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No Blog: Nêumanne entrevista Guzzo

No Blog: Nêumanne entrevista Guzzo

Reajuste para STF é assalto ao povo

à beira da estrada, diz Guzzo

Colunista de Veja e Exame acha, como Bolsonaro, que Constituição distribui direitos demais e chama isso de “palhaçada”, pois boa parte não é usufruída pelos cidadãos

Para o jornalista J. R. Guzzo, o reajuste reivindicado pelos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e aprovado pelo Senado “é uma coisa de submundo, uma expressão de tudo o que existe de pior nesse Brasilvelho, subdesenvolvido, concentrador de renda, corrompido até o fundo da alma, trapaceiro, parasita, que faz a nossa desgraça de todos os dias. Bolsonaro estaria começando muito mal, realmente, se não tivesse falado nada. Os 58 milhões de votos que recebeu foram contra isso, não a favor”. O colunista da revista Veja,protagonista da semana da série Nêumanne entrevista neste blog, concordou com a frase polêmica do presidente eleito de que neste país há direitos demais e empregos de menos. Conforme Guzzo, “isso já foi dito por um monte de gente boa, um monte de vezes, e reflete exatamente a palhaçada hipócrita dos nossos 10 milhões de leis, ou sabe lá Deus quantas. Criam direitos para tudo o que se possa imaginar, quase sempre pagoscom dinheiro do contribuinte – dinheiro que na maioria das vezes simplesmente não existe na vida real. Boa parte deles não pode ser desfrutada pelos beneficiários. Outra parte é pura safadeza para encher o bolso da casta mais alta do serviço público. Todos partem de uma base viciada: a ideia de que o poder público tem a capacidade de criar benefícios materiais assinando um pedaço de papel. Não funciona assim”.

Guzzo acha "palhaçada" direitos dados pela Constituição e milhões de leis, não usufruídos por boa parte dos cidadãos. Foto: Felipe Cotrim/Editora Abril

Guzzo acha “palhaçada” direitos dados pela Constituição e milhões de leis, não usufruídos por boa parte dos cidadãos. Foto: Felipe Cotrim/Editora Abril

O paulistano José Roberto Guzzo é jornalista e atua com assiduidade em redes sociais, fazendo muito sucesso com seus posts no Twitter. Começou a carreira de comandante de redações em 1964, como subsecretário da edição paulista do jornal Última Hora, de Samuel Wainer. Foi para a Editora Abril em 1968, tendo feito parte da equipe original da revista Veja, ajudando a criar o estilo de texto nela adotado. Dirigiu a redação dos anos de 1976 a 1991, parte dos quais também dirigindo a revista de economia Exame. Em agosto desse ano, passou a revezar com Roberto Pompeu de Toledo a última página da Veja. Em 2014, quando se tornou membro do Conselho Editorial da Abril, ao qual não mais pertence, apresentou na Veja.com um programa veiculado na TVeja. Atualmente é colunista nas revistas Veja e Exame.

Dez perguntas para o jornalista J. R. Guzzo

Nêumanne – O presidente eleito, Jair Bolsonaro, está sendo acusado por muitos coleguinhas nossos por, na visão deles, estar criando problemas e transtornos demais para a transição do governo moribundo de Michel Temer para a futura gestão dele, escolhido por mais de 56 milhões de eleitores. Qual é sua opinião sobre esse quiproquó? Quem tem razão?

Guzzo – Acho que ninguém tem razão, ou deixa de ter razão, porque não há quiproquó nenhum. O que há é um presidente eleito se comportando como um presidente eleito. Alguma coisa ele precisa já ir fazendo, pois daqui a pouco mais de um mês vai chefiar o governo. Como você diz, a gestão Temer já está tirando as medidas para lhe fazerem o caixão, não dá para esperar até o enterro e só então começar o trabalho. Todos esses problemas gravíssimos que os jornalistas levam ao noticiário têm a seguinte relevância: zero.

Ricardo Fisher, Victor Civita e J. R. Guzzo em 1982 no auge do prestígio da Veja e da Abril. Foto: Paulo Salomão/Editora Abril

Ricardo Fisher, Victor Civita e J. R. Guzzo em 1982 no auge do prestígio da Veja e da Abril. Foto: Paulo Salomão/Editora Abril

N – Entre as frases ditas por Bolsonaro em suas aparições nas redes sociais, que se tornaram uma marca de sua campanha, está uma, que é indesmentível, mas considerada polêmica pela intelligentsia e parte da diligente companheirada dos meios de comunicação. Ela pode ser resumida num lema: “O Brasil tem direitos demais e empregos de menos”. O senhor concorda com o presidente eleito ou com seus críticos,nesse particular?

  1. G.  Eu concordo inteiramente. O novo presidente está apenas apresentando um fato. Isso já foi dito por um monte de gente boa, um monte de vezes, e reflete exatamente a palhaçada hipócrita dos nossos 10 milhões de leis, ou sabe lá Deus quantas. Criam direitos para tudo o que se possa imaginar, quase sempre pagoscomdinheiro do contribuinte – dinheiro que na maioria das vezes simplesmente não existe na vida real. Boa parte deles não pode ser desfrutada pelos beneficiários. Outra parte é pura safadeza para encher o bolso da casta mais alta do serviço público. Todos partem de uma base viciada: a ideia de que o poder público tem a capacidade de criar benefícios materiais assinando um pedaço de papel. Não funciona assim.

N – Na mesma ocasião, o autor da frase se sentiu constrangido a assegurar que cumprirá todos os deveres que constam da Constituição de 1988, o que seria escusado dizer, de vez que terá de jurá-lo na posse e já tem afirmado. O senhor acha que ele agiu corretamente ao explicitá-lo mais uma vez ou que, a esta altura, já seria até dispensável?

G – Acho que fez muito bem. Vai fazer o quê? O homem é acusado todo dia de ser um ditador à espera do dia da posse. Se não ficar falando que vai, sim, respeitar a Constituição, vão dizer que ele não tem compromisso com o Estado de Direito. Então ele fala o óbvio, pois se não falar o óbvio vai ser cobrado. Outro presidente não precisaria dizer nada disso. Bolsonaro precisa.

José Roberto Guzzo – 1972: Guzzo: boa parte dos direitos não é gozada por cidadãos e outra "é safadeza para encher o bolso da casta do serviço público". Foto: João Bittar/Editora Abril

José Roberto Guzzo – 1972: Guzzo: boa parte dos direitos não é gozada por cidadãos e outra “é safadeza para encher o bolso da casta do serviço público”. Foto: João Bittar/Editora Abril

N – Em sua primeira visita a Brasília, o deputado e capitão que ganhou a eleição participou de uma solenidade comemorativa dos 30 anos da Constituição, que Ulysses Guimarães, líder da resistência civil à ditadura militar, chamava de “cidadã”. Ali ouviu muitas juras hipócritas e muitas loas à Carta Magna. O senhor acha que, como dizem os comentaristas esportivos, a Constituição está realmente com “essa bola toda”?

G – Na minha opinião,  essa Constituição não está com bola nenhuma. Ela tem de ser respeitada porque está em vigor e não existe outra. Também acho que o novo governo vai cumprir tudo o que está escrito lá, ou aprovar no Congresso reformas que mudem o seu texto. Mas muito pouca gente de carne e osso estaria disposta a dar sequer uma volta no quarteirão em sua defesa.

N – Seja qual for a opinião que o senhor ou eu tenhamos sobre a Constituição, ela terá de ser cumprida, pois, afinal, o primeiro dever de qualquer governante é se enquadrar na moldura jurídica que ela constitui. O senhor acredita que o eleito terá condições de cumprir o que prometeu e se espera dele, sob a égide do documento produzido pelos congressistas, e não por uma Assembleia Constituinte exclusiva, como, acho, deveria ter sido?

G – Acho que dá para fazer muita coisa do que Bolsonaro prometeu ou anunciou na campanha eleitoral por meio de reformas na Constituição. A maioria do eleitorado acaba de dizer,  justamente, que quer essas mudanças – foi para isso que elegeu o homem. Seria bom, a propósito, prestar atenção à possibilidade de que as redes sociais não se tenham desmanchado no dia 28 de outubro. Podem continuar em ação durante o próximo governo, e podem levar sua voz ao Congresso. Já fizeram isso na Lei da Ficha Limpa.  

José Roberto Guzzo – 1985: Para Guzzo, "a Constituição não está com bola nenhuma. Tem de ser respeitada porque está em vigor e não existe outra." Foto: Jorge Rozemberg/Editora Abril

José Roberto Guzzo – 1985: Para Guzzo, “a Constituição não está com bola nenhuma. Tem de ser respeitada porque está em vigor e não existe outra.” Foto: Jorge Rozemberg/Editora Abril

N – Na ida a Brasília, o presidente eleito cumpriu mais um dever ao apelar para o Senado não aprovar o reajuste exigido e, o que é pior, negociado com os senadores, amentando os subsídios dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal, com prejuízo, calculado por baixo, de R$ 4 bilhões para um Tesouro Nacional depauperado e numa crise econômica que convive com 14 milhões de trabalhadores desempregados?

G – Sim, cumpriu o seu dever. Na verdade, não poderia ter optado por não dizer nada. Se ficasse calado, seria um cúmplice, ao menos por omissão, desse assalto de beira de estrada contra a população brasileira. O aumento é uma coisa de submundo, uma expressão de tudo o que existe de pior nesse Brasil velho, subdesenvolvido, concentrador de renda, corrompido até o fundo da alma, trapaceiro, parasita, que faz a nossa desgraça de todos os dias. Bolsonaro estaria começando muito mal, realmente, se não tivesse falado nada. Os 58 milhões de votos que recebeu foram contra isso, não a favor.

Guzzo com Augusto Nunes, seu subordinado na revista e parceiro de bancada na TVeja. Foto: Raphaele Palaro/Editora Abril

Guzzo com Augusto Nunes, seu subordinado na revista e parceiro de bancada na TVeja. Foto: Raphaele Palaro/Editora Abril

N – Seja qual for a opinião que o senhor ou eu tenhamos sobre a Constituição, ela terá de ser cumprida, pois, afinal, o primeiro dever de qualquer governante é se enquadrar na moldura jurídica que ela constitui. O senhor acredita que o eleito terá condições de cumprir o que prometeu e se espera dele sob a égide do documento produzido pelos congressistas, e não por uma Assembleia Constituinte exclusiva, como, acho, deveria ter sido?

G – Acho que dá para fazer muita coisa do que Bolsonaro prometeu ou anunciou na campanha eleitoral através de reformas na Constituição. A maioria do eleitorado acaba de dizer,  justamente, que quer essas mudanças — foi para isso que elegeu o homem. Seria bom, a propósito, prestar atenção à possibilidade de que as redes sociais não tenham se desmanchado no dia 28 de outubro. Podem continuar em ação durante o próximo governo, e podem levar sua voz ao Congresso. Já fizeram isso na Lei da Ficha Limpa.

José Roberto Guzzo – 2007. Para Guzzo"seria bom prestar atenção à possibilidade de que as redes sociais não tenham se desmanchado em 28 de outubro". Foto: Leandro Fonseca/Editora Abril

José Roberto Guzzo – 2007. Para Guzzo”seria bom prestar atenção à possibilidade de que as redes sociais não tenham se desmanchado em 28 de outubro”. Foto: Leandro Fonseca/Editora Abril

N – No dia seguinte à aprovação pelo Senado do reajuste para os “supremos”, o mesmo Senado aprovou uma medida provisória encaminhada pelo presidente Michel Temer entregando de mão beijada benessesàs montadoras de automóveis, que vêm recebendo tais prebendas desde o governo Juscelino e, principalmente, nos três mandatos e meio dos petistas Lula e Dilma, até 2030, sem aprovação do presidente eleito nem conhecimento dos dois próximos a serem eleitos depois de cumprido o mandato deste até a data-limite da renúncia fiscal. O que, a seu ver, provocou isso: generosidade, cumplicidade ou mera falta de pudor?

G – Generosidade não é, obviamente. Um Congresso e um resto de governo que estarão enterrados no dia 1.ºde janeiro de 2019 não deveriam, pura e simplesmente, ter o direito de fazer isso. Não estão criando problemas para “o governo Bolsonaro”, como diz a imprensa. Estão criando problemas, isso sim, para o pobre diabo que vai pagar por cada centavo disso tudo nos próximos anos.  É desse jeito que o Brasil vem sendo governado há décadas – com a mentalidade, os métodos e as ações de governantes que ganham a vida por meio do crime.

N – Depois do episódio, Bolsonaro desmarcou os encontros marcados com o presidente do Senado, Eunício Oliveira, responsável pelas despesas do contribuinte nas duas votações, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que anunciou que pretende colaborar com o novo governo. O senhor acha que a atitude do deputado e capitão foi intempestiva ou adequada?

  1. G. Falar o quê,com esses caras?  Você falaria, sabendo quem eles são e o que eles fazem? Nada, absolutamente nada, que for contra o mínimo interesse deles será levado adiante. Pura perda de tempo.
"O Brasil é governado há décadas com mentalidade, métodos e ações de políticos que ganham a vida no crime", diz Guzzo. Foto: Felipe Cotrim/Editora Abril

“O Brasil é governado há décadas com mentalidade, métodos e ações de políticos que ganham a vida no crime”, diz Guzzo. Foto: Felipe Cotrim/Editora Abril

N – Flávio Bolsonaro, filho do presidente eleito e feito senador pelo Estado do Rio de Janeiro em 7 de outubro passado, já anunciou que admite conversar com o emedebista Renan Calheiros, que se reelegeu e apoiou o filho governador reeleito, Renan Filho, em Alagoas. Este é um aceno de boa vontade natural do ganhador ou um gesto arriscado?

– Bolsonaro foi eleito para governar o Brasil, não a Suécia. Tem de lidar com o que existe aí. Renan é Brasil – ele e mais um monte de gente. Fazer o quê? Não dá para o  presidente transformar o Palácio do Planalto num convento beneditino, onde só poderão entrar os justos, os puros e os patriotas. A única coisa que dá para fazer com essa gente é conseguir abater ao máximo o seu custo. É a velha história: dar uma canseira  para eles deixarem o mais barato possível.

N – O senhor quer, confia e conta com a possibilidade de Jair Bolsonaro desmontar as bombas de efeito prolongado deixadas pelas gestões anteriores do PT e do MDB, em seu mandato de quatro anos, já que anunciou o fim da reeleição? E por falar nisso, o que acha da proposta dele nesse sentido?

G – Acredito que consiga desmontar umas coisas, outras não. Já estaria de bom tamanho se pudesse desarmar metade das bombas, pois em geral não se desarma nenhuma. Quanto à ideia de Bolsonaro não procurar a  re-eleição:  acho uma excelente notícia para o Brasil e para ele próprio.  FHC, Lula e Dilma, formosos democratas antifascistas, colocaram seus governos, e o erário, a serviço permanente da própria reeleição. O militar autoritário, totalitário, defensor das ditaduras, etc., é o primeiro a adotar uma atitude diferente. Se ficar mesmo nessa posição, vai dar um belo cala-boca na oposição, nos intelectuais, nos artistas de novela e no New York Times. Vai ser um presidente mais forte do que os seus três antecessores. Vai dever menos ao Congresso. Vai estar menos vulnerável a pressões para fazer o mal e mais estimulado para fazer o certo.

Vídeos

Para ver Guzzo em ação na TVeja sobre Dilma clique aqui.

Guzzo no Painel WW sobre STF com William Waack. Clique aqui.

Guzzo no Painel ww com William Waack sobre Bolsonaro. Para ver, clique no play abaixo.

Guzzo no Painel ww com William Waack sobre Bolsonaro

https://www.youtube.com/watch?v=BEdg2STsImw

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique aqui.

Nêumanne entrevista J. R. Guzzo 31ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista J. R. Guzzo. 31ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

No Blog: Nêumanne entrevista Deonísio da Silva

No Blog: Nêumanne entrevista Deonísio da Silva

Conversa clara e prosa justa

com Deonísio da Silva

 

Professor, escritor e colunista sobre origem das palavras na revista Caras, Deonísio celebra invasão dos currais e libertação de eleitores de votos de cabresto

O escritor catarinense Deonísio da Silva, ganhador do prêmio Casa das Américas com o romance Avante, Soldados: Para Trás, comemora a eleição na qual “o Brasil enfim se politizou por meio de um recurso inesperado, o recurso digital. Ninguém o previu com as vestes democráticas com que irrompeu este novo recurso, que tornou possível invadir os currais e libertar aqueles que votavam pelo cabresto”. Para ele, isso era necessário e urgente, porque “nossa elite política perdeu a visão de nação, seus representantes pensam apenas em si mesmos e formaram dinastias familiares para os saques ao erário”. Por causa disso, o acadêmico diz, brincando, que depende das autoridades educacionais um câmpus universitário não se tornar “câmpus de concentração”, protagoniza o Nêumanne entrevista da semana no blog, em que constata: “O Brasil se mediocriza sem parar”. E dispara um petardo contra a primazia da ideologia de gênero no lugar da seleção pela excelência dos candidatos ao ensino superior. “Os autores de certas perguntas no Enem incorrem num equívoco de raiz: querem enganar os trouxas com artimanhas pueris. Citam Guimarães Rosa e Graciliano Ramos para poder enfiar excertos de obras e de autores fora da casinha. Os alunos nem foram ensinados a consultar um dicionário, mas são obrigados a conhecer certos verbetes de Aurélia, a Dicionária da Língua Afiada, de expressões gueis. Os culpados não são os autores desse curioso minidicionário. São aqueles que usam o  Estado – isto é, o dinheiro dos impostos: quanto custa cada Enem? – para impor a indefesos um conteúdo confuso, um norte desbussolado. Assim, prejudicam a todos, incluindo as autoridades às quais servem e pelas quais foram designadas”.

Deonísio: "a prosa política, em seu sentido mais sólido, a participação nos destinos da pólis, está na ordem do dia e vai reordenar o Brasil". Foto: Acervo pessoal

Deonísio: “a prosa política, em seu sentido mais sólido, a participação nos destinos da pólis, está na ordem do dia e vai reordenar o Brasil”. Foto: Acervo pessoal

O catarinense Deonísio da Silva é professor federal aposentado  e professor titular visitante da Universidade Estácio de Sá, onde atualmente dirige o Instituto da Palavra. Integrante da bancada brasileira na Academia das Ciências de Lisboa e respeitado escritor, por sua independência intelectual, é doutor em Letras pela USP e mestre em Letras pela UFRGS, mas não destaca esses títulos, e sim o que aprendeu no ensino médio em colégios de padres. “Obter um doutorado na USP não é para quem quer, é para quem pode, mas passar num exame de Latim do cônego Germano Peters ou confessar-se com o padre espiritual, investigando a própria alma, ou uma vez ao ano com o bispo diocesano dom Anselmo Pietrulla, era só para quem fosse antes orientado por Wilson Volpato e evitasse os escrúpulos”, diz ele, em sua habitual prosa bem humorada, um pouco antes de responder às perguntas que seguem, lembrando um de seus melhores amigos daqueles verdes anos, hoje setentão como ele. Deonísio é autor de 35 livros, entre os quais romances como Goethe e Barrabás, Lotte e Zweig (sobre o famoso suicídio tratado por ele como duplo assassinato, já publicado na Itália, com capa da artista plástica Arlinda Volpato), Teresa DÁvila (premiado pela Biblioteca Nacional e a ser levado ao teatro pela segunda vez por Carlos Vereza) e A Cidade dos Padres. Mas a referência solar de seus romances é Avante, Soldados: Para Trás (1992), no Brasil em 10.ª edição, já publicado em Cuba, Itália e Portugal, depois de receber o Prêmio Internacional Casa de las Américas, em júri integrado por José Saramago. Na mídia, faz um trabalho muito relevante em Etimologia, tal como se vê no livro De Onde Vêm as Palavras, reunião de suas colunas nas revistas Caras. Mantém colunas semanais também no http://portal.estacio.br/instituto-da-palavra, na Veja online, no blog de Augusto Nunes e na Rádio Bandnews Rio., com Ricardo Boechat.

A seguir, Nêumanne entrevista Deonísio da Silva

1 – Em abril, o senhor fez uma palestra sobre o julgamento de Zé Bebelo num seminário a respeito de Guimarães Rosa e Machado de Assis, abrindo o ano cultural da Academia Brasileira de Letras. O que o fez escrever que, neste ano em que se comemoram o cinquentenário do lançamento da obra-prima Grande Sertão: Veredas, do primeiro, e os 80 anos da primeira edição de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, os organizadores do Enem os tenham citado “por esperteza: para justificar a presença dos dispensáveis e até dos que escrevem mal” ou originalmente em outra língua, como Eduardo Galeano, que, convenhamos, não é um grande autor nem no restrito panorama da literatura uruguaia, como escreveu no Facebook?

Você me permite uma longa resposta? (José Nêumanne Pinto: fale quanto quiser, eu também sei que algumas coisas muito importantes não podem ser ditas em poucas palavras.) Pois é, às vezes tenho vontade de postar inteirinho no Facebook o Sermão do Bom Ladrão, do padre Vieira, especialmente para aqueles que, elevados a reis, acompanham ao cárcere os bandidos com os quais negociaram. Quando assumi a Vice-Reitoria da Universidade Estácio de Sá, no Rio, onde estou desde que me tornei professor federal aposentado, em 2003, disse na primeira reunião com a equipe que meu binômio era: conversa clara e trato justo. Abri a palestra proferida na Casa de Machado de Assis com este lema, citando a seguir, obviamente, belos trechos de Guimarães Rosa, como esta fala de Zé Bebelo, ao ser advertido por Joca Ramiro de que está em julgamento: “Toda hora eu estou em julgamento”. Você falou lá também, assim como outros romancistas, como José Carlos Gentili – aliás, autor de um premiado livro em que rastreia nas Ordenações Afonsinas o primeiro hífen da língua portuguesa – e Benito Barreto, autor de grandiosos romances sobre a Inconfidência Mineira. No final de minha palestra, o Merval Pereira veio me cumprimentar e disse: “Tomara que o Lula não conduza o julgamento como o Zé Bebelo”, E rimos juntos. Você deve lembrar-se de que, réu, Zé Bebelo conduz o próprio julgamento. Lula tentou fazer o mesmo, mas encontrou pela frente não um homem misericordioso como Joca Ramiro, e sim um juiz implacável como Sergio Moro, que deve seguir o lema latino tão em voga em São Paulo “non ducor duco” (conduzo, não sou conduzido). Hoje, já realizado o julgamento, continuo achando Lula parecido com o personagem de Rosa, que também diz dele: “Zé-Bebelo quis ser político, mas teve e não teve sorte: raposa que demorou”. Já de Graciliano Ramos, considero que seu grande romance não é Vidas Secas, é São Bernardo. Quem cita muito Vidas Secas em geral não leu outros. No Brasil existe o costume de citar sem ler. Você pode ver que os erros de citações são sempre os mesmos ou muito semelhantes. Não me refiro apenas ao ipsis litteris, mas a citações confusas no contexto e sem pés nem cabeça, como álibi para a enxurrada de textos desconexos e fora de lugar e de propósito, como fez o Enem. No caso do trabalho intelectual, entendo que nossa arma é a dos saberes de nosso ofício. É falsa a humildade de igualar-se àqueles que fizeram outra coisa na vida ou tratar igual quem é desigual na profissão: se meus pares em Letras são esses que pontificam sobre tudo, especialmente nas redes sociais, eu estou perdendo o meu tempo há 50 anos, pois estudo, pesquiso e ensino português e suas literaturas há meio século. Se romances de minha autoria como Avante, Soldados: Para Trás, Teresa D’Ávila e Goethe e Barrabás estão no mesmo nível dos livros daqueles autores que não representam de jeito nenhum a nossa literatura, mas estão sempre nas bibliografias oficiais ou oficialescas, nas feiras de livros e em outras delegações, eu estarei contrariando minha sábia avó, que dizia que quem muito se abaixa mostra o bumbum. É justo você ter orgulho dos pontos altos de sua carreira, assim como é saudável assumir seu madalenismo e arrepender-se das más escolhas que você fez na vida.  Isso talvez possa explicar a exagerada admiração dos autores da prova do Enem pelo autor uruguaio. É coisa de quem olha a literatura do mundo inteiro por uma pequena fresta. Mas esta pequena restrição não pode ser creditada a Eduardo Galeano, que, aliás, deve muito ao exílio vivido na Espanha, de onde seu nome foi divulgado mundo afora. A censura, ato execrável, predatório e inútil, às vezes consagra medíocres, no sentido etimológico de palavra, isto é, de qualidade abaixo da média, que é o caso do best-seller em causa. Ele vende menos pela relevância de sua obra e mais por agradar a nichos eficientes de produção de leitores em determinada direção ideológica. Esses nichos têm pontífices que conhecem poucos autores de qualidade e são incapazes de reconhecer talento em escritores dos quais discordem. Por isso se tornam medíocres também, formam medíocres, etc. Em suma, o Brasil se mediocriza sem parar.

Deonísio integra bancada brasileira na Academia de Ciências de Lisboa e dirige o Instituto da Palavra da Universidade Estácio de Sá. Foto: Acervo pessoal

Deonísio integra bancada brasileira na Academia de Ciências de Lisboa e dirige o Instituto da Palavra da Universidade Estácio de Sá. Foto: Acervo pessoal

2 – O que no referido exame o levou a escrever, no mesmo post, que “quem fez as perguntas do Enem na área de letras precisa reciclar-se” e, mais, “quem desconhece o dialeto secreto de gueis e travestis não pode entrar na universidade?”

Não sei quem faz os exames do Enem. Entro em brigas de foice no escuro em defesa da independência intelectual e docente desde que saiba onde estão o interruptor e a porta de saída, como um dia ouvi do escritor Marcos Rey. Mas os autores de certas perguntas no Enem incorrem num equívoco de raiz: querem enganar os trouxas com artimanhas pueris. Citam Guimarães Rosa e Graciliano Ramos para enfiar excertos de obras e de autores que estão fora da casinha. E há mais o seguinte: os alunos nem foram ensinados a consultar um dicionário, mas são obrigados a conhecer certos verbetes de Aurélia, a Dicionária da Língua Afiada, de expressões gueis. Os culpados não são os autores desse curioso minidicionário. São aqueles que usam o Estado – isto é, o dinheiro dos impostos: quanto custa cada Enem? – para impor a indefesos um conteúdo confuso, um norte desbussolado. Assim, prejudicam a todos, incluindo as autoridades às quais servem e pelas quais foram designadas. Seus asseclas passaram a defender a pergunta, e não apenas nas redes sociais, mas em todos os lugares onde pontificam, não para esclarecer, mas para dar como correta uma pergunta fora de propósito. Há reprovação em massa nas redações do Enem. Quer dizer, o ensino médio não ensinou os alunos sequer a escrever um texto curto. Aliás, nem a ler direito, pois a maioria tropeça no léxico e na interpretação. Mas ensinou-lhes dialeto, uma questão controversa até nos estudos avançados sobre línguas. Isto é conversa mole para boi da cara preta cochilar e assustar quem tem medo de careta. E de resto ainda não é obrigatório conhecer as palavras-chave do mundo guei para entrar para a universidade. Na universidade, um dos requisitos é dominar um conjunto de saberes que permitam ao usuário acompanhar um curso superior. Nas universidades francesas, o francês; nas italianas, o italiano. Etc. Quais são as gírias do mundo guei nessas línguas? É preciso conhecê-las para estudar lá? Para maior clareza, imaginemos o seguinte: e se o curso fosse ministrado numa língua estrangeira? Pois o português está se tornando isso para nossos alunos escreventes e legentes, uma língua estrangeira. E, em alguns casos, morta. Outro dia lamentei em congresso onde fiz pequena intervenção o desaparecimento acelerado, não mais paulatino, do mais-que-perfeito. Na saída, um professor me disse: “Não quis dizer em público para não ofender o senhor, mas o mais-que-perfeito não é mais necessário”. Veja você, já se considera ofensa a simples discordância.  Repliquei na hora: é mesmo? E como faremos com os versos de Camões “mais servira se não fora para tão longo amor tão curta a vida” e “na quarta parte nova os campos ara e se mais mundo houvera lá chegara”? Tome um prova de Português, qualquer prova: você vê trechos de autores clássicos, tais como Castro Alves, Cecília Meireles, Machado ou José Lins do Rego, servindo de base a uma questão? Predominam recortes da mídia, em geral pobres de estilo e, sobretudo, indicadores de que quem os selecionou só leu aquilo ali, mesmo, aquele é o nível dos examinadores, não apenas dos examinandos.

Deonísio, catarinense, e a mulher, a gaúcha Michele, nos jardins da Embaixada Brasileira em Lisboa, para onde viajam amiúde. Foto: Acervo pessoal

Deonísio, catarinense, e a mulher, a gaúcha Michele, nos jardins da Embaixada Brasileira em Lisboa, para onde viajam amiúde. Foto: Acervo pessoal

3 – Quem lhe faz estas perguntas teve uma formação no ensino médio em escola religiosa e num colégio público e testemunha que, há meio século, as escolas desse grau de ensino eram muito melhores do que as de elite, frequentadas pelos filhos, na faixa dos 40 anos, e ainda mais dos netos agora. Até que ponto o senhor, que é da geração que estudou latim, grego e, sobretudo, o português canônico, abandonado pela linha populista de esquerda do “povo é que manda na língua”, abona esta constatação?

Minha formação básica se deu nos bons tempos da escola pública e em seminários de padres. Depois do primário, onde pontificavam as célebres e bem preparadas professoras normalistas, meus mestres foram padres. Meus professores da graduação em Letras na Unijuí também eram ex-padres ou ex-seminaristas em sua maioria. Sou doutor em Letras pela USP e mestre em Letras pela UFRGS.  Chutatis chutandis, essas prestigiosas instituições, em algumas disciplinas, nem sempre alcançavam os saberes ministrados em seminários e em outros colégios mantidos pela Igreja, por ordens religiosas ou por igrejas confessionais,  ou em escolas como o Colégio Pedro II, no Rio; o Júlio de Castilhos, em Porto Alegre; ou o Colégio Estadual de Curitiba. E poucos mais.  Quer dizer, tivemos uma qualidade de ensino reservada aos filhos da elite e duramente conquistada por nós, depois de “honesto estudo com longa experiência misturados”, como diz aquele poeta que, de tão popular, é até nome de bife no Brasil, o bife à Camões. E este “a” tem crase porque é à moda de Camões. O pessoal que faz o Enem dá mais valor a outros, assim como, na prática, continuam a maltratar Machado de Assis, ao desprezá-lo, depois que ele virou o jogo e passou de negro, pobre, órfão, epiléptico e gago a maior escritor do Brasil por esforço próprio e contra todas essas conhecidas adversidades. Epocais. Um bom ensino médio é mais decisivo para a vida do que graduação e pós-graduação. O embaixador Jerônimo Moscardo, ministro da Cultura do governo Itamar Franco, estudou no Pedro II e me disse que o salário dos professores era o mesmo dos ministros do STF. Um bom ensino começa com professores bem remunerados. Você acha que alguma vez alguma ordem religiosa considerou um problema a previdência dos frades ou dos padres professores? Estava no pacote, era normal. Então, eles podiam exercer o ofício docente despreocupados com a sobrevivência, ao contrário do que acontece hoje com os professores.

4 – Já que o assunto foi tratado, é inevitável pedir-lhe uma análise crítica sobre os efeitos deletérios da massificação do ensino superior sob a gestão de Jarbas Passarinho no Ministério da Educação e Cultura (MEC) dos governos militares e da didática da demagogia adotada nos governos petistas, da qual o candidato substituto do PT à Presidência na última eleição, Fernando Haddad, tanto se orgulhou na campanha, apesar da constatação do Índice de Desenvolvimento Humano da tão badalada Organização das Nações Unidas de que justamente o setor educacional se manteve estagnado?

A massificação do ensino não é um mal em si, nem chega a ser nociva. Dou-lhe um exemplo concreto e facilmente verificável: o professor que ministra aula, hoje, pelo Ensino à Distância, não pode chegar atrasado. E a pontualidade de professores e alunos, vale dizer, a disciplina, é essencial ao ensino e à aprendizagem. Na gestão de Passarinho, vários cursos superiores foram ministrados de modo intensivo e nas férias, com a mesma carga dos cursos diários. Até com as mesmas ementas. Como se sabe, o ano letivo tem no Brasil, em média, um terço dos dias do ano. Pode ser ministrado em quatro meses integrais, portanto. Então, sempre dependerá da qualidade do ensino ministrado, a começar por seleção de professores pela competência e de boas condições para exercer a docência, e não pela escolha de apaniguados para a direção das instituições de ensino superior. O coronel Jarbas Passarinho e o general Rubem Ludwig fizeram boas gestões no ensino à frente do MEC. Não se pode negar, porém, que o Brasil desaba nas classificações internacionais de avaliação. Na campanha, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad fez más escolhas de orientação, recebeu apoios e recomendações que lhe tiraram milhões de votos, segundo minha modesta opinião, mas acho que ele e o ministro Tarso Genro tiveram bons momentos como gestores à frente do MEC. Infelizmente, serviram a dois apedeutas, um dos quais sempre se orgulhou de não estudar. Mas de um profissional da qualificação de Fernando Haddad esperamos naturalmente mais do que bons momentos, esperamos visão estratégica e mudanças concretas. Para isso não pode nomear para postos-chave por indicação ideológica. Às vezes, seu melhor aliado é seu crítico. E seu pior parceiro é quem diz sempre amém.

5 – Em seu romance Goethe e Barrabás, talvez sua maior obra de ficção, lançada em 2008, o senhor contou a história do famoso bandoleiro bíblico iluminado pelo genial poeta de Fausto, aprendendo que Satanás não negocia com mulheres porque elas, na visão diabólica, vendem a alma, mas não a entregam. Antes que os apressadinhos o confundam com algum machista empedernido, o senhor não acha que convém esclarecer que, de fato, o texto revela em profundidade a baixeza da elite brasileira, responsável pela caminhada que nosso país, principalmente neste momento histórico, faz rumo ao inferno de Dante?

Esse romance conta uma história que poderia ser factual. De todo modo, é verdadeira: por más escolhas que fazemos na vida, caímos em tentações que nos destroem ou nos salvam. Como discernir? Não apenas no plano individual. Eu recebi depoimentos sinceros de leitoras que disseram: “Eu sou a Salomé”. Outras disseram: “Que pena que eu não tive a coragem de fazer a escolha de Salomé”. Leitores disseram: “Eu queria ser Barrabás, daí, sim, eu seria livre e viveria com mais gosto”. No romance eu lido com os dois Barrabás, o bíblico e o personagem Bar, seu apelido. E dei o nome de Salomé porque um homem perde a cabeça por ela, como no episódio bíblico. Quanto a Goethe, aprecio demais as reflexões sobre esse negócio de vender a alma ao diabo. O agraciado queixa-se a Satanás: por mais que gaste, não gasta todo o dinheiro obtido com a venda da alma. E Satanás sugere: “Já experimentou a caridade?”. Inseri esse capítulo porque nos governos do ciclo petista eu achava espantoso que se orgulhassem de aumentar o número de atendidos por bolsas disso e daquilo. Era um dos sinais do fracasso que se avizinhava. Um benefício necessário e provisório foi colocado como programa permanente. É como orgulhar-se sempre de um remendo, não da roupa nova, um problema do cidadão resolvido pelo governante. No Brasil a tentação totalitária é muito forte. A educação não está inculcada em nossa alma. A prisão e o medo estão. A expressão teje preso não é apenas uma brincadeira, ela revela a nossa alma. Nós não acreditamos na tarefa de educar, nós acreditamos na de punir, de preferência com a perda da liberdade. Há outro bom exemplo no trânsito: o objetivo é arrecadar, não é melhorar o trânsito. Acompanhei muito de perto a educação de minha filha e percebia o espanto que sobrevinha quando a coleguinha era posta de castigo pelos pais porque tinha transgredido alguma norma. Sabe o que era ficar de castigo? Estudar! Os pais, provavelmente sem querer, davam a ideia de que estudar é um castigo. O Brasil vem fazendo más escolhas há muito tempo. A elite que imagina estar ainda na casa-grande é um caso de polícia. A segurança tem problemas? A casa ou mansão vira uma fortaleza, com guarita, muros altos e guardas particulares. Há violência no trânsito? A solução passa a ser comprar carros blindados. O sistema de saúde não funciona? Surgem planos caríssimos, que só a elite pode pagar. O ensino público vai mal? Eles pagam para seus filhos estudarem em escolas de elevado padrão, sobretudo no exterior. A elite brasileira não pensa mais no Brasil. Mas houve um tempo em que pensou, proclamou a independência política, programou a República, organizou o Exército para se defender dos inimigos externos. O étimo remoto de elite é o mesmo de recolher, escolher e ler, e até os finais do século 12 significava apenas escolhida. Uma escolha supõe o melhor, não é mesmo? Mas no Brasil, as elites – prefiro o plural – têm complexas formações. Nossa elite econômica, por exemplo, tem saqueadores, ladrões e outros malfeitores nas árvores genealógicas. Nossa elite política perdeu a visão de nação, seus representantes pensam apenas em si mesmos e formaram dinastias familiares para os saques ao erário.

Deonísio, abraçado por Pedro Thompson, professor da Universidade Estácio de Sá, da qual é titular aposentado. Foto: Acervo pessoal

“Deonísio, professor titular visitante da Universidade Estácio de Sá, abraçado por Pedro Thompson, presidente da Casa”.

 6 – Em outra obra em que sua verve mordaz se manifesta, Os Guerreiros do Campo, lançada em 2000, o senhor se refere de forma muito irreverente aos ditos movimentos sociais de trabalhadores sem terra e sem teto, que, nestes 18 anos, têm sido tratados com muita condescendência, ao mesmo tempo que vêm perdendo relevância, embora ainda protagonizem os sonhos revolucionários da esquerda Rouanet. Sem cair na folclorização do mortadela contra coxinha, que papel o senhor lhes atribui neste momento histórico crucial, em que a intervenção do chamado “exército do Stédile” ameaça menos do que uma pipa ao vento?

Quando escrevi Os Guerreiros do Campos, os sem-terra, liderados por Stédile e seus red caps, ocupavam no Brasil um território maior do que a Dinamarca. Mas isso diz pouco: um empresário paranaense tinha no Pará uma fazenda maior do que a Bélgica. Visitei os acampamentos para escrever o romance, num deles me encontrei com a moça que tinha posado para a Playboy – na época eu escrevia para essa revista, fazia perfis, fiz o de Maguila, do Samelo, etc., e publiquei ali alguns contos. Sempre fui a favor da reforma agrária, principalmente depois de ler o melhor livro de Graciliano Ramos, São Bernardo, em que o latifúndio mostra suas devastações também na alma do proprietário. E não fui a favor como é a favor a personagem tão amorosa do romance, a fazendeira Camila, que diz: “Desde que não comece por minha fazendas”. Ela vive um complicado amor com Gregório, um professor que a faz mudar muito. Mas é raro um petista ter humor, já percebeu isso? Frei Betto me disse que eu ia ganhar a Margarida de Prata, um troféu da CNBB para bons livros. Mas daí foram ler o romance e a abertura traz uma cena insólita: São Pedro está fazendo o cadastramento das almas dos sem-terra que chegam assassinados ao céu, eu me baseara em várias chacinas, e o príncipe dos apóstolos pergunta algo assim: por que os brasileiros não morrem como os suíços, que chegam aqui arrumadinhos? Acharam que eu estava debochando da religião. Justo eu, católico de formação, que rezo todos os dias, vivo a clamar que falta uma editoria de religião na mídia e leio as encíclicas papais no original? Quanto ao sem-terra, hoje, não sei mais o que lhe dizer, a não ser revelar uma antiga perplexidade: sem verba do governo eles não sobrevivem. Tornaram-se profissionais, servem a outros interesses, como todos sabem, mas esse é um pequeno problema perto das safadezas bancárias praticadas todos os dias em nome da independência do Banco Central. Olhe as taxas de juros, não apenas dos bancos, mas sobretudo dos cartões de crédito populares. Que vergonha para nossas autoridades monetárias permitirem e autorizarem algo assim! Perto disso, os sem-terra são moscas no açucareiro.

Deonísio no estúdio onde apresenta seu programa Sem Papas na Língua no estúdio da BandFM no Rio. Foto: Acervo pessoal

Deonísio no estúdio onde apresenta seu programa Sem Papas na Língua no estúdio da BandFM no Rio. Foto: Acervo pessoal

7 – Por falar em ameaça, está sendo noticiado, com relevância que, na realidade, não deveria ter, o alerta feito pela ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia de que há uma perigosa onda conservadora no mundo e, particularmente, entre nós. Como perigo não combina com conservação, para o bem geral da Nação, que remédio o senhor ministraria a esses magistrados que falam tantas batatadas: um bom dicionário na cabeceira ou uma dose de Rivotril antes de falar em solenidades públicas?

Tornou-se um meme nas redes sociais a tua célebre ponderação ao ministro Marco Aurélio Mello, do STF. Aliás, antigamente sabíamos a seleção brasileira de cor e nenhum nome de ministro do STF. Hoje sabemos a escalação completa do STF, até de quem joga mais à esquerda, mais à direita ou mais ao centro, e ignoramos a seleção brasileira. Não deveria, mas vou dizer: discrepo, por norma, das opiniões da ministra Cármen Lúcia. A cada vez que ela emite uma de suas platitudes, eu penso num trecho de Sêneca: fallaces sunt rerum species et hominum spes fallunt. Está na obra De Beneficiis, que a ministra ou quem a nomeou deveria ler ou ao menos consultar, pois há boas traduções. Mas quem a nomeou não lê nada. Acho que não soa pernóstico citar um clássico latino por dois motivos: a amizade tinha valor absoluto na Roma antiga. E essas frases já foram pronunciadas em latim pela bela Scarlet Johansson no filme Iron Man 2. Sua tradução aproximada é: “As aparências enganam e traem a esperança dos homens”. Lembro que para os antigos gregos a esperança era um dos males do mundo, porque podia enganá-los sobre o futuro. Aliás, era um jarro, não uma caixa, termo adaptado para designar o objeto oval que Pandora abriu, soltando todos os males do mundo, menos a esperança. O antigo nome virou palavrão, como se sabe.

Deonísio, em congraçamento ecumênico com ex-ministros de Temer, Calero, e de Dilma, Martins, e ex-secretário de Alckmin, Chalita. Foto: Acervo pessoal

Deonísio, em congraçamento ecumênico com ex-ministros de Temer, Calero, e de Dilma, Martins, e ex-secretário de Alckmin, Chalita. Foto: Acervo pessoal

8 – Ainda dentro desta luta com as palavras, que, para o poeta Drummond, é a mais vã, este apaixonado por vocabulários, gramáticas e que tais, que o interroga, tem a ousadia de lhe apresentar um problema de hermenêutica. Há anos o Supremo Tribunal Federal se divide entre garantistas e punitivistas em torno do artigo 5.º, inciso VLII, da Constituição federal, que expressamente proíbe considerar culpado cidadão cujo processo não tenha transitado em julgado. Em que dicionário ou tratado de sinonímia é autorizada a substituição de considerado culpado por ser preso, como pretendem os rigorosos garantistas? E será que transitado em julgado, na verdade, ultrapassaria as calendas gregas?

Em nenhum dicionário. Só se for um compêndio deles mesmos. O mundo jurídico não tem essa proclamada precisão. Sentença tem o mesmo étimo do verbo sentir. Não é inteiramente objetiva. Cada juiz julga como sente o problema. Parece que às vezes há outras influências, mas isso pode ser fofoca, esse recurso de modéstia (a pessoa não fala de si), de solidariedade (a pessoa está preocupada com a vida alheia) e de delicadeza (fala pelas costas porque pela frente poderia magoar o interlocutor). Mas todos sabem que alguns ministros do STF adoram navegar na maionese, como se diz em linguagem científica (risos). Outros, menos delicados de trato, às vezes nos dão a ideia de que gostariam, como o mais vulgo dos vulgos, de resolver no braço, insinuando os benefícios do pugilato, e às vezes nos fazem imaginar que poderá advir dos conflitos uma antiga solução, o duelo. Mas eu confesso que sempre gosto de assistir às sessões: pelas palavras, pelos gestos, por caras e bocas. E não aprecio o que considero exagerada verborragia contra alguns deles. Se certas decisões do STF merecem providências, sou de parecer que deveriam ser tomadas no ambiente civilizado das leis. Eles não são deuses, homens é que são. E por isso falham também. Quanto às calendas gregas, os gregos não tinham calendas, mas tinham calendário. O STF deveria ter o seu também. Talvez eles tenham, além de dialeto e idioleto, um cronoleto, um tempo que valha só para eles.

9 – Seu ofício de professor universitário, escritor e etimologista à disposição dos meios de comunicação já lhe permite decidir se hoje o português falado no País real e escrito no Brasil oficial, distinção feita em crônica clássica de Machado de Assis, ainda seria a “última flor do Lácio inculta”, mas não necessariamente tão “bela”, como a descreveu o poeta Olavo Bilac?

Pois é, os modernistas odiavam Bilac porque não escreviam tão bem quanto ele, e porque ele tinha criado o serviço militar e o livro didático. O português das ruas a cada dia fica mais rico, mas eu temo que a falta de leitura dos clássicos e de outros bons autores da língua maculem deliciosas expressões e tendam a baixar o nível. O povo é bom, a escola ainda não, ou não é mais, para os mais pessimistas. Mas há bons indicadores de que a qualidade do ensino do português venha a ser retomada e seja enfim interrompido esse processo de usar incultos como referência. Sabe que a etimologia de clássico é muito curiosa: clássico é aquilo que você precisa para uma viagem. Começou a designar o que era necessário levar numa embarcação, depois numa frota. Temos de portar de novo os clássicos. E há novos clássicos na praça.

Do Sermão do Bom Ladrão, de Vieira, Deonísio cita os "reis, que acompanham ao inferno ou ao cárcere bandidos com os quais negociaram" (Foto: Acervo pessoal)

Do Sermão do Bom Ladrão, de Vieira, Deonísio cita os “reis, que acompanham ao inferno ou ao cárcere bandidos com os quais negociaram” (Foto: Acervo pessoal)

10 – Como cidadão, que trabalha entre jovens, no pleno calor da batalha ideológica travada no Brasil em termos candentes, levada a extremos na última eleição, como o senhor acha que essa súbita paixão nacional pela política, substituindo até o fanatismo pelo esporte bretão que consagrou Terto, nos meios de comunicação e nas “ágoras” do boteco, desviará o Brasil do abismo ou, ao contrário, guiará o povo à desgraceira geral?

Prezado José Nêumanne Pinto, antes de responder à última pergunta, permita-me agradecer-lhe este espaço: Jesus curou dez leprosos e apenas um voltou para agradecer. Gosto muito das lições dessa parábola: a taxa de agradecimento para Deus é de apenas 10%. Para nós, saiba que é muito menor. Pessoas como você, o Augusto Nunes, o Luiz Fernando Emediato, o Aluizio Maranhão e poucas mais sempre deram comovente atenção ao que escrevo. A minha participação na mídia não é bem vista por alguns colegas. No antigo câmpus de concentração onde eu ensinava, certo dia uma professora me fulminou à queima-roupa: “Bonito, hein, um professor e escritor escrevendo na Caras, não tem vergonha, não?”. No susto, eu só tive espírito (de porco) para perguntar: “Como é que a senhora soube?”. Quanto às conversas das ágoras do boteco, que venham mais ágoras e mais eclésias (originalmente, eram assim chamadas as assembleias dos cidadãos), não apenas as comunidades eclesiais de base a cuja formação dediquei três anos de minha vida em tempo integral, numa experiência sofrida e bonita de convivência com pessoas das mais diversas características. Morávamos todos juntos num prédio que tinha sido convento, estudávamos uma semana em tempo integral e passávamos três semanas no meio rural formando esses grupos. A equipe era composta por homens e mulheres que eram brasileiros, alemães, belgas, austríacos, holandeses. Para mim valeu, em certo sentido, muito mais do que os cursos universitários que fiz. Foi uma experiência singular. Sou esperançoso e acho que o Brasil enfim se politizou por meio de um recurso inesperado, o recurso digital. Ninguém previu, com as vestes democráticas com que irrompeu , esse novo recurso, que tornou possível invadir os currais  eleitorais e libertar aqueles que votavam pelo cabresto. Tal como na antiga Grécia, berço da democracia, a prosa política, em seu sentido mais sólido, o da participação nos destinos da “pólis”, está na ordem do dia e vai reordenar o Brasil. E que a pátria deixe de ser ordenhada pelos velho costume de mamar nas tetas do governo, que já deixou torta a boca de alguns poucos.

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/conversa-clara-e-prosa-justa-com-deonisio-da-silva/

Legendas

Foto deonaestácio: Deonísio: “a prosa política, em seu sentido mais sólido, a participação nos destinos da pólis, está na ordem do dia e vai reordenar o Brasil”. Foto: Acervo pessoal

Foto deonacademia:  Deonísio integra bancada brasileira na Academia de Ciências de Lisboa e dirige o Instituto da Palavra da Universidade Estácio de Sá. Foto: Acervo pessoal

Foto: Deon&mi Deonísio, catarinense, e a mulher, a gaúcha Michele, nos jardins da Embaixada Brasileira em Lisboa, para onde viajam amiúde. Foto: Acervo pessoal

Foto: deonpedro Deonísio, abraçado por Pedro Thompson, professor da Universidade Estácio de Sá, da qual é titular aposentado. Foto: Acervo pessoal

Foto deonaband: Deonísio no estúdio onde apresenta seu programa Sem Papas na Língua no estúdio da BandFM no Rio. Foto: Acervo pessoal

Foto deoncalero Deonísio, em congraçamento ecumênico com ex-ministros de Temer, Calero, e de Dilma, Martins, e ex-secretário de Alckmin, Chalita. Foto: Acervo pessoal

Fotodeonmicro Do Sermão do Bom Ladrão, de Vieira, Deonísio cita os “reis, que acompanham ao inferno ou ao cárcere bandidos com os quais negociaram” (Foto: Acervo pessoal)

Links

Para ouvir Deonísio e Boechat no Sem Papas na Língua na Band clique aqui

Para ouvir entrevista de Deonísio a Prisco Paraíso no SBT de Florianópolis clique no play abaixo:

Para ouvir entrevista a Augusto Nunes na Jovem Pan clique aqui:

Para ver vídeo que alunos da FACHA fizeram sobre a obra de Deonísio clique aqui  

Nêumanne entrevista: Deonísio da Silva. 30ª edição da série DEZ PERGUNTAS.

Nêumanne entrevista: Deonísio da Silva. 30ª edição da série DEZ PERGUNTAS.

 

Palestra do Nêumanne no Enacon/Secovi: Nem Jesus nas calças…

Palestra do Nêumanne no Enacon/Secovi: Nem Jesus nas calças…

Nem Jesus Cristo conseguiria realizar completamente a missão de tirar o Brasil do atoleiro, que a maioria dos eleitores atribuiu ao deputado Jair Bolsonaro, apesar de ele também se chamar Messias e de ter colocado Deus não apenas em suas orações e até no slogan da campanha presidencial, tão complexa e ingente ela é. A grande esperança é que o Senhor ajude seu súdito fiel a desmontar a máquina de moer corpos, corações, mentes e almas montada pela elite política dirigente, que tem conduzido historicamente os destinos da Nação com uma mão no bolso do contribuinte para lhe furtar todas as economias conseguidas com o suor do trabalho e a outra no próprio bolso para evitar ser pilhado surrupiando. Esta foi, em resumo, a conclusão da palestra que o jornalista José Nêumanne Pinto fez na manhã da quarta-feira 7 de novembro de 2018 no Encontro Nacional das Administradoras de Condomínios (Enacon) no auditório da sede do Secovi (Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis e dos Condomínios Residenciais e Comerciais), em São Paulo.

 

S. Paulo, 7 de novembro de 2018. Palestra do Nêumanne: Panorama político e econômico. Enacon. DEBATE: Na foto, à esquerda o presidente do Secovi, Huberto Gebara.

S. Paulo, 7 de novembro de 2018. Palestra do Nêumanne: Panorama político e econômico. Enacon. DEBATE: Na foto, à esquerda o presidente do Secovi, Huberto Gebara.

 

S. Paulo, 7 de novembro de 2018. Auditório da palestra do Nêumanne: Panorama político e econômico. Enacon.

S. Paulo, 7 de novembro de 2018. Auditório da palestra do Nêumanne: Panorama político e econômico. Enacon.

S. Paulo, 7 de novembro de 2018. Palestra do Nêumanne: Panorama político e econômico. Enacon.

S. Paulo, 7 de novembro de 2018. Palestra do Nêumanne: Panorama político e econômico. Enacon/Secovi SP.

Comentário no Jornal da Gazeta 2: Lula inimigo do povo

Comentário no Jornal da Gazeta 2: Lula inimigo do povo

Ao tratar presidente eleito como adversário político, PT sabota o País

(Comentário no Jornal da Gazeta 2 quinta-feira 1 de novembro de 2018)

Para ver clique no play abaixo:

Para ver no Blog do Nêumanne, Politica, Estadão, clique aqui.

No Blog: Nêumanne entrevista Fernando L. Schüler

No Blog: Nêumanne entrevista Fernando L. Schüler

Para professor, Moro será fiador

para Bolsonaro andar na linha

Cientista político Fernando L. Schüler, do Insper, acha que todos saem ganhando com a decisão de Bolsonaro de nomear Moro ministro da Justiça e este aceitar

“Moro funciona como um fiador a mais da ordem constitucional e da sociedade de direitos. Agora teremos uma experiência diferente. É preciso estar vigilante, manter o espírito crítico, mas é preciso tolerar o grupo que pensa diferente. É simples assim. Quem não entender isso não compreende como funciona uma democracia”, diz o professor gaúcho de Ciências Políticas Fernando L. Schüler, da Cátedra Insper Palavra Aberta. Protagonista desta semana da série Nêumanne Entrevista neste blog, ele argumentou ainda contra a opinião dos que temem surtos autoritários do presidente eleito, Jair Bolsonaro, por causa da retórica de direita dele: “Nossas instituições são sólidas e não há sinal de que os militares queiram se afastar de seu papel constitucional. Qualquer líder político, hoje em dia, no Brasil, precisa andar na linha. É o que fará Bolsonaro”.

Foto Schüler2: Sobre gestão Bolsonaro, Schüler previu: "penso que será um governo instável, com previsíveis tensões com o Congresso, mas dentro da normalidade democrática." Foto: Acervo pessoal

Sobre gestão Bolsonaro, Schüler previu: “penso que será um governo instável, com previsíveis tensões com o Congresso, mas dentro da normalidade democrática.” Foto: Acervo pessoal

Gaúcho de Porto Alegre, Fernando L. Schüler é cientista político e professor do Insper. Tem doutorado em Filosofia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com pós-doutorado pela Universidade Columbia. É titular da Cátedra Insper Palavra Aberta, voltada para a reflexão sobre a liberdade de expressão e de imprensa. Foi diretor da Fundação Iberê Camargo e tambémdo Ibmec (no Rio de Janeiro) e é colunista da Band News e da Rádio e TV Bandeirantes.

Nêumanne entrevista Fernando Schüller

Nêumanne -Agora que o juiz Sergio Moro aceitou ser ministro da Justiça no futuro governo de Jair Bolsonaro, o senhor acha que o combate à corrupção ganhou novo alento, depois da longa batalha contra os suspeitos encastelados nos três Poderes da República até estes nossos dias?

Fernando Schüller – Sérgio Moro sempre deixou claro que a pauta de combate à corrupção demandava decisões que cabiam ao sistema político tomar. Pautas que iam muito além da capacidade de ação do Poder Judiciário. Ele agora terá essa oportunidade. O desafio que ele tem pela frente é enorme. Sua pasta tratará do tema do combate à corrupção, da transparência e de toda a temática da segurança pública e do combate ao crime organizado. Tudo isso numa época de polarização política e de uma nova elite política com pouca experiência de governo. De qualquer modo, acho que ele tomou uma grande decisão. É um homem corajoso, que aceita os riscos próprios do mundo da política. E é um patrimônio brasileiro, no contexto internacional, que funcionará como um enorme ativo para o governo Bolsonaro. Por fim, funciona como um fiador a mais da ordem constitucional e da sociedade de direitos. Todos saem ganhando com essa decisão.

Foto Schüllercelsomary: Schüler com Mary e Celso Lafer: "É preciso estar vigilante, manter o espírito crítico, mas é preciso tolerar o grupo que pensa diferente". Foto: Acervo Pessoal

Schüler com Mary e Celso Lafer: “É preciso estar vigilante, manter o espírito crítico, mas é preciso tolerar o grupo que pensa diferente”. Foto: Acervo Pessoal

N – Em 1960 o ex-governador e ex-prefeito de São Paulo Jânio Quadros se apresentou à disputa presidencial como candidato de um partido pequeno, o PTN, usando a vassoura como símbolo e prometendo varrer a bandalheira num jingle que ficou famoso. Depois, conseguiu o apoio da UDN, uma legenda gigante, ganhou a eleição presidencial, arengou com o Congresso e renunciou. O senhor vê alguma semelhança entre o caso dele e o de Jair Bolsonaro nesta eleição? Que lições o presidente eleito de hoje pode tirar desse episódio e dessa personagem da História do Brasil?

S – Jânio era uma figura instável e com traços de megalomania. Bolsonaro é um político pragmático, muito mais metódico e previsível do que a imagem que se criou dele ao longo do tempo. A democracia do ciclo 1945/64 era também muito diferente do que temos hoje, no Brasil. Foi a época do chamado golpismo democrático, à esquerda e à direita. O Brasil de hoje é muito diferente. Nossas instituições são sólidas e não há sinal de que os militares queiram se afastar de seu papel constitucional. Qualquer líder político, hoje em dia, no Brasil, precisa andar na linha. É o que fará Bolsonaro.

N – Caso mais recente de presidente que não foi lançado por partidos tradicionais foi o do carioca que governou Alagoas Fernando Collor de Mello, eleito em 1989. Ele se candidatou pelo minúsculo PRN, foi um fenômeno de popularidade espantoso, derrotou os maiores próceres da época de forma inesperada, nas urnas, com a promessa de acabar com os marajás do serviço público. Mas, acusado de corrupção, foi deposto num rumoroso processo de impeachment. O que Bolsonaro pode fazer, na sua opinião, para evitar enfrentar idêntico destino?

S – Penso que valia a pena para Bolsonaro estudar o governo Collor, para não cometer os mesmos erros.  O primeiro deles é a aposta difusa na ideia da política como espetáculo. É muito tentador, na era da internet, achar que a lógica da campanha possa funcionar no governo. Collor, ainda antes da explosão digital, ensaiou um tipo de populismo eletrônico, que desmoronou quando surgiram as denúncias que todos conhecemos. A segunda lição é a de que para governar é preciso ter uma agenda realista de mudanças e uma base sólida no Congresso. É preciso governar com as instituições, ter rumo. A comunicação direta com as pessoas funciona como um complemento, nada muito além disso. Haveria ainda uma terceira lição: o cuidado rigoroso com a questão ética. Isso não se refere apenas ao problema da corrupção, mas à obediência a regras de ética pública. Vivemos na era da transparência quase total. Governos devem seguir regras de compliance. O presidente Temer enfrentou conhecidos problemas nessa área. Bolsonaro precisa disciplinar isso logo de saída.

Foto Schülerjô: Schüler dando entrevista a Jô Soares na Rede Globo: "A elite política sempre subestimou Bolsonaro". Foto: Acervo pessoal

Schüler dando entrevista a Jô Soares na Rede Globo: “A elite política sempre subestimou Bolsonaro”. Foto: Acervo pessoal

N – Noves fora seu segundo prenome, Messias, em que o candidato do PSL, que citou 14 vezes o santo nome de Deus em seu discurso de comemoração do triunfo eleitoral, se insere na tradição de sebastianismo da política brasileira, de Antônio Conselheiro a Luiz Inácio Lula da Silva?

S – A religião cumpriu um papel-chave nestas eleições. Bolsonaro obteve ampla vantagem entre o público evangélico. Pesquisa recente mostrou que, se tomássemos apenas os municípios brasileiros com menos de 6% de população evangélica pentecostal, Haddad venceria com ampla margem de votos. Há uma ampla parcela da população brasileira que se identifica com valores cristãos tradicionais, não apenas os evangélicos, e se identificou genericamente como a agenda conservadora de Bolsonaro. Vamos ser claros: o Brasil nunca teve uma candidatura majoritária competitiva de traço conservador. Não havia diferença cultural significativa entre Dilma e Aécio, Serra ou Lula. Dito isto, é possível dizer que Bolsonaro expressa um tipo de neopopulismo eletrônico, embalado por um conservadorismo popular muito comum, hoje em dia, nas grandes democracias. É o conservadorismo do homem comum, que ganhou voz com as redes sociais.

Foto Schülermãe: Schüler com sua mãe, dona Ivone: "Vivemos na era da transparência quase total. Governos devem seguir regras". Foto: Acervo pessoal

Schüler com sua mãe, dona Ivone: “Vivemos na era da transparência quase total. Governos devem seguir regras”. Foto: Acervo pessoal

N – Nas manifestações de rua de 2013, que estão na base do incômodo da classe média com a chamada “velha política”, o presidente eleito de hoje se inseria num grupo minoritário e meio folclórico dos que clamavam por uma nova intervenção militar. Em que momento ele partiu para um voo solo fora dessa gaiola? Ou será que ele ainda é um nostálgico da velha tradição golpista, abandonada recentemente, das Forças Armadas?

S – Este é um dos traços mais característicos das grandes democracias: seu metabolismo moderador. O PT foi, nos anos 80, um partido socialista e estridente. Não havia documento oficial do partido que não falasse em construção do socialismo e coisas assim. Depois foi incorporado pela democracia. Pela lógica da moderação, da busca do eleitor mediano, da negociação com os partidos e as instituições. Bolsonaro passou e continua passando por esse processo, nos últimos anos. O fato de ele ter sido um deputado outsider foi um dos seus maiores trunfos. Ele se desconectou do sistema político, mas passou a viajar pelo País e conversar com as pessoas comuns. Foi aonde a maioria dos políticos não vai. No começo, com uma retórica estridente. Agora, como a retórica moderada de quem enfrenta o mundo real da política, a necessidade de formar base, aprovar o que é possível no Congresso, e não simplesmente o desejável, segundo seu ponto de vista.

Para Schüler, Bolsonaro "expressou o conservadorismo do homem comum, que ganhou voz com as redes sociais". Foto: Acervo pessoal

Para Schüler, Bolsonaro “expressou o conservadorismo do homem comum, que ganhou voz com as redes sociais”. Foto: Acervo pessoal

N – O que fez Jair Bolsonaro, que, ao votar a favor no impeachment de Dilma, homenageou o odiado torturador coronel Brilhante Ustra, conquistar mentes e corações de cidadãos brasileiros de saco cheio com a roubalheira arrogante do PT e o cinismo empedernido da aristocracia da apodrecida máquina política profissional em nosso país?

S – Uma pesquisa do Datafolha recente mostrou que as Forças Armadas são a instituição com maior prestígio do País. A memória do regime militar é ambígua e distante, no Brasil. Nosso rigor ético é seletivo. A esquerda passou os últimos 30 anos elogiando ditaduras que praticaram largamente a tortura. De minha parte, acho que elogios a torturadores são inaceitáveis. Mas,definitivamente, não é o que pensa a maioria, à esquerda e à direita. O elogio a Brilhante Ustra, bem como outras frases grosseiras de Bolsonaro terminaram por simbolizar uma atitude de desprezo pelo sistema político tradicional e os hábitos políticos brasileiros. Reforçou sua imagem de outsider e de candidato antissistema.

N – O que, a seu ver, descredenciou todos os candidatos ao posto favorito de anti-Lula no processo eleitoral, principalmente pretendentes ao pódio como Ciro Gomes, Geraldo Alckmin, Marina Silva, Álvaro Dias e Henrique Meirelles, só para citar os mais conhecidos, além do apolítico-padrão João Amoêdo, sobrando o lugar praticamente de mão beijada para o candidato do insignificante PSL?

S – Esta foi a eleição das guerras culturais. A pauta que estava na cabeça dos eleitores era mais de natureza moral, cultural e mesmo religiosa do que ligada à política econômica, PPPs, reforma política, reforma tributária, privatizações, etc. Os candidatos do centro ficaram falando sozinhos. Bolsonaro não falou nada muito objetivo sobre economia ou políticas públicas. Mas falou do kit gay, da ideologia de gênero, da sexualização precoce de crianças, da crítica aos direitos humanos e do reforço de poder às polícias para combater o crime. Seus detratores dizem tudo isso não passar de um punhado de frases de efeito. Acho que eles estão errados. A elite política sempre subestimou Bolsonaro. É óbvio que ele é um tipo de pouco refinamento e com quase nenhum conhecimento de economia e alta gestão pública. Mas suas frases de efeito continham exatamente a mensagem que as pessoas desejavam escutar. Candidatos se elegem numa democracia exatamente assim: estabelecem parâmetros de conduta e valores. Detalhamento de políticas públicas vem depois.

"Bolsonaro não é a causa, mas o resultado de um País que já vem polarizado há mais de duas décadas", disse Schüler

“Bolsonaro não é a causa, mas o resultado de um País que já vem polarizado há mais de duas décadas”, disse Schüler

N – Quais são, a seu ver, as possibilidades concretas de se repetir e se cristalizar esse fenômeno eleitoral, que levou não apenas seu líder à Presidência da República, mas também tornou possível o fato decompletos desconhecidos ganharem eleições estaduais nos maiores colégios eleitorais do País e se obrar o milagre da multiplicação das vagas na Câmara, com seu partido saindo de uma cadeira hoje para 52 na próxima legislatura?

S – Há muitas explicações para isso. Há o conservadorismo de costumes, há o sentimento antipetista e antilulista, há a crise ética e política do País. Mas o ponto que me parece crucial é a história recente de um País dividido. Bolsonaro não é a causa, mas o resultado de um País que já vem polarizado há mais de duas décadas. Nos anos 90 foi o “fora FHC”; nos anos Lula foi o “nunca antes neste país”, nos anos recentes, foi a teoria do “golpe” e o “primeiramente, fora Temer”. A sociedade foi, gradativamente, organizando sua reação. Os movimentos de rua, os think tanks, os intelectuais não alinhados, as redes no mundo digital, os youtubers e ativistas conversadores e liberais. A esquerda perdeu sua hegemonia cultural. Na mesma medida em que as instituições perderam espaço, na política, para o meio digital. Bolsonaro é um resultado desse processo, até agora fundamentalmente como um fenômeno eleitoral.

N – Que abalos sísmicos poderão ser produzidos pelo desempenho de uma campanha de R$ 1,2 milhão, 800 vezes mais pobre que a de Dilma Rousseff em 2014, sem tempo no horário obrigatório da TV e sem campanha na rua após um atentado que por pouco não lhe tirou a vida, levando o protagonista desse fenômeno a mudar os padrões da baixa política, que tanto incomodam o cidadão brasileiro aqui, na planície?

S – Em primeiro lugar, trouxe para o centro da política brasileira aqueles que estavam à margem. Essa é uma das mágicas da democracia. É claro que a turma que comandava o jogo, historicamente, não gosta. De minha parte, discordo de muita coisa colocada ali genericamente como “agenda conservadora”. Mas o que isso importa? Devo gostar da democracia apenas se as minhas posições saírem vencedoras? A esquerda esteve no poder por mais de 13 anos. Ok, foi importante para o País. Agora sabemos o que é um governo do PT. A social-democracia esteve no poder com Fernando Henrique. Agora teremos uma experiência diferente. É preciso estar vigilante, manter o espírito crítico, mas é preciso tolerar o grupo que pensa diferente. É simples assim. Quem não entender isso não compreende como funciona uma democracia. 

N – Diante dos desafios gigantescos na questão da governabilidade numpaís com 30 partidos representados no Congresso e das contas públicas em estado falimentar, o senhor se posiciona como cético ou esperançoso quanto ao governo Bolsonaro e ao futuro do Brasil?

S – Tenho uma visão bastante direta sobre esse assunto: se Bolsonaro quiser fazer um governo para a História, deve enviar ao Congresso, ainda no primeiro semestre de 2019, um projeto de reforma do sistema político. Algo que inclua a migração para o voto distrital misto, o voto facultativo, a proporcionalidade na Câmara, o fim do financiamento público de campanhas, etc. Minha visão é que a sociedade lhe deu um mandato para fazer isso. Para propor isso ao Congresso. Talvez isso possa ser objeto de uma consulta plebiscitária, como fizemos com o sistema de governo, em 1993, e depois com o tema do desarmamento. A Nova Zelândia mudou seu sistema eleitoral, dessa maneira, com grande sucesso. Não sei se isso está na cabeça de Bolsonaro e sua equipe, mas é isso que deveria ser feito. No mais, penso que será um governo instável, com previsíveis tensões com o Congresso, mas dentro da normalidade democrática.

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Nêumanne entrevista Fernando L. Schüler. 29ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista Fernando L. Schüler. 29ª EDIÇÃO DA SÉRIE 10 PERGUNTAS

 

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No Blog: Nêumanne entrevista José Paulo Cavalcanti Filho

No Blog: Nêumanne entrevista José Paulo Cavalcanti Filho

Ex-ministro da Justiça relaciona culpa de Lula com a de Hitler em crimes nazistas

Para Cavalcanti, como no caso do tríplex, o Führer não assinou ordem para matar judeus e só 0,6% dos recursos contra prisão após 2.ª instância foram revistos

Não há um papel assinado por Hitler ordenando a matança dos judeus, lembra o jurista José Paulo Cavalcanti Filho, que fez parte da Comissão de Notáveis para fazer um projeto para a Constituição, convidado por Tancredo Neves, e da Comissão Nacional da Verdade sobre os crimes da ditadura, a convite de Dilma Rousseff. Segundo ele, “a pergunta é se a ausência de um documento assinado por Hitler seria suficiente para negar ter sido ele responsável pelo Holocausto. Basicamente, temos depoimentos dos sobreviventes. Sem nada em comum entre eles. Como nas delações premiadas do triplex. O que nos leva à questão básica de saber se, ausente uma assinatura, depoimentos ou documentos assim valeriam, como prova, para condenar alguém. Problema, contra Hitler, é não ser crível que algo assim pudesse ter ocorrido longe de seus olhos. Ou de seu comando. Sem conhecimento, e consentimento, da autoridade maior. Do chefe. Coincidências…” Adepto da prisão após segunda instância, o jurista e escritor premiado, convidado da semana da série “Nêumanne entrevista” no Blog do Nêumanne, cita uma estatística para apoiar seu argumento: “Para uma ideia mais clara da desimportância institucional do tema, somente 0,6% dos recursos apresentados ao STJ levaram à revisão dos julgados”.

José Paulo Cavalcanti Filho nasceu em Recife em 1948. É consultor da Unesco e do Banco Mundial. Foi presidente do Cade, da EBN e do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, além de ministro da Justiça e membro da Comissão Nacional da Verdade. Ocupa a cadeira 27 da Academia Pernambucana de Letras. Seu livro Fernando Pessoa, Uma Quase Autobiografia ganhou o prêmio Senador José Ermírio de Moraes da Academia Brasileira em 2012, como melhor livro publicado no Brasil em 2011, o que o introduziu na seleta confraria dos pessoanos de escol. Com a mesma obra conseguiu os primeiros lugares em Bienal do Livro (Brasilia) , Jabuti (São Paulo). Recebeu, em Portugal, o prêmio Dario Castro Alves, ocasião em que foi saudado pelo ex-presidente Mario Soares. Na Itália, Il Molinello. É publicado, até o momento, em Portugal, Itália, Romênia, Israel, Espanha, França, Alemanha, Holanda, Rússia, Inglaterra e Estados Unidos.

A seguir: Nêumanne entrevista José Paulo Cavalcanti Filho

José Paulo Cavalcanti Filho

Cavalcanti confessa que escolherá candidato menos ruim à Presidência na última hora. Foto: Acervo familiar

Nêumanne – O que impediu que o projeto original de Tancredo Neves de convocar a Comissão de Notáveis, da qual o senhor fez  parte, para inspirar os constituintes, foi a morte do criador, com a posse subsequente de um vice comprometido com a ditadura que caíra, ou a circunstância de ter sido debatida e votada numa espécie de quem nunca comeu mel quando come se lambuza, com constituintes sôfregos demais para garantir direitos depois de um período sem eles no regime autoritário?

Cavalcanti – Vejo, hoje, o passado com mais calma. Compreendo que as transições negociadas, de governos autoritários para um ambiente democrático, sempre se passam dentro de um mesmo padrão. Primeiro, do estamento militar do sistema para o estamento civil desse mesmo sistema. E só depois, para as oposições. Veja-se o exemplo de Adolfo Suárez – o primeiropresidente do governo (primeiro-ministro) da Espanha (1976-1981) depois da ditadura de Franco. Aqui tudo parecia caminhar para um padrão diferente. Na linha direta dos militares para Tancredo. Com todas as questões sensíveis negociadas antes, claro. Nem dava para ser diferente. Nem mesmo a extensão da anistia, aprovada em 1979, que não beneficiava os responsáveis pelo Riocentro – de 1981. O compromisso que anotado e cumprido (já não por ele) com a Emenda Constitucional 26, de 1985 (artigo 4.º). Parênteses: curioso é que permanece o mantra de que a Lei de Anistia (no singular) foi aprovada por pressão dos militares. A primeira, sim. A segunda, não. Chancelada pelo mesmo Congresso que elegeu Tancredo. Leis, pois! No plural, e não no singular. Fim dos parênteses. O destino como que retomou essa trilha, pondo Sarney como substituto do presidente morto antes do tempo. Com a base civil do sistema assumindo o lugar que lhe estava reservado pela História. E cumprindo o papel básico, que era o seu, de garantir uma transição sem maiores traumas. Sob essa ótica, seu governo foi um sucesso. Pois tudo se processou sem traumas. Assim entendo. Talvez tenha faltado só um marqueteiro para dizer isso. Ou então, talvez, a dimensão voraz da crise econômica e a necessidade inadiável por reformas estruturais logo tenham tornado obsoleto esse desenho original. Os historiadores dirão depois, com menos paixão, qual o papel real cumprido pelo governo de José Sarney.

       Já em relação à segunda questão, acredito que, num cenário conturbado como aquele, nossa Constituição de 1988 acabou sendo, sobretudo, resultado da gula sem medida dos interesses corporativos. E um repositório de bons sentimentos delirantes que nos legou 112 direitos individuais, coletivos e sociais (artigos 5.º, 6.º e 7.º). Mais que três vezes o de qualquer outra Constituição do planeta (a dos Estados Unidos tem só dez). O que é a cara do Brasil.

Cavalcanti entrevistado por Jô Soares à época do lançamento de seu livro Fernando Pessoa, Uma Quase Biografia. Foto: Ricardo Martins/Rede Globo

Cavalcanti entrevistado por Jô Soares à época do lançamento de seu livro Fernando Pessoa, Uma Quase Biografia. Foto: Ricardo Martins/Rede Globo

N – Certo é que a Constituição resultante do tal Congresso Constituinte ficou sendo esdrúxula e enxundiosa, uma espécie de colcha de retalhos, costurada por um grupo representado pelo amazonense Bernardo Cabral, o relator, e do conterrâneo do senhor Ricardo Fiuza, e já então chamado de Centrão, denominação que agora volta à tona, e pelos sabichões que criaram o PSDB, principalmente Mário Covas e José Serra, sob a regência do multipresidente Ulysses Guimarães, que permitiu liberalidades absurdas como a redação de dispositivos sem aprovação da maioria dos constituintes, como reconheceria depois Nelson Jobim?

– Pouco depois da 2.ª Guerra, o general MacArthur pediu a um amigo, professor de Harvard, que redigisse uma Constituição para o Japão. Quando lá estudei, tentei saber seu nome. Sem sucesso. Não ficaram registros disso na universidade. Nenhum professor se lembrava mais. Provavelmente seria alguém menor, sem fama, e amigo dos militares. Esse texto foi levado para Tóquio, na bagagem do general, e imposto aos derrotados. Com apenas uma delicadeza, que foi manter intacta a estrutura da monarquia. E maldades muitas. O Japão é hoje, por exemplo, o único país do mundo em que a Constituição proíbe a existência de Forças Armadas. Pois bem, naquele tempo tínhamos um país destroçado. Hoje é a terceira economia do mundo. Um país pujante. E quantos artigos, dessa Constituição, redigida por estrangeiro, foram substituídos desde aquele tempo? Nenhum. Penso em nosso Brasil com essa compreensão. De que as Constituições não valem tanto assim, como se pensa. Não determinam o crescimento do País. Nem o impedem. Mais relevante é algo mais amplo, difícil de definir, um como que caldo de cultura do país. E o nosso é pobre. Muito pobre. E frágil. Muito frágil. Infelizmente.

Cavalcanti recebe prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, por seu livro Fernando Pessoa, Uma Quase Biografia. Foto: André Lessa/Estadão

Cavalcanti recebe prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, por seu livro Fernando Pessoa, Uma Quase Biografia. Foto: André Lessa/Estadão

N – O citado Ulysses cunhou o resultado final de “Constituição cidadã”, denominação completamente alheia à realidade, de vez que, na verdade, o texto constitucional estabeleceu uma espécie de principado de castas, em que políticos de ofício, juízes concursados e uma nata de marajás do funcionalismo público podem tudo e para os cidadãos nada sobrou. Esse mostrengo, a seu ver, resulta do texto original ou de suas perversões?

C – O melhor da pergunta foi ver, nela, usada a palavra mostrengo. Título de poema (de 1918) que está em Mensagem(de 1934). Em lugar do mais previsível, que seria monstrengo. Tudo por conta de nosso comum amigo Fernando Pessoa. Título original do poema seria O Morcego. Só que o poeta não gostou. E foi mudando, como mudou nossa Constituição. No original, escrito por sobre a versão inicial, primeiro escreveu Monstro. Depois, Monstrengo. Depois Mostrodo, Mostrego, Mostroso.Afinal, ficou mesmo O Mostrengo. Escrever um poema exige sofrimento. Esforço. Dedicação. As Constituições deveriam seguir na mesma trilha. Mas nossos congressistas resistem a qualquer mudança. Respondo recitando esse poema: “Quem vem poder o que só eu posso?”. Na ilusão de esperar que, um dia, o indeterminado cidadão comum do povo diga, ainda citando aqueles versos: “Aqui no leme sou maior do que eu”. Sou um povo inteiro. Que quer um país com menos interesses clientelistas e corporativos. Com menos apartação social. E com mais cidadania.

N – É a favor ou contra prisão em segunda instância?

C – A favor. Sem dúvida. No Brasil, prisões sempre se deram em segunda instância. Desde o Código de Processo Penal de 1941. Por uma razão técnica. É que o recurso nas decisões em primeira instância, apelação, tem efeitos devolutivo (faz com que o assunto seja rediscutido por tribunal) e suspensivo (a decisão não produz efeitos até decisão do tribunal). Enquanto os recursos subsequentes, especial e extraordinário, contra decisão desse tribunal, apenas o devolutivo. Para permitir que o caso chegue aos tribunais superiores – STJ e Supremo. Sem poder rediscutir provas, por conta das Súmulas 7 (do STJ) e 279 (do Supremo). E sem suspensão da decisão do tribunal anterior, que deve ser necessariamente executada. No caso, a prisão. Mesmo depois da Constituição de 1988 (artigo 5.º, LVII, “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”) continuou sendo assim. Suspensa em brevíssimo interlúdio no mensalão, quando gente graúda passou a ser condenada, com o julgamento do HC 84.048 (em 2009), logo voltou a se dar com o HC 126.292 (em 2016).

A Corte Constitucional da França julgou, no ano passado, 80 casos; a da Inglaterra, 90; a dos Estados Unidos, 160 (grandes números). Nesse ano mesmo, só o ministro Fachin julgou 8.820 casos. É demais. O Supremo, enquanto não for apenas uma Corte Constitucional (como em todos os outros países), não tem estrutura para examinar tantos processos. E, num país com tão alentado leque de recursos processuais, pode-se garantir que (quase) todos os condenados permanecerão soltos. Beneficiados pela prescrição. Em 2016 (fonte, EBC), tínhamos 726.712 presos (o número não é confiável, mas com certeza é muita gente). Entre eles, traficantes, estupradores, corruptos em geral. Queremos que todos permaneçam em liberdade, depois de condenados por tribunal?  Passariam todos a responder a seus processos em liberdade? Queremos isso? E tudo só por conta desse caso de agora, com um ex-presidente preso? A ONU tem 194 membros, meus senhores. E em 192 deles as prisões se dão em primeira (todo o Primeiro Mundo – Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Alemanha, França, Espanha) ou segunda instância. Fora disso apenas Portugal e Itália, que têm estrutura processual caótica. Pelo amor de Deus…

Ruim, nisso tudo, é que a tese beneficia, invariavelmente, apenas poderosos. Os política e economicamente poderosos. Que pobres não têm recursos para custear advogados nas altas Cortes. Para uma ideia mais clara da desimportância institucional do tema, somente 0,6% dos recursos apresentados ao STJ levaram à revisão dos julgados. E por conta, basicamente, de problemas formais – reconhecimento de prescrição, negação do direito de defesa, por aí. Resumindo, não há uma epidemia de presos inocentes, como pretendem alguns militantes. Valendo as condenações como início promissor na construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. Em que culpados vão para a cadeia, independentemente de suas pompas e circunstâncias – gente do povo, milionários, estupradores, deputados, senadores, milicianos, ministros, traficantes, presidentes.

N – Ainda sobre esse tema, o argumento mais referido é o de que nada pode reparar a prisão de um inocente. Um dia que seja, preso, seria uma contradição à democracia. Isso faz sentido?

C – Não. A presunção de inocência merece um debate minimamente conceitual. Longe das paixões. Um homem inocente não pode ser preso, pretendem ilustres advogados. Elevada essa presunção de inocência a um valor absoluto. Ouvimos várias vezes frases como essas no julgamento do Supremo. Problema é que, para valer, ela não pode admitir sequer uma única exceção. Ninguém será, em nenhuma circunstância, preso antes do trânsito em julgado. Será mesmo? Fico só num exemplo. Importado, para não melindrar susceptibilidades. Tome-se um desses atiradores alucinados em escolas americanas, com espingardas de mira telescópicas, matando 60, 70 crianças. Como esse atirador não foi ainda condenado pelo Supremo, não poderia ser preso (segundo essa gente). Deveria, então, ficar solto. Para voltar a matar. Quantas vezes quiser. Quem sustentar a tese, obrigatoriamente, deve aceitar isso. Mas se entender que pode ser preso, é que a presunção não resulta num valor absoluto. O que nos leva à questão dos critérios para prender.

Nesse caso, é desnecessário perder tempo. Dado ser óbvia sua resposta. Pessoas devem ser presas, ou permanecer soltas, em função do interesse coletivo. Ponto final. O direito individual se curva, necessariamente, a esse interesse coletivo. Não fosse assim, o atirador americano ficaria livre. Até ser condenado pelo Supremo, depois de 20 ou 30 anos. Até lá, podendo repetir o que fez. Quantas vezes quisesse. Traficantes não poderiam também ser presos. Desde modestos vendedores de crack até seus chefes. A prisão de Marcola e a de Fernandinho Beira-Mar, sob essa ótica, teriam sido inconstitucionais. Mesmo a de Pimenta Neves. Inocente (segundo essa gente)mesmo tendo confessado que matou (por amor, assim disse). Estupradores e pedófilos, também. Mesmo com o risco de voltarem a fazer novas vítimas. Crimes inafiançáveis deveriam ser abolidos. Prisões em flagrantes, também. Prisões provisórias ou preventivas, igualmente. E por aí vamos. A lista é longa. Afinal, caso se constate depois ser o réu inocente, e alguns dias ter passado preso. O que seria inaceitável para os defensores da tese. Sendo ainda necessário revogar todas as leis que amparam essas práticas. Isso é bom ou ruim para a sociedade? Não importa para os defensores da tese. Caso seja um valor absoluto, não pode admitir uma única exceção.

Mas como conciliar o direito individual da presunção de inocência com a prisão antes do Supremo? A presunção de inocência não é um valor absoluto, isso já vimos. E considerando o interesse coletivo, pode haver algum tipo de prisão, antes da condenação, não ser mais recorrível. Quando for algo bom para a sociedade. Para o bem comum. Em todas aquelas questões acima referidas há consenso de que prisão é coisa boa. Traficantes, estupradores, pedófilos, o louco que ameaça a mulher de morte, atiradores de escolas, todos podem (e devem) ser presos preventivamente. Antes mesmo da sentença do Supremo, nos respectivos processos judiciais. Devem permanecer presos, pois, depois de condenados em segunda instância. E antes do Supremo. Assim posta a questão, falta só discutir se é possível prisão antes do trânsito em julgado no Supremo. Como se trata de um valor não absoluto, não ofende a Constituição que ocorra antes disso. Em que momento? A posição atual do Supremo parece razoável, isso já foi dito. Que na segunda instância se esgota o exame de provas. Estatisticamente, a revisão dessas sentenças é insignificante. E (quase) sempre por questões formais, como vimos. Por tudo, então, talvez seja hora de retomar essa questão em tons menos apaixonados. Longe da política. E da politicagem. Dos mitos. E dos baixos interesses. Buscando solução que seja melhor, para o Brasil. Se isso for ainda possível, é claro.

N – Em que, em sua opinião, se inspirou o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, para rasurar, em cumplicidade com o senador Renan Calheiros, à época presidente do Senado, o parágrafo único do artigo 52, que proíbe explicitamente presidentes depostos por impeachment de exercerem cargos públicos por oito anos, somente para permitir à petista Dilma Rousseff ser, como ele mesmo disse, “merendeira de escola”?

C – Quando redigimos a acusação, no impeachment do ex-presidente Collor (juntamente com o saudoso mestre Evandro Lins e Silva e o querido professor Fábio Konder Comparato), vimos, com cuidado, a experiência norte-americana – de onde veio o instituto. Apesar de ter sido aplicada por lá, até hoje, só em relação a justices da Suprema Corte – que, protegidos pela vitaliciedade, não aceitavam se aposentar. Mesmo com esclerose avançada (o processo é iniciado com a concordância da família). Nos Estados Unidos, só dois casos:  Andrew Johnson (1868) e Bill Clinton (1998), ambos absolvidos. Richard Nixon nem chegou a ser julgado, renunciou antes disso (em 1974). Por lá, essa novidade brasileira de impeachment sem perda de direitos políticos seria considerada uma piada. Aqui também, por muita gente. Não é demais esperar que nosso STF acabe tendo de dar a última palavra sobre esse assunto. Agora, mais seriamente.

N – Sob a vigência da Constituição, de apenas 30 anos, portanto, uma adolescente institucional, já foram depostos dois presidentes, Collor e Dilma, e isso dá razão aos críticos de seu texto, que lhe atribuem grande responsabilidade pelo fato. O que o senhor tem a dizer sobre essa crítica? E o que se pode fazer para corrigir isso? Será possível eleger uma Constituinte exclusiva, como pretende seu amigo e colega Modesto Carvalhosa, para evitar efeitos perversos que ainda possam agravar a situação, que está longe de ser confortável?

C – O rito do processo é, com certeza, traumático. Demorado. E ruim, para o País. Mas para corrigir isso teríamos de contar com o Congresso. Para mudar a Constituição. Fazendo com que os impeachments se deem mais rapidamente. Essa bela ideia de uma Constituinte exclusiva não parece ruim, no plano dos conceitos. Até por vir de um exemplo, para os advogados brasileiros, que é Modesto Carvalhosa. Só não acredito é que nosso Congresso seja capaz de renunciar ao poder que decorre de um processo assim demorado, em nome do interesse coletivo. Um sonho. Já que citei Pessoa, lembro aqui o que ele escreveu como Bernardo Soares (no Desassossego):

“De tanto lidar com sonhos,

Eu mesmo me converti num sonho.

O sonho de mim mesmo”.

N – Lula teria sido condenado sem provas. Acha esse argumento razoável?

C – Não. A tese desconsidera o papel da prova circunstancial nas condenações. Para ser coerente o mesmo raciocínio deveria ser aplicado em todos os casos. Tome-se o do goleiro Bruno como exemplo. Não há vídeos, nem fotos, nem testemunhos, nem confissões, nada. Nem mesmo um corpo. Em tese, qualquer dia destes sua amante poderia ser vista em algum shopping center, fazendo inocentes compras. E o goleiro Bruno cumpre pena de 22 anos.

Voltemos no tempo. O principal operador na execução da política de extermínio na Alemanha nazista foi Adolf Eichmann. Na Gestapo era diretor de “assuntos referentes aos judeus”. Segundo os defensores dessa tese, teria agido sem conhecimento do Führer. Em livro autobiográfico (Ich: Adolf Eichmann), Eichmann confessa: “Me disseram, em conversa, que o Führer (Hitler)havia ordenado a destruição física do oponente judeu”. O escritor Willem Sassen confirma isso: “Eichmann não pediu ordem escrita. O desejo de Hitler, expresso através de Himmler (“comandante militar das SS”) e Heydrich (“chefe do Gabinete Central de Segurança do Reich”), era bom o suficiente para ele”. Não há, portanto, um único papel assinado por Hitler ordenando a matança dos judeus.

Resumindo: a pergunta é se a ausência de um documento assinado por Hitler seria suficiente para negar ter sido ele responsável pelo Holocausto. Nesse caso dos campos de concentração, por sorte, alguns documentos surgiram depois. Mas, basicamente, temos depoimentos dos sobreviventes. Sem nada em comum entre eles. Como nas delações premiadas do triplex. O que nos leva à questão básica de saber se, ausente uma assinatura, depoimentos ou documentos assim valeriam, como prova, para condenar alguém. Seria cômodo para Hitler reduzir o problema a só uma questão de assinaturas. Problema, contra ele, é não ser crível que algo assim pudesse ter ocorrido longe de seus olhos. Ou de seu comando. Sem conhecimento, e consentimento, da autoridade maior. Do chefe. Coincidências…

Os membros da Comissão Nacional da Verdade, da qual Cavalcanti fez parte, diante do prédio do Ministério da Defesa. Foto: Acervo pessoal

Os membros da Comissão Nacional da Verdade, da qual Cavalcanti fez parte, diante do prédio do Ministério da Defesa. Foto: Acervo pessoal

N – O senhor, que participou da Comissão da Verdade, que investigou os crimes da ditadura, teme que a absurda amnésia de parte considerável da sociedade brasileira possa terminar provocando desastre ainda mais grave de uma ruptura institucional que leve a uma intervenção militar ou à eleição de um presidente como o deputado Jair Bolsonaro?

C – Não acredito em intervenção militar. A regrinha de Castelo Branco do limite de quatro anos num posto militar não dá tempo aos generais de quatro estrelas para liderarem tendências. No terceiro ano já estão cuidando de sua aposentadoria. Da mudança para voltarem à sua terra. Tanto que não falam. Isso quem faz é o Clube Militar, uma corporação de aposentados nostálgicos. Sem contar que o desastre do passado ainda está muito vivo. Já a eleição de candidatos como Bolsonaro, perdão, não assusta. Não creio que deva ser levado a sério. Não voto nele, claro. Mas não temo sua eleição. Talvez por ser um otimista incorrigível.

N – Quando se pôs em discussão a legitimidade de Michel Temer para assumir a Presidência, depois do impeachment de Dilma, houve uma onda de atribuição de um caráter de panaceia universal às eleições gerais de outubro, similar às expectativas com a promulgação da Constituição. O que o senhor espera do pleito de daqui a três meses e já escolheu um pré-candidato a sufragar na urna eletrônica?

– Em algum momento, no futuro, vamos ter de rever nosso modelo de eleições. Não agora. O risco maior é termos, ainda, um baixo contingente de cidadania. Cito meu Estado como exemplo. Em Pernambuco, só no Recife temos o hábito da leitura. Mas, aqui, 71% não leem. Dos 29% que fazem isso, 53% não sabem o que quer dizer a palavra “escrúpulo”. Só 13%, portanto, estão em condição de compreender – em sua dimensão institucional, política e ética – a frase “eu não tenho nenhum escrúpulo”. Só 13% aptos a serem cidadãos, pois. O que mais uma vez revela não haver nada mais urgente, democrático e revolucionário, para o Brasil, do que educação popular. Perdão, mas não tenho a sensação de que o próximo Congresso venha a ser substancialmente melhor que o desastre do atual. Infelizmente. E quem elegeu esse Congresso Nacional fomos nós, povo brasileiro. Sem fugir à sua pergunta sobre candidaturas, minha mulher já decidiu. Ela não vota em político. Se todos os candidatos forem, ela vota em branco. Não é uma boa decisão, já lhe disse. Mas tem cabeça dura. E me faltam argumentos. Quanto a mim, já perto da eleição, vou olhar os candidatos na vitrine. Mesmo não vendo nenhum que me entusiasme. Só que, diferentemente dela, vou acabar votando mesmo no que me pareça menos ruim. Voto em branco? Nunca. Nem pensar. Era só o que faltava.

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/ex-ministro-da-justica-relaciona-culpa-de-lula-com-a-de-hitler-em-crimes-nazistas/

Nêumanne entrevista José Paulo Cavalcanti Filho. 15ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS.

Nêumanne entrevista José Paulo Cavalcanti Filho. 15ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS.

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