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No Blog: Nêumanne entrevista Arthur Antunes Coimbra, Zico

No Blog: Nêumanne entrevista  Arthur Antunes Coimbra, Zico

Americanos não ganham mais porque imitam europeus, diz Zico

 

Zico estranha que as seleções sul-americanas não vençam mais Copas do Mundo, de vez que os melhores jogadores dos maiores clubes europeus nascem em nosso subcontinente

 

“Temos perdido um pouco da identidade do nosso futebol sul-americano, do drible, do um contra um, da magia, da técnica, da qualidade, e estamos jogando somente o plano tático, no estilo europeu. O jogador sul-americano está indo muito cedo para a Europa e, em vez de treinar a individualidade, evoluir o lado de jogador, ele está mais preocupado com a questão técnica e tática.” Esse diagnóstico é feito por Zico, o maior ídolo da história do clube mais popular do Brasil, o Flamengo, o verdadeiro fundador do futebol no Japão, onde passou 15 anos e atuou como jogador no Kashima Antlers, além de ter sido técnico da seleção nacional e dirigente. Preparando-se para voltar ao Japão em agosto e assumir um cargo na direção do mesmo clube que o projetou no Oriente, ele jura amor eterno à sua cidade, o Rio de Janeiro, assegurando que nunca se vai mudar definitivamente de lá, por mais difícil que seja viver na antiga “cidade maravilhosa”.

Experiência internacional como jogador, técnico, auxiliar e dirigente autoriza análise de Zico sobre Copa de 2018. Foto: Karim Jaafar/Al-Watan, Doha/AFP

Experiência internacional como jogador, técnico, auxiliar e dirigente autoriza análise de Zico sobre Copa de 2018. Foto: Karim Jaafar/Al-Watan, Doha/AFP

Filho de pais portugueses, irmão mais novo de uma família de craques, na qual se destacou Edu, que também foi jogador e técnico, aos 65 anos Arthur Antunes Coimbra, o “galinho de Quintino”, como é conhecido pela torcida do Flamengo, com o qual se tornou campeão mundial de clubes em 1981, não se surpreende com a supremacia atual do futebol europeu. Ex-jogador de um time médio da Itália, a Udinese, Zico é de uma geração que se formou no próprio país, ao contrário de Lionel Messi, que nasceu na Argentina, mas vive na Espanha desde a infância, e de Vinicius Júnior, a última grande revelação de seu clube de coração e que acaba de se apresentar ao Real Madrid, desde que completou a maioridade. Comentarista de televisão do Esporte Interativo, ao lado de craques do passado como Rivelino e Leão, e também de um canal de YouTube, no qual interage com jovens, que não o viram jogar, o craque também reclama que “não se pode confundir democracia com bagunça e, infelizmente no Brasil estamos confundido democracia com bagunça, desordem”.

N – Quando o lateral direito inglês Trippier abriu o placar nas quartas de final contra a Croácia, que sensação o senhor viveu: saudade daquelas tardes de domingo no Maracanã nos anos 70 e 80; nostalgia da época em que o futebol mundial em geral e o brasileiro em particular tinham um elenco muito maior de batedores de faltas, entre os quais o senhor mesmo; ou uma queixa dos novos esquemas dos treinadores de ponta que privilegiam outras jogadas de bola parada, como as faltas longe da área e os escanteios, conforme ficou comprovado nesta Copa da Rússia?

– Não sou nada nostálgico, não fico pensando no que passou. Admiro o futebol atual. Em função do futebol jogado hoje, com fortes marcações e táticas de jogo, acho que os times deveriam ter sempre bons batedores de bola parada, porque isso resolve o jogo e o Brasil, a meu ver, está pecando muito nisso. Há bastante tempo não fazemos gol de falta e só temos praticamente o Neymar, que cobra bem faltas. Então, vejo com bons olhos uma falta bem cobrada daquela maneira pelo lateral da Inglaterra. Assim como faz o Cristiano Ronaldo. A bola parada depende muito do talento do cobrador, mas exige dele muito treino. Deus dá o dom de bater na bola, mas é preciso aprimorar isso. O batedor tem de se aplicar, tem de separar um tempo, principalmente depois dos treinos, para praticar bastante e poder ter um índice de aproveitamento maior.

Zico contra Maradona em jogo de setembro de 1981 entre o Flamengo e o Boca Júniors. Foto: Carlos Chicarino/AE

Zico contra Maradona em jogo de setembro de 1981 entre o Flamengo e o Boca Júniors. Foto: Carlos Chicarino/AE

N – O que a seleção da Bélgica tem de semelhante e de diferente de outras “gerações de ouro” que não ganharam Copas, como as da Argentina nos anos 40, quando não foi jogado o Mundial, do Brasil nas Copas de 1950 e 1982, da Hungria em 1954 e da Holanda em 1974 e 1978? Como representante da geração de 1982, de alguma forma o senhor sentiu algum tipo de afinidade com os flamengos da Europa, que este ano nem chegaram à final?

Z – A Copa do Mundo é um torneio diferente de um campeonato, em que dificilmente times com a qualidade da Bélgica desta Copa, de nossas seleções de 1986 e 1982, ou da Hungria de 1954 perderiam. A diferença é que na Copa do Mundo é mata-mata: quem joga mal um dia é eliminado. Então, admiro bastante o futebol desses times. Nesta Copa do Mundo me chamou a atenção o futebol da Croácia e da Bélgica. Não importa se ganharam ou não. Mesmo que fique para a história quem ganhou, é melhor se for possível ganhar jogando bem, como aconteceu conosco em 1970 e em 2002, com a Espanha em 2010 e  com a Alemanha em 2014. Jogar bem, ter um jogo ofensivo de jogadas bacanas, isso é bom futebol. Mas não quer dizer que sempre vá funcionar na Copa do Mundo, em que os jogos das oitavas de final em diante são eliminatórios.

Zico comemora seu gol pelo Brasil contra seu companheiro de Flamengo Fillol, goleiro da Argentina, na Copa da Espanha. Foto: Arquivo AE

Zico comemora seu gol pelo Brasil contra seu companheiro de Flamengo Fillol, goleiro da Argentina, na Copa da Espanha. Foto: Arquivo AE

N – O senhor pertenceu à última geração dos craques que se identificavam com as torcidas dos clubes onde surgiram e se consagraram. Hoje os grandes jogadores são nômades da bola, que percorrem a Terra e não guardam fidelidade com nenhum clube, até nem com o país. Em que essa nova realidade de globetrotters altera a relação entre o ídolo e a camisa?

Z – Não existe mais nem o ídolo só de um clube nem a identificação da seleção com os torcedores de clubes. Existe, sim, a torcida brasileira em Copas do Mundo. Mas não tenho dúvida de que, sem ídolos de seus clubes, os torcedores não são fiéis a uma seleção nem motivados: se a seleção ganhar, ganhou; se não ganhar, tudo bem. Os torcedores não ficam tão chateados. Se a seleção brasileira fosse formada, digamos, por cinco craques do Flamengo, três do Corinthians, quatro do Vasco, dois do Botafogo… Não é o caso de agora, pois o grupo é formado por jogadores de clubes estrangeiros, com os quais as torcidas nacionais não se identificam. Por isso não existe discussão da Copa do Mundo no dia seguinte ao dia em que o Brasil foi ou for eliminado.

N – Além de sua ligação com o Flamengo, o senhor tem também uma história de protagonismo no futebol japonês, onde encerrou sua carreira de jogador e atuou como treinador da seleção. O senhor sentiu alguma frustração ao ver o Japão e o Brasil serem eliminados pelo mesmo adversário, a Bélgica, e com a mesma jogada: um escanteio a favor e um contra-ataque fulminante que podia ser parado com uma falta tática, mas não o foi?

Z – Primeiramente, não sou favorável à falta tática. Ao contrário, sou totalmente contra. Na falta tática, quando o jogador para uma jogada sem a bola, deverá ser expulso imediatamente. Em vez de procurar a bola, o jogador vai parar a jogada. Isso não deveria ser estimulado, pois acontece que a bola é o essencial do jogo. A falta, para mim, é legítima quando se disputa uma bola e o adversário chega primeiro; sou totalmente contra o jogador já ir com a intenção de fazer a falta tática. É um absurdo. Quanto à derrota do Japão e do Brasil para a Bélgica, o mérito é do time belga. A derrota do Japão, tudo bem, pois os japoneses ainda são inexperientes e sofreram um contra-ataque no fim do jogo. O biotipo do japonês expõe o time a gols de cabeça quando enfrenta seleções mais altas. Eu mesmo sofri muito com isso lá no Japão. Mas o Brasil foi muito infantil naquele gol e na cobrança do escanteio. O time já tinha vivido a mesma situação contra a Suíça, em que havia sete brasileiros e um da Suíça sozinho fugiu da marcação para fazer o gol. Isso, a meu ver, é um erro para o futebol brasileiro, para esses jogadores todos que têm esse know-how, essa experiência. Um completo absurdo.

N – Como ex-jogador, ex-técnico, ex-dirigente e agora comentarista de televisão, o senhor viu alguma coisa na Copa da Rússia que possa considerar novidade tática a predominar doravante?

– Não, nenhuma. E lamento que a final não tenha sido Croácia x Bélgica, pelo bem do futebol, porque normalmente vence a Copa o time que fez prevalecer aquele futebol de 11 atrás. Por exemplo, estavam dizendo que o Girou não faria gol na Copa. Mas, claro, ele não pode fazer gol, pois o cara estava marcando no meio-campo; da linha da intermediária até chegar lá no gol, ele não aguentava mais mesmo. O mesmo aconteceu com o Gabriel Jesus. São 11 atrás da linha da bola, o cara vai lá e não chega ao gol. A única evolução que vi no futebol foi o árbitro de vídeo. Em grandes competições, isso pode evitar injustiças que já aconteceram em outras Copas: gols com a mão, bola que entrou,  essas coisas todas que não gosto de ver no futebol. Afinal, alguém trabalha quatro anos, luta para se classificar e, de repente, é eliminado numa jogada ilegal.

N – O futebol hoje é um negócio bilionário do ramo do entretenimento, mais do que uma modalidade esportiva. A seu ver, é isso que está tirando o continente americano da liderança das competições, o que começou com a predominância europeia nos mundiais de clubes, um dos quais o senhor conquistou pelo Flamengo em 1981, e agora se consagra de vez com a América fora dos jogos finais da Copa de 2018?

Z – É, mas não deveria ser, porque os jogados sul-americanos são os mais caros e estão nos melhores times do futebol europeu. Estão todos lá no Barcelona, no Real Madrid, no Bayern, nos times principais da Europa: na Espanha, na França, na Inglaterra. O que pode ser uma das razões é termos perdido um pouco da identidade do nosso futebol sul-americano, do drible, do um contra um, da magia, da técnica, da qualidade, e estamos jogando somente o plano tático, no estilo europeu. O jogador sul-americano está indo muito cedo para a Europa e, em vez de treinar a individualidade, evoluir o lado de jogador, ele está mais preocupado com a questão técnica e tática.

Zico foi campeão mundial de clubes pelo Flamengo de Raul, Leandro, Mozer, Marinho e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Foto: Carlos Chicarino/AE

Zico foi campeão mundial de clubes pelo Flamengo de Raul, Leandro, Mozer, Marinho e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Foto: Carlos Chicarino/AE

N – Os projetos bem-sucedidos da Alemanha em 2014 e da França, Inglaterra e Bélgica neste Mundial passam pelo envolvimento dos clubes, enquanto na América em geral e no Brasil em particular os clubes são os primos pobres e oprimidos de confederações milionárias. É possível resgatar as conquistas do passado sem mudar radicalmente essa realidade?

Z – É duro ter um futebol comandado por um cara que está preso, um que está banido, um que está foragido, um que foi eleito às escuras e um que está no comando sem se saber o que ele fez no futebol. Então, é lógico que não há autoridade para reunir um time e refletir a importância do futebol para a federação, para o País. Os clubes são coniventes com essa situação em que, como célula mater do futebol, estão sendo jogados às traças, aceitando uma administração que não lhes traz nenhum benefício e os obriga a vender os jogadores da base o mais rápido possível.

N – As entidades que dirigem o futebol no Brasil e na América do Sul e a própria Fifa não resistem a investigações sérias e competentes de corrupção. Sua retirada do ambiente do futebol tem algo que ver com isso? Essa triste realidade influi, na sua opinião, no afastamento de nossos clubes e da seleção do protagonismo nos torneios internacionais disputados hoje?

Z – Não me retirei do futebol. Eu continuo no futebol. Não estou treinando nenhum time nem dirigindo clube algum, mas tenho uma atividade intensa na internet e no canal de televisão Esporte Interativo. Não creio que essa realidade que você descreve influa, mas acho que ela, de fato, diminui o crédito. O problema é que esses investimentos não foram feitos nos clubes e em grandes campeonatos. O melhor campeonato do mundo, a Champions League, da Inglaterra, que é a grande referência, demonstra a importância dos investimentos, mas esse espírito não está presente na Libertadores e isso atrapalha o desenvolvimento do futebol sul-americano. Ainda temos aqui os resquícios do ganhar na marra, de modo ilícito, no jeitinho, enquanto lá fora os caras estão organizados, jogando um futebol limpo e realmente de melhor qualidade.

Zico e Sócrates, que jogaram juntos no Flamengo, atuaram pela seleção brasileira na Copa de 1986, no México. Foto Arquivo/AE

Zico e Sócrates, que jogaram juntos no Flamengo, atuaram pela seleção brasileira na Copa de 1986, no México. Foto Arquivo/AE

N – O Brasil vive talvez o pior momento da sua História, com uma crise ética, econômica, financeira, institucional e política sem precedentes. Mas o senhor não dá sinais de que pretenda deixar o País definitivamente, como muitas pessoas na sua condição já o fizeram. Neste ambiente de desemprego, descrédito e até desespero, o senhor enxerga alguma luz num ano de eleições gerais, que pelo menos confirmam nossa opção pela democracia?

Z – Acho que não se pode confundir, e acabamos confundindo, democracia com bagunça, desordem. Estamos desrespeitando o lema da nossa bandeira, “ordem e progresso”. Pedimos tanto a democracia, só que virou bagunça. A disciplina inteligente nunca imperou no nosso país, com os nossos deveres e as nossas obrigações. Estamos em desvantagem, porque acreditamos em certas pessoas ultimamente e elas acabaram nos decepcionando. Mas não podemos desistir, temos sempre de tentar trabalhar sem o pensamento de votar em troca de um benefício individual. Não. Vamos fazer uma limpeza, para não nos enganarmos mais e não termos de pagar um preço tão alto como nos últimos anos.

 

Com Sandra, namorada da adolescência em Quintino, mulher e mãe de seus filhos, acompanha Zico no carnaval de 2018. Foto: Marcos Arcoverde/Estadão Conteúdo

Com Sandra, namorada da adolescência em Quintino, mulher e mãe de seus filhos, acompanha Zico no carnaval de 2018. Foto: Marcos Arcoverde/Estadão Conteúdo

N – Quando o senhor anda hoje pelas ruas do Rio encara uma realidade muito diferente da que viveu nos seus tempos no subúrbio de Quintino e mesmo nos anos de glória de sua carreira de ídolo do clube de maior torcida da cidade e do País. Como carioca, como o senhor convive com a tragédia de sua cidade, que foi maravilhosa e hoje está longe de poder ser considerada sequer um lugar aprazível para viver e criar a família?

Z – Amo muito esta cidade. Então, procuro, dentro da minha área, dar o meu melhor. O momento realmente é difícil, mas temos de ser otimistas e acreditar que isso pode mudar, para que a gente possa ter um Rio para os nossos netos mais agradável, mais tranquilo, menos violento, menos propineiro, menos vergonhoso para nós. Em algumas áreas temos coisas importantes e, em outras, decepcionantes. Não vou me mudar do Rio por nada, vivo muito bem aqui com o fruto do meu trabalho, do meu suor, do meu esforço. E vou tentando, nos limites do que posso fazer, ajudar o meu Estado.

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Ouça a entrevista com Zico. Clique no link abaixo:
https://soundcloud.com/jose-neumanne-pinto/zico

 

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No Blog do Nêumanne: Déjà vu

No Blog do Nêumanne: Déjà vu

A maior lição da França aos pretendentes à Copa do Catar é “jogar o jogo”, pois outros fatos tidos como inusitados, caso da diversidade de etnias e origens dos craques, têm sido registrados há 60 anos

José Nêumanne

Na exaustiva cobertura da Copa do Mundo na Rússia, o excesso de ex-jogadores e ex-treinadores nos canais de esporte não serviu sequer para mostrar que a maior qualidade da seleção campeã foi reunir os melhores jogadores com cidadania francesa em atividade e pô-los para jogar. “Ah, mas a Bélgica foi melhor”, reclamou a maioria deles. Uma das lições fundamentais do bom jornalismo, que as transmissões de futebol não podem desprezar, é respeitar os fatos. E sobre isso algo clama: França 1 x 0 Bélgica nas semifinais. Os campeões venceram quase todos os jogos e só empataram um, contra a Dinamarca. O resto é lorota besta. Nossa torcida adotou o canarinho pistola como ícone, desconhecendo que as aves canoras mais valorizadas em nossas gaiolas de feira livre são os canários belgas, que, se torcessem, teriam cantado a derrota dos pupilos de Tite.

Havia pretendentes com mais história em 2018 do que os companheiros de Pavard, zagueiro de pouca notoriedade que jogou de lateral direito e fez, sem favorecimento nenhum, um dos gols mais bonitos do torneio, um chutaço de sua posição original ao ângulo oposto ao defendido pelo lamentável goleiro argentino Caballero.

O Brasil disputou todas as Copas da Fifa e foi vencedor em cinco. Os italianos ganharam o segundo e o terceiro torneios ainda nos anos 30 e mais dois, em 1982 e 2006. Quatro. Agora não passou pela eliminatória nem pela repescagem. A Alemanha ganhou duas Copas quando era dividida ao meio, com o time da Ocidental, e mais duas depois de unificada. Quatro. Nesta saiu na fase de grupos. A Argentina venceu duas, uma com suspeita de favorecimento à época da ditadura militar e outra com um gol ilícito de Maradona, que ganhou a bizarra denominação de “mano de Dios”. Um disparate dos “hermanos” imaginarem que Deus possa ter abençoado uma trapaça. A Inglaterra, que disputa com a Itália a primazia de ter inventado a modalidade (football ou calcio), revelou-se anfitriã pouco educada ao levar o troféu no bico: o bico que apita. O jovem English Team ficou devendo aos adeptos do chuveirinho a esperança de levantar a taça em 2022.

Aí veio o galo azul e levou o boneco de ouro pela segunda vez. Este torcedor fanático, que acompanhou pela primeira vez o maior torneio do esporte que consagrou Terto, não se lembra de ter acompanhado na longuíssima programação “direto da Rússia”, sob os auspícios de São Basílio e sua horrenda catedral na Praça Vermelha, alguém que houvesse, pelo menos, consultado a Wikipédia velha de guerra para descobrir, de repente, que os campeões de 2018 não são propriamente despojados de História no quesito ludopédico.

Decerto direis que não vi nem ouvi tudo. Muitos microfones, várias câmeras e até rotativas se referiram ao feito único de um campeonato em território francês com dois gols de Zinedine Zidane e mais um de Petit a zero, no Stade de France. Foram feitas poucas referências a Michel Platini, um dos maiores craques europeus no fim do século 20. E foi, sobretudo, relegado ao esquecimento um dos maiores esquadrões de futebol de todos os tempos, que ficou em terceiro lugar da Copa da Suécia, em 1958, esmagando a então campeã Alemanha Ocidental por 6 a 3 na véspera da final em que o Brasil de Vicente Feola arrebatou seu primeiro título na História. Na semifinal, os gauleses, como se dizia há 60 anos, haviam sido massacrados por Vavá, Didi e Pelé (3) por 5 a 2, numa partida considerada uma das melhores e mais emocionantes de todos os tempos.

Se algum especialista se tivesse dedicado àquela partida e àquela seleção francesa, teria muitas razões para desprezar as análises apressadas segundo as quais, afinal, a França tinha vencido o Mundial porque tinha craques que não descendiam das tribos derrotadas por Júlio César. O elogio à variedade de origem e etnia, sempre bem-vindo, não atende propriamente ao quesito da originalidade. Fãs de Asterix e Obelix haviam execrado um time nacional que se deu mal na Copa da Suíça, no quintal de casa, em 1954, atribuindo o fiasco à ascendência de seus craques. Mas estes introduziram com todas as honras o futebol gaulês à galeria dos maiorais.

O maior goleador de uma Copa em todos os tempos foi Just Fontaine, cidadão francês nascido em Marrakesh, na África: marcou 13 vezes em seis partidas nos gramados suecos. Mais de dois gols por jogo, mais do que o dobro dos seis, dos quais três de pênalti, feitos pelo inglês Harry Kane, mais que o triplo dos quatro de Mbappé, a revelação francesa, de pai camaronês e mãe argelina. Zinedine Zidane, o Zizou, campeão em 1998 e ex-técnico do Real Madrid, da Espanha, pelo qual foi campeão europeu de clubes, é de origem argelina, como é francês nascido em Orã,a Argélia, é um dos maiores gênios da língua de Voltaire e Baudelaire, o pied-noir (pé preto) Albert Camus, Prêmio Nobel de Literatura de 1957.

Há 60 anos o meia armador campista Didi foi considerado o craque da Copa em que foi revelado o maior craque de todos os tempos, Pelé, que os franceses, já então, batizaram de “rei do futebol”. Mas os derrotados na semifinal sempre se queixaram de tê-la perdido por uma entrada desleal de Vavá no zagueiro Jonquet, fazendo o adversário disputar a partida quase inteira com dez jogadores e meio, pois não se permitia substituição. Contra 11, entre eles um adolescente de quase 18 anos nascido em Três Corações, Minas Gerais, que estreara na seleção um ano antes. Naquela partida, os brasileiros tiveram três gols anulados, um deles de Zagallo. A bola bateu no travessão e cruzou a linha do gol, mas o erro do árbitro só foi revelado nos jornais do dia seguinte por um clichê insuspeito. Hoje o chip na bola teria validado mais um, mas então ninguém reclamou, pois a dúvida foi geral.

Os brasileiros desmontaram em 1958 a infâmia de que fora a covardia dos negros do time que permitira a vitória do Uruguai no Maracanã em 1950. A geração francesa que fez feio em 1954 demoliu essa idiotice logo depois. Além de Fontaine, brilhou na Suécia um craque de ascendentes além das fronteiras da França: Kopaszewski era o sobrenome real do atacante Raymond Kopa, que mais tarde atuaria num dos ataques mais efetivos da história dos clubes de futebol mundial, ao lado do húngaro Puskas, do argentino Di Stéfano e do espanhol Gento: o do Real Madrid, primeiro e único pentacampeão em temporadas seguidas na Liga da Uefa, entre 1955 e 1960. Ele nasceu na França, mas descendia de poloneses.

Com sobrenomes que revelam sua mãe, filha de português, e seu pai, nascido na Alsácia Lorena, região limítrofe, historicamente disputada entre França e Alemanha, país origem de sua família paterna, Antoine Lopes Griezmann, ótimo exemplo da Europa sem fronteiras, foi escolhido pela Fifa o melhor jogador na final contra a Croácia, em Moscou.

O melhor jogador do Mundial de 2018, Luka Modric, vice-campeão do mundo, mostrou ao nosso supercraque Neymar Jr. que o brilho da glória só pode vir do suor. Griezmann, atacante do Atlético de Madrid, que propiciou o primeiro gol do jogo ao cobrar a falta que o croata Mandzukic desviou para o próprio gol, deu-lhe outra lição. Para entendê-la convém relatar a jogada que abriu o placar. O zagueiro croata roubou a bola do francês licitamente e o péssimo árbitro argentino Nestor Pitana, que marcou falta inexistente, porque foi ludibriado por Griezmann, que tropeçou no adversário. Ao simular, o craque do jogo (the man of the match) praticou atividade antiesportiva, passível de punição. Não levou cartão amarelo, o adversário foi prejudicado ao ter interrompido um contra-ataque e o lance terminou em gol. Talvez ele possa ser considerado o Neymar Jr, que deu certo. Pois nosso Peter Pan em chuteiras foi mais lembrado pelos 14 minutos que passou rolando no gramado em cinco partidas do Brasil no Mundial, merecendo o troféu de “bobo da Copa”. Ou seja: até para simular é preciso ser competente. E ficou evidente que papo de autoajuda em vestiário e brilho que não seja de suor não ganham partidas nem torneios.

Para encerrar, convém lembrar que na semifinal de 1958, depois que Fontaine empatou o jogo, um adolescente, menor de 18 anos, foi às redes, apanhou a bola e a levou calmamente ao centro do campo. Na partida seguinte, a Suécia abriu o placar, o veterano Didi repetiu seu gesto e levou o Brasil à conquista. Há vídeos disponíveis para Edu Gaspar mostrar à sua vítima favorita de sofrência. Quem sabe, pelo menos até a Copa do Catar, Neymar Jr., aos 26 anos, seja humilde para aprender, ao menos, com Pelé.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 16 de julho de 2018)

Déjà vu

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No Aliás do Estadão deste domingo: O poeta contra o lugar-comum

No Aliás do Estadão deste domingo: O poeta contra o lugar-comum

A originalidade marca os dois livros de Antônio Carlos Secchin agora lançados, um com poemas seus, outro dedicado a obras alheias

O maior inimigo da boa literatura é o chavão. Não há verso ou prosa, por melhor que aparente ser, que resista ao poder corrosivo de uma platitude. Combater a praga da boa aparência que esconde a falta de originalidade é dever do crítico e professor de literatura. E só muita vigilância evita o literato de escorregar na mera mesmice. Poeta, crítico e professor, Antônio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras, é um cruzado contra o lugar-comum, como comprovam seus recentes lançamentos. Percursos da Poesia brasileira reúne lampejos de sua militância crítica e já encontra em nossas livrarias Desdizer, coletânea de poemas, que acaba de ser lançada em Portugal.

O acadêmico. Análises de Antônio Carlos Secchin dependem mais do trabalho do historiador do que propriamente de crítico. Foto: Ian Cheibub/Estadão

O acadêmico. Análises de Antônio Carlos Secchin dependem mais do trabalho do historiador do que propriamente de crítico. Foto: Ian Cheibub/Estadão

O que dá organicidade aos dois volumes não é o ineditismo, mas a originalidade. As análises do primeiro resultam mais do trabalho de historiador do que propriamente de crítico. Nele o autor reúne textos, já ou nunca publicados, num esforço que, mais do que de opinião, é de investigação das formas originais que a lírica brasileira – do romantismo ao pós-modernismo – engendrou para fugir da armadilha do facilitário, à disposição do escritor incauto. Essa fuga do repeteco comodista levou nossa poética a uma espécie de Olimpo distante do mercado, o que muitos apressados confundem com torre de marfim. Secchin defende quem se escondeu de recitais escolares em laboratórios do vernáculo.

É o caso de Bernardo Guimarães, romancista de A Escrava Isaura, sucesso em adaptações recentes para telenovelas, que tem lembrada a “vertente erótica-demoníaca” na visão do dublê de ensaísta e criador. Nas resenhas reunidas poetas consagrados como Alphonsus de Guimarães é analisada sua fase menos notória, antes da militância católica. Nesse livro Secchin enfrenta mitos consagrados como a inexistência de versos livres antes do modernismo, trazendo a lume a obra de Mário Pederneiras. E critica a Academia Sueca por não ter outorgado a Ferreira Gullar o Prêmio Nobel de Literatura. Duvidar quem há-de?

De Desdizer o título diz tudo. A obra contém a produção poética do acadêmico até o momento. Nela Secchin escapa de versos com pompa, frases feitas, trocadilhos e outras figuras de gramática como o diabo foge do Crucificado. Esse canto ao inusitado, que faz da arte poética mais semente do que fruto, e menos ainda repouso no certo e bem sabido, esgueira-se por todas as páginas e espanta traças e pó como adversários do novo que celebra a descoberta, e não a consagração, como o fizeram escritores citados no outro livro.

Na passagem do ano de 2002 para 2003, por exemplo, o poeta não deseja alvíssaras do calendário a inaugurar, mas deixa claro que propõe buscar em seus recantos disposição para avançar, não para renascer. Exemplo: “Teu corpo já bem maduro/ sustenta o tempo que virá depois./ Em ti revejo o avesso do futuro, / recém-amigo 2002”.

A poesia da desdita não é triste, como soem ser as baladas de desencontro e despedida. Na batalha contra o conformismo das formas rebuscadas, o autor se arma de um humor militante, quase feroz, quando, algumas páginas adiante, retoma o mesmo tema para mofar das listas de tarefas de virada de ano que compõem o réveillon de muita gente. A mordaz ferocidade torna o aparente retinir de taças de espumantes do título do poema Feliz Ano Novo um estilhaçar de cristais sem dó. Profetiza: “Encontrarás o amor de sua vida,/ inerte, num esquife de partida”. Ao chegar ao último verso, o leitor atento hesitará entre o susto e a gargalhada: “Chegará sorrindo ao Céu sonhado./ Mas é domingo. O portão está fechado”.

A impressão que algum desavisado pode fruir da poesia satírica de Secchin, como em sua militância crítica, é de que ele está atrás da porta, abafando o riso com a mão pelos próprios ardis. Sendo o autor, de ofício, professor de Literatura, pode ter encontrado inspiração na ironia aguda, mas sem amargura, de mestres como o maior de todos, Machado de Assis, e no senso de ritmo que Castro Alves aprendeu com Bocage. Ou ainda em autores contemporâneos de além-mar, casos do iconoclasta Cesário Verde, do polígrafo Fernando Pessoa ou da profunda e precisa Sophia de Mello Breiner Andresen. Mas não se deixe enganar: sua escrita é extremamente pessoal e, também por isso, inimitável.

Secchin sabe ser irreverente, quase blasfemo, no engraçadíssimo Soneto Pio, em que ele escorrega por uma irresistível pornografia profana ao tratar de tradição religiosa com palavras de duplo sentido e rimas ocultas: “E o sacerdote pega no pau, para espantar o exu. / ‘Quem no meu saco um bom óbolo mete?’, / fala um noviço tocando sineta”. Abordando a mais sagrada das formas, a dos sonetos parnasianos, o poeta põe à prova sua decisão de buscar o risco como objetivo, sem a qual a poesia não se realiza em sua forma mais ampla.

O mestre-escola exala conhecimento da teoria literária ao longo do livro todo, mas este leitor deslumbrado não poderia deixar de manifestar sua preferência por uma espécie de manifesto da instabilidade do balanço das ondas do mar e dos limites da grade que detém o voo das aves, num poema sem título que justifica sua veneração de pontífice do rito verbal. “O ar ancora no vazio. / Como preencher / seu signo precário? / Palavra, / nave da navalha, / gume da gaiola, / invente em mim / o avesso do neutro / o não assinalado, / o lado além / do outro lado”. Nessas 12 linhas de retas e curvas pretas sobre o papel, o poeta enfrenta o efêmero, navegando no fio da navalha, uma espécie de Ulisses indo a Ítaca em busca de Madame Satã. No caminho, ele para num porto para soltar o assum preto, cego dos olhos, para voar, mesmo na negra amplidão, solto da prisão do verso de Humberto Teixeira na toada de Luiz Gonzaga. O menestrel rebelde não dá bola para as armas e os brasões do caolho Camões, pois se dispõe sempre a buscar imagens atrás do reflexo do espelho na terceira margem do rio do conto de um prosador que ele conhece bem: João Guimarães Rosa. Aventura infinita, saga maldita, a do poeta na poesia, Gregório de Matos limado por João Cabral.

  • José Nêumanne Pinto. Jornalista, poeta, escritor e autor deBarcelona, Borborema

(Publicado no Aliás, O Estado de S. Paulo, Pag. E3 , domingo 15 de julho de 2018)

Serviços

Percursos da Poesia Brasileira
Editora: Autêntica
368 páginas
R$ 59,80

Desdizer
Autor: Antonio Carlos Secchin
Editora: Topbooks
211 páginas
R$ 50

No Blog: Nêumanne entrevista Elena Landau

No Blog: Nêumanne entrevista Elena Landau

Para Elena Landau, como instituições não funcionam, é hora de refundar o Estado, convencendo pessoas a desistirem de milagreiros e soluções fáceis e erradas

“O Estado brasileiro não precisa apenas ser reformado, mas refundado”, pontua a economista e advogada tucana carioca Elena Landau, entrevistada do Blog do Nêumanne esta semana. Decepcionada com o desempenho da seleção brasileira na Copa da Rússia, a botafoguense e defensora de Neymar Jr. não é pessimista quanto à continuação da discussão da pauta reformista, apesar da desistência da reforma da Previdência. Temerosa pelo futuro da economia, da democracia, do filho e do neto, ela constata que “as instituições não estão funcionando. Governo fraco, Congresso apenas tentando sobreviver, STF rachado, dando péssimo exemplo”. Tudo a leva a crer que “veremos de novo anos perdidos e um encontro com o destino populista autoritário. Na América Latina temos o exemplo do Chile, mas parece que o Brasil escolheu ser Bolívia… ou Venezuela.” Neste ano eleitoral, porém, enxerga uma luz no fim do túnel: “A luz que falta é as pessoas pararem de buscar milagreiros e soluções – supostamente — fáceis”.

Para Elena, as pessoas precisam ser convencidas a deixarem de esperar milagreiros e soluções fáceis

Para Elena, as pessoas precisam ser convencidas a deixarem de esperar milagreiros e soluções fáceis

Elena Landau é economista e advogada formada em ambos os cursos pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde também recebeu o título de mestre em Economia. Foi professora do Departamento de Economia da PUC-RJ e da Faculdade de Direito da FGV-RJ, assessora econômica da presidência do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), diretora do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e consultora e diretora jurídica da Associação Brasileira das Concessionárias de Energia Elétrica (ABCE). Foi ainda conselheira da Vale, da Cemig e da AES e presidente do Conselho da Eletrobrás. Organizadora e autora dos Tomos I e II do livro Regulação Jurídica do Setor Elétrico, autora de diversos artigos nas áreas do Direito e da Economia, com destaque para os temas da privatização, energia elétrica e organização do futebol no Brasil. Atualmente é sócia do escritório de advocacia Sérgio Bermudes, membro do Conselho Consultivo da Comgás e presidente do Conselho Acadêmico do Livres. Escreve um artigo quinzenal no Caderno de Economia do jornal O Estado de S. Paulo.

Elena em palestra na New York University

Elena em palestra na New York University

A seguir, Nêumanne entrevista Elena Landau:

Nêumanne – No início da Copa, enquanto no paredão das redes sociais se atirava em nosso único supercraque, Neymar Jr., mesmo caído, a senhora foi uma rara voz nos meios de comunicação a defendê-lo, numa atitude, mais que generosa lúcida, de vez que importavam duas conquistas: a Copa e o título de melhor jogador do mundo para um brasileiro. A reversão dessas expectativas a surpreendeu, decepcionou ou frustrou? A senhora, como muitos outros, exigia do jogador que se submetesse humilde e democraticamente a perguntas de repórteres na zona mista do estádio em Kazan, em vez de se recusar a isso?

Elena – Fiquei muito impressionada com o que fizeram nas mídias e redes sociais com Neymar. Chocou-me ainda mais o bullying dos próprios brasileiros. A quem interessa isso, a não ser aos próprios adversários? Não sei se foi complexo de vira-lata, incômodo com o sucesso dele, inveja mesmo. Mas foi um assédio virtual inaceitável. Ele é um jogador excepcional. Veio de uma lesão grave e se dedicou à recuperação para a Copa. Foi caçado em campo no primeiro jogo, o juiz não coibiu a deslealdade. Ele se defendeu do jeito que pôde.  Exagera? Quem nunca catimbou em campo? Qual seleção não fez isso? Um falso moralismo sufocando e ignorando o talento. Só quem perdeu foi a seleção brasileira. Mas, ainda assim, ele foi de longe o melhor jogador da equipe, todas as estatísticas mostram isso. Melhor jogador da Copa não virá porque fomos eliminados. Mas seria uma competição difícil: Modric, Griezmann, Hazard. Mbappé, tantos nomes incríveis. Esta Copa mostrou grandes jogadores. Continuo achando nosso elenco o melhor. Não acho que tenhamos jogado mal contra a Bélgica, mas não era nosso dia. A mídia arrasou com Neymar porque ele deveria dar entrevistas num dia tão difícil para ele? Para cobrarem dele os absurdos que falaram dele ao longo dos jogos? Ou para pedirem desculpas? Teve jornalista dizendo que ele precisava de tratamento psiquiátrico. O que vimos em todos os jogos foram jogadores emocionados, vários choraram. E por que só Neymar errou ao chorar? Para a imprensa, o choro dos outros era diferente. As faltas nos outros eram faltas de verdade, as nele, não. Nem depois de um pisão desleal que ele recebeu o agressor levou cartão. Vimos simulações patéticas da seleção inglesa e foram exatamente Cantona e Lineker que liderarem as críticas ao Neymar. Não sei o que faria no lugar dele.

 

Elena discorda dos críticos do desempenho de Neymar na Copa da Rússia

Elena discorda dos críticos do desempenho de Neymar na Copa da Rússia

N – A senhora acha que a conquista, que não houve, da taça produziria um efeito positivo que superaria a própria festa da vitória, mexendo no ânimo dos cidadãos humilhados pelo desemprego em massa, angustiados com a falta de perspectivas pessoais e coletivas e indignados com o comportamento dos figurões do Estado brasileiro na gestão pública?

E – Nunca misturei política, economia e futebol na vida. Não vou começar agora. Foi assim no regime militar quando o tri foi comemorado, apesar da ditadura. A Copa está dando um show. Torcidas, globalização, jogos incríveis. Nem a nossa economia nem a crise política receberiam impacto nenhum do hexa. Claro que serve para memes e piadas. Campeões em 1994 e 2002, com FHC, derrota de 7 a 1 com Dilma. E mesmo com o maior vexame da história da nossa seleção Dilma foi reeleita.

Com Newton Santos e Didi, do Botafogo, este melhor jogador de nossa primeira Copa, em 1958

Com Newton Santos e Didi, do Botafogo, este melhor jogador de nossa primeira Copa, em 1958

N – A senhora, como muitos patrícios de boa vontade, esperava que a boa escolha da equipe econômica pelo substituto da presidente deposta, que, sem dúvida, foi alvissareira, seria capaz de por si só afastar de vez o fantasma assustador da crise, que ainda paira sobre nós?

E – Nunca confiei muito no MDB. O fisiologismo lá faz parte do DNA. Acho que nunca votei no partido. Mas a equipe econômica fez e faz diferença. Este governo interrompeu a recessão profunda herdada de Dilma. A expectativa de retomada de crescimento e emprego não se consolidou, mas estamos muitas vezes melhor que antes. Fui contra o impeachment e continua achando um erro, não pelos argumentos de golpe, porque não foi, mas porque interrompemos uma curva de aprendizado do eleitor, que ainda não entendeu que o lulopetismo é receita certa para fracasso econômico e nada além do velho populismo latino-americano. Muitas reformas avançaram, como TLP, a trabalhista, outras mudanças micro, a discussão sobre Previdência, alterações na governança das estatais. E a equipe não se resume aos seus ex-ministros, pois ambos saíram e a equipe, com Guardia e Esteves, continua sendo uma ilha de sanidade no sanatório geral.

N – A contaminação pelo micróbio da corrupção, que tornou o presidente Michel Temer refém da quadrilha do partido que presidia e lidera, adiou para quando o necessário esforço de reconstrução do Estado brasileiro, a partir de providências irreversíveis como, só para falar de uma, a reforma da Previdência?

E – Se o áudio do Joesley tivesse sido divulgado uns dias depois, a reforma da Previdência teria passado no Congresso. Acho que Temer deveria ter usado seu cacife político para votá-la antes ou junto com a PEC do teto. Depois perdeu a credibilidade e agora só pensa na própria sobrevivência. É refém do Congresso, que decide a pauta conforme os próprios interesses, em geral elevando gastos, e do Judiciário. A crise institucional é evidente. Mas não acho que tudo se tenha perdido, a importância da reforma da Previdência está posta, a intolerância com privilégios também. Outros temas virão: estabilidade do funcionalismo, melhor gestão das políticas públicas, privatização.  O Estado brasileiro não precisa apenas ser reformado, mas refundado.

N – Os efeitos benéficos do limite dos gastos públicos e da reforma trabalhista, o que se salvou, mas ainda assim corre riscos, do esforço da equipe econômica para tirar o Brasil do buraco, ainda têm condições de ser mantidos e tornar possível a retomada das reformas que faltam? Aliás, quais são, a seu ver, as prioritárias?

E – Este ano estamos só cuidando de sobreviver. Estou acompanhando a privatização das distribuidoras da Eletrobrás. Espero que o futuro presidente ponha as reformas para andar. Infelizmente, quem está liderando as pesquisas fala de reformas só no conceito, não nos detalhes, e assim não vejo como vão criar ajuste fiscal. Tanto Ciro como Bolsonaro, se mantiverem o que estão falando até agora, vão piorar a crise fiscal, porque têm visão errado sobre Previdência e a forma de cumprir o teto. As reformas prioritárias, para mim, são as do Estado (gestão, funcionalismo e privatização) e o choque na educação.

N – Fala-se muito em crise de falta de legitimidade de Michel Temer e, por isso mesmo, espera-se, talvez de forma exagerada, que o presidente que vier a ser eleito em outubro, portanto, daqui a três meses. Mas terá ele, ou não, autoridade e força política para impor um programa reformista, mesmo que a renovação do Congresso não nos livre da sabotagem das medidas necessárias pelos políticos privilegiados e suspeitos de corrupção?

E – Ele não terá opção. Ou faz as reformas ou vamos para inflação ou controle de dívida, novo nome para calote. Não há milagre fora das reformas. Previdência, abertura comercial, simplificação e transparência tributária, desonerações, melhoria da gestão pública… E todo presidente começa seu mandato com credibilidade. Tem de ter experiência política e veia democrática para fazer as reformas. Na base do grito, como querem alguns, não passa nada.

N – Até agora não se revelou na campanha presidencial nenhum candidato que tenha assumido, como deveria, o papel de condutor da opinião pública para livrar a sociedade brasileira da marcha do rebanho de ovelhas rumo ao abismo inevitável. A senhora confia que ainda possa aparecer alguém que empolgue os mais de 40% dos eleitores sem candidato consultados pelos institutos de opinião com o discurso de “sangue, suor e lágrimas” de Churchill, que levou o mundo à vitória contra o Eixo nazi-fascista?

E – Não vejo. O melhores nomes, começando pelo meu favorito, Alckmin, não têm esse perfil. Nem Marina. Ao que parece, ninguém quer sangue nem lágrimas, muito menos suor, na construção de solução duradoura. Os líderes na pesquisa são os que estão propondo soluções fáceis, e erradas.

N – Em sua estreia na coluna quinzenal no caderno de Economia do Estadão, a senhora escreveu um artigo sereno, mas demolidor, contra a atitude do ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski, que agiu como líder do sindicato dos privilegiados que levam o País à bancarrota, argumentando com dados jurídicos de grande precisão. O que fazer para levar a cúpula do Poder Judiciário a servir ao cidadão nas lutas contra a corrupção e as benesses dos mandriões do serviço público, e não a funcionar como roleta-russa para a sociedade, como o fez até agora?

E – As instituições não estão funcionando. Governo fraco, Congresso apenas tentando sobreviver, STF rachado, dando péssimo exemplo. Ativismo jurídico, seja para que lado for, é o primeiro dos vícios recentes a serem consertados. O número exagerado de decisões monocráticas dificulta que se firme jurisprudência. Votos vencidos são usados para justificar decisões, ignorando-se posição do colegiado. Um individualismo excessivo, e não um tribunal. Além de bate-boca na frente das câmeras. Tudo isso contaminou instâncias inferiores, como se viu nessa escandalosa manobra recente do habeas corpus pedido no plantão do TRF-4. Difícil será a população entender por que não se aplica o que diz a Lei da Ficha Limpa de forma clara. Por que há fichas-sujas governando com base em liminares? Por que 78 recursos não são suficientes para se esgotar uma questão? Espero que um governo eleito, de perfil democrático, é obvio, consiga liderar um processo de fortalecimento institucional, como fez FHC.

O lado viajante de Elena em Petra, a cidade de pedra na Jordânia

O lado viajante de Elena em Petra, a cidade de pedra na Jordânia

N – A senhora teme pelo destino da economia ou pelo futuro da democracia no caso de vitória da direita neomilitarista truculenta ou da demagogia populista e larápia, que apresentam candidatos que têm mais preferência dos votos nas pesquisas até agora conhecidas?

E – Temo por tudo, economia, democracia, pelo futuro do meu filho, do meu neto. Veremos de novo anos perdidos e um encontro com o destino populista autoritário. Na América Latina temos o exemplo do Chile, mas com essas opções que você cita parece que escolheu ser Bolívia… ou Venezuela.

N – A seu ver, pode surgir ainda este ano uma luz que ilumine e guie no fim do túnel, mas que não seja sarça ardente nem farol do trem descarrilado que se precipita rumo ao abismo?

E – Estou muito pessimista. Os candidatos estão aí. Na minha opinião, o melhor deles é Alckmin. Tem experiência, sabe negociar com parlamentares, é ótimo administrador, tem o melhor resultado na segurança pública do País. O dele é o melhor assessor econômico de todos. E é um democrata. A luz que falta é as pessoas pararem de buscar milagreiros e soluções – supostamente – fáceis.

 

Nêumanne entrevista Elena Landau. 13ª. Edição da Série 10 Perguntas. http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne

Nêumanne entrevista Elena Landau. 13ª. Edição da Série 10 Perguntas. http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne

No Blog: Desmoralizando a Justiça

No Blog: Desmoralizando a Justiça

Moro, Gebran e Thompson salvaram Judiciário da completa desmoralização do Estado de Direito, sabotado por deputados petistas e desembargador aloprado em golpe sujo e baixo que aplicaram no domingo

A incrível e absurda malandragem perpetrada por três representantes do povo de um partido que diz servir aos trabalhadores e respeitar a democracia, com a cumplicidade de um desembargador federal, no primeiro domingo da Copa da Rússia sem o Brasil, expôs a explícita desmoralização do nosso Estado de Direito. Finda a semana em que os flagrantes delitos no registro espúrio de sindicatos no Ministério do Trabalho afundaram o Poder Executivo no pântano do descrédito, a manobra escusa tentada para retirar Lula da cela pela porta dos fundos foi a gota d’água que inundou as enlameadas cavernas do Judiciário.

Às vésperas de agosto, mês tido como “do desgosto”, o cidadão brasileiro já tinha sido exposto a sórdidos truques de parlamentares, legitimados para legislar em nome do povo. O projeto do deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP) perdoando as dívidas das multas de caminhoneiros e transportadoras que provocaram pane seca e desabastecimento de combustíveis e víveres foi incluído no relatório de Osmar Terra (MDB-PR) que torna o frete mínimo obrigatório. Essa iniciativa do Legislativo, com as bênçãos do Executivo, que distribui verbas do depauperado erário a mancheias entre deputados das bancadas governistas, reproduz hoje a mesma relação sórdida já antes condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O arrombamento da ordem constitucional, que consagra o mercado livre, para resolver uma crise criada pela ousadia dos chantagistas, que expuseram a fragilidade de um governo impopular e desacreditado, não passa de uma versão contemporânea do mensalão, que abriu a temporada de caça aos gatunos.

Durante curto interregno, a cúpula do Judiciário apoiou o combate à corrupção, efetuado por uma geração competente e proba de policiais, procuradores, juízes e desembargadores federais das instâncias iniciais. Isso deu à população espoliada a sensação de que a Justiça sanearia os altos e podres Poderes da República. Mas tal aliança durou muito pouco.

Logo as brechas, pelas quais criminosos de colarinho-branco passavam para ficar fora do alcance da lei, se abriram nas divisões internas da cúpula da atividade judiciária, em que boas iniciativas sempre sucumbiram ao corporativismo e à corrupção. Essas câmaras escuras são percorridas mercê da negação do decantado espírito da colegialidade, do qual somente uma ministra da “Suprema Corte”, Rosa Weber, parece ser adepta. Ao contrário dela, os outros quatro que deram votos vencidos na decisão pela jurisprudência que autoriza prisão de condenados em segunda instância – a dupla Mello e de Mello, Lewandowski e Toffoli – aliaram-se ao pagão novo Gilmar. E a desafiam em capciosas decisões monocráticas.

A tabelinha Lava Jato-STF não resistiu à nada gloriosa entrada dos tucanos nas listas dos delatados da operação. Isso causou a guinada de 180 graus de Gilmar, dos que apoiavam a jurisprudência firmada em três votações de 2016 para os adeptos da distorção de preceitos constitucionais. Essa prática é antiga. Tendo confessado que redigiu artigos da Constituição que não foram aprovados pela maioria do plenário, Nelson Jobim ora é tido por alguns como presidenciável da conciliação em outubro. E o  então presidente do STF Ricardo Lewandowski rasurou cinicamente o artigo da Constituição que proíbe condenados em impeachment de exercer cargo público por oito anos. A canetada, sugerida por Renan Calheiros, permite hoje que Dilma se candidate ao Senado pelo PT.

Quem não redigiu nem rasurou a Carta Magna apela para a leitura errada do artigo 5.º, segundo o qual ninguém é “considerado culpado antes do trânsito em julgado” de seu processo. A extensão da isenção da culpa à proibição da prisão ou à presunção de inocência, finda na segunda instância, não está no dicionário, mas pode ser incluída, mercê do “poder da grana, que ergue e destrói coisas belas” (apud Caetano Veloso).

Recentemente, o ministro Mello soltou traficantes condenados em segunda instância com a mesma desfaçatez com que Gilmar concedeu habeas corpus a clientes da banca da mulher. E Toffoli devolveu o ex-chefe Dirceu, condenado em segunda instância a mais de 30 anos de prisão, ao doce lar. Atribui-se a esse duas vezes apenado (no mensalão e no petrolão) o planejamento da molecagem do desembargador do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), Rogério Favreto, por ele indicado, a desafiar os colegas, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o STF, mandando soltar o mais famoso presidiário do Brasil.

Si non è vero, è ben trovato (se não é verdade é bem pensado), diria don Vito Corleone, O Poderoso Chefão da ficção de Mário Puzo. A fresta parecia promissora para o trio Paulo Pimenta, Paulo Teixeira e Wadih Damous, dois deputados federais e um levado à vaga aberta pela pressão do dirigente Quaquá na prefeitura do Rio. Um dos 27 desembargadores do TRF-4 em seu primeiro plantão teria de ser mais sensível à ideia “original” de que a pré-candidatura de Lula à Presidência seria o fato novo para lhe permitir conceder o habeas corpus pedido à sorrelfa. Meia hora depois do início do plantão do simpatizante na sexta-feira, deram à luz o mostrengo.

Como Toffoli, Favreto serviu a Dirceu. E como Toffoli mandou a jurisprudência da prisão pós-segunda instância às favas. Não havia mais a possibilidade de contar com o relaxamento da classificação do Brasil para a semifinal da Copa, pois a seleção de Tite fora eliminada duas horas e meia antes. Não é correto, então, perguntar se não combinaram com os belgas e pensar que a molecagem, de que a defesa de Lula se fingiu distante, passaria incólume na euforia geral.

Mas quando setembro vier, Toffoli, que como Favreto nunca foi juiz, será presidente do STF e terá à mão o martelo para triturar a jurisprudência dos colegas, Moro, o TRF-4 e o STJ.E tirar Lula da cadeia. Ingênuo será pensar que ele seria menos cínico que Favreto.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Página 2A do Estado de S. Paulo de quarta-feira 11 de julho de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/desmoralizando-a-justica/

Comentário no Jornal Eldorado: Barbarismos do desembargador

Comentário no Jornal Eldorado: Barbarismos do desembargador

Lavrado em vernáculo indigente, com barbarismos primários, despacho do desembargador Rogério Favreto, do TRF-4, mandando soltar Lula para que este possa disputar a campanha presidencial, o que é impedido de fazer por ter ficha suja, é “teratológico” na definição do ex-presidente do STF. E abriria, caso não fosse barrado, precedente perigoso para que bandidos como Fernandinho Beira-Mar e Marcola pudessem se eleger em outubro. Só isso já bastaria para abrir caminho a pedidos de punição a Sua Excelência, mas de efeito duvidoso neste país onde prevalece o corporativismo. O PT, é claro, pretende punir o juiz Sérgio Moro, por não ter executado a ordem esdrúxula, e os policiais federais, que não atenderam à tresloucada ordem.

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na terça-feira 10 de julho de 2018, às 7h30m)

Para ouvir, clique no play abaixo:

Ou clique no link abaixo e, em seguida, no play:

https://soundcloud.com/jose-neumanne-pinto/neumanne-1007-direto-ao-assunto

Para ouvir Amigo é pra essas coisas, de Sílvio Silva Júnior e Aldir Blanc, com MPB 4, clique no link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=kQ0jC1FNgts

Para ouvir no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

Abaixo, assuntos do comentário de terça-feira 10 de julho de 2018

SONORA Amigo é pra essas coisas, de Sílvio Silva Júnior e Aldir Blanc, com MPB4

https://www.youtube.com/watch?v=kQ0jC1FNgts

1 – Haisem Não se fala em outra coisa no Brasil que não seja o Lula cá, Lula lá no primeiro domingo sem o Brasil na Copa da Rússia, que foi o dia de anteontem. O Superior Tribunal de Justiça tem recebido vários pedidos, pelo menos oito, pedindo o enquadramento do desembargador Rogério Favreto, do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, de Porto Alegre, por usurpação de função, prevista no artigo 328 do Código Penal. Você acha que algum deles tem alguma chance de sucesso?

2 – Carolina Por outro lado, também têm sido solicitadas das autoridades do Judiciário a condenação do juiz Sérgio Moro por se ter negado a obedecer ao dito cujo desembargador e conceder alvará de soltura a Lula sem antes consultar o relator da Lava Jato do STF-4, João Pedro Gebran Neto. E ainda criticado em documento público a decisão de um superior hierárquico dele. Isso poderá mesmo acontecer?

3 – Haisem Você vislumbra alguma outra possibilidade de punição para outros atores da grotesca tragicomédia representada pela segunda instância do Judiciário no lamentável pingue-pongue do prende-solta Lula de domingo?

4 – Carolina Você acha que, sendo parte nos processos, a Procuradoria-Geral da República tem autoridade para afirmar que apenas o Tribunal Superior de Justiça (STJ), que já julgou 146 recursos da defesa de Lula, seja o único órgão do Judiciário a receber seus pedidos de habeas corpus?

5 – Haisem Qual é sua opinião sobre o novo capítulo da novela iniciada em 2016 e agora retomada do acordo de leniência da Odebrecht, empreiteira pra lá de enrolada na Lava Jato, agora sob os auspícios da Advocacia-Geral da União e da Controladoria-Geral da República, com expectativas ainda de interferência do Tribunal de Contas da União?

6 – Carolina Quais são suas expectativas sobre o desfecho desse indiciamento do ex-ministro de Temer Geddel Vieira Lima por improbidade administrativa na Justiça Federal de Brasília daquele pouco exemplar episódio da demissão do então ministro da Cultura Marcelo Caleiro?

7 – Haisem Você tem algo a dizer sobre o novo ministro do Trabalho, desembargador Caio Vieira de Mello, que não é do PTB nem do PDT?

8 – Carolina O que você achou de interessante e tem a nos recomendar na leitura do site Estado da Arte, que circula no Portal do Estadão, fazendo uma ponte entre três personagens inesperados, Gilberto Freyre, Jorge Luís Borges e James Joyce, o romancista irlandês de Ulysses?

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