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Jornalismo

Nêumanne Entrevista Luiz Henrique Mandetta

Nêumanne Entrevista Luiz Henrique Mandetta

Mandetta prevê vacinação aos soluços

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta diz-se muito triste com a desastrada logística do general Pesadelo, intendente incompetente da imunização na abertura de seu fictício e atemporal plano nacional de vacinação. O protagonista da série Nêumanne entrevista da semana teme que, com atrasos nas entregas de insumos para a produção da coronavac no Butantã e o envase da Astrazeneca/Oxford na Fiocruz, a aplicação do imunizante ocorra aos soluços: chegam doses, são aplicadas, faltam doses, para tudo até novos fornecimentos forem feitos. O ex-deputado federal matogrossense revelou fatos imiportantes do início da luta contra a pandemia, que esclarecem os episódios mais recentes. Contou, por exemplo, que Bolsonaro, sua famiglia e outros radicais de dirfeita impuseram obstáculos a suas boas relações com chineses e indianos para facilitar a compra de máscaras e testes produzidos pelos sócios no Brics. Numa dessas ocasiões foi proibido de receber o embaixador da China em Brasília pelo ex-chefe. Direto ao assunto. Inté. E só a verdade nos salvará

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Nesta quarta-feira no Estadão: Graças a Deus, ainda há Anvisa em Brasilia

Nesta quarta-feira no Estadão: Graças a Deus, ainda  há Anvisa em Brasilia

José Nêumanne

Por 5 a 0 agência de vigilância sanitária

resgatou vida e ciência e recusou culto à morte

Devotos do apóstolo Tomé, que exigiu ver o Cristo ressuscitado e tocar nas chagas da crucifixão para crer, tinham sérias razões para duvidar que a diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizasse o uso emergencial da Coronavac, do laboratório chinês Sinovac e do Instituto Butantan, paulista. Seus cinco diretores foram indicados pelo presidente Jair Bolsonaro, que chama o imunizante de “vachina” e fez o possível e impossível para sabotar sua utilização na “campanha nacional de vacinação”, de ainda duvidosa existência, fiel à condição de artilheiro matador e a sua estúpida negação da ciência.
Tal dúvida tinha precedente a motivá-la. O diretor-presidente da agência, contra-almirante Antônio Barra Torres, apesar de médico, prestigiou, ao lado do chefe do Executivo, ato antidemocrático na Esplanada dos Ministérios, sem máscara nem distanciamento social, em 15 de março de 2020. Ficou claro na ocasião seu apoio aos golpistas bolsonaristas, expostos na ocasião em palavras de ordem, cartazes e faixas de ataque ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Congresso Nacional. Os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre, foram os nomes mais criticados pelos manifestantes. Em cartazes, parlamentares eram chamados de chantagistas. Um deles defendia fogo e álcool combinados para enfrentar o “vírus” do Supremo Tribunal Federal (STF). “Bolsonaro se aproximou dos manifestantes, fez selfies com o rosto colado e tocou nas mãos das pessoas. Em alguns momentos da transmissão do encontro, Torres apareceu filmando os cumprimentos entre Bolsonaro e os apoiadores presentes”, conforme relato dos repórteres do Estadão Jussara Soares e Mateus Vargas.

Imensa, portanto, foi a surpresa de telespectadores que, em audiência de transmissão de decisão futebolística, acompanharam a decisão histórica esperando o pior, caso do autor destas linhas, ao ouvir a abertura de Torres endossando as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) no combate à pandemia: distanciamento social, uso de máscaras e higienização obsessiva. Estas foram adotadas pelo primeiro ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e pelo governador do Distrito Federal (DF), Ibaneis Rocha, que, há dez meses, proibiu aglomerações. As recomendações dos técnicos deram o pontapé inicial nas dúvidas que ainda pairavam no ar sobre a votação.

A relatora, Meiruze Freitas, foi indicada pelo corpo técnico da Anvisa, com estabilidade garantida pela Constituição (conforme destacou o penúltimo diretor a votar), e indicou caminho similar ao dos apóstolos de Cristo na estrada de Emaús: aprovação da Coronavac com a garantia de acompanhamento da segurança pelos fornecedores e pela própria agência. Romison Mota e Cristiane Gomes, também nomeados pelo capitão cloroquina, acompanharam a relatora.

O quarto voto merece destaque. Foi de Alex Campos, que começou homenageando, de forma emocionante, os mortos por covid e seus entes queridos enlutados. Numa demonstração de coragem e gratidão, citou o ex-ministro Mandetta, em cujo gabinete serviu e por quem foi indicado ao presidente para preencher o cargo. E, last but not least, elogiou a independência no trabalho dos meios de comunicação, que, a seu ver, o servidor público deve respeitar. Sem perder em momento algum a sobriedade, deu uma aula de civilidade e responsabilidade e, garantida a maioria, afastou o fantasma do negacionismo, que pareceu fugir da sala.

No último voto, o presidente Torres jogou a pá de cal nas pretensões de quem o indicou para o posto e apostou na mortífera tentativa de desqualificação da imunização. Na sessão, de mais de cinco horas, o brado de independência foi: “Vá e vacine”. E só imunizar não deterá o avanço do contágio do novo coronavírus. A cereja do bolo foi a condenação explícita do “tratamento precoce”, codinome da devastadora hidroxicloroquina, que o charlatão-mor da República quer impor a médicos e hospitais do País.

A Anvisa deu o primeiro passo. Os secretários estaduais de Saúde se disseram no limite com o ainda chefe do governo. Em entrevista ao canal do autor deste artigo no YouTube, o ex-ministro da Justiça Miguel Reale Júnior disse que há mais motivos para impeachment agora do que quando participou do de Collor e foi coautor do de Dilma. O próprio capitão de milícias não se fez de rogado ao comentar a goleada de cinco a zero sofrida: “Não tem o que discutir mais”. E eximiu-se do dever de ofício de apoiar a imunização.

Isso faz lembrar a fábula do moleiro ao comentar a vitória sobre Frederico II, “sacro imperador da Prússia”, que tentou desapropriar seu moinho: “Ainda há juízes em Berlim”. Sim. Em Brasília há a Anvisa. Resta saber se ainda existirão no cerrado seco representantes do povo no Congresso e ministros da cúpula judiciária à altura de seus cargos para fazer o que urge: depor o capitão da morte Jair Bolsonaro por meios constitucionais. Isso já devia ter sido feito. Mas sempre será tempo de mudar e fazê-lo, como o fez Barra Torres. Agora, não. Já! Se qualquer dia for perdido, mais de mil brasileiros serão condenados à morte por omissão e inépcia de um governo assassino.

*Jornalista, poeta e escritor

Artigo no Blog: Manaus sem ar, cheiro de morte e golpe

Artigo no Blog: Manaus sem ar, cheiro de morte e golpe

José Nêumanne

Governo ignora fim de estoques de oxigênio na capital do Amazonas, Bolsonaro não toma providências e ameaça com autogolpe a democracia, que evitaria chegar a 300 mil mortes na pandemia

Partindo de relatos no WhatsApp enviados por Edilson Martins, nortista, jornalista, meu colega no Jornal do Brasil, e Ophir de Castro, empresário brasileiro que mora na Flórida, reconstituo o relato de fatos que revelam os verdadeiros responsáveis pela tragédia da falta de oxigênio em Manaus: Jair Bolsonaro, o Rocinante, e Eduardo Pesadelo, o Sancho Pançudo.

Colunista pioneiro de meio ambiente, no Pasquim, periódico de resistência à ditadura militar, Martins escreveu no Facebook: “Os brasileiros, em razão da peste açoitando, sem controle, o país, passam a ser afugentados, recusados nas principais cidades do mundo. Viramos cães pirentos” (ou seja, com perebas).

Uma consulta rápida ao Google dá conta de que o governador do Amazonas, Wilson Lima, apoiou e foi apoiado pelo então candidato a presidente, Jair Bolsonaro, que teve na capital amazonense 66% dos votos válidos no segundo turno. Segundo Martins, “Lima pisou na jaca, entre outras acusações, ao contratar uma empresa que opera na área de vinhos, na compra de equipamentos inadequados, para combater a Covid-19. Só não respondeu a impeachment, até agora, pelos ilustres deputados da  Assembleia Legislativa, bom… cala-te boca”.

E Ophir lembrou que, “pouco antes do Natal, um decreto estadual proibiu a abertura do comércio não essencial em Manaus por quinze dias a partir de 26 de dezembro. Na manhã de 26, uma turba enfurecida, de verde-amarelo, protestou no centro de Manaus contra o decreto do governo. O governador Wilson Lima atendeu à plebe e autorizou a reabertura do comércio. Eduardo Bolsonaro comemorou: ‘1.º Búzios e agora Manaus. Todo poder emana do povo’. O deputado bolsonarista Daniel Silveira acompanhou o patrão: ‘E aí @wilsonlimaAM, viu quem manda no estado? Para com essa palhaçada de lockdown, senão vai ser arrancado do palácio pelas mãos do povo, literalmente. Recado dado e que os outros ditadorezinhos de porcaria entendam a mensagem. O poder emana do povo’, repetiu. A deputada Bia Kicis fez eco ao chefe no Twitter, ‘A pressão do povo funcionou também em Manaus. O governador do Amazonas, @wilsonlimaAM, voltou atrás em seu decreto de lockdown. Parabéns, povo amazonense, vocês fizeram valer seu poder!’. É a autora do PL 4650/20, que desobriga o uso de máscaras de proteção individual para evitar a contaminação por (sic) novo coronavírus”.

“Osmar Terra, médico, candidato a ministro da Saúde e defensor da cloroquina, postou na semana passada: ‘Embora noticiário alarmista, Manaus tem queda importante de óbitos desde julho, mostrando uma imunidade coletiva (de rebanho) em formação e se manteve assim até o último dia do ano’”, registrou o executivo.

No começo da semana passada, o intendente incompetente visitou Manaus, reforçou o tratamento precoce contra a covid-19 e disse que a prescrição da cloroquina pode ser feita pelo médico antes dos resultados dos testes. Daí veio a notícia nefasta: “Manaus vive colapso com hospitais sem oxigênio, doentes levados a outros Estados, cemitérios sem vagas e toque de recolher”. A média móvel de mortes no estado cresceu 183% nos últimos sete dias e num só dia morreram três médicos.

Sem oxigênio, Manaus não ficou em chamas, como Paris sob Hitler, no filme do gênio do cinema francês René Clément. O Ministério da Saúde mobilizou sete Estados para receberem 750 pacientes do Amazonas. Na quarta-feira, 13, uma aeronave levou oito toneladas de equipamentos hospitalares para a cidade, incluindo cilindros de oxigênio. Mas os estoques terminaram. Como é notório, o general Pesadelo comandou tropas do Exército e tem parentes na capital amazonense. Saiu dizendo que não havia o que fazer. No dia seguinte, os noticiários da TV registraram um brigadeiro no comando de aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) levando pacientes manauaras para outras capitais e trazendo no voo de volta cilindros para atender quem não pudesse viajar.

Na live de quinta-feira, 14, Bolsonaro pediu calma, sem manifestar nenhuma empatia, sensibilidade ou solidariedade. Nem lamentar o luto das famílias atingidas. Como de hábito, transferiu a culpa para o governador do Amazonas e o prefeito da capital. OMas o hospital de referência para covid-19 é da Universidade Federal da Amazônia (UFAM), ou seja, da União. O Sistema Único de Saúde (SUS), subordinado ao Ministério da Saúde é, aliás, a única repartição pública federal que funciona na pandemia.

Em novembro, Bolsonaro vetou a compra de um jato da Boeing. Em janeiro, o governo pediu um avião da Força Aérea dos EUA  para transportar cilindros de oxigênio para Manaus. A White Martins, principal fornecedora de oxigênio, anunciou que deverá  trazer estoques do produto da sua fábrica da… Venezuela.

Aí apareceu o vice, Hamilton Mourão, e disse que a tragédia de Manaus foi imprevista. Em março de 2020, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique  Mandetta, previu o colapso no sistema de saúde e o registro de 180 mil mortos por covid no Brasil. Ele foi demitido e o Ministério da Saúde cancelou as informações diárias das estatísticas em entrevistas coletivas. Os meios de comunicação obtêm os dados das Secretarias de Saúde e na manhã da segunda-feira, 18 de janeiro, o consórcio relatava que 209.906 brasileiros haviam morrido de covid.

Também no primeiro dia da semana o Ministério da Saúde, enfim, anunciou um plano nacional de imunização sem vacinas suficientes para tanto. Disponíveis só dez milhões de doses no País, graças a convênio do Instituto Butantan, paulista, com o laboratório chinês Sinovac, de setembro. Que o artilheiro mortal chama de “vachina”. O sinistro Pesadelo, que marcou o início para o “dia D, hora H”, viu o governador de São Paulo, João Doria, acompanhar a vacina sendo aplicada na enfermeira Mônica Calazans, de 54 anos, negra, corintiana, moradora de Itaquera, na periferia paulistana. O dia D virou dia do Doria. Da hora H nem Deus é capaz de dar conta. Ignorados pelo governo federal, os brasileiros contam com uma compra de 160 milhões de vacinas produzidas pela parceria Oxford-AstraZeneca com a Fiocruz. Ilusão! A vacina em questão é produzida pelo laboratório indiano, com insumos chineses (ou seja, “comunistas”), Serum, e este não liberou sequer os 2 milhões de doses que o governo brasileiro mandaria buscar em Mumbai num avião da Azul especialmente fretado para tanto. Não há calendário de vacinação nem perspectiva de produção da Fiocruz. As remessas de coronavac também podem não ser feitas logo pelo mesmo motivo: a escassez dos insumos da China. Ou seja, estamos acuados numa árvore da Amazônia pela cachorrada perebenta.

Sem vacina, humilhado pela Anvisa por cinco a zero e engolindo a vitória do rival que escolheu para disputa eleitoral, Bolsonaro resolveu ameaçar o País com a ditadura. Ao gado que o segue cegamente disse no jardim do Alvorada: “Nós, militares, somos o último obstáculo para o socialismo. Quem decide se um povo vai viver na democracia ou na ditadura são as suas Forças Armadas. Não tem ditadura onde (sic) as Forças Armadas não apoiam”, E ainda cometeu um ato falho: “Apesar das vacinas”. Xô, Bolsonaro, já! Antes que dê o autogolpe e continue boicotando a única esperança de fim da pandemia e da recessão, que é a “vachina”, que ele e seu gado desprezam por ignorância e arrogância.

QED (quod erat demonstrandum, o que havia de ser demonstrado)

*Jornalista, poeta e escritor

Publicado no Blog do Nêumanne, segunda-feira 18 de janeiro de 2021)

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Nêumanne Entrevista Miguel Reale Jr.

Nêumanne Entrevista Miguel Reale Jr.

Bolsonaro é louco, diz Reale

Tendo atuado no processo de impeachment de Collor e autor, em parceria com a colega Janaína Paschoal, do processo do de Dilma, o ex-ministro da Justiça Miguel Reale Jr. exige do Ministério Público Federal que determine já que uma junta psiquiátrica ateste a eventual saúde mental do presidente da República, Jair Bolsonaro. Ciente da probabilidade de que o procurador-geral da República, Augusto Aras, não cumpra seu dever legal, o professor da Faculdade de Direito da USP relacionou na edição desta semana da série Nêumanne Entrevista uma relação de crimes de responsabilidade, que vão de conspirações contra as instituições da democracia, configurando evidências de autogolpe, até o comportamento criminoso na necessidade de coordenar o combate à pandemia da covid 19, atuando de forma declarada contra medidas sanitárias e sabotando providências para imunização. Reale reconhece a dificuldade de iniciar o processo pela cumplicidade de parlamentares e dirigentes de várias instituições da sociedade civil. Direto ao assunto. Inté. E só a verdade nos salvará.

 

Nêumanne Entrevista Extra: Vecina aposta no sucesso da vacina

Nêumanne Entrevista Extra: Vecina aposta no sucesso da vacina

O fundador e primeiro presidente da Anvisa, Gonzalo Vecina, acredita no sucesso da campanha de vacinação contra a covid 19, a exemplo do que já ocorreu em combate a pandemias e epidemais já travados no Brasil, apesar da sabotagem do presidente Bolsonaro e do ministro Pesadelo. E também do crasso erro de comunicação cometido pelo Butantan e pelo governador de São Paulo, João Doria, que criou grande confusão sobre o índice de eficácia da Coronavac. Em entrevista exclusiva ao canal, o professor da USP e da FGV confia na qualidade e eficiência da vacina fabricada pelo instituto paulista, de 119 anos de experiência, em parceria com o laboratório chinês Sinovac. E acha que a saraivada de ironias disparada pelo capitão sem noção e seus asseclas não prejudicará o cronograma da vacinação, mercê da expertise do SUS. Direto ao assunto. Inté. E só a verdade nos salvará.

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No Blog do Nêumanne: O pato de Donald repetirá o patrão

No Blog do Nêumanne: O pato de Donald repetirá o patrão

José Nêumanne

Bolsonaro já avisou a quem interessar possa que seguirá modelo da invasão do Capitólio se perder a eleição de 2022 e não for adotado voto impresso, o que tem poucas chances de ocorrer

Duas notícias da semana passada, que aparentemente não têm relação entre si, revelam o alto risco corrido pela incipiente, mas até agora sólida, democracia brasileira de repetir autogolpes recentes da História da República: o de Getúlio, em 1937, e o da junta militar de 1969. O estancieiro gaúcho, que havia amarrado os cavalos da tropa no obelisco no Rio, em 1930, submeteu o movimento constitucionalista dos paulistas, em 1932, e assumiu a ditadura escancarada cinco anos depois, interrompendo a eleição presidencial em plena disputa entre Armando de Salles Oliveira e José Américo de Almeida. Após o impedimento do segundo presidente sob o golpe de 1964, marechal Costa e Silva, o vice-presidente civil, udenista e mineiro Pedro Aleixo, que se opusera ao Estado Novo getulista, teve a posse vetada, 32 anos depois, por uma junta militar. Composto pelo almirante Augusto Rademaker, pelo general Lira Tavares e pelo brigadeiro Márcio de Sousa Melo, o triunvirato escancarou a ditadura com “eleições” indiretas de três generais: Emílio Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo.

Em 7 de janeiro passado, o capitão terrorista Jair Bolsonaro anunciou, sem medo de ser feliz, ao comentar o fiasco do golpe de seu patrão ianque, Donald Trump, na véspera, Dia dos Santos Reis: “Se nós não tivermos o voto impresso em 2022, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior que os Estados Unidos”. Mais tarde, na live semanal de quinta-feira, insistiu: “Qual o problema nisso? Estão com medo? Já acertaram a fraude para 2022? Eu só posso entender isso aí. Eu não vou esperar 2022, não sei nem se vou vir (sic) candidato, para começar a reclamar. Temos que aprovar o voto impresso”. Eis a crônica do autogolpe anunciado, sem pudor, sem lógica e sem admitir contraditórios.

Em março passado, o presidente disse que apresentaria provas de que o pleito presidencial de 2018, vencido por ele, foi fraudado. Como de hábito, estava blefando: nunca apresentou sequer um indício de que o resultado da eleição tenha sido alterado de forma ilícita, contrariando a vontade do eleitor. Em novembro, seu patrão, Trump, perdeu a reeleição para o democrata Joe Biden por diferenças abissais: 74 delegados dos 50 Estados (306 a 232) e 8 milhões 59 mil e 741 sufrágios na votação popular (81.283.485 a 74.223.744). No entanto, abusou da “regra três” (como cantavam Toquinho e Vinicius no século passado), ao reclamar, sem provas, de ter sido “furtado”. Mas, como seu pato dos trópicos, o patrão ianque não revelou um indício de fraude que fosse, teve todas as ações rejeitadas nos Estados e não recebeu a proteção com que contava na Suprema Corte, onde seis dos nove ministros são conservadores, incluindo a última, que ele próprio indicou, Amy Coney Barrett ao arrepio da evidência de abuso pelos poucos dias que faltavam para o fim do mandato.

Como seu pato tupiniquim, o patrão abusado protagonizou um escândalo de dimensões ciclópicas ao pressionar o secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger, em telefonema de uma hora, revelado pelo jornal que denunciou o escândalo Watergate, The Washington Post. Carl Bernstein, um dos autores da reportagem, disse à CNN que esse caso ainda é mais escandaloso que o de Richard Nixon. No entanto, Trump o superaria ao convocar, em comício, uma turba de radicais lunáticos a invadir por quatro horas o Capitólio, sede do Senado e da Casa dos Representantes (equivalente à nossa Câmara dos Deputados), provocando o maior quebra-quebra institucional da História da democracia dos pais fundadores, desde 1776, há 244 anos. O mundo inteiro desabou sobre a cabeça do presidente dos EUA, com uma exceção. Mais uma vez, Bolsonaro não se fez de rogado ao comentar o vexame fascistoide de seu ídolo: “Você sabe que sou ligado ao Trump. Então, você sabe qual a minha resposta aqui”.

Haverá alguma instituição no País pronta para segui-lo na aventura para ter êxito imitando o malogro de Trump? Apesar de sempre insinuar e, às vezes, afirmar que as Forças Armadas estão com ele e de manter em cargos bem remunerados oficiais da ativa e da reserva, invejáveis boquinhas, talvez não conte com sua ajuda numa aventura antidemocrática para impor o voto impresso. Que só interessa a seus amigos das milícias cariocas e aos coronéis que ainda restam nos grotões, alguns deles do Centrão. Na verdade, ele conta mesmo é com as milícias armadas, que parodiam o lema de seu mais novo aliado secreto, Lula da Silva: “O povo armado jamais será vencido”. O apoio que alicia é das Polícias Militares estaduais. E, segundo reportagem de Felipe Frazão, do Estadão em Brasília, já há no Congresso, à espera de votação, dois projetos de lei orgânica das Polícias Civil e Militar restringindo o poder de governadores sobre braços armados dos Estados e do Distrito Federal. Ninguém pode deixar de agir por desconhecimento. Na reunião ministerial de 22 de abril de 2020, gravada e transmitida para todo o País graças à clarividência do ex-decano do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello, Sua Insolência defendeu claramente armar o que ele chama de “povo”. E mais: o capitão de milícias, que prestigia todas as formaturas de academias de PMs, não perde uma oportunidade de declarar sua posição favorável à tal “excludente de ilicitude”, que, na prática, inocenta todos os policiais acusados de abuso de autoridade em confrontos armados em comunidades, sejam quais forem as circunstâncias. Menos ainda o por enquanto presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Pois seu pai, o ex-prefeito César Maia, invocou o próprio testemunho para lembrar que, no golpe facistoide de Pinochet, no Chile, os “carabineiros” tiveram tal importância que o ditador adotou a corporação como quarta força armada. Nenhum dos 70 projetos de impeachment do candidato ao autogolpe, contudo, sai da gaveta do filhote, que, aliás, nasceu no Chile, não foi?

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda 11 de janeiro de 2021)

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