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Nêumanne entrevista Wálter Maierovitch – 2019/01

Nêumanne entrevista Wálter Maierovitch – 2019/01

Juiz narra barbaridades de Battisti

a pretexto da ideologia

Maierovitch diz que Suplicy mentiu para defender italiano, delinquente oportunista cuja organização terrorista aleijava vítimas para servirem de propaganda ambulante

O juiz Wálter Fanganiello Maierovitch, fundador e presidente do Instituto Giovanni Falcone de Ciências Criminais, que leu inúmeras vezes o processo em que o italiano Cesare Battisti foi duas vezes condenado por quatro crimes, garante que ele era um delinquente oportunista, que nunca quis trabalhar. Na volta depois das férias da série semanal Nêumanne Entrevista, publicada neste blog, o ex-ministro responsável pela Secretaria Nacional Antidrogas descreve em detalhes o que conhece dos autos e da História italiana, que lhe serve de pano de fundo, e atribui à esquerda brasileira “pura ignorância” para defendê-lo. Lula, Tarso Genro e outros petistas responsáveis por sua permanência de dez anos no Brasil nunca se deram sequer ao trabalho de consultar o que pensava a esquerda democrática de seu país de origem. O relato do professor de Direito Penal é confirmado pelo fato de a expulsão de Battisti pela Bolívia ter sido festejada por esquerda e direita na Itália. A esse relato Maierovitch adiciona o episódio cruel da carbonização de uma família de pobres trabalhadores italianos, cujo chefe militava num grupo neofascista, por outro facínora, Achille Lollo, adotado como ideólogo pelo PT, do qual foi expulso quando denunciado pelo entrevistado, e pelo PSOL, no qual militou até voltar para a Itália quando sua pena prescreveu.

Wálter Fanganiello Maierovitch, natural de São Paulo, tem 71 anos de idade e dispõe de cidadanias brasileira e italiana. Formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo de São Francisco), é juiz de Direito por concurso público e desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo. Docente de Direito Penal e Processual Penal, foi professor visitante na Universidade de Georgetown, em Washington (1998-1999). Cavaliere della Repubblica Italiana por ato e outorga do presidente Oscar Luigi Scalfaro, em 2 de junho de 1997, fundou, em maio de 1993, e preside o Instituto Giovanni Falcone de Ciências Criminais. É titular da cadeira 28 da Academia Paulista de Letras Jurídicas e da cadeira 15 da Academia Paulista de História. Foi ministro responsável pela Secretaria Nacional Antidrogas no governo Fernando Henrique Cardoso em 1998. Agraciado com a Ordem do Mérito de Rio Branco e a Ordem do Mérito Militar, representou o Brasil junto à ONU e àOEA. É comentarista da Rádio CBN, nos quadros Justiça e Cidadania e Por Dentro da Justiça, e colabora nos jornais Correio BrasilienseO Estado de S. Paulo Folha de S.Paulo. Já fez conferências no Brasil, na Itália, na Inglaterra, na Argentina, naRomênia, na Colômbia e na Bolívia e tem livros publicados no Brasil e na Itália.

 

Maierovitch presume que, ao advogar de graça para Battisti, Barroso conquistou a simpatia dos petistas para ocupar vaga no STF. Foto: Acervo pessoal

Maierovitch presume que, ao advogar de graça para Battisti, Barroso conquistou a simpatia dos petistas para ocupar vaga no STF. Foto: Acervo pessoal

Nêumanne entrevista Walter Fanganiello Maierovitch

Nêumanne – Quantas vezes o senhor calcula que leu os autos do processo no qual o “pluriassassino”, como o senhor chamou o italiano Cesare Battisti, uma fraude ambulante  em artigo publicado no Estadão de terça-feira 15 de janeiro último, para nos brindar com tantos detalhes? E por que o fez?

Walter – Tenho formação de juiz e me aposentei como desembargador do Tribunal de Justiça. Magistrado, atuei como juiz, juiz criminal, de execução criminal, do júri, corregedor de presídios e da polícia judiciária e do especializado e então Tribunal de Alçada Criminal do Estado de São Paulo. No Tribunal de Justiça sempre estive em Câmaras Criminais e no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) dei votos em diversos processos por crimes eleitorais. Minha bússola: não deixar crimes impunes e não punir inocentes. Essa bússola funciona bem quando se mergulha no exame profundo das provas processuais. Leituras diversas, releituras, reflexões e noites de permeio (nada de pressa). Com relação ao Battisti, perdi a conta das vezes, durante anos e anos, que li os processos. Escrevi mais de 50 artigos e dei inúmeras entrevistas, desde a sua prisão no bairro de Copacabana (Rio de Janeiro), em 18 de março de 2007. Agora, atenção, atenção. O caso Battisti não pode ser analisado sem que se tenha um profundo conhecimento da história política e institucional da Itália, em especial após a 2.ª Guerra e a partir do final dos anos 60, chamados de “anos de chumbo”: em maio de 1978 as Brigadas Vermelhas sequestraram e mataram o estadista Aldo Moro, ex-premier, presidente do Partido da Democracia Cristã (PDC) e professor de Direito Processual Penal. Por “anos de chumbo” (anni di piombo) se entende o arco temporal histórico entre o final dos anos 60 e o início dos anos 80. Existia o terrorismo de esquerda (terrorismo rosso) e o terrorismo de direita (terrorismo nero): a organização denominada “Núcleos Armados Revolucionários” foi a responsável pela tragédia de Bologna, ou seja, a explosão da estação ferroviária central, com 85 mortos e 200 feridos graves. Battisti integrava a organização chamada “Proletariados Armados para o Comunismo” (PAC). Era uma pequena organização terrorista eversiva de menos de 30 membros. Ela atuava no norte da Itália, entre as regiões da Lombardia e do Veneto. Um de seus fundadores foi Pietro Mutti, nascido em 1954. Este, antes, tinha atuado na “Luta Continua” e quando preso, em janeiro de 1982, já pertencia à organização “Prima Linea”. Mutti virou colaborador de Justiça e obteve redução de penas. Cumpriu oito anos de prisão fechada. Sobre o PAC, disse que tinha dois protagonistas: um era ele, o outro, Battisti. Mutti conheceu Battisti por intermédio de Arrigo Cavallina (falarei sobre ele na resposta à sua segunda pergunta). Na ocasião Battisti era apenas um ladrão comum e descontava pena por crimes contra o patrimônio alheio. Foi Mutti quem convidou Battisti a ingressar no PAC. Mais ainda, foi Mutti quem organizou a ação bem-sucedida de resgatar Battisti do presídio de Frosinone. Ao contrário do que constou da campanha de desinformação pró-Battisti no Brasil, com o então senador Suplicy como porta-voz, Mutti não trocou a delação pela liberdade, pois permaneceu oito anos preso. Nem recebeu, ao sair do regime fechado, salário mensal do Estado italiano.

Contra Battisti pesam duas sentenças condenatórias definitivas. Elas transitaram em julgado em 1991 e 1993. Battisti, nesses dois processos, foi condenado à pena de prisão perpétua (ergástulo) por quatro homicídios (três em coautoria e um por participação). Os homicídios ocorreram entre junho de 1978 e abril de 1979. Nessas duas definitivas condenações, Battisti foi também condenado por tentativa de sequestro, três lesões corporais e diversos furtos.

Maierovitch, na foto com a família, conta que PAC de Battisti aleijava vítimas para aterrorizar quem considerava inimigo. Foto: Acervo pessoal

Maierovitch, na foto com a família, conta que PAC de Battisti aleijava vítimas para aterrorizar quem considerava inimigo. Foto: Acervo pessoal

N – Que circunstâncias levaram o delinquente juvenil Cesare Battisti a aderir à organização terrorista Proletariados Armados para o Comunismo (PAC, mesma sigla do Programa de Aceleração do Crescimento de Dilma Rousseff), cujo objetivo precípuo seria difundir o medo entre vítimas em potencial, definidas como “porcos a serviço do capitalismo”?

W – Battisti, nascido em dezembro de 1954, sempre foi um delinquente oportunista. Nunca quis trabalhar. Nascido na cidade de Cisterna de Latina, vizinha de Roma, vivia de furtos e roubos. Por isso acabou preso e mandado, em 1977, para a prisão de Udine. Lá conheceu Arrigo Cavallina, o ideólogo do PAC e um dos seus fundadores. Cavallina, que com Battisti matou Antonio Santoro (agente penitenciário), beneficiou-se da norma premial de se declarar desassociado da luta armada. Dos 22 anos de condenação definitiva, passou 12 em regime fechado. Como Battisti sofria de laborfobia, aproximou-se da escritora francesa Fred Vargas, militante do Partido Socialista e campeã de vendas de livros de suspense. Com Vargas, Battisti vira escritor de livros de suspense, aproveitando o seu conhecimento de delinquente. Tudo aconteceu quando do seu segundo refúgio na França (depois da fuga do presídio de Frosinone em 81, entra na França). Fica um ano e muda para o México, em Puerto Escondido. Volta a Paris em 1990, recebe proteção de socialista e se beneficia da “doutrina Mitterrand” (presidente da França que deu ordem verbal de não expulsão de condenados que se declarassem desligados da luta armada em seus países de origem). Quando a doutrina Mitterrand caiu, a Itália conseguiu a extradição de Battisti na Justiça francesa. Posto em prisão domiciliar no curso do processo de extradição, acabou fugindo e chegou ao Brasil. Todas as organizações terroristas de esquerda usavam, para difundir o medo e obrigar os operários a aderirem a greves e distribuírem volantes sobre a luta armada, da intimidação difusa. Isso se dava pela gambizzazione (de gamba, que é perna em italiano). Ou seja, aleijavam trabalhadores. Os feridos faziam o papel de difusores da luta armada. Tinham sofrido aleijão permanente e quando se movimentavam, isso ficava visível. O PAC também se dedicou a essa crudelíssima gambebizzazione.

Depois de cada ação, o PAC espalhava folhetos e ligava para as redações de jornais para informar sobre os crimes e dar o nome do “porco a serviço do capitalismo” que havia sido executado. Tudo fazia parte do processo de difusão do terror. E ajudava o PAC a atingir uma das suas principais metas, que era ser absorvido pelas Brigadas Vermelhas, mais bem estruturadase com atuação por toda a Itália.

 Um dos programas de lazer favoritos de Maierovitch é torcer pelo Palmeiras na companhia da filha, Maria Fernanda. Foto: Acervo pessoal

Um dos programas de lazer favoritos de Maierovitch é torcer pelo Palmeiras na companhia da filha, Maria Fernanda. Foto: Acervo pessoal

N – Quais seriam as circunstâncias especiais graças às quais Battisti e seus companheiros “revolucionários” selecionavam as vítimas que executaram? Que serviços elas prestariam ao capitalismo e que riscos elas poderiam representar para o projeto político do grupo?

W – Battisti fazia parte do núcleo decisório das ações a serem perpetradas. Esse grupo pegava o jornal do dia e via nomes e anúncios. Eles escolhiam assim as vítimas. Por exemplo: Pierluigi Torregiani, um joalheiro de periferia, tinha, e os jornais noticiaram, evitado um assalto e usado arma de fogo. Foi escolhido. O PAC iria vingar o assaltante desconhecido. Mais: os jornais faziam referência a Torregiani como membro de uma sociedade de amigos de bairro e a seu discurso de ultradireita. Battisti participou da escolha. Na ocasião, foram formados dois grupos de extermínio. Um liquidaria Torregiani e outro, um tal de Lino Sabbadin, açougueiro no minúsculo distrito (local de onde poderiam fugir com facilidade) de Caltana, próximo da cidade de Santa Maria de Sala (Veneza).

No Brasil, os assessores de imprensa de Battisti diziam, com Suplicy a fazer cara de surpreso e indignado: como poderia Battisti matar, estando em outro lugar quando Torregiani foi executado? No particular, Battisti foi condenado por participação, e não por coautoria. Essa foi a sentença. Ou seja, foi considerado coautor do homicídio de Sabbadin e participante (partícipe, pelos códigos penais de países civilizados, é quem de “qualquer forma concorre para o crime”) do homicídio de Torregiani.

N – O que motivou especificamente as execuções com as quais Battisti se envolveu, seja como autor, seja como participante presente à cena do crime? Por que essas vítimas foram escolhidas e quais as características em comum entre elas?

W –A Itália, depois do fascismo, elaborou a sua Constituição que entrou em vigor em janeiro de 1948  e ainda está em vigor. Como Estado democrático e de regime parlamentarista. Não pelo voto, que não teriam jamais, mas pelas armas, os movimentos eversivos procuraram derrubar o governo democraticamente eleito. O presidente da República era o socialista Sandro Pertini. O partido da Democracia Cristã, até então majoritário, sofria internamente um racha. O centro, liderado por Aldo Moro (sequestrado e morto pelas Brigadas Vermelhas), havia se aproximado dos eurocomunistas liderados por Enrico Berlinguer. Os movimentos de luta armada eram de esquerda radical, de matriz soviética e de ódio aos eurocomunistas (social-democratas). Isso explica a razão de a atual esquerda italiana democrática haver aplaudido a prisão de Battisti (confira-se o discurso de Matteo Renzi, ex-primeiro-ministro, no Parlamento, após a prisão e entrada de Battisti em território italiano).

O PAC reagia contra os considerados capitalistas. Apenas os operários não eram considerados como tal. E os que não aderissem eram vistos como a serviço do capitalismo e a trair a causa operária. Começou a atuar como força auxiliar num projeto de derrubar o governo democrático. Numa reação contra a eversão de esquerda e de direita radicais, Aldo Moro e EnricoBerlinguer teceram o fundamental “Compromisso Histórico”, uma aliança para manter a democracia e não deixar o Estado italiano cair nas mãos dos soviéticos, por meio do terrorismo “vermelho”, nem retroceder ao fascismo, pela eversão promovida pelos terroristas de ultradireita (terrorismo nero) .

aierovitch com a mulher, Sandra Accorsi, diante de cartaz com sua fotografia em homenagem a oriundi no Conjunto Nacional, em São Paulo .Foto: Acervo pessoal

aierovitch com a mulher, Sandra Accorsi, diante de cartaz com sua fotografia em homenagem a oriundi no Conjunto Nacional, em São Paulo .Foto: Acervo pessoal

N – Que direitos fundamentais de defesa foram negados a Cesare Battisti pela Justiça italiana, personificada nos 60 juízes que o senhor citou no artigo, e por que a Corte de Direitos Humanos da União Europeia, se teria recusado a considerar seus crimes como “políticos”, além de não ter identificado nulidade alguma nos julgamentos citados?

W – A insuspeita Corte de Direitos Humanos da União Europeia, sediada na cidade francesa de Estrasburgo, tem jurisdição vinculante nos Estados-membros. Em outras palavras, as decisões da Corte Europeia obrigam. Battisti apresentou-se à Corte como perseguido político. E a Corte respondeu com a sua sólida jurisprudência, de não se poder matar quando se discorda da ideologia de outro. Mutatis mutandis, é como se James Earl Ray, assassino de Martin Luther King, quisesse a aceitação dos argumentos de que matou por não concordar ideologicamente com as posições de King. Em síntese, não se aceita, entre civilizados, evento de sangue ou morte por intolerância e para prevalecimento de ideias. A Corte entendeu, ainda, que não houve violação da ampla defesa. A alegada revelia foi rejeitada, pois Battisti conhecia bem as acusações. Optou por fugir e se manter revel, mas escolheu e deu procuração a advogados.

Na campanha de desinformação, a escritora de romances de suspense Fred Vargas quis construir algo imaginário, cabível,evidentemente, em livros. Afirmou que as procurações era falsificadas. Comprovou-se, entretanto, que estava a mentir. Battisti quis, perante o Supremo, obter um reexame das provas. Como se o Supremo fosse uma Corte de revisão da Justiça italiana e da Corte de Direitos Humanos da União Europeia. Até o instituto da extradição se quis desvirtuar. Numa extradição não se reexamina o mérito da condenação.

Maierovitch, na foto com a mulher, Sandra, define Battisti como delinquente oportunista. Foto: Acervo de família

Maierovitch, na foto com a mulher, Sandra, define Battisti como delinquente oportunista. Foto: Acervo de família

N – Por que, a seu ver, o dirigente do PAC Luigi Bergamin, ao depor à Justiça italiana, atribuiu a Battisti uma fúria sanguinária que ele mesmo não tinha, embora o tenha ajudado a matar o açougueiro; e sua ex-namorada, hoje historiadora, Maria Cecilia Barbetta contou no mesmo processo que ouviu de Battisti a revelação de que se comprazia em ver a vítima sangrar?

W – Luigi Bergamin vive na França e, pela Justiça italiana, está condenado a 27 anos de prisão. É um dos fundadores do PAC. Ajudou na operação de fuga de Battisti do cárcere de Frosinone. Foi um dos intelectuais do PAC. É professor de Direito e formado também em Economia. Intelectualmente, não é um despreparado como Battisti. Bergamin restou condenado nos homicídios de Sabbadin e Andrea Campagna. Não teve atuação igual à de Battisti, autor dos disparos. A sentença condenatória, ao dosar a pena, afirma que ele não tinha o mesmo ativismo nem a “ferocidade sanguinária” de Battisti. A professora Barbetta, que se desassociou do PAC, namorou Battisti. Depois de Battisti ter matado Santoro, resolveu tirar umas férias. Foi para a Sardenha em companhia de Maria Cecília Barbetta e ficaram num camping. Em maio de 1982 e em juízo, Barbetta contou: “Battisti revelou-me como era o sentimento depois que se matava uma pessoa. Ele se referia ao homicídio de Santoro”.

N – O que o senhor acha que motivou a benemerência de pelo menos 20 pessoas, entre as quais brasileiros, que financiaram a empreitada de Battisti de se manter foragido viajando por França, México e Brasil, algo que, na certa, deve ter representado uma despesa significativa?

W – A informação sobre a rede de favorecimento e proteção a Battisti é do responsável pelo eficiente departamento antiterror italiano, Lamberto Giani. Por evidente, Battisti precisou de ajuda, incluída a financeira, e não deve ter sido pouca. No Brasil, Battisti não deve ter vendido muitos livros, imagino. Como sabem até as portas das carceragens, um fugitivo não se desloca entre países sem ter um local antes preparado para se esconder.

Maierovitch com a equipe da CBN: Milton Jung, André Sánchez e Marcos Atalla. Foto: Acervo de família

Maierovitch com a equipe da CBN: Milton Jung, André Sánchez e Marcos Atalla. Foto: Acervo de família

N – Que razões teve o ex-ministro da Justiça petista Tarso Genro para usar a força de um cargo público de tal relevância para manter o facínora sob proteção do Estado brasileiro e o ex-chefe dele, Lula, para negar sua extradição, pedida pela Itália, no último dia de seu mandato, em agradecimento a um favor pessoal que lhe tinha sido feito pelo militante trotskista argentino Belisário Vermus (vulgo Luís Favre), por este ter abrigado em seu apartamento em Paris, quando vivia com sua então esposa Marília Andrade, de uma família de empreiteiros milionários de Minas, envolvidos na devassa da Operação Lava Jato?

W – Só a ignorância e o fanatismo ideológico explicam o amparo do ex-governador Tarso Genro. Ele chegou a dizer que Battisti lutava contra um governo fascista na Itália. Pasmem: o presidente era o socialista histórico Sandro Pertini! Pertini, sim, foi um dos heróis da resistência italiana contra Mussolini e encarcerado por isso. Desconheço o episódio Favre. Na Itália, a esquerda democrática apostava na extradição por ato do então presidente Lula. Lula havia visitado a Itália e teria prometido a extradição de Battisti ao então presidente Giorgio Napolitano, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano (eurocomunismo, entendido como partido de esquerda democrática, diverso do comunismo de matriz soviética).

N – O que pode ter levado o ministro do STF Luís Roberto Barroso a aceitar defender Cesare Battisti e ainda distorcer, como o senhor acusa em seu artigo, fatos da História da Itália (como atribuir ao país a condição de “Estado de exceção”), de vez que se espera que tenha consultado os mesmos autos que o senhor cita como fontes?

W – O ministro Barroso sempre foi um nome de destaque no campo do Direito Constitucional. Autor respeitado de livros sobre o tema e advogado de nomeada. Penso que deve ter defendido Battisti de graça, pois este não tinha como pagar os seus honorários, que sempre foram elevados na advocacia. Com a defesa de Battisti o ministro Barroso conseguiu a agradar aos admiradores do pluriassassino. E, certamente, se fortaleceu na indicação política de uma vaga para o Supremo. Evidentemente, ninguém pode ficar indefeso. O advogado é parte fundamental numa relação processual. Agora, defesa técnica.

O voto do ministro Cezar Peluzo, relator da extradição, foi precioso e destruiu o imaginário que se quis criar de um Battisti herói.

Maierovitch conta as trapalhadas do governo italiano na chegada de Battisti para cumprir pena. Foto: Acervo de família

Maierovitch conta as trapalhadas do governo italiano na chegada de Battisti para cumprir pena. Foto: Acervo de família

N – O que, a seu ver, levou o PT, o PSOL e outros partidos de esquerda no Brasil a assumirem de forma tão leviana e apaixonada a defesa de um bandido dessa estirpe, se seus companheiros italianos, ao contrário deles, comemoram o fim de sua fuga pela óbvia razão de que a companhia de um elemento como Battisti jamais poderia ser benéfica para ninguém?

W – Pura ignorância. Não se deram ao trabalho de verificar o que pensava a esquerda italiana democrática. A mesma ignorância que fez o PT e o PSOL aceitarem, nos seus quadros e como ideólogo (era assim que ele se apresentava à imprensa brasileira) Achile Lollo. Lollo, na luta armada, pôs fogo, em abril de 1973, no apartamento de um varredor de rua. Matou o varredor (Mario Mattei) e seus dois filhos (Virgílio e Stefano). Os três morreram carbonizados. Essa tragédia, Rogo di Primavalle (Incêndio em Primavalle), ocorreu no periférico e pobre bairro romano chamado Primavalle. O varredor era, no bairro popular e operário, associado ao Movimento Social, que agregava neofascistas. Apenas em 2005 Lollo confessou a sua participação. Destacou que colocou o galão de gasolina na porta do apartamento de Mario. Mas como estava sem fósforos ou isqueiro, deixou o lugar para comprar. Quando voltou, o incêndio tinha ocorrido e alguém, na sua opinião, deve ter despejado gasolina por debaixo da porta e ateado fogo.

O referido Lollo, que pertencia à organização terrorista denominada Poder Operário, fugiu para o Brasil. Abriu uma pequena editora no bairro carioca do Botafogo. Quando comecei a escrever sobre Lollo, o PT o expulsou das fileiras. E ele encontrou abrigo no PSOL. Não ficou muito tempo no PSOL, uma vez que o prazo processual de prescrição ocorreu e Lollo voltou para a Itália. Todos os anos, no dia 16 de abril, na praça do bairro de Primavalle, os moradores se reúnem para orar pela alma das duas crianças mortas e pelo seu pai. Tudo para a tragédia não ser esquecida.
Permita-me complementar contando que o respeitado procurador Giancarlo Caselli enfrentou, na sua carreira de magistrado do Ministério Público, o terrorismo e as máfias. Nos anos de chumbo (anni di piombo) foi juiz instrutor antiterror. Depois, quando a Cosa Nostra siciliana dinamitou o magistrado Giovanni Falcone, coube a Caselli ir enfrentar o crime organizado. Caselli, que é meu amigo, contou-me um drama. Gente muito jovem havia sido cooptada pelas associações terroristas italianas. As condenações foram pesadas e os jovens tinham caído em si. A Itália preparou, então, o instituto da desassociação. Um condenado pela eversão podia, de próprio punho, fazer uma declaração de desassociação. Feito isso, aplicava-se o recém-criado direito premial. Battisti achou melhor fugir da Justiça.

E ao chegar à Itália, expulso pela Bolívia, ele continua “causando”. O ministro da Justiça, Buonafede, ao que parece sem muita boa-fé, mandou filmar o prisioneiro sendo interrogado por ele e agora responde por crime contra o Código Presidiário. O vice-primeiro ministro, Matteo Saldini, que mandou e-mails para o filho de Bolsonaro agradecendo pela extradição decretada no Brasil, foi esperá-lo no aeroporto e o insultou. Para evitar correr o risco de ser processado, Saldini cancelou a viagem que prometeu fazer em janeiro para visitar o presidente brasileiro e encarregou o primeiro-ministro, Giuseppe Conte, de representá-lo em encontro com Bolsonaro marcado para o 14 de fevereiro. Só rindo…

Links

1 – Para ver Maierovitch entrevistado por Maria Lydia na Gazeta clique aqui.

2 – Para ouvir comentário de Maierovitch sobre plea bargain na CBN clique aqui.

3 – Para ver entrevista de Maierovitch a Abujamra na TV Cultura clique aqui.

4 – Para ver entrevista de Maierovitch a Gamberini clique aqui.

Acesse a entrevista no Blog do Nêumanne no Estadão. 

Nesta Estação: Acesse todas as entrevistas 2018. Clique aqui. 

Nêumanne entrevista Marina Colasanti

Nêumanne entrevista Marina Colasanti

Escritora aposta que grandes migrações desta era

mudarão a face da Terra

Nascida na Eritreia numa família italiana, com infância na Líbia e toda uma vida no Rio, Marina Colasanti diz que é difícil amar cidade entregue a si mesma

Para a jornalista, escritora e poeta Marina Colasanti, nascida na África e carioca por adoção, “no futuro nossa era não ficará conhecida pelos avanços tecnológicos – que começaram no século 19 com a primeira lâmpada elétrica! – mas como a era das grandes migrações. Pois são elas que, como quando asiáticos atravessaram o estreito de Behring e povoaram a América, mudarão a face do mundo”. Na 36.ª da série de entrevistas do Blog do Nêumanne, a última do ano, pois o entrevistador estará de férias até 9 de janeiro, a feminista da primeira hora falou também de sua relação antiga e íntima com a cidade que cerca o apartamento onde vive com o marido, o poeta e crítico mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, autor do poema seminal Que país é este?, ela desabafou: “Hoje, para amar o Rio seria necessária uma cegueira social desmedida. Olho da minha janela e vejo a comunidade lá adiante crescer dia a dia, ocupando o lugar da mata. E sei que lá não há esgoto, a água não é potável, e que as vielas estreitas favorecem o surgir de doenças e o multiplicar-se de gangues de traficantes ou milicianos. Não sou a única a ver esse crescimento. O poder constituído também vê e nada faz. É duro amar uma cidade entregue a si mesma.”

Sobre o Brasil Marina cutuca a ferida: "Recuperamos o voto popular, mas esquecemos de educar os eleitores para o seu exercício." Foto: Fábio Motta/Estadão

Sobre o Brasil Marina cutuca a ferida: “Recuperamos o voto popular, mas esquecemos de educar os eleitores para o seu exercício.” Foto: Fábio Motta/Estadão

Marina Colasanti nasceu na Eritreia, país africano à beira do Mar Vermelho, e morou na Líbia, país africano à beira do Mediterrâneo. Depois cruzou o mar e foi viver na Itália. Mas só até os 10 anos, quando cruzou o oceano e veio viver no Brasil. Aqui estudou pintura e cursou Belas Artes, o que faria dela, mais adiante, a sua própria ilustradora. Porém, mais uma vez, mudou o rumo da sua vida e foi ser jornalista. Trabalhou no Caderno B do Jornal do Brasil, como redatora, secretária de texto, cronista, colunista e editora do Caderno Infantil.  Desempenhou-se paralelamente como editora do Segundo Tempo do Jornal dos Esportes. E rumou para a revista Nova e para 20 anos de atividade feminista. Foi âncora e apresentadora em televisão, foi publicitária. Ganhou sete Jabutis, dois Livros do Ano, um Portugal Telecom, um Prêmio Biblioteca Nacional e os internacionais Norma- Fundalectura e Prêmio SM. Agora escreve seus livros de prosa e de poesia para adultos e crianças, faz traduções, lê muito, desenha, e viaja, viaja e mais viaja. Dizem que cozinha muito bem.

Marina, com Affonso, Em 1994, quando ganhou dois Jabutis , um de poesia ( Rota de Colisão), e Livro do Ano ( Ana Z. Aonde vai você?). Foto: Acervo pessoal

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Nêumanne entrevista José Augusto Guilhon

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Povo quer menos privilégios, menos incompetência

e menos roubalheira, diz professor

Para Guilhon, Bolsonaro ganhou porque prometeu acabar com tudo o que, em cinco anos de indignação popular, não mereceu resposta da elite política

Para o especialista em ciências políticas paraense, radicado em São Paulo, José Augusto Guilhon de Albuquerque, o capitão e deputado Jair Bolsonaro ganhou a disputa eleitoral em outubro “porque ‘foi o único que, em vez de dizer ‘vou fazer o mesmo de sempre, só que melhor, mais bonito ou mais radical’, disse que ia acabar com tudo o que, em cinco anos de indignação popular, não mereceu resposta da elite política”. Na entrevista da semana ao Blog do Nêumanne, o professor titular aposentado da USP analisou em profundidade a cena política nacional, tema de sua especialidade, desde os movimentos de rua há cinco anos até a eleição de dois meses atrás. Ao explicar por que as massas que saíram à rua não se mobilizaram, como era de esperar, em torno do impeachment de Dilma, ele ponderou: “A aprovação das massas foi silenciosa porque já estava rouca de se esgoelar em vão. Note-se que o impeachment só foi encaminhado pelo PSDB quando se tornou evidente que o tapetão não garantiria a posse de Aécio sem uma nova eleição, mas não em resposta aos 80% que rejeitavam Dilma e continuaram rejeitando o seu legítimo herdeiro, Temer, o que mostra o grande consenso popular, e não a divisão radical da sociedade.  A imensa maioria busca a mesma coisa: menos desgoverno, menos politicagem, menos privilégios, menos incompetência, menos roubalheira”.

Para Guilhon, em 2013, o povo disse estar “por aqui” com a política e os políticos, com o modo como somos tratados pelas elites dirigentes

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Nascido em 19 de dezembro de 1940, em Belém do Pará, José Augusto Guilhon de Albuquerque viveu em diferentes cidades dos Estados do Rio, do Espírito Santo, de São Paulo e, no exterior, em Washington D.C. e em Londres. Doutor em Sociologia pela Univesrsité Catholique de Louvain, professor titular aposentado da USP, atualmente pesquisador sênior no Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da USP, senior research fellow do Wong Center for the Study of Multinational Corporations e diretor da Sobeet, a Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica. Fundou e dirigiu o Departamento de Ciência Política da USP, serviu como chefe de gabinete da Reitoria da USP e em todos os níveis de governo, municipal, estadual e federal. Sua área de pesquisa tem foco na política brasileira doméstica e internacional, especialmente as relações Brasil-EUA e Brasil-China. Publicou várias dezenas de artigos acadêmicos e algumas dezenas de livros em diversas línguas. Tem colaborado em todos os jornais de tiragem nacional e nas principais revistas semanais, e atua como convidado em programas nos principais canais de TV e rádio.

Nêumanne entrevista José Augusto Guilhon de Albuquerque

Guilhon, guarda-marinha, em cumprimento do serviço militar obrigatório, “sobrevivendo ao Corpo dos Fuzileiros Navais” e recebendo a família. Foto: Acervo pessoal

Guilhon, guarda-marinha, em cumprimento do serviço militar obrigatório, “sobrevivendo ao Corpo dos Fuzileiros Navais” e recebendo a família. Foto: Acervo pessoal

Nêumanne – Qual foi, em sua opinião, o estopim que fez a classe média perder a paciência de vez com o tratamento dispensado pelo Estado brasileiro à sociedade de forma estroina, desleixada e insensível, levando-a a protestar em massivas manifestações de rua em 2013?

José Augusto Guilhon – Qual estopim? No caso não acha que seriam inúmeros? Ou gota d’água, porque basta uma? Toda a população estava naquela atitude de “ras le bol“, como diziam os franceses e, pelo visto, continuam dizendo, ou seja, “estamos por aqui” com todo tipo de governos, “por aqui” com a política e os políticos, “por aqui” com o modo como somos tratados pelas elites dirigentes. Motivo não faltava para derramar a indignação e a revolta generalizadas. Saber por que o aumento das tarifas de transporte simbolizou a revolta ainda é tema para pesquisa, mas saber por que a classe média saiu na frente e por que seu desabafo calou fundo nos restantes 99% do povo suscita algumas hipóteses. A minha é de que, contrariamente às regalias que compartilha com as classes dirigentes – em seguridade, educação superior e atendimento médico, para dar alguns exemplos incontestáveis -, o descaso, o arbítrio, a verdadeira extorsão fiscal a que é submetida a classe média vem compartilhando, cada vez, mais como o povo em geral. Com isso a mensagem das ruas disse em alta voz o que a grande massa da população queria ouvir… e aprovou.

N – Por que, a seu ver, mesmo tendo respondido de forma absolutamente alienada e inconvincente, propondo um programa absurdo de cinco falsos pactos, o principal alvo de tal ataque, a presidente à época, Dilma Rousseff, do PT, ao lado de seu companheiro de chapa,  Michel Temer, do então PMDB, ainda venceu a eleição, embora por margem reduzida, contra o adversário Aécio Neves, do PSDB?

G – Dois processos que ocorreram simultaneamente, e em parte se reforçaram, parecem ter dado origem tanto à autofagia do governo Dilma quanto à sua reeleição, apesar disso. E também ao suicídio da coalizão de centro-direita que fora bem-sucedida na era do Plano Real e levou ao desastroso desfecho das últimas eleições: o sucesso de um aventureiro, calçado numa campanha populista de direita, que alardeia profunda admiração por ideias de exercício do poder popular por via de corporações e democracia direta, com grande desconfiança com relação aos canais institucionais de representação.

Refiro-me à absoluta recusa da classe política – governo Dilma incluído – de olhar para as ruas e ouvir sua mensagem. Essa omissão dolosa, e não apenas culposa – uma vez que a primeira obrigação da classe política é representar no poder os interesses e demandas do povo soberano -, pode ser simbolizada pelo fato de que, diante das primeira reações de desconforto por sua presença nas ruas, os partidos e os detentores de mandato popular fugiram quase todos da rua.

Na revista Interesse Nacional, que avaliava os resultados das eleições de 2014, publiquei um artigo intitulado O recado (mudo) das unas, que concluí com o seguinte alerta: “Restam três caminhos até 2018. O primeiro consistiria em vislumbrar, no decorrer dos próximos quatro anos, lideranças que encarnem a ‘nova política’ – cujo conteúdo ainda terá que ser construído – e acenem com compromissos críveis de uma gestão honesta e de ações decisivas para retomar o crescimento e estender, à imensa maioria, o bem-estar geral. Esse teria que ser o caminho das oposições, pois a viabilidade de vir do PT é totalmente incompatível com o petismo realmente existente. Outro caminho seria governo e oposições voltarem ao business as always, e apostarem na omissão das elites e no conservadorismo popular para deixar como está, como diria Getúlio, e ver como é que fica. Mas este caminho se cruza com o terceiro, um caminho retomado pela memória do levante de junho de 2013, agravada com as novas ofensas que os governantes não tardarão a causar. Seria o caldo de cultura para uma ‘revolução’ em busca de suas lideranças”.

Guilhon fazendo o discurso de formatura na Faculdade Nacional de Filosofia, na então Universidade do Brasil, "briga dura para ser eleito." Foto: Acervo pessoal

Guilhon fazendo o discurso de formatura na Faculdade Nacional de Filosofia, na então Universidade do Brasil, “briga dura para ser eleito.” Foto: Acervo pessoal

N – A frustração provocada no eleitorado pela preguiça do senador mineiro Aécio Neves – que obteve 50 milhões de votos e passou a representar a esperança de pelo menos metade da população brasileira, depois da derrota sumiu de cena, ausentando-se das sessões em plenário da chamada Câmara Alta e conduzindo uma oposição evidentemente de fancaria- pode, de acordo com seu ponto de vista, ter desmotivado a volta dos manifestantes de 2013 às ruas, apesar do desmazelo, da incompetência e da comprovada corrupção da gestão petista na primeira metade do segundo governo deDilma?

G – A contribuição do PSDB para a avacalhação das instituições e o embaralhamento do sistema partidário foi geral: nunca os candidatos tucanos puderam contar com o apoio das suas principais lideranças ao candidato de turno, formando-se uma coalizão de veto entre São Paulo, Minas, Bahia e Ceará, e parte das lideranças regionais e das bancadas federais faziam alianças tácitas com Lula ou Dilma. Coroando esse papel desagregador da oposição, prevaleceu, desde a eclosão do escândalo do mensalão, a estratégia autodestrutiva de preservar o adversário para que ele sangre até o fim do mandato.

Tal estratégia consiste em colocar-se no lugar do adversário, para avaliar sua principal ameaça, não para levá-lo à derrota, preservando os interesses da sociedade, mas dando-lhe corda para continuar agravando o sofrimento do povo e a estabilidade daNação. Isso explica como foi possível que as ruas voltassem a se manifestar em 2014, justo no ano das eleições, com a mesma omissão dolosa da Dilma e de toda a classe política, sobretudo da pretensa oposição, que conjugou à teoria do sangramento até o fim a esperança de eleger Aécio no tapetão do TSE.

Guilhon "Rumo ao Havre e ao doutorado Na Université Catholique de Louvain, em Leuven, Bélgica, em 1965". Foto: Arquivo Pessoal

Guilhon “Rumo ao Havre e ao doutorado Na Université Catholique de Louvain, em Leuven, Bélgica, em 1965”. Foto: Arquivo Pessoal

N – O que o senhor acha que motivou a grande mobilização partidária para aprovar o impeachment da presidente petista e a sucessiva posse de seu vice do então PMDB, sem que houvesse entusiasmo igual ao de 2013, mas, pelo menos com aprovação da chamada maioria, então, silenciosa?

G – A aprovação das massas foi silenciosa porque já estava rouca de se esgoelar em vão. Note-se que o impeachment só foi encaminhado pelo PSDB quando se tornou evidente que o tapetão não garantiria a posse de Aécio sem uma nova eleição, mas não em resposta aos 80% que rejeitavam Dilma e continuaram rejeitando o seu legítimo herdeiro, Temer, o que mostra o grande consenso popular, e não a divisão radical da sociedade.  A imensa maioria busca a mesma coisa: menos desgoverno, menos politicagem, menos privilégios, menos incompetência, menos roubalheira.

N – O senhor atribui a enorme impopularidade do presidente Michel Temer à revelação de sua conversa muito pouco republicana na garagem do Palácio do Jaburu com o marchante goiano, que virou titã da produção e comercialização da proteína mundial da noite para o dia, Joesley Batista, e à consequente compra de apoio na Câmara dos Deputados para impedir a abertura de inquérito criminal contra o chefe do Executivo?

G – Creio que se trata de três mecanismos causais, não necessariamente independentes, que contribuem para isso: entre os 80% da base de sustentação do governo Dilma, a maioria tinha interesse em chantagear a Presidência, enfraquecer o novo presidente impedindo o sucesso de seu programa de liberalização da economia e austeridade do gasto público. Os tucanos se superaram, formulando uma nova política para o novo governo, fornecendo alguns de seus melhores quadros para dele participarem e votando contra todos os seus próprios projetos.

Temer tentou empenhar-se em medidas impopulares, sem apoio programático em sua própria base e sem dar resposta à indignação popular, quando poderia combinar até duas hipóteses, mas não todas as três. Por cima, escolheu a pior combinação, virou de costas para a indignação popular e adotou medidas impopulares.

Joesley Batista foi a gota d’água provocada pela revolta das corporações privilegiadas contra a ameaça de perda de suas prerrogativas e prebendas, que Temer jamais teria a coragem de efetuar. Se não fosse Joesley, as corporações investigativas e judiciárias teriam fabricado outra opção, com a generosa contribuição do próprio Temer.

Guilhon, comendador da Ordem de Rio Branco, é pesquisador sênior no Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da USP. Foto: Acervo pessoal

Guilhon, comendador da Ordem de Rio Branco, é pesquisador sênior no Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da USP. Foto: Acervo pessoal

N – No começo de 2018, havia certa esperança no ar de uma eleição presidencial que permitisse ao eleitor encontrar um jeito de dar um drible da vaca nos chefões partidários e escolher alguém para a sucessão do breve Temer. Esse movimento sub-reptício foi contra a reeleição dos praticantes da velha política, que, em resposta, recusaram a possibilidade de candidaturas avulsas e outras fórmulas institucionais para o povo assumir, de fato, o poder que dele emana de acordo com a Constituição. Mas os chefões das organizações partidárias obstruíram todas essas saídas. O senhor diria que subestimaram a astúcia do povo, imaginando que cumpririam sua tarefa de manter o status quo,impedindo candidaturas rebeldes dentro de suas condições de luta pela impunidade e manutenção do foro privilegiado?

G – Subestimaram, sim, mas também sobrestimaram a capacidade dos aventureiros para enfrentar o segundo maior desafio da política, a campanha eleitoral, atrás apenas do desafio de conter a cobiça dos grandes sem ofender demasiado o povo. Oestablishment perdeu tempo demais com a tentativa de travestir magnatas e saltimbancos em candidatos, e todos deram chabu. Quando veio a hora de apelar para a virtude dos candidatos já dados por inviáveis, mas em plena campanha, já foi tarde.

N – Em que momento e circunstâncias, segundo sua visão, o deputado federal e capitão Jair Bolsonaro, do baixíssimo clero da Câmara, conseguiu com seu partideco de direita, menos de R$ 2 milhões para gastar na campanha, 400 vezes menos do que Dilma e Temer empregaram em 2014, sem participar de debates nos meios de comunicação nem da campanha após ser esfaqueado, com apenas oito segundos no horário obrigatório dos partidos no rádio e na televisão, conquistar as mentes e os corações dos cidadãos brasileiros cansados dos desgovernos do PT, seus aliados e seus adversários da velha política?

G – A prova de que Bolsonaro não conquistou corações e mentes do povo brasileiro é que foi eleito por uns 30% da população, e menos de 40% do eleitorado, tendo a soma dos ausentes, votos em branco e nulos em segundo lugar e Haddad em último.

Guilhon acha que "A contribuição do PSDB para a avacalhação das instituições e o embaralhamento do sistema partidário foi geral@. Foto Hélvio Romero/Estadão

Guilhon acha que “A contribuição do PSDB para a avacalhação das instituições e o embaralhamento do sistema partidário foi geral@. Foto Hélvio Romero/Estadão

N – Qual foi o motivo de esse mesmo Bolsonaro haver se livrado de sua pecha de admirador de torturador e pretenso candidato a um golpe militar ter convencido brasileiros desiludidos com a falácia e a desfaçatez do neopopulismo de rapina do PT, mas também nada propensos a abraçarem uma causa autoritária e militarista para alcançar a marca espetacular de quase 58 milhões de votos, esmagando o adversário Lula, representado na eleição por Fernando Haddad?

G – É que ele foi o único que, em vez de dizer “vou fazer o mesmo de sempre, só que melhor, mais bonito ou mais radical”, disse que ia acabar com tudo o que, em cinco anos de indignação popular, não mereceu resposta da elite política.

N – Que feridas dolorosas produzirão cicatrizes marcantes na alma da democracia brasileira com esta bipolarização radical e violenta com que a disputa entre o capitão e o ladrão maculou a disputa eleitoral, dificultando o processo de amadurecimento e crescimento de nossa democracia num pleito, apesar dos pesares, pacífico, ordeiro e, sobretudo, muito legítimo?

G – A população não me parece radicalmente polarizada, as campanhas é que se empenharam em deixá-las sem opção, e as evidências são de que, entre os 80% que rejeitaram Dilma e os 80% que rejeitaram Temer, a grande maioria compartilhou ambas as rejeições. Se e quando ficar evidente que a missão assumida por Bolsonaro é inviável sem mudanças radicais em seumodus operandi, a revolta vai voltar a se manifestar.

N – O senhor acredita que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, terá condições, talento e disposição para enfrentar a tarefa ingente de reduzir o desemprego, debelar a crise econômica, financeira, política e ética e reconstruir o Brasil do desastre dos últimos anos, apesar da chantagem e da sabotagem de seus adversários, principalmente do PT, e não apenas dele, mas também da vetusta máfia política encastelada desde sempre no poder e, enfim, cumprir suas promessas para atender às ambiciosas expectativas de seus eleitores fiéis e fanáticos e também da massa de antipetistas sem os quais ele não teria vencido?

G – Nenhuma das acima citadas. Uma nota: nos maiores eleitorados brasileiros, como São Paulo, Rio, Minas, Rio Grande do Sul, o antipetismo não explica nada.

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique aqui.

Todas as 35 entrevistas reunidas nesta Estação. Clique aqui.

Links de imagens da entrevista

Guilhon participa do debate WW em 30/11/18

Guilhon faz balanço de 2016 no Jornal da Gazeta. Clique aqui. 

Nêumanne entrevista José Augusto Guilhon. 35ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista José Augusto Guilhon. 35ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista Márcia Lígia Guidin

Nêumanne entrevista Márcia Lígia Guidin

Educadora prefere instrução suprapartidária

a PT e escola sem partido

Márcia Lígia, da Editora Miró, critica demagogia do ProUni de Lula e “colmeias” do colegial unificado dos militares e simpatiza com um ministério só para educação e cultura

“Educadores sérios queremos uma escolha sem o partido da esquerda nem o da direita. Queremos uma escola suprapartidária”, diz a doutora em Literatura pela USP e dona da pequena editora Miró Márcia Lígia Guidin. Ela discorda frontalmente da exaltação dos programas demagógicos pelo candidato petista derrotado à Presidência em outubro, Fernando Haddad, afirmando que  “o ProUni formou  apenas  alguns despreparados  profissionais, que pouco contribuirão para o crescimento dos índices educacionais. Qualquer coisa servia, desde que  se criassem índices de crescimento, que, claro, são desmentidos todos pela divulgação dos resultados acachapantes de avaliações internacionais sobre nós”. E, ao mesmo tempo, diz-se preocupada com a escolha do filósofo colombiano naturalizado brasileiro Ricardo Vélez Rodríguez pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro, “porque é  um intelectual extremamente conservador, o que significa radicalismo, e traz  como  ostensiva bandeira  a adesão à ideia da horrenda Escola  sem Partido (ou seja, da escola sem a  “doutrinação” do que chamam de ‘esquerda’). A  luta para aprová-la no Congresso está cada vez mais forte. Um educador verdadeiramente sério não pode concordar com tal proposta.”

Márcia Lígia diz: "Vamos ver como fica o que mais me assusta e mobiliza, como cidadã e docente: a combalida educação deste país." Foto: Acervo pessoal

Márcia Lígia diz: “Vamos ver como fica o que mais me assusta e mobiliza, como cidadã e docente: a combalida educação deste país.” Foto: Acervo pessoal

Márcia Lígia Guidin nasceu em São Paulo, no bairro do Tatuapé, em 1950.  Naquela época a região era reduto de espanhóis e italianos, exatamente essa a sua origem, acrescida aí da veia  germânica de sua mãe. Estudou sempre em escola pública do Estado, da alfabetização ao fim do ensino médio, e na USP, da graduação  ao  mestrado e doutorado. Por isso dedicou sua vida docente a tentar restituir à sociedade tudo o que sua formação acadêmica  lhe trouxe. Cursou Letras Vernáculas e Germânicas  na graduação, na Faculdade de Filosofia e Ciências  Humanas. Seu mestrado e doutorado abordaram respectivamente análises críticas  de obras de Clarice Lispector e Machado de Assis. Deu aulas da Unip e na ECA-USP. Em andamento há um  estudo de pós-doutorado que analisa  o ensino de literatura nos livros didáticos. O ingresso de Márcia no mundo editorial começou nos anos 1980, como leitora crítica de editora Ática. Tornou-se organizadora de coleções de livros paradidáticos e universitários. Há anos concilia sua vida de professora universitária aposentada com atendimento e aconselhamento a escritores, inéditos ou não. Ministra palestras e cursos de pós-graduação, além de escrever crítica literária regular para o jornal Rascunho. Sua pequena editora, Miró Editorial, edita obras universitárias para adoção em salas de aula. Pertenceu ao Conselho Curador do Prêmio Jabuti por 12 anos.

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Nêumanne entrevista José Mario Pereira

Nêumanne entrevista José Mario Pereira

Editor aposta em democracia mais forte

após crise sem precedentes

Zé Mario, da Topbooks, que lançou sucesso de Roberto Campos, diz que só o tempo dirá se Bolsonaro vai tornar País melhor fazendo o que o eleitor exigiu nas urnas

“Se examinarmos a História  do Brasil no século 20, encontraremos inúmeros momentos de crise ética, política e econômica, e analistas ora  pessimistas, ora esperançosos quanto ao futuro. Nos últimos anos o País deparou com uma crise ética e moral sem precedentes, cujas consequências ainda não podemos avaliar em toda a sua dimensão porque continuamos a ser surpreendidos, quase diariamente, por revelações escabrosas. Mas penso que a democracia brasileira sairá fortalecida desse processo e que os intelectuais e artistas podem desempenhar papel relevante como formuladores de ideias e alternativas para a crise que atravessamos.” É isso que pensa José Mario Pereira, entrevistado do Blog do Nêumanne nesta semana. Dono da Topbooks, cujo terceiro lançamento foi seu maior sucesso de público e crítica, A Lanterna na Popa, livro de memórias de Roberto Campos, que volta à moda com a escolha da equipe econômica do presidente eleito, Jair Bolsonaro, a cargo de Paulo Guedes, ousa agora fazer um aposta arriscada. O último título lançado por sua editora é A Alma do Tempo, da lavra de um dos políticos mais importantes da História de nossa República, o mineiro Afonso Arinos de Melo Franco, com 1.780 páginas. E o faz neste momento complicado do mercado editorial, agravado pelo pedido de recuperação judicial de duas grandes redes livreiras, a Cultura e a Saraiva, com dívidas milionárias, e em meio à crise ética, econômica, financeira e política em que o País está imerso. Mas nada disso o abala. “Temos excelentes livrarias, algumas maiores, outras menores, com ótima clientela e bem administradas. Talvez seja o caso de incentivar a criação de livrarias de bairro, pequenas, mas com bom estoque, com livreiros que  conheçam e gostem de livro. Frequento muito os sebos, alguns vendem livros novos também, e seus donos não reclamam de crise. As pessoas estão lendo mais, e vão aonde há novidades e preços razoáveis”, disse, justificando sua iniciativa.

 Zé Mario acha que, se Roberto Marinho estivesse vivo, teria evitado atritos entre profissionais da Globo e candidatos no último pleito. Foto: Acervo pessoal

Zé Mario acha que, se Roberto Marinho estivesse vivo, teria evitado atritos entre profissionais da Globo e candidatos no último pleito. Foto: Acervo pessoal

Natural de Quixadá, Ceará, José Mario Pereira fundou a Topbooks em abril de 1990. Publicou, entre vários nomes importantes, Franklin de Oliveira, Otto Maria Carpeaux, José Paulo Paes, Luiz Costa Lima, Evaldo Cabral de Mello, Mary Del Priore,  Maria José de Queiroz, Roberto Campos, Afonso Arinos de Melo Franco, Olavo de Carvalho, Bruno Tolentino, Wilson Martins, Miguel Reale, Roberto Marinho, Nélida Piñon, Lêdo Ivo, Ivan Junqueira, Delfim Netto e José Neumanne Pinto. Também devolveu às estantes do País a obra de Manuel Bomfim e títulos há muito esgotados de Joaquim Nabuco, José Veríssimo, Oliveira Lima e Gilberto Freyre. No plano internacional, lançou livros fundamentais, como  a Areopagítica, de John Milton, os Panfletos Satíricos, de Swift, a Lírica, de Dante, Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, as Memórias de George Kennan, os Ensaios de David Hume e a obra completa de Rimbaud, traduzida por Ivo Barroso. O grande sucesso da Topbooks, que a tornou nacionalmente conhecida, é sem dúvida Lanterna na Popa, livro de memórias de Roberto Campos, lançado em setembro de 1994. O volume de 1.417 páginas rapidamente virou best-seller e alcançou a marca de 100 mil exemplares vendidos. Em 2002, Zé Mario – como é conhecido – foi convidado pelo Liberty Fund, de Indianápolis,nos Estados Unidos, para editar as traduções de dez livros do catálogo dessa prestigiosa fundação americana. Os primeiros títulos da coleção Liberty Classics começaram a chegar ao mercado brasileiro em novembro de 2003; um segundo programa, de mais dez títulos, foi aprovado em 2005, e já são 19 os livros editados. Como autor, Zé Mario escreveu José Olympio – O Editor e sua Casa, duplamente premiado: ganhou o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, e o Senador José Ermírio de Moraes, dado pela Votorantim, em parceria com a Academia Brasileira de Letras. Dono de imensa biblioteca, o editor da Topbooks é colaborador freqüente de jornais e revistas literárias.

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Nêumanne entrevista Evandro Affonso Ferreira

Nêumanne entrevista Evandro Affonso Ferreira

Palavra é tapete mágico

em que Evandro atravessa

abismo do indizível

Autor de Grogotó!, colecionador de prêmios literários, resume ofício em seu estilo minimalista e irreverente: tudo o que é ruim pra vida é bom pra literatura

Quando este entrevistador se referiu à “esquerda Rouanet” e aos efeitos na cultura pátria da lei que leva o nome de seu autor, o ficcionista Evandro Affonso Ferreira, protagonista da série Nêumanne Entrevista desta semana neste blog, não se fez de rogado e respondeu da forma como está acostumado a escrever. Antecipe aqui a leitura da resposta na reprodução ipsis litteris logo abaixo: “Rouanet… Em que esquina, rua, em que time joga esse senhor? Não conheço. Minha empreitada é escrever…. Escrevo possivelmente para driblar a inquietude; para, quem sabe, não deixar a esperança se desvanecer de vez. Hipóteses. Sei que juntos, palavras e eu, frustramos o inacessível, o acaso; decodificamos o insondável, desbastamos limites linguísticos. Sei que ela, a palavra, é meu tapete mágico sobre o qual atravesso abismo do indizível.”

Quando o entrevistador falou da esquerda Rouanet, Evandro perguntou: "em que time joga esse senhor?" Foto: Ninil/Acervo pessoal

Quando o entrevistador falou da esquerda Rouanet, Evandro perguntou: “em que time joga esse senhor?” Foto: Ninil/Acervo pessoal

Evandro Affonso Ferreira é autor de vários romances, entre eles, Minha Mãe se Matou semDizer Adeus (Record), Prêmio APCA de Melhor Romance do Ano; O Mendigo que Sabia de Cor osAdágios de Erasmo de Rotterdam (Record), Prêmio Jabuti de Melhor Romance do Ano; Não TiveNenhum Prazer em Conhecê-los (Record), Prêmio Bravo de Melhor Romance do Ano; e NuncaHouve Tanto Fim como Agora (Record), Prêmio APCA de Melhor Romance do Ano. Foi dono dos sebos Sagarana e Avalovara, em São Paulo, e como gerente da livraria Boa Vista recebia aos sábados visitas de Mário Chamie, Zé Rodrix, Aquiles do MPB4, Humberto Mariotti e outros intelectuais que davam tudo por um dedo da prosa doce e amarga dele.

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