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No Blog do Nêumanne: Democracia apunhalada

No Blog do Nêumanne: Democracia apunhalada

Tentativa de assassinar candidato à Presidência não pode ser tratada como ato insano de ‘lobo solitário’, pois é, de fato, atentado contra liberdade e direito de discordar e disputar eleição

O servente de pedreiro Adélio Bispo de Oliveira, mineiro, 40 anos, tem, como todo brasileiro, liberdade para, em nome dos ideais que o levaram a filiar-se ao PSOL e depois desfiliar-se, discordar de todos quantos não professem sua fé revolucionária e, no limite total, insultar quem dele discorde. Mas qualquer bebê de colo tem plena noção de que não lhe assiste autorização da sociedade para, munido de uma arma branca, ferir e tentar matar quem não comungue de seus ideais revolucionários e antidemocráticos. Ao fazê-lo, atentou contra o maior bem de que dispõe qualquer ser humano, a vida. Só que fez muito mais: cometeu um grave crime político de lesa-liberdade contra o Estado de Direito, que assegura a todos, sem exceção, permissão para pensar, empreender, expressar-se, concordar ou discordar e seguir qualquer credo religioso ou partidário.

O que aconteceu no fim da tarde de quinta-feira 6 de setembro em Juiz de Fora (MG) foi a terceira ocorrência criminal grave na política brasileira neste ano de sangue, ódio e medo. O primeiro teve lugar em 14 de março no centro do Rio de Janeiro e nele foram vitimados a vereadora do PSOL Marielle Franco e o motorista, Anderson Gomes, executados a balaços de um fuzil automático usado por atiradores até agora não identificados, que passavam num carro ao lado do ocupado pelos baleados. Em 27 de março, 13 dias depois, um atirador até agora não identificado pela autoridade policial – Polícia Rodoviária Federal (PRF), Polícia Civil do Paraná ou Polícia Federal (PF) – alvejou com um revólver um ônibus da caravana que seguia o pretendente à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT). E Jair Bolsonaro, deputado federal pelo Partido Social Liberal (PSL) disputando idêntico posto, foi esfaqueado, sobreviveu e está internado em estado gravena Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, depois de ter sido submetido a uma laraparoscopia na Santa Casa de Misericórdia na cidade onde foi ferido.

Tudo o que se conhece sobre autorias ou motivação dos três crimes, todos graves, embora cada um com sua natureza específica, é o que tem sido dito em evidentes platitudes ou em desinformação declarada, de forma leviana e sem base em nada de concreto, pelo ministro extra extra ordinário da Segurança Pública, Raul Jungmann. Nada do que foi “informado” pela autoridade máxima responsável pela “insegurança” nacional serve para uma nota de pé de página num compêndio de História do Brasil. Ele revelou detalhes vagos sobre suspeitas dos assassinos até hoje desconhecidos do massacre no Rio. Considerou “inaceitável” o tiro que acertou a lataria do ônibus de devotos de Lula e não feriu ninguém. Agora, enquanto seus subordinados da PF ainda investigavam a participação de eventuais cúmplices do agressor do candidato que concorre de verdade em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto e também em rejeição, o chamou de “lobo solitário”. Como rezava o samba-canção, “e daí, e daí?”.

Da execução do Rio, do tiro disparado na estrada entre Quedas do Iguaçu e Laranjeiras do Sul, no Paraná, e da punhalada na democracia no interior de Minas, por enquanto, o público interessado só conhece o que a incompetência proverbial dasPolícias Civis e Federal em matéria de investigação de crimes contra a vida autoriza: a autoria desconhecida nos dois primeiros casos e questões não respondidas no outro. A execução de Marielle e Anderson abriu a temporada das conjecturas oportunistas da guerra política em ano de campanha. A esquerda mendaz preferiu elegê-la mártir da revolução, em vez de mobilizar sua artilharia contra a incompetência das polícias do Rio e da intervenção militar na Segurança do Estado, todos incapazes de resolver um crime cujos autores deixaram óbvios vestígios. A direita infame preferiu satanizar a vítima, como se ela tivesse disparado os projéteis, e não sido o alvo deles. E recorreu a crimes similares contra cidadãos anônimos, como se uns justificassem o outro, critério estúpido, desumano e inócuo. Enquanto Jungmann anunciava à Nação que milicianos suspeitos estavam sendo investigados e seu chefe, o presidente Temer, comemorava o êxito da operação incapaz de resolver um crime de repercussão internacional, os brasileiros com um mínimo de inteligência e pundonor choravam a própria sorte, entregue a essa gente incapaz e mentirosa. A viúva de Marielle, Mônica Benício, contou, pasme, que só neste fim de semana a polícia lhe pediu a senha do telefone da vítima para investigar suas chamadas. Cinco meses depois do crime…

Assim como na chacina do Estácio, berço das estripulias dos sambistas de antanho fugindo de chefes da polícia, o tiro no ônibus da caravana de Lula continua sem explicação das autoridades policial e judicial que esclareça mais do que os exames periciais divagando sobre o ângulo geométrico do cano da arma que disparou ou a solução do enigma da velocidade com que o ônibus se movia (ou não) quando foi alvejado. Jungmann decretou-o “inaceitável”. Mas até agora a evidência que salta do episódio, que pelo menos não deixou vítimas, é que a chefia dos policiais encarregados da investigação, passando pelo autor do truísmo, “aceita”, sem exigir explicação nenhuma, a inépcia de seus subordinados. Enquanto isso, os ditos “pescadores em águas turvas” põem a imaginação para funcionar apontando para os inimigos que teriam atirado, no mínimo, para assustar os peregrinos do lulismo. Ou para devotos do padim, que teriam atirado para adicionar cheiro de pólvora à teoria da perseguição imaginária com que vendem a militantes crédulos do Brasil e do mundo a fancaria hagiológica de que, além de carismático, seu líder é mártir dos exploradores de sempre, só por ser bom para pobres e desvalidos.

A vítima da tentativa de assassinato em Juiz de Fora correu risco de morte, está viva, grave, em estado grave, mas bem na UTI em São Paulo. Em princípio, ele foi beneficiado pela multiplicação automática de horas em copiosa cobertura no noticiário da campanha. Sua cota no horário no rádio e na televisão é de 9 segundos e ele passou a ocupar o noticiário (e não os comerciais) em minutos que superam muito os dos campeões do PSDB e do PT. Mesmo quando tiver saído do hospital e continuado a campanha, a audiência da grade da programação e a leitura das páginas nobres dos meios da comunicação produzirão em seu favor mais efeitos do que a soma do tempo no horário da propaganda de todos os seus adversários. Se prevalecer a experiência de que a comiseração é um elemento forte de simpatia e até apoio na política, é provável que o atentado possa beneficiá-lo na disputa. A retirada da propaganda agressiva do campeão do tempo e das iniciativas estúpidas, Geraldo Alckmin, do PSDB, já poderá favorecê-lo duplamente: por ter sido insultado na propaganda do adversário, ao mesmo tempo que era ferido de morte por um inimigo ideológico, teve reduzida sua altíssima rejeição.

A PF teria muito a explicar ao chefe Jungmann, se este estivesse interessado em explicações. A facada é uma imperdoável falha de segurança. A oportunidade para se redimir dela será dada por uma investigação completa, isenta e transparente do crime. Há dúvidas que estão aí para ser dirimidas. Quem pagou as aulas de Adélio numa academia de tiro onde praticavam os filhos da vítima, na distante Santa Catarina? Que generoso cliente paga a um quarteto de advogados grã-finos para defender a tese oportuna de que ele é doido, agiu sozinho e obedeceu a uma ordem divina? Por que o advogado mentiu de forma tão abjeta quando lhe atribuiu o desejo de ferir, mas não matar, com uma facada no abdômen?

Não dá para imaginar que Bolsonaro tenha ficado feliz com a exposição na mídia depois de ter corrido o risco que correu. Mas o que menos interessa agora são eventuais vantagens do candidato ferido. O Estado de Direito no Brasil depende de informações precisas, isentas e lógicas da autoridade policial que investiga o caso. O resto é lana caprina. Ao contrário do que faz crer a nota venenosa do PT contra a entrevista do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, ao Estado, este tem razão e fala a verdade. Os riscos para a sobrevivência e a higidez de nossa democracia aumentarão se nada for esclarecido tintim por tintim. E isso vale para os três atentados deste ano: a execução de Marielle e Anderson, o tiro no ônibus da caravana de Lula e a facada em Bolsonaro.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 10 de setembro de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/democracia-apunhalada/

Nesta quarta-feira no Estadão: Incêndio no Museu Nacional foi um crime

Nesta quarta-feira no Estadão: Incêndio no Museu Nacional foi um crime

Políticos prometem reconstruir o prédio para que gerações futuras não os incriminem

Os 20 milhões de itens expostos ao público, objetos de pesquisa e testemunhas à mão da memória e da História do Brasil ainda ardiam no incêndio que devastou o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, por não haver água nos hidrantes do prédio, e vários oportunistas já vinham à tona para se aproveitarem da tragédia.

O esqueleto de Luzia, a mulher mais antiga do continente, resistente a 12 mil anos de intempéries, era apenas uma imagem virtual quando os repórteres dos telejornais, enfrentando a desinformação absoluta com a necessidade de falar alguma coisa, noticiaram que a polícia terá de descobrir e revelar se o incêndio foi acidental ou criminoso. Truísmo é pouco para definir essa platitude. Minhas senhoras, meus senhores, o que se assistiu na noite de domingo passado foi ao assassinato sem piedade de milhares de anos da História do País e da humanidade pelas castas que dilapidam há séculos o patrimônio público. A documentação do registro da passagem do mamífero bípede, impropriamente definido como racional, e da identidade nacional de uma pretensa civilização, instalada nestes tristes trópicos em substituição à barbárie dos silvícolas, anterior a ela, virou cinzas molhadas pelos jatos impotentes de uma (!) escada de bombeiros jorrando água suficiente para apagar uma fogueira junina, se muito.

A primeira instituição científica nacional, fundada há 200 anos por dom João VI, o rei fujão de Portugal, sucumbiu a descaso, insensibilidade, estupidez, incompetência, desídia e rapina de sórdidas castas elitistas de políticos ambiciosos, gestores públicos irresponsáveis e intelectuais militantes.

Os acadêmicos José Sarney e Fernando Henrique, o breve Itamar Franco, os populistas Lula da Silva e Dilma Rousseff e os oportunistas Fernando Collor e Michel Temer não deram a museu algum um segundo de atenção, só usada para ludibriar eleitores e comprar congressistas para se reeleger ou escapar de impeachment, fugir de inquéritos ou prorrogar prerrogativa de foro.

Ora, direis, museu não dá voto. Aliás, é difícil encontrar algo de interesse público que dê votos a quem os disputa na arena cada vez menos ética da política brasileira. Votos se vendem e se compram com vil metal, empregos privilegiados na estroina e corrompida máquina pública nacional e também ideologias generosas somente na aparência. A gestão do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, por exemplo, cabe à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), cuja administração é compartilhada por partidos da extrema esquerda sem representatividade popular, PSOL e PCdoB, em aliança com representantes da elite partidária que dá as cartas na República, embora se denomine como “dos Trabalhadores”.

A cúpula dos três Poderes, a intelligentsia acadêmica e, pasme, os responsáveis diretos pela indigência da instituição que ardeu choram e se lamuriam pelo destino dela, como gângsteres que levam flores ao velório das vítimas de sua brutalidade. O presidente Temer divulgou nota oficial quando ainda faltava água para apagar o fogo: “Incalculável para o Brasil a perda do acervo do Museu Nacional. Hoje é um dia trágico para a museologia de nosso país. Foram perdidos duzentos anos de trabalho, pesquisa e conhecimento. O valor para nossa história não se pode mensurar, pelos danos ao prédio que abrigou a família real durante o Império. É um dia triste para todos brasileiros”.

O ministro da Cultura, Sérgio de Sá Leitão, disse que “certamente a tragédia poderia ter sido evitada”, numa tentativa absurda de transferir apenas para os governos anteriores as causas do desastre, que, segundo Walter Neves, antropólogo que pesquisava o esqueleto de Luzia, foi “anunciado”. A culpa não é apenas do governo atual, é claro, mas é principalmente deste. Leitão age como um sujeito que cai do décimo andar, sai caminhando e pergunta aos transeuntes o que aconteceu. E ninguém foi demitido!

É inútil querer que os incendiários da Quinta da Boa Vista respondam pela omissão do Estado, que se negou a gastar caraminguás para dotar o mais antigo museu nacional de chuveirinhos automáticos e extintores de incêndio que a lei exige de qualquer boteco da periferia. Mas, já que não se dispuseram a abrir mão dos bilhões do Fundo Partidário para salvar o museu extinto, que nos poupem de sua hipocrisia. E sendo inútil exigir que façam algo para a tragédia não se repetir no Arquivo Nacional e na Biblioteca Nacional, podiam fazer o que sempre fizeram: esquecer o tema. E nada de reconstruir o prédio para as gerações futuras se esquecerem de sua participação no crime.

Os candidatos ao posto mais elevado, cujos currículos frustram os cidadãos carentes de um presidente que evite que a economia arda, sabotada pela corrupção do PT, de seus aliados, entre os quais o MDB, e dos falsos oponentes do PSDB, reduziriam o teor de cinismo de suas campanhas se não chorassem sobre a aguinha que não evitou que o incêndio se alastrasse.

A Universidade de São Paulo (USP) e o ex-governador do Estado Geraldo Alckmin devem explicações sobre o cupim que ameaça a integridade das paredes do Museu do Ipiranga, fechado à visitação desde 2015 e com obras a serem iniciadas no ano que vem. Ou quando, enfim, não chegarem as calendas gregas. Fernando Haddad, o estepe de Lula, não terá como explicar seu silêncio no governo do patrono, quando foi ministro de Educação, sobre a ominosa situação em que a memória nacional embolora, apodrece e arde, enquanto os chefões partidários enriquecem ilicitamente. Nenhum dos dois projetos assinados por Jair Bolsonaro e aprovados em seus 27 anos na Câmara diz respeito a esse assunto. A militância ecológica de Marina Silva não inclui uma denúncia da penúria dos museus, tema também excluído da enxúndia demagógica de Ciro Gomes.

Só restará como testemunho da inépcia deles Bendegó, meteorito que caiu perto de Canudos e resistiu ao fogo feroz.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na página A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 5 de agosto de 2018)

Para ler no Portal do Estadão clique no link abaixo:

https://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,incendio-do-museu-nacional-foi-um-crime,70002488267

No Blog do Nêumanne: O Estado a serviço do crime

No Blog do Nêumanne: O Estado a serviço do crime

O cidadão brasileiro quis renovar os quadros políticos, mas os partidos impuseram a própria vontade para garantir sua permanência no poder e a descriminalização da corrupção

E Lulinha “guerra e ódio” perdeu mais uma votação num tribunal superior por goleada. Desta vez foi 6 a 1 no julgamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de 16 pedidos de impugnação do registro de sua candidatura pelo Partido dos Trabalhadores (PT) à Presidência.

Bem que poderia ter sido por 7 a 0. Seria a lógica dos fatos, sem fantasias ideológicas, e também de decisões anteriores de todo o Judiciário. Condenado em primeira instância a nove anos e meio pelo juiz Sergio Moro, o ex-presidente levou surras de 3 a 0 na turma do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4) e de 5 a 0 no âmbito do Superior Tribunal de Justiça (STJ). E ainda sem complacência nas decisões monocráticas dos relatores dos recursos, Gebran Neto, em Porto Alegre, e Félix Fischer, em Brasília. Caindo no plantão de Laurita Vaz, à época presidente do STJ, foi mantida, da mesma forma, a decisão do TRF-4 de deixá-lo preso “na sala de estado-maior” na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.

O preso mais famoso do Brasil perdeu de novo, por maioria simples, quando o habeas corpus pedido pela defesa subiu para julgamento no STF: 6 a 5. O ministro Luiz Edson Fachin, relator da Operação Lava Jato, puxou os votos para ele ficar privado de liberdade. Com ele votaram, em abril, Alexandre de Moraes, Luís Barroso, Luiz Fux, Rosa Weber e a presidente Cármen Lúcia. Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio Mello, Gilmar Mendes e o decano Celso de Mello deramos votos perdedores. E, em votações na Segunda Turma do STF, Fachin perde suas tentativas de punir, às vezes com voto de Celso de Mello e sempre contra a maioria formada pelo trio Parada Mole: Lewandoswki, Toffoli e Gilmar.

A sessão histórica do TSE em que o registro da candidatura do PT foi negado começou com a leitura do relatório didático e na mosca do relator Luís Roberto Barroso. Parecia nem haver muito a discutir. Pois a Constituição de 1988 consagrou a figura da lei de iniciativa popular. Lula e o PT foram convencidos por Ulysses Guimarães a assinar e apoiar esse tipo de legislação fora dos cânones. A Lei da Ficha Limpa é a mais popular das iniciativas partidas do povo sem intermediação e atendeu a um apelo da população, acompanhada pelos petistas, a favor da moralização da atividade política e da gestão pública. Na Presidência, Lula em pessoa promulgou a lei. Mas a sempre irônica deusa Clio, que, segundo os gregos, manda na História, logo fez-se presente: o militante que assinou a lei proibindo candidaturas de políticos com a fichasuja caiu nas malhas do Código Penal, personificando um dos pré-requisitos que a norma acrescentou à letra constitucional: condenados em segunda instância não podem disputar eleição nenhuma. Assim mesmo, sem mais.

Não há nem pode haver exceções à regra. Mas os devotos de padim Lula tentaram criar uma inovação: o signatário da Lei da Ficha Limpa teria de ser a exceção à regra e, mesmo condenado e cumprindo pena, ter sua pretensão presidencial autorizada pela Justiça Eleitoral por exigência da mesma instituição do Estado de Direito que havia tomado a iniciativa da legislação contra a corrupção: o povo. A Lei da Ficha Limpa fora avalizada por mais de 1,5 milhão de assinaturas de cidadãos aptos a votar. A exceção exigida pelos lulistas teria como base apenas pesquisas de intenção de votos, que não sãomeio válido de aferição para eleger ninguém.

À falta de um dispositivo constitucional que garanta impunidade plena ao chefe de Estado que promulgou a punição, a defesa do preso e seu partido inventaram um slogan de muito apelo e lógica nenhuma: “Eleição sem Lula é fraude”. E recorreram a uma recomendação assinada por dois dos 18 peritos do Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) exigindo que, em nome do povo – que nem consultado o fora em plebiscito, referendo ou disputa eleitoral –, o “Brasil” (seja lá o que diabo for isso) permita a um condenado em segunda instância disputar pleito, seja qual for ele, inclusive o presidencial.

Antes da condenação e prisão de Lula, seus asseclas providenciaram uma campanha em duas fases para uma eleição em dois turnos. Ela começaria com propaganda maciça da chapa Lula e Haddad para depois poderem acrescentar um acento agudo, passando para Lula é Haddad, ou “Andrade”, como se propaga num de seus mais fiéis redutos, o interior de Pernambuco, dominado pelos “socialistas” saudosos de Arraes e Campos.

A farsa foi submetida ao TSE e o julgamento da sexta 31 de agosto para o sábado 1.º de setembro finalmente adotou a decisão definitiva para por a falsa candidatura de quem não pode ser eleito no lixo da História. Assim se deu o julgamento, mas com uma exceção à regra geral. Fachin, o implacável relator da Lava Jato, votou a favor do óbvio relatório de seu colega Barroso, considerando Lula “inelegível”. Só que rasgou os dicionários, inelegível significa quem não pode ser eleito, ao autorizar o ex a participar da disputa eleitoral até passar pelo fabuloso “transitado em julgado”, como sugeriam dois “peritos” da ONU. Com isso despedaçou a Constituição, que não consagra comitês das Nações Unidas como revisores da Justiça brasileira, e a própria biografia de justo e honrado. Sua decisão, diga-se em seu favor, não altera a derrota acachapante sofrida pelo não candidato, mas levanta uma dúvida: como votará agora o relator da Lava Jato, que foi sempre implacável legalista tido como coerente?

O voto de Fachin só se apoia em sua biografia de esquerdista que apoiou publicamente Dilma na eleição presidencial. E reforça a mentalidade colonizada da esquerda brasileira, que Nélson Rodrigues batizou de “complexo de vira-lata”, ao dar valor a uma instituição internacional que não dispõe, como argumentaram os seis outros votantes, de poder vinculante sobre decisões do Judiciário brasileiro. Ponto final. E somente o futuro poderá desvendar o mistério do voto fora da curva dele.

Por enquanto, basta a clareza didática de Barroso, Jorge Mussi, Og Fernandes, Admar Gonzaga, Tarcísio Vieira e Rosa Weber, apesar da enxúndia do voto final dela. E nos resta testemunhar o PT desmoralizando a Justiça ao se negar a cumprir a decisão final da maioria de ter de substituir Lula por Haddad/“Andrade” e ainda justificando que o faz para “testar” até que ponto iria sua resolução sobre a qual não restam dúvidas.

Esta, aliás, é uma boa hora para contar que de gratuito o tal de horário eleitoral não tem nada. A propaganda partidária é financiada pelo erário. E o horário dito “gratuito” em emissoras de rádio e TV é bancado por isenção de impostos. A isenção fiscal equivale a cerca de 80% do que seria obtido com a venda publicitária. Segundo cálculo da ONG Contas Abertas, tal custo representa R$ 6,9 por eleitor. Além disso, as campanhas em geral são bancadas com dinheiro público. Os partidos têm à sua disposição R$ 1,7 bilhão do Fundo Eleitoral e R$ 888 milhões do Fundo Partidário para as eleições de 2018, despesas definidas pelo Congresso.

A distribuição dos recursos do Fundo Eleitoral ficou assim: 48% conforme o número de deputados de cada partido na Câmara, 35% entre os partidos com ao menos um representante na proporção dos votos obtidos pelos deputados na última eleição e 15% de acordo com o total de senadores de cada sigla. O MDB foi o maior beneficiado, com direito a R$ 234,2 milhões, seguido pelo PT, com R$ 212,2 milhões e pelo PSDB, com R$ 185,8 milhões. Já o critério de distribuição do Fundo Partidário é o seguinte: 95% são distribuídos na proporção de votos obtidos por cada legenda na última eleição para a Câmara de Deputados e 5% divididos igualmente entre todas as siglas. O PT é o partido que tem direito à maior fatia do Fundo Partidário, seguido pelo PSDB. Esses números constam de reportagem do Igor Machado no Estado de 22 de junho de 2018.

As eleições são bancadas com dinheiro público e a forma da distribuição dos recursos privilegia os políticos que já estão no poder. O eleitor que quer renovar paga a conta dos políticos que exigem ficar.

É beneficiado quem comprou seus lugares com dinheiro de propina e aprovou uma lei para o Estado gastar para mantê-los no poder. Ganharam a corrida recorrendo a dopping financeiro. O lema da turma é não renovar e descriminalizar. E receberá os recursos dos fundos tendo ainda vantagem indevida sobre quem não aderiu ao esquema – o Estado a serviço do crime.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 3 de setembro de 2018)

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No Blog: Nêumanne entrevista Paulo Melo

No Blog: Nêumanne entrevista Paulo Melo

Chega de Lula!

Para cineasta e ex-analista do CNPq, petista “já deu o que tinha de dar”, está muito rico e agora deve submeter ao julgamento da História seu legado de recessão, desemprego e inflação

O cineasta e ex-analista do Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) Paulo Melo disse que “o grande esforço nacional seria no sentido de esquecer Lula, por um simples e prosaico motivo: ele já deu o que tinha a dar”. Segundo o assistente de direção do filme Menino de Engenho, de Walter Lima Jr., “bem ou mal, que a História, no seu tempo devido, o julgue, que diga realmente em que importaram para o Brasil seu poder e sua glória. Quanto à fortuna, se é o caso da financeira, essa ele já tem usufruído de há muito”. Na série Nêumanne Entrevista, publicada semanalmente neste blog, Melo afirmou ainda que, “de toda essa confusão armada pelo PT, nada indica de que Lula possa vir a fazer algo de significativo para o País, se que é verdadeiramente chegou a fazer, haja vista o legado de recessão, desemprego e inflação que ele deixou. Em causa própria, inteligente e esperto como poucos, fez até demais. Deixou até de ser uma pessoa para se tornar uma ideia”.  E mais: “Nessa podridão em que está envolvida a classe política, e num país sem partidos políticos verdadeiros, o fato de ele ter cometido crimes e por eles estar cumprindo pena pouco importa, até o ajuda, pois para muitos, em especial no nosso irremediável Nordeste, ele é mesmo um preso político, quem sabe um mártir e talvez até mesmo um santo”,ponderou Melo.

Paulo Melo: "Estamos engalfinhados em discussões radicalizadas de uma nota só e desafinada, que só levam a um febril culto à personalidade" Foto: Acervo pessoal

Paulo Melo: “Estamos engalfinhados em discussões radicalizadas de uma nota só e desafinada, que só levam a um febril culto à personalidade” Foto: Acervo pessoal

Paulo Melo nasceu em João Pessoa (Paraíba), em maio de 1943. Graduado em Filosofia pela UFPB, com especialização em administração cultural pela UnB/OEA. Diretor da Divisão de Documentação e Cultura (1968-9), do Teatro Santa Roza (1970-5) e do Departamento de Assuntos Culturais/Diretoria Geral de Cultura (1975/79), órgãos da Secretaria de Cultura do Estado da Paraíba, diretor das quatro primeiras edições do Festival de Areia (1976-1979) e diretor da Editora da Universidade Federal da Paraíba (1979-1980). No CNPq, em Brasília, assumiu as funções de coordenador editorial (1980-6) e secretário dos Órgãos Colegiados (1991-2013), incluindodiretoria executiva (redação da ata de 364 reuniões) e conselho deliberativo (organização e secretaria executiva de 128 reuniões). Foiassessor especial da Secretaria de Cultura da Presidência da República (1990-1), gestão de Ipojuca Pontes. Participou de 11 filmes: foi assistente de direção em Menino de Engenho (1965), de Walter Lima Jr.; Onde a Terra Começa (1967), de Ruy Santos; Fogo Morto(1976), de Marcos Farias, e Soledade (1975) e Batalha de Guararapes (1977), ambos de Paulo Thiago; produtor executivo de O Homem de Areia (1980), de Vladimir Carvalho; co-roteirista e autor da pesquisa em Poética Popular (1970), de Ipojuca Pontes, e Incelência para um Trem de Ferro (1973), de Vladimir Carvalho; e diretor dos curtas-metragens Contraponto sem Música (1968), com Virgínius da Gama e Melo, Paraíba, prá seu Governo (1969), e A Última Chance (1973). Escreveu na imprensa de João Pessoa no período de 1959-1980.

Nêumanne entrevista Paulo Melo

Nêumanne – As narrativas de grandes feitos de líderes revolucionários de origem popular, das quais o senhor tem conhecimento, foram capazes de profetizar ou registrar uma história de vida como a do brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que saiu da extrema miséria echegou apoder, glória e fortuna, em proporção igual ou similar à por ele atingida?

Paulo Melo – Você já imaginou o quanto se tem perdido de tempo, energia e dinheiro com essa lengalenga do PT com a inviável candidatura de seu único líder? É como se o Brasil, com seus gravíssimos problemas, não existisse, fosse uma espécie de Escandinávia. É por isso que, dias atrás, lhe disse que o grande esforço nacional seria no sentido de esquecer Lula, por um simples e prosaico motivo: ele já deu o que tinha a dar. Bem ou mal, que a História, no seu tempo devido, o julgue, que diga realmente em que importaram para o Brasil esse poder e essa glória a que você se refere. Quanto à fortuna, se é o caso da financeira, essa ele já tem usufruído de há muito. De toda essa confusão armada pelo PT, nada indica de que ele possa vir a fazer algo de significativo para o País, se que é verdadeiramente chegou a fazer, haja vista o legado de recessão, desemprego e inflação que ele deixou. Em causa própria, inteligente e esperto como poucos, fez até demais. Deixou até de ser uma pessoa para se tornar uma ideia. Para júbilo da militância. Imagine aonde chegamos! Tá difícil. Por exemplo, de suas dez perguntas, a metade diz respeito diretamente a ele. É preciso ter, então, paciência.

Paulo Melo, líder estudantil, discursa para colegas do tradicional Lyceu, de João Pessoa. Foto: Acervo pessoal

Paulo Melo, líder estudantil, discursa para colegas do tradicional Lyceu, de João Pessoa. Foto: Acervo pessoal

N – Há na História universal o caso de algum líder político, social ou empresarial que caiba de forma tão total e acabada no perfil daquilo que os burgueses chamam de self-made man capaz de se igualar ao do mesmo Lula, que foi de entregador de lavanderia a presidente da República e depois se revelou vitorioso produtor de presidentes, governadores e outros políticos poderosos?

P – É possível que essa trajetória de sucesso pessoal seja a principal responsável pela relevância que ele ainda ocupa no cenário político. Uma série de fatores convergiu para que isso acontecesse. Numa época, estou falando nos anos 1970-1980, quando ainda se considerava o proletariado o salvador coletivo, a emergência de Lula como líder sindical, em aparente oposição aos pelegos patrocinados pelo getulismo, parecia uma mão na roda. Os intelectuais orgânicos, na falta de melhor opção, trataram, então, de moldá-lo no melhor figurino de um genuíno líder esquerdista, e o fizeram a contento. Com a fundação do PT, em 1980, e transformado num político profissional, não faltou muito para que a peça esculpida assumisse vida própria e fosse pouco a pouco, bom de palco e ardiloso nas articulações como lhe é proverbial, galgando posições e se tornasse o que veio a ser. E assumiu de forma que nada é feito no PT sem o seu consentimento. Sem nenhum espírito democrático, tornou-se o partido um suserano, um absolutista, a exemplo de um Luiz XIV ou um pequeno Stalin. Para tanto, o que não é pouco, o talento e o instinto contribuíram, mas não foi o suficiente, de forma que, como tal, não foi exatamente um self-made man.

Paulo Melo em intervalo das filmagens de Menino de Engenho, de Walter Lima Jr., com Sávio Rolilm no papel-título. Foto: Acervo pessoal

Paulo Melo em intervalo das filmagens de Menino de Engenho, de Walter Lima Jr., com Sávio Rolilm no papel-título. Foto: Acervo pessoal

N – Em sua vida, o senhor já leu algum folheto de cordel, romance de realismo mágico, tratado de psicopatologia, poema épico, peça de teatro do absurdo, filme documentário ou de ficção ou letra canção popular ou erudita que narre a saga de um herói que ascendeu ao poder nos braços do povo, foi condenado sob acusação de ter promovido uma rapina em todos os cofres públicos de uma nação miserável, apenado e preso, mas, ainda assim, ser tido como o maior chefe político da História e liderar da cadeia as pesquisas de intenção de voto da próxima eleição direta?

P – Meu caro Nêumanne, pouca gente neste país conhece a carreira de Lula tão bem como você. Mas só para recordar, quando ele surgiu, no regime militar, já tinha o instinto e a intuição como qualidades e o poder como projeto de vida. Teve a inteligência necessária, e nem sempre o escrúpulo devido, para ir lidando com as pessoas de uma forma muito eficaz e para muitos até com certo encanto. Já no comando do PT,  a candidatura ao governo de São Paulo foi apenas um exercício para o salto maior, qual seja, a Presidência da República. Na quarta tentativa conseguiu, depois de ter perdido para o Collor e duas vezes para o Fernando Henrique, que, coitado, com essas vitórias sobre o operário salvador angariou da intelectualidade, em especial, a uspiana, uma irreversível antipatia. Bem, quando o hoje milionário Lula chegou ao Planalto, explorando ao máximo as suas origens de sofrido retirante, ele já possuía uma sólida máquina de propaganda e, no exercício do poder, essa máquina não só se azeitou como se tornou imbatível e poderosa financeiramente. Isso sem contar que nos oito anos de Brasília se esmerou em procurar ser a mãe dos pobres, o pai dos ricos e o benfeitor da politicagem baixa e rasteira. Tudo isso contribuiu para que fosse criada, ao menos para aqueles tradicionais 30%, uma imagem redentora difícil de se desconstruir. E nessa podridão em que está envolvida a classe política, e num país sem partidos políticos verdadeiros, o fato de ele ter cometido crimes e por eles estar cumprindo pena pouco importa, até o ajuda, pois para muitos, em especial no nosso irremediável Nordeste, ele é mesmo um preso político, quem sabe um mártir e talvez até mesmo um santo.

Paulo Melo em intervalo das filmagens de Menino de Engenho, de Walter Lima Jr., com Sávio Rolilm no papel-título. Foto: Acervo pessoal

Natanael Alves, Gonzaga Rodrigues, Paulo Melo e Vladimir Carvalho entrevistam José Américo de Almeida para filme O homem de Areia. Foto: Acervo pessoal

N – A que tipo de messianismo, sebastianismo, fanatismo ou qualquer outro fenômeno religioso e social o senhor associa a fé cega e faca amolada com que as multidões de devotos rezam pela cartilha da fantasia insana, de tão absurda, para considerar com seriedade e sem serenidade a hipótese estapafúrdia de que Luiz Inácio Lula da Silva não é um mero criminoso condenado pela Justiça em segunda instância, mas, sim, um preso político injustiçado e perseguido pela gana de seus inimigos do status quo, que não querem permitir sua volta?

P – Quanto mais enraizada for a crença, mais difícil é sair dela e não importam as evidências, os fatos, o dado concreto e a realidade objetiva. Quando você se impregna de uma fé, cristalizada ao longo do tempo, superá-la é como se estivesse jogando fora um pedaço de sua vida, é como se reconhecesse que teria sido enganado, iludido. Se você abriu mão de muita coisa, às vezes até de sua dignidade, em favor de uma causa, por mais questionável que ela se tenha tornado, não é uma tarefa fácil abandoná-la. Supostos princípios e valores que nortearam suas convicções passaram a constituir um dom moral de que sua subjetividade não toleraria abdicar. É preciso, então, muito coragem pessoal e, sobretudo, muita honestidade intelectual. Nem todos são capazes dessa autocrítica, dessa insurgência, dessa insubmissão. Ao contrário do que Lula acabou dizer sobre o juiz Sergio Moro ser intocável, ele, sim, é que se considera como tal e mais ainda seus seguidores sobre ele. Reconhecer que Lula foi capaz das mais baixas falcatruas, para não dizer vilanias, indo de encontro a uma imagem erigida com um fervor mais que religioso, não só é uma ofensa, uma heresia, mas afeta diretamente a consciência de quem o elegeu seu guia e seu condutor. E para muitos, até mesmo de forma consciente, ainda que sem fundamento ético ou histórico, ele está acima de qualquer jurisprudência, seja ela moral, política ou jurídica. E não é à toa que ele mesmo se considera o homem mais honesto deste país. E a militância entra em êxtase, não admitindo ter sido ele condenado e estar cumprindo pena, não importando que em todo o processo tenham sido respeitadas as leis em vigor.

Natanael Alves, Gonzaga Rodrigues, Paulo Melo e Vladimir Carvalho entrevistam José Américo de Almeida para filme O homem de Areia. Foto: Acervo pessoal

Paulo Melo com Glauber Rocha e o francês Jean Rouch, teórico do cinema direto, no hall do Hotel Nacional em Brasília. Foto: Acervo pessoal

 N – Que explicação o senhor dá, a partir de sua experiência como educador, para a vassalagem absoluta com que grandes líderes da esquerda se têm submetido ao poder mágico de Lula da Silva, desde seu surgimento, seguindo seus passos e beijando as fímbrias de suas vestes, tais como Miguel Arraes no passado e tantos outros em nossos tempos frios e secos?

P – É possível que parte dela esteja na resposta anterior. Muito embora as revoluções do século passado tenham sido deflagradas em nome e em favor dos, digamos, oprimidos, nenhum destes as liderou, à exceção talvez de Lech Walesa, em quem, aliás, Lula não só se espelhou, como esperava suplantá-lo como personalidade internacional. Desde a redemocratização não temos lideres nacionais. Para muitos, o regime militar dificultou o aparecimento deles, o que pode ser verdade, mas Lula se lançou naquele período e, para alguns, sob o patrocínio do Golbery do Couto e Silva. Como nenhum outro político alcançou a sua dimensão do ponto de vista popular, o comodismo, o paternalismo e a inércia propiciaram toda essa submissão. Quando o ex-operário do ABC conquistou o poder, o que poderia ter acontecido antes não fosse a impertinência de FHC, toda uma estrutura já estava montada para que essa nova onda nele permanecesse por décadas. Naquela ocasião, a Carta ao Povo Brasileiro foi o selo de garantia para que teórico opositor, ou seja, o capital, não fosse importunado, muito ao contrário, como se viu depois. Mas por falar em Arraes, afirmam que Pernambuco é o Estado mais lulista do País. Em compensação, não tem um escasso deputado federal numa bancada de 25 representantes. Aliás, dos 151 deputados federais do Nordeste, o PT tem 15, sendo 7 da Bahia.

N – No verão de nossas ilusões, os cidadãos – encantados com o trabalho eficiente de uma geração de policiais, procuradores e juízes federais, que rompeu o ancestral paradigma de que no Brasil o inferno prisional deve ser destinado apenas a pretos, pobres e prostitutas – ensaiaram uma reação, imaginando ser possível adotar o lema otimista “não reeleja ninguém”.Onde e por que, a seu ver, se perdeu o ânimo da massa e de alguns brasileiros bemintencionados que prometiam sair de seus casulos para entrar no perigoso e sujo universo político, mas terminaram se protegendo de volta a suas vidas confortáveis, sem mais ambição de poder?

P — É difícil você manter e aprofundar um movimento de contestação, para não dizer de insurgência, sem uma efetiva liderança que não só imprima consistência às reivindicações e galvanize os anseios da sociedade naquele determinado contexto, como imponha respeito e credibilidade. Muito se fala dos acontecimentos de meados de 2013 aqui, no Brasil, mas tenho minhas dúvidas quanto à sua eficácia política, como, aliás, ainda hoje tenho com relação a maio de 1968, até porque De Gaulle, o grande contestado na ocasião, terminou obtendo logo em seguida uma vitória esmagadora nas eleições parlamentares. O ânimo trazido pela Lava Jato tem tido algum resultado e atingido seus objetivos primordiais, mas sabemos que não o suficiente  para alterar substancialmente o comportamento dos políticos e fazer com que eles tomem vergonha na cara. De todo modo, a prisão de Lula e a condenação de outros poderosos não deixam de ser um grãozinho de areia nesse enorme edifício de respeitabilidade que precisa ser construído neste país. Só que é preciso muito otimismo para acreditar que ele se erga sem ameaças de desmoronamento. Mas a respeito dessas movimentações de massa, com a licença dos mestres Cleonice e José Paulo, permita-me indicar a leitura de uma crônica de Fernando Pessoa intitulada A ilusão política das grandes manifestações populares. É uma maravilha!

N – Porque passamos pelo outono das desilusões, caímos no inverno da desesperança e hoje nos deparamos com uma disputa presidencial pela qual a população parece não se interessar mais e numa eleição para a renovação do Congresso Nacional, que é quem mandará na próxima gestão, na qual, como dizia Jânio Quadros, e agora mais radicalmente do que à época dele, as moscas mudam, mas as fezes são as mesmas?

P – Ótimo o trocadilho com as estações do ano. Mas já não poderia dizer o mesmo com essa nefasta, mas verdadeira, previsão para as próximas eleições. Penso ser difícil haver desenvolvimento com um país desunido e parece não haver nenhum candidato que possa, mesmo de longe, começar a representar a possibilidade de agregar forças para o salto de qualidade que se espera. De vez em quando penso nos tigres asiáticos e a experiência de alguns deles, em particular a da Coreia do Sul, é costumeiramente lembrada como um modelo a seguir. Tudo bem. Nos anos 1950 estava bem atrás do Brasil, hoje, muito à frente. Mas o Brasil é muito grande, muito diversificado, muito heterogêneo, muito populoso. Não é fácil administrá-lo. Aí você fala da China e até mesmo da Índia. Mas são países milenares, de fortes tradições culturais, e têm um povo acostumado a pensar coletivamente. Em geral, o brasileiro sempre espera que o Estado possa fazer alguma coisa por ele e em face desse paternalismo a tendência tem sido de acomodação. É assim desde sempre. Difícil de mudar. É por isso que costumo dizer: tem coisas que dão certo e tem coisas que não dão certo. O Brasil, desafortunadamente, está neste último caso. Paciência, mais uma vez.

Cartaz do longa-metragem autoral Paulo Melo e o cinema, de Wills Leal. Reprodução: Acervo pessoal

Cartaz do longa-metragem autoral Paulo Melo e o cinema, de Wills Leal. Reprodução: Acervo pessoal

N – O que ainda lhe interessa numa campanha eleitoral em que não se discutem temas como a recuperação das finanças públicas, à beira do colapso, uma política de segurança pública capaz de deter a violência desmedida do crime organizado, a continuação do combate eficaz à corrupção deslavada, desvairada e deletéria e programas que tirem saúde e educação do fundo do poço em que foram atiradas pela sequência de desgovernos sem outro compromisso que não fosse com o enriquecimento dos maganões da elite política, que age, de fato, como uma escória?

P – Num país como o nosso, em que parece que perdemos o bonde da História, os problemas básicos se impõem como absolutamente prioritários. É o que vemos na agenda dos candidatos, mas em geral com muita demagogia e muito populismo. São discursos que se repetem ad nauseam. Aí o pretenso compromisso se reveste de uma capa de cinismo que as campanhas tornamintolerável. Depois de eleitos, assumem o estelionato com o maior descaramento possível e o povo, desconsolado, arruma a viola no saco e procura se virar como pode. Muito se fala em projeto de nação.Mas qual, que cabeças pensantes poderiam ser mobilizadas para sua elaboração, quais as metas perseguidas, como avaliar sua execução e seu desempenho? Sem conferir à educação e à saúde o peso de que são merecedoras, não tem jeito, a gente não sai do lugar. E olhe que para universalizar uma educação e uma saúde de qualidade, em que todos esses novos instrumentos de informação e comunicação devam ser considerados, são necessários, no mínimo, uns 20 anos. O gapante os países que já superaram essa etapa aumenta em proporção geométrica. E aí, onde ficamos? Por falar em educação, que contribuição a universidade brasileira tem dado nesse sentido? Ideologizada como está, preocupa-se mais em garantir a hegemonia de suas correntes de pensamento do que em discutir e formular propostas que a tornem um núcleo com o qual a sociedade conte para seu aprimoramento sociocultural. Quando olho o descaso criminoso com a saúde pública, emotivo que sou, não contenho a emoção. Quando vejo o comportamento dos nossos parlamentares, democrata que sou, sofro de indignação.  .

N – Durante algum tempo, ultimamente, alguns ingênuos, como este seu velho amigo, acreditaram na lorota de que bastaria uma maciça votação popular que legitimaria um presidente, congressistas e chefões partidários, aos quais entregaríamos o poder para ao menos minorarem a penúria de 26 milhões de brasileiros sem emprego digno e sem esperança. Hoje já se percebe que não existe possível deus exmachina do teatro grego, que tanto o senhor aprecia, para desatar o nó górdio que nos enforca, nem espada como a de Alexandre Magno que venha a ser capaz de decepá-lo?

P – Pois é, se não temos nem uma coisa nem outra, a quem recorrer? De que vale a legitimidade, se falta demonstração convincente de compromisso com a coisa pública, além de autoridade, competência, honestidade e firmeza de propósitos? E sobram demagogia e populismo. Isso me faz pensar na reeleição, que existe nos países democráticos e desenvolvidos.  O problema é que entre nós e em parte da América Latina ela existe não como um tempo a mais para o governante poder equacionar aqueles problemas básicos, mas, sim, como projeto de poder, quase sempre com resquícios de autoritarismo. Se tivéssemos a lucidez de seguir o modelo dos EUA, com apenas dois mandatos consecutivos e depois o velho e confortável pijama, certamente não estávamos engalfinhados em discussões radicalizadas de uma nota só e, ainda por cima, desafinada, que não levam a nada, a não ser a um febril culto à personalidade, como agora estamos tristemente vivendo. E, como disse no início, o Brasil, que é bom, fica pra depois, e olhe lá.

Almoço em Cabedelo, Paraíba, com outros dois cineclubistas, o crítico de cinema Martinho Moreira Franco e o cineasta Ipojuca Pontes. Foto: Acervo Pessoal

Almoço em Cabedelo, Paraíba, com outros dois cineclubistas, o crítico de cinema Martinho Moreira Franco e o cineasta Ipojuca Pontes. Foto: Acervo Pessoal

N – O que o senhor tem dito a seus netos para prepará-los para enfrentar sem esmorecer o futuro que os espera à saída da maior crise moral, política, econômica e financeira, pela qual o avô deles ainda está passando?

P – Como não se pode nadar contra a correnteza dos smartphones, dos tablets, da internet e das redes sociais, mesmo não sendo fácil prever até onde ela vai chegar, é preciso de todo o modo que ela seja levada em conta no processo de aprendizagem. As mudanças ocorridas nos últimos anos no campo da informação eram impensáveis no final do século 20 e creio ainda não existirem as ferramentas necessárias para lidar com os efeitos que essas transformações podem causar, e têm causado, na percepção e na dinâmica do que essa nova forma de relacionamento pode produzir. Como cultivar de maneira constante e sistemática o espírito crítico nessa meninada me parece o grande desafio e as novas gerações parecem subestimar a possibilidade de orientação que velhos como nós possam ainda proporcionar nesse sentido. E eu, que não tenho celular, não estou no Facebook e em assemelhados, sou visto com um ser estranho, fora da realidade. Pois é, pode até ser.

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/chega-de-lula-2/

Nêumanne entrevista: Paulo Melo. 19ª edição da Da SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista: Paulo Melo. 19ª edição da  SÉRIE
10 PERGUNTAS

No Estadão desta quarta-feira: O Brasil tem tudo para não dar certo tão cedo

No Estadão desta quarta-feira: O Brasil tem tudo para não dar certo tão cedo

País está dividido entre os que se deixam seduzir pelo populismo e os que o rejeitam

O ano começou com uma expectativa generalizada de que teria início nele algo que um romancista inspirado chamaria de “o verão de nossas esperanças”. Antes de setembro chegar, trazendo a primavera, ninguém precisará ser muito pessimista para lembrar, neste “inverno de nossas desilusões”, que agosto é, de fato, um mês de muito desgosto e que o verão de 2019 em nada corresponderá aos sonhos de renovação de oito meses atrás. Por quê?

Em 2005 teve início no Supremo Tribunal Federal (STF) o julgamento da Ação Penal 470, que ficou popular com o apelido de mensalão e radiografou a podridão das vísceras do primeiro governo soit-disant socialista da História, sob a égide do ex-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva. Nos debates do plenário da Corte, acompanhados com interesse antes só despertado pelos festivais da canção e pela Copa do Mundo, foi revelado ao povo um esquema de compra de apoio parlamentar com o erário sendo tratado como quirera.

Os “supremos” magistrados condenaram à prisão políticos de alto coturno, que trataram os partidos que dirigiam como se fossem organizações criminosas: José Dirceu e José Genoino, que tinham presidido o Partido dos Trabalhadores (PT), Roberto Jefferson, suserano do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Valdemar Costa Neto, rei do Partido Liberal (PL), que viraria Partido da República (PR), Pedro Corrêa, dirigente do Partido Progressista (PP), e outros.

Reza o folclore político que, instado a participar de um movimento para depor o então presidente Lula, o ex-chefão do Partido da Frente Liberal (PFL), hoje o Democratas (DEM), Antônio Carlos Magalhães, disse que preferia derrotá-lo nas urnas. Como a História, implacável, registra, Lula bateu o tucano Geraldo Alckmin na eleição de 2006. Os chefões das quadrilhas partidárias seriam, depois, indultados pela companheira Dilma Rousseff, que Lula elegeria sua sucessora, e, afinal, perdoados pelos companheiros nomeados para o fiel e desleal STF.

Mas, ah, ora, direis, ouvindo estrelas, o povo foi às ruas para reclamar daquilo que, antes de comandar a rapina nos cofres públicos, o PT chamava de “tudo o que está aí”. A rebelião das ruas, que apoiou o combate à corrupção por uma geração de jovens policiais, procuradores e juízes federais, porém, passou ao largo de alguma mudança de fato no Brasil que Machado de Assis chamava de “oficial”, em contraponto ao nobre, pobre e probo “País real”. No ano seguinte às espetaculares manifestações de rua em nossas cidades, 2014, Dilma foi reeleita com Temer e o PMDB na chapa em campanha de que, como depois revelaria outra devassa, nem os vencidos sairiam inocentes. Tudo como dantes no cartel de Abrantes.

Para cúmulo da ironia, levado a julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o triunfo da chapa que juntou a fome com a vontade de comer passou a ser dado como absolvida “por excesso de provas”. Mas a decisão, tomada numa sessão presidida pelo ministro do STF Gilmar Mendes, manteve Temer na Presidência, depois do impeachment da titular da chapa vencedora. E Dilma sem cargo, mas liberada para ocupar posto público por uma canetada praticada pelas mãos esquerdas do senador peemedebista Renan Calheiros e do então presidente do STF, Ricardo Lewandowski.

Isso ocorreu apesar do enorme entusiasmo popular com novo feito da Justiça em primeira instância, a Operação Lava Jato, iniciada em 2014 e responsável pela sequência da AP 470, levando às barras dos tribunais e às celas os maiores empreiteiros do Brasil, Marcelo Odebrecht à frente, e o ex-presidente Lula. Este havia saído incólume do mensalão por obra e graça da omissão do relator, tido como implacável, Joaquim Barbosa, e a atenta proteção do sucessor deste na presidência do STF, Lewandowski. O que não impediu que depois fosse condenado e preso como “chefe da quadrilha”.

No verão, esperava-se que se elegessem um presidente para limpar a máquina pública e um Congresso para apoiá-lo na guerra à corrupção. No inverno, 90% dos deputados e 65% dos senadores candidatos sepultam o devaneio do “não reeleja ninguém”. Dos seis pretendentes à Presidência com chance, nenhum se compromete com o que de fato importa: o combate a privilégios, política econômica para pôr fim à crise e ao desemprego e o basta à impunidade de criminosos armados ou de colarinho branco. Quem está em primeiro lugar nas pesquisas de preferência de voto é um condenado por corrupção e lavagem de dinheiro a 12 anos e 1 mês de prisão.

O economista Cláudio Porto, da Macroplan, acaba de divulgar a pesquisa Cinco cenários para o governo do Brasil 2019-2023, que conclui que qualquer governo terá de conviver com cinco condicionantes imediatos: renda per capita 9% abaixo da de 2014 e desemprego de 14 milhões de pessoas; contexto externo menos favorável do que o dos últimos anos; tensão permanente entre a população impaciente e a maioria fisiológica dos políticos; demandas da sociedade por mais e melhores serviços públicos, em confronto com a manutenção e a conquista de mais benesses pelo baronato de políticos; e combate à corrupção menos intenso.

Para enfrentar esses problemas o eleitorado, segundo Porto, divide-se pela metade, não entre esquerda e direita, mas entre a sedução do populismo e a saída não populista. A pesquisa, feita para a Macroplan pelo economista Flávio Tadashi entre 6 e 8 de agosto, situa em 16,1% a adesão ao populismo de esquerda; 17,4% ao de direita e 16,5% ao “de ocasião”. A saída não populista divide-se em 27% para a conservação do status quo e 23% para o “reformismo modernizante”.

As chances de o Brasil continuar a não dar certo são de 77% e as necessárias reformas e modernização para o País crescer e prosperar não são inviáveis, mas dependem de a maioria do eleitorado ser convencido de que a melhor saída seria essa.

Jornalista, poeta e escritor

 

No Blog do Nêumanne: Prostituição, fraude e sabotagem

No Blog do Nêumanne: Prostituição, fraude e sabotagem

Nenhum candidato com chance de ser presidente ousou, no debate da Band, referir-se aos escândalos de mensalão e petrolão para não perder eventuais eleitores de Lula, político preso e ausente

No artigo Todos juntos pela impunidade, publicado na semana passada, comentei como a blindagem da Polícia Federal (PF), sob a égide do criminalista Márcio Thomaz Bastos, foi rompida por dois acidentes de percurso. Roberto Jefferson, furioso com a partilha da propina, pôs a boca no trombone, denunciando a compra de votos, e Joaquim Barbosa, o estranho no ninho, pegou o touro à unha e o levou até o fim.

Recentemente, foi publicada entrevista de Paulo Lacerda, diretor da PF dita “republicana” de Márcio Thomaz Bastos, que foi advogado de Lula na Justiça Militar à época das greves dos metalúrgicos e, depois, ministro da Justiça no primeiro mandato presidencial do petista. Segundo ele, a Polícia Federal (PF) fazia vista grossa à malandragem dos políticos que obedeciam cegamente aos poderosos e não conseguia desvencilhar-se de ingerências politiqueiras. A narrativa de “PF republicana” durou pouco e foi para o saco na Operação Xeque-Mate, que pegou Vavá, irmão de Lula. A PF “republicana”, que o causídico Bastos regia, só investigava inimigos dos donos do poder. Seu modelo era a famigerada Delegacia Especial de Segurança Política e Social (DESPS), versão federal dos Dops estaduais no Estado Novo de Getúlio Vargas e que centralizou o aparato policial para perseguir, processar e levar à prisão adversários do regime.

Quando o PT, Lula e Márcio Thomaz Bastos ascenderam ao poder, fizeram um remanejamento de quadros na PF. E a deusa da Justiça, Têmis, inspirou os ocupantes de postos-chave, em que usavam seus  olhos vendados a favor do regime e contra a liberdade de quem ousasse desafiá-lo. Por isso  os órgãos de fiscalização do Estado de Direito, descentralizado por definição – a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o Tribunal de Contas da União (TCU), a Superintendência de Previdência Suplementar (Previc/fundos de pensão), o Banco Central, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e a PF –,  não ouviram o tropel nem viram a manada de elefantes passando à vista por 13 anos e meio a fio: da posse de Lula ao impeachment de seu poste, Dilma.

Só a vista grossa da deusa Têmis pode justificar como a maior corrupção da História chegou ao ponto a que chegou sem ser percebida.

A Lava Jato foi um acidente de percurso e decorreu do tratamento dado a Marcos Valério, que provocou a deserção de mercenários. No mensalão, Lula,  o comandante em chefe, nem sequer foi arrolado, sob a proteção de seus lugares-tenentes no Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski (revisor) e Dias Toffoli e com a complacência do relator (e depois presidente da mais alta Corte) Joaquim Barbosa.  Nesse ambiente, Luiz Gushiken, personagem importante no escândalo nunca desvendado da guerra das teles gigantes, foi excluído de investigação, processo e pena, chegando a ser inocentado e elevado ao panteão dos heróis nacionais num discurso laudatório fora de propósito de Lewandowski, que substituiria Barbosa na presidência do colegiado. Mesmo citado como chefe da quadrilha, José Dirceu só ficou dois anos na prisão, sendo um em prisão domiciliar. Já o publicitário Marcos Valério, que obedecia às ordens de Dirceu, foi condenado a 40 anos e a bailarina Kátia Rabello, dona do Banco Rural, usado na operação, mas na qual ela nunca teve noção do que acontecia, a 16. Os mercenários perceberam que o bote salva-vidas do PT fora inspirado no Titanic: nele só embarcaram os passageiros da primeira classe. O resto foi deixado para servir de pasto aos tubarões. Mas a trava da caixa de Pandora só foi quebrada com Márcio Thomaz Bastos fora da Esplanada dos Ministérios. E a mensagem ao Garcia chegou à “mercenariocracia”. Ao primeiro risco de afundar, os mercenários, já sabendo que não teriam lugar no bote do PT, partiram para agarrar o que flutuava: a delação premiada. O que lhes restou foi o instituto usado nos Estados Unidos e na Operação Mãos Limpas, da Itália, para perfurar a blindagem dos poderosos chefões da Máfia, originária da Sicília, que se tornou rica e influente agindo no porto de Nova York e nos bares de Chicago. Não é à toa que tal expediente é o inimigo número um de advogados grã-finos que representam a fina-flor da bandidagem nacional, em particular a turma da empreita, distribuidora de propinas nas frestas da legislação que regula as relações entre contratados e contratadores de obras e serviços públicos desde os tempos da caprichosa Xica da Silva.

O esforço atual é orquestrado para fechar de novo a caixa de Pandora e levar a situação ao estágio anterior, quando havia uma proteção velada das instituições e do Estado ao governo e o entendimento de que dinheiro ilegal usado em eleições é um mal inevitável, a que só se recorre para o bem geral. No nome desse jogo o pano de frente é a compra de votos.

O PT transformou o Congresso em mercado persa. Nele tudo é comprado: apoio, votos, leis, decretos-lei, exonerações fiscais, etc. O que antes já se fazia por baixo do pano, como no sucesso junino de Antônio Barros e Cecéu, à época da compra de apoio de bancadas no Congresso, passou a ser explícito. Nas investigações de operações como Lava Jato, Cadeia Velha, Zelotes e outras se desvendaram práticas antigas, como a de empreiteiros, mas não só eles, que financiavam campanhas políticas redigirem leis que os beneficiam. Nesse sistema, que era secreto e se tornou explícito, a contratação de obras e serviços, concessões e outras formas de negociação do Estado com fornecedores privados passaram a ser moldadas ao interesse de quem fosse premiado com contratos superfaturados e a remunerar os donos das chaves dos cofres da viúva em redes de lavagem de dinheiro no exterior, que receberam a denominação de “propinoduto”, um neologismo que não admite eufemismo.  Parte dos recursos arrecadados era, então, empregada pela elite dirigente dos três Poderes da República privatizada para comprar votos do andar de baixo, em que vivem em condições precárias os mais vulneráveis socialmente.  Na prática, o Partido dos Trabalhadores (!!!) fez o que sempre condenou nos adversários empresários, latifundiários e que tais: “cafetinou” o Congresso para prostituir o eleitorado.

O trabalho eficiente de uma geração jovem e preparada de policiais, procuradores e juízes federais resultou na devassa dos escândalos do mensalão e do petrolão, que desvendaram a prostituição da política e a fraude eleiçoeira que sabota a democracia. O mensalão foi absorvido pelo establishment: os petistas e seus aliados foram indultados por Dilma Rousseff e perdoados pelo STF. José Dirceu e Pedro Corrêa só não tiveram o mesmo prêmio porque foram pilhados pela Lava Jato delinquindo em plena cela. O primeiro, contudo, mesmo condenado a 30 anos e meio de cadeia, com a benemerência da Segunda Turma do STF, sob a égide dos mesmos de sempre, Lewandowski, Toffoli e agora Gilmar, passou férias articulando a sobrevivência do PT no Sul da Bahia, sob a égide da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), ao sol de Itabuna e banhando-se no Atlântico em Ilhéus, no gozo de plena liberdade. Como se fora um sucedâneo contemporâneo do seu Nacib de Jorge Amado.

Enquanto isso, seus companheiros de armas da guerrilha de extrema esquerda e de campanhas eleitorais petistas articulavam com condenados e suspeitos da Lava Jato o sepultamento das operações eficientes de Polícia, Ministério Público e Justiça Federal, na garantia da reeleição dos de sempre para o Congresso. E no apoio a presidenciáveis citados em processos ou aliados na guerra contra a faxina que o povo exigiu nas ruas em 2013. No debate da Bandeirantes em 9 de agosto nenhum dos presentes com chances se referiu à rapina dos cofres públicos promovida por PT, aliados e até oposicionistas domados do PSDB. O tucano Alckmin uniu-se aos apenados no mensalão Roberto Jefferson, Paulinho da Força e Valdemar Costa Neto. Os sermões de irmã Marina nem de longe se referiram aos “malfeitos” do ex-chefe Lula, político preso em Curitiba, excluído da disputa por ser inelegível pela Lei da Ficha Limpa. Nem Álvaro Dias, insistindo em  nomear Sergio Moro ministro da Justiça, que afastaria do combate à corrupção seu agente mais notório, se dignou a fazer uma referência que fosse ao que provocou a fama do herói do povo. Todos de olho nos votos do único que, por exigência da lei, não mentiu no debate: o ausente Lula.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 13 de agosto de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/prostituicao-fraude-e-sabotagem/

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