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Jornalismo

No Blog: Nêumanne entrevista Guzzo

No Blog: Nêumanne entrevista Guzzo

Reajuste para STF é assalto ao povo

à beira da estrada, diz Guzzo

Colunista de Veja e Exame acha, como Bolsonaro, que Constituição distribui direitos demais e chama isso de “palhaçada”, pois boa parte não é usufruída pelos cidadãos

Para o jornalista J. R. Guzzo, o reajuste reivindicado pelos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e aprovado pelo Senado “é uma coisa de submundo, uma expressão de tudo o que existe de pior nesse Brasilvelho, subdesenvolvido, concentrador de renda, corrompido até o fundo da alma, trapaceiro, parasita, que faz a nossa desgraça de todos os dias. Bolsonaro estaria começando muito mal, realmente, se não tivesse falado nada. Os 58 milhões de votos que recebeu foram contra isso, não a favor”. O colunista da revista Veja,protagonista da semana da série Nêumanne entrevista neste blog, concordou com a frase polêmica do presidente eleito de que neste país há direitos demais e empregos de menos. Conforme Guzzo, “isso já foi dito por um monte de gente boa, um monte de vezes, e reflete exatamente a palhaçada hipócrita dos nossos 10 milhões de leis, ou sabe lá Deus quantas. Criam direitos para tudo o que se possa imaginar, quase sempre pagoscom dinheiro do contribuinte – dinheiro que na maioria das vezes simplesmente não existe na vida real. Boa parte deles não pode ser desfrutada pelos beneficiários. Outra parte é pura safadeza para encher o bolso da casta mais alta do serviço público. Todos partem de uma base viciada: a ideia de que o poder público tem a capacidade de criar benefícios materiais assinando um pedaço de papel. Não funciona assim”.

Guzzo acha "palhaçada" direitos dados pela Constituição e milhões de leis, não usufruídos por boa parte dos cidadãos. Foto: Felipe Cotrim/Editora Abril

Guzzo acha “palhaçada” direitos dados pela Constituição e milhões de leis, não usufruídos por boa parte dos cidadãos. Foto: Felipe Cotrim/Editora Abril

O paulistano José Roberto Guzzo é jornalista e atua com assiduidade em redes sociais, fazendo muito sucesso com seus posts no Twitter. Começou a carreira de comandante de redações em 1964, como subsecretário da edição paulista do jornal Última Hora, de Samuel Wainer. Foi para a Editora Abril em 1968, tendo feito parte da equipe original da revista Veja, ajudando a criar o estilo de texto nela adotado. Dirigiu a redação dos anos de 1976 a 1991, parte dos quais também dirigindo a revista de economia Exame. Em agosto desse ano, passou a revezar com Roberto Pompeu de Toledo a última página da Veja. Em 2014, quando se tornou membro do Conselho Editorial da Abril, ao qual não mais pertence, apresentou na Veja.com um programa veiculado na TVeja. Atualmente é colunista nas revistas Veja e Exame.

Dez perguntas para o jornalista J. R. Guzzo

Nêumanne – O presidente eleito, Jair Bolsonaro, está sendo acusado por muitos coleguinhas nossos por, na visão deles, estar criando problemas e transtornos demais para a transição do governo moribundo de Michel Temer para a futura gestão dele, escolhido por mais de 56 milhões de eleitores. Qual é sua opinião sobre esse quiproquó? Quem tem razão?

Guzzo – Acho que ninguém tem razão, ou deixa de ter razão, porque não há quiproquó nenhum. O que há é um presidente eleito se comportando como um presidente eleito. Alguma coisa ele precisa já ir fazendo, pois daqui a pouco mais de um mês vai chefiar o governo. Como você diz, a gestão Temer já está tirando as medidas para lhe fazerem o caixão, não dá para esperar até o enterro e só então começar o trabalho. Todos esses problemas gravíssimos que os jornalistas levam ao noticiário têm a seguinte relevância: zero.

Ricardo Fisher, Victor Civita e J. R. Guzzo em 1982 no auge do prestígio da Veja e da Abril. Foto: Paulo Salomão/Editora Abril

Ricardo Fisher, Victor Civita e J. R. Guzzo em 1982 no auge do prestígio da Veja e da Abril. Foto: Paulo Salomão/Editora Abril

N – Entre as frases ditas por Bolsonaro em suas aparições nas redes sociais, que se tornaram uma marca de sua campanha, está uma, que é indesmentível, mas considerada polêmica pela intelligentsia e parte da diligente companheirada dos meios de comunicação. Ela pode ser resumida num lema: “O Brasil tem direitos demais e empregos de menos”. O senhor concorda com o presidente eleito ou com seus críticos,nesse particular?

  1. G.  Eu concordo inteiramente. O novo presidente está apenas apresentando um fato. Isso já foi dito por um monte de gente boa, um monte de vezes, e reflete exatamente a palhaçada hipócrita dos nossos 10 milhões de leis, ou sabe lá Deus quantas. Criam direitos para tudo o que se possa imaginar, quase sempre pagoscomdinheiro do contribuinte – dinheiro que na maioria das vezes simplesmente não existe na vida real. Boa parte deles não pode ser desfrutada pelos beneficiários. Outra parte é pura safadeza para encher o bolso da casta mais alta do serviço público. Todos partem de uma base viciada: a ideia de que o poder público tem a capacidade de criar benefícios materiais assinando um pedaço de papel. Não funciona assim.

N – Na mesma ocasião, o autor da frase se sentiu constrangido a assegurar que cumprirá todos os deveres que constam da Constituição de 1988, o que seria escusado dizer, de vez que terá de jurá-lo na posse e já tem afirmado. O senhor acha que ele agiu corretamente ao explicitá-lo mais uma vez ou que, a esta altura, já seria até dispensável?

G – Acho que fez muito bem. Vai fazer o quê? O homem é acusado todo dia de ser um ditador à espera do dia da posse. Se não ficar falando que vai, sim, respeitar a Constituição, vão dizer que ele não tem compromisso com o Estado de Direito. Então ele fala o óbvio, pois se não falar o óbvio vai ser cobrado. Outro presidente não precisaria dizer nada disso. Bolsonaro precisa.

José Roberto Guzzo – 1972: Guzzo: boa parte dos direitos não é gozada por cidadãos e outra "é safadeza para encher o bolso da casta do serviço público". Foto: João Bittar/Editora Abril

José Roberto Guzzo – 1972: Guzzo: boa parte dos direitos não é gozada por cidadãos e outra “é safadeza para encher o bolso da casta do serviço público”. Foto: João Bittar/Editora Abril

N – Em sua primeira visita a Brasília, o deputado e capitão que ganhou a eleição participou de uma solenidade comemorativa dos 30 anos da Constituição, que Ulysses Guimarães, líder da resistência civil à ditadura militar, chamava de “cidadã”. Ali ouviu muitas juras hipócritas e muitas loas à Carta Magna. O senhor acha que, como dizem os comentaristas esportivos, a Constituição está realmente com “essa bola toda”?

G – Na minha opinião,  essa Constituição não está com bola nenhuma. Ela tem de ser respeitada porque está em vigor e não existe outra. Também acho que o novo governo vai cumprir tudo o que está escrito lá, ou aprovar no Congresso reformas que mudem o seu texto. Mas muito pouca gente de carne e osso estaria disposta a dar sequer uma volta no quarteirão em sua defesa.

N – Seja qual for a opinião que o senhor ou eu tenhamos sobre a Constituição, ela terá de ser cumprida, pois, afinal, o primeiro dever de qualquer governante é se enquadrar na moldura jurídica que ela constitui. O senhor acredita que o eleito terá condições de cumprir o que prometeu e se espera dele, sob a égide do documento produzido pelos congressistas, e não por uma Assembleia Constituinte exclusiva, como, acho, deveria ter sido?

G – Acho que dá para fazer muita coisa do que Bolsonaro prometeu ou anunciou na campanha eleitoral por meio de reformas na Constituição. A maioria do eleitorado acaba de dizer,  justamente, que quer essas mudanças – foi para isso que elegeu o homem. Seria bom, a propósito, prestar atenção à possibilidade de que as redes sociais não se tenham desmanchado no dia 28 de outubro. Podem continuar em ação durante o próximo governo, e podem levar sua voz ao Congresso. Já fizeram isso na Lei da Ficha Limpa.  

José Roberto Guzzo – 1985: Para Guzzo, "a Constituição não está com bola nenhuma. Tem de ser respeitada porque está em vigor e não existe outra." Foto: Jorge Rozemberg/Editora Abril

José Roberto Guzzo – 1985: Para Guzzo, “a Constituição não está com bola nenhuma. Tem de ser respeitada porque está em vigor e não existe outra.” Foto: Jorge Rozemberg/Editora Abril

N – Na ida a Brasília, o presidente eleito cumpriu mais um dever ao apelar para o Senado não aprovar o reajuste exigido e, o que é pior, negociado com os senadores, amentando os subsídios dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal, com prejuízo, calculado por baixo, de R$ 4 bilhões para um Tesouro Nacional depauperado e numa crise econômica que convive com 14 milhões de trabalhadores desempregados?

G – Sim, cumpriu o seu dever. Na verdade, não poderia ter optado por não dizer nada. Se ficasse calado, seria um cúmplice, ao menos por omissão, desse assalto de beira de estrada contra a população brasileira. O aumento é uma coisa de submundo, uma expressão de tudo o que existe de pior nesse Brasil velho, subdesenvolvido, concentrador de renda, corrompido até o fundo da alma, trapaceiro, parasita, que faz a nossa desgraça de todos os dias. Bolsonaro estaria começando muito mal, realmente, se não tivesse falado nada. Os 58 milhões de votos que recebeu foram contra isso, não a favor.

Guzzo com Augusto Nunes, seu subordinado na revista e parceiro de bancada na TVeja. Foto: Raphaele Palaro/Editora Abril

Guzzo com Augusto Nunes, seu subordinado na revista e parceiro de bancada na TVeja. Foto: Raphaele Palaro/Editora Abril

N – Seja qual for a opinião que o senhor ou eu tenhamos sobre a Constituição, ela terá de ser cumprida, pois, afinal, o primeiro dever de qualquer governante é se enquadrar na moldura jurídica que ela constitui. O senhor acredita que o eleito terá condições de cumprir o que prometeu e se espera dele sob a égide do documento produzido pelos congressistas, e não por uma Assembleia Constituinte exclusiva, como, acho, deveria ter sido?

G – Acho que dá para fazer muita coisa do que Bolsonaro prometeu ou anunciou na campanha eleitoral através de reformas na Constituição. A maioria do eleitorado acaba de dizer,  justamente, que quer essas mudanças — foi para isso que elegeu o homem. Seria bom, a propósito, prestar atenção à possibilidade de que as redes sociais não tenham se desmanchado no dia 28 de outubro. Podem continuar em ação durante o próximo governo, e podem levar sua voz ao Congresso. Já fizeram isso na Lei da Ficha Limpa.

José Roberto Guzzo – 2007. Para Guzzo"seria bom prestar atenção à possibilidade de que as redes sociais não tenham se desmanchado em 28 de outubro". Foto: Leandro Fonseca/Editora Abril

José Roberto Guzzo – 2007. Para Guzzo”seria bom prestar atenção à possibilidade de que as redes sociais não tenham se desmanchado em 28 de outubro”. Foto: Leandro Fonseca/Editora Abril

N – No dia seguinte à aprovação pelo Senado do reajuste para os “supremos”, o mesmo Senado aprovou uma medida provisória encaminhada pelo presidente Michel Temer entregando de mão beijada benessesàs montadoras de automóveis, que vêm recebendo tais prebendas desde o governo Juscelino e, principalmente, nos três mandatos e meio dos petistas Lula e Dilma, até 2030, sem aprovação do presidente eleito nem conhecimento dos dois próximos a serem eleitos depois de cumprido o mandato deste até a data-limite da renúncia fiscal. O que, a seu ver, provocou isso: generosidade, cumplicidade ou mera falta de pudor?

G – Generosidade não é, obviamente. Um Congresso e um resto de governo que estarão enterrados no dia 1.ºde janeiro de 2019 não deveriam, pura e simplesmente, ter o direito de fazer isso. Não estão criando problemas para “o governo Bolsonaro”, como diz a imprensa. Estão criando problemas, isso sim, para o pobre diabo que vai pagar por cada centavo disso tudo nos próximos anos.  É desse jeito que o Brasil vem sendo governado há décadas – com a mentalidade, os métodos e as ações de governantes que ganham a vida por meio do crime.

N – Depois do episódio, Bolsonaro desmarcou os encontros marcados com o presidente do Senado, Eunício Oliveira, responsável pelas despesas do contribuinte nas duas votações, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que anunciou que pretende colaborar com o novo governo. O senhor acha que a atitude do deputado e capitão foi intempestiva ou adequada?

  1. G. Falar o quê,com esses caras?  Você falaria, sabendo quem eles são e o que eles fazem? Nada, absolutamente nada, que for contra o mínimo interesse deles será levado adiante. Pura perda de tempo.
"O Brasil é governado há décadas com mentalidade, métodos e ações de políticos que ganham a vida no crime", diz Guzzo. Foto: Felipe Cotrim/Editora Abril

“O Brasil é governado há décadas com mentalidade, métodos e ações de políticos que ganham a vida no crime”, diz Guzzo. Foto: Felipe Cotrim/Editora Abril

N – Flávio Bolsonaro, filho do presidente eleito e feito senador pelo Estado do Rio de Janeiro em 7 de outubro passado, já anunciou que admite conversar com o emedebista Renan Calheiros, que se reelegeu e apoiou o filho governador reeleito, Renan Filho, em Alagoas. Este é um aceno de boa vontade natural do ganhador ou um gesto arriscado?

– Bolsonaro foi eleito para governar o Brasil, não a Suécia. Tem de lidar com o que existe aí. Renan é Brasil – ele e mais um monte de gente. Fazer o quê? Não dá para o  presidente transformar o Palácio do Planalto num convento beneditino, onde só poderão entrar os justos, os puros e os patriotas. A única coisa que dá para fazer com essa gente é conseguir abater ao máximo o seu custo. É a velha história: dar uma canseira  para eles deixarem o mais barato possível.

N – O senhor quer, confia e conta com a possibilidade de Jair Bolsonaro desmontar as bombas de efeito prolongado deixadas pelas gestões anteriores do PT e do MDB, em seu mandato de quatro anos, já que anunciou o fim da reeleição? E por falar nisso, o que acha da proposta dele nesse sentido?

G – Acredito que consiga desmontar umas coisas, outras não. Já estaria de bom tamanho se pudesse desarmar metade das bombas, pois em geral não se desarma nenhuma. Quanto à ideia de Bolsonaro não procurar a  re-eleição:  acho uma excelente notícia para o Brasil e para ele próprio.  FHC, Lula e Dilma, formosos democratas antifascistas, colocaram seus governos, e o erário, a serviço permanente da própria reeleição. O militar autoritário, totalitário, defensor das ditaduras, etc., é o primeiro a adotar uma atitude diferente. Se ficar mesmo nessa posição, vai dar um belo cala-boca na oposição, nos intelectuais, nos artistas de novela e no New York Times. Vai ser um presidente mais forte do que os seus três antecessores. Vai dever menos ao Congresso. Vai estar menos vulnerável a pressões para fazer o mal e mais estimulado para fazer o certo.

Vídeos

Para ver Guzzo em ação na TVeja sobre Dilma clique aqui.

Guzzo no Painel WW sobre STF com William Waack. Clique aqui.

Guzzo no Painel ww com William Waack sobre Bolsonaro. Para ver, clique no play abaixo.

Guzzo no Painel ww com William Waack sobre Bolsonaro

https://www.youtube.com/watch?v=BEdg2STsImw

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique aqui.

Nêumanne entrevista J. R. Guzzo 31ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista J. R. Guzzo. 31ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

No Blog do Nêumanne: Má-fé e má vontade sabotam o Brasil

No Blog do Nêumanne: Má-fé e má vontade sabotam o Brasil

Derrotados atribuem a Bolsonaro todos os erros cometidos no País desde 28 de outubro

Às vésperas do segundo turno da eleição presidencial, durante o mês de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dedicou-se, em vão, a combater fake news no pleito, mas fez vista grossa à maior de todas as mentiras – pregada na campanha, que os institutos de pesquisa previam derrotada – do Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula. Fernando Haddad, o petista que se apresentou à tarefa de representar o presidiário impedido de concorrer, foi o porta-voz da patranha absurda de que o País corria o risco de optar nas urnas pelo fim da democracia, com a instauração do neonazismo e do protofascismo em nossa República.

Em 28 de outubro, o capitão reformado do Exército e deputado federal há 27 anos Jair Bolsonaro obteve 57.797.456 votos, 55,13% do total dos válidos, contra 47.040.819, 44,87%, dados, em teoria, ao ex-prefeito de São Paulo, mas, na prática, ao verdadeiro titular da chapa e dono do PT e ex-presidente. A ampla margem majoritária de 10.756.637 passou a ser depreciada como desprezível por alguns políticos profissionais e pretensos analistas, que logo adicionaram à lorota uma conta não prevista na ordem constitucional vigente. Segundo esses derrotados, falta ao vencedor legitimidade porque, dos 147,3 milhões de eleitores brasileiros aptos, 42,4 milhões não sufragaram o vencedor, Jair Bolsonaro (PSL), a quem teriam faltado, graças a essa conta estúpida, 16 milhões de sufrágios. O argumento cretino, ao incluir votos nulos, em branco e eleitores ausentes, então, nessa hipótese estapafúrdia, levaria a calcular que quase 100 milhões de brasileiros detestariam o ladrão condenado Lula.

O chororô dos vencidos logo se tornou má vontade e má-fé na explícita sabotagem da vontade popular, expressa na eleição. A esquerda Rouanet e os devotos do padim de Caetés, então, negaram seu papel no Estado de Direito, definido pela palavra oposição, e adotaram o termo resistência, cunhado pelos maquis, que se negaram a aceitar a anexação da França aos invasores, pelas tropas nazistas de Hitler.

A troca, contudo, não teve o impacto desejado pelos pregadores do caos, que aí apelaram para o “assassinato da reputação” (apud Romeu Tuma Jr.) do eleito, que passou a ser o culpado universal por tudo o que é ruim. A deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP) reproduziu no Twitter um post que insinua ter sido Bolsonaro responsável pelo aumento do gás de cozinha. A 45 dias da posse, o profeta do apocalipse Fernando Henrique já alertou para a repercussão negativa no exterior de medidas que Bolsonaro adotar. Talvez fosse mais útil para seu projeto de “reagrupar” o centro preocupar-se menos com os humores de além-fronteira e mais com 13 milhões de desempregados que fazem da calçada seu lar.

À parte essas contribuições ao “festival de besteiras que assola o País”, como nos tempos do saudoso Sérgio Porto (Staniwlaw Ponte Preta), certo é que algumas verdades precisam ser aqui lembradas.

O Ministério do Trabalho (MT), a ser extinto no próximo governo federal, resulta de uma legislação trabalhista que o estancieiro Getúlio Vargas, no Estado Novo, ditadura fascistoide em nossos tristes trópicosapud Lévi-Strauss), traduziu ao pé da letra da Carta del Lavoro, de Mussolini. Sim, ele mesmo, o aliado de Hitler, herói confesso de Lula em seus tempos de líder grevista. Aliás, quem entende do setor é o ex-ministro do Trabalho e ex-presidente do Tribunal Superior do Trabalho Almir Pazzianotto, que foi advogado do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo à época do próprio Lula. Almir repete que quem emprega é empresa, não sindicato. Mas o MT também emprega muito: dirigentes dos partidos ditos trabalhistas, que controlam a máquina que lhes enche os bolsos de dinheiro roubado da tal Contribuição Sindical, para gáudio do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), de Roberto Jefferson, e do Partido Democrático Trabalhista (PDT), de Ciro Gomes.

Também se tentou inculpar o ainda não empossado em episódio recente. Em Brasília para tratar da transição, Bolsonaro se disse contra o acordo infame pelo qual liderados pelo presidente da Casa até março, Eunício Oliveira, previamente demitido por decisão popular, se curvaram docemente à pressão telefônica do chefe do STF, Dias Toffoli. Tal “pacto” garfou os espoliados em R$ 4 bilhões por ano para engordar as contas bancárias dos maganões que se acham “supremos”, mas agem como mendigos Chanel ao depenarem o erário.

O presidente eleito falou em nome de todos os brasileiros que vai governar a partir de 1.º de janeiro e que pagarão a conta – os acusados de conservadores, como se conservar fizesse mal, os revolucionários que só usam chumbo do Diário Oficial e os miseráveis, aos quais se nega o pão para garantir champanhota e caviar aos ministros. Do caso todos saímos derrotados, mas coleguinhas e veículos de comunicação desolados com a prisão de um ladrão atribuem a derrota a um homem só: o presidente avant-la-lettre.

No dia seguinte ao de mais uma remessa dos escrúpulos às favas, ainda sem ter sido decretada a prévia volta à ditadura militar, o mesmo Senado transferiu parte da poupança nacional para os cofres das montadoras estrangeiras de automóveis no Brasil. Isso vem sendo feito desde a opção maligna do popular Juscelino Kubitschek pelo sucatamento do parque ferroviário em troca das rodovias, hoje controladas pelos transportadores de derivados de petróleo e víveres. E tornou-se obrigatória desde a passagem do chorado presidiário de Curitiba, a ponto de um lobista dos velhos tempos, Mauro Marcondes, estar preso em outra cela, em Brasília.

Este texto é um alerta de que esses lacrimosos “heróis” da democracia moveram guerra à ditadura militar sem usar em vão, em nenhum de seus documentos, essa sagrada palavra, pois eram vassalos de cruéis tiranias comunistas. E hoje, só para voltar a saquear o erário, sabotam não o futuro governo, mas o povo que o elegeu.

*José Nêumanne

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Página 2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 14 de novembro de 2018)

No Blog no Nêumanne: Suprema embromação federal

No Blog no Nêumanne: Suprema embromação federal

Lobby do presidente do STF para garantir aprovação pelo Senado de reajuste do próprio subsídio é tão absurdo quanto o é garantia de suspender auxílio-moradia para juízes em geral para justificar tal descalabro.

Nada se salva no grotesco episódio do reajuste de subsídios dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) para R$ 39,2 mil por mês, autorizado em lei aprovada por folgada maioria de parlamentares presentes à sessão convocada pelo presidente do Senado, Eunício Oliveira. E este já fora dispensado de cumprir mais um mandato de oito anos na Casa por decisão sábia e soberana dos eleitores de seu Estado do Ceará.

O reajuste começou a ser exigido no mandato presidencial de dois anos do ministro Ricardo Lewandowski, que antes fora revisor do julgamento da Ação Penal n.º 470, a do mensalão, ocasião em que travou pesados embates com o relator e depois presidente, Joaquim Barbosa. Em dois anos no cargo, Sua Excelência comportou-se como dirigente sindical, reivindicando privilégios para ele próprio e também para todos os membros da magistratura, da qual, como comandante da Corte Suprema, se considerava “poderoso chefão”. A pauta sindicalista do membro do colegiado no topo do Judiciário já era totalmente imprópria, mas à época foi pouco levada em conta, por não ser surpreendente partindo de quem partia e, ainda, porque, mesmo existente, a crise econômica da família brasileira não tinha chegado ao estado de crueldade atualmente sofrido.

O índice que mais clama na exposição dessa situação é o total dos desempregados em seu nível mais elevado, até estonteante, de 14 milhões de trabalhadores, alcançado sob a presidência de sua sucessora, Cármen Lúcia. Esta, justiça lhe seja feita, comportou-se de forma exemplar nesse particular. A procuradora pública mineira, que sempre teve vida social muito recatada, ao contrário de colegas muito mais pródigos no uso de seus vencimentos, que, aliás, servem de limite para as folhas de pagamento não apenas do Poder a que servem, mas de toda a União, nunca misturou sua atividade judicante com reivindicações de remuneração. Na condição de chefe do plenário de última instância, ela nunca encaminhou o pleito e, com isso, seus subsídios e os dos colegas ficaram estagnados desde 2014, como propagam os que agora o reivindicam como se fossem recuperação de perdas acumuladas do passado. Por mais realista que seja o argumento, ele se torna, mais do que hipócrita, cínico, se se partir do princípio de quem paga a conta, e não de quem se beneficia do alto cargo para se dar bem. De 2014 para cá a economia brasileira andou para trás e os trabalhadores que remuneram os ministros foram desempregados ou, no mínimo, não tiveram reajuste nenhum ou, ainda pior, receberam os salários reduzidos. A cobrança da “recuperação da perda” passou a ser, então, uma reivindicação sem nenhum senso de justiça social, virtude da qual eles tanto se jactam.

Dias Toffoli, que chegou ao “supremo” posto sem nunca ter sido aprovado num concurso para juiz de primeira instância, não se fez de rogado. E, ao substituir Cármen Lúcia, repetiu a pauta de reivindicações antes adotada por Lewandowski, com quem se acostumou a soltar criminosos abonados de colarinho branco, sob alegação errada de respeito à letra constitucional, na qual “ser considerado culpado” passou a ter o mesmo significado de “ser preso”, o que os dicionários não avalizam. Reforçado pelo argumento da reposição da perda salarial, típica alegação de sindicalistas operários em datas de dissídios coletivos, o ministro que liberou o ex-patrão José Dirceu, condenado a 30 anos e meio de cadeia, até da obrigação de usar tornozeleiras, não teve pudor de reclamar publicamente do pleito da “categoria”. E, segundo noticiário nunca desmentido, apelou pelo telefone aos senadores responsáveis pela aprovação final do pedido para lhe ouvirem o pleito, como faziam os chefes de polícia avisando aos sambistas nas primícias dos desfiles de carnaval. Ou seja, um magistrado sem concurso agiu como um mendigo com Chanel para tirar o pão dormido sem manteiga da boca do desempregado em nome da democracia, que, desde as raízes gregas, é tida como “igualitária”.

Não sendo impossível agravar algo tão degradante, não é possível omitir que Dias Toffoli tentouamenizar a dureza de uma medida impopular como a que exigia de políticos cuja liberdade depende de sua penada autocrática, ou combinada com os colegas de regabofe, com uma compensação. Em troca, eles negariam a si mesmos e aos outros magistrados em geral o benefício do auxílio-moradia. Ora, o adicional ao vencimento é um privilégio absurdo, gozado por juízes, promotores e outros membros da casta dos marajás do serviço público, que não podem ser confundidos com os coitados dos barnabés. Os próprios defensores desse abono de casta reconhecem publicamente e sem pudor algum que não precisam da esmola para pagar o lugar de morar no exercício da função, o que só seria defensável para garantir a segurança de titulares de comarcas em ermos violentos e desprotegidos, o que está longe de ser o caso dos membros dos tribunais sediados em capitais. A mera enunciação dessa desigualdade patente entre julgadores e julgados é algo muito distante do que significa “justiça” pelos mesmos dicionários que não autorizam a tentativa deles de contestar a jurisprudência da autorização para tribunais de segunda instância determinarem a prisão de criminosos factualmente definidos como aptos a iniciarem o cumprimento de suas penas.

Destarte, fique aqui combinado que não tem propósito nenhum cobrar o reajuste a ser pago pelos que perderam o emprego ou não tiveram seus salários aumentados e continuam bancando cada centavo dos milhares de reais que são depositados em suas contas polpudas. E também que a contrapartida oferecida é, de igual forma, injusta e carente de qualquer conceito de ética que seja aplicável no convívio civilizado de iguais.

A troca proposta por Toffoli, sem pudor, assemelha-se à “Lei da Compensação” consagrada por Jackson do Pandeiro no sucesso que fez com a interpretação do hilariante forró de Rosil Cavalcanti e oculta pelo sigilo telefônico entre ministro e senador. Se o reajuste esfola o pobre para garantir o luxo de maiorais do Judiciário, que têm garantia perpétua de emprego, aposentadoria pela mais alta remuneração e mais um rosário de benesses asseguradas por lei, o auxílio-moradia estabelece a injustiça como padrão para toda a magistratura. Ou seja, no afã de “compensar”, Toffoli dispensou gasto contestado no próprio STF. E mandado para as calendas da burocracia mercê de uma decisão pra lá de corporativista do ministro Luiz Fux, ao dar seis meses de prazo à Câmara de Conciliação e Arbitragem da Administração Federal da Advocacia-Geral da União. Enquanto o reajuste causa ônus permanente, que produzirá um rombo que se repete. É como se ele oferecesse a troca de uma gaiola de belos e melodiosos canários belgas por um bando de andorinhas em revoada ruidosa em sua rota de migração.

E, mais grave, o acinte está sendo perpetrado com base em cálculos falsificados. O auxílio-moradia é uma despesa permanente e ilegal, apesar do lero-lero dos beneficiados e da cumplicidade dos “supremos”, mas o desembolso do erário para pagá-lo não produz efeitos paralelos e colaterais no Orçamento federal. Já o reajuste produz um efeito-cascata bilionário de tal monta que os técnicos têm dificuldade até para calcular. Especialistas avaliam entre R$ 4 bilhões e R$ 6 bilhões o resultado dessa “reposição de perdas salariais” do time de morcegos protegidos pela venda que tapa os olhos da Justiça na estátua em frente ao prédio de seusgabinetes. O auxílio-moradia transfere do bolso do trabalhador para as togas dos magistrados R$ 1 bilhão 627 milhões 990 mil e 232 por ano e isso é, de fato, extravagante, mas representa menos da metade do gasto para compensar essa eventual economia, que não será feita. Toffoli sabe disso. Embora talvez sua massa encefálica não avalie o fosso abissal entre reajuste e prebenda. Nós, que pagamos ambas as contas, não devemos desprezar a consciência que tem do volume de dinheiro do Brasil real (da crônica atual de Machado de Assis) que gasta na parte que lhe toca de banquetes e regabofes da farra em que a suprema embromação federal do País oficial se refestela.

Nem tente calcular seu prejuízo pessoal nessa ignomínia, pois não dá. Mas convém guardar com zelo a lista dos senadores que a tornaram lei e sempre se lembrar de esquecê-los nas próximas eleições que vierem a disputar. Em particular, do autor da tramoia, Eunício Oliveira. E por falar no sujeito em questão: Vade retro etchau, cabrão!

José Nêumanne

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 12 de novembro de 2018)

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No Blog: Nêumanne entrevista Deonísio da Silva

No Blog: Nêumanne entrevista Deonísio da Silva

Conversa clara e prosa justa

com Deonísio da Silva

 

Professor, escritor e colunista sobre origem das palavras na revista Caras, Deonísio celebra invasão dos currais e libertação de eleitores de votos de cabresto

O escritor catarinense Deonísio da Silva, ganhador do prêmio Casa das Américas com o romance Avante, Soldados: Para Trás, comemora a eleição na qual “o Brasil enfim se politizou por meio de um recurso inesperado, o recurso digital. Ninguém o previu com as vestes democráticas com que irrompeu este novo recurso, que tornou possível invadir os currais e libertar aqueles que votavam pelo cabresto”. Para ele, isso era necessário e urgente, porque “nossa elite política perdeu a visão de nação, seus representantes pensam apenas em si mesmos e formaram dinastias familiares para os saques ao erário”. Por causa disso, o acadêmico diz, brincando, que depende das autoridades educacionais um câmpus universitário não se tornar “câmpus de concentração”, protagoniza o Nêumanne entrevista da semana no blog, em que constata: “O Brasil se mediocriza sem parar”. E dispara um petardo contra a primazia da ideologia de gênero no lugar da seleção pela excelência dos candidatos ao ensino superior. “Os autores de certas perguntas no Enem incorrem num equívoco de raiz: querem enganar os trouxas com artimanhas pueris. Citam Guimarães Rosa e Graciliano Ramos para poder enfiar excertos de obras e de autores fora da casinha. Os alunos nem foram ensinados a consultar um dicionário, mas são obrigados a conhecer certos verbetes de Aurélia, a Dicionária da Língua Afiada, de expressões gueis. Os culpados não são os autores desse curioso minidicionário. São aqueles que usam o  Estado – isto é, o dinheiro dos impostos: quanto custa cada Enem? – para impor a indefesos um conteúdo confuso, um norte desbussolado. Assim, prejudicam a todos, incluindo as autoridades às quais servem e pelas quais foram designadas”.

Deonísio: "a prosa política, em seu sentido mais sólido, a participação nos destinos da pólis, está na ordem do dia e vai reordenar o Brasil". Foto: Acervo pessoal

Deonísio: “a prosa política, em seu sentido mais sólido, a participação nos destinos da pólis, está na ordem do dia e vai reordenar o Brasil”. Foto: Acervo pessoal

O catarinense Deonísio da Silva é professor federal aposentado  e professor titular visitante da Universidade Estácio de Sá, onde atualmente dirige o Instituto da Palavra. Integrante da bancada brasileira na Academia das Ciências de Lisboa e respeitado escritor, por sua independência intelectual, é doutor em Letras pela USP e mestre em Letras pela UFRGS, mas não destaca esses títulos, e sim o que aprendeu no ensino médio em colégios de padres. “Obter um doutorado na USP não é para quem quer, é para quem pode, mas passar num exame de Latim do cônego Germano Peters ou confessar-se com o padre espiritual, investigando a própria alma, ou uma vez ao ano com o bispo diocesano dom Anselmo Pietrulla, era só para quem fosse antes orientado por Wilson Volpato e evitasse os escrúpulos”, diz ele, em sua habitual prosa bem humorada, um pouco antes de responder às perguntas que seguem, lembrando um de seus melhores amigos daqueles verdes anos, hoje setentão como ele. Deonísio é autor de 35 livros, entre os quais romances como Goethe e Barrabás, Lotte e Zweig (sobre o famoso suicídio tratado por ele como duplo assassinato, já publicado na Itália, com capa da artista plástica Arlinda Volpato), Teresa DÁvila (premiado pela Biblioteca Nacional e a ser levado ao teatro pela segunda vez por Carlos Vereza) e A Cidade dos Padres. Mas a referência solar de seus romances é Avante, Soldados: Para Trás (1992), no Brasil em 10.ª edição, já publicado em Cuba, Itália e Portugal, depois de receber o Prêmio Internacional Casa de las Américas, em júri integrado por José Saramago. Na mídia, faz um trabalho muito relevante em Etimologia, tal como se vê no livro De Onde Vêm as Palavras, reunião de suas colunas nas revistas Caras. Mantém colunas semanais também no http://portal.estacio.br/instituto-da-palavra, na Veja online, no blog de Augusto Nunes e na Rádio Bandnews Rio., com Ricardo Boechat.

A seguir, Nêumanne entrevista Deonísio da Silva

1 – Em abril, o senhor fez uma palestra sobre o julgamento de Zé Bebelo num seminário a respeito de Guimarães Rosa e Machado de Assis, abrindo o ano cultural da Academia Brasileira de Letras. O que o fez escrever que, neste ano em que se comemoram o cinquentenário do lançamento da obra-prima Grande Sertão: Veredas, do primeiro, e os 80 anos da primeira edição de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, os organizadores do Enem os tenham citado “por esperteza: para justificar a presença dos dispensáveis e até dos que escrevem mal” ou originalmente em outra língua, como Eduardo Galeano, que, convenhamos, não é um grande autor nem no restrito panorama da literatura uruguaia, como escreveu no Facebook?

Você me permite uma longa resposta? (José Nêumanne Pinto: fale quanto quiser, eu também sei que algumas coisas muito importantes não podem ser ditas em poucas palavras.) Pois é, às vezes tenho vontade de postar inteirinho no Facebook o Sermão do Bom Ladrão, do padre Vieira, especialmente para aqueles que, elevados a reis, acompanham ao cárcere os bandidos com os quais negociaram. Quando assumi a Vice-Reitoria da Universidade Estácio de Sá, no Rio, onde estou desde que me tornei professor federal aposentado, em 2003, disse na primeira reunião com a equipe que meu binômio era: conversa clara e trato justo. Abri a palestra proferida na Casa de Machado de Assis com este lema, citando a seguir, obviamente, belos trechos de Guimarães Rosa, como esta fala de Zé Bebelo, ao ser advertido por Joca Ramiro de que está em julgamento: “Toda hora eu estou em julgamento”. Você falou lá também, assim como outros romancistas, como José Carlos Gentili – aliás, autor de um premiado livro em que rastreia nas Ordenações Afonsinas o primeiro hífen da língua portuguesa – e Benito Barreto, autor de grandiosos romances sobre a Inconfidência Mineira. No final de minha palestra, o Merval Pereira veio me cumprimentar e disse: “Tomara que o Lula não conduza o julgamento como o Zé Bebelo”, E rimos juntos. Você deve lembrar-se de que, réu, Zé Bebelo conduz o próprio julgamento. Lula tentou fazer o mesmo, mas encontrou pela frente não um homem misericordioso como Joca Ramiro, e sim um juiz implacável como Sergio Moro, que deve seguir o lema latino tão em voga em São Paulo “non ducor duco” (conduzo, não sou conduzido). Hoje, já realizado o julgamento, continuo achando Lula parecido com o personagem de Rosa, que também diz dele: “Zé-Bebelo quis ser político, mas teve e não teve sorte: raposa que demorou”. Já de Graciliano Ramos, considero que seu grande romance não é Vidas Secas, é São Bernardo. Quem cita muito Vidas Secas em geral não leu outros. No Brasil existe o costume de citar sem ler. Você pode ver que os erros de citações são sempre os mesmos ou muito semelhantes. Não me refiro apenas ao ipsis litteris, mas a citações confusas no contexto e sem pés nem cabeça, como álibi para a enxurrada de textos desconexos e fora de lugar e de propósito, como fez o Enem. No caso do trabalho intelectual, entendo que nossa arma é a dos saberes de nosso ofício. É falsa a humildade de igualar-se àqueles que fizeram outra coisa na vida ou tratar igual quem é desigual na profissão: se meus pares em Letras são esses que pontificam sobre tudo, especialmente nas redes sociais, eu estou perdendo o meu tempo há 50 anos, pois estudo, pesquiso e ensino português e suas literaturas há meio século. Se romances de minha autoria como Avante, Soldados: Para Trás, Teresa D’Ávila e Goethe e Barrabás estão no mesmo nível dos livros daqueles autores que não representam de jeito nenhum a nossa literatura, mas estão sempre nas bibliografias oficiais ou oficialescas, nas feiras de livros e em outras delegações, eu estarei contrariando minha sábia avó, que dizia que quem muito se abaixa mostra o bumbum. É justo você ter orgulho dos pontos altos de sua carreira, assim como é saudável assumir seu madalenismo e arrepender-se das más escolhas que você fez na vida.  Isso talvez possa explicar a exagerada admiração dos autores da prova do Enem pelo autor uruguaio. É coisa de quem olha a literatura do mundo inteiro por uma pequena fresta. Mas esta pequena restrição não pode ser creditada a Eduardo Galeano, que, aliás, deve muito ao exílio vivido na Espanha, de onde seu nome foi divulgado mundo afora. A censura, ato execrável, predatório e inútil, às vezes consagra medíocres, no sentido etimológico de palavra, isto é, de qualidade abaixo da média, que é o caso do best-seller em causa. Ele vende menos pela relevância de sua obra e mais por agradar a nichos eficientes de produção de leitores em determinada direção ideológica. Esses nichos têm pontífices que conhecem poucos autores de qualidade e são incapazes de reconhecer talento em escritores dos quais discordem. Por isso se tornam medíocres também, formam medíocres, etc. Em suma, o Brasil se mediocriza sem parar.

Deonísio integra bancada brasileira na Academia de Ciências de Lisboa e dirige o Instituto da Palavra da Universidade Estácio de Sá. Foto: Acervo pessoal

Deonísio integra bancada brasileira na Academia de Ciências de Lisboa e dirige o Instituto da Palavra da Universidade Estácio de Sá. Foto: Acervo pessoal

2 – O que no referido exame o levou a escrever, no mesmo post, que “quem fez as perguntas do Enem na área de letras precisa reciclar-se” e, mais, “quem desconhece o dialeto secreto de gueis e travestis não pode entrar na universidade?”

Não sei quem faz os exames do Enem. Entro em brigas de foice no escuro em defesa da independência intelectual e docente desde que saiba onde estão o interruptor e a porta de saída, como um dia ouvi do escritor Marcos Rey. Mas os autores de certas perguntas no Enem incorrem num equívoco de raiz: querem enganar os trouxas com artimanhas pueris. Citam Guimarães Rosa e Graciliano Ramos para enfiar excertos de obras e de autores que estão fora da casinha. E há mais o seguinte: os alunos nem foram ensinados a consultar um dicionário, mas são obrigados a conhecer certos verbetes de Aurélia, a Dicionária da Língua Afiada, de expressões gueis. Os culpados não são os autores desse curioso minidicionário. São aqueles que usam o Estado – isto é, o dinheiro dos impostos: quanto custa cada Enem? – para impor a indefesos um conteúdo confuso, um norte desbussolado. Assim, prejudicam a todos, incluindo as autoridades às quais servem e pelas quais foram designadas. Seus asseclas passaram a defender a pergunta, e não apenas nas redes sociais, mas em todos os lugares onde pontificam, não para esclarecer, mas para dar como correta uma pergunta fora de propósito. Há reprovação em massa nas redações do Enem. Quer dizer, o ensino médio não ensinou os alunos sequer a escrever um texto curto. Aliás, nem a ler direito, pois a maioria tropeça no léxico e na interpretação. Mas ensinou-lhes dialeto, uma questão controversa até nos estudos avançados sobre línguas. Isto é conversa mole para boi da cara preta cochilar e assustar quem tem medo de careta. E de resto ainda não é obrigatório conhecer as palavras-chave do mundo guei para entrar para a universidade. Na universidade, um dos requisitos é dominar um conjunto de saberes que permitam ao usuário acompanhar um curso superior. Nas universidades francesas, o francês; nas italianas, o italiano. Etc. Quais são as gírias do mundo guei nessas línguas? É preciso conhecê-las para estudar lá? Para maior clareza, imaginemos o seguinte: e se o curso fosse ministrado numa língua estrangeira? Pois o português está se tornando isso para nossos alunos escreventes e legentes, uma língua estrangeira. E, em alguns casos, morta. Outro dia lamentei em congresso onde fiz pequena intervenção o desaparecimento acelerado, não mais paulatino, do mais-que-perfeito. Na saída, um professor me disse: “Não quis dizer em público para não ofender o senhor, mas o mais-que-perfeito não é mais necessário”. Veja você, já se considera ofensa a simples discordância.  Repliquei na hora: é mesmo? E como faremos com os versos de Camões “mais servira se não fora para tão longo amor tão curta a vida” e “na quarta parte nova os campos ara e se mais mundo houvera lá chegara”? Tome um prova de Português, qualquer prova: você vê trechos de autores clássicos, tais como Castro Alves, Cecília Meireles, Machado ou José Lins do Rego, servindo de base a uma questão? Predominam recortes da mídia, em geral pobres de estilo e, sobretudo, indicadores de que quem os selecionou só leu aquilo ali, mesmo, aquele é o nível dos examinadores, não apenas dos examinandos.

Deonísio, catarinense, e a mulher, a gaúcha Michele, nos jardins da Embaixada Brasileira em Lisboa, para onde viajam amiúde. Foto: Acervo pessoal

Deonísio, catarinense, e a mulher, a gaúcha Michele, nos jardins da Embaixada Brasileira em Lisboa, para onde viajam amiúde. Foto: Acervo pessoal

3 – Quem lhe faz estas perguntas teve uma formação no ensino médio em escola religiosa e num colégio público e testemunha que, há meio século, as escolas desse grau de ensino eram muito melhores do que as de elite, frequentadas pelos filhos, na faixa dos 40 anos, e ainda mais dos netos agora. Até que ponto o senhor, que é da geração que estudou latim, grego e, sobretudo, o português canônico, abandonado pela linha populista de esquerda do “povo é que manda na língua”, abona esta constatação?

Minha formação básica se deu nos bons tempos da escola pública e em seminários de padres. Depois do primário, onde pontificavam as célebres e bem preparadas professoras normalistas, meus mestres foram padres. Meus professores da graduação em Letras na Unijuí também eram ex-padres ou ex-seminaristas em sua maioria. Sou doutor em Letras pela USP e mestre em Letras pela UFRGS.  Chutatis chutandis, essas prestigiosas instituições, em algumas disciplinas, nem sempre alcançavam os saberes ministrados em seminários e em outros colégios mantidos pela Igreja, por ordens religiosas ou por igrejas confessionais,  ou em escolas como o Colégio Pedro II, no Rio; o Júlio de Castilhos, em Porto Alegre; ou o Colégio Estadual de Curitiba. E poucos mais.  Quer dizer, tivemos uma qualidade de ensino reservada aos filhos da elite e duramente conquistada por nós, depois de “honesto estudo com longa experiência misturados”, como diz aquele poeta que, de tão popular, é até nome de bife no Brasil, o bife à Camões. E este “a” tem crase porque é à moda de Camões. O pessoal que faz o Enem dá mais valor a outros, assim como, na prática, continuam a maltratar Machado de Assis, ao desprezá-lo, depois que ele virou o jogo e passou de negro, pobre, órfão, epiléptico e gago a maior escritor do Brasil por esforço próprio e contra todas essas conhecidas adversidades. Epocais. Um bom ensino médio é mais decisivo para a vida do que graduação e pós-graduação. O embaixador Jerônimo Moscardo, ministro da Cultura do governo Itamar Franco, estudou no Pedro II e me disse que o salário dos professores era o mesmo dos ministros do STF. Um bom ensino começa com professores bem remunerados. Você acha que alguma vez alguma ordem religiosa considerou um problema a previdência dos frades ou dos padres professores? Estava no pacote, era normal. Então, eles podiam exercer o ofício docente despreocupados com a sobrevivência, ao contrário do que acontece hoje com os professores.

4 – Já que o assunto foi tratado, é inevitável pedir-lhe uma análise crítica sobre os efeitos deletérios da massificação do ensino superior sob a gestão de Jarbas Passarinho no Ministério da Educação e Cultura (MEC) dos governos militares e da didática da demagogia adotada nos governos petistas, da qual o candidato substituto do PT à Presidência na última eleição, Fernando Haddad, tanto se orgulhou na campanha, apesar da constatação do Índice de Desenvolvimento Humano da tão badalada Organização das Nações Unidas de que justamente o setor educacional se manteve estagnado?

A massificação do ensino não é um mal em si, nem chega a ser nociva. Dou-lhe um exemplo concreto e facilmente verificável: o professor que ministra aula, hoje, pelo Ensino à Distância, não pode chegar atrasado. E a pontualidade de professores e alunos, vale dizer, a disciplina, é essencial ao ensino e à aprendizagem. Na gestão de Passarinho, vários cursos superiores foram ministrados de modo intensivo e nas férias, com a mesma carga dos cursos diários. Até com as mesmas ementas. Como se sabe, o ano letivo tem no Brasil, em média, um terço dos dias do ano. Pode ser ministrado em quatro meses integrais, portanto. Então, sempre dependerá da qualidade do ensino ministrado, a começar por seleção de professores pela competência e de boas condições para exercer a docência, e não pela escolha de apaniguados para a direção das instituições de ensino superior. O coronel Jarbas Passarinho e o general Rubem Ludwig fizeram boas gestões no ensino à frente do MEC. Não se pode negar, porém, que o Brasil desaba nas classificações internacionais de avaliação. Na campanha, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad fez más escolhas de orientação, recebeu apoios e recomendações que lhe tiraram milhões de votos, segundo minha modesta opinião, mas acho que ele e o ministro Tarso Genro tiveram bons momentos como gestores à frente do MEC. Infelizmente, serviram a dois apedeutas, um dos quais sempre se orgulhou de não estudar. Mas de um profissional da qualificação de Fernando Haddad esperamos naturalmente mais do que bons momentos, esperamos visão estratégica e mudanças concretas. Para isso não pode nomear para postos-chave por indicação ideológica. Às vezes, seu melhor aliado é seu crítico. E seu pior parceiro é quem diz sempre amém.

5 – Em seu romance Goethe e Barrabás, talvez sua maior obra de ficção, lançada em 2008, o senhor contou a história do famoso bandoleiro bíblico iluminado pelo genial poeta de Fausto, aprendendo que Satanás não negocia com mulheres porque elas, na visão diabólica, vendem a alma, mas não a entregam. Antes que os apressadinhos o confundam com algum machista empedernido, o senhor não acha que convém esclarecer que, de fato, o texto revela em profundidade a baixeza da elite brasileira, responsável pela caminhada que nosso país, principalmente neste momento histórico, faz rumo ao inferno de Dante?

Esse romance conta uma história que poderia ser factual. De todo modo, é verdadeira: por más escolhas que fazemos na vida, caímos em tentações que nos destroem ou nos salvam. Como discernir? Não apenas no plano individual. Eu recebi depoimentos sinceros de leitoras que disseram: “Eu sou a Salomé”. Outras disseram: “Que pena que eu não tive a coragem de fazer a escolha de Salomé”. Leitores disseram: “Eu queria ser Barrabás, daí, sim, eu seria livre e viveria com mais gosto”. No romance eu lido com os dois Barrabás, o bíblico e o personagem Bar, seu apelido. E dei o nome de Salomé porque um homem perde a cabeça por ela, como no episódio bíblico. Quanto a Goethe, aprecio demais as reflexões sobre esse negócio de vender a alma ao diabo. O agraciado queixa-se a Satanás: por mais que gaste, não gasta todo o dinheiro obtido com a venda da alma. E Satanás sugere: “Já experimentou a caridade?”. Inseri esse capítulo porque nos governos do ciclo petista eu achava espantoso que se orgulhassem de aumentar o número de atendidos por bolsas disso e daquilo. Era um dos sinais do fracasso que se avizinhava. Um benefício necessário e provisório foi colocado como programa permanente. É como orgulhar-se sempre de um remendo, não da roupa nova, um problema do cidadão resolvido pelo governante. No Brasil a tentação totalitária é muito forte. A educação não está inculcada em nossa alma. A prisão e o medo estão. A expressão teje preso não é apenas uma brincadeira, ela revela a nossa alma. Nós não acreditamos na tarefa de educar, nós acreditamos na de punir, de preferência com a perda da liberdade. Há outro bom exemplo no trânsito: o objetivo é arrecadar, não é melhorar o trânsito. Acompanhei muito de perto a educação de minha filha e percebia o espanto que sobrevinha quando a coleguinha era posta de castigo pelos pais porque tinha transgredido alguma norma. Sabe o que era ficar de castigo? Estudar! Os pais, provavelmente sem querer, davam a ideia de que estudar é um castigo. O Brasil vem fazendo más escolhas há muito tempo. A elite que imagina estar ainda na casa-grande é um caso de polícia. A segurança tem problemas? A casa ou mansão vira uma fortaleza, com guarita, muros altos e guardas particulares. Há violência no trânsito? A solução passa a ser comprar carros blindados. O sistema de saúde não funciona? Surgem planos caríssimos, que só a elite pode pagar. O ensino público vai mal? Eles pagam para seus filhos estudarem em escolas de elevado padrão, sobretudo no exterior. A elite brasileira não pensa mais no Brasil. Mas houve um tempo em que pensou, proclamou a independência política, programou a República, organizou o Exército para se defender dos inimigos externos. O étimo remoto de elite é o mesmo de recolher, escolher e ler, e até os finais do século 12 significava apenas escolhida. Uma escolha supõe o melhor, não é mesmo? Mas no Brasil, as elites – prefiro o plural – têm complexas formações. Nossa elite econômica, por exemplo, tem saqueadores, ladrões e outros malfeitores nas árvores genealógicas. Nossa elite política perdeu a visão de nação, seus representantes pensam apenas em si mesmos e formaram dinastias familiares para os saques ao erário.

Deonísio, abraçado por Pedro Thompson, professor da Universidade Estácio de Sá, da qual é titular aposentado. Foto: Acervo pessoal

“Deonísio, professor titular visitante da Universidade Estácio de Sá, abraçado por Pedro Thompson, presidente da Casa”.

 6 – Em outra obra em que sua verve mordaz se manifesta, Os Guerreiros do Campo, lançada em 2000, o senhor se refere de forma muito irreverente aos ditos movimentos sociais de trabalhadores sem terra e sem teto, que, nestes 18 anos, têm sido tratados com muita condescendência, ao mesmo tempo que vêm perdendo relevância, embora ainda protagonizem os sonhos revolucionários da esquerda Rouanet. Sem cair na folclorização do mortadela contra coxinha, que papel o senhor lhes atribui neste momento histórico crucial, em que a intervenção do chamado “exército do Stédile” ameaça menos do que uma pipa ao vento?

Quando escrevi Os Guerreiros do Campos, os sem-terra, liderados por Stédile e seus red caps, ocupavam no Brasil um território maior do que a Dinamarca. Mas isso diz pouco: um empresário paranaense tinha no Pará uma fazenda maior do que a Bélgica. Visitei os acampamentos para escrever o romance, num deles me encontrei com a moça que tinha posado para a Playboy – na época eu escrevia para essa revista, fazia perfis, fiz o de Maguila, do Samelo, etc., e publiquei ali alguns contos. Sempre fui a favor da reforma agrária, principalmente depois de ler o melhor livro de Graciliano Ramos, São Bernardo, em que o latifúndio mostra suas devastações também na alma do proprietário. E não fui a favor como é a favor a personagem tão amorosa do romance, a fazendeira Camila, que diz: “Desde que não comece por minha fazendas”. Ela vive um complicado amor com Gregório, um professor que a faz mudar muito. Mas é raro um petista ter humor, já percebeu isso? Frei Betto me disse que eu ia ganhar a Margarida de Prata, um troféu da CNBB para bons livros. Mas daí foram ler o romance e a abertura traz uma cena insólita: São Pedro está fazendo o cadastramento das almas dos sem-terra que chegam assassinados ao céu, eu me baseara em várias chacinas, e o príncipe dos apóstolos pergunta algo assim: por que os brasileiros não morrem como os suíços, que chegam aqui arrumadinhos? Acharam que eu estava debochando da religião. Justo eu, católico de formação, que rezo todos os dias, vivo a clamar que falta uma editoria de religião na mídia e leio as encíclicas papais no original? Quanto ao sem-terra, hoje, não sei mais o que lhe dizer, a não ser revelar uma antiga perplexidade: sem verba do governo eles não sobrevivem. Tornaram-se profissionais, servem a outros interesses, como todos sabem, mas esse é um pequeno problema perto das safadezas bancárias praticadas todos os dias em nome da independência do Banco Central. Olhe as taxas de juros, não apenas dos bancos, mas sobretudo dos cartões de crédito populares. Que vergonha para nossas autoridades monetárias permitirem e autorizarem algo assim! Perto disso, os sem-terra são moscas no açucareiro.

Deonísio no estúdio onde apresenta seu programa Sem Papas na Língua no estúdio da BandFM no Rio. Foto: Acervo pessoal

Deonísio no estúdio onde apresenta seu programa Sem Papas na Língua no estúdio da BandFM no Rio. Foto: Acervo pessoal

7 – Por falar em ameaça, está sendo noticiado, com relevância que, na realidade, não deveria ter, o alerta feito pela ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia de que há uma perigosa onda conservadora no mundo e, particularmente, entre nós. Como perigo não combina com conservação, para o bem geral da Nação, que remédio o senhor ministraria a esses magistrados que falam tantas batatadas: um bom dicionário na cabeceira ou uma dose de Rivotril antes de falar em solenidades públicas?

Tornou-se um meme nas redes sociais a tua célebre ponderação ao ministro Marco Aurélio Mello, do STF. Aliás, antigamente sabíamos a seleção brasileira de cor e nenhum nome de ministro do STF. Hoje sabemos a escalação completa do STF, até de quem joga mais à esquerda, mais à direita ou mais ao centro, e ignoramos a seleção brasileira. Não deveria, mas vou dizer: discrepo, por norma, das opiniões da ministra Cármen Lúcia. A cada vez que ela emite uma de suas platitudes, eu penso num trecho de Sêneca: fallaces sunt rerum species et hominum spes fallunt. Está na obra De Beneficiis, que a ministra ou quem a nomeou deveria ler ou ao menos consultar, pois há boas traduções. Mas quem a nomeou não lê nada. Acho que não soa pernóstico citar um clássico latino por dois motivos: a amizade tinha valor absoluto na Roma antiga. E essas frases já foram pronunciadas em latim pela bela Scarlet Johansson no filme Iron Man 2. Sua tradução aproximada é: “As aparências enganam e traem a esperança dos homens”. Lembro que para os antigos gregos a esperança era um dos males do mundo, porque podia enganá-los sobre o futuro. Aliás, era um jarro, não uma caixa, termo adaptado para designar o objeto oval que Pandora abriu, soltando todos os males do mundo, menos a esperança. O antigo nome virou palavrão, como se sabe.

Deonísio, em congraçamento ecumênico com ex-ministros de Temer, Calero, e de Dilma, Martins, e ex-secretário de Alckmin, Chalita. Foto: Acervo pessoal

Deonísio, em congraçamento ecumênico com ex-ministros de Temer, Calero, e de Dilma, Martins, e ex-secretário de Alckmin, Chalita. Foto: Acervo pessoal

8 – Ainda dentro desta luta com as palavras, que, para o poeta Drummond, é a mais vã, este apaixonado por vocabulários, gramáticas e que tais, que o interroga, tem a ousadia de lhe apresentar um problema de hermenêutica. Há anos o Supremo Tribunal Federal se divide entre garantistas e punitivistas em torno do artigo 5.º, inciso VLII, da Constituição federal, que expressamente proíbe considerar culpado cidadão cujo processo não tenha transitado em julgado. Em que dicionário ou tratado de sinonímia é autorizada a substituição de considerado culpado por ser preso, como pretendem os rigorosos garantistas? E será que transitado em julgado, na verdade, ultrapassaria as calendas gregas?

Em nenhum dicionário. Só se for um compêndio deles mesmos. O mundo jurídico não tem essa proclamada precisão. Sentença tem o mesmo étimo do verbo sentir. Não é inteiramente objetiva. Cada juiz julga como sente o problema. Parece que às vezes há outras influências, mas isso pode ser fofoca, esse recurso de modéstia (a pessoa não fala de si), de solidariedade (a pessoa está preocupada com a vida alheia) e de delicadeza (fala pelas costas porque pela frente poderia magoar o interlocutor). Mas todos sabem que alguns ministros do STF adoram navegar na maionese, como se diz em linguagem científica (risos). Outros, menos delicados de trato, às vezes nos dão a ideia de que gostariam, como o mais vulgo dos vulgos, de resolver no braço, insinuando os benefícios do pugilato, e às vezes nos fazem imaginar que poderá advir dos conflitos uma antiga solução, o duelo. Mas eu confesso que sempre gosto de assistir às sessões: pelas palavras, pelos gestos, por caras e bocas. E não aprecio o que considero exagerada verborragia contra alguns deles. Se certas decisões do STF merecem providências, sou de parecer que deveriam ser tomadas no ambiente civilizado das leis. Eles não são deuses, homens é que são. E por isso falham também. Quanto às calendas gregas, os gregos não tinham calendas, mas tinham calendário. O STF deveria ter o seu também. Talvez eles tenham, além de dialeto e idioleto, um cronoleto, um tempo que valha só para eles.

9 – Seu ofício de professor universitário, escritor e etimologista à disposição dos meios de comunicação já lhe permite decidir se hoje o português falado no País real e escrito no Brasil oficial, distinção feita em crônica clássica de Machado de Assis, ainda seria a “última flor do Lácio inculta”, mas não necessariamente tão “bela”, como a descreveu o poeta Olavo Bilac?

Pois é, os modernistas odiavam Bilac porque não escreviam tão bem quanto ele, e porque ele tinha criado o serviço militar e o livro didático. O português das ruas a cada dia fica mais rico, mas eu temo que a falta de leitura dos clássicos e de outros bons autores da língua maculem deliciosas expressões e tendam a baixar o nível. O povo é bom, a escola ainda não, ou não é mais, para os mais pessimistas. Mas há bons indicadores de que a qualidade do ensino do português venha a ser retomada e seja enfim interrompido esse processo de usar incultos como referência. Sabe que a etimologia de clássico é muito curiosa: clássico é aquilo que você precisa para uma viagem. Começou a designar o que era necessário levar numa embarcação, depois numa frota. Temos de portar de novo os clássicos. E há novos clássicos na praça.

Do Sermão do Bom Ladrão, de Vieira, Deonísio cita os "reis, que acompanham ao inferno ou ao cárcere bandidos com os quais negociaram" (Foto: Acervo pessoal)

Do Sermão do Bom Ladrão, de Vieira, Deonísio cita os “reis, que acompanham ao inferno ou ao cárcere bandidos com os quais negociaram” (Foto: Acervo pessoal)

10 – Como cidadão, que trabalha entre jovens, no pleno calor da batalha ideológica travada no Brasil em termos candentes, levada a extremos na última eleição, como o senhor acha que essa súbita paixão nacional pela política, substituindo até o fanatismo pelo esporte bretão que consagrou Terto, nos meios de comunicação e nas “ágoras” do boteco, desviará o Brasil do abismo ou, ao contrário, guiará o povo à desgraceira geral?

Prezado José Nêumanne Pinto, antes de responder à última pergunta, permita-me agradecer-lhe este espaço: Jesus curou dez leprosos e apenas um voltou para agradecer. Gosto muito das lições dessa parábola: a taxa de agradecimento para Deus é de apenas 10%. Para nós, saiba que é muito menor. Pessoas como você, o Augusto Nunes, o Luiz Fernando Emediato, o Aluizio Maranhão e poucas mais sempre deram comovente atenção ao que escrevo. A minha participação na mídia não é bem vista por alguns colegas. No antigo câmpus de concentração onde eu ensinava, certo dia uma professora me fulminou à queima-roupa: “Bonito, hein, um professor e escritor escrevendo na Caras, não tem vergonha, não?”. No susto, eu só tive espírito (de porco) para perguntar: “Como é que a senhora soube?”. Quanto às conversas das ágoras do boteco, que venham mais ágoras e mais eclésias (originalmente, eram assim chamadas as assembleias dos cidadãos), não apenas as comunidades eclesiais de base a cuja formação dediquei três anos de minha vida em tempo integral, numa experiência sofrida e bonita de convivência com pessoas das mais diversas características. Morávamos todos juntos num prédio que tinha sido convento, estudávamos uma semana em tempo integral e passávamos três semanas no meio rural formando esses grupos. A equipe era composta por homens e mulheres que eram brasileiros, alemães, belgas, austríacos, holandeses. Para mim valeu, em certo sentido, muito mais do que os cursos universitários que fiz. Foi uma experiência singular. Sou esperançoso e acho que o Brasil enfim se politizou por meio de um recurso inesperado, o recurso digital. Ninguém previu, com as vestes democráticas com que irrompeu , esse novo recurso, que tornou possível invadir os currais  eleitorais e libertar aqueles que votavam pelo cabresto. Tal como na antiga Grécia, berço da democracia, a prosa política, em seu sentido mais sólido, o da participação nos destinos da “pólis”, está na ordem do dia e vai reordenar o Brasil. E que a pátria deixe de ser ordenhada pelos velho costume de mamar nas tetas do governo, que já deixou torta a boca de alguns poucos.

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/conversa-clara-e-prosa-justa-com-deonisio-da-silva/

Legendas

Foto deonaestácio: Deonísio: “a prosa política, em seu sentido mais sólido, a participação nos destinos da pólis, está na ordem do dia e vai reordenar o Brasil”. Foto: Acervo pessoal

Foto deonacademia:  Deonísio integra bancada brasileira na Academia de Ciências de Lisboa e dirige o Instituto da Palavra da Universidade Estácio de Sá. Foto: Acervo pessoal

Foto: Deon&mi Deonísio, catarinense, e a mulher, a gaúcha Michele, nos jardins da Embaixada Brasileira em Lisboa, para onde viajam amiúde. Foto: Acervo pessoal

Foto: deonpedro Deonísio, abraçado por Pedro Thompson, professor da Universidade Estácio de Sá, da qual é titular aposentado. Foto: Acervo pessoal

Foto deonaband: Deonísio no estúdio onde apresenta seu programa Sem Papas na Língua no estúdio da BandFM no Rio. Foto: Acervo pessoal

Foto deoncalero Deonísio, em congraçamento ecumênico com ex-ministros de Temer, Calero, e de Dilma, Martins, e ex-secretário de Alckmin, Chalita. Foto: Acervo pessoal

Fotodeonmicro Do Sermão do Bom Ladrão, de Vieira, Deonísio cita os “reis, que acompanham ao inferno ou ao cárcere bandidos com os quais negociaram” (Foto: Acervo pessoal)

Links

Para ouvir Deonísio e Boechat no Sem Papas na Língua na Band clique aqui

Para ouvir entrevista de Deonísio a Prisco Paraíso no SBT de Florianópolis clique no play abaixo:

Para ouvir entrevista a Augusto Nunes na Jovem Pan clique aqui:

Para ver vídeo que alunos da FACHA fizeram sobre a obra de Deonísio clique aqui  

Nêumanne entrevista: Deonísio da Silva. 30ª edição da série DEZ PERGUNTAS.

Nêumanne entrevista: Deonísio da Silva. 30ª edição da série DEZ PERGUNTAS.

 

Palestra do Nêumanne no Enacon/Secovi: Nem Jesus nas calças…

Palestra do Nêumanne no Enacon/Secovi: Nem Jesus nas calças…

Nem Jesus Cristo conseguiria realizar completamente a missão de tirar o Brasil do atoleiro, que a maioria dos eleitores atribuiu ao deputado Jair Bolsonaro, apesar de ele também se chamar Messias e de ter colocado Deus não apenas em suas orações e até no slogan da campanha presidencial, tão complexa e ingente ela é. A grande esperança é que o Senhor ajude seu súdito fiel a desmontar a máquina de moer corpos, corações, mentes e almas montada pela elite política dirigente, que tem conduzido historicamente os destinos da Nação com uma mão no bolso do contribuinte para lhe furtar todas as economias conseguidas com o suor do trabalho e a outra no próprio bolso para evitar ser pilhado surrupiando. Esta foi, em resumo, a conclusão da palestra que o jornalista José Nêumanne Pinto fez na manhã da quarta-feira 7 de novembro de 2018 no Encontro Nacional das Administradoras de Condomínios (Enacon) no auditório da sede do Secovi (Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis e dos Condomínios Residenciais e Comerciais), em São Paulo.

 

S. Paulo, 7 de novembro de 2018. Palestra do Nêumanne: Panorama político e econômico. Enacon. DEBATE: Na foto, à esquerda o presidente do Secovi, Huberto Gebara.

S. Paulo, 7 de novembro de 2018. Palestra do Nêumanne: Panorama político e econômico. Enacon. DEBATE: Na foto, à esquerda o presidente do Secovi, Huberto Gebara.

 

S. Paulo, 7 de novembro de 2018. Auditório da palestra do Nêumanne: Panorama político e econômico. Enacon.

S. Paulo, 7 de novembro de 2018. Auditório da palestra do Nêumanne: Panorama político e econômico. Enacon.

S. Paulo, 7 de novembro de 2018. Palestra do Nêumanne: Panorama político e econômico. Enacon.

S. Paulo, 7 de novembro de 2018. Palestra do Nêumanne: Panorama político e econômico. Enacon/Secovi SP.

Comentário no Jornal da Gazeta 2: Lula inimigo do povo

Comentário no Jornal da Gazeta 2: Lula inimigo do povo

Ao tratar presidente eleito como adversário político, PT sabota o País

(Comentário no Jornal da Gazeta 2 quinta-feira 1 de novembro de 2018)

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