Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

BLOG

No Blog do Nêumanne: No mato, acuados pela cachorrada

No Blog do Nêumanne: No mato, acuados pela cachorrada

Rosângela Bittar conseguiu em seu artigo no Valor Econômico (“Loja de Conveniência”, também um título por demais porreta),  resumir de forma mais precisa do que eu ou qualquer outro colega pudemos fazê-lo essa transição da política do latrocínio para a do lenocínio que ora constatamos. Isso se passa nos últimos dias em que vivemos uma generalizada e preocupante crise de espírito coletivo, geral no Brasil que Dilma entregou em frangalhos ao vice Temer e este parece tonto com tão muito a fazer e de tão pouco dispor. Rosângela é uma senhora elegante e não compararia a Câmara com “casa de recurso”, antecessora dos motéis de hoje na Campina Grande de minha adolescência. A definição talvez seja imprópria, mas, desculpem, me parece bem apropriada. De fato, o clima na Câmara do “cada um por si e Deus só por alguns”, título que dei ao meu artigo-desabafo na página 2 do Estadão, foi relatado pela colunista de maneira mais encadeada e lógica do que em qualquer outro texto que li ou comentário que assisti ou ouvi. Palmas para ela, que ela merece. Rasgos de lucidez merecem destaque nesta República da Bizarria. Em recente conversa, o professor Joaquim Falcão, da Fundação Getúlio Vargas do Rio, opinou num café a três (isso, sim, é petit comité) que hoje a Justiça realiza plenamente um velho ditado sobre juízes, desembargadores e ministros: “cada cabeça, uma sentença”. Uma tragédia: todos os de primeira instância asseguram sua vontade jurídica (antigamente, no tempo em que o PT ainda afirmava que não furtava, havia a vontade política, que era uma espécie de panaceia de fancaria, agora é a vontade jurídica que comanda o cangaço, haja ou não morte no meio). Desembargadores distribuem sua generosidade só pra gente do andar de cima. E ministros do STJ e também do Supremo resolveram mandar, autocraticamente, em tudo. Qualquer dia, o pleno determina em jurisprudência de quantas escovadas precisa a higiene bucal. O caso do presidente lewandowski chega a ser “patoilógico”: ele usurpou até o julgamento do impeachment, que a Constituição manda ser da Câmara, primeiro, e do Senado, depois. Vitorino Freire, o soba maranhense da era pré-Dino, o patrono do tonto Maranhão, e pai do poeta Lula Freire, gente fina, parceirinho de Baden, dizia que é grave a crise na qual vaca não reconhece bezerro. Bezerrão do sertão, completo: não estamos no mato sem cachorro. Não. Estamos no mato acuados pela cachorrada. E vamos apelar pra quem? Só se for pra São Gregório, que inventou o calendário cheio de nomes de potentados romanos. Mas se,  fiel a seu devoto, ele suspender os dias úteis e inúteis até o fim da Olimpíada, como na jurisprudência lewandowskiana? Um desafio para a impotência generalizada que até mesmo Deus parece ter resolvido curtir e compartilhar nos perfis sociais lá do céu cor de anil nestes dias secos de veranico.

Quarta-feira 13 de julho de 2016

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/no-mato-acuados-pela-cachorrada/

Nesta quarta, no Estadão: É cada um por si e Deus só por alguns

Nesta quarta, no Estadão: É cada um por si e  Deus só por alguns

Fiasco albanês, um prócer irrelevante e um suspeito na polícia comandam a Câmara

Ao renunciar à presidência da Câmara dos Deputados na semana passada, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi de uma precisão cirúrgica quando desqualificou a atual administração da Casa ao empregar a expressão “interinidade bizarra”. Com o morteiro disparado na direção do primeiro sucessor do presidente (também interino) da República, Michel Temer, o ex-ocupante do poderoso e honorável posto, “sem querer querendo”, como rezava o mote do protagonista de um dos maiores sucessos da televisão brasileira, o mexicano Chaves, definiu a esdrúxula situação sob a qual vivemos todos nesta atual barafunda.

Esta nossa República é tudo menos honrada, serena e lógica. Os três Poderes atuam como se vivessem em mixórdia e intromissão permanentes, um nos outros e vice-versa, chamando o nefasto resultado geral, cínica e equivocadamente, de “autonomia”. Esta se impôs sobre a “harmonia” na base do braço de ferro e do berro mais alto. Nas atuais circunstâncias e há bastante tempo, o lema “ordem e progresso” da Bandeira Nacional não descreve a desordem vigente, a ponto de dever ser substituído por “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Em relação a esse recado generalizado à cidadania, o povo, impotente, fica na condição do “salve-se quem puder” e o resto que se dane.

De acordo com chamada na primeira página deste jornal, domingo, o segundo maior fornecedor da campanha vitoriosa da reeleição da presidente afastada, Dilma Rousseff, Carlos Augusto Cortegoso – conhecido como “garçom do Lula”, por tê-lo servido nos anos de liderança sindical no Demarchi, famoso restaurante no circuito do frango com polenta em São Bernardo do Campo –, movimentou quase R$ 50 milhões naquele pleito. Ou seja, cinco vezes o valor que declarou. Assim, a chapa Dilma-Temer teria cometido, conforme relatório da Receita Federal, duplo crime: foi financiada por caixa 2 e, ao declarar que as doações eram legais, lavou o dinheiro sujo na máquina da Justiça Eleitoral. Um desplante!

Caso o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) constate o duplo delito na investigação que promove sobre a validade dos votos sufragados em 2014, terá de mandar presidente e vice entregarem o poder ao presidente da Câmara dos Deputados, seja ele quem for. Este terá 90 dias para convocar eleição direta para um mandato-tampão até dezembro de 2018, quando, então, já terá sido eleito seu substituto constitucional. Em sufrágio direto e universal, se a disputa for este ano, antes de ser completada a primeira metade do mandato dado como usurpado por abuso de poder econômico (e com uso de dinheiro público, o que é mais grave). Ou em eleição indireta, pelo Congresso, se a decisão for posterior.

Ocorrendo isso, em qualquer das hipóteses, falirá a lorota do “impeachment sem crime é golpe”, que mantém o fio inconsútil do que ainda resta do mandato de Dilma e do PT. Seu substituto constitucional, Michel Temer, eleito vice também de forma supostamente ilícita, sucumbirá junto. E levará no féretro a equipe econômica mais equipada para tirar o Brasil da crise e reconstruir a credibilidade do Estado. A Nação ficará, na hipótese, a reboque de algum aventureiro que emergir das urnas ou do painel do plenário parlamentar, ambos eletrônicos. Não será algo a se chamar de “o melhor dos mundos”. Muito ao contrário!

A eleição direta, única capaz de refletir a vontade popular, é volátil a ponto de ter inflado, de um lado, Jânio, Collor e Dilma, produtos da paixão popular por aventureiros que se fingem de faxineiros contra a corrupção e terminam enredados nos crimes que denunciavam. E, de outro, Fernando Henrique e Lula, representantes de grupos políticos consolidados que terminaram se dissolvendo numa cultura de ácido implacável que derrete idolatrias e reputações. O tucano foi abatido pela vaidade do segundo mandato. O petista, pela ilusão do fogo-fátuo da fortuna fácil.

O esfarelamento dos partidos, flagrado na disputa da presidência da Câmara por meio ano e meio mês, desmoraliza utopias como o parlamentarismo e suas variações “semi”. E revela o pragmatismo de chiqueiro na disputa pela proximidade da gamela em que é servida a lavagem. O baixo clero que elevou Cunha ao cargo que lhe permitiu abrir o impeachment da desafeta de última hora, Dilma, logo se desfez diante da evidente ausência de um mínimo de espírito público nele.

Waldir Maranhão, eleito vice na chapa vencedora por 80% dos pares, muitos dos quais certamente agora fingem tapar o nariz, entregou-se à farra do poder inesperado, participando de farsas tão absurdas como a tentativa de interromper o impeachment no Senado apenas pela vontade de seu líder, Flávio Dino (PC do B), governador do Maranhão. Ou seja, pelo projeto político de entregar o destino de uma das dez maiores economias do mundo à ditadura grotesca que produziu a excrescência albanesa, retrato de miséria política e econômica num continente abastado e plenamente democrático.

Para completar, o bizarro intendente interino tem mais dois diabos a servir. De um lado, Rodrigo Maia (DEM), herdeiro de César Maia, hoje sem relevância na política do próprio Estado, o Rio. E, de outro, pai Lulinha, cujo impávido colosso desmoronou sob sua imagem corroída por várias investigações policiais e jurídicas. Representante de um Estado sem peso político e econômico e incapaz de conduzir sessões da Câmara até o fim, Maranhão balança entre um prócer irrelevante e outro investigado pela Polícia Federal, pelo Ministério Público Federal e Estadual de São Paulo, sob a égide da Justiça Federal no Paraná e da Estadual em São Paulo. A bizarria do interino desfila entre o baile da saudade e a medalha olímpica dos saltos orçamentais.

A hipotenusa do triângulo é o Judiciário do “cada um por si e Deus só por alguns”, regime no qual a paridade de todos é submetida a privilégios que a promiscuidade assegura.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 13 de julho de 2016)

 

No Blog do Nêumanne: Impeachment já

No Blog do Nêumanne: Impeachment já

Alguém aí sabe por que o presidente do STF exige que Senado só julgue impeachment de Dilma em 26 de agosto?

Não há nenhuma razão para empurrar a votação do impedimento da presidente afastada, Dilma Rousseff, para as calendas gregas, seja para depois da Olimpíada, seja para as vésperas da substituição de Ricardo Lewandowski por Cármen Lúcia na presidência do Supremo Tribunal Federal (STF), quando setembro chegar. A conclusão do processo de impeachment pode ocorrer agora. Não há mais por que esperar. Sejam dados os 15 dias para o advogado José Eduardo Martins Cardozo defender o indefensável e, pronto, que se julgue logo, pois nada mais há a esperar.

Tudo o que podia ser feito para protelar a decisão final já foi feito. Em nome da plena defesa da processada, Cardozo, o garboso, pediu que fossem ouvidas 40 testemunhas de defesa. Todas foram ouvidas na Comissão do Senado. Nenhuma faltou. Nenhuma contou nada de novo. Ex-ministros, burocratas do undécimo escalão, juristas de renome, outros nem tanto – todos já disseram o que tinham a dizer. Fizeram coro ao mantra do Partido dos Trabalhadores (PT), do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dos sermões de Frei Leonardo Boff: “Impeachment sem crime é golpe”. O conselheiro Acácio, personagem de Eça de Queiroz que só constata o óbvio – o óbvio ulula, diria outro famoso cultor da boa língua pátria, Nelson Rodrigues -, estrebuchou na tumba inexistente de tanto rir, é claro.

Ora veja só que descoberta: a lei, de 1950, mais velha do que o autor destas linhas, já estabeleceu que há um tipo de crime que leva à interrupção legal do mandato de um chefe de governo legitimamente eleito pela maioria (que a Constituição de 1988 tornou obrigatório ser absoluta). É o crime de responsabilidade. Ou seja, o crime cometido na gestão do interesse de todos, da coletividade. Fernando Henrique Cardoso, antes de implantar um marca-passo em seu bondoso coração, já esclareceu publicamente que nada indica que Dilma tenha cometido um crime pessoal. Ou seja, tenha matado alguém. Ou batido a carteira de algum incauto. No entanto, por mais que seja generoso o músculo cardíaco de nosso sociólogo-mor, não vai parar de pulsar para constatar que o tal do crime contra a coletividade Sua Excelência Excelentíssima cometeu.

O professor Modesto Carvalhosa, especialista-mor em leis anticorrupção no Brasil, já me lembrou por escrito ou por telefone que esse é o crime pior. Pois também mata. Cada brasileiro que caiu num buraco de estrada que não foi mantida, porque Dilma preferiu gastar a grana para cobrir rombos nos bancos públicos, terá sido vitimado por crime de responsabilidade dela. Também são vítimas do mesmo delito os milhões que perderam seu emprego e padecem privações, quem sabe até a morte por inanição. E os pacientes que não conseguem atendimento nos péssimos hospitais públicos brasileiros – e não apenas os federais, mas todos quantos dependem do diabo do SUS. Ah, o SUS! E as crianças mantidas na ignorância porque escolas públicas para todas não há na pátria educadora de Dilma, esta República da madama Coração Valente (e boca de mentira).

Bem, esses crimes teriam de ser provados. Uma equipe de 50 peritos (não os 40 ladrões de Ali Babá nem a dúzia de apóstolos de Jesus Cristo, mas meia centena) do Tribunal de Contas da União (TCU) constatou que, no exercício do majestático e truculento poder presidencial, Dilma assinou decretos que caracterizam violação da Lei da Responsabilidade Fiscal, que Fernando Henrique assinou bem no comecinho deste século 21.

E também “pedalou”. Não, Dilma não deu o drible de Robinho no Rogério. Ela pegou bilhões de reais disponíveis nos cofres públicos e os usou na administração federal como se fossem dela. Flagrada em delito, devolveu cinco meses depois. Mas o garboso Cardozo reclamou. Queria uma equipe isenta do Senado para auditar a auditoria. O presidente da Comissão do Senado, Raimundo Lira (PMDB-PB), negou. O relator do impeachment, Antonio Anastasia (PSDB-MG), também. Mas lá estava o vigilante Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), para garantir a megadefesa de super-Dilma. Madama tinha pedido que o Senado substituísse os peritos escolhidos para periciar os peritos do TCU. Anastasia e Lira cederam, antes de o caso demorar ainda mais, se tivesse de passar pelo crivo do presidente do STF. Não foi preciso.

Os peritos “confiáveis” já deram seu veredito. Habituados a atender não a dois, mas a 81 senhores, confirmaram a autoria da “presidenta” em três dos quatro decretos. E o quarto? Não houve o quarto, festejou a bancada do chororô, entre uma crise histérica de Gleisi Hoffmann (PT/PR) e uma carteirada do coronelzinho Lindinho Farias. Eles ganharam de um a três – como ganhamos da Alemanha de um a sete, lembra-se?

Ah, mas dona Dilma não “pedalou”, pois os peritos do Senado não encontraram suas digitais nas “pedaladas”. Só que também delínque o gestor que se omite, ensinam Ives Gandra da Silva Martins, Carlos Ari Sunfeld e Régis de Oliveira, que entendem do traçado. Que fazer? O veredito dos peritos é o mesmo antes dado pela Comissão de Impeachment (38 a 27) e pelo plenário da Câmara: 367 dos 513 deputados federais. Na Comissão de Impeachment do Senado, 15 a 6. No plenário, 55 dos 81 senadores. Todas com folgada maioria no primeiro e mais de dois terços dos votos nos outros três julgamentos – quatro a zero. Por que postergar ainda mais?

Ah, sim, há prazos a cumprir. E Lewandowski, acostumado a “lewar” o tempo a pontapés, já decidiu que na Olimpíada não pode ser. Não explicou em que jurisprudência se baseou. Será que há alguma? O ministro da Justiça de Temer, Alexandre de Moraes, contudo, inverteu o raciocínio procastinatório do juiz maior do Brasil. Se não pode ser durante, por que não julgar antes? “Essa incerteza leva à impaciência, e a impaciência leva, às vezes, a manifestações mais exacerbadas que acabam derivando pra quebra-quebra, para dano ao patrimônio público. Então, o ideal seria, obviamente, que houvesse o julgamento antes, mas, pelo cronograma que o STF elaborou, isso deve ficar para depois. Também não afetará a Olimpíada”, disse Moraes. Depois não digam que ele não avisou.

Há um equívoco aí. O STF nunca elaborou nada a respeito. Quem elaborou, determinou e exige cumprimento é o presidente Ricardo Lewandowski. Este, sim, está comandando a seu talante um processo previsto na Lei de 1950 e na Constituição de 1988 como de exclusivo julgamento da Câmara, que autoriza, e do Senado, que processa e julga. Não há mais testemunhas da defesa a depor nem peritos a periciar. Há apenas a vontade do douto juiz de empurrar com a barriga de tanquinho. Resta saber que tipo de despacho dará para continuar presidindo o julgamento depois que Cármen Lúcia assumir a presidência do STF em seu lugar. Para isso, caro leitor, temos de esperar. Esperemos, pois, 26 de agosto e saberemos o que ele fará. Mas nada de ficar para novembro, certo?

Seja o que for, Lewandowski errará feio. Pois o certo – para o cidadão que fecha empresa, perde emprego e cuja renda acaba antes de o mês acabar – seria o impeachment já.

Jornalista, poeta e escritor.

(Texto do Blog do Nêumanne no Estadão, 11 de julho de 2016)

No Blog do Nêumanne no Estadão: Covarde e mentirosa

No Blog do Nêumanne no Estadão: Covarde e mentirosa

Carta que Dilma não leu no Senado mente, tergiversa e desafia São Gregório

Está preso em Curitiba o marqueteiro João Santana, na adolescência conhecido como Patinhas e nos autos da Operação Lava Jato como Feira, referência a Feira de Santana, cidade da Bahia, próxima daquela onde nasceu, Tucano. Ele responde por ter auferido propinas milionárias de empresas que forneceram equipamentos ou executaram obras para a Petrobrás. Não por ter definido como Coração Valente sua patroa, Dilma Rousseff, em cujas campanhas eleitorais – a eleição em 2010 e a reeleição em 2014 – ele produziu e executou o marketing. Essa marca foi uma obra-prima de sua imaginação fértil.

Nada há de valentia, mas somente covardia, na decisão que a personagem dele tomou de não comparecer à comissão do impeachment do Senado, pela qual está sendo julgada, com prazo de encerramento marcado para novembro, por crime de responsabilidade na administração resultante das vitórias nas urnas. A carta que mandou seu ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União José Eduardo Martins Cardozo ler, ao contrário, é patética, extremamente arrogante, covarde e mentirosa de cabo a rabo. O ato de não comparecer, não tendo nada mais importante a fazer, já é pusilânime em si, pois a única explicação para o que fez é o medo de se comprometer ainda mais diante do questionamento da advogada de acusação Janaína Paschoal e de senadoras e senadores que não simpatizam com sua causa: voltar ao poder.

Despertar piedade sem sequer pedir perdão, arvorar-se em injustiçada sem apresentar evidências e fingir-se de vítima sem definir a atrocidade assacada contra ela foram suas táticas explicitadas sem subterfúgios desde a abertura. “Já sofri a dor indizível da tortura”, começou. É uma óbvia apelação, que se tornou seu mantra desde que surgiu na vida pública pelas mãos do ex-chefe Lula. Foi torturada? E daí? Dilma repete exaustivamente que o foi mesmo. Em entrevista a Luiz Maklouf de Carvalho, à época na Folha, contou que, durante 22 dias no DOI-Codi de São Paulo, teve até  dentes quebrados pelo “capitão Maurício”, o hoje tenente-coronel Maurício Lopes Lima. Outro repórter de responsa, Luiz Cláudio Cunha, atesta que ela disse a verdade, não o oficial, que, ao ser interrogado a respeito, disse que a interrogou, mas nunca a molestou.

Apesar de conhecer sua propensão à mentira, neste caso tudo indica que ela contou, sim, um fato. Sobra, contudo, uma cobrança que Cunha fez e eu repito: o milico, um cínico de marca, contou que lamenta não lhe ter pedido um cartão de visitas por não ter previsto que ela seria presidente, tão bem que a tratou. Na Presidência da República Dilma não enquadrou o indivíduo nem os comandantes das Forças Armadas, inclusive o comandante do Exército, general Enzo Petri, que, em resposta a solicitação oficial da Comissão da Verdade, instituída por Dilma, garantiram não ter havido sevícias nas repartições militares durante a ditadura. Nem o tíbio ministro da Defesa de então, Celso Amorim. Com isso, a presidente inutilizou o trabalho da comissão.

A presidente afastada foi torturada, sim. E daí? Desde quando vítima de tortura tem direito a indulgência plena? Trata-se de uma tolice da doença infantil do esquerdismo, que o velho Lenin execrou. Por falar em doença, voltemos à carta. “Já passei pela dor aflitiva da doença”, alguém escreveu por ela e Cardozo leu aos senadores. Quem não terá passado, principalmente depois dos 60, casos dela e meu? E qual é a conclusão? Quem já adoeceu merece perdão prévio por pecados, erros ou delitos que  cometer – como índices de inflação e desemprego de dois dígitos, quebradeira e roubalheira desenfreadas sob sua égide – só porque sobreviveu? Menas, querida, menas, diria seu chefinho.

“E hoje sofro a dor inominável da injustiça. O que mais dói é perceber que estou sendo vítima de uma farsa política e jurídica”. Qual? Ela foi afastada da Presidência da República, para a qual foi eleita e reeleita, num processo de impeachment instaurado na Câmara a pedido de um ex-fundador de seu partido, o promotor Hélio Bicudo, um ex-ministro da Justiça, o adversário tucano Miguel Reale Júnior, e a professora de Direito da USP Janaína Paschoal. Todos investidos na condição legal de cidadãos brasileiros. E o crime de responsabilidade é grave, porque atinge toda a cidadania, e não apenas cidadãos isoladamente, esclarece o jurista Modesto Carvalhosa.

O Tribunal de Contas da União (TCU) indicou 50 peritos para saber se ela cometeu tal crime ao assinar decretos não autorizados pelo Legislativo e usar saldos de bancos públicos sem devolvê-los imediatamente, as tais “pedaladas fiscais”. Os peritos a incriminaram. O procurador do TCU Júlio Marcelo de Oliveira testemunhou contra ela no processo. Eduardo Cunha, seu antigo aliado e cúmplice, abriu o processo, usando prerrogativa legal de presidente da Câmara. Em plenário, 367 dos513 deputados federais autorizaram o Senado a julgá-la. Na comissão do impeachment do Senado, 16 senadores contra 5, dos 21, encaminharam a votação para o plenário, que a afastou do cargo por 54 votos dos 81 possíveis. Em todos os casos, há mais de dois terços de reprovação ou, no mínimo, dúvida sobre sua conduta. O que justificaria tanta injustiça, a ponto de ela classificar o processo de “farsa jurídica e política” e até de “golpe”, segundo sua carta, de um novo tipo, o desalmado desarmado?

Defendida da “farsa” pela simpatia solidária do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), por seus cinco aliados da “bancada do chororô”, simpatizantes e admiradores ela conseguiu a oitiva de 40 (não podia ser um total que não repetisse Ali Babá, céus?) testemunhas de defesa, que nunca viram nada e, por isso, de nada sabiam. E peritos do Senado reconheceram a prática de crime em três dos quatro decretos ilegais e nas “pedaladas fiscais”, nos quais não encontraram suas impressões digitais. “Crime de responsabilidade também é praticado por omissão”, esclareceram-me pessoalmente juristas ilustres, como Ives Gandra da Silva Martins, Carlos Ari Sunfeld e Régis de Oliveira, Se houve ou não, julgam os julgadores. Não é assunto para peritos. Parece óbvio até para analfabetos jurídicos, como o autor destas linhas.

 Na carta, Dilma também insistiu na hipótese absurda de o principal beneficiário de seu afastamento, Michel Temer, não ser legítimo por, ao contrário dela, não ter votos. Acontece que se Temer a elegeu “presidenta”, em 2010 e 2014, ela também o elegeu eventual substituto. Os 54 milhões de votos que derrotaram Aécio em 2014 foram dados aos dois e em sua obtenção o PMDB liderado pelo vice teve participação decisiva. Ela não teria sequer chegado ao segundo turno se não se tivesse aliado a ele. Por isso mesmo, a dupla Dilma-Temer responde agora mesmo a processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no qual a chapa de ambos pode ser cassada por práticas ilegais, também na eleição. Parece pouco? Olhe que as mentiras que ela contou sobre a situação do País no mesmo pleito não são consideradas criminosas. Embora tenham ajudado a elegê-los.

Por falar nisso, ela escreveu e o garboso Cardozo leu que o governo Temer “É” a crise. Ora, a grave crise data de 2014, como qualquer criança de 2 anos sabe, e o vice assumiu em maio último. O argumento, então, é construído com o mesmo critério antigregoriano dos decretos assinados em julho e legalizados cinco meses depois, em dezembro. A lógica dessa patacoada só se imporá no dia em que efeito causar causa. Mas quem se arrisca a explicar isso pra madama?

Jornalista, poeta e escritor

Para ler no Blog clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/covarde-e-mentirosa/

No Blog do Nêumanne no Estadão: E tudo termina em vinho

No Blog do Nêumanne no Estadão: E tudo termina em vinho

Pizza já era! A velha corrupção brasileira comemora com bons vinhos as colheitas de seu furto

Antes de ser ministro de Lula e de ter estraçalhado a própria biografia combatendo direitos autorais e lutando pela privacidade absoluta dos colegas artistas ricos e famosos, o baiano Gilberto Gil foi exilado pela ditadura militar e de Londres, roendo-se de saudade, compôs e gravou a obra-prima Aquele Abraço. O samba nostálgico virou uma espécie de hino informal dos exilados, fora (ou dentro) do Brasil. Após me ouvir cantarolando-o, a diretora da Rádio Estadão, Paula Miranda, mandou tocá-lo em minha despedida da hora de 7 às 8 que passo no estúdio, na companhia luxuosa de Alexandra Romano e Haisen Abaki, fazendo uma revisão da tumultuada Pátria amada salve, salve. Valeu até como epígrafe: o Rio de Janeiro continua lindo, mas, sobretudo, continua sendo…

Provas não faltam. O prefeito falastrão Eduardo Paes, disposto a fazer o País – e, sobretudo, Maricá, na Grande Rio – esquecer as besteiras que andou falando e, pior que tudo, fazendo – como a ciclovia Tim Maia, que desabou, dissolvida em espumas de ressaca, também continua causando. Depois de ter chamado de “terrível” a gestão da polícia pelo Estado a um mês da Olimpíada, ele resolveu ser camarada dos turistas e avisou que a cidade que ele governa não é nenhuma Nova York, Chicago ou Londres. Esquece-se de que Nova York foi sinistra antes da “tolerância zero”; Chicago era de lascar à época da Lei Seca; e a Londres de Dickens nunca foi um modelo de conforto e tranquilidade. A imagem atual delas foi feita com sangue, suor e lágrimas, como diria um célebre morador de Londres, o lorde almirante Winston Churchill. OK, tudo bem. Talvez fosse o caso de o Comitê Olímpico ter sido avisado quando, seduzido pelo charme de Lulinha de Lindu e Serginho de Cabral, preteriu Madrid, Tóquio, que também podiam ser citadas na frase de Paes, e Chicago, que ele lembrou. Mas não adianta chorar sobre o leite derramado, dizia vovó Quinou: há que pegar o touro à unha longe da plaza madrilenha das Ventas.

Paes não foi o primeiro a avisar aos turistas que a cidade não é mais tão maravilhosa quanto na marchinha de carnaval famosa de André Filho, mas ainda é cheia de encantos mil e também faz festas espetaculares, como o réveillon de Copacabana e o desfile de escolas de samba na Marquês de Sapucaí. Os policiais, que não recebem do governo estadual, fizeram plantão na frente do Galeão (Aeroporto Tom Jobim) para dar a temerários turistas “boas vindas ao inferno”. Um carro da Força Nacional, convocada a colaborar com as autoridades policiais locais no patrulhamento da Olimpíada, teve um retrovisor espatifado por uma bala perdida num lugar que frequentei muito: a Avenida Brasil, perto da Linha Amarela. Nota oficial providencial avisou que a recepção espantosa à ajuda prometida não ocorreu na vigência de seus serviços. Imagine se tivesse ocorrido, diria mestre Ariano Suassuna. Seria a crônica da carnificina anunciada. Nunca vi uma bala perdida, algo inusitado naquele distante 1969, ano em que morei no Rio, mas o agente assustado transmitiu para o País seu terror. Pudera!

E esta não foi a única homenagem que a cidade dedicada a São Sebastião, soldado flechado e seu padroeiro, prestou ao conselheiro Acácio, de Eça de Queiroz, nestes últimos dias. Como aquele predecessor do óbvio ululante do carioca nascido no Recife Nelson Rodrigues, Paes o constatou. E o paulista Alexandre de Moraes, ministro da Justiça de Temer, também. Sua Excelência reconheceu o que nenhum carioca fez, nem os de adoção: que há risco de terrorismo no Rio. Pode ser até que ele se tenha inspirado na conversa que teve com o chefe Temer no barbeiro, depois de esperá-lo, sem que o dono do salão soubesse o que podia fazer naquele seu coco raspado. Bom, pelo menos ele deve ter lido nos jornais que o Estado Islâmico (EI) está espalhando o terror pelo mundo porque é acossado nos territórios que tinha conquistado na Turquia e no Irã. A Olimpíada é um destino óbvio de seus terroristas-bombas. E a não ser que os bandidos locais ajudem a combater os importados, não vai ser fácil as autoridades imporem a ordem pública numa cidade onde traficantes pés-de-chinelo, como o Fat Family, são resgatados á bala, com morte de inocente, em hospital público apontado como modelo na propaganda oficial da Olimpíada mais privatizada do mundo (ao menos segundo Paes). Mas não é o caso de chamar desgraça, pois no Rio este talvez seja o único produto que se pode encontrar nos hospitais, escolas e outras repartições.

Seja Alá misericordioso para que o Estado Islâmico não queira repetir as agruras do Bin Laden imaginário do humorístico da TV, nos morros do Rio! Afinal, Dilma Rousseff, sempre disposta a negociar com os terroristas da jihad, pois agora só cuida de eliminar golpistas ao redor, e não tem mais autoridade para negociar com eles, como pretendia, numa ação sem graça, ainda mais absurda do que a piada na TV.

No meio desses tiroteios todos, o Rio ainda é capaz de apresentar sinais de que a mudança da capital para Brasília não evita que ela continue fornecendo personagens que sintetizam a velha malandragem nacional, nem sempre boa. É o caso de Fernando Cavendish, o empreiteiro grã-fino e finório que se dá bem há muito tempo, apesar de também se ter tornado notório, uma rima, mas nunca uma solução.

Com ele veio a lume o desembargador federal Antônio Ivan Athié, do Tribunal Federal da 2ª Região (TRF2), protagonista de um processo levado ao Supremo Tribunal Federal (STF) em 2004, acusado de ter participado de um esquema de fraudes no sistema judicial que resultaram em danos ao patrimônio público. Athié resolveu mandar Fernando Cavendish e Carlinhos Cachoeira pra casa com tornozeleiras, mas eles só ficaram na prisão porque não há tornozeleiras à disposição no Rio. Tendo-o feito, declarou-se “suspeito” em ações do empreiteiro. Manda soltar e, depois, declara-se “suspeito”. Não é a cara deste nosso Brasil varonil?

De uma coisa, contudo, nem ele nem o Rio podem ser acusados: sua cidade não é mais a capital federal, que Juscelino Kubitschek transferiu para o Planalto Central do País, que Caetano, parceiro de Gil, exalta na canção que começa e encerra a novela Velho Chico, de Benedito Ruy Barbosa, às 21 horas, na Globo.

Em Brasília, ao contrário do que pensa quem não é muito bem informado, nem tudo termina em pizza. A maioria das transações mais sinistras começa em regabofes que reúnem amiguinhos dos três Poderes regados à melhor produção vinícola de Bordéus e arredores. Pois nossa pátria da máfia pública, que ainda controla os cordéis republicanos na cidade construída no lugar onde São João Bosco sonhou, não recorre a tradições napolitanas para celebrar seus feitos de furto. Mas às melhores safras vinícolas do Velho Continente, da Califórnia e da Oceania.

E antes que me esqueça, aquele abraço.

Jornalista, poeta e escritor

No Estadão:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/e-tudo-termina-em-vinho/

No Blog do Nêumanne no Estadão: Valha-nos Deus!

No Blog do Nêumanne no Estadão: Valha-nos Deus!

Alvos poderosos da Lava Jato não descansarão enquanto não a desmontarem

Há mais de um ano o jurista Modesto Carvalhosa vem escrevendo, de forma competente e diligente, na página 2 (de Opinião) do Estadão contra a ação solerte e perseverante da presidente afastada Dilma Rousseff para, na prática, perdoar as grandes empresas (no caso,  empreiteiras), cujos dirigentes são acusados de corrupção na Operação Lava Jato. A ideia central da chefe de governo, reeleita em 2014 e à espera de julgamento de impeachment pelo Senado, é garantir ou devolver “milhares de empregos ameaçados ou extintos mercê da devassa da Polícia Federal e  do Ministério Público Federal, sob a égide do juiz federal Sérgio Moro em Curitiba”. O padrinho, patrono e inspirador dela, ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chegou ao desplante de mandar sindicalistas reunidos em torno de sua voz roufenha procurarem o juiz citado para convencê-lo a desistir de sua eventual “perseguição” pessoal, política ou ideológica.

O professor Carvalhosa, especialista na legislação internacional anticorrupção, que vem sendo aprimorada e tornada mais rigorosa nos últimos anos, particularmente depois da explosão das torres gêmeas de Nova York pela Al Qaeda, desconstrói essa teoria, em tudo ilógica. Ele não limita suas críticas às portarias presidenciais premiando grandes nomes da empreita privada de obras públicas no Brasil, mas também tem sido impiedoso quanto a tentativas oficiais de demonizar e desmoralizar o instituto da dita “delação premiada” por meio de suspeitos e seus aliados espalhados no governo e na oposição, praticamente todos os partidos e todos os ofícios. Os procuradores da dita “república de Curitiba”, por sua vez, continuam pregando a aprovação pelo Congresso das medidas que consideram essenciais para que providências legais mais rigorosas cumpram de forma mais efetiva o que a Operação Lava Jato tem conseguido fazer, com positiva repercussão popular. E debaixo de fogo cruzado de inimigos, cuja clara intenção é manter o máximo possível as brechas que garantam impunidade de ricos e poderosos, pela primeira vez na História da República alcançados pelos braços atrofiados de nossas leis.

A troca de guarda no Palácio do Planalto não modificou de radicalmente a animosidade que a investigação rigorosa e imparcial provoca neste país de compadres e seus jeitinhos. O presidente interino, Michel Temer, repete, automática e cautelosamente, a ladainha de louvores à operosidade dos policiais, promotores e do juiz do Paraná. Seu ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, chegou a viajar para Curitiba tentando vender essa ideia à sociedade seduzida pelos métodos e pelas consequências do trabalho de Moro e seus pupilos. Mas tudo isso bate contra o muro sólido e aparentemente impenetrável de reações coordenadas pelo interesse comum de aliados, que comandam as Casas de leis, ou de altos dirigentes dos partidos com maior representatividade no Poder Legislativo, que, em teoria, representa a cidadania. O encontro à sorrelfa de Temer com o presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, no Palácio do Jaburu, domingo é apenas um exemplo do que se pode estar tramando às ocultas, enquanto o próprio anfitrião e seus ministros tecem loas a Moro, à PF e ao MPF. Eliseu Padilha, chefe da Casa Civil do governo interino, viajou para São Paulo para cobrar da força-tarefa uma previsão sobre o encerramento de sua tarefa, que, pela própria natureza, não deve explicação nenhuma. E menos ainda uma desse teor.

Na semana passada, o ministro da Fazenda da nova situação, Henrique Meirelles, deu entrevista exclusiva à Rádio Estadão. Nela foi franco a ponto de reconhecer que sua tarefa de retirar a economia brasileira da atual crise, com profundidade abaixo de pré-sal, depende menos do acerto das providências que vier adotar a competente equipe econômica federal, sob seu comando, do que das decisões políticas a serem tomadas por um Congresso minado por legisladores ameaçados de prisão pela operação. Com sua notória habilidade em comunicar de forma simples a complexíssima equação da crise cuja extinção depende de duras e amargas medidas, Meirelles deu resposta cristalina sobre o paradigma de Dilma e Lula segundo o qual a crise não se deve ao rombo causado pelos corruptos. Este se deve, sim, à forma delituosa, extensiva, profunda e invasiva com que a organização criminosa instalada no alto comando da máquina pública federal minou o patrimônio nacional, dilapidando o capital de estatais, bancos públicos e até os minguados caraminguás dos barnabés necessitados de crédito consignado. E não os diligentes policiais, procuradores e juízes que se dedicam a investigá-los, processá-los e puni-los.

Infelizmente, contudo, as vozes de Meirelles, como a do professor Carvalhosa e as de procuradores como Deltan Dallagnol e Júlio Marcelo de Oliveira assemelham-se a clamores perdidos na poeira do deserto ou ao canto mudo das andorinhas que, isoladas, não fazem o verão. Recentemente, a Folha de S.Paulo publicou a notícia de que prosperava na cúpula do Partido dos Trabalhadores (PT) a ideia de buscar salvação para a sigla e o próprio sonho num projeto de leniência para salvar siglas envolvidas em cabeludos casos de ladroagem. No dia em que os meios de comunicação citavam a prisão pela segunda vez do quarto ex-tesoureiro do PT encalacrado em acusações da Lava Jato, o colega Raymundo Costa confirmou no Valor Econômico que, sob a liderança do notório Wadih Damous (PT-RJ) e a adesão de uma verdadeira frente multipartidária, o Congresso vai procurar a salvação de seus suspeitos de furto com a criação de mais uma jabuticaba brasileira: a leniência para salvar legendas engolfadas na lama da corrupção. Paulo Ferreira, o êmulo pátrio do contador de Al Capone, é casado com Tereza Campello, ex-ministra do Desenvolvimento Social de Dilma, fiel ao perfil da famiglia lulopetista, assim como o são Delúbio Soares, João Vaccari Neto e José de Filippi Júnior, todos acusados por delatores e por provas técnicas irrefutáveis de terem cometido dois crimes: roubar para o partido e usar a Justiça Eleitoral, que em teoria garante o poder do voto do cidadão com isonomia na disputa eleitoral, como lavanderia de dinheiro sujo. Damous, uma espécie de defensor dos interesses de Lula na Câmara, já apresentou um projeto de modificação da colaboração com a Justiça, conhecida popularmente como delação premiada. E o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), não desmentiu nenhuma das várias  notícias de que tudo fará para que as condições para a mudança do método sejam aprovadas de acordo com o gosto e a conveniência dos suspeitos atingidos. De preferência antes que o próprio Renan e o patrono de Damous, Lula da Silva, percam a liberdade de ir e vir, no caso de as comprovadas práticas de ladroagem de ambos os incriminarem de uma vez.

Por tudo isso e muito mais, talvez convenha desde já batizar alguma das próximas fases da Lava Jato de Valha-nos Deus.

José Nêumanne

Jornalista, poeta e escritor

Print

Página 25 de 56«...5101520...2324252627...3035404550...»
Criação de sites em recife Q.I Genial