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Nêumanne entrevista Romeu Tuma Jr.

Nêumanne entrevista Romeu Tuma Jr.

Lula era agente duplo servindo

à polícia e às montadoras, diz Tuma

Delegado Tuma Jr. conta que petista informava a seu pai  quem era quem no movimento sindical e combinava greve  com multinacionais para obter vantagens negociais 

“Lula era o tipo de agente duplo, ou seja, passava informações privilegiadas ao meu pai sobre movimentações dos sindicalistas e fazia o jogo das montadoras de veículos para conseguir atender às reivindicações tanto dos empresários quanto dos trabalhadores”, disse o policial Romeu Tuma Jr. nesta edição semanal da série Nêumanne Entrevista neste blog. Autor do best-seller Assassinato de Reputações – Um Crime de Estado (Topbooks), ele também falou a respeito da investigação sobre a morte do prefeito de Santo André Celso Daniel, quando este coordenava o programa de governo do ex-líder sindical em sua primeira campanha vitoriosa para a Presidência da República. “Condenaram alguns indivíduos como executores, mas, pessoalmente, tenho a convicção de que o Dionísio Severo seria um deles e não foi apontado no processo que se encerrou, fruto da investigação feita pela outra equipe (…). Quanto aos mandantes, não se puniu ninguém e creio que, com a morte do Sérgio Sombra, a última esperança reside numa eventual delação premiada dos empresários de Santo André presos e condenados por participação no esquema de propina comprovado. Ficou muito claro para mim que não interessava aos governos federal e estadual da época investigar mais nada”, revelou.

Tuma aposta que mandantes do assassinato de Celso Daniel não foram descobertos por absoluto desinteresse do Estado e da União: Foto: Acervo pessoal

Tuma aposta que mandantes do assassinato de Celso Daniel não foram descobertos por absoluto desinteresse do Estado e da União: Foto: Acervo pessoal

Paulistano, casado, pai de quatro filhas e avô de uma neta, Romeu Tuma Jr. é advogado e sócio fundador do Escritório Romeu Tuma Sociedade de Advogados. Bacharel em Direito pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) e Faculdades Integradas Guarulhos (FIG) (1978 a 1982), diplomou-se no Curso Superior de Polícia pela Academia de Polícia Civil do Estado de São Paulo (2000). É especialista em segurança pública e polícia judiciária, tem experiência em projetos de segurança com cidadania, integrando atuação policial, equipamentos sociais, ações de cidadania e direitos humanos. Habilitado em Processo Legislativo e Direito Eleitoral, atuou como Autoridade Central Brasileira em inúmeros acordos de cooperação jurídica internacional em matéria penal, civil, extradição e em questões migratórias, especialmente acordos multilaterais no âmbito do Mercosul. É delegado de polícia da classe especial da Polícia Civil do Estado de São Paulo  e foi secretário nacional de Justiça, do Ministério da Justiça. É delegado de polícia comissionado na Polícia Federal e foi o primeiro chefe da Interpol em São Paulo. Na política, exerceu mandato de deputado estadual na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (2003 a 2007), na qual presidiu as Comissões de Segurança Pública e de Defesa dos Direitos do Consumidor, além de ter sido eleito corregedor parlamentar e vice-presidente da Comissão de Administração Pública. Já publicou seis livros, entre os quais se destacam Assassinato de Reputações – Muito Além da Lava Jato (2016), Assassinato de Reputações – Um Crime de Estado (2013) e Máfia dos Fiscais, Reflexões Sobre oCrime Organizado (2000).

Nêumanne entrevista Romeu Tuma Jr.

Nêumanne – O senhor se lembra precisamente de como conheceu pessoalmente Luiz Inácio Lula da Silva, em que circunstâncias e com qual frequência chegou a conviver com ele?

Tuma – Lembro-me bem. Foi durante a prisão dele nos anos 80. Naquela época convivemos bastante, quase que diariamente, durante o período em que ele ficou hospedado no Dops. Após isso, tive alguns contatos esporádicos com Lula durante os anos que se sucederam. Quando fui deputado estadual em São Paulo (2003-2007) e ele presidente da República, encontrava-o com mais frequência durante agendas coincidentes e eventos. Já em meados de 2007, após o fim do meu mandato, fui convidado por ele para ser secretário nacional de Justiça, cargo que ocupei até junho de 2010, período em que o encontrava com mais frequência por causa das atribuições institucionais.

Tuma escoltou Lula à saída do DOPS, quando este foi solto, com Marisa. A foto constava de um livro que o policial ganhou de presente de Tarso Genro. Foto: Acervo pessoal

Tuma escoltou Lula à saída do DOPS, quando este foi solto, com Marisa. A foto constava de um livro que o policial ganhou de presente de Tarso Genro. Foto: Acervo pessoal

N – Em que fatos específicos o senhor se baseia para afirmar, como o faz em seu livro Assassinato de Reputações – Um Crime de Estado, sem sombra de dúvidas, que o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, hoje do ABC, Luiz Inácio Lula da Silva, foi informante de seu pai, o delegado Romeu Tuma, então diretor do Dops paulista?

T – Em fatos que acompanhei como policial na época. Lula era o tipo de agente duplo, ou seja, passava informações privilegiadas ao meu pai sobre movimentações dos sindicalistas e fazia o jogo das montadoras de veículos para conseguir atender às reivindicações tanto dos empresários quanto dos trabalhadores. Por exemplo, naquela época era difícil aumentar os preços dos veículos porque havia um controle rígido do governo. Aí o Lula, em combinação com os empresários, arrumava greves para forçar uma negociação das montadoras com o governo em troca de vantagens para os trabalhadores. Lula também sempre informava meu pai sobre quem era quem nos movimentos sindicais e sobre a personalidade de cada um dos lideres e de seus companheiros.

N – Como um informante do Dops à época do regime militar conseguiu tornar-se o mais importante líder operário e da esquerda do Brasil na segunda metade do século 20? Isso o surpreendeu?

L – Francamente, não surpreendeu. Ele era habilidoso, tinha a proteção dos empresários, dava-se bem com as autoridades, era um negociador, não comprava brigas sem saber o resultado antes, então nós já sabíamos que uma hora ele chegaria aonde chegou. Além de tudo, tinha um discurso que era como mel aos ouvidos do povo. A esquerda não tinha ninguém com as características do Lula e muito menos com os contatos que ele tinha. Portanto, sabíamos que com o desgaste dos governos militares, e do centro-direita, a ascensão dele era só uma questão de tempo, só uma questão de patrocínio político-partidário, o que veio com o desempenho do José Dirceu. Aliás, a relação dele com as montadoras se manteve estreita até o fim de seu governo. Várias pessoas confirmam isso, e o próprio Palocci acaba de delatar mais um caso envolvendo representante de uma montadora que pagou propina a Lula.

Tuma com Luiz Paulo Barreto, secretário-geral do Ministério da Justiça (de que seria titular) e no lado oposto, Dias Toffoli, advogado-geral da União no primeiro governo Lula. Foto: Acervo pessoal

Tuma com Luiz Paulo Barreto, secretário-geral do Ministério da Justiça (de que seria titular) e no lado oposto, Dias Toffoli, advogado-geral da União no primeiro governo Lula. Foto: Acervo pessoal

 N – Como o senhor definiria a personalidade desse cidadão? Que qualidades o levaram ao topo do poder, da glória e da fortuna? E que defeitos são responsáveis por estar ele agora cumprindo penas altíssimas como preso comum, sem perspectiva de liberdade tão cedo?

T – Lula tinha uma liderança grande, formada na base do conhecimento, no poder da informação. Sua rede de contatos em todos os níveis era grande e isso lhe dava grande vantagem. Ele sabia exercer o papel de líder e sabia jogar muito bem com informação e contrainformação. Tinha uma personalidade forte, mas sabia dosar. Ele batia com a mão do gato. Sempre teve paus-mandados para fazer o que ele não queria fazer ou não podia fazer. Ele tinha sede de poder, seu projeto era para 30 anos de governo nas mãos não do PT, mas de quem ele pudesse influenciar.  A ganância foi crescendo com o tempo, creio que após disputar várias eleições e conhecer o sistema de doações empresariais e as contrapartidas. Após sua chegada à Presidência, o poder,  a convivência com suas benesses e a companhia de líderes de países totalitários que o bajulavam em troca dos recursos do povo brasileiro, via BNDES, lhe subiram à cabeça.

Você imagina Lula em Cuba vendo o Fidel Castro poder usufruir centenas de casas, fumar os melhores charutos, tomar as melhores bebidas, e assim em vários países onde o povo passava fome, mas seus presidentes ditadores incrustrados no poder por décadas tinham do bom o do melhor. E Lula quando os visitava usufruía aquilo tudo. Na sua cabeça, após a implantação do Bolsa Família, em que ele entende que acabou com a miséria no Brasil, o Minha Casa Minha Vida e os subsídios para as montadoras com que iludiu a classe média na compra de carros, sem entender que com o tempo se endividaria e perderia o bem, por que não poderia ter uma vida igual à dos seus companheiros daquelas ditaduras de esquerda, desde que veladamente?

Viagens nababescas, o romance que abalou dona Marisa, que era um freio para ele e a partir dali passou a cuidar mais de si do que aconselhá-lo, tudo isso contribuiu para o fim que ele encontrou na Lava Jato.

Lula subestimou a inteligência dos mais pobres e da nova classe média, achando que virara um deus e as pessoas perderiam a visão e o sentimento de indignação com assaltos aos cofres públicos. O Brasil não aceitava mais o rouba, mas faz.

Além disso, ele se tornou ganancioso e revelou algo de sua personalidade que ninguém conhecia: a covardia. Essa conjunção o arruinou.

Pai de Tuma, que foi diretor do DOPs paulista e da Policia Federal, elegeu-se senador com sua efígie de xerife e é herói do filho, prestigiou sua posse na primeira delegacia. Foto: Acervo pessoal

Pai de Tuma, que foi diretor do DOPs paulista e da Policia Federal, elegeu-se senador com sua efígie de xerife e é herói do filho, prestigiou sua posse na primeira delegacia. Foto: Acervo pessoal

N – Em que circunstâncias o senhor passou a ser encarregado, como delegado da Polícia Civil do Estado de São Paulo, da investigação da morte de Celso Daniel, que era prefeito de Santo André, cidade vizinha de São Bernardo do Campo,na Grande São Paulo, e à época era o coordenador da campanha presidencial de 2002 do favorito Luiz Inácio Lula da Silva?

Quando eu era coordenador da força-tarefa que investigava uma organização criminosa instalada na cidade de São Paulo que ficou conhecida como Máfia dos Fiscais, acabei afastado por pressão de inúmeros políticos investigados à época.

Importante recordar a época da Máfia dos Fiscais (1998-2000), quando instalamos a primeira força-tarefa bem-sucedida com a Polícia Civil de São Paulo e o Ministério Público para investigar crimes diversos que tinham envolvimento de fiscais, agentes públicos e vereadores da cidade de São Paulo. Vários políticos foram presos e condenados, sofremos toda sorte de pressões, até mesmo tentativas de assassinato da reputação de delegados e promotores, mas jamais se permitiu qualquer vazamento criminoso, adjetivação de alguém indiciado ou mesmo condenado. Lembro-me até de um episódio interessante, quando o então prefeito Celso Pitta baixou uma norma proibindo taxistas com antecedentes (sem avaliar do que se tratava) de fazer cadastro na Prefeitura para exercer a profissão e eu o procurei para questionar se aquilo só valia para taxistas, porque até ele e alguns de seus secretários já haviam sido indiciados.

Mesmo assim, sem fazer acusações pela mídia, fui mandado para a Seccional de Taboão da Serra, como castigo. Após algum tempo houve aquela fuga de helicóptero do Dionísio Severo do Presídio Parada Neto, em Guarulhos, que pousou no município de Embu das Artes, minha jurisdição. Dois dias depois, houve o sequestro do prefeito Celso Daniel, e ao investigarmos a fuga e o paradeiro do Dionísio, que era o líder do CRBC (Comando Brasileiro da Criminalidade), a maior facção rival ao PCC, detectamos que os casos tinham uma conexão. Ou seja, o resgate do Dionísio foi feito para que ele participasse do sequestro do Celso Daniel. Logo em seguida, num domingo, encontramos o corpo do então prefeito morto numa estrada vicinal na cidade de Juquitiba, também na minha área de atuação.

Imediatamente determinei a instauração de um inquérito policial para apurar as circunstâncias do homicídio do ex-prefeito na minha seccional, local dos fatos, até porque até aquela altura não havia inquérito instaurado, pois se investigava um suposto sequestro em São Paulo.

Com celeridade fomos fazendo diligências, desde a coordenação da perícia local, buscas em possíveis cativeiros que poderiam ter sido utilizados, até que veio uma ordem superior e avocaram o inquérito, remetendo-o para o DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) em São Paulo. Ali já senti que o fim das investigações era mais importante que o esclarecimento do crime, tanto para os petistas quanto para os tucanos.

Tuma na Arena Corinthians, time de futebol do qual sempre foi torcedor apaixonado, foi vice-presidente de futebol e hoje é conselheiro vitalício. Foto: Acervo pessoal

Tuma na Arena Corinthians, time de futebol do qual sempre foi torcedor apaixonado, foi vice-presidente de futebol e hoje é conselheiro vitalício. Foto: Acervo pessoal

N – No calor dos acontecimentos, Lula e seu lugar-tenente, José Dirceu de Oliveira e Silva, mandaram o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh para as exéquias de Celso Daniel em Santo André pregando a federalização do crime por julgá-lo político. Em que ocasião específica e por que o PT mudou de opinião, passando a defender pelo mesmo porta-voz a hipótese de crime banal, quase mesmo aleatório? E por que, a seu ver, isso aconteceu?

T – É verdade. Primeiro eles faziam fortes declarações sobre o crime ser político, contra o PT, contra a candidatura do Lula, etc. e tal. Com o caminhar das investigações, o discurso foi mudando e a pressa em ver o caso encerrado foi dando lugar aos discursos. Diferente de se cobrarem esclarecimentos, cobrava-se agilidade para encerrar o caso, apontando quem estivesse pela frente como autores, e ninguém mais falava em crime com motivação política. Os indícios que eram encontrados e apresentados eram sempre contraditados de forma desprezível.

N – Que providências o senhor tomou como delegado para descobrir executantes e mandantes do crime, que foi dado como sendo de encomenda pelo Ministério Público Estadual, mas como um assalto banal pela polícia estadual paulista? Por que o senhor foi afastado dessas diligências, quem o fez e alegando que motivos? O que seus substitutos no processo conseguiram apurar para elucidar a execução ou assassínio banal?

T – Importante lembrar que quase todo o trabalho que o Ministério Público Estadual fez para chegar à conclusão de ser um crime de mando com motivações políticas foi com base na investigação que minha equipe conseguiu desenvolver até onde pudemos, portanto, um trabalho da Policia Civil de São Paulo. Acontece que havia outra delegacia que pertencia ao DHPP que também investigava o crime por ordem superior, a qual acelerou as investigações, descartou nosso trabalho, dificultou a troca de informações e chegou a uma conclusão diferente, que não tinha como se sustentar, na minha modesta opinião. Mas por determinação superior nós ficamos impedidos de prosseguir nas investigações da morte do Celso Daniel e tudo o que conseguimos foi com astúcia, durante as investigações sobre a fuga do Dionísio. E como os casos tinham conexão, os indícios e provas foram surgindo cada vez com mais clareza. Não tenho dúvida de que meu afastamento dessa investigação se deu para evitar a total elucidação do caso, assim como ocorreu quando mataram o Dionísio Severo na cadeia, num episódio até hoje não esclarecido. Está claro que os mandantes do sequestro eram pessoas próximas profissionalmente do prefeito e que as motivações foram políticas e financeiras. Com o tempo, a própria Lava Jato apreendeu um contrato que faz um elo importante para esclarecimento do caso, o qual eu já havia relatado em meu segundo livro, Assassinato de Reputações II – Muito Além da Lava Jato.

Tuma entrou no caso Celso Daniel quando era delegado em Itapecerica da Serra, de cuja jurisdição fazia parte Juquitiba, onde o cadáver foi encontrado. Foto: Acervo pessoal

Tuma entrou no caso Celso Daniel quando era delegado em Itapecerica da Serra, de cuja jurisdição fazia parte Juquitiba, onde o cadáver foi encontrado. Foto: Acervo pessoal

N – O senhor foi processado por algum dos apontados como responsáveis pelo crime em seu livro Assassinato de Reputações – Um Crime de Estado, para apresentar provas de suas afirmações incriminando-os? Por que o então senador pelo PSDB Aloysio Nunes Ferreira mobilizou a Polícia Federal (PF) para levá-lo em condução coercitiva para dar que tipo de explicações aos agentes encarregados de ouvi-lo?

T – Aqueles que disseram à imprensa que me processariam não o fizeram. Relativamente ao senador Aloysio Nunes, algo muito estranho aconteceu. Ele oficiou ao ministro da Justiça supostamente para pedir apuração dos fatos que relatei no livro. Mas isso nunca aconteceu e ele nunca cobrou, muito ao contrário. Mandaram a PF me intimidar.

Quando alertei sobre esses métodos, ninguém com poder de autoridade preocupou´se em investigar e fazer cessar essas condutas. O próprio ministro da Justiça da época, José Eduardo Martins Cardozo, anunciou que investigaria. No fim, o que ele fez foi mandar me investigar a partir daquele oficio do senador Aloysio, e sem a instauração de inquérito policial, com uma condução coercitiva esdrúxula, sem ordem judicial, sem as formalidades legais, após eu já ter sido ouvido por escrito, e pior, sem apurar as denúncias. A OAB seccional SP instaurou um procedimento que resultou em ato de desagravo a mim com repúdio às autoridades policiais envolvidas. E daí? Até hoje o que se lembra é da manchete do jornal e das “acusações” que não existiam, tanto que nem uma denúncia sequer foi apresentada pelo Ministério Público e nenhum processo foi aberto contra mim.

Tuma e o pai receberam Willian Session (terno cinza ao lado do Tumão) na primeira vez que um diretor do FBI americano esteve no Brasil, ao lado de Marcelo Itagiba, Edson Oliveira e Mauro Sposito. Foto: acervo pessoal

Tuma e o pai receberam Willian Session (terno cinza ao lado do Tumão) na primeira vez que um diretor do FBI americano esteve no Brasil, ao lado de Marcelo Itagiba, Edson Oliveira e Mauro Sposito. Foto: acervo pessoal

Agora que a coisa virou moda, a expressão que cunhei passou de assassinato de reputações à chacina de reputações, e atingiu a mais alta Corte da nossa Justiça, quem sabe algo seja feito.

Juridicamente, um passo importante para combater o assassinato de reputações pelo PIC (Procedimento Investigatório Criminal) do MP, PCD (Procedimento Criminal Diverso) da PF Estado e seus agentes é abolir os irregulares procedimentos anômalos como o e o uso dos relatórios de inteligência como peça de polícia judiciária, aos quais ninguém tem acesso para exercer o sagrado direito de defesa e os quais não passam por nenhum controle nem fiscalização de órgãos correcionais. Também é preciso extirpar o Método Científico Cronológico Dedutivo, procedimento criado na PF em que se permite que as autoridades usem dedução pessoal como fato real. Isso é absolutamente ilegal e instrumento de Estado totalitário. Como você vai acusar e a Justiça condenar alguém por que se deduziu algo? É o que acontece de uns tempos para cá. O Código de Processo Penal virou obsoleto, ninguém respeita prazos, ritos, regras, a coisa vai da cabeça de quem investiga, de quem denuncia (que é a autoridade que deveria exercer o controle) e de quem julga, que na maioria das vezes fecha os olhos para essas aberrações, quando não é conivente. O pior é que a sociedade já se acostumou com isso e quando algum juiz, desembargador ou ministro de instância superior verifica essas arbitrariedades e anula os atos, as pessoas são inflamadas e tendem a caluniar como se eles fossem os criminosos. Assassinato de reputações é uma engenharia que vem ganhando força institucional paralela ao Estado de Direito.

Tuma na tribuna da Assembleia Legislativa, onde cumpriu outra das paixões da vida toda, além de polícia e Corinthians: a política. Foto: Acervo pessoal

Tuma na tribuna da Assembleia Legislativa, onde cumpriu outra das paixões da vida toda, além de polícia e Corinthians: a política. Foto: Acervo pessoal

N – Nestes 17 anos depois do crime, algum executante ou mandante foi identificado, processado e apenado na forma da lei, ou o crime continua impune? O senhor tem alguma ideia de quem o possa havê-lo encomendado e a mando de quem, e por que nada foi feito de concreto para resolver de uma vez caso de tanto impacto na opinião pública?

T – Condenaram alguns indivíduos como executores, mas, pessoalmente, tenho a convicção de que o Dionísio Severo seria um deles e não foi apontado no processo que se encerrou, fruto da investigação feita pela outra equipe a que me referi.

Quanto aos mandantes, não se puniu ninguém e creio que, com a morte do Sérgio Sombra, a última esperança reside numa eventual delação premiada dos empresários de Santo André presos e condenados por participação no esquema de propina comprovado.

Ficou muito claro para mim que não interessava aos governos federal e estadual da época investigar mais nada.

10 – O que o inspirou a criar o título de seu livro Assassinato de Reputações, que agora entrou na moda, tendo sido usado até pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, para justificar um inusitado e surpreendente inquérito para identificar e punir críticos dos membros da Corte e de seus familiares? O que o senhor acha desse uso indiscriminado da expressão?

O livro que escrevemos foi uma forma de apresentar a minha verdade sobre o que passei à sociedade, aos meus amigos e especialmente à memória do meu pai, que morreu por conta desse legado da era Lula. Precisava fazer um alerta sobre esse método que eu combatia no governo e me vitimou, antes que ele ganhasse as proporções que atingiu hoje. Foi uma peça de defesa, uma vez que nunca tive a oportunidade de me defender nem de ter os fatos revelados por alguém com transparência e veracidade.

Tuma foi o primeiro político a se dar conta da aliança secreta entre PT e PSDB, iniciada abafando o caso Celso Daniel e que hoje perdura na eleição de Macris e Tatto na Assembléia. Foto: Acervo pessoal

Tuma foi o primeiro político a se dar conta da aliança secreta entre PT e PSDB, iniciada abafando o caso Celso Daniel e que hoje perdura na eleição de Macris e Tatto na Assembléia. Foto: Acervo pessoal

Ninguém pode imaginar o que eu passei e o que minha família passou. As marcas da humilhação que minha esposa  sofreu, e minhas filhas, jamais serão curadas. Eu comi o pão que o diabo amassou sem dever nada, sem nenhuma denúncia ou fato digno de ser objeto de algum processo. Ainda que estivesse ciente de que quando se investiga o crime organizado a gente está sujeito a ataques físicos e morais, jamais poderia imaginar que fosse tão extensa a Orcrim instalada no próprio Estado. Estamos acostumados com um Estado paralelo, mas o Estado criminoso alvejando seus agentes é muito tiro pelas costas, difícil suportar.

A vítima de assassinato de reputação tem uma sensação parecida com a dos jovens que sofrem bullying, em que o autor pratica o ato, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa sem que esta tenha a  possibilidade ou capacidade de se defender, sendo realizadas dentro de uma relação desigual de forças ou poder.

Relativamente ao inquérito instaurado pelo Supremo, talvez seja discutível a questão de que o mesmo Poder que, em tese, foi vitimado investigue, acuse e julgue. Soa estranho. Mas algo precisa ser feito e talvez já tenha passado da hora.

Também a Justiça precisa começar a agir, especialmente em relação às vítimas desses crimes em geral, pois as afirmações que ultrapassam a expressão da opinião, cheias de adjetivos, e corroboram na criação de milícias digitais para praticar assassinato de reputações ou chacina de reputações, por meio de calúnias, injúrias e difamações quase que majoritariamente calçadas em fake news e/ou notícias manipuladas e fraudadas, não podem prevalecer sobre a verdade e muito menos permanecer impunes.

Assassinato de reputações é um método de ditadores para criar fatos sobre alvos e assim proporcionar investigações com ampla divulgação, cujo resultado sempre será criar interrogação na cabeça das pessoas sobre a idoneidade da vítima desse método totalitário. É uma pena de morte para quem é vítima, especialmente porque se equipara a fake news, pois sua base é uma informação falsa, inexistente, e ninguém consegue na Justiça o mesmo tratamento, ou seja, a retirada dos canais de busca e a proibição da veiculação. É uma condenação sem direito de defesa e sem recurso, e o pior, sobre algo que o indivíduo não fez.

Não é exclusivo de instituições e de governos, mas necessariamente em grande escala, disparado com o envolvimento de agentes públicos antes ou depois de planejado. Na maioria das vezes é matéria-prima para perseguição política e pessoal, por instituições, contra seus “alvos” escolhidos. E não é raro que agentes públicos combinem essas ações com veículos de comunicação para “esquentar” supostas denúncias fake. As autoridades usam a imprensa para noticiar elucubrações porque elas não têm provas, indícios nem coragem de escrever nos autos aquilo que vazam. E alguns veículos se deixam usar sem comprovar o que estão recebendo nos famosos “furos” e “offs”. Acabam servindo de absorventes para criminosos infiltrados no aparelho estatal. É uma vergonha!

É a prática inversa da boa investigação, em que se parte do crime para o criminoso. Com o assassinato de reputações se cria um suposto criminoso para condená-lo antes de qualquer investigação, e muitas vezes antes mesmo de se saber se cometeu algum crime ou até já se sabendo ser ele inocente.

Com o advento das redes sociais, com a existência do “tribunal do Google”, uma vez assassinada a reputação, é quase impossível resgatar a honra perante à sociedade. Hoje as empresas já nem pedem atestado de antecedentes, o que se faz é vasculhar a vida dos candidatos a emprego nas redes sociais, na Wikipédia e no Google. Ninguém checa a veracidade das informações e fica por isso mesmo. É um escárnio!

No meu caso, o objetivo, e eu disse à época, era me afastar das investigações que eu realizava à frente da Secretaria Nacional de Justiça, com o trabalho e com os avanços que promovíamos com o DRCI (Departamento de Recuperação de Ativo e Cooperação Internacional) e a Enccla (Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro), e me retaliar por não concordar com esses métodos e por eu me negar a esquentar dossiês contra adversários do governo petista. Eu era secretário nacional de Justiça, chefe de uma instituição de Estado, e não um instrumento de governo. Atingindo minha reputação, enfraqueceriam as ações e inibiriam os demais atores da equipe, além de criarem descrédito no que era feito. Tanto conseguiram que ninguém quis ouvir com profundidade o outro lado, nem apurar o que estava por trás daquela operação. Muitos bandidos foram beneficiados com minha saída e muitos avanços foram paralisados.

Eu me lembro bem de um convênio que propus ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) de uso do laboratório contra a lavagem de dinheiro que tínhamos no DRCI para monitorar as doações nas eleições de 2010. Estive com a ministra Cármen Lúcia, ela ficou empolgada, estava tudo certo. Quando saí, não assinaram. Havia grande resistência no governo, pois certamente aquilo impediria os crimes de que hoje se tem notícia. Muitos desses crimes teriam sido evitados.

Meu livro explica minuciosamente os métodos usados e nos últimos anos acompanhamos cotidianamente essas práticas só aumentarem.

Hoje raramente existem investigações policiais como antigamente, com critérios e práticas de inteligência, científicas, de campo. Vivemos de alguns anos para cá a era dos grampos e agora, a das delações. São métodos reativos, nenhuma prevenção do crime, antecipação do delito, e pior, fábricas de denúncias cuja defesa se torna praticamente impossível. A palavra do criminoso vale mais que a da vítima. Não se busca a verdade real, mas algo que possa ser apontado para incriminar o indivíduo. É uma fraude, uma vergonha, e creio que a lei de abuso de autoridade poderia prever algo no sentido de punir responsáveis nesses casos comprovados.

Não se pode admitir a fraude do devido processo legal nem do princípio da presunção da inocência e da ampla defesa. Têm o mesmo valor que tem o direito à informação, não à desinformação ou contrainformação que usam nesses métodos.

Usam fatos especulativos como nunca se viu antes. Fazem desses fatos links fake para valorizar a informação e criar ambiente propício a investigações que já se sabem “frias”.

As pessoas não têm noção do mal que um assassinato de reputação causa à família de quem é vítima. Filhos, esposa, marido, pais, outros parentes, amigos, enfim, é uma verdadeira chacina. Ultrapassa a pessoa da vítima.

Quando a máquina institucional escolhe um alvo e avança sobre ele, não tem defesa que dê conta. Não sobra pedra sobre pedra. É um tsunami que deixa suas marcas para a eternidade. O sistema de freios e contrapesos não me parece estarem funcionando muito bem. Precisa ser aprimorado com muita urgência.

Veja, por exemplo, a extensão do estrago que um assassinato de reputação pode causar: no caso de um cidadão que vai ser nomeado para um cargo de confiança, ou mesmo alguém com notável saber jurídico, que pode ser indicado para uma das nossas Cortes superiores como ministro, esses cargos ou funções exigem “reputação ilibada”, como fica isso? O indivíduo não tem problema com a Lei da Ficha Limpa, nunca foi condenado, nem sequer indiciado, denunciado ou processado, mas alguém poderá dizer que ele não tem reputação ilibada por ter no Google algo contra ele, onde se sabe que houve assassinato de reputação?

Hoje é mais fácil acusar pela mídia e pelas redes sociais do que pelas vias processuais legais. A condenação pública se equipara à pena de morte. É pública, não requer provas e ninguém esquece. Assassinato de reputações é a prova da incompetência do Estado em investigar fatos supostamente criminosos. Isso acontece porque, na verdade, muitas vezes não há verdadeiramente fatos a serem investigados, mas sim “alvos” a serem esculhambados. O sistema progrediu negativamente por falta de freios legais e hoje vivemos, infelizmente, uma chacina de reputações.

Com tantos casos, também tem o outro lado. Virou moda a expressão e muitos criminosos vão se valer da tese para tentar esconder seus crimes, alegando assassinato de reputação. Por isso fiz o alerta há anos e lamento terem sido tão negligentes.

A Justiça também tem de começar a separar o conceito de pessoa privada de pessoa pública e, principalmente, a pública de pessoa conhecida ou famosa. E a partir daí saber dosar o que é crítica e o que é crime contra a honra. Direito de expressão e de informação não está acima do direito à privacidade e, principalmente, à honra. Quem quer criticar que o faça sem cometer crimes. Xingamentos e adjetivações caluniosas não são críticas, são crimes. Ainda que encobertas por disfarces literários.

Em minha modesta opinião, é muito equivocada e simplória a posição de alguns juízes que absolvem assassinos de reputações, ou seja, aqueles que cometem crimes contra a honra em veículos de informação e nas redes sociais, sob a alegação de que quem é pessoa pública ou conhecida não tem direito a se sentir atingido. Aí, quando o pau que bate em Chico bate no Francisco, vem a chiadeira.

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique aqui. 

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nem venerou Goulart, diz poeta

No relato da guerrilha comunista Astier constatou que presidente deposto em 1964 só foi procurado no exílio por seu adversário, o direitista Lacerda

O poeta, crítico, jornalista, dramaturgo e professor paraibano Astier Basílio, que tem pesquisado e escrito, inclusive no blog O Estado da Arte, no portal do Estado, reuniu argumentos e documentos para desfazer dois mitos da “resistência” da esquerda na cena política brasileira: a de que teria pegado em armas para defender a democracia contra a ditadura militar e a de que o ex-presidente João Goulart, homenageado por Fernando Haddad com o nome do Minhocão, substituindo o de outro ex-presidente, o marechal Costa e Silva, tivesse sido herói e exemplo para seus militantes. “Se a esquerda armada lutava pela democracia, então, obrigatoriamente, tinha de ter sido a favor de Goulart. Os fios para enjambrar a tessitura dessa mentira demandaram alguns remendos”, disse ele, que atualmente estuda na capital da Carélia, no norte da Rússia. E na série Nêumanne Entrevista deste blog, nesta semana, ele completou: “Talvez seja por essa razão que nos últimos anos, sobretudo após a chegada da ex-guerrilheira Dilma Rousseff ao poder, houve uma espécie de reescritura do passado, no qual o presidente deposto foi elevado à categoria de herói da esquerda. O curioso é que não houve uma voz que se levantasse a pedir sua volta quando foi apeado do poder. Nenhuma placa com os dizeres ‘volta Jango’ se ergueu nas passeatas contra a ditadura. Nas listas dos presos políticos trocados em sequestros, João Goulart não figurou nem simbolicamente. E, ironia das ironias, talvez o único grande gesto de consideração, depois do golpe de Estado que o depôs, foi-lhe acenado pela  direita, em 1966.  Quem o visitou no exílio não foi nenhum líder guerrilheiro, nenhum prócer da esquerda, mas ninguém menos que Carlos Lacerda. O ex-governador carioca viajou ao Uruguai para articular a Frente Ampla, que restauraria as eleições”.Astier Basílio é poeta, dramaturgo e jornalista.

Astier sobre o sucesso de Putin: "O caráter viril, forte, é exaltado como uma virtude imprescindível a um líder que conduza a Rússia. E ele sabe muito bem isso" Foto: Augusto Pessoa

Astier sobre o sucesso de Putin: “O caráter viril, forte, é exaltado como uma virtude imprescindível a um líder que conduza a Rússia. E ele sabe muito bem isso” Foto: Augusto Pessoa

Autor de 14 livros, entre os quais Funerais da Fala (Prêmio Novos Autores Paraibanos, 2000) e Finais em Extinção (Prêmio Nacional Correio das Artes, 2010). É citado em Uma História da Poesia Brasileira (Ermakof, 2004), de autoria do escritor Alexei Bueno.  Em 2014 venceu o prêmio nacional de dramaturgia da Funarte, com a peça Maquinista, levada aos palcos pelo grupo cearense Pavilhão da Magnólia. Seu último trabalho foi um musical em cordel, Marco do Rei do Ritmo, em homenagem a Jackson do Pandeiro, a ser lançado, pela editora Mondrongo, da Bahia, em junho. Em 2017, seu romance Supermercado Brasil Novo foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura. Com atuação nos cadernos de política e cultura, trabalhou como repórter, subeditor, crítico de teatro e literatura nos jornais Correio da Paraíba e Jornal da Paraíba e foi editor do suplemento Correio das Artes. É colaborador da revista Continente Multicultural, do Recife, e do blog Estado da Arte, do jornal O Estado de S. Paulo. Atuou como professor e coordenador do clube de conversação do Centro de Cultura Brasileira em Moscou. É bolsista do governo russo, estuda atualmente na faculdade preparatória, na Universidade Federal de Petrozavodsk, na República da Carélia. Mês que vem iniciará o canal no YouTube Direto da Rússia, no qual fará pequenas reportagens com o celular, além de comentar os mais importantes episódios e acontecimentos na área da cultura, da política e cotidiano em geral, da Rússia.

Nêumanne entrevista Astier Basílio

Astier diante da casa em que viveu Dostoievski, gênio da literatura russa, que venera desde as leituras de juventude na Paraíba. Foto: Acervo pessoal

Astier diante da casa em que viveu Dostoievski, gênio da literatura russa, que venera desde as leituras de juventude na Paraíba. Foto: Acervo pessoal

Nêumanne – O que o fez sair da Paraíba, perder o contato com os poetas populares que povoaram sua vida desde a infância e mudar-se para a distante e fria Rússia, com uma língua estranha e costumes totalmente diferentes?

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Nêumanne entrevista Malu Ribeiro – 2019 (8)

Nêumanne entrevista Malu Ribeiro – 2019 (8)

Brumadinho ficar impune é desrespeitar

as vítimas e o futuro, diz ambientalista

Malu Ribeiro, da SOS Mata Atlântica, compara o que viu que se tornou o rio Paraopeba contaminado por rejeitos minerais ao panorama de um campo após a batalha

“Foi como reviver o terrível pesadelo do rio Doce, num cenário de total destruição e dor, semelhante ao panorama de uma guerra, composto de destroços humanos e ambientais, onde a vida parece não ter valor algum. Ver um rio tingido de vermelho, cor de sangue, sem vida, em pleno período de piracema, quando a vida deveria estar em sua plenitude, é uma sensação de enorme impotência, que ressalta a nossa incapacidade perante a irresponsabilidade dos grandes degradadores, da impunidade e da falta de respeito pela vida.” Essa descrição precisa e pungente é usada pela jornalista e ambientalista Malu Ribeiro, que coordenou a equipe que percorreu o rio Paraopeba após o arrombamento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, para constatar que ele morreu. Na edição desta semana da série Nêumanne Entrevista, neste blog, ela fez outra observação para ser lida como se fosse uma oração: “As águas do rio fazem a conexão dos povos com o sagrado, com o valor imaterial desse bem, essencial à vida. O sagrado no Brasil está entrelaçado aos nossos rios, não é à toa que a imagem da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, foi encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul”. Amém!

Malu em ação colhe amostras do Rio Paraopeba para concluir que a parte já invadida pela lama do Córrego do Feijão morreu. Foto Giovana Girardi/Estadão

Malu em ação colhe amostras do Rio Paraopeba para concluir que a parte já invadida pela lama do Córrego do Feijão morreu. Foto Giovana Girardi/Estadão

Malu Ribeiro é jornalista, ambientalista, com especialização na área de recursos hídricos e políticas públicas.  Coordenadora da causa Água Limpa e assessora de advocacy e políticas públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, coordena desde 2003 o projeto Observando os Rios,que monitora a qualidade da água em rios e bacias hidrográficas do bioma Mata Atlântica. Conselheira do Conselho Estadual de Recursos Hídricos do Estado de São Paulo. Ela também érepresentante das organizações ambientalistas no Conselho Nacional de Recursos Hídricos e do Comitê Gestor do Observatório de Governança da Água.

Dez perguntas para Malu Ribeiro:

 

Nêumanne – O que levou a equipe de pesquisadores da Fundação SOS Mata Atlântica, que a senhora coordenou, a concluir que o Rio Paraopeba morreu?

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Nêumanne entrevista Fernando Coelho – 2019 (7)

Nêumanne entrevista Fernando Coelho – 2019 (7)

Brasil se especializou no crime

de matar rios, diz poeta

 

Para jornalista Fernando Coelho, deputados e senadores, “cavalheiros da desonra”, não representam cidadão, que não respeita Justiça, que não prendeu o presidente do Flamengo

Fernando Coelho, poeta e jornalista baiano, lamenta que “as centenas de mortos não representamnada para a papelada que se junta para justificativas e negativas” no Brasil de hoje. Na edição desta semana da série Nêumanne entrevista, ele interrompeu a redação de seus textos de sucesso nas redes sociais para fazer um desabafo definindo a tragédia que protagonizamos e assistimos. Ele acha que “o Brasil morreu nestes tempos. Não adianta o ministro da Educação, que virou um bedel nacional, mandar filmar crianças cantando o Hino Nacional e gritando por Deus.” E acrescentou: o helicóptero em que Boechat morreu “tem o perfil do País atual, uma montagem de vários pedaços de filosofias, ideologias, interesses políticos, tudo no elo das finanças, do interesse financeiro. E o povo, que paga a conta inocentemente, ainda imagina que o Estado trabalha. O Estado não trabalha, não gera renda, nós, o zé-povinho, é que pagamos. E estamos morrendo nas Upas, nas filas, desabando nas lotéricas, nos caixas do BB e da CEF, dois gigantescos bancos públicos, que nos tratam como mendigos e tinham obrigação moral com a população. Tenho medo.”

Fernando na Praia de Itapuã mantendo viva a chama de seu amor pelo litoral da Bahia, fonte de inspiração dele e de Caymmi. Foto: Afonso Ferreira

FFernando tem 12 livros publicados, 11 de poemas e Salvador-Guia de Cheiros, Caminhos e Mistérios, roteiro da cidade da capital da Bahia, prefaciado por Jorge Amado

O jornalista, poeta e escritor Fernando Coelho tem 12 livros publicados, 11 de poemas e Salvador-Guia de Cheiros, Caminhos e Mistérios, roteiro da cidade da capital da Bahia, prefaciado por Jorge Amado, 4 edições esgotadas há 25 anos. Chefiou a reportagem do jornalismo na Rede Globo de Televisão durante anos, dirigiu o Departamento de Esportes e chefiou a redação do Jornalismo da TV Cultura, foi repórter especial da Rádio Globo, criou e dirigiu o programa Terra Brasilisna Rede Banderiantes. Foi ainda assessor de iImprensa da Global Editora. Implantou e dirigiu as duas primeiras televisões legislativas do Brasil na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e na Câmara de Vereadores de São Paulo. E também diretor de Comunicação Social e Marketing da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Exerceu o cargo de Diretor de Comunicação e Promoção do Instituto do Patrimônio Histórico e Arquitetônico Nacional (Iphan, do ministério da Cultura), além de diretor de Comunicação Social e Marketing da Secretaria de Estado do Meio Ambiente de São Paulo. Em 2008, recebeu a Medalha da Imigração, do Itamaraty, por sua obraAgenda Manabu Mabe. A editora Aquariana publicou a Coleção Poeta Fernando Coelho, com três títulos.

Fernando na Praia de Itapuã mantendo viva a chama de seu amor pelo litoral da Bahia, fonte de inspiração dele e de Caymmi. Foto: Afonso Ferreira

Fernando na Praia de Itapuã mantendo viva a chama de seu amor pelo litoral da Bahia, fonte de inspiração dele e de Caymmi. Foto: Afonso Ferreira

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Nêumanne entrevista Leo Chaves – 2019 (6)

Nêumanne entrevista Leo Chaves – 2019 (6)

Para Leo Chaves,

“açoite do conformismo assassina a Nação”

 

O cantor, compositor e escritor constata que

“o chão do Brasil chora lama, enquanto brasileiros se afogam nela”, 

e não há salvador da Pátria com cidadãos de braços cruzados

Tendo contemplado inúmeras vezes, ao viajar de Abre Campo para Belo Horizonte na infância, o casario de Mariana, na região histórica de Minas Gerais, e mesmo não tendo visitado a cidade depois do arrombamento da barragem da Samarco nas proximidades, há três anos, Leo Chaves se emociona e o relaciona “a um déficit na eficiência, competência e qualificação”. Na entrevista desta semana no Blog do Nêumanne, o autor do best-seller No Colo dos Anjos conclui, em tom de lamento: “Quando se vive no Brasil, não se espera nada senão uma escada rolante com episódios trágicos, desastres e aquilo que não se espera? Desumanizamo-nos com o avanço da humanidade. Não somente eu, mas qualquer outro brasileiro acostumado a lidar com situações parecidas espera o próximo episódio, exatamente com os mesmos trejeitos e características, ou piores.” O cantor, que fez dupla de muito sucesso na música popular com o irmão Victor e é jurado no The Four Brasil, reality show da Rede Record, enxerga o que tem acontecido como resultado de “presunção do ser humano se autodesafiar! Cheira a um desafio a Deus”. Ele não acredita “numa mudança de profissionais que há anos vivem chafurdados neste contexto”. Mas completa: “Podemos, sim, metamorfosear na formação de novos cidadãos, com base em alta performance, eficiência, versatilidade, entrega coerente e comportamento ativo. Uma nova geração, muito mais preparada, para um novo Brasil. Essa mudança começa numa tomada de consciência social”.

Foto clipe1 - Desde a infância, Leo está acostumado a subir e descer as montanhas ricas em minérios e contemplar as belas paisagens com que cruza no caminho. Foto: Leo Crosara

Foto clipe1 – Desde a infância, Leo está acostumado a subir e descer as montanhas ricas em minérios e contemplar as belas paisagens com que cruza no caminho. Foto: Leo Crosara

Mineiro nascido em Ponte Nova e criado em Abre Campo, Leo Chaves é compositor, cantor, arranjador e produtor, reconhecido como um dos principais artistas nacionais há mais de uma década, quando, ao lado do irmão Victor, sua voz conquistou fãs por todo o País. Além de músico, é empresário do agronegócio, cria gado Senepol na Fazenda Paraíso. É presidente fundador eexecutivo do Instituto Hortense, que tem como objetivo desenvolver habilidades socioemocionais em crianças e adolescentes de instituições públicas e ONGs. Atualmente, o trabalho impacta mais de 35 mil pessoas. É escritor e palestrante há três anos,tendo apresentado mais de 50 palestras nos últimos 12 meses. Como ser uma marca, e não apenas representar uma, e como se desenvolver e se reinventar ultrapassando os próprios limites são alguns dos tópicos abordados. É também embaixador do programa Jovem Aprendiz, sendo porta-voz de jovens entre 14 e 24 anos que têm o direito de ser contratados por médias e grandes empresas. Leo Chaves é ainda certificado em programação neurolinguística pela Sociedade Brasileira de Neurolinguística e nos últimos anos tem se aprofundado nos estudos de inteligência emocional, gestão da emoção, filosofia, educação familiar e escolar, coach e pedagogia. Seu primeiro livro, No Colo dos Anjos, em menos de três meses se tornou umbest-seller, ocupando o primeiro lugar na lista dos mais vendidos da revista Veja e do site PublishNews. Atualmente é um dos jurados do The Four Brasil, novo reality show exibido pela Rede Record.

Nêumanne entrevista Leo Chaves

 

Nêumanne – Quantas vezes o senhor já esteve na região histórica de seu Estado de Minas Gerais, tendo passado por Mariana? Qual era seu sentimento durante essas visitas àqueles casarios cheios de histórias pra contar?

Leo Chaves – Já dizia o poeta Guimarães Rosa: “Minas é uma montanha, montanhas, o espaço erguido, a constante emergência, a verticalidade esconsa, o esforço estático; a suspensa região – que se escala”. A região de Mariana e Ouro Preto traz o retrato.

Desde minha infância essa  região era rota entre a cidade onde fui criado, Abre Campo, e Belo Horizonte. Sempre a vista dos casarios de Mariana à direita na estrada chamava atenção. O que havia por trás daquilo tudo. Olhava, pensava, interrogava, mas admirava.

Quanta história, de vidas e daquele chão.

Em paralelo a suas atividades como músico e escritor, Leo é um palestrante muito requisitado. Foto: Acervo pessoal

Em paralelo a suas atividades como músico e escritor, Leo é um palestrante muito requisitado. Foto: Acervo pessoal

Tive a oportunidade de estudar durante três anos em Cachoeira do Campo e com frequência ia a Mariana nos dias de folga. Uma cidade com arquitetura diferenciada, história invejada e admirada pelo mundo.

Durante essas viagens, desde sempre a imaginação viajava nas alturas que hoje retratam lamúrias! No entanto, ao me colocar no lugar das pessoas, imagino as histórias, as famílias, o quanto se caminhou para construir as cidades históricas de Mariana e Ouro Preto. Quantos capítulos guardados por trás dos casarios e dos morros.

Imagino quanto aquela cidade, aqueles morros foram importantes para o próprio crescimento do Estado e do País. Sabemos que os primeiros passos de Minas foram dados ali. Se hoje há grandes empresas que exploram minério, isso se deve muito aos antepassados que ali viveram e construíram aquela região. Desconstruídas por algo que se esconde.

Ficava imaginando se, com o crescimento da população e o avanço da tecnologia, poderíamos ter um uma geração que convivesse com  o equilíbrio entre sociedade, economia e meio ambiente, harmonia desesperançada que não encontramos nos dias atuais.

É amargo ver as Gerais estão ignotas.

Como diria o poeta, Minas, são muitas. Porém poucos são aqueles que conhecem as mil faces das Gerais.

Leo fez dupla com o irmão Victor em gravações de muito sucesso nas paradas e uma pauta lotada de shows. Foto: Priscilla Tessa

Leo fez dupla com o irmão Victor em gravações de muito sucesso nas paradas e uma pauta lotada de shows. Foto: Priscilla Tessa

N – O senhor foi a Mariana depois do arrombamento da represa do Fundão, da Vale (Samarco), testemunhou o assassinato do Rio Doce e o desamparo das famílias que viviam às suas margens? Qual seu sentimento na ocasião?

N – Não tive o desgosto de visitar a região na época do desastre, mas acompanhei pelos noticiários com profundo dissabor e pesar ao me colocar no lugar daquelas pessoas. Algumas perderam familiares, amigos. E muitas outras, seu sustento, pois pescavam e plantavam na região. Passaram a ter outras histórias pra contar.

Essas famílias perderam seu norte e ficaram à deriva de quem os desnorteou. Fico imaginando crianças e adolescentes diante de um discurso dos pais de não terem  mais os recursos financeiros para atender às suas necessidades. Sonhos despejados morro abaixo. Escolas que foram destruídas, casas varridas pela própria sujeira e uma infinidade de afetos  levados pela lama.

Imagino eu que, quando uma empresa de grande porte anuncia sua ida para determinada região, possivelmente há empolgação, comemoração, elogios, perspectiva de ganhos e dias melhores… A sociedade se aglomera com pensamentos otimistas, de esperança,  economia crescendo, setor industrial se desenvolvendo  e melhorias de condições humanas pra todos.

Realmente, a importância do setor da exploração de minério era de 80% no que diz respeito à economia. Ao mesmo tempo, com o rompimento da barragem, os mesmos elogios e as aclamadas frases de esperança e perspectivas se transformaram em lágrimas, protestos, gritos sem ressonância, angústia e revolta.

Diante de um mesmo ângulo, ou seja, uma empresa que desperta esperança, otimismo numa sociedade, paradoxalmente,desencadeia pânico. Então, a pergunta que fica é: o que entra nesse meio? Na minha visão, não é o fato intrínseco de uma empresa se instalar ou não na região para a extração de minério. Isso não determina  um  problema, é, sim, o como fazer, como administrar. Penso eu que o grande problema, como tudo neste país, está  relacionado  a um déficit na eficiência, competência e qualificação.

As consequências não podem ser outras.

O descrédito acometido pelos ocorridos é intenso.

Leo, em palestra: “É amargo ver as Gerais tão ignotas. Como diria o poeta, Minas, são muitas. Porém poucos conhecem as mil faces das Gerais.” Foto: Acervo pessoal

Leo, em palestra: “É amargo ver as Gerais tão ignotas. Como diria o poeta, Minas, são muitas. Porém poucos conhecem as mil faces das Gerais.” Foto: Acervo pessoal

A Samarco está construindo uma nova comunidade para as famílias, a cerca de 10 km de Bento Rodrigues. Mas muitas preferem voltar às casas antigas. Mesmo em péssimas condições de abrigo e em estado de alarme. Viveram lá por uma vida, construíram sonhos, elas se sentem pertencentes àquele lugar. Dá pra imaginar o tamanho do ressentimento, do trauma que éprovocado numa família, numa geração, todo o prejuízo causado? É uma perda que vai muito além do material. E me impressiona a ideia de que daqui a pouco estará tudo normal, sem mudanças, à espera da próxima.

Precisamos ir à fonte. Alguém sabe o que causa tamanhas consequências desastrosas, ou criminosamente?

N – Passou alguma vez por sua cabeça o medo de que aquele desastre pudesse acontecer de novo, de forma muito semelhante e com resultados tão catastróficos como o primeiro?

L – Quando se vive no Brasil, não se espera nada senão uma escada rolante com episódios trágicos , desastres e aquilo que não se espera? Desumanizamo-nos com o avanço da humanidade. Não somente eu, mas qualquer outro brasileiro acostumado a lidar com situações parecidas espera o próximo episódio, exatamente com os mesmos trejeitos e características, ou piores.

Apesar do sucesso e da agenda lotada, Leo sempre fez questão de cultivar as raízes de mineiro do campo em contato com a terra e os animais – Foto: César Dutra

Apesar do sucesso e da agenda lotada, Leo sempre fez questão de cultivar as raízes de mineiro do campo em contato com a terra e os animais – Foto: César Dutra

Quando temos uma ideologia de gestão medíocre que reina na esfera  da mão de obra e da liderança social e profissional, é provável que tenhamos sempre os mesmos resultados repetidas vezes. Não temos uma maioria com comportamento proativo diante de imprevistos ou problemas. Há uma mentalidade passiva em massa. É como se fôssemos todos reféns de toda uma sociedade que sucumbe e observa. O açoite do conformismo assassina uma nação.

Geralmente não se tem as causas que levaram ao acontecimento, por falta de controle e diligência. Nos times profissionais não se vê conexão coletiva. Falta  uma atitude corretiva ou de realinhamento diante de situações adversas ou imprevistos, observa-se apenas.

De onde vem essa mentalidade medíocre? O passar na média, a síndrome do mas, tem de fazer, mas… Na minha visão, essa mentalidade nasce  do nosso modelo educacional, que deveria estimular, motivar e criar oportunidades para a esfera docente, mas a deixa como ultima da fila neste país. Parece que nos últimos anos regredimos nesse terreno. Não treinamos jovens para uma direção ascendente. Claro que a formação começa na infância e aí não há um contexto favorável. O que é esperar dos jovens que, sabe-se lá como, frequentam escolas, quando não se tem acesso a um conceito de ensino eficaz, quando não se conhece, apenas comparece, e a escassez de oportunidades reina?

Não acredito numa mudança de profissionais que há anos vivem chafurdados nesse contexto. Podemos, sim, metamorfosear  na formação de novos cidadãos, com base em alta performance, eficiência, versatilidade, entrega coerente e comportamento ativo. Uma nova geração, muito mais preparada, para um novo Brasil.

Essa mudança começa numa tomada de consciência social.

Não acredito num salvador da Pátria com cidadãos de braços cruzados.

N – O senhor chegou a conhecer o Rio Doce, com esse nome poético, quando era líquido e piscoso, e testemunhou sua transformação num curso de dejetos assassinos?

L – Assisti a alguns vídeos de peixes morrendo, arrancou-me lágrimas. Eu me lembro de uma foto do meu pai com um dourado enorme, nos anos 80, pescado no Rio Doce. A lama com dejetos rejeitos, salgou o Rio Doce.

É triste presenciar o abandono de um celeiro de riquezas naturais.

Passei há poucos dias na Zona da Mata, devo admitir, parece que foi largada às traças. Não me conformo com tanto desleixo e descaso. Estamos mal representados, não há líderes à altura das Gerais. Nivelaram por baixo as altas montanhas mineiras. É tempo de agir?

“Não temos uma maioria com comportamento proativo diante de imprevistos ou problemas. Há uma mentalidade passiva em massa”, diz Leo. Foto: César Dutra

“Não temos uma maioria com comportamento proativo diante de imprevistos ou problemas. Há uma mentalidade passiva em massa”, diz Leo. Foto: César Dutra

N – Qual seu sentimento ao tomar conhecimento de que a empresa responsável por aquela barbaridade escolheria para administrar a barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, exatamente o mesmo funcionário sob cuja gestão se deu a desgraça em Mariana, em 2015?

L – Sob o ângulo da gestão de uma empresa desse porte, responsabilidades se dividem mediante uma hierarquia com influência direta no acontecido, que deve ser levada em conta.

O que me remete a um déficit enorme coletivo, do qual o País se mantém refém, atribuído à mão de obra desqualificada. A questão está associada a uma mentalidade medíocre, alimentada  por um paradigma que reina e predomina!

Assim mesmo, tá  bão, o jeitinho brasileiro continua rompendo muita coisa ladeira abaixo.

A solução para tal tendência decrescente é formar uma nova geração, com capacitação minuciosa, buscando mais recursos e ferramentas na base dos profissionais. Alicerces que não se rompem, preenchidos com conteúdo moral e princípios humanitários.

Sem plantarmos essas sementes na educação, continuaremos tapando buracos que frequentemente reaparecerão!

N – Como o senhor descreve sua reação emocional à notícia de que a Vale mantinha perto de Brumadinho uma represa de rejeitos a montante do restaurante e de prédios administrativos da própria empresa, cujos ocupantes ou visitantes foram massacrados pelo mar de lama que agora desce o Paraopeba rumo a Três Marias, uma represa que chegou a ser símbolo de uma era conhecida no Brasil como os “anos dourados”?

L – O chão do  Brasil chora lama, enquanto brasileiros se afogam nela. A lama da ganância cega parece ser o motor propulsor. Incompetência se alia a um contexto já não muito favorável. Meus arrepios incrédulos diante do que os olhos viam padeciam na angústia. Tamanha presunção do ser humano se autodesafiar! Cheira a um desafio a Deus, à existência da  falta de cuidado humano e isenção do senso de responsabilidade! Fica a interrogação: ainda dá pra acreditar no ser humano? Num mundo que treme por tantos absurdos, individualmente há tremuras internas de ponta a ponta, torneadas  por indignação e revolta com tanta indolência social! “Lamantável”.

N – Qual a sua expectativa, como brasileiro, quanto à chegada da lama do Córrego do Feijão ao Rio São Francisco, que a Nação inteira consagra e celebra como o “rio da unidade nacional”? Seria algo similar a constatar que nós só nos unimos pela lama mortal dos dejetos minerais?

L – Verdade seja dita, não formamos profissionais com base em raciocínio preventivo. Robotizados, sem produzir autonomia e independência. Tentar clarear quando tudo já escureceu, quando não há mais visão. É  o choro quando se puxou o gatilho na tentativa de ressuscitar. É necessária uma conduta diferente da sociedade. Muitas vezes imparcial e conivente com um contexto educacional regressivo!

Penso ser necessário investir num brasileiro que pense não somente no que fazer, mas especialmente no como fazer. A sociedade precisa gritar alto para que se tenham recursos coerentes voltados para a educação! Quantidade não é qualidade.

N – O senhor já deve ter ouvido falar que Deus é brasileiro porque reuniu neste quase continente na América do Sul uma costa magnífica e paisagens imunes a terremotos, tsunamis e vulcões. No entanto, o senhor não acha que seria o caso de o Criador se declarar apátrida depois da destruição inominável do Museu Nacional do Rio, desses acidentes nada naturais de Minas e do incêndio do alojamento dos garotos do Flamengo?

L – Se, por acaso, Deus se vestiu da natureza, o ser humano o despiu rudemente e de forma sagaz. Possivelmente, aqui Ele não mais se adornaria com tanta mancha e lama!

Um país rico, mas sujo e emporcalhado. Desperdício! É de causar vergonha, sim, e pra qualquer um, certamente.

Poderíamos ser agentes transformadores, mas figuramos como destruidores. Há uma conduta fadigada e indolente, importuna no convívio entre o ocupante e o ocupado. Comportamento raso que afunda, alarmante, o País.

Podemos sonhar ou imaginar uma escola que finda na consciência de seus discentes, o amor e respeito pelo chão que pisa? Fica a pergunta.

Para Leo, “falta uma atitude corretiva ou de realinhamento diante de situações adversas ou imprevistos, observa-se apenas”. Foto: Leo Crosara

Para Leo, “falta uma atitude corretiva ou de realinhamento diante de situações adversas ou imprevistos, observa-se apenas”. Foto: Leo Crosara

N – O poeta Carlos Drummond de Andrade, mineiro como o senhor, mas de Itabira, deixou versos imortais sobre o destino de dor de “oitenta por cento de ferro nas almas”. A última estrofe do poema Confidência do Itabirano descreve as causas dessa dor: “Tive ouro, tive gado, tive fazendas./ Hoje sou funcionário público./ Itabira é apenas uma fotografia na parede./ Mas como dói!”. O senhor diria que hoje, depois de tudo o que aconteceu perto de Itabira, em Mariana e Brumadinho, torna este poema mais perto de lá e também de nós?

L – Sem dúvida, os antigos já calculavam as gotas que sobrariam, e estamos nesse caminho. Gotas inclusive de uma sociedade que parece não saber qual direção seguir.

Urgência ainda nos cabe. Mais tarde, não mais!

Cabe também honra aos ditos: ser mineiro.

Ser mineiro é não dizer o que faz, nem o que vai fazer.

Mas, e os laudos mascarados na poeira da corrupção?

É passar por bobo e ser inteligente. Mas veem-se apenas o discurso do saber e a prática da bobeira.

É vender queijos e possuir bancos. Continuamos vendendo queijos, mas estamos fantasiados, toldados de lama.

Só arrisca quando tem certeza,

não troca um pássaro na mão por dois voando.

A certeza que se arriscou pelo corvo da ganância.

É fingir que não sabe aquilo que sabe. Aí, sim, exatamente isso, concordo!

“Assim mesmo, tá bão, o jeitinho brasileiro continua rompendo muita coisa ladeira abaixo”, desabafa Leo Chaves. Foto: César Dutra

“Assim mesmo, tá bão, o jeitinho brasileiro continua rompendo muita coisa ladeira abaixo”, desabafa Leo Chaves. Foto: César Dutra

N – Sem o Rio Paraopeba, escapou das proximidades de Brumadinho o Inhotim, um dos maiores espaços naturais abertos com exposição de objetos de arte do mundo. Será esse um sinal de Deus de que só a arte nos salvará da barbárie e da miséria malcheirosa da ganância, da conivência e da acomodação, que destroem todo o sentido de civilização?

L –  É o que ainda resta, além da pouca esperança.

Chegamos ao fundo, para podermos levantar.

Mãos à obra, brasileiro!

Links

Para ouvir Victor & e Leo e Paula Fernandes em Meu em Você clique no play abaixo

Leo cantava O Bailar das estrelas para os três filhos no berço – clique aqui.

Para ver entrevista de Leo ao YouTube sobre The Four Brasil, que estrela na Rede Record clique aqui.

Para ver entrevista de Leo a Camille Reis no YouTube clique aqui.

Nêumanne Entrevista Marcellus Ferreira Pinto 2019/5

Nêumanne Entrevista Marcellus Ferreira Pinto 2019/5

Especialista diz que no Brasil

o crime ambiental sempre compensa

Advogado Marcellus Ferreira Pinto entende que só quebra do monopólio da Vale porá fim à série de crimes como os provocados pelo arrombamento das represas em Minas

Ferreira Pinto, consultor do Centro de Cooperação Industrial Internacional (CIIC) em Moscou, acha que, “infelizmente, há uma percepção já arrigada na sociedade brasileira de que as coisas no País não funcionam, ou seja, nem as repetidas tragédias são capazes de nos ensinar algo de positivo. Ao contrário, a cada nova catástrofe, o que parece ficar claro é que há um limite de conduta negligente a ser superado. Por exemplo, se consigo dirigir embriagado às segundas-feiras, quando a fiscalização é mais frouxa, posso tentar fazê-lo também às terças e quartas. Esse tipo de conduta decorre da absoluta certeza de que, no campo das probabilidades, a possibilidade de ser apanhado e, sendo, de ser punido são ínfimas, para não dizer nulas”. Na edição desta semana da série Nêumanne Entrevista, neste blog, ele considera fundamental, para prevenir desastres como os de Brumadinho e Mariana, que a Vale enfrente concorrência de outras empresas gigantes na área de mineração que atuam em países onde não se repetem como aqui os episódios de 2015 e 2019. E deu o exemplo do Canadá, onde, em vez de a empresa se fiscalizar, como aqui, as concorrentes o fazem em seu lugar, o que evita esse ambiente que permite que o responsável pela barragem de Mariana seja encontrado depois administrando Brumadinho.

Marcellus: “Estado brasileiro é omisso para punir e para assegurar a cidadãos direitos constitucionais como saúde, segurança, educação”. Foto: Acervo pessoal

Marcellus: “Estado brasileiro é omisso para punir e para assegurar a cidadãos direitos constitucionais como saúde, segurança, educação”. Foto: Acervo pessoal

Marcellus Ferreira Pinto, capixaba (nasceu em Vitória, Espírito Santo) em 23 de fevereiro, já foi guia de turismo, morou nos EUA e no Canadá, ama vinhos, culinária, viagens e mergulho autônomo. É advogado, pós-graduado em Direito Eleitoral e mestre em Direito Constitucional, ex-professor da Faculdade de Direito de Vitória (FDV) e de cursos preparatórios para concursos. Instrutor de Direito Eleitoral da Escola Superior de Advocacia (ESA/OAB-ES), consultor do Centro de Cooperação Industrial Internacional (CIIC) da Unido, Agência de Desenvolvimento Industrial da ONU em Moscou.

Nêumanne entrevista

Marcellus Ferreira Pinto

Nêumanne – O jornal O Globo fez um levantamento, publicado na segunda-feira 11 de fevereiro, dando conta de que nada foi feito para punir ou multar nenhum agente privado ou público apontado por ter sido negligente em dez catástrofes de repercussão nacional em dez anos, entre 2007 e 2017, que vão da queda de um avião até o desabamento de um prédio ocupado por invasores sem-teto no Centro de São Paulo. Por que isso aconteceu?

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