Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Literatura

Na revista Ventura, a edição bilíngue do poema de Nêumanne para Isabel

Na revista Ventura, a edição bilíngue do poema de Nêumanne para Isabel

A edição bilíngue de 2018, número 91, da revista Ventura traz o poema  “Isabel, mar e minas”, de José Nêumanne Pinto, inspirado na sua mulher e musa Isabel de Castro Pinto e traduzido por Lula Freire.

Reproduzimos aqui a versão em inglês e o original em português.

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In the veins of Isabel
flows the blood of the Castros,
revolutionary of the 30’s
and mayor of cities
below the Equator line,
washed and dryed in the waters
of the water reservoir of Condado.
And also of the Pimentel’s,
of grandfather Leone,
dealer of hope
in times of hard work,
in order to live well in scarceness.

In the strainer of Isabel’s hair,
the gold of mine’s is seeked,
as between her lips, sheds
the warmth of coffee
planted in the Paraiba valley
and in the inland of São Paulo.
In the eyes of my beloved
shine sparks of emeralds,
caught in the Tambau sea.

Isabel is my Brazil, my worth Brazil.
Brazil of Bonifacios
Brazil of Tiradentes
Brazil of Villa Lobos
of aunt Ciata, Pizindim
and Heitor dos Prazeres,
of cowboys riding in caatingas
of cattlemen leading cattle on long journeys,
Brazil of Antonio Carlos Jobim and Portinari
Brazil of peasants hurting their fingers
catching capuchos of cotton,
and workers in the bus lane,
of streetcars that no more operate
and of the solitude of truck drivers.

Not this motherland bitten by the aedes aegypti
and corrupted by the zika of thefts,
nor this numb people
by the disease of the tse tse fly,
but the Brazil of our decent fathers
of our mothers teaching us the alphabet,
in the dry darkness of the general plains.

The Brazil marked by the feet of Isabel,
the country shaped by my wife’s hands,
that’s all I wish to legate to the future,
as a heritage made only of peace
without fear nor desperation.

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Nas veias de Isabel
corre sangue dos Castro
de seu avô Ageu,
revolucionário de trinta
e prefeito de cidades
abaixo da linha do Equador,
lavada e quarada nas águas
do açudão de Condado.
E também dos Pimentel
de vovô Leone,
comerciante de esperança
em tempos de trabalho duro
pra viver bem na escassez.

Na bateia dos cabelos de Isabel
se garimpa ouro de minas,
como por entre seus lábios
passa o calor do café
plantado no Vale do Paraíba
e no interior de São Paulo.
Nos olhos de minha amada
fulguram fagulhas de esmeraldas
pescadas no mar de Tambaú.

Isabel é meu Brasil que vale a pena:
o Brasil dos Bonifácios,
o Brasil de Tiradentes,
o Brasil de Villa Lobos,
Tia Ciata, Pizindim e Heitor dos Prazeres,
de vaqueiros cavalgando em caatingas
e boiadeiros guiando boiadas em lonjuras,
o Brasil de Antônio Jobim e de Portinari,
o Brasil de camponeses ferindo dedos
ao catar capuchos de algodão
e de operários na fila do ônibus,
dos bondes que não andam mais
e da solidão dos caminhoneiros.

Não esta Pátria picada pelo Aedes aegypti
e corrompida pela zica do roubo
nem este povo entorpecido
pela moléstia da mosca tsé tsé.
Mas o Brasil de nossos pais decentes
e de nossas mães nos ensinando o beabá
na treva seca dos sertões gerais.
O Brasil pisado pelos pés de Isabel,
o País moldado pelas mãos de minha mulher,
é tudo que eu queria legar pro futuro
como uma herança só de paz,
sem medo nem desesperança.

José Nêumanne Pinto São Paulo, 30 de janeiro de 2016

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No Aliás do Estadão: O rendez-vous do sórdido com o sublime

No Aliás do Estadão: O rendez-vous do sórdido com o sublime

Poesia Completa é um livro à altura do fino ofício de Alberto da Cunha Melo

O volume de mil páginas provoca o primeiro impacto: como pode o pernambucano de Jaboatão dos Guararapes Alberto da Cunha Melo ter sido um poeta tão produtivo e copioso nos 65 anos em que viveu? Impacto ainda maior terá o leitor, habituado ou não à arte do romano Horácio (seu ícone e cânone), ao percorrer cada uma delas e nada encontrar que considere jaça. Há ainda, no caso desta Poesia Completa, a inserção do gesto criador, do labor exaustivo do autor, permitindo o acesso a poemas inacabados, esboços ou exercícios poéticos, alguns intocados há décadas: belos diamantes brutos, ainda não lapidados.

poesia completaA poesia publicada em vida do autor foi louvada por críticos respeitáveis. Destaco dentre eles o poeta e professor paraibano Hildeberto Barbosa Filho, que parafraseou Johannes Pfeiffer em Introdução à Poesia: “devido à sua verdade, esta poesia é necessária; devido à sua beleza, é beatificante!” Alberto foi sociólogo e jornalista competente e pontual, mas revelava que essas atividades apenas lhe serviam como fonte de sobrevivência e, algumas vezes, de leitmotiv de seus poemas. Uno e indivisível, é poeta, e a terceira pessoa do singular rege o verbo no presente do indicativo, porque sua poesia atravessa o tempo e ganha uma dimensão que, apesar de todas as honras e gratificações em vida, ainda carece de maior reconhecimento a seu mérito.

A primeira vez que vi falarem dele foi em entrevista de Bruno Tolentino nas páginas amarelas da Veja. O implacável avaliador lançou-o às alturas de maior nome da poética nacional desde João Cabral de Melo Neto. A fé em Bruno me levou a adquirir os livros de Alberto, todos editados no Recife, berço de Cabral e Bandeira, sem penetração no Sudeste. O faro fino do editor Pedro Paulo de Sena Madureira, meu sócio na Girafa Editora, permitiu que a obra imensa e singular circulasse nas metrópoles a bordo de uma edição caprichada e magnífica de O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos. Os adjetivos usados descendem, mais do que do entusiasmo deste autor, da concessão do prêmio para o melhor livro de poesia dado pela Academia Brasileira de Letras em 2007. Debilitado, o poeta não foi à Casa de Machado de Assis recebê-lo e me honrou, como editor, pedindo para representá-lo.

Alberto da Cunha Melo, no lançamento do livro "O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos". Recife: A Girafa, 2006.

Alberto da Cunha Melo, no lançamento do livro “O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos”. Recife: Girafa Editora, 2006.

Certa vez, Astier Basílio, precoce candidato a Arthur Rimbaud de Campina Grande (na comparação feita por Alberto e glosada por outro pernambucano, Jomard Muniz de Britto, que indagou quem seria, então, o Paul Verlaine da Borborema), pôs-me nas mãos um exemplar da edição artesanal de 200 exemplares numerados de Yacala, à beira do balcão do Café Aurora, na Praça da Bandeira, em Campina. Exórdio, o primeiro dos 140 poemas reunidos, sacudiu minha alma como um vagalhão na tempestade: “Levamos fogo, não esponjas, / ao trono sujo de excremento, / disputando o mesmo vazio / de uma estrela no firmamento; // jarros negros e estrelas, tudo / é uma busca de conteúdo; // ou somos renúncia ou cobiça, / atravessando esses planaltos / feitos de cinza movediça; // mas todos estamos em casa, / como os voos dentro das asas”.

Manuscrito da segunda versão do "Exórdio", do livro "Yacala"/ Alberto da Cunha Melo exibe uma matriz de chumbo do seu livro "Yacala". Recife, Gráfica Olinda, 1999.

Manuscrito da segunda versão do “Exórdio” do livro “Yacala”/ Alberto da Cunha Melo exibe uma matriz de chumbo do seu livro “Yacala”. Recife, Gráfica Olinda, 1999.

A emoção desse rendez-vous do sórdido com o sublime se repetiu ao reunir-me a um grupo de atentos e devotos espectadores que lotaram o auditório da Livraria da Vila no lançamento paulistano da obra magna. Entre os presentes, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, professora de literatura, mulher, viúva, a mais completa e mais autorizada crítica (o que permitiu ao poeta conviver com a própria exegeta e permitirá ao estudioso acompanhar neste livro seu processo de criação); Martim Vasques da Cunha, herdeiro de Tolentino, autor do texto da orelha e timoneiro do projeto; e, last but not least, Carlos Andreazza, o bravo editor que trouxe a lume o monumento.

Lançamento do "Poesia completa". São Paulo, 19 de dezembro de 2017: Auditório/ José Nêumanne, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, Maria do Carmo Ducco / Carlos Andreazza, Cláudia, Isabel Moliterno, Dionísius Amêndola, Rafael Tahan e Martim Vasques da Cunha.

Lançamento do “Poesia completa”. São Paulo, 19 de dezembro de 2017: Auditório/ José Nêumanne, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, Maria do Carmo Ducco / Carlos Andreazza, Cláudia, Isabel Moliterno, Dionísius Amêndola, Rafael Tahan e Martim Vasques da Cunha.

Melhor não teria a dizer sobre o livro que não seja o simples reconhecimento de que está à altura da obra que abriga pela fé, pela autenticidade, pela força, pela verdade, pela beleza e pelo compromisso ético com o que há de mais puro, cru e autêntico na arte maior. O cartapácio é o altar digno da obra que merece o mais alto posto no panteão da poesia em língua de Camões e Vieira.

José Nêumanne

  • Jornalista, poeta, escritor e autor de Solos do Silêncio

Resenha publicada no Aliás, neste domingo, 28 de janeiro de 2017.

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No Blog do Nêumanne: Os três enes de meu nome

No Blog do Nêumanne: Os três enes de meu nome

A história secreta da epígrafe no livro póstumo de Ariano, da lavra deste tosco do Semi-árido ao lado de nobre lusitano

Em 1995, meu amigo (e de quem seria, depois, sócio) Pedro Paulo de Sena Madureira, então editor da Siciliano, me fez uma proposta irrecusável: escrever um roman-à-clef (ou seja, um romance a partir de um fato real, mas com personagens com nomes fictícios) sobre o escândalo daquele momento, o roubo feito pelos “anões do orçamento”. Era pegar ou largar. Peguei e não larguei, escrevi.

O livro foi publicado sob o título Veneno na Veia, mas nunca faltou gaiato que mudasse a sílaba fechada por aberta para transformá-lo em Veneno na Véia. Fazer o quê? Certo é que foi publicado e fez algum sucesso de vendas. Por conta disso, a professora Elizabeth Marinheiro, minha confreira nas Academias de Letras de Campina Grande (ALCG) e da Paraíba (ALPB), me convidou para falar dele num seminário sobre literatura que ela promovia no Teatro Municipal de Campina Grande. Escrevi, fui e voltei para casa sem prestar muita atenção naquele texto.

Muitos anos depois, estava escrevendo um editorial já em cima da hora para o Jornal da Tarde, quando a secretária, Cleuza, me chamou ao telefone para atender a outro ilustre confrade na ALPB, Ariano Suassuna. A conversa ao telefone estendeu-se mais do que eu devia e podia manter. Fui obrigado a interrompê-lo.

– Para o que mesmo você está me telefonando? – questionei.

– Então, você está me dispensando? – perguntou, queixoso.

– Não se trata de dispensa. Estou escrevendo um editorial, está em cima da hora para concluí-lo e só atendi porque era você – justifiquei-me.

– É que eu preciso saber se você realmente disse num seminário de literatura em Campina Grande que seu romance mais recente não era de aventuras, mas, sim, o de nossa desventura. Isso encaixa perfeitamente num capítulo de um livro que estou ultimando, aquele que estou escrevendo há 30 anos, e achei que poderia usá-lo. Você permite? – pediu.

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– Ora, Ariano, por que você não…? E soltei o palavrão. Ele reagiu:

– Então, você não autoriza, não, é?

– Homem, esse menino, você acha que eu teria o topete de proibir que você usasse uma frase minha em epígrafe? Só se eu estivesse doido. Faça o que quiser da frase. Nem precisa dizer que ela é minha…

Aí, ele me respondeu com um palavrão mais cabeludo do que o que eu tinha empregado. E ficamos por isso.

Mais um tempo transcorreu e fui à sua casa na Graça, no Recife, convidá-lo para minha posse na nossa ALPB. Nosso encontro estava marcado para as 4 da tarde e temi que ele não pudesse me receber desde que vi o time do Internacional de Porto Alegre, com Tite de técnico, tomando café no hotel onde eu estava hospedado. Então, disse à moça que me recebeu ao portão de sua bela casa senhorial.

– Vim aqui só entregar um convite. Posso deixar e ir embora.

A moça entrou e voltou, misturada sua voz com a narração do jogo Sport X Internacional na transmissão da TV.

– Seu Ariano mandou o senhor entrar.

Entrei, esperei-o um pouco, ele saiu do quarto deixando o televisor ligado e veio logo com a bronca:

– Quer dizer que você vem a minha casa e não quer nem se encontrar comigo, seu malcriado, seu mal ouvido, seu mal educado?

– Não quis atrapalhar seu jogo. Lembra-se de quando nos conhecemos que você me mostrou assoviando sua versão do hino do Sport?

– Sim. Mas estou mesmo precisando falar com você. Não sei se vai dar para ir para sua posse, pois tenho muito trabalho na Secretaria de Cultura do governo do Estado de Pernambuco. E preciso muito esclarecer uma coisa daquela sua epígrafe em meu futuro livro.

– Qual é a dúvida?

– Quantos enes tem teu nome?

– Três.

– Como três?

– Sim, três. Ene-e-u-eme-a-ene-ene-e. Não são três?

– Mas tu és safado desde que te conheço…

Referia-se à noite em que o abordei, em 1967, à porta do Teatro Popular do Nordeste (TPN), quando me apresentei a ele, a sua mulher, Zélia, a seu amigo Hermilo Borba Filho, dono do teatro, e à mulher deste, Leda, à espera do show Memórias de dois cantadores, com Edir e Teca. E estão aí Edir Lima, o Edy Star, que mora em São Paulo e acaba de lançar CD novo, e Teca Calazans, que hoje vive em Paris, que não me deixam mentir.

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Conduziu-me ao quarto contíguo, com cama e máquina de costura, sobre a qual repousavam os originais de seu mui aguardado romance em letras caprichosamente desenhadas em folhas de papel almaço pautado. Nelas brilhavam, graciosamente, os três enes do meu nome composto.

A prova de que escrevo a verdade está na página 343 do romance O Jumento Sedutor, lançado numa caixa e à disposição em todas as livrarias do País. A epígrafe, com a frase da qual não me lembrava mais – nem tinha como, pois não acho o texto da palestra – foi registrada por ele:

“Não é bem um Romance-a-chave, mas clara e decididamente também o é. Certamente não é um Romance-de-aventuras, mas, com certeza absoluta, posso defini-lo como o Romance da nossa desventura. Um Romance-de-gancho, pendurado nas paredes de nossas livrarias como carne em açougue” (José Nêumanne Pinto, aliás, o Zé dos três enes)

Acima fulgura outra epígrafe, da lavra de Almeida Garrett:

“Neste despropositado e inqualificável Livro, não é que se quebre, mas enreda-se o fio das histórias e das observações por tal modo que, bem o vejo, só com muita paciência se pode deslindar e seguir tão embaraçada Teia”.

Ou seja, o danado do Ariano não apenas pôs mesmo a minha frase,como a juntou com outra de Garrett. Isso me lembrou a tarde em que, a convite da poeta Eunice Arruda, fiz uma palestra, e nem me lembro mais  sobre o quê, ao lado do professor de jornalismo Ivan Teixeira, da Universidade de São Paulo (USP), e nela mofei da mania de Luiz Inácio Lula da Silva flexionar advérbios como menos, que este muitas vezes prefere chamar de menas.

O catedrático abespinhou-se:

– Você sabia que o conde Almeida Garrett também flexionava advérbios?

– Não sabia. Mas tenho certeza de que não foi com Garrett que Lula aprendeu a usar menos na forma feminina inexistente menas.

Dificilmente Ariano, eleitor de Lula, riria de minha piada. Mas juro que, ao contrário do que eu esperava, o público do auditório da Biblioteca Mário de Andrade naquela tarde distante rolou de rir, como se fosse mais uma das tiradas do dramaturgo mais engraçado do teatro brasileiro.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, domingo, 31 de dezembro de 2017)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/os-tres-enes-do-meu-nome/

 

Um poema de Natal

Um poema de Natal

Gabriel, A Visita

O anjo disse-lhe: Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus; eis que conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus: este será grande, será chamado Filho do Altíssimo e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi (Lucas, 1, 30-32)

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Vieste dizer que vinha o Sol
e veio o galo cantar três vezes
só para negar o Menino;
viajaste nas nuvens
para que chovesse
e uma tempestade de pó
cobriu plantas, casas e animais
com um manto seco e sinistro;
carregaste bênçãos em teu bornal
e a serpente da maldição
nelas se escondeu;
deste conta de graças
e a desgraça as acompanhou,
à sorrelfa;
contaste à Virgem
que seu Bebê obraria maravilhas
e Seus irmãos O executaram,
de tocaia;
trouxeste a boa nova
de um Pai severo
e a Mãe se derreteu
em gozo e delícia,
mas a desmancharam
em pranto e cólicas.

Ainda assim, o fogo que ateaste
fez arder a sarça
e alumiou a noite escura;
e o amor que anunciaste
deu rumo a um rebanho tresmalhado
e civilizou uma raça de bárbaros.

Volta, Arcanjo,
desce e entrega
novas propostas de paz
e cartas com letras de luz.
Canta hinos de encantar a vida
para espantar a morte
e faz brotar do imprevisto deserto
e mesmo do impossível mar,
que não virou sertão,
algo que se possa chamar de futuro.

 

Ilustração:
Pier Francesco Mola – Séc. XVII (detalhe)

Resenha no Aliás, do Estadão: O mártir que morreu três vezes

Resenha no Aliás, do Estadão: O mártir que morreu três vezes

Livro relata a saga de Che Guevara, morto em Cuba, Congo e Bolívia

A paixão assemelha-se a um farol sobre um penhasco cuja iluminação provém de fogo vindo do mais imo do núcleo da Terra. No mar revolto o náufrago pode encontrar nele o rumo da pedra que evite seu afogamento ou, se olhar fixo em sua direção, perder a rota e afundar no pélago. Foi com esse pensamento entre luminoso e tétrico que dei por finda a leitura de As Três Mortes de Che Guevara, de Flávio Tavares.

Final. Corpo do guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara exposto publicamente em 10 de outubro de 1967, em Vallegrande, na Bolívia

Final. Corpo do guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara exposto publicamente em 10 de outubro de 1967, em Vallegrande, na Bolívia

Só a biografia do autor já recomenda vivamente a leitura. Tavares é um jornalista competente e provado nas batalhas da reportagem cotidiana. Pousou em território mexicano por circunstâncias fortuitas: militante da esquerda armada, sob a égide do socialismo moreno do caudilho Leonel Brizola, também ele gaúcho, foi preso, condenado e torturado nas masmorras da ditadura militar até ter seu nome contemplado entre os guerrilheiros trocados pela vida do embaixador americano Charles Elbrick,  sequestrado por um grupo de românticos aventureiros da Dissidência do Partido Comunista Brasileiro na Guanabara, com a ajuda e as armas da Aliança Libertadora Nacional (ALN). Embarcou apátrida para Cuba e de lá foi para o México, onde iniciou carreira bem-sucedida de correspondente internacional do jornal Excelsior, fixando-se depois em Buenos Aires, de onde também produziu reportagens como correspondente deste Estado. De sua experiência nos porões da ditadura brasileira extraiu uma obra-prima da literatura da saga guerrilheira, Memórias do Esquecimento, cujo primoroso estilo foi chamado de “Notas de Subterrâneo, de Dostoievski, na América do Sul”, pelo argentino Ernesto Sábato, de inconteste autoridade em matéria de prosa. E não se trata de um elogio descabido.

Com esse cabedal, o autor escreveu Meus 13 dias com Che Guevara, deixando claro desde então que, se Brizola era seu chefe, seu herói era o argentino que conhecera numa reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA) em Montevidéu, em 1961. Ao conhecimento e ao currículo o autor acresceu uma ideia-mãe genial, ao propor o relato das três mortes do mártir-mor da esquerda nos anos 60. A primeira ocorrera em Havana, quando o velho amigo e companheiro de Sierra Maestra Fidel Castro se viu obrigado a se livrar dele para não criar mais problemas com o patrão soviético, que Che havia preterido em prol do inimigo chinês. A segunda se deu no Congo, uma aventura suicida e surrealista em busca de um ideal perdido no continente africano. A terceira, e definitiva, teve lugar num ermo perdido dos Andes bolivianos, onde foi executado. Desde então, sua imagem passou a ser confundida com a do Cristo morto, quadro de Mantegna exposto na Pinacoteca de Brera, em Milão, repetido na imagem da máscara mortuária do guerrilheiro abatido na selva sul-americana.

Alusão. ‘Lamentação sobre o Cristo Morto’ (1475-78), de Mantegna. PINACOTECA DE BRERA/MILÃO

Alusão. ‘Lamentação sobre o Cristo Morto’ (1475-78), de Mantegna. PINACOTECA DE BRERA/MILÃO

Ao longo da narrativa o fogo da paixão de Tavares alumiou o naufrágio de Che Guevara relatado num estilo literário irretocável. Mesmo um leitor afeito à descrição do mártir como um assassino serial bruto e implacável, que Guevara também foi, não se pode queixar em minuto algum da narrativa em que o romantismo da fé se mistura  com a decepção do devoto com a teimosia de “fé cega, faca amolada” do protagonista. Este recusou conselhos sábios de guerrilheiros africanos e nunca pareceu perturbar-se com as evidências de que o velho companheiro Fidel Castro o condenaria à morte para se livrar do estorvo vivo. E, ato contínuo, aproveitar-se de sua transformação em ícone eterno de uma revolução que trocara o romantismo pela boçalidade, investindo na hagiografia de um companheiro sacrificado pela causa comum.

Foto de arquivo. Estadão.

Foto de arquivo. Estadão.

O capítulo sobre o Congo poderia servir de roteiro para um filme de aventuras à feição de Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, talvez mais atraente do que a produção sobre a viagem de motocicleta do herói quando jovem. A estupidez inimaginável de nunca ter percebido que caíra numa armadilha quando, tendo aprendido quéchua, foi abandonado numa remota região boliviana em que se falava guarani poderia servir de inspiração a Jorge Semprún, autor do romance A Segunda Morte de Ramón Mercader, em cujo título Tavares se inspirou.

As Três Mortes de Che Guevara provoca uma leitura apaixonante por tudo o que há de verdade e emoção na vida de um líder que alcançou o poder por caminhos improváveis e encontrou a morte pela obstinação cega e inconsequente de um espírito aventureiro, rebelde e autocomplacente.

José Nêumanne Pinto

  • Jornalista, poeta e escritor

Print da página do Aliás, do Estadão.

Resenha publicada  no caderno Aliás no Estadão, em 12 de novembro de 2017.

Poema para minha tia Maria Elisa. Nossa genealogia

Poema para minha tia Maria Elisa. Nossa genealogia

MINHA TIA, NOSSA GENEALOGIA

Noite destas sonhei
com tia Maria Elisa,
sua cabeça, bandeira da paz,
suas bochechas de Nhá Benta
de Zé Bento Monteiro Lobato,
seu sorriso, promessa de bonança.
É uma lembrança feliz
de minha infância no ermo.

O calor dos abraços de titia,
casada com nosso tio Dedé,
também tio dela por parte de pai
e meu tio-avô por parte dos pais,
meio irmão de meu avô paterno,
João Evangelista, pai de meu pai,
um gaiato infrene, nada solene.
E pleno irmão de minha avó materna.
Ou seja, titia era sobrinha e cunhada
de minha avó Quinou,
que dizia que este neto era arteiro,
um menino muito amostrado,
mas, no fundo, uma boa alma,
um generoso filho de Deus.
Deus te ouça, minha avó.

A “casa da fazenda”,
como assim era chamada
e a Deus era servida,
foi o reino de titia,
seu castelo sem fada.
Meus tios, sobrinhos dela,
proseavam à luz do luar.
O candeeiro só iluminava
o documento papal
que lhes abençoava a união,
firmado por um tal de Pio 12,
emoldurado e dependurado
em lugar de honra na parede,
considerado insigne parente:
a sagração do sangue comum,
no qual a saúde era apenas
uma indulgência nada plena.
E quando uma voz, no escuro,
contava que alguém envelhecera,
meu tio Quincas, historiador,
fazendo a própria genealogia,
solteiro paquerando prima,
com quem faria prole
para os galhos do arbusto,
dizia que velho mesmo era o pai
e, mais ainda, o avô. E eram, ora!

Tio Dedé, mãos calosas da lida,
prosa aguda de sabe-tudo da vida,
era os quatro braços do casal,
cão de guarda da rainha,
sobrinha, mulher, dona e mãe,
naquelas noites que o tempo não guardou.
Terezinha foi minha madrinha,
levou-me nos braços
e me apresentou à pia batismal.
Geraldo e Geraldina, gêmeos homônimos
do santo sempre presente, o tempo todo,
são meus primos em primeiro grau,
porque titia era irmã de papai
e, em segundo ou sei lá que grau,
porque meu tio era irmão de vovó.
E meio irmão de vovô!

Sonhei um sonho morno
na cozinha da casa grande
e no sonho estava Luíza,
uma moradora abobada,
silenciosa e simpática,
que estava ali só pra ajudar,
fazendo um pouco de tudo.
E também estava Maristela,
a prima que foi guardada
para cuidar de minha bisavó,
que chamávamos de Mãe Inda,
apelido e rima de Laurinda,
que meu bisavô Alexandre
conhecera na porta do mano Vicente:
um bebê abandonado por alguém.
Minha bisavó nunca saiu da rede,
mas não sonhei com nossas conversas
sobre fartura nos tempos do coroné.
Sonhei no calor da cozinha,
apesar de sombria,
iluminada pelo fogo
que aquecia o texto
sobre cujas panelas
tia Elisa mexia a sopa
e fazia doce de caju
espesso, escuro e único.
A mãe de Terezinha era dama de salão
e na cozinha seu aconchego
produzia afeto e boa comida.
Um veneno para diabéticos
como ela, meu pai, nossos avós e eu.
Sua voz, o doce mais doce,
mais doce do que o de batata doce,
contudo, não tinha venenos.
E chamava o duas vezes sobrinho de filho.

No sonho não éramos diabéticos
e nos fartávamos do aconchego de titia
e de seus doces caseiros
com sabor de vida e saudade.

JOSÉ NÊUMANNE PINTO

 

Eliza Pinto e Dedé Pinto, meus avós

Maria Eliza Pinto e Dedé Pinto, meus tios

 

 

Mamãe Mundica e Tio Quincas diante da casinha onde passaram sua infância na Fazenda Rio do Peixe, onde nasci.

Mamãe Mundica e Tio Quincas diante da casinha onde passaram sua infância na Fazenda Rio do Peixe, onde nasci.

 

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