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Jornalismo

No Estadão desta quarta-feira: O pastor André Mendonça serve a três senhores

No Estadão desta quarta-feira: O pastor André Mendonça  serve a três senhores

Para ministro, Lula foi o único presidente eleito

do e para o povo e Bolsonaro é profeta

“Ninguém pode servir a dois senhores” é uma exortação de Jesus cujo significado revela a exclusividade exigida por Deus aos seus servos. O próprio Cristo explica por que não se pode servir a dois senhores. Está no Evangelho de Mateus (6:24): “Porque ou há de aborrecer-se de um e amar o outro, ou se devotará a um e desprezará o outro”. O ministro da Justiça e da Segurança Pública, André Luiz de Almeida Mendonça, certamente já deve ter meditado muito sobre essa prédica. E não tanto por frequentar a igreja presbiteriana Esperança de Brasília, mas por causa das vicissitudes de sua carreira no serviço público, na qual teve a oportunidade de servir não a dois, mas a três senhores: Dias Toffoli, Lula da Silva e Jair Bolsonaro.

Sua Excelência começou na profissão como advogado da Petrobrás. De lá saiu para fazer carreira fulgurante na Advocacia-Geral da União (AGU). Em 2002 era procurador-seccional da União no norte do Paraná, e, em artigo na Folha de Londrina, saudou a primeira vitória de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República, sob o título O povo se dá uma oportunidade. “Neste momento histórico nos deparamos com a realidade revelada nas urnas: temos o primeiro presidente eleito, do povo e pelo povo”, cravou sem medo de ser feliz.

Não foi propriamente um preito à verdade, pois o ex-líder sindical é, na verdade, filho de Genival, que ganhava a vida como estivador no Porto de Santos, operário braçal, mas com privilégios notórios nas relações de trabalho. Não era um potentado, como Epitácio Pessoa, um estancieiro, como Getúlio Vargas, um militar de alta patente, como Eurico Dutra, nem mesmo um acadêmico, como Fernando Henrique Cardoso. Mas não se pode dizer, por exemplo, que Juscelino Kubitschek de Oliveira não vinha de um lar humilde, sendo, como era, filho de dona Júlia, professora primária e viúva, que sustentou dois filhos com muito sacrifício.

Não se sabe que importância teve esse texto na predileção por ele do advogado Dias Toffoli, que sempre atuou a serviço do Partido dos Trabalhadores (PT) como assessor jurídico das bancadas da legenda de Lula na Assembleia Legislativa paulista e na Câmara dos Deputados. Mas ninguém duvidará da gratidão do subordinado ao advogado-geral da União nomeado pelo ex-presidente petista para o Supremo Tribunal Federal (STF), cargo no qual nunca deixou sem apoio o antigo subordinado da AGU. Mendonça, especialista em gratidão radical, organizou o livro Democracia e Sistema de Justiça, em parceria com um colega do ex-chefe no “pretório excelso”, Alexandre de Moraes, para comemorar os dez anos de atuação daquele (isso mesmo!) no STF.

Dias Toffoli indicou-o ao presidente Jair Bolsonaro, que o nomeou para chefiar a AGU antes da própria posse, em dezembro de 2018, último mês do governo Temer. No cargo apoiou o padrinho em tudo: deu parecer favorável ao inquérito contra os inimigos do STF, relatado pelo já citado Alexandre de Moraes, e ao indefensável banquete de vinhos três vezes premiados com medalhões de lagosta, pago pelo pagador de impostos.

Promovido ao Ministério da Justiça, o teólogo presbiteriano, definido como favorito à vaga do decano Celso de Mello no STF em novembro próximo, por ser “terrivelmente evangélico”, ungiu o chefe do governo qualificando-o de “profeta no combate à criminalidade”. E mostrou com canetadas magistrais que não há incompatibilidade em servir aos petistas Lula e Toffoli sem deixar de ser prestativo a Jair Bolsonaro, presidente que venceu a eleição por ter prometido expulsar o PT do poder. Aboletado no lugar que antes era ocupado pelo ex-juiz que condenou seu ídolo à prisão por corrupção, Mendonça não se negou a assinar um esdrúxulo pedido de habeas corpus para fanáticos bolsonaristas que participaram de atos públicos reivindicando o fechamento do STF e do Congresso Nacional, enquadrados por seu parceiro nas loas a Toffoli, Alexandre de Moraes. E usou a Secretaria de Operações Integradas, criada pelo antecessor, Sergio Moro, para devassar a vida de 579 servidores federais que se manifestaram publicamente contra arreganhos fascistas de apoiadores de seu chefe atual, o capitão Bolsonaro.

O uso de métodos que lembram antigos (mas não aposentados) esbirros da ditadura militar em seu Serviço Nacional de Informações pode parecer uma traição a seus mais antigos senhores do PT, mas não é bem assim. Lula sempre se confessou admirador de Adolf Hitler. E Toffoli, que já conseguiu mandar o benfeitor de volta ao lar, doce lar, hoje tem como prioridade número zero um retirar o ex-juiz Sergio Moro, que condenou o petista, do caminho do novo parceiro para a reeleição, já que talvez seja impossível permitir que o próprio ex-sindicalista dispute a eleição. Ou seja, pode até ser que os três senhores a que Mendonça serve frequentem a mesma comunidade religiosa que cultua o poder pelo poder: o bolsopetismo. E à noite, antes de se persignar para dormir o sono pesado dos injustos, o pastor seja terrível e evangélico ao mesmo tempo, justificando-se como um humilde cumpridor da labiríntica e férrea vontade divina.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 5 de agosto de 2020)

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No Blog do Nêumanne: A patota do consórcio anti-Moro

No Blog do Nêumanne: A patota do consórcio anti-Moro

José Nêumanne

Condenados petistas, aliados e tucanos de mensalão e petrolão unem-se com procurador-geral escolhido por Bolsonaro, Dias Toffoli e caterva contra candidatura do ex-juiz

Na semana passada a Operação Lava Jato e Sergio Moro foram alvos de artilharia pesada do procurador-geral da República, Augusto Aras, e do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli.

Em live com advogados que tiveram seus clientes como alvos do maior combate à corrupção já visto neste país, Augusto Aras determinou que “agora é a hora de corrigir os rumos para que o lavajatismo não perdure”. Ele afirmou ainda que é preciso acabar com os excessos e comparou os 350 terabytes da Operação Lava Jato de Curitiba com os 150 terabytes dos processos no Ministério Público Federal (MPF). Esses terabytes de Curitiba não deveriam surpreender o PGR. Não surpreenderiam, por exemplo, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que considerou a corrupção praticada somente pela Odebrecht como o maior caso de suborno internacional da História.

O Brasil foi tomado por uma organização criminosa (Orcrim) com divisão de tarefas estabelecida, estrutura ordenada e em caráter permanente. Na prática, um conluio reforçado. Diferentemente de outros regimes em que a lei é alterada para servir a objetivos do partido no poder, o governo petista atuava fora da lei, em conluio com alguns empresários do setor privado, administradores públicos e parte da classe política, e nele todos levavam seu pedaço. Havia um exército de mercenários com as empreiteiras corrupteiras em posição de destaque. A Orcrim atuava em conjunto com o PT e os agentes e parceiros pelo cargo e pelo dinheiro, criando a maior organização criminosa de que se tem notícia na História do País.

Nem o dinheiro dos trabalhadores escapou desse conluio. Recentemente tive acesso à delação premiada do figurão petista Antônio Palocci. Ele revela um esquema gigantesco escondido, pilotado pelos ex-presidentes de fundos de pensão de empresas estatais: Sérgio Rosa, da Previ, Wagner Pinheiro, da Petros, e Guilherme Lacerda, da Funcef, ex-sindicalistas e fundadores do PT. Eles desviaram recursos dos trabalhadores para a perpetuação do partido no poder e, principalmente, para enriquecer.

Para se eleger o populista de direita Jair Bolsonaro privilegiou na campanha o combate à corrupção e a Lava Jato, chegando ao ponto de nomear o ex-juiz federal Sergio Moro ministro da Justiça. Mas ele logo mudaria de ideia quando as investigações da Polícia Federal (PF) passaram a visar seu primogênito, Flávio Bolsonaro, o “nota zero um”. Aí passou a ter como prioridade absoluta interferir na PF. O ex-juiz da Lava Jato não admitiu isso e pediu demissão. Esse ataque à Lava Jato também tem outro objetivo: fragilizar Sergio Moro, que é um forte candidato à Presidência da República em 2022.

Com os ataques à Lava Jato e a Moro, Augusto Aras agrada a Bolsonaro com o objetivo notório de ser nomeado para uma vaga no STF. Trata-se do tradicional mercado persa das nomeações.

E não para aí. O governo e o ministro Dias Toffoli estão preparando um projeto que retira poder do Ministério Público nos acordos de leniência e o passa para a Controladoria-Geral da União (CGU) e a Advocacia Geral da União (AGU), órgãos subordinados ao presidente da República.

Desde que demitiu Moro do ministério, Bolsonaro e seus filhos têm usado o gabinete do ódio, com sede a 30 metros de sua sala e sob a chefia do filho nota zero dois, Carlos, para reduzir a pó a reputação do ex-juiz. Tudo o que ali foi elaborado para crucificar Santos Cruz, seu amigo desde a academia militar, e o advogado que costurou sua candidatura, Gustavo Bebianno, para lembrar os casos mais absurdos, parece truque infantil comparado com o que foi feito contra o paranaense. O resultado, porém, é nulo. Repetindo, aliás, o mesmo malogro, seja do PT, seja do site The Intercept Brasil, do ianque Glenn Greenwald, que não conseguiu enganar ninguém com suas forçadas de barra. O ex-ministro continua, impávido colosso, como um mineral imenso e pesado, imune ao ácido fétido pingado sobre sua superfície por inimigos sem escrúpulos.

Mas o consórcio de Aras, Toffoli, Mendonça, Bolsonaro, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, presidentes da Câmara e do Senado, não se dará facilmente por vencido. Seu novo plano é tirar do zero, nota perfeita para a falta de consciência dessa corja, um antigo projeto antilavajatista (para usar o neologismo de Aras) que inventa uma quarentena de oito anos para juízes e procuradores que queiram disputar mandatos nas eleições populares. O detalhe cruel do sórdido projeto, com aparente verniz garantista de araque, é a isonomia com o prazo dado aos condenados, a ser aplicado a quem ouse condená-los. Qualquer brasileiro de boa-fé pode apoiar uma quarentena desse gênero, mas tal apoio só será justo se forem feitas algumas correções no projeto que já tramita no Congresso, sob a égide do deputado Fabinho Trad, por mera coincidência, é claro, primo de Luiz Henrique Mandetta, preferencial pretendente à Presidência da República pelo DEM, partido de Maia, Alcolumbre e Onyx Lorenzoni. Convém que se aumente o prazo para condenados e se incluam na quarentena militares da ativa e da reserva, policiais e ocupantes de cargos poderosos nos três Poderes da República insana. E mais: acabar com a farra da reeleição de parlamentares a perder de vista e do abuso do significado da palavra nepotismo com a permissão de candidaturas de parentes de primeiro grau de politiqueiros em geral. Afinal, a lógica que limita Francisco também deve limitar Chico. Pois é.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, segnda-feira 3 de agosto de 2020)

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No Blog do Nêumanne: Assassinato de reputação nada tem que ver com liberdade de expressão

No Blog do Nêumanne: Assassinato de reputação nada tem  que ver com liberdade de expressão

José Nêumanne

Ao mandar, com AGU, Adin ao STF pedindo desbloqueio de 16 contas e 12 páginas de apoiadores, Bolsonaro passa recibo de cúmplice de eventuais crimes contra a honra

O presidente Jair Bolsonaro impetrou, no sábado, 25 de julho. uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a suspensão do bloqueio de 16 contas e 12 páginas nos perfis sociais Facebook e Twitter de  influenciadores que o apoiam. O pedido de medida cautelar, assinado por ele e pelo advogado-geral da União, José Levi Mello do Amaral Júnior, interrompeu um momento de “Jairzinho Paz e Amor”, no qual, a conselho de assessores sensatos, ele deixou de disparar petardos pesados contra o próprio STF e líderes no Senado e na Câmara que passou a considerar inimigos em encontros improvisados no jardim do Palácio da Alvorada, onde mora.

A decisão tem inconvenientes. O primeiro deles, e não o principal, é o de mostrar que não tem o menor interesse em desmobilizar o paredão virtual instalado por seu filho nota zero dois, Carlos, vereador no Rio, mas que dá expediente na chefia do “gabinete do ódio” no Palácio do Planalto, a 30 metros da sala do presidente. Pior ainda é que a estratégia adotada é idêntica à que Dilma Rousseff, do PT, utilizou na malograda tentativa de escapar ilesa ao processo de impeachment, usando seu advogado-geral, José Eduardo Martins Cardozo, como defensor particular. A Advocacia-Geral da União (AGU), é claro, dá assessoria jurídica às instituições da União Federativa, uma delas a Presidência da República, sendo abusivo seu emprego particular pelo chefe dó Poder Executivo. O caso ainda é agravado por este incorporar a essa chefia apoiadores sem função pública, acusados de violação de capítulos do Código Penal pertinentes à honra, patrimônio pessoal intransferível de qualquer cidadão.

Qualquer governante provido de um mínimo de lucidez se manteria incólume ficando à distância regulamentar de dolos eventuais capitulados em crimes comuns como calúnia, injúria e difamação. O eufemismo em inglês fake news é usado para reduzir a carga delituosa, mas não cumpre esse papel com eficiência. Os crimes contra a honra alheia não são protegidos pela retórica da crítica à censura e do manto diáfano da liberdade de informação, expressão ou opinião. A informação só é livre se for verdadeira, a expressão só serve ao público, único beneficiário do livre exercício dela, se puder ser comprovada com  fatos. Quem a pratica só tem um recurso válido para qualquer ofensa feita a outrem: a figura legal da exceção da verdade. O sagrado direito de cada um ter e poder manifestar qualquer opinião não permite o anonimato. O disparo de mensagens por robôs, prática comum em redes sociais, profana esse primado civilizatório.

   O pedido de liminar de Bolsonaro e José Levi incorre em outra impropriedade ao desconhecer o fato de em nenhum momento o inquérito do STF tenta criminalizar a opinião de quem quer que seja, mesmo que conteste o Estado de Direito, garantido pela Constituição. Ao justificar sua decisão de pedir o bloqueio das contas e páginas dos bolsonaristas radicais, o relator resumiu o objeto de sua ordem às redes sociais no documento em que a embasou. “As provas colhidas e os laudos periciais apresentados nestes autos apontam para a real possibilidade de existência de uma associação criminosa, denominada nos depoimentos dos parlamentares como ‘Gabinete do Ódio’, dedicada a disseminação de notícias falsas, ataques ofensivos a diversas pessoas, às autoridades e às instituições, dentre elas o Supremo Tribunal Federal, com flagrante conteúdo de ódio, subversão da ordem e incentivo à quebra da normalidade institucional e democrática”, escreveu Moraes.

Os apoiadores do presidente foram banidos do Twitter e do Facebook  em 24 de julho, quase dois meses depois dessa ordem. E as plataformas cumpriram a determinação somente depois de serem intimadas na quarta-feira, 22, pelo próprio Alexandre, sob pena de multa diária de R$ 20 mil em caso de descumprimento. Entre os alvos da ordem judicial estão o ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB), os empresários Luciano Hang e Otávio Fakhoury, a extremista Sara Giromini, os blogueiros Allan dos Santos, Bernardo Kuster e Winston Lima, o humorista Reynaldo Bianchi, o militante Marcelo Stachin e o assessor Edson Pires Salomão, chefe de gabinete do deputado estadual de São Paulo Douglas Garcia (sem partido). Na “vida real” das redes sociais, contudo, os bolsonaristas passaram a usar contas alternativas para atacar o Supremo e a cobrar uma tomada de posição de Bolsonaro sobre o que eles consideram cerceamento à liberdade de expressão. A posição do chefe veio no dia seguinte.

Bolsonaro e seus fiéis robôs e seguidores a qualquer custo continuam passando por cima de decisões do Estado de Direito, repetindo os crimes pelos quais estão sendo denunciados. Um amigo, que prefere não se expor, repassou-me um e-mail que recebeu num grupo ligado à torcida de um grande time de futebol, contendo uma mensagem contra a honra do ex-juiz da Operação Lava Jato Sergio Moro, com o seguinte título em letras capitais: “MORO ENVOLVIDO ATÉ O PESCOÇO EM FALCATRUA.  Talvez, isso explique a razão de Bolsonaro ter declarado a seguinte frase: ‘Se as pessoas soubessem o que aconteceu no Ministério da Justiça, ficariam enojadas’. Muitos brasileiros ficaram chocados e tristes pela saída de Moro do Ministério. Não deveriam”. Não são poucos os ex-aliados que receberam e ainda recebem tratamento similar do “gabinete do ódio”. Citando de memória: o general Santos Cruz, o advogado Gustavo Bebianno, o empresário Paulo Marinho… No ar fica uma dúvida atroz: nem sequer notórios delinquentes sem foro são punidos de fato?

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 27 de julho de 2020)

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Artigo semanal na coluna do Grupo Ric Mais: Lula, Serra e a Qualicorp

Artigo semanal na coluna do Grupo Ric Mais: Lula, Serra e a Qualicorp

José Nêumanne

Júnior, acusado de financiar caixa 2

do senador tucano com R$ 5 milhões,

é citado na delação de Palocci como financiador do PT

José Seripieri Junior, fundador da Qualicorp, corretora de planos e seguros de saúde, foi preso temporariamente por ordem da Justiça Eleitoral de São Paulo, na Operação Paralelo, por ter financiado, através de caixa dois, R$ 5 milhões para a campanha deJosé Serra, ao Senado. em 2014.

Do PSDB ao PT, Júnior foi generoso e aplicado amigo de Luiz Inácio Lula da Silva. Em 2014, sua empresa, a  Qualicorp, assumiu a gestão do plano de saúde dos funcionários da Petrobras, 250.000 funcionários, sem licitação, claro. Antônio Palocci, em delação premiada, afirmou que ele teria indicado um diretor da empresa para a Agência Nacional de Saúde Complementar (ANS), autarquia que controla os planos de saúde.

Com isso, a Qualicorp estruturou as resoluções 195 e 196, obrigando a venda dos planos de saúde com corretagem, proibindo as operadoras do ramo de fazerem corretagem e permitindo planos coletivos em sistema de associação, para facilitar a venda. Resumindo, a empresa do financiador da campanha do expoente tucano ao Senado comprou a lei que lhe garantiu o monopólio do mercado de corretagem de seguros.

Em pagamento pelo favor, a Qualicorp atendeu a todos os pedidos do PT de Lula. Doou R$ 4 milhões à campanha para reeleição de Dilma Roussef, fez aportes de propinas para as campanhas políticas do partido, para o Instituto Lula, para a empresa do Lulinha, Touchdown, e ainda pagou R$ 1 milhão para o advogado Celso Vilardi defender Rosemary Noronha, chefe do escritório da Presidência, em São Paulo, e dedicada amiga íntima do ex-sindicalista. Ainda segundo a delação de Palocci, Júnior se relacionava diretamente com o chefão petista, que frequentava seu condomínio de luxo em Angra e viajava para cima e para baixo no helicóptero da Qualicorp.

As delações de Palocci trouxeram para a superfície a organização criminosa (Orcrim) que comandava o país. Palocci descreveu, deu a dimensão e a mecânica do seu funcionamento. Diferente de outros regimes em que a lei é alterada para servir aos objetivos do partido, o governo petista atuava fora da lei, em conluio com o setor privado e com os gestores públicos e nesse processo todos terminavam levando seu pedaço.

A Orcrim, composta por autoridades do Executivo, dirigentes de estatais e empresários, todos com tarefas bem definidas, operava nos bastidores de maneira planejada para assaltar o País, financiar compra de votos e assegurar a permanência no poder do partido e da própria organização. E assim continuar roubando, e enriquecendo.

Na delação  de Palocci na Greenfield, a Lava Jato de Brasília, nem o dinheiro dos trabalhadores escapou da corrupção. Palocci delatou o esquema gigantesco escondido, pilotado pelos presidentes dos fundos de pensão, Sérgio Rosa, da Previ, Wagner Pinheiro, da Petros, e Guilherme Lacerda, da Funcef, ex-sindicalistas e fundadores do PT, que  desviaram recursos dos trabalhadores para a perpetuação do partido no poder.

Foi montada a maior organização criminosa de que se tem notícia nesta desvalida Pindorama. Deu no que deu. Unus pro omnibus, omnes pro uno para assaltar o país.

  • Jornalista, poeta e escritor

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Artigo na página 2 do Estadão: Bolsonaro conduz a Pátria para as trevas de onde veio

Artigo na página 2 do Estadão: Bolsonaro conduz a Pátria para as trevas de onde veio

Presidente serve a espertinhos 

que o mantêm no poder a despeito de nossa agonia

Jair Bolsonaro nada fez de relevante em dois anos como vereador no Rio de Janeiro, nem em 28 como deputado federal do mais baixo clero por várias legendas que nunca nada revelaram sobre seu projeto político. Foi eleito presidente da República em 2018 precisamente pelo que ele não fez: dos 13 candidatos era o único cujo nome não fora citado em nenhuma delação premiada da Operação Lava Jato, que devassou o maior escândalo de corrupção da História do Brasil, dito petrolão. E nada foi revelado contra sua honra no famigerado caso anterior, chamado de mensalão. Seus maiores cabos eleitorais foram os corruptos do Partido dos Trabalhadores (PT) e seus aliados, incluídos os tucanos, que fingiram ser oposição tão completamente que até eles mesmos acreditaram.

Não é possível calcular quanto de sua votação de 57 milhões, 797 mil e 847 votos no segundo turno se deveu à decisão de afastar dos cofres da República Lula, seus asseclas e seus aliados de conveniência. Nem é viável calcular qual teria sido a participação do fervor anticorrupção dos que o sufragaram desde o primeiro turno para impedir que os suspeitos, investigados, acusados e condenados por Polícia Federal (PF), Ministério Público Federal (MPF) e Justiça Federal paralisassem a devassa. Inédita na História, esta levou o maior empreiteiro de obras públicas e o mais popular contratador delas à barra dos tribunais e à cadeia. O próprio vencedor passou o recibo dessas evidências ululantes ao nomear Sergio Moro, o ex-juiz que condenou Lula e Marcelo Odebrecht, para o Ministério da Justiça, e Paulo Guedes, liberal da escola de Chicago e avesso aos economistas socialistas, populistas, cepalinos e keynesianos que mandaram na Fazenda após a queda da ditadura militar.

Não se pode inculpar a maioria do eleitorado brasileiro por ter escolhido o maior estelionatário eleitoral de todos os tempos. De fato, o capitão nunca escondeu de ninguém suas enormes dificuldades de compreender a vã filosofia. Ou a condenação do politicamente correto que inspira sua devoção a garimpo ilegal, desmate e grilagem de terras na Amazônia, seu amor obsessivo por armas de fogo e seu ódio a radares que inibem o excesso de velocidade em estradas. Tais características explicam sua tendência ao charlatanismo, que o faz odiar a ciência, e ao exercício ilegal da medicina, ao patrocinar picaretagens indefensáveis, tais  como a “pílula do câncer” e a hidroxicloroquina, às quais atribui a condição de panaceia universal.

Há, contudo, em nosso Estado de Direito um arremedo de freios e contrapesos que dão ao cidadão algum conforto de pensar que os limites institucionais clássicos impediriam um aventureiro como ele de alcançar objetivos muito além do interesse público. Há todo um sistema legal, produzido pelo Legislativo e fiscalizado pelo Judiciário, que, pelo menos em teoria, deveria tê-lo detido na prática de traições tão óbvias como entregar ao PT de Lula postos-chave, como o Ministério da Justiça para André Mendonça e a Procuradoria-Geral da República, de mão beijada, para Augusto Aras. Isso foi possível com a degola de Sergio Moro, que era o garante de que o combate à corrupção seria inevitável.

O cidadão comum, aqui na planície, não tem culpa de ter sido logrado. E o foi porque a obra de demolição que o presidente preguiçoso empreendeu encontrou armas e armeiros para tanto. Bolsonaro na Presidência está sendo muito mais nocivo à Pátria do que o “mau militar” que o ex-presidente Ernesto Geisel definiu com precisão cirúrgica, sobretudo porque encontrou a cama feita e o negócio encaminhado. Essa evidência está encarnada no apoio que tem recebido do dono do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Roberto Jefferson, delator da quadrilha do mensalão. E completa-se na denúncia, feita pelo ex-aliado Major Olímpio, da compra explícita de senadores e deputados com verbas públicas para emendas parlamentares, que parece cair na indiferença generalizada com que tudo vira pizza no Brasil.

O Centrão, que derrubou Dilma Rousseff, do PT, e manteve Michel Temer, do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), no poder, ao arrepio de tudo o que de ilícito fora praticado pelos governos daquela aliança inquebrantável, é apenas a denominação conveniente que impede Bolsonaro de deixar o poder para pagar mais pelo que deixa de fazer do que pelo que fez de ominoso, que não foi pouco. A criminosa indiferença ao avanço da pandemia, a transferência da incompetência da intendência militar para a gestão do mais precioso patrimônio coletivo, a saúde de nosso povo, a destruição da instrução pública por um analfabeto funcional conduzido por um vigarista a disparar munição pesada contra a inteligência e a sabedoria nacionais chegaram ao nosso convívio para ficar.

Bolsonaro é negacionista, terraplanista e obscurantista militante e está a serviço de espertalhões como Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, que o mantêm no poder. Não há na elite dirigente desta Pátria condenada ao desterro uma voz da razão que o mande de volta às trevas de onde veio e para onde marchamos.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira clique aqui.

No Blog do Nêumanne: No país do ‘sabe com quem está falando?’

No Blog do Nêumanne: No país do ‘sabe com quem está falando?’

José Nêumanne

Desembargador quatrocentão que deu carteirada em guarda municipal que o multou por desrespeitar decreto municipal de Santos sem máscara na praia merece punição pesada

Três episódios recentes expõem as vísceras de um tipo de preconceito mais comum no Brasil que o da cor da pele (de vez que raças não têm respaldo científico na biologia): o de classe, ou melhor, casta social. Como o racismo, ele tem suas raízes no fato de este país ter sido o último no Ocidente cristão a abolir a escravatura. E manifesta-se na naturalidade com que se comportaram a primeira-dama de Tamandaré (PE), Sari Mariana Gaspar Corte Real, que não se perca pelos sobrenomes ilustres; o engenheiro civil “diplomado” Leonardo Santos Neves de Barros e a mulher, Nívea Vale Del Maestro, engenheira química; e o desembargador paulista Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira em flagrantes recentes, que despertaram indignação generalizada e merecida.

O primeiro e mais grave caso foi a trágica morte de Miguel Otávio
Santana da Silva, de 5 anos, filho da empregada doméstica Mirtes Renata Santana de Souza, após despencar do nono andar de um edifício de luxo no bairro de São José, no Recife. Todas as circunstâncias da tragédia são agravantes do comportamento da primeira-dama do município de Tamandaré, onde fica um pedaço paradisíaco do litoral entre a capital pernambucana e Maceió, a Praia dos Carneiros. Sérgio Hacker, o dono do apartamento onde Miguel foi deixado aos cuidados da patroa da mãe, é de uma família de políticos tradicionais de Pernambuco, tendo sido eleito pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), fundado por um ícone da esquerda brasileira, Miguel Arraes, cujo neto, Eduardo Campos, morreu na queda do jatinho particular em que viajava quando fazia campanha para presidente da República, em 2014. A queda fatal do filho da empregada doméstica trouxe a lume os podres dele. Recentemente foi noticiado que tem sido alvo de investigação da Polícia Civil pernambucana na apuração de desvio de recursos públicos e associação criminosa. À época da morte do garoto, foi publicado também que sua mãe recebia o salário como funcionária fantasma da prefeitura. Assim como a mãe dela, também a serviço da casa.

Tornada pública a queda do filho único da servidora, outros delitos menos graves seriam revelados. Mirtes Renata trabalhava normalmente no apartamento na pandemia da covid-19. Mas devia ter sido dispensada para cumprir isolamento social, decretado pelo governador socialista do Estado de Pernambuco, Paulo Câmara. Como não tinha com quem deixar o filho, a doméstica foi trabalhar com ele e, ao sair para passear com o cachorro da madame, pediu que ela tomasse conta do filho. Mas Miguel sentiu falta da mãe e Sari, para não ter de suportar sua inquietude, levou-o ao elevador. Miguel ficou no nono andar, de onde desabou para a calçada e a morte.

Sari foi flagrada pelas câmeras de segurança do edifício levando Miguel ao elevador e apertando um botão que não era o do térreo, único destino seguro para a criança. Mas, em depoimento à polícia e entrevistas a noticiários da TV, contou que não tinha adotado o risco criminoso que cometeu para impedir que o “intruso” continuasse criando transtornos ao trabalho da manicure. O crime ominoso teve grande repercussão e ela foi indiciada por “abandono de incapaz com resultado morte”. Se condenada, é prevista pena de prisão de quatro a 12 anos. Impossível saber o desfecho desse processo, mas é mais provável que ela, no máximo, indenize com alguma ninharia a família de sua vítima e se comprometa a distribuir ajuda social a carentes. Muito pouco para a fria crueldade que inspirou seu crime.

Leonardo Santos Neves de Barros e a mulher, Nívea Vale Del Maestro, foram flagrados em explícita aglomeração num bar do Leblon, no Rio, sem usar máscara nem guardar distância prescrita pela prefeitura. Fê-lo a equipe de fiscalização chefiada por Flávio Graça, superintendente de Inovação, Pesquisa e Educação da Subsecretaria de Vigilância Sanitária (Subvisa) da Prefeitura do Rio de Janeiro. Este chamou Leonardo de “cidadão”, tratamento comum em Repúblicas democráticas desde a Revolução Francesa, que derrubou a monarquia autocrática (1779-1789). A engenheira química Nívea reagiu de forma autoritária e grosseira, afirmando que o marido não era simplesmente um cidadão, mas, sim, ora vejam, um “engenheiro civil formado”!

Na verdade, nenhum dos dois exercia a profissão na qual ambos se formaram. Leonardo trabalhava com gerenciamento de risco e foi demitido da empresa por um bom motivo. Afinal, ele não conseguia gerenciar o próprio risco de ser pilhado por desobedecer a uma norma sanitária adotada para proteger a saúde das pessoas e, no caso, a reação menos arriscada deveria ser não reagir de forma nenhuma. Talvez seja o caso de duvidar que seu gesto o ajude a conquistar clientes para sua empresa de consultoria em análise de contratos. Ao tomar as dores dele, a mulher também perderia o emprego de especialista em desenvolvimento e controle na empresa privada de energia elétrica Taesa. Não faltou um bom motivo, de vez que, na áspera e desnecessária reação ao agente da lei, ela demonstrou absoluto e inócuo descontrole. Depois de sua reação se ter tornado pública, ela esclareceu que o cargo que perdeu estava de acordo com seu MBA em gestão de projetos. Não se conseguiu saber por que o diploma universitário do multado, que nunca exerceu a profissão nem sequer é filiado ao Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea), bastaria para dispensá-lo de seguir as normas básicas de isolamento social previstas para reduzir o risco de contágio da covid-19. O chefe dos fiscais, Flávio Graça, é doutor em Ciências Veterinárias pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, mestre em Medicina Veterinária pela mesma instituição e médico veterinário formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Atitude duplamente reprovável foi também a do desembargador paulista Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira, flagrado humilhando um guarda civil municipal de Santos, no litoral de São Paulo, após ser multado por não utilizar máscara enquanto caminhava na praia. Um vídeo obtido pelo G1, perfil social da Rede Globo, no domingo 19 de julho mostra-o chamando o chefe da patrulha de “analfabeto”, rasgando a multa, jogando o papel no chão e, por fim, dando uma “carteirada” ao telefonar para o secretário de Segurança Pública do município, Sérgio Del Bel, para que “intimidasse” o guarda municipal. Sua alegação foi a de que, como profissional da Justiça. não tem obrigação de cumprir decretos, mas apenas leis. Por aí já se pode ter uma ideia do teor das sentenças que ele prolata.

 Outro vídeo mostrou o mesmo desembargador ameaçando e humilhando outro guarda municipal. Em determinado momento desse vídeo, ele chega a falar em francês com o rapaz, que fica sem entender, até porque não era possível perceber que diabo de língua ele tentava falar. Francês é que não era. O corregedor nacional de Justiça, ministro do Superior Tribunal de Justiça Humberto Martins, intimou o desembargador a prestar esclarecimentos sobre essa conduta.

Enquanto a atitude inconveniente do magistrado, que exibe sobrenomes de que se orgulham os ditos paulistas quatrocentões, produzia esse pequeno contratempo que dificilmente será punido na dura forma da lei, que normalmente membros de tribunais reservam para cidadãos humildes, mas que não são obrigados a cumprir as mesmas leis, cristãos profissionais se reuniam em Brasília para protestar contra a quarentena e a favor da cloroquina. Portador do novo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro exibiu para o País inteiro por redes sociais o frasco desse sucedâneo de óleo da cobra de feiras livres e praças públicas, comportando-se como charlatão em pleno exercício ilegal da medicina.

Nenhum dos protagonistas deste texto tem o direito de ser enquadrado na definição bolsonarista de “cidadãos de bem” e muito menos de cristãos, seguidores do apóstolo Paulo, que inventou o conceito civilizatório do amor. Podem ser, ao contrário, satanistas, como o advogado autoproclamado do clã Bolsonaro, Frederick Wassef. Ou seja, adoradores da morte, fanáticos da falta de empatia e sacerdotes do mal. Mas não se deve esperar que a cobrança de seus pecados mortais só lhes seja apresentada no Juízo Final. A verdadeira justiça dos homens não deveria ser condescendente com a infanticida de Recife, o casal que considera seus diplomas acadêmicos atestados que o autorizam a agir acima dos códigos legais e o juiz que usa a máscara invisível dos supremacistas sociais, que ganham fortunas para garantir o rigor da lei para quem os incomode e sombra e champanhe francês apenas para a própria grei.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 20 de julho de 2020)

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