pessoal

Gaúcho de Porto Alegre, Fernando L. Schüler é cientista político e professor do Insper. Tem doutorado em Filosofia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com pós-doutorado pela Universidade Columbia. É titular da Cátedra Insper Palavra Aberta, voltada para a reflexão sobre a liberdade de expressão e de imprensa. Foi diretor da Fundação Iberê Camargo e tambémdo Ibmec (no Rio de Janeiro) e é colunista da Band News e da Rádio e TV Bandeirantes.

Nêumanne entrevista Fernando Schüller

Nêumanne -Agora que o juiz Sergio Moro aceitou ser ministro da Justiça no futuro governo de Jair Bolsonaro, o senhor acha que o combate à corrupção ganhou novo alento, depois da longa batalha contra os suspeitos encastelados nos três Poderes da República até estes nossos dias?

Fernando Schüller – Sérgio Moro sempre deixou claro que a pauta de combate à corrupção demandava decisões que cabiam ao sistema político tomar. Pautas que iam muito além da capacidade de ação do Poder Judiciário. Ele agora terá essa oportunidade. O desafio que ele tem pela frente é enorme. Sua pasta tratará do tema do combate à corrupção, da transparência e de toda a temática da segurança pública e do combate ao crime organizado. Tudo isso numa época de polarização política e de uma nova elite política com pouca experiência de governo. De qualquer modo, acho que ele tomou uma grande decisão. É um homem corajoso, que aceita os riscos próprios do mundo da política. E é um patrimônio brasileiro, no contexto internacional, que funcionará como um enorme ativo para o governo Bolsonaro. Por fim, funciona como um fiador a mais da ordem constitucional e da sociedade de direitos. Todos saem ganhando com essa decisão.

Foto Schüllercelsomary: Schüler com Mary e Celso Lafer: "É preciso estar vigilante, manter o espírito crítico, mas é preciso tolerar o grupo que pensa diferente". Foto: Acervo Pessoal

Schüler com Mary e Celso Lafer: “É preciso estar vigilante, manter o espírito crítico, mas é preciso tolerar o grupo que pensa diferente”. Foto: Acervo Pessoal

N – Em 1960 o ex-governador e ex-prefeito de São Paulo Jânio Quadros se apresentou à disputa presidencial como candidato de um partido pequeno, o PTN, usando a vassoura como símbolo e prometendo varrer a bandalheira num jingle que ficou famoso. Depois, conseguiu o apoio da UDN, uma legenda gigante, ganhou a eleição presidencial, arengou com o Congresso e renunciou. O senhor vê alguma semelhança entre o caso dele e o de Jair Bolsonaro nesta eleição? Que lições o presidente eleito de hoje pode tirar desse episódio e dessa personagem da História do Brasil?

S – Jânio era uma figura instável e com traços de megalomania. Bolsonaro é um político pragmático, muito mais metódico e previsível do que a imagem que se criou dele ao longo do tempo. A democracia do ciclo 1945/64 era também muito diferente do que temos hoje, no Brasil. Foi a época do chamado golpismo democrático, à esquerda e à direita. O Brasil de hoje é muito diferente. Nossas instituições são sólidas e não há sinal de que os militares queiram se afastar de seu papel constitucional. Qualquer líder político, hoje em dia, no Brasil, precisa andar na linha. É o que fará Bolsonaro.

N – Caso mais recente de presidente que não foi lançado por partidos tradicionais foi o do carioca que governou Alagoas Fernando Collor de Mello, eleito em 1989. Ele se candidatou pelo minúsculo PRN, foi um fenômeno de popularidade espantoso, derrotou os maiores próceres da época de forma inesperada, nas urnas, com a promessa de acabar com os marajás do serviço público. Mas, acusado de corrupção, foi deposto num rumoroso processo de impeachment. O que Bolsonaro pode fazer, na sua opinião, para evitar enfrentar idêntico destino?

S – Penso que valia a pena para Bolsonaro estudar o governo Collor, para não cometer os mesmos erros.  O primeiro deles é a aposta difusa na ideia da política como espetáculo. É muito tentador, na era da internet, achar que a lógica da campanha possa funcionar no governo. Collor, ainda antes da explosão digital, ensaiou um tipo de populismo eletrônico, que desmoronou quando surgiram as denúncias que todos conhecemos. A segunda lição é a de que para governar é preciso ter uma agenda realista de mudanças e uma base sólida no Congresso. É preciso governar com as instituições, ter rumo. A comunicação direta com as pessoas funciona como um complemento, nada muito além disso. Haveria ainda uma terceira lição: o cuidado rigoroso com a questão ética. Isso não se refere apenas ao problema da corrupção, mas à obediência a regras de ética pública. Vivemos na era da transparência quase total. Governos devem seguir regras de compliance. O presidente Temer enfrentou conhecidos problemas nessa área. Bolsonaro precisa disciplinar isso logo de saída.

Foto Schülerjô: Schüler dando entrevista a Jô Soares na Rede Globo: "A elite política sempre subestimou Bolsonaro". Foto: Acervo pessoal

Schüler dando entrevista a Jô Soares na Rede Globo: “A elite política sempre subestimou Bolsonaro”. Foto: Acervo pessoal

N – Noves fora seu segundo prenome, Messias, em que o candidato do PSL, que citou 14 vezes o santo nome de Deus em seu discurso de comemoração do triunfo eleitoral, se insere na tradição de sebastianismo da política brasileira, de Antônio Conselheiro a Luiz Inácio Lula da Silva?

S – A religião cumpriu um papel-chave nestas eleições. Bolsonaro obteve ampla vantagem entre o público evangélico. Pesquisa recente mostrou que, se tomássemos apenas os municípios brasileiros com menos de 6% de população evangélica pentecostal, Haddad venceria com ampla margem de votos. Há uma ampla parcela da população brasileira que se identifica com valores cristãos tradicionais, não apenas os evangélicos, e se identificou genericamente como a agenda conservadora de Bolsonaro. Vamos ser claros: o Brasil nunca teve uma candidatura majoritária competitiva de traço conservador. Não havia diferença cultural significativa entre Dilma e Aécio, Serra ou Lula. Dito isto, é possível dizer que Bolsonaro expressa um tipo de neopopulismo eletrônico, embalado por um conservadorismo popular muito comum, hoje em dia, nas grandes democracias. É o conservadorismo do homem comum, que ganhou voz com as redes sociais.

Foto Schülermãe: Schüler com sua mãe, dona Ivone: "Vivemos na era da transparência quase total. Governos devem seguir regras". Foto: Acervo pessoal

Schüler com sua mãe, dona Ivone: “Vivemos na era da transparência quase total. Governos devem seguir regras”. Foto: Acervo pessoal

N – Nas manifestações de rua de 2013, que estão na base do incômodo da classe média com a chamada “velha política”, o presidente eleito de hoje se inseria num grupo minoritário e meio folclórico dos que clamavam por uma nova intervenção militar. Em que momento ele partiu para um voo solo fora dessa gaiola? Ou será que ele ainda é um nostálgico da velha tradição golpista, abandonada recentemente, das Forças Armadas?

S – Este é um dos traços mais característicos das grandes democracias: seu metabolismo moderador. O PT foi, nos anos 80, um partido socialista e estridente. Não havia documento oficial do partido que não falasse em construção do socialismo e coisas assim. Depois foi incorporado pela democracia. Pela lógica da moderação, da busca do eleitor mediano, da negociação com os partidos e as instituições. Bolsonaro passou e continua passando por esse processo, nos últimos anos. O fato de ele ter sido um deputado outsider foi um dos seus maiores trunfos. Ele se desconectou do sistema político, mas passou a viajar pelo País e conversar com as pessoas comuns. Foi aonde a maioria dos políticos não vai. No começo, com uma retórica estridente. Agora, como a retórica moderada de quem enfrenta o mundo real da política, a necessidade de formar base, aprovar o que é possível no Congresso, e não simplesmente o desejável, segundo seu ponto de vista.

Para Schüler, Bolsonaro "expressou o conservadorismo do homem comum, que ganhou voz com as redes sociais". Foto: Acervo pessoal

Para Schüler, Bolsonaro “expressou o conservadorismo do homem comum, que ganhou voz com as redes sociais”. Foto: Acervo pessoal

N – O que fez Jair Bolsonaro, que, ao votar a favor no impeachment de Dilma, homenageou o odiado torturador coronel Brilhante Ustra, conquistar mentes e corações de cidadãos brasileiros de saco cheio com a roubalheira arrogante do PT e o cinismo empedernido da aristocracia da apodrecida máquina política profissional em nosso país?

S – Uma pesquisa do Datafolha recente mostrou que as Forças Armadas são a instituição com maior prestígio do País. A memória do regime militar é ambígua e distante, no Brasil. Nosso rigor ético é seletivo. A esquerda passou os últimos 30 anos elogiando ditaduras que praticaram largamente a tortura. De minha parte, acho que elogios a torturadores são inaceitáveis. Mas,definitivamente, não é o que pensa a maioria, à esquerda e à direita. O elogio a Brilhante Ustra, bem como outras frases grosseiras de Bolsonaro terminaram por simbolizar uma atitude de desprezo pelo sistema político tradicional e os hábitos políticos brasileiros. Reforçou sua imagem de outsider e de candidato antissistema.

N – O que, a seu ver, descredenciou todos os candidatos ao posto favorito de anti-Lula no processo eleitoral, principalmente pretendentes ao pódio como Ciro Gomes, Geraldo Alckmin, Marina Silva, Álvaro Dias e Henrique Meirelles, só para citar os mais conhecidos, além do apolítico-padrão João Amoêdo, sobrando o lugar praticamente de mão beijada para o candidato do insignificante PSL?

S – Esta foi a eleição das guerras culturais. A pauta que estava na cabeça dos eleitores era mais de natureza moral, cultural e mesmo religiosa do que ligada à política econômica, PPPs, reforma política, reforma tributária, privatizações, etc. Os candidatos do centro ficaram falando sozinhos. Bolsonaro não falou nada muito objetivo sobre economia ou políticas públicas. Mas falou do kit gay, da ideologia de gênero, da sexualização precoce de crianças, da crítica aos direitos humanos e do reforço de poder às polícias para combater o crime. Seus detratores dizem tudo isso não passar de um punhado de frases de efeito. Acho que eles estão errados. A elite política sempre subestimou Bolsonaro. É óbvio que ele é um tipo de pouco refinamento e com quase nenhum conhecimento de economia e alta gestão pública. Mas suas frases de efeito continham exatamente a mensagem que as pessoas desejavam escutar. Candidatos se elegem numa democracia exatamente assim: estabelecem parâmetros de conduta e valores. Detalhamento de políticas públicas vem depois.

"Bolsonaro não é a causa, mas o resultado de um País que já vem polarizado há mais de duas décadas", disse Schüler

“Bolsonaro não é a causa, mas o resultado de um País que já vem polarizado há mais de duas décadas”, disse Schüler

N – Quais são, a seu ver, as possibilidades concretas de se repetir e se cristalizar esse fenômeno eleitoral, que levou não apenas seu líder à Presidência da República, mas também tornou possível o fato decompletos desconhecidos ganharem eleições estaduais nos maiores colégios eleitorais do País e se obrar o milagre da multiplicação das vagas na Câmara, com seu partido saindo de uma cadeira hoje para 52 na próxima legislatura?

S – Há muitas explicações para isso. Há o conservadorismo de costumes, há o sentimento antipetista e antilulista, há a crise ética e política do País. Mas o ponto que me parece crucial é a história recente de um País dividido. Bolsonaro não é a causa, mas o resultado de um País que já vem polarizado há mais de duas décadas. Nos anos 90 foi o “fora FHC”; nos anos Lula foi o “nunca antes neste país”, nos anos recentes, foi a teoria do “golpe” e o “primeiramente, fora Temer”. A sociedade foi, gradativamente, organizando sua reação. Os movimentos de rua, os think tanks, os intelectuais não alinhados, as redes no mundo digital, os youtubers e ativistas conversadores e liberais. A esquerda perdeu sua hegemonia cultural. Na mesma medida em que as instituições perderam espaço, na política, para o meio digital. Bolsonaro é um resultado desse processo, até agora fundamentalmente como um fenômeno eleitoral.

N – Que abalos sísmicos poderão ser produzidos pelo desempenho de uma campanha de R$ 1,2 milhão, 800 vezes mais pobre que a de Dilma Rousseff em 2014, sem tempo no horário obrigatório da TV e sem campanha na rua após um atentado que por pouco não lhe tirou a vida, levando o protagonista desse fenômeno a mudar os padrões da baixa política, que tanto incomodam o cidadão brasileiro aqui, na planície?

S – Em primeiro lugar, trouxe para o centro da política brasileira aqueles que estavam à margem. Essa é uma das mágicas da democracia. É claro que a turma que comandava o jogo, historicamente, não gosta. De minha parte, discordo de muita coisa colocada ali genericamente como “agenda conservadora”. Mas o que isso importa? Devo gostar da democracia apenas se as minhas posições saírem vencedoras? A esquerda esteve no poder por mais de 13 anos. Ok, foi importante para o País. Agora sabemos o que é um governo do PT. A social-democracia esteve no poder com Fernando Henrique. Agora teremos uma experiência diferente. É preciso estar vigilante, manter o espírito crítico, mas é preciso tolerar o grupo que pensa diferente. É simples assim. Quem não entender isso não compreende como funciona uma democracia. 

N – Diante dos desafios gigantescos na questão da governabilidade numpaís com 30 partidos representados no Congresso e das contas públicas em estado falimentar, o senhor se posiciona como cético ou esperançoso quanto ao governo Bolsonaro e ao futuro do Brasil?

S – Tenho uma visão bastante direta sobre esse assunto: se Bolsonaro quiser fazer um governo para a História, deve enviar ao Congresso, ainda no primeiro semestre de 2019, um projeto de reforma do sistema político. Algo que inclua a migração para o voto distrital misto, o voto facultativo, a proporcionalidade na Câmara, o fim do financiamento público de campanhas, etc. Minha visão é que a sociedade lhe deu um mandato para fazer isso. Para propor isso ao Congresso. Talvez isso possa ser objeto de uma consulta plebiscitária, como fizemos com o sistema de governo, em 1993, e depois com o tema do desarmamento. A Nova Zelândia mudou seu sistema eleitoral, dessa maneira, com grande sucesso. Não sei se isso está na cabeça de Bolsonaro e sua equipe, mas é isso que deveria ser feito. No mais, penso que será um governo instável, com previsíveis tensões com o Congresso, mas dentro da normalidade democrática.

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Nêumanne entrevista Fernando L. Schüler. 29ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista Fernando L. Schüler. 29ª EDIÇÃO DA SÉRIE 10 PERGUNTAS

 

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No Blog: Nêumanne entrevista Joice Hasselmann

No Blog: Nêumanne entrevista Joice Hasselmann

Joice diz que PT se mostrou uma quadrilha, não um partido

 

Para deputada  federal mais votada da História do Brasil, STF tem dívida eterna com povo brasileiro, que não suporta mais sustentar privilégios da casta do funcionalismo público

 

Nêumanne entrevista

 

A mais votada deputada federal na História do Brasil, Joice Hasselmann (PSL-SP) não tem papas na língua quando o assunto é PT: “Eles mentiam durante a campanha, mentiam na imprensa, mentiam para o mercado, mentiam para o povo e faziam negócios usando o governo como um inesgotável balcão. Defendi ininterruptamente a extinção do PT, que se mostrou uma quadrilha, e não um partido”. Protagonista da série Nêumanne Entrevista no blog, ela também rasga todas as sedas para Sergio Moro, que biografou, e policiais e procuradores federais sob a égide dele: “A Lava Jato tirou as escaras dos olhos do povo e provou que ninguém, nem mesmo o presidente de um país, está acima da lei”. Aécio Neves, que será seu colega na Câmara, recebeu dela diagnóstico duro: “Ninguém decente e com autoridade moral sai de uma campanha presidencial com 50 milhões de votos, assiste às aves de rapina voltarem ao poder e resolve ‘tirar férias’ a partir daí. Aquela postura do Aécio me parecia muito mais que fraqueza, preguiça, frouxidão. Quando ele apareceu sujo com a mesma lama em que o PT chafurdava, tudo fez sentido”. Prometeu ajudar na Câmara dos Deputados o projeto reformista de Bolsonaro, caso ele passe pelo teste definitivo das urnas. Segundo ela, “o povo não aguenta mais esse engessamento, esse monte de mentiras, essa ostentação cafona dentro da política”.

Para Joice, "sem a Lava Jato nosso país permaneceria nas mãos da quadrilha petista." Foto: Acervo pessoal

Para Joice, “sem a Lava Jato nosso país permaneceria nas mãos da quadrilha petista.” Foto: Acervo pessoal

Eleita deputada federal pelo PSL de São Paulo com 1 milhão e 78 mil votos, Joice Hasselmann é a mulher mais votada da história da Câmara. É e promete continuar sendo jornalista, colunista de política e economia, ativista contra a corrupção e escritora. Foi eleita em 2017 e em 2018 a principal influenciadora do Brasil na web,levando o Prêmio Influenciadores Digitais. Também  considerada pelo instituto ePoliticScholl (ePS) uma das personalidades mais influentes e notórias do País nas áreas de política e economia. Hoje tem o mais jovem e maior canal de política nacional e o único do mundo no YouTube feito por mulher e dedicado ao tema política. Tem também uma página no Facebook com mais de 1 milhão e 700 mil curtidas e com alcance de até 23 milhões de pessoas por semana. Seu canal no YouTube dispõe de mais de 1 milhão de inscritos e mais de meio milhão no Instagram. Foi âncora de Os Pingos nos Is, na Jovem Pan, depois de ter idealizado e sido âncora daTVeja, a primeira TV com grade fixa na internet, criada nas eleições de 2014. Também comandou veículos como CBN, Bandnews FM Curitiba, e as áreas políticas do SBT Paraná e Record Paraná. É autora da biografia de Sergio Moro, de Delatores, lançado em 2017, e outro livro sobre Ascensão e Queda da Esquerda na América Latina, para uma editora americana. Recebeu 12 prêmios de jornalismo, entre eles um da ONU, em 2011, batizado de Parceiros da Paz e Sustentabilidade.

 

Nêumanne entrevista Joice Hasselman

Nêumanne – Que lições a senhora aprendeu depois de ter acompanhado, como a grande maioria dos cidadãos brasileiros, as sessões históricas do julgamento da Ação Penal 470, o famigerado mensalão, e de ter assistido à tranquila reeleição posterior do chefão Luiz Inácio Lula da Silva, isentado da devassa pela militância do aparentemente rigoroso presidente do Supremo Tribunal Federal à época, ministro Joaquim Barbosa?

Joice – Algumas lições foram aprendidas a duras penas por todos nós, brasileiros. A primeira delas é que o Supremo Tribunal Federal, sob o comando de Joaquim Barbosa, fechou os olhos para a ação da quadrilha que tomava de assalto o País. As sessões foram bonitas, pomposas, com muitos salamaleques, mas na prática Lula saiu ileso, o grupo político mais próximo dele pegou cadeia leve ­- quase um puxão de orelhas perto da gravidade do crime de compra de votos no Congresso – e a pena pesada ficou para o grupo do Marcos Valério. Ora, como o chefe do esquema saiu impune? Nessa ocasião o STF poderia ter mudado a história do Brasil, mas optou por “pegar leve” com a parte política do esquema. O STF, indiretamente, deu de  “presente” ao País opetrolão e a reeleição de Lula. E depois disso o STF gostou da brincadeira de afrouxar a mão para bandido de alto coturno. O STF deve muito à sociedade brasileira. Foi pela mãos do Supremo que Zé Dirceu ganhou a liberdade, que bandidagem da grossa saiu pela porta da frente da cadeia debochando da lei e do povo, que Dilma, mesmo cassada, pôde disputar a eleição. O STF tem uma dívida eterna com o povo brasileiro. 

Joice acha que "o povo não aguenta mais esse engessamento, esse monte de mentiras, essa ostentação cafona dentro da política". Foto: Acervo pessoal

Joice acha que “o povo não aguenta mais esse engessamento, esse monte de mentiras, essa ostentação cafona dentro da política”. Foto: Acervo pessoal

N – Como a senhora se sentiu após ter participado, como milhões de brasileiros de classe média, das manifestações contra os péssimos serviços de nosso Estado estroina e voraz, ao ter de engolir a seco as promessas de pactos vazios de significado da então presidente Dilma Rousseff e a permanência do Partido dos Trabalhadores no poder? 

J – Eu me senti agredida, senti a democracia ameaçada e ao mesmo tempo me senti de pés e mãos amarrados,pois tudo estava acontecendo nas barbas da Justiça. Dilma Rousseff e a tropa toda do PT protagonizaram uma espécie de seriado hollywoodiano em que vendiam ao povo uma sequência de mentiras sem fim com superprodução. Eles mentiam durante a campanha, mentiam na imprensa, mentiam para o mercado, mentiam para o povo e faziam negócios usando o governo como um inesgotável balcão. Defendi ininterruptamente a extinção do PT, que se mostrou uma quadrilha, e não um partido. Durante a campanha eleitoral, assumi a posição de defender a ideia de que se Dilma fosse eleita seria cassada, tamanhos o estelionato eleitoral e os crimes que estavam acontecendo dentro da campanha e do governo. Minha indignação pulsava nas veias. 

Joice conta que recebeu vários convites para disputar cargos políticos e foi convencida de vez por Bolsonaro. Foto: Acervo pessoal

Joice conta que recebeu vários convites para disputar cargos políticos e foi convencida de vez por Bolsonaro. Foto: Acervo pessoal

N – Depois da catarse de 2013, veio o banho de água gelada da reeleição de Dilma Rousseff em 2014. Como a senhora se sentiu à época e como reage hoje, após ter tomado conhecimento de que o Tribunal Superior Eleitoral absolveu a chapa vencedora por “excesso de provas”, como dizia o relator vencido, Herman Benjamin, e de Antônio Palocci ter revelado que foram torrados R$ 600 milhões de dinheiro público naquela campanha?

J – Eu me senti roubada, literalmente roubada. Assistir à Dilma, o poste, sendo arrastada de novo para o poder foi desesperador. Eu sabia que a reeleição de Dilma Roussef seria o sepultamento de parte do nosso futuro. Eu nunca escondi o desprezo pela política que essa gente fazia. Quando saiu o resultado, e Dilma foi reeleita, pensei seriamente em sair do País, como muitos brasileiros. Naquela época eu já temia que nosso país se tornasse uma grande Venezuela. Mas, mesmo com as adversidades, fiquei e fui para a luta fazendo oposição ao PT, oposição de fato, porque o PSDB – irmão engomadinho do PT – nem oposição soube fazer. A partir dali intensifiquei meu trabalho como colunista de política, em especial na internet, com o foco de enfrentar a quadrilha petista e me tornei ativista declarada contra a corrupção.  

Logo depois da eleição, fiz um vídeo na TVeja, onde eu trabalhava, e expressei parte da minha indignação com aquele momento da política brasileira. O vídeo, batizado de Lula e Dilma, a dupla que roubou o futuro da Nação, rendeu milhões de visualizações, minha demissão e um processo movido pelo ex-presidente Lula contra mim, que, diga-se de passagem, eu ganhei. Apesar de toda a confusão, pressões e ameaças que sofri, eu faria tudo de novo, pois cada palavra que eu disse foi confirmada pouco tempo depois. Já a absolvição da chapa por “excesso” de provas só mostrou que os nossos tribunais que julgam os poderosos, em geral, seguem o exemplo do STF. Todos preferem fingir que não enxergam, mesmo quando figuras como Palocci desenham o caminho do crime.

 

Joice promete trabalhar na Câmara pela completa reformulação da educação e pelo fim do financiamento partidário. Foto: Acervo pessoal

Joice promete trabalhar na Câmara pela completa reformulação da educação e pelo fim do financiamento partidário. Foto: Acervo pessoal

N – A que conclusões a senhora chegou a respeito destes quatro anos de  atividade da Operação Lava Jato e do trabalho honesto e competente de policiais, procuradores e do juiz Sergio Moro, que, aliás, a senhora biografou, e da batalha permanente que os jovens profissionais da Polícia, do Ministério Público e da Justiça Federais tiveram de travar com a mentalidade tolerante dos ministros do Supremo TribunalFederal?

J – Sem dúvida, sem a Lava Jato nosso país permaneceria nas mãos da quadrilha petista. Nunca houve um trabalho como esse liderado por Sergio Moro no Brasil. Nunca houve uma força-tarefa que realmente enfrentasse os bandidos com mandato, os empresários mais poderosos e ricos do País. Mexer com a mais alta casta da bandidagem de colarinho branco era quase que um tabu, até mesmo no meio do Poder Judiciário. Não fossem a força, a coragem e o trabalho brilhante da turma da Lava Jato, Dilma Rousseff não teria caído, Lula teria sido nomeado ministro-chefe da Casa Civil e hoje seria presidente da República. A Lava Jato tirou as escaras dos olhos do povo e provou que ninguém, nem mesmo o presidente de um país, está acima da lei. 

N – Qual foi sua reação ao descobrir, graças à citada Operação Lava Jato e outras congêneres, que o senador tucano mineiro Aécio Neves, que saiu da eleição presidencial de 2014 como esperança de alternativa à arrogância e rapina do Partido dos Trabalhadores, na verdade comia no mesmo cocho das propinas das empreiteiras e outros prestadores privados de serviços públicos para fazer uma oposição de fancaria?

J – Foi de decepção. Pura decepção, porém não de surpresa absoluta. Quando Aécio Neves aliviou a mão demais e não assumiu o papel de oposição ferrenha ao PT, quando afrouxou sua atuação dentro do PSDB e no Senado, eu desconfiei que alguma coisa estava errada. Ninguém decente e com autoridade moral sai de uma campanha presidencial com 50 milhões de votos, assiste às aves de rapina voltarem ao poder e resolve “tirar férias” a partir daí. Aquela postura do Aécio me parecia muito mais que fraqueza, preguiça, frouxidão. Quando ele apareceu sujo com a mesma lama em que o PT chafurdava, tudo fez sentido.

Joice e o juiz Sérgio Mouro.

Joice diz que “nunca houve um trabalho como esse liderado por Sergio Moro”, de quem ela escreveu a biografia. Foto (no lançamento): Acervo pessoal

6 – Em que exato momento de sua carreira profissional a senhora desistiu de ser uma voz da dissidência da corrente politicamente correta nos meios de comunicação para ser política profissional e por que motivos a senhora empreendeu essa travessia dificultosa e complicada? 

J – Na verdade, não desisti (risos). Vamos por partes. Sobre comunicação. Vou continuar sendo uma voz da dissidência nessa turma do politicamente correto das redações. Não deixo de ser jornalista, nem de dar toda aatenção às notícias em minhas redes sociais. 

Quando à política, vamos lá.  Nos meses que antecederam a eleição eu fui procurada por vários partidos com convites para concorrer aos mais diversos cargos. Teve de tudo. Convite para ser candidata ao Senado,governo, Câmara, vice-presidente e um partido chegou a me sondar para disputar a Presidência da República. Os convites chegavam, mas nada me convencia, afinal, é uma guinada, um cavalo de pau na minha vida. Até que Jair Bolsonaro me fez mais do que um convite. Ele me intimou, até publicamente, e me chamou para, nas palavras dele, “assumir minha responsabilidade com o povo brasileiro e sair da zona de conforto”. Eu já conhecia Bolsonaro havia alguns anos e nutríamos uma relação de respeito e admiração. Depois desse convite eu fiquei bastante incomodada porque, de fato, se só os maus optarem pela política, tudo fica na mesma. Foram dois meses de muito sofrimento para mim. Fiquei muito dividida. Eu queria ajudar meu país, mas não tinha certeza se o melhor caminho era continuar na comunicação ou aceitar o convite de Bolsonaro. Junte a isso o fato de todos da minha família terem se posicionado contra minha ida para a política. Foi muito difícil. Às vezes, sozinha em casa, eu tinha crises de choro, pedia a Deus uma resposta, um caminho. Eu sofria porque eu queria ajudar o Brasil, mas não queria entrar para a política, e ao mesmo tempo eu sabia que o povo precisava de nomes limpos, de gente de coragem e que o Bolsonaro também precisaria de um braço forte no Congresso. No meio dessa minha crise de “vai ou não vai”, tive algumas conversas com Bolsonaro e houve um dia em que ele, com olhos marejados, depois de ser carregado por uma multidão, me disse: “Se eu tiver um Congresso forte, eu mudo este país”. Aí não teve jeito. Eu não tinha o direito de fugir dessa responsabilidade. Depois da decisão tomada, o passo mais difícil foi convencer a família. Mas deu tudo certo e hoje estou aqui num namoro intenso com o povo brasileiro. 

N – Em que momento e por que motivos a senhora aderiu à caminhada do capitão reformado e deputado federal Jair Bolsonaro, num momento em que ele ainda era um político já longevo e do baixo clero do Congresso? O que a senhora detectou de promissor nele? 

J – De fato, eu me posicionei ao lado do Bolsonaro quando ele ainda podia andar tranquilamente nas ruas, quando ele ainda não era esse “pop star”da política. Ele já tinha em mente que poderia ser candidato a presidente, mas nem os partidos acreditavam nele. Teve de buscar outras legendas, teve de quase construir um partido praticamente do zero. 

Há quatro anos eu tive a chance de conhecer mais de perto o Bolsonaro. Assim como boa parte da mídia, eu tinha uma visão equivocada sobre ele. Bastou uma conversa pessoalmente para eu enxergar que por trás daquele homem com posições fortes havia um coração bom, honesto, e uma espinha ereta que não se dobra. A partir dali eu comecei a expor minha simpatia pela postura moral do Bolsonaro e na época do impeachment da Dilma estivemos juntos em alguns momentos na luta contra a corrupção. Também comecei a dar espaço para ele nos veículos em que eu tinha voz para mostrar o Bolsonaro de verdade. Isso me rendeu muitas críticas dentro do meio jornalístico. Ninguém queria “se expor”. Fui a primeira pessoa pública a de fato ficar ao lado dele. E a história mostra que fiz o certo. Bolsonaro será um grande presidente, podem apostar. Detectei isso nele há quatro anos. 

Joice promete trabalhar na Câmara pela completa reformulação da educação e pelo fim do financiamento partidário. Foto: Acervo pessoal

Joice promete trabalhar na Câmara pela completa reformulação da educação e pelo fim do financiamento partidário. Foto: Acervo pessoal

N – Desde que resolveu candidatar-se a uma vaga na Câmara dos Deputados a senhora sempre manifestou sua confiança de ter uma votação muito acima da média, garantindo a eleição num partido que, em circunstâncias normais de temperatura e pressão, exigiria um quociente eleitoral altíssimo para ocupação da cadeira. Em que se baseava?

Na vontade do povo de mudança. Apesar de não entender de política partidária como os “profissionais da área”, eu entendo de gente. Entendo o sentimento das pessoas. Havia uma onda de fora pra dentro de pessoas que queriam que eu fosse candidata. Nos eventos de que eu participava Brasil afora, era recebida sempre por centenas e até milhares de pessoas e eu via esperança no olhar dessa gente. Quando decidi ser candidata, esse movimento ficou ainda mais intenso. Essa onda que vimos em São Paulo aconteceu em outros lugares do País, tanto que fiz campanha pelo Bolsonaro em outros Estados, como Paraná, Minas e alguns do Nordeste. Mas nunca imaginei que seria uma eleição fácil. Muito menos que eu faria mais de 1 milhão de votos. Isso é inimaginável!!! Foi uma surpresa para todos. No dia da eleição fiquei com medo de não conseguir os 30 mil votos necessários para não ser cortada pela cláusula de barreira. Quando vi que com 20% da urnas apuradas eu já tinha feito minha cadeira, achei que o site do TSE estava com problema. E quando passou de 1 milhão foram só lágrimas escorrendo pelo meu rosto. E olha que meu sobrenome é Hasselmann, hein! Brinquei com Bolsonaro que se meu sobrenome fosse o mesmo dele eu teria feito 3 milhões (risos). 

N – Esta campanha feriu de morte velhos conceitos de política profissional arraigados no cenário brasileiro. Cito especificamente o custo exagerado (absurdo até) das campanhas, o horário eleitoral nos meios eletrônicos de comunicação de massas, o debate de candidatos, o Fundo Partidário com dinheiro público, o foro de prerrogativa de função e a barganha que transforma o Congresso Nacional num mercado de pulgas. A seu ver, essas serão conquistas que remanescerão ou sumirão sob o ataque sempre corrosivo das organizações criminosas que controlam os cordéis da atividade política no Brasil?

– Essas conquistas na mudança do jeito de fazer política no Brasil precisam permanecer. Não dá para abrir mão de tudo isso. Veja, eu e Bolsonaro mostramos matematicamente que as campanhas milionárias, que os acordões para conseguir tempo de TV, que o balcão de negócios podem ser aposentados. Tanto minha campanha como a dele foram totalmente com base em redes sociais. São os votos mais baratos da História. As pessoas fizeram campanha de graça. Acho que esse jeitão novo de fazer política veio para ficar. O povo não aguenta mais esse engessamento, esse monte de mentiras, essa ostentação cafona dentro da política. 

Joice garante que trabalhará para "desburocratizar o País, reduzir a máquina pública e promover uma onda de privatizações responsáveis". Foto: Acervo pessoal

Joice garante que trabalhará para “desburocratizar o País, reduzir a máquina pública e promover uma onda de privatizações responsáveis”. Foto: Acervo pessoal

 N – O que a senhora espera fazer de útil em seu mandato, a ponto de se orgulhar disso daqui a quatro anos, para considerar, por fim, que cumpriu o que pretendia fazer como deputada federal?

J – Pretendo ser o braço forte do Bolsonaro dentro na Câmara para ajudá-lo a fazer as reformas de que o Brasil precisa, a desburocratizar o País, reduzir a máquina pública e promover uma onda de privatizações responsáveis. Junte a isso dois temas que me são muito caros e estão entre as minhas bandeiras: combate à corrupção e corte de privilégios nos três Poderes. Vou trabalhar para aprovar o mais rápido possível as Novas Medidas Contra a Corrupção e a transformação de corrupção em crime hediondo. Com o Legislativo renovado creio que conseguimos passar o projeto com menos resistência. Em relação aos privilégios, o Brasil não aguenta mais a lista infindável de “extras” que a alta casta do funcionalismo público, deputados, senadores, ministros do Executivo e STF têm. No caso de Congresso e Judiciário, têm até as “férias de inverno e de verão”. Isso é uma excrescência. Vou propor projeto pra acabar com essa brincadeira. Também trabalharei pela privatização dos presídios, pelo fim do auxílio-reclusão pago com dinheiro público e pela reformulação total da educação. Temos muito trabalho pela frente.

Acesse os vídeos que ilustram esta entrevista: 

Joice Hasselmann 1 – Veja. Clique aqui. 

Joice Hasselman 2 – Veja. Clique aqui.

Joice Hasselman 3 – Veja. Clique no play abaixo.

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique aqui.

 

Nêumanne entrevista Joice Hasselmann. 28ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista Joice Hasselmann. 28ª edição da SÉRIE
10 PERGUNTAS

 

No Blog do Nêumanne: Deixem o povo votar em paz!

No Blog do Nêumanne: Deixem o povo votar em paz!

Artistas e intelectuais dependentes de esmola pública, políticos profissionais sem eleitores e criminalistas que se dizem juristas apelam para o tapetão para continuarem mandando num Estado sem povo

Há três anos, o Partido dos Trabalhadores (PT) recorria à votação popular que escolhera Dilma Rousseff e Michel Temer para evitar a punição da primeira e a ascensão do segundo por descumprimento da lei, exigindo provas cabais dos crimes, desqualificando delações premiadas e fazendo pouco do Judiciário. Agora, seu candidato, o ventríloquo Lula encarnado no boneco Fernando Haddad, quer anular mais de 49 milhões de votos do adversário, Jair Bolsonaro, do PSL, com base numa notícia de jornal, sem nenhuma comprovação factual, de prováveis riscos que correriam as instituições após sua eventual posse. Seria um golpe se não fosse só mero delírio, talvez tremens: coisa de bêbado que conversa com poste, conforme a piada do capitão reformado e deputado de direita.

Vamos aos fatos. Em 2014, Dilma Rousseff e Michel Temer foram eleitos sob o peso do maior “disparo” de futricas (termo do português vulgar para definir a expressão, definida por Donald Trump e adotada pela esquerda colonizada como bandeira, fake news). Antônio Palocci, coordenador da campanha da primeira eleição do poste Dilma em 2010, contou em delação premiada que esta, por ele coordenada, custou R$ 600 milhões e a segunda, de 2014, R$ 800 milhões. Total: R$ 1 bilhão 400 milhões em propinas. Neste dinheirão não estão computados os milhões em dinheiro vivo empregados para corromper o candidato e chefe da entãosoi-disant oposição, Aécio Neves (PSDB-MG), segundo foi delatado por executivos de duas grandes empresas beneficiadas pelo populismo petista: a empreiteira Odebrecht e o grupo que se tornou o maior produtor e vendedor de proteína animal do mundo sob os auspícios do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o J&F. E parte não desprezível do montante denunciado financiou a sórdida campanha feita contra Marina Silva, da Rede Sustentabilidade, acusada de cúmplice de banqueiros em assaltos à mesa do trabalhador brasileiro.

O PSDB, então já sócio da continuação do governo petista sob o vice do PMDB guindado ao poder pelo impeachment, Michel Temer, acusou os adversários de fraude. Na metade do mandato da chapa vencedora, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sob Gilmar Mendes, absolveu-a. Conforme o atento relator do processo, ministro Herman Benjamin, não por falta, mas, na certa, “por excesso de provas”. Para alívio dos tucanos, que compartilharam do governo Temer, mas depois tentaram livrar-se do peso de sua impopularidade, o vice que virou chefe ainda tem mais dois meses e meio de mandato a cumprir até entregar o bastão na corrida de obstáculos ao vencedor do segundo turno da eleição, em 1.º de janeiro de 2019.

Durante todo este processo eleitoral a Nação convive com a ameaça do PT de que “eleição sem Lula é fraude”. Mas como o ex-aliado Cid Gomes, senador eleito pelo PDT no Ceará, avisou aos berros aos militantes aliados: “Lula está preso, babaca!”. Ainda assim, o TSE foi conivente com a divulgação de várias rodadas de pesquisa eleitoral que colocavam o preso condenado por furto e lavagem de dinheiro na liderança da preferência popular. Pregou no deserto quem, como o autor destas linhas, avisava que as pesquisas falseavam a verdade, porque o desapreço, para usar um termo módico, da população pelo taumaturgo de Caetés já superava, e muito, a devoção dos asseclas tornados devotos em capelinhas erigidas no mundo para culto dos grupos remanescentes do que restou da esquerda mundial.

No meio do processo, a indignação majoritária contra os 13 anos e meio de desgovernos de Lula e de seu poste sem luz Dilma descobriu a lanterna no fim do túnel no único candidato que atendia aos pré-requisitos básicos para a mudança: o capitão reformado e deputado federal Jair Bolsonaro. Afinal, só ele tinha chance de disputar o trono presidencial contra o PT, suas viúvas e seus aliados públicos ou secretos. Era também o único que não tinha motivos para se queixar de perseguição dos policiais retos, promotores probos e juízes honestos da primeira e da segunda instâncias responsáveis pela devassa e pelo julgamento do maior escândalo de corrupção da História: o mensalão, que continuaria como petrolão. E, last but not least (por último, mas não por menos, ou menas, como prefere fletir o padim Lula), o Quixote disponível para atacar o predomínio das bandeiras com as quais a esquerda conta agora para esconder o fiasco monumental da “luta de classes” de Marx e Engels, Lenin e Stalin: escola com partido, ideologia de gêneros e ecologia contra economia, entre outras.

Desde 2013, as manifestações espetaculares nas ruas, com a bandeira vermelha trocada pelo pavilhão verde-amarelo nos protestos contra “tudo o que está aí”, sinalizavam nessa direção, resultando no verão de 2018 com a moda do “não reeleja ninguém”. Mas os chefões partidários, ciosos da necessidade de garantir a própria impunidade com o foro de prerrogativa de função e outros privilégios, cercaram o forte da resistência com os escudos e armaduras de sempre: voto cativo da miríade da promiscuidade dos 35 partidos de aluguel autorizados pela tolerante “Justiça Eleitoral” (conforme ficou provado na Operação Lava Jato, quase todos), financiamento público bilionário de suas campanhas e o adiamento, se Deus permitir, para sempre da cláusula de barreiras para pôr fim à farra.

Com a aceitação pelo TSE da farsa do candidato oficial cobrindo a cara com a máscara do presidiário, então, o eleitorado em geral concluiu que a opção não seria entre pobres e ricos, direita e esquerda, democratas e nostálgicos da ditadura, mas, sim, entre o capitão e o ladrão. E ela passou a ser entendida e estendida a todos que não querem mais viver sob o jugo do PT, acostumados a FlaXFlu, rinhas de galo e queda de braço.

O PT e Lula foram escorraçados em vários Estados no segundo turno e só não o foram no primeiro da presidencial mercê de ajudas de Ciro Gomes, que queria ser terceira via e teve de se contentar com o terceiro lugar, e de Geraldo Alckmin, que quis encarnar a democracia, mas foi só um anestesista incapaz de ressuscitar a velha política, ao exumá-la. Os outros não tiveram sequer votos suficientes para povoar este parágrafo.

Outra evidência está aí à mão e me envergonho de ser o primeiro a chamar a atenção, de tão lógica que é. Convido os que tremiam de pavor quando viam Lula liderando as pesquisas enquanto o TSE não lhe dava o merecido pontapé no traseiro a me responderem a duas questões. Primeira: se o candidato real do PT disputaria na condição de favorito, por que Fernando Haddad aposentou a máscara de barba que adotou para conquistar os votos dos súditos dele? Segunda: será mera coincidência a rejeição ao candidato fake do PT ter ficado um ponto dentro do terreno da inviabilidade (51,4% na pesquisa CNT-MDA), à medida que cresce o conhecimento do eleitor de sua conexão com o que realmente disputa?

Diante do abismo, Haddad/Lula apelou para duas asas coladas no escolhido com cera, como Ícaro. A primeira é a sombra da ditadura. A eleição virou disputa entre a maioria de eleitores fascistas, neofascistas ou até nazistas contra democratas, representados por signatários de manifestos da “boa causa” e defensores de políticos e burocratas acusados de crime de colarinho-branco. O professor de Ciências Políticas da Universidade Federal de Pernambuco Jorge Zaverucha escreveu sensato artigo no Globo, no sábado, intituladoHisteria, reduzindo essa teoria a pó com dados da História, e não da ficção populista da tigrada. Resumo-o numa sentença simples e lógica: “Bolsonaro sabe que, em caso de golpe, pode perder o emprego, pois um general da ativa tomaria as rédeas do poder”.

Agora o PT apela para o tapetão a partir de uma notícia de jornal dando conta de que os mais de 49 milhões de eleitores no primeiro turno foram levados a esse “desatino” pelo disparo de WhatsApps financiado por caixa 2 de empresas engajadas no antipetismo, que ameaça tomar o poder pelo voto. Em sua coluna diária na Folha de S.Paulo, Hélio Schwartsman escreveu no sábado 20 o seguinte: “Mentiras, rumores e boatos sempre assombraram eleições. A novidade agora é que, com as redes sociais, eles circulam com muito mais rapidez e atingem muito mais gente. Em algumas circunstâncias, quando a disputa é apertada e a corrente de desinformação surge nos últimos instantes, fake news podem definir o resultado do pleito. Não devemos, porém, atribuir poderes mágicos à manipulação eleitoral”.

Mistificação e desespero. Ora, ora, deixem o povo votar em paz!

*Jornalista, poeta e escritor

Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 22 de outubro de 2018.

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