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Jornalismo

No Estadão da quarta-feira: O sucesso do diagnóstico amargo de Paulo Guedes

No Estadão da quarta-feira: O sucesso do diagnóstico  amargo de Paulo Guedes

Ministro cativou pela dura constatação dos males, não por receitar remédios doces

O mercado de capitais foi sacolejado por fortes ventos de bonança nos últimos dias úteis da semana passada. Tudo por causa do discurso contundente, corajoso, lúcido e inusitado do novo ministro da Fazenda, Paulo Guedes, na solenidade de sua posse. Impressiona o fato de que a fala se limitou a um diagnóstico preciso, mas inusual, da doença que debilita e, na prática, paralisa o organismo da economia brasileira. Não foi anunciada nele nenhuma bondade, nenhuma bonança, nenhum voto de um feliz ano novo. Ao contrário, foi o rosário de sintomas de um mal contraído ao longo de séculos e do qual a Nação só será curada com baldes de sangue, suor e lágrimas.

Esse foi o pontapé inicial do governo Bolsonaro, embora outras medidas inaugurais tenham obtido mais sucesso popular e, por isso, destaque no noticiário. Damares Alves, titular do ridículo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, mais uma vez chamou a atenção pela retórica, e não pela ação. No dia em que ela pôs o dedo na ferida dos gastos atabalhoados de Temer, ao impedir o desembolso de quase R$ 50 milhões da Fundação do Índio para a Universidade Federal Fluminense, os meios de comunicação trataram de forma abusiva do tema dos “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”, que, convenhamos, não deveria ter sido dito e muito menos provocado tão ruidoso espalhafato.

O chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, amanheceu de espada na mão – logo ele, um dos poucos civis no Planalto – para anunciar cortes (ainda tímidos) de comissionados das administrações anteriores. Apesar de positivas, tais medidas são produtos de perfumaria se comparados com a necessidade do garrote que precisa ser atado imediatamente para impedir a sangria desembestada das contas públicas. E foi para isso que Guedes chamou a atenção do distinto pagante, de forma clara, didática e precisa.

O diagnóstico implacável da doença que imobiliza a produção e estimula a exploração e a especulação desde a chegada de Tomé de Souza à Bahia até o desembarque do constitucionalista de Tietê é simples de enunciar e de dificílima cura. “O Brasil”, fustigou o economista, que tenta instaurar os princípios da Escola de Chicago na gestão econômica, é “o Paraíso dos rentistas e o inferno dos empreendedores”. De forma menos clara, dura e precisa, muitos já tinham dito isso antes. Poucos, se é que alguém o fez, de forma tão simples e direta.

Um dos temas mais populares dos últimos tempos, em particular na presente crise, é a reforma da Previdência. Guedes explicou por quê: “A Previdência é uma fábrica de desigualdades. Quem legisla e julga tem as maiores aposentadorias. O povo, as menores”. Como diria Nélson Rodrigues, batata! Pois é, os Poderes Legislativo e Judiciário são os maiores exploradores do povo, arrancando a pele do cidadão comum para bancar seus privilégios e benesses. Quem leu o artigo do professor Modesto Carvalhosa e o meu, aqui, em 26 de novembro passado, já se familiarizou com o conceito de que privilégio é corrupção mesmo.

O ministro (dizem que super) da Economia não deixou por menos. Para ele, “os políticos têm muitos privilégios e poucas atribuições”. O resultado disso, acredita, é cruel: “Os gastos públicos corrompem a política e estagnam a economia, dois filhos bastardos do mesmo fenômeno”. Bingo!

Guedes também foi claro ao defender a extinção do Ministério do Trabalho, resultado da armação pela qual o caudilho Getúlio Vargas financiou com dinheiro público a máquina sindical para azeitar as relações do Estado patrimonialista com o sindicalismo de ocasião. A máquina devoradora da poupança da cidadania é corrupta, voraz e fascista. Pois resulta da tradução direta da Carta del Lavoro, de Benito Mussolini, que o estancieiro de São Borja apreciava à distância, mas da qual foi afastado pelas circunstâncias da 2.ª Guerra Mundial, em que trocou uma base apropriada para os ianques em Natal por uma siderúrgica sucatada em Volta Redonda. É claro que o cabide de empregos, poder e fortuna para sindicalistas está sendo defendido com unhas e dentes na Justiça… do Trabalho, outra excrescência fascista da família das jabuticabas podres. E a obra só será factível quando também esse câncer institucional for extirpado do organismo doente.

O leitor lúcido e atento poderá dizer – e terá razão – que há um longo e árduo caminho a percorrer até a terapia longínqua e a cura difícil de ser alcançada, a não ser em prazo muito largo. Guedes falou em reforma do oneroso sistema previdenciário pela via da emenda constitucional e caso isso, mais do que difícil, se torne inviável, pela desindexação da Constituição. Essas soluções são dificílimas por exigirem aprovação de um Congresso que parecia conformado com o recado das urnas, mas agora se prenuncia hostil.

Não será com a redução da idade para 57 (mulheres) e 62 anos (homens), anunciada pelo presidente em entrevista ao SBT, que se tornará viável o equilíbrio das contas previdenciárias. O Data Nêumanne (atenção, é brincadeira) constata que a reforma da Previdência será tarefa quase impossível enquanto não for adotado no sistema o princípio constitucional definidor do Estado de Direito, qual seja, o da igualdade de todos os cidadãos perante a lei. Enquanto houver um privilégio (que é crime de corrupção mesmo!) dispensado à casta político-jurídico-tecnocrática, o trabalhador da iniciativa privada e o servidor sem privilégios, dito barnabé, não aceitarão fazer pela enésima vez o sacrifício cruel de seus proventos esqueléticos.

A formação e a companhia militares do presidente serão o primeiro empecilho. E a palavra final será dada pela cúpula do Judiciário, grande beneficiária das benesses e feroz adversária das tentativas de reduzir a distância das aposentadorias famélicas das pensões estratosféricas. Ou a igualdade perante a lei será restaurada, ou todos afundaremos juntos no naufrágio geral das contas públicas impagáveis.

Jornalista, poeta e escritor

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No Blog do Nêumanne no Estadão: E Queiroz, Moro?

No Blog do Nêumanne no Estadão: E Queiroz, Moro?

Para manter aura a que chegou como juiz, ministro da Justiça não pode fingir que devassa sobre atuação dos ‘rolos’ de ex-assessor de Flávio Bolsonaro na Alerj não é com ele

Em artigo publicado no fim do ano passado neste Blog do Nêumanne, A PM do Rio e a família Bolsonaro, expliquei o principal obstáculo à permanência do ex-juiz federal Sergio Moro no Ministério da Justiça, no qual tomou posse dia 1º.

Veja só, nenhuma das empresas que caíram na rede anticorrupção da Lava Jato tinha sede em Curitiba: a da Petrobrás, origem da operação, fica no Rio e como ela, as matrizes das empreiteiras Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa, UTC, Queiroz Galvão, Engevix, Galvão Engenharia, Mendes Júnior, Skanska, GDK, Toyo Setal, Iesa, Techint, Carioca Engenharia, Schahin, Alumini Engenharia, Tomé Engenharia, e Andrade Gutierrez não ficam em Curitiba. Os doleiros também não viviam na capital paranaense.

Lula e o núcleo duro do PT, José Dirceu, Antônio Palocci e os ex-tesoureiros Delúbio Soares e João Vaccari, são de São Paulo. Assim como o triplex no Guarujá, o sítio em Atibaia e o Instituto Lula, objetos da mais famosa devassa policial e judicial da História da República.

Moro precisou de uma gambiarra para pegar o touro à unha e levar para a vara sob sua jurisdição a investigação e, assim, tentar salvar o País da corrupção institucionalizada em que estava e da qual ainda não saiu completamente. Ele espichou uma investigação de um posto de gasolina em Brasília para incendiar a rapina de cofres públicos no Brasil inteiro. E foi assim que conduziu o movimento para descriminalizar o Brasil.

Se inquéritos e ações ficassem em São Paulo, nada aconteceria. No caso Alston, o Ministério Público Federal (MPF) de São Paulo nada fez e, pelo menos até agora, não deu em nada. Ficou claro, nesse caso, que na Bastolândia (o reino do mago Thomaz Bastos), o Judiciário e o MPF evitavam atrito com o sistema vigente. No Rio ficou explícito por que a roubalheira comia solta quando se descobriu que o MP recebia mesada de Sérgio Cabral e nada investigava. Vista grossa para a corrupção, a exemplo do que exigia Lula em relação às obras superfaturadas das arenas da Copa do Mundo.

Moro pôs Curitiba no mapa. Hoje são comuns em Curitiba os Tours Lava Jato, para ver a Polícia Federal, onde fica a cela de “estado-maior” que abriga o presidiário Lula, a Procuradoria da República, a Justiça Federal e o Complexo Médico-Penal, a penitenciária das celebridades.

Depois da divulgação dos fatos em pauta, foi possível ao cidadão comum perceber que as autoridades do nosso Brasil hoje podem ser classificadas em seis categorias:

1) Os do partido, que lutam pela causa;

2) os mercenários, que fazem tudo por dinheiro;

3) os políticos, pela perspectiva de promoções;

4) os surfistas, para aparecer e ficar bem com a imprensa, pelos benefícios da notoriedade;

5) os vulneráveis, que atuam por ameaça;

6) e os incorruptíveis, que julgam pelos méritos.

Ninguém duvida hoje, no Brasil, que Moro seja categoria 6, pois teve de chamar a si as iniciativas, ou, caso contrário, ainda estaríamos na situação anterior. Pois foi assim que a Lava Jato fez de Moro um herói nacional. O certo seria todos os outros juízes agirem como Moro, e aí nos poderíamos orgulhar de termos um Judiciário. Mas, por enquanto, poucos o imitaram. A maioria continua entre o auxílio-moradia e as traças tomando conta dos processos nos cartórios das varas.

Moro chegou a ser ameaçado por Lula. Em audiência pública em maio de 2017, o ex petista afirmou: “Se eles (agentes da polícia e o Ministério Público) não me prenderem logo, quem sabe um dia eu mando prendê-los?”. Podia ser mais explícito?

O padim de Caetés queria mesmo era ir para Paságarda, onde “lá sou amigo do rei”, o belíssimo poema de Manuel Bandeira inspirado na cidade persa. Mas mesmo com a perspectiva, antes e agora, da presença de Moro no Ministério da Justiça – e nós sabemos que quando aparece uma barata na cozinha nunca é uma só -, o ex-motorista do hoje senador Flávio Bolsonaro, à época da Alerj velha do achego e do achaque, Fabrício Queiroz não compareceu nas quatro vezes em que foi intimado para depor no Ministério Público, conforme ele próprio revelou em entrevista a Débora Bergamasco, do SBT. Entrevista, aliás, que só piorou a situação dele e de todos os citados. Não depor no MP e dar entrevista no SBT… Isso pode, Arnaldo?

Flávio Bolsonaro foi para o Senado e foge do ex-chefe de segurança como o diabo da cruz. Papai presidente reconheceu publicamente que Queiroz fazia “rolos” na Alerj. PM do Rio fazer rolos na pouquíssimo confiável Alerj seria uma forma antiga de fazer a política nova, capitão?

Ah, mas o “roleiro” agora tem o beneplácito dos procuradores fluminenses: segundo o MP, Fabrício Queiroz está doente e só vai depor com a autorização do médico. Que beleza! Bolsonaro diz que ele fazia rolos, o filho Flávio atestou como “plausível” a versão na qual nem ele mesmo deve acreditar. Mas o nada insuspeito MP do Rio entregou ao médico particular do “paciente” (palavra que vale para réu e para doente) o poder de julgar e executar sua sentença. Não é possível que o cidadão que virou o ai-jesus do Brasil inteiro considere isso legal, normal. Muito menos ético. Ou é? Sê-lo-ia nos conceitos da “nova política”?

Há, contudo, perguntas a que o MP pode responder, ainda que seja, digamos, frágil a saúde de Queiroz, a exemplo do que acontece com o coronel João Batista Lima Filho, amigão do ex-presidente Temer e protagonista do processo da alienação da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp). No tal caso rumoroso da Alerj, porém, resta uma pergunta ao MP: se Fabrício está doente, por que não convocar sua filha personal trainer, Nathalia Queiroz? Ou, quem sabe, Michelle Bolsonaro, craque em marketing político, como ficou demonstrado no parlatório do Planalto na posse do marido e, antes disso, beneficiária de depósitos do ex-assessor? Elas não estão doentes e não há como arguir que não fazem parte no rumoroso episódio, apesar da explicação do devotado esposo.

Dizem línguas ferinas da Boca Maldita, em Curitiba, que a delação de Sérgio Cabral vai tocar fogo no Judiciário e, à luz de fogueiras, mesadas ao MP serão reveladas. Pode ser, então, que venha à tona o porquê da mão leve do MP nesse até agora aparente simulacro de investigação. Tem gente aí remando com o pé dentro d’água. Só que, ao contrário do que os personagens do caso imaginam, para complicar a vida deles a imprensa não vai largar esse assunto. Apostar em esquecimento é uma atitude suicida, como também o é silêncio até agora adotado.

No fim do ano passado a Coluna do Estadão revelou, na nota Fermento, que o caminho natural é o Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf) ampliar as buscas para revelar para quem mais Fabrício Queiroz repassou o dinheiro. E o Coaf agora está sob as ordens de Moro. Segundo o ministro, a transferência do Coaf para sua pasta permitirá “o fortalecimento do órgão”, que “sofreu com redução do quadro funcional por questões circunstanciais”.

Pois é, pelo visto, Moro não vai poder fazer vista grossa, como pediu Lula ao TCU nas obras da Copa. É que no tempo do petista existia uma contaminação, uma incompetência deliberada e generalizada do aparelhamento do Estado. As agências sob a batuta dos petistas deixaram passar uma manada de elefantes, e nada fizeram: CVM, Coaf, Banco Central, só para citar algumas.

Esse assunto foi tratado em artigo que escrevi em 30 de julho de 2018 também no blog,Política sem pudor. Quem quiser reler pode fazê-lo clicando aqui.

Moro assumiu o Ministério da Justiça e agora não tem saída. Na função, terá de se preservar. Pois o Brasil tem muitos ministros e poucos heróis.

Artigo no Estadão desta quarta-feira: No Supremo pela porta dos fundos

Artigo no Estadão desta quarta-feira: No Supremo pela porta dos fundos

Patrimonialismo impede

a morte da velha política na cúpula do Judiciário

 

A lambança do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello a poucos minutos do expediente de fim de ano do Poder Judiciário, ao tentar soltar 169 mil presos condenados pós-segunda instância, entre eles Lula, despertou mais uma vez a fúria popular. E com ela emergiu também a criatividade das fórmulas desejadas para substituir a atual indicação de seus componentes pelo presidente da República, com aval do Senado Federal após sabatina. Eleição direta dos ministros, concurso público para admissão e indicação por notáveis ou mesmo associações da classe jurídica são, entre elas, as mais citadas.

Como dizia minha avó, “devagar com o andor, que o santo é de barro”. E seguindo instruções de Jack, o Estripador, “vamos por partes”. Quem tem conhecimento mínimo do resultado de eleições diretas, principalmente para ocupantes de colegiados, como o Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais, não pode nutrir a mínima esperança de que o voto direto livre os tribunais superiores dos vícios de sempre com a escolha dos mais sábios e mais justos. Concurso público pode escolher mais membros com mais conhecimentos para lidarem com informações sobre determinada área, mas não há prova, oral ou escrita, que escolha entre os pares o mais habilitado a dirimir questões sobre a adequação de determinada lei ao texto constitucional vigente. Não há notáveis ou instituições isentas da interferência de lobbies e que tais na escolha de um profissional para ocupar um cargo de tal relevância e que representa o mais elevado posto na carreira de um profissional do Direito.

A vida do protagonista citado no início deste texto dá a oportunidade de indicar caminhos mais seguros para levar gente mais capacitada e equilibrada para ocupar o topo. Marco Aurélio Mello é o exemplo perfeito de como o patrimonialismo atravessou incólume todas as tentativas de superá-lo e resiste, como entulho, no terreno das instituições republicanas, acentuando suas imperfeições e demolindo a reputação de seus agentes. Ele entrou na carreira pública como procurador na Justiça do Trabalho, invenção de Getúlio Vargas depois da Revolução de 1930, para funcionar como elo no aparelho de poder de um tipo de populismo latino-americano, o trabalhismo. Uma espécie de fascismo cucaracho, também estrelado por Juan Domingo Perón, na Argentina, e Haya de la Torre, no Peru.

O cargo não foi obtido por concurso público, mas por nomeação patrocinada pelo pai, Plínio Affonso de Farias Mello, patrono até hoje reverenciado no ambiente do sindicalismo patronal como uma espécie de benemérito da classe dos representantes comerciais. O prestígio de Plínio Mello era tal que o último presidente do regime militar, João Figueiredo, manteve aberta a vaga no Tribunal Regional do Trabalho do Rio de Janeiro para o filho dele, Marco, completar 35 anos, em 1981, e com isso cumprir preceito legal para assumi-la. O prestígio paterno levou-o ao Tribunal Superior do Trabalho, em Brasília, onde Fernando Affonso Collor de Mello o encontrou para promovê-lo – tcham, tcham, tcham, tcham! – para o Supremo Tribunal Federal (STF).

Marco Aurélio Mello é o exemplo perfeito de como o patrimonialismo atravessou incólume todas as tentativas de superá-lo e resiste, como entulho, no terreno das instituições republicanas, acentuando suas imperfeições e demolindo a reputação de seus agentes.

Marco Aurélio Mello é o exemplo perfeito de como o patrimonialismo atravessou incólume todas as tentativas de superá-lo e resiste, como entulho, no terreno das instituições republicanas, acentuando suas imperfeições e demolindo a reputação de seus agentes.

Neste caso, em que se entrelaçam parentela, compadrio e interesses corporativos, Fernando merece citação especial, pois seu avô materno, Lindolfo Collor, revolucionário de 1930, foi ministro do Trabalho. É também uma história com marcas de chumbo e sangue: Arnon, pai do ex-presidente, irmão de Plínio e tio de Marco Aurélio, atirou em Silvestre Péricles de Góes Monteiro, seu inimigo em Alagoas, no plenário do Senado e matou, com uma bala no coração, o acriano José Kairala, que entrou na tragédia como J. Pinto Fernandes, citado no último verso do poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade: “que não tinha entrado na história”. É um caso comum na era dos “pistolões” e pistoleiros.

No STF Marco Aurélio sempre foi voto vencido e um espírito de porco até que encontrou um rumo depois que a ex-presidente Dilma Rousseff nomeou sua filha Letícia desembargadora no Tribunal Regional da 3.ª Região, no Rio, demonstração de como o nepotismo se perpetua. Foi desde então que o campeão das causas perdidas abraçou cruzadas que atendem aos interesses petistas e aos de nababos da advocacia de Brasília, que defendem a troco dos dólares que ganharão, quando for, se é que vai ser, extinta a jurisprudência que autoriza a prisão de condenados em segunda instância. Foi em nome dela que cometeu o tresloucado gesto.

O antagonista no episódio, Dias Toffoli, presidente do STF, mas adepto da mesma cruzada, até tentou ser juiz por concurso, mas foi reprovado em dois. Como defensor de José Dirceu e do PT e advogado-geral da União de Lula, contudo, ascendeu ao cargo que hoje ocupa. O posto, aliás, já tinha pertencido antes, com graves danos para a Constituição, rasurada por ele na ocasião do impeachment de Dilma, a Ricardo Lewandowski. Este foi nomeado pelo quinto constitucional para o Tribunal de Alçada Criminal por indicação de seu então chefe, Aron Galant, prefeito de São Bernardo do Campo. Extinto o órgão, foi transferido para o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e chegou ao STF por mercê de suas ligações de compadrio e amizade com o casal Marisa e Lula da Silva. O monturo patrimonialista só será desmanchado se forem fechadas a porta dos fundos do STF, pela qual entram os quintos, e a Justiça trabalhista.

Este conto de trancoso terá um final feliz se loucuras como a de Marco Aurélio e do desembargador Rogério Favreto, do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, em Porto Alegre, não forem sequer tentadas. Toffoli marcou a sessão plenária do STF para decidir sobre a jurisprudência da possibilidade de prisão em segunda instância para 10 de abril. Mas só haverá solução final se Bolsonaro e Moro levarem à aprovação do Congresso uma lei para determiná-la. O resto é lero.

 José Nêumanne Pinto

JORNALISTA, POETA E ESCRITOR

Nêumanne entrevista Marina Colasanti

Nêumanne entrevista Marina Colasanti

Escritora aposta que grandes migrações desta era

mudarão a face da Terra

Nascida na Eritreia numa família italiana, com infância na Líbia e toda uma vida no Rio, Marina Colasanti diz que é difícil amar cidade entregue a si mesma

Para a jornalista, escritora e poeta Marina Colasanti, nascida na África e carioca por adoção, “no futuro nossa era não ficará conhecida pelos avanços tecnológicos – que começaram no século 19 com a primeira lâmpada elétrica! – mas como a era das grandes migrações. Pois são elas que, como quando asiáticos atravessaram o estreito de Behring e povoaram a América, mudarão a face do mundo”. Na 36.ª da série de entrevistas do Blog do Nêumanne, a última do ano, pois o entrevistador estará de férias até 9 de janeiro, a feminista da primeira hora falou também de sua relação antiga e íntima com a cidade que cerca o apartamento onde vive com o marido, o poeta e crítico mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, autor do poema seminal Que país é este?, ela desabafou: “Hoje, para amar o Rio seria necessária uma cegueira social desmedida. Olho da minha janela e vejo a comunidade lá adiante crescer dia a dia, ocupando o lugar da mata. E sei que lá não há esgoto, a água não é potável, e que as vielas estreitas favorecem o surgir de doenças e o multiplicar-se de gangues de traficantes ou milicianos. Não sou a única a ver esse crescimento. O poder constituído também vê e nada faz. É duro amar uma cidade entregue a si mesma.”

Sobre o Brasil Marina cutuca a ferida: "Recuperamos o voto popular, mas esquecemos de educar os eleitores para o seu exercício." Foto: Fábio Motta/Estadão

Sobre o Brasil Marina cutuca a ferida: “Recuperamos o voto popular, mas esquecemos de educar os eleitores para o seu exercício.” Foto: Fábio Motta/Estadão

Marina Colasanti nasceu na Eritreia, país africano à beira do Mar Vermelho, e morou na Líbia, país africano à beira do Mediterrâneo. Depois cruzou o mar e foi viver na Itália. Mas só até os 10 anos, quando cruzou o oceano e veio viver no Brasil. Aqui estudou pintura e cursou Belas Artes, o que faria dela, mais adiante, a sua própria ilustradora. Porém, mais uma vez, mudou o rumo da sua vida e foi ser jornalista. Trabalhou no Caderno B do Jornal do Brasil, como redatora, secretária de texto, cronista, colunista e editora do Caderno Infantil.  Desempenhou-se paralelamente como editora do Segundo Tempo do Jornal dos Esportes. E rumou para a revista Nova e para 20 anos de atividade feminista. Foi âncora e apresentadora em televisão, foi publicitária. Ganhou sete Jabutis, dois Livros do Ano, um Portugal Telecom, um Prêmio Biblioteca Nacional e os internacionais Norma- Fundalectura e Prêmio SM. Agora escreve seus livros de prosa e de poesia para adultos e crianças, faz traduções, lê muito, desenha, e viaja, viaja e mais viaja. Dizem que cozinha muito bem.

Marina, com Affonso, Em 1994, quando ganhou dois Jabutis , um de poesia ( Rota de Colisão), e Livro do Ano ( Ana Z. Aonde vai você?). Foto: Acervo pessoal

Marina, com Affonso, Em 1994, quando ganhou dois Jabutis , um de poesia ( Rota de Colisão), e Livro do Ano ( Ana Z. Aonde vai você?). Foto: Acervo pessoal

Nêumanne entrevista Marina Colasanti

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Comentário no Blog: A PM do Rio e a família Bolsonaro

Comentário no Blog: A PM do Rio e a família Bolsonaro

Na democracia não há cidadão acima da lei ou a salvo de suspeita só por ter chegado à Presidência pelo voto nem ministro da Justiça poupado por ter sido herói popular

A família Bolsonaro constitui um respeitável lar cristão, em que seus membros se amam e se protegem, dando um bom exemplo, que ajudou a eleger o chefe para a Presidência com mais de 57 milhões de votos, em outubro. Nas monarquias isso ajuda a consolidar o prestígio do monarca, dos herdeiros e do próprio regime. Num Estado de Direito republicano, uma família de almanaque dá um charme especial ao chefe do Executivo e isso o ajuda a superar dissabores próprios do poder compartilhado. Foi o caso dos Kennedys de Massachusetts na Casa Branca. Jacqueline Bouvier e seus filhos, parecidos com modelos de propaganda de comida de bebê, compuseram com John Kennedy, senador milionário e católico, uma cena de conto de fadas. Daí a comparação com Camelot,cidade e castelo lendários, sede da corte do rei Artur. Mas os filhos de Jack e Jacquie não eram adultos para interferir em graves decisões públicas a serem tomadas pelo pai, que pôde usufruir a companhia de fofos e inocentes infantes.

Esse não é o caso de Jair Bolsonaro, cercado por um núcleo familiar próximo inédito na História. A influência de Nair de Teffé, primeira-dama do marechal Hermes da Fonseca, sobrinho do marechal Deodoro, que proclamou a República, limitava-se aos salões do Catete. Alzira Vargas, casada com o almirante Amaral Peixoto, apelidado pelo povo de Alzirão, exercia discretíssima influência junto ao pai. Dona Santinha, mulher do marechal Eurico Dutra, nunca foi citada como obstáculo à obsessão que o marido tinha pelo “livrinho”, a mais que liberal Constituição de 1946.

O capitão venceu o pleito presidencial contando com os filhos Eduardo, reeleito deputado federal em São Paulo com recorde de votos; Flávio, deputado estadual no Rio, guindado ao Senado; e Carlos, vereador, que assessorou o pai no comando da comunicação pelas redes sociais.

Eduardo exibiu um boné de campanha de Trump em visita aos Estados Unidos e pôs o pai em saia-justa ao defender a pena de morte, negada em cláusula pétrea na Constituição, como lembrou o presidente eleito. E Flávio entrou no noticiário na contramão, quando o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), assessorando a Operação Furna da Onça, que investiga ilícitos na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), detectou movimentação financeira atípica de um ex-assessor dele de R$ 1,2 milhão, como informou este jornal. Ou seja, R$ 600 mil entrando e R$ 600 mil saindo. Nada comparável aos R$ 49 milhões constatados no gabinete do presidente, André Ceciliano, do PT, R$ 20 milhões dos quais em nome da secretária. Não se constatou crime. Ainda assim, o Centrão usa o caso para chantagear o pai do ex-patrão do servidor, tentando tornar mais flexível o compromisso deste com os eleitores de não aceitar indicações políticas de partidos, viciados na barganha suja de cargos por apoio.

Há nesse angu um caroço envenenado e descomunal. Fala-se no nepotismo evidente e absurdo que se constata na nomeação de mulher, duas filhas e outros aparentados do tal PM em cargos de confiança e depósitos de até 99% dos vencimentos de alguns assessores, flagrados pelo Coaf nessa movimentação dita atípica. Isso leva a algo mais grave: a prática criminosa de parlamentares da dita “velha política” que engordam a própria renda usando assessores humildes que ganham bem como laranjas.

A deputada estadual paulista Janaína Paschoal, a parlamentar mais votada da História e autora do documento que abriu o impeachment de Dilma Rousseff, afirmou no Twitter que um funcionário da corregedoria da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) contou que servidores que se disponham a denunciar esse esquema são sumariamente demitidos e forçados a devolver aos cofres públicos o que receberam. O maisasqueroso e absurdo nesse esquema é o fato de que cada membro da pouco operosa, mas muito onerosa, casa de leis paulista dispõe de uma equipe de assessoria de 32 funcionários cada. A justificativa, nada justa, de que os legisladores paulista precisam de assessoria técnica para cumprir seu dever se torna um escárnio diante do escabroso achaque a falsos barnabés.

Que tenha sido isso o que aconteceu no gabinete de Flávio Bolsonaro ninguém é capaz de acusar. Mas não há justificativa alguma para o fato de o sargento PM não ter ainda contado quais as razões daquela movimentação toda, que o Coaf estranhou, mesmo sendo ela “plausível”, como disse o ex-patrão. Enquanto isso não for feito, Bolsonaro ficará devendo uma explicação aos milhões de cidadãos que o sufragaram confiando na sua lisura. Sabe-se que, de fato, o presidente eleito decidiu não fazer parte do esquema criminoso que governou o País nas últimas décadas. E ganhou a eleição porque era o único candidato viável ausente das delações premiadas da corrupção generalizada. Mas enquanto Fabrício Queiroz não contar uma história realmente “plausível”, paira no ar a estranha sensação de que não se pode dizer o mesmo quanto ao antigo recurso ao contracheque de assessores (ou ex) ausentes de seu filho Flávio.

Se essa dúvida se comprovar, o máximo que se pode dizer de diferente do esquema do PT, que o capitão humilhou nas urnas, é que esse desviava milhões, enquanto as quantias movimentadas pelo ex-assessor nem chegam perto. Só que, além de nojenta, a “apropriação”, constatada por Janaína em São Paulo e investigada pelos procuradores estaduais do Rio na Alerj, não fica de fora do Código Penal: ao contrário, implica prática de peculato, lavagem de dinheiro e, sim ­- por que não? – corrupção. Mesmo que isso seja revelado no caso da Alerj, o pai de família terá imunidade na Presidência até o fim do mandado. A primeira-dama e os filhos, não.

Vale ainda lembrar que a constatação põe em xeque a imagem de Sergio Moro, que assumirá na próxima quinzena o Ministério da Justiça. Como agirá Moro com a primeira-dama, Michelle, cuja conta pessoal acolheu um cheque de R$ 24 mil? Que atitude terá o juiz que julgou Lula ao lidar com a mulher e os filhos do presidente que o nomeará?

Até agora, o juiz da Lava Jato aposentado não falou a respeito desse assunto e pode dizer que isso não é de sua alçada. Mas o que fará se a história de Fabrício não for tão “plausível” assim e levar o futuro governo a fazer o que Lula recomendou ao Tribunal de Contas da União nas obras da Copa: vista grossa? Será possível apostar no oblívio ao longo dos quatro anos do foro privilegiado do chefe do governo? A aposta nessa saída não dá garantia de sossego, pois nem o PT nem a imprensa o esquecerão. A vista grossa não socorrerá o presidente nem salvará do opróbrio o herói nacional honesto, justo e corajoso que desafiou potentados, cumprindo o dever de impor a lei, de cujo império não escapam milionários de fato nem de votos.

A esta altura, é improvável que o juiz implacável tenha pensado em pegar o chapéu. Mas se extrair um abcesso num dente dói, dói mais não removê-lo. Moro tomou a decisão definitiva ao se aposentar. Se tiver de sair, não será mais juiz. E, assim se tornará o mais óbvio alvo do PT, doido para desmoralizá-lo para, enfim, soltar Lula. O partido não está mais no governo, mas dispõe de muitas flechas de bambu envenenadas para atingir o ex-juiz. Os petistas não estão nem aí para o que é justo ou não. Na falta de um crime, poderão inventá-lo. Nunca lhes faltaram imaginação nem desfaçatez para assim agirem. Poderá restar a Moro deixar o País a pretexto de cursar universidade estrangeira ou fazer novo concurso para voltar à magistratura. Em entrevista a Datena, ele explicou que aceitou o ministério porque “o governo precisa dar o exemplo, não transigir com a corrupção” E, ainda, que sempre temeu que “chegaria um momento e viria uma lei maluca prejudicando todo o trabalho da Lava Jato”. Agora vai ter de descer do salto alto e entender que a responsabilidade do juiz é aplicar a lei, e não influir nas leis. Como cidadão, o esforço que ele tem feito é louvável e, por isso, já entrou para a História do País.

Agora, diante dessa “escolha de Sofia”, resta-lhe decidir o que fará. Se já chegou ao ministério meio torto, ficando se arriscará a deixar de ser herói nacional, que o Brasil tem muito poucos, para ser apenas ministro, que o Brasil já os tem em demasia. Vai depender do sargento da PM do Rio, instituição cuja fama conhece bem. E também sabe melhor ainda que motoristas e personal trainers falam. Se forem presos, dificilmente se calarão. No Brasil a ingratidão é quase tão mal vista quanto o crime. Mas não fazer o que tem de ser feito seria usar paus diferentes para Chicos e Franciscos, um risco mal calculado. Pois já conhece provas de sobra de que os derrotados na eleição terão com ele condescendência zero.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 17 de dezembro de 2018)

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Nêumanne entrevista José Augusto Guilhon

Nêumanne entrevista José Augusto Guilhon

Povo quer menos privilégios, menos incompetência

e menos roubalheira, diz professor

Para Guilhon, Bolsonaro ganhou porque prometeu acabar com tudo o que, em cinco anos de indignação popular, não mereceu resposta da elite política

Para o especialista em ciências políticas paraense, radicado em São Paulo, José Augusto Guilhon de Albuquerque, o capitão e deputado Jair Bolsonaro ganhou a disputa eleitoral em outubro “porque ‘foi o único que, em vez de dizer ‘vou fazer o mesmo de sempre, só que melhor, mais bonito ou mais radical’, disse que ia acabar com tudo o que, em cinco anos de indignação popular, não mereceu resposta da elite política”. Na entrevista da semana ao Blog do Nêumanne, o professor titular aposentado da USP analisou em profundidade a cena política nacional, tema de sua especialidade, desde os movimentos de rua há cinco anos até a eleição de dois meses atrás. Ao explicar por que as massas que saíram à rua não se mobilizaram, como era de esperar, em torno do impeachment de Dilma, ele ponderou: “A aprovação das massas foi silenciosa porque já estava rouca de se esgoelar em vão. Note-se que o impeachment só foi encaminhado pelo PSDB quando se tornou evidente que o tapetão não garantiria a posse de Aécio sem uma nova eleição, mas não em resposta aos 80% que rejeitavam Dilma e continuaram rejeitando o seu legítimo herdeiro, Temer, o que mostra o grande consenso popular, e não a divisão radical da sociedade.  A imensa maioria busca a mesma coisa: menos desgoverno, menos politicagem, menos privilégios, menos incompetência, menos roubalheira”.

Para Guilhon, em 2013, o povo disse estar “por aqui” com a política e os políticos, com o modo como somos tratados pelas elites dirigentes

Para Guilhon, em 2013, o povo disse estar “por aqui” com a política e os políticos, com o modo como somos tratados pelas elites dirigentes

Nascido em 19 de dezembro de 1940, em Belém do Pará, José Augusto Guilhon de Albuquerque viveu em diferentes cidades dos Estados do Rio, do Espírito Santo, de São Paulo e, no exterior, em Washington D.C. e em Londres. Doutor em Sociologia pela Univesrsité Catholique de Louvain, professor titular aposentado da USP, atualmente pesquisador sênior no Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da USP, senior research fellow do Wong Center for the Study of Multinational Corporations e diretor da Sobeet, a Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica. Fundou e dirigiu o Departamento de Ciência Política da USP, serviu como chefe de gabinete da Reitoria da USP e em todos os níveis de governo, municipal, estadual e federal. Sua área de pesquisa tem foco na política brasileira doméstica e internacional, especialmente as relações Brasil-EUA e Brasil-China. Publicou várias dezenas de artigos acadêmicos e algumas dezenas de livros em diversas línguas. Tem colaborado em todos os jornais de tiragem nacional e nas principais revistas semanais, e atua como convidado em programas nos principais canais de TV e rádio.

Nêumanne entrevista José Augusto Guilhon de Albuquerque

Guilhon, guarda-marinha, em cumprimento do serviço militar obrigatório, “sobrevivendo ao Corpo dos Fuzileiros Navais” e recebendo a família. Foto: Acervo pessoal

Guilhon, guarda-marinha, em cumprimento do serviço militar obrigatório, “sobrevivendo ao Corpo dos Fuzileiros Navais” e recebendo a família. Foto: Acervo pessoal

Nêumanne – Qual foi, em sua opinião, o estopim que fez a classe média perder a paciência de vez com o tratamento dispensado pelo Estado brasileiro à sociedade de forma estroina, desleixada e insensível, levando-a a protestar em massivas manifestações de rua em 2013?

José Augusto Guilhon – Qual estopim? No caso não acha que seriam inúmeros? Ou gota d’água, porque basta uma? Toda a população estava naquela atitude de “ras le bol“, como diziam os franceses e, pelo visto, continuam dizendo, ou seja, “estamos por aqui” com todo tipo de governos, “por aqui” com a política e os políticos, “por aqui” com o modo como somos tratados pelas elites dirigentes. Motivo não faltava para derramar a indignação e a revolta generalizadas. Saber por que o aumento das tarifas de transporte simbolizou a revolta ainda é tema para pesquisa, mas saber por que a classe média saiu na frente e por que seu desabafo calou fundo nos restantes 99% do povo suscita algumas hipóteses. A minha é de que, contrariamente às regalias que compartilha com as classes dirigentes – em seguridade, educação superior e atendimento médico, para dar alguns exemplos incontestáveis -, o descaso, o arbítrio, a verdadeira extorsão fiscal a que é submetida a classe média vem compartilhando, cada vez, mais como o povo em geral. Com isso a mensagem das ruas disse em alta voz o que a grande massa da população queria ouvir… e aprovou.

N – Por que, a seu ver, mesmo tendo respondido de forma absolutamente alienada e inconvincente, propondo um programa absurdo de cinco falsos pactos, o principal alvo de tal ataque, a presidente à época, Dilma Rousseff, do PT, ao lado de seu companheiro de chapa,  Michel Temer, do então PMDB, ainda venceu a eleição, embora por margem reduzida, contra o adversário Aécio Neves, do PSDB?

G – Dois processos que ocorreram simultaneamente, e em parte se reforçaram, parecem ter dado origem tanto à autofagia do governo Dilma quanto à sua reeleição, apesar disso. E também ao suicídio da coalizão de centro-direita que fora bem-sucedida na era do Plano Real e levou ao desastroso desfecho das últimas eleições: o sucesso de um aventureiro, calçado numa campanha populista de direita, que alardeia profunda admiração por ideias de exercício do poder popular por via de corporações e democracia direta, com grande desconfiança com relação aos canais institucionais de representação.

Refiro-me à absoluta recusa da classe política – governo Dilma incluído – de olhar para as ruas e ouvir sua mensagem. Essa omissão dolosa, e não apenas culposa – uma vez que a primeira obrigação da classe política é representar no poder os interesses e demandas do povo soberano -, pode ser simbolizada pelo fato de que, diante das primeira reações de desconforto por sua presença nas ruas, os partidos e os detentores de mandato popular fugiram quase todos da rua.

Na revista Interesse Nacional, que avaliava os resultados das eleições de 2014, publiquei um artigo intitulado O recado (mudo) das unas, que concluí com o seguinte alerta: “Restam três caminhos até 2018. O primeiro consistiria em vislumbrar, no decorrer dos próximos quatro anos, lideranças que encarnem a ‘nova política’ – cujo conteúdo ainda terá que ser construído – e acenem com compromissos críveis de uma gestão honesta e de ações decisivas para retomar o crescimento e estender, à imensa maioria, o bem-estar geral. Esse teria que ser o caminho das oposições, pois a viabilidade de vir do PT é totalmente incompatível com o petismo realmente existente. Outro caminho seria governo e oposições voltarem ao business as always, e apostarem na omissão das elites e no conservadorismo popular para deixar como está, como diria Getúlio, e ver como é que fica. Mas este caminho se cruza com o terceiro, um caminho retomado pela memória do levante de junho de 2013, agravada com as novas ofensas que os governantes não tardarão a causar. Seria o caldo de cultura para uma ‘revolução’ em busca de suas lideranças”.

Guilhon fazendo o discurso de formatura na Faculdade Nacional de Filosofia, na então Universidade do Brasil, "briga dura para ser eleito." Foto: Acervo pessoal

Guilhon fazendo o discurso de formatura na Faculdade Nacional de Filosofia, na então Universidade do Brasil, “briga dura para ser eleito.” Foto: Acervo pessoal

N – A frustração provocada no eleitorado pela preguiça do senador mineiro Aécio Neves – que obteve 50 milhões de votos e passou a representar a esperança de pelo menos metade da população brasileira, depois da derrota sumiu de cena, ausentando-se das sessões em plenário da chamada Câmara Alta e conduzindo uma oposição evidentemente de fancaria- pode, de acordo com seu ponto de vista, ter desmotivado a volta dos manifestantes de 2013 às ruas, apesar do desmazelo, da incompetência e da comprovada corrupção da gestão petista na primeira metade do segundo governo deDilma?

G – A contribuição do PSDB para a avacalhação das instituições e o embaralhamento do sistema partidário foi geral: nunca os candidatos tucanos puderam contar com o apoio das suas principais lideranças ao candidato de turno, formando-se uma coalizão de veto entre São Paulo, Minas, Bahia e Ceará, e parte das lideranças regionais e das bancadas federais faziam alianças tácitas com Lula ou Dilma. Coroando esse papel desagregador da oposição, prevaleceu, desde a eclosão do escândalo do mensalão, a estratégia autodestrutiva de preservar o adversário para que ele sangre até o fim do mandato.

Tal estratégia consiste em colocar-se no lugar do adversário, para avaliar sua principal ameaça, não para levá-lo à derrota, preservando os interesses da sociedade, mas dando-lhe corda para continuar agravando o sofrimento do povo e a estabilidade daNação. Isso explica como foi possível que as ruas voltassem a se manifestar em 2014, justo no ano das eleições, com a mesma omissão dolosa da Dilma e de toda a classe política, sobretudo da pretensa oposição, que conjugou à teoria do sangramento até o fim a esperança de eleger Aécio no tapetão do TSE.

Guilhon "Rumo ao Havre e ao doutorado Na Université Catholique de Louvain, em Leuven, Bélgica, em 1965". Foto: Arquivo Pessoal

Guilhon “Rumo ao Havre e ao doutorado Na Université Catholique de Louvain, em Leuven, Bélgica, em 1965”. Foto: Arquivo Pessoal

N – O que o senhor acha que motivou a grande mobilização partidária para aprovar o impeachment da presidente petista e a sucessiva posse de seu vice do então PMDB, sem que houvesse entusiasmo igual ao de 2013, mas, pelo menos com aprovação da chamada maioria, então, silenciosa?

G – A aprovação das massas foi silenciosa porque já estava rouca de se esgoelar em vão. Note-se que o impeachment só foi encaminhado pelo PSDB quando se tornou evidente que o tapetão não garantiria a posse de Aécio sem uma nova eleição, mas não em resposta aos 80% que rejeitavam Dilma e continuaram rejeitando o seu legítimo herdeiro, Temer, o que mostra o grande consenso popular, e não a divisão radical da sociedade.  A imensa maioria busca a mesma coisa: menos desgoverno, menos politicagem, menos privilégios, menos incompetência, menos roubalheira.

N – O senhor atribui a enorme impopularidade do presidente Michel Temer à revelação de sua conversa muito pouco republicana na garagem do Palácio do Jaburu com o marchante goiano, que virou titã da produção e comercialização da proteína mundial da noite para o dia, Joesley Batista, e à consequente compra de apoio na Câmara dos Deputados para impedir a abertura de inquérito criminal contra o chefe do Executivo?

G – Creio que se trata de três mecanismos causais, não necessariamente independentes, que contribuem para isso: entre os 80% da base de sustentação do governo Dilma, a maioria tinha interesse em chantagear a Presidência, enfraquecer o novo presidente impedindo o sucesso de seu programa de liberalização da economia e austeridade do gasto público. Os tucanos se superaram, formulando uma nova política para o novo governo, fornecendo alguns de seus melhores quadros para dele participarem e votando contra todos os seus próprios projetos.

Temer tentou empenhar-se em medidas impopulares, sem apoio programático em sua própria base e sem dar resposta à indignação popular, quando poderia combinar até duas hipóteses, mas não todas as três. Por cima, escolheu a pior combinação, virou de costas para a indignação popular e adotou medidas impopulares.

Joesley Batista foi a gota d’água provocada pela revolta das corporações privilegiadas contra a ameaça de perda de suas prerrogativas e prebendas, que Temer jamais teria a coragem de efetuar. Se não fosse Joesley, as corporações investigativas e judiciárias teriam fabricado outra opção, com a generosa contribuição do próprio Temer.

Guilhon, comendador da Ordem de Rio Branco, é pesquisador sênior no Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da USP. Foto: Acervo pessoal

Guilhon, comendador da Ordem de Rio Branco, é pesquisador sênior no Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da USP. Foto: Acervo pessoal

N – No começo de 2018, havia certa esperança no ar de uma eleição presidencial que permitisse ao eleitor encontrar um jeito de dar um drible da vaca nos chefões partidários e escolher alguém para a sucessão do breve Temer. Esse movimento sub-reptício foi contra a reeleição dos praticantes da velha política, que, em resposta, recusaram a possibilidade de candidaturas avulsas e outras fórmulas institucionais para o povo assumir, de fato, o poder que dele emana de acordo com a Constituição. Mas os chefões das organizações partidárias obstruíram todas essas saídas. O senhor diria que subestimaram a astúcia do povo, imaginando que cumpririam sua tarefa de manter o status quo,impedindo candidaturas rebeldes dentro de suas condições de luta pela impunidade e manutenção do foro privilegiado?

G – Subestimaram, sim, mas também sobrestimaram a capacidade dos aventureiros para enfrentar o segundo maior desafio da política, a campanha eleitoral, atrás apenas do desafio de conter a cobiça dos grandes sem ofender demasiado o povo. Oestablishment perdeu tempo demais com a tentativa de travestir magnatas e saltimbancos em candidatos, e todos deram chabu. Quando veio a hora de apelar para a virtude dos candidatos já dados por inviáveis, mas em plena campanha, já foi tarde.

N – Em que momento e circunstâncias, segundo sua visão, o deputado federal e capitão Jair Bolsonaro, do baixíssimo clero da Câmara, conseguiu com seu partideco de direita, menos de R$ 2 milhões para gastar na campanha, 400 vezes menos do que Dilma e Temer empregaram em 2014, sem participar de debates nos meios de comunicação nem da campanha após ser esfaqueado, com apenas oito segundos no horário obrigatório dos partidos no rádio e na televisão, conquistar as mentes e os corações dos cidadãos brasileiros cansados dos desgovernos do PT, seus aliados e seus adversários da velha política?

G – A prova de que Bolsonaro não conquistou corações e mentes do povo brasileiro é que foi eleito por uns 30% da população, e menos de 40% do eleitorado, tendo a soma dos ausentes, votos em branco e nulos em segundo lugar e Haddad em último.

Guilhon acha que "A contribuição do PSDB para a avacalhação das instituições e o embaralhamento do sistema partidário foi geral@. Foto Hélvio Romero/Estadão

Guilhon acha que “A contribuição do PSDB para a avacalhação das instituições e o embaralhamento do sistema partidário foi geral@. Foto Hélvio Romero/Estadão

N – Qual foi o motivo de esse mesmo Bolsonaro haver se livrado de sua pecha de admirador de torturador e pretenso candidato a um golpe militar ter convencido brasileiros desiludidos com a falácia e a desfaçatez do neopopulismo de rapina do PT, mas também nada propensos a abraçarem uma causa autoritária e militarista para alcançar a marca espetacular de quase 58 milhões de votos, esmagando o adversário Lula, representado na eleição por Fernando Haddad?

G – É que ele foi o único que, em vez de dizer “vou fazer o mesmo de sempre, só que melhor, mais bonito ou mais radical”, disse que ia acabar com tudo o que, em cinco anos de indignação popular, não mereceu resposta da elite política.

N – Que feridas dolorosas produzirão cicatrizes marcantes na alma da democracia brasileira com esta bipolarização radical e violenta com que a disputa entre o capitão e o ladrão maculou a disputa eleitoral, dificultando o processo de amadurecimento e crescimento de nossa democracia num pleito, apesar dos pesares, pacífico, ordeiro e, sobretudo, muito legítimo?

G – A população não me parece radicalmente polarizada, as campanhas é que se empenharam em deixá-las sem opção, e as evidências são de que, entre os 80% que rejeitaram Dilma e os 80% que rejeitaram Temer, a grande maioria compartilhou ambas as rejeições. Se e quando ficar evidente que a missão assumida por Bolsonaro é inviável sem mudanças radicais em seumodus operandi, a revolta vai voltar a se manifestar.

N – O senhor acredita que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, terá condições, talento e disposição para enfrentar a tarefa ingente de reduzir o desemprego, debelar a crise econômica, financeira, política e ética e reconstruir o Brasil do desastre dos últimos anos, apesar da chantagem e da sabotagem de seus adversários, principalmente do PT, e não apenas dele, mas também da vetusta máfia política encastelada desde sempre no poder e, enfim, cumprir suas promessas para atender às ambiciosas expectativas de seus eleitores fiéis e fanáticos e também da massa de antipetistas sem os quais ele não teria vencido?

G – Nenhuma das acima citadas. Uma nota: nos maiores eleitorados brasileiros, como São Paulo, Rio, Minas, Rio Grande do Sul, o antipetismo não explica nada.

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Links de imagens da entrevista

Guilhon participa do debate WW em 30/11/18

Guilhon faz balanço de 2016 no Jornal da Gazeta. Clique aqui. 

Nêumanne entrevista José Augusto Guilhon. 35ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista José Augusto Guilhon. 35ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

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