Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

BLOG

No Blog do Nêumanne: Cunha fora, fora Dilma!

No Blog do Nêumanne: Cunha fora, fora Dilma!

Quando Eduardo Cunha renunciou, o PT começou a despedir-se do poder de manobra que ainda lhe restava na Câmara dos Deputados provisoriamente entregue ao bizarro vice eventual, Waldir Maranhão. Afinal, este é teleguiado pela excrescência chamada PCdoB, partido de ativistas contra o impeachment mais por chicanas advocatícias do que por votações parlamentares, pois seus causídicos são imaginosos, mas seu eleitorado é escasso, do tamanho da fidelidade às determinações de Enver Hoxxa, o último tirano da Europa, que comandou de Tirana, que não se perca pelo nome, a paupérrima e cruel Albânia. Maranhão não sabe, mas em sua gestão Hoxxa é Deus e Flávio Dino, seu chefinho maranhense, o profeta. Só que ele próprio teria de ser substituído em pouco tempo por um presidente de verdade, eleito pelos votos dos pares.

A renúncia e o fogo cruzado amigo e inimigo do ex-presidente da Casa abateram o fanfarrão Cara de Cunha e a eleição do chefe da Mesa daquela passou a assemelhar-se a um arrumadinho, servido nas festas juninas de Campina Grande, tantos passaram a ser os ingredientes de sua receita complexa. Ao meio-dia de quarta 13, inscreveram-se para a disputa 17 puxadores do samba-enredo da Escola de Samba Desunidos do Eu Sozinho.

Chegado de Pernambuco, onde anunciara que é candidato a presidente da República em 2018 e que Dilma voltará do ostracismo (nem tanto) do afastamento, Pai Lulinha vislumbrou uma tábua de salvação nas pretensões de Rodrigo Maia (DEM-RJ), filho do ex-brizolista e ex-prefeito do Rio César Maia, além de figura de proa de um partido desmanchado nos anos sob égide petralha. Sem coragem de lançar candidato do desfigurado PT, Lula prometeu descarregar no antigo adversário preferencial os votos da bancada, que lhe presta vassalagem, suficientes para esmigalhar o centrão, guindado ao poder na Câmara por Cunha. E agora com ele expelido.

Só que, numa demonstração de que hoje pode ser que a criatura se imponha sobre o criador, Dilma o desautorizou decidindo com o fígado, órgão de seu corpo que ainda funciona, que o venturoso aliado de última hora foi feroz defensor do impeachment dela. E, então, negou-lhe apoio. A ideia de lançar Marcelo Castro candidato dos anti-impeachment teve a mesma inteligência inspiradora dos imbecis que convenceram a “presidenta” a apoiar Arlindo Chinaglia na disputa inglória que Eduardo Cunha venceu, esmagando no primeiro turno e de uma vez só o insigne e insignificante petista e o anticandidato tucano sem força nem voto.

Depois de uma passagem pelo Ministério da Saúde em que disse torcer para que as mulheres férteis do Brasil contraíssem a zika antes de engravidar, Marcelo Castro cumpriu a sina de bobo de corte deposta. Beneficiado pelo espírito contemporizador do chefão do PMDB que assumiu o Planalto, Michel Temer, ao não expulsá-lo do partido por grave traição, como devia ter feito, o psiquiatra piauiense deixou claro que marcar uma consulta com ele não avaliza o pleno juízo de psicopata nenhum. E, com o mesmo ânimo com que só deixou a pasta do desgoverno que desabou para votar contra o impeachment, partiu encapuzado para o sacrifício como um boi magro migra para o cutelo do marchante cruento.

E lá foi Lula junto para o previsível abate com o inglório exército de Brancaleone contra o impeachment de madama. No primeiro turno Castro teve 70 votos. Somados aos 22 de Luiza Erundina (PSOL-SP) e mais os 16 de Orlando Silva (PCdoB-SP), foram 108, apenas 2 a mais do que os 106 obtidos pelo ex-cunhista Rogério Rosso (PSD-DF) para ir à disputa no turno decisivo. Rodrigo Maia, primeiro candidato que Lula tentou apoiar, teve 120 no primeiro turno. No segundo, 285, que, somados aos 170 de Rosso, tido como candidato do desfalecido cunhismo, somam 455, 58 mais do  que os 367, mais de dois terços dos 513 deputados, que garantiram a continuidade do processo contra Dilma e seu encaminhamento ao julgamento final do Senado. Esta aritmética primária mostra que a situação de Dilma no julgamento final não está melhor agora, como o patrono dela acaba de jurar em Pernambuco.

A presidência da Câmara é muito importante. O vencedor ocupa o cargo durante ausências do vice-presidente em exercício, Michel Temer, em mais uma jabuticaba azeda – essa tolice de presidente brasileiro não governar fora do território nacional, como o fazem governantes de outros países mais relevantes no panorama geopolítico. Mas a contabilidade do impeachment revela mais: a tentativa de protelar seu julgamento final no Senado para as calendas de agosto, quem sabe novembro, com todo o esforço que o inspirador do boneco Petralowski, do grupo Nas Ruas, tem feito, de nada adianta. A lição está aí. É duvidoso que Dilma, Lula e a PT a tenham compreendido. Mas os expoentes do Senado, com assento abaixo da cumbuca oposta, têm obrigação de ver, entender e imitar.

Neste 14 de julho, pois, talvez seja de bom alvitre comemorar o resultado da eleição para a presidência da Câmara. Não apenas por ter representado uma nova derrota na marcha de Lula, Dilma e do PT ao tentarem retomar o poder que não honraram quando permitiram a ocupação da máquina pública por uma organização criminosa cujos tentáculos partidários, burocráticos e políticos exauriram a República, levando-a à mais desavergonhada sordidez ética, à mais grave crise econômica e ao maior caos político da História.

Mas também e principalmente pela capacidade que os poderes republicanos tiveram de sair de uma situação de pulverização inimaginável para encontrar uma saída que preservou um mínimo de integridade institucional. Ainda há uma íngreme subida a escalar com muito peso nas costas e poucas porções de pão ázimo e água doce para galgar das profundezas de pré-sal a que chegou a Nação. Mas o sinal de rearticulação dado a partir da evidência de que a sociedade luta para manter algum pudor e pressionar os encarregados das instituições a evitarem afundar ainda mais no pântano cívico é patente. Até mesmo para um velho pessimista e cínico como este degas aqui. É animador ver uma situação que beirava a total degradação apontar não a luz no fim do túnel, mas a nesga de céu vista por quem olha do poço de muita profundidade. Deus nos acompanhe nesta subida íngreme, neste inóspito inferno a superar, e nos leve à possibilidade de reconstruir tudo do nada a rés do chão.

Agora Cunha está fora do caminho e o povo sem mandato provou que tem força para impor a vontade de mais de 120 milhões de brasileiros: Cunha fora, fora Dilma! Esta é a palavra de ordem neste veranico seco, mas fértil em lições politicas e neste dia em que a civilização comemora o 227º aniversário da Queda da Bastilha. Allons, enfants de la patrie, vamos lá, filhos da pátria!

José Nêumanne Pinto

Jornalista, poeta e escritor

Quinta-feira 14 de julho de 2016

No Blog do Nêumanne: No mato, acuados pela cachorrada

No Blog do Nêumanne: No mato, acuados pela cachorrada

Rosângela Bittar conseguiu em seu artigo no Valor Econômico (“Loja de Conveniência”, também um título por demais porreta),  resumir de forma mais precisa do que eu ou qualquer outro colega pudemos fazê-lo essa transição da política do latrocínio para a do lenocínio que ora constatamos. Isso se passa nos últimos dias em que vivemos uma generalizada e preocupante crise de espírito coletivo, geral no Brasil que Dilma entregou em frangalhos ao vice Temer e este parece tonto com tão muito a fazer e de tão pouco dispor. Rosângela é uma senhora elegante e não compararia a Câmara com “casa de recurso”, antecessora dos motéis de hoje na Campina Grande de minha adolescência. A definição talvez seja imprópria, mas, desculpem, me parece bem apropriada. De fato, o clima na Câmara do “cada um por si e Deus só por alguns”, título que dei ao meu artigo-desabafo na página 2 do Estadão, foi relatado pela colunista de maneira mais encadeada e lógica do que em qualquer outro texto que li ou comentário que assisti ou ouvi. Palmas para ela, que ela merece. Rasgos de lucidez merecem destaque nesta República da Bizarria. Em recente conversa, o professor Joaquim Falcão, da Fundação Getúlio Vargas do Rio, opinou num café a três (isso, sim, é petit comité) que hoje a Justiça realiza plenamente um velho ditado sobre juízes, desembargadores e ministros: “cada cabeça, uma sentença”. Uma tragédia: todos os de primeira instância asseguram sua vontade jurídica (antigamente, no tempo em que o PT ainda afirmava que não furtava, havia a vontade política, que era uma espécie de panaceia de fancaria, agora é a vontade jurídica que comanda o cangaço, haja ou não morte no meio). Desembargadores distribuem sua generosidade só pra gente do andar de cima. E ministros do STJ e também do Supremo resolveram mandar, autocraticamente, em tudo. Qualquer dia, o pleno determina em jurisprudência de quantas escovadas precisa a higiene bucal. O caso do presidente lewandowski chega a ser “patoilógico”: ele usurpou até o julgamento do impeachment, que a Constituição manda ser da Câmara, primeiro, e do Senado, depois. Vitorino Freire, o soba maranhense da era pré-Dino, o patrono do tonto Maranhão, e pai do poeta Lula Freire, gente fina, parceirinho de Baden, dizia que é grave a crise na qual vaca não reconhece bezerro. Bezerrão do sertão, completo: não estamos no mato sem cachorro. Não. Estamos no mato acuados pela cachorrada. E vamos apelar pra quem? Só se for pra São Gregório, que inventou o calendário cheio de nomes de potentados romanos. Mas se,  fiel a seu devoto, ele suspender os dias úteis e inúteis até o fim da Olimpíada, como na jurisprudência lewandowskiana? Um desafio para a impotência generalizada que até mesmo Deus parece ter resolvido curtir e compartilhar nos perfis sociais lá do céu cor de anil nestes dias secos de veranico.

Quarta-feira 13 de julho de 2016

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/no-mato-acuados-pela-cachorrada/

Nesta quarta, no Estadão: É cada um por si e Deus só por alguns

Nesta quarta, no Estadão: É cada um por si e  Deus só por alguns

Fiasco albanês, um prócer irrelevante e um suspeito na polícia comandam a Câmara

Ao renunciar à presidência da Câmara dos Deputados na semana passada, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi de uma precisão cirúrgica quando desqualificou a atual administração da Casa ao empregar a expressão “interinidade bizarra”. Com o morteiro disparado na direção do primeiro sucessor do presidente (também interino) da República, Michel Temer, o ex-ocupante do poderoso e honorável posto, “sem querer querendo”, como rezava o mote do protagonista de um dos maiores sucessos da televisão brasileira, o mexicano Chaves, definiu a esdrúxula situação sob a qual vivemos todos nesta atual barafunda.

Esta nossa República é tudo menos honrada, serena e lógica. Os três Poderes atuam como se vivessem em mixórdia e intromissão permanentes, um nos outros e vice-versa, chamando o nefasto resultado geral, cínica e equivocadamente, de “autonomia”. Esta se impôs sobre a “harmonia” na base do braço de ferro e do berro mais alto. Nas atuais circunstâncias e há bastante tempo, o lema “ordem e progresso” da Bandeira Nacional não descreve a desordem vigente, a ponto de dever ser substituído por “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Em relação a esse recado generalizado à cidadania, o povo, impotente, fica na condição do “salve-se quem puder” e o resto que se dane.

De acordo com chamada na primeira página deste jornal, domingo, o segundo maior fornecedor da campanha vitoriosa da reeleição da presidente afastada, Dilma Rousseff, Carlos Augusto Cortegoso – conhecido como “garçom do Lula”, por tê-lo servido nos anos de liderança sindical no Demarchi, famoso restaurante no circuito do frango com polenta em São Bernardo do Campo –, movimentou quase R$ 50 milhões naquele pleito. Ou seja, cinco vezes o valor que declarou. Assim, a chapa Dilma-Temer teria cometido, conforme relatório da Receita Federal, duplo crime: foi financiada por caixa 2 e, ao declarar que as doações eram legais, lavou o dinheiro sujo na máquina da Justiça Eleitoral. Um desplante!

Caso o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) constate o duplo delito na investigação que promove sobre a validade dos votos sufragados em 2014, terá de mandar presidente e vice entregarem o poder ao presidente da Câmara dos Deputados, seja ele quem for. Este terá 90 dias para convocar eleição direta para um mandato-tampão até dezembro de 2018, quando, então, já terá sido eleito seu substituto constitucional. Em sufrágio direto e universal, se a disputa for este ano, antes de ser completada a primeira metade do mandato dado como usurpado por abuso de poder econômico (e com uso de dinheiro público, o que é mais grave). Ou em eleição indireta, pelo Congresso, se a decisão for posterior.

Ocorrendo isso, em qualquer das hipóteses, falirá a lorota do “impeachment sem crime é golpe”, que mantém o fio inconsútil do que ainda resta do mandato de Dilma e do PT. Seu substituto constitucional, Michel Temer, eleito vice também de forma supostamente ilícita, sucumbirá junto. E levará no féretro a equipe econômica mais equipada para tirar o Brasil da crise e reconstruir a credibilidade do Estado. A Nação ficará, na hipótese, a reboque de algum aventureiro que emergir das urnas ou do painel do plenário parlamentar, ambos eletrônicos. Não será algo a se chamar de “o melhor dos mundos”. Muito ao contrário!

A eleição direta, única capaz de refletir a vontade popular, é volátil a ponto de ter inflado, de um lado, Jânio, Collor e Dilma, produtos da paixão popular por aventureiros que se fingem de faxineiros contra a corrupção e terminam enredados nos crimes que denunciavam. E, de outro, Fernando Henrique e Lula, representantes de grupos políticos consolidados que terminaram se dissolvendo numa cultura de ácido implacável que derrete idolatrias e reputações. O tucano foi abatido pela vaidade do segundo mandato. O petista, pela ilusão do fogo-fátuo da fortuna fácil.

O esfarelamento dos partidos, flagrado na disputa da presidência da Câmara por meio ano e meio mês, desmoraliza utopias como o parlamentarismo e suas variações “semi”. E revela o pragmatismo de chiqueiro na disputa pela proximidade da gamela em que é servida a lavagem. O baixo clero que elevou Cunha ao cargo que lhe permitiu abrir o impeachment da desafeta de última hora, Dilma, logo se desfez diante da evidente ausência de um mínimo de espírito público nele.

Waldir Maranhão, eleito vice na chapa vencedora por 80% dos pares, muitos dos quais certamente agora fingem tapar o nariz, entregou-se à farra do poder inesperado, participando de farsas tão absurdas como a tentativa de interromper o impeachment no Senado apenas pela vontade de seu líder, Flávio Dino (PC do B), governador do Maranhão. Ou seja, pelo projeto político de entregar o destino de uma das dez maiores economias do mundo à ditadura grotesca que produziu a excrescência albanesa, retrato de miséria política e econômica num continente abastado e plenamente democrático.

Para completar, o bizarro intendente interino tem mais dois diabos a servir. De um lado, Rodrigo Maia (DEM), herdeiro de César Maia, hoje sem relevância na política do próprio Estado, o Rio. E, de outro, pai Lulinha, cujo impávido colosso desmoronou sob sua imagem corroída por várias investigações policiais e jurídicas. Representante de um Estado sem peso político e econômico e incapaz de conduzir sessões da Câmara até o fim, Maranhão balança entre um prócer irrelevante e outro investigado pela Polícia Federal, pelo Ministério Público Federal e Estadual de São Paulo, sob a égide da Justiça Federal no Paraná e da Estadual em São Paulo. A bizarria do interino desfila entre o baile da saudade e a medalha olímpica dos saltos orçamentais.

A hipotenusa do triângulo é o Judiciário do “cada um por si e Deus só por alguns”, regime no qual a paridade de todos é submetida a privilégios que a promiscuidade assegura.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 13 de julho de 2016)

 

No Blog do Nêumanne: Impeachment já

No Blog do Nêumanne: Impeachment já

Alguém aí sabe por que o presidente do STF exige que Senado só julgue impeachment de Dilma em 26 de agosto?

Não há nenhuma razão para empurrar a votação do impedimento da presidente afastada, Dilma Rousseff, para as calendas gregas, seja para depois da Olimpíada, seja para as vésperas da substituição de Ricardo Lewandowski por Cármen Lúcia na presidência do Supremo Tribunal Federal (STF), quando setembro chegar. A conclusão do processo de impeachment pode ocorrer agora. Não há mais por que esperar. Sejam dados os 15 dias para o advogado José Eduardo Martins Cardozo defender o indefensável e, pronto, que se julgue logo, pois nada mais há a esperar.

Tudo o que podia ser feito para protelar a decisão final já foi feito. Em nome da plena defesa da processada, Cardozo, o garboso, pediu que fossem ouvidas 40 testemunhas de defesa. Todas foram ouvidas na Comissão do Senado. Nenhuma faltou. Nenhuma contou nada de novo. Ex-ministros, burocratas do undécimo escalão, juristas de renome, outros nem tanto – todos já disseram o que tinham a dizer. Fizeram coro ao mantra do Partido dos Trabalhadores (PT), do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dos sermões de Frei Leonardo Boff: “Impeachment sem crime é golpe”. O conselheiro Acácio, personagem de Eça de Queiroz que só constata o óbvio – o óbvio ulula, diria outro famoso cultor da boa língua pátria, Nelson Rodrigues -, estrebuchou na tumba inexistente de tanto rir, é claro.

Ora veja só que descoberta: a lei, de 1950, mais velha do que o autor destas linhas, já estabeleceu que há um tipo de crime que leva à interrupção legal do mandato de um chefe de governo legitimamente eleito pela maioria (que a Constituição de 1988 tornou obrigatório ser absoluta). É o crime de responsabilidade. Ou seja, o crime cometido na gestão do interesse de todos, da coletividade. Fernando Henrique Cardoso, antes de implantar um marca-passo em seu bondoso coração, já esclareceu publicamente que nada indica que Dilma tenha cometido um crime pessoal. Ou seja, tenha matado alguém. Ou batido a carteira de algum incauto. No entanto, por mais que seja generoso o músculo cardíaco de nosso sociólogo-mor, não vai parar de pulsar para constatar que o tal do crime contra a coletividade Sua Excelência Excelentíssima cometeu.

O professor Modesto Carvalhosa, especialista-mor em leis anticorrupção no Brasil, já me lembrou por escrito ou por telefone que esse é o crime pior. Pois também mata. Cada brasileiro que caiu num buraco de estrada que não foi mantida, porque Dilma preferiu gastar a grana para cobrir rombos nos bancos públicos, terá sido vitimado por crime de responsabilidade dela. Também são vítimas do mesmo delito os milhões que perderam seu emprego e padecem privações, quem sabe até a morte por inanição. E os pacientes que não conseguem atendimento nos péssimos hospitais públicos brasileiros – e não apenas os federais, mas todos quantos dependem do diabo do SUS. Ah, o SUS! E as crianças mantidas na ignorância porque escolas públicas para todas não há na pátria educadora de Dilma, esta República da madama Coração Valente (e boca de mentira).

Bem, esses crimes teriam de ser provados. Uma equipe de 50 peritos (não os 40 ladrões de Ali Babá nem a dúzia de apóstolos de Jesus Cristo, mas meia centena) do Tribunal de Contas da União (TCU) constatou que, no exercício do majestático e truculento poder presidencial, Dilma assinou decretos que caracterizam violação da Lei da Responsabilidade Fiscal, que Fernando Henrique assinou bem no comecinho deste século 21.

E também “pedalou”. Não, Dilma não deu o drible de Robinho no Rogério. Ela pegou bilhões de reais disponíveis nos cofres públicos e os usou na administração federal como se fossem dela. Flagrada em delito, devolveu cinco meses depois. Mas o garboso Cardozo reclamou. Queria uma equipe isenta do Senado para auditar a auditoria. O presidente da Comissão do Senado, Raimundo Lira (PMDB-PB), negou. O relator do impeachment, Antonio Anastasia (PSDB-MG), também. Mas lá estava o vigilante Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), para garantir a megadefesa de super-Dilma. Madama tinha pedido que o Senado substituísse os peritos escolhidos para periciar os peritos do TCU. Anastasia e Lira cederam, antes de o caso demorar ainda mais, se tivesse de passar pelo crivo do presidente do STF. Não foi preciso.

Os peritos “confiáveis” já deram seu veredito. Habituados a atender não a dois, mas a 81 senhores, confirmaram a autoria da “presidenta” em três dos quatro decretos. E o quarto? Não houve o quarto, festejou a bancada do chororô, entre uma crise histérica de Gleisi Hoffmann (PT/PR) e uma carteirada do coronelzinho Lindinho Farias. Eles ganharam de um a três – como ganhamos da Alemanha de um a sete, lembra-se?

Ah, mas dona Dilma não “pedalou”, pois os peritos do Senado não encontraram suas digitais nas “pedaladas”. Só que também delínque o gestor que se omite, ensinam Ives Gandra da Silva Martins, Carlos Ari Sunfeld e Régis de Oliveira, que entendem do traçado. Que fazer? O veredito dos peritos é o mesmo antes dado pela Comissão de Impeachment (38 a 27) e pelo plenário da Câmara: 367 dos 513 deputados federais. Na Comissão de Impeachment do Senado, 15 a 6. No plenário, 55 dos 81 senadores. Todas com folgada maioria no primeiro e mais de dois terços dos votos nos outros três julgamentos – quatro a zero. Por que postergar ainda mais?

Ah, sim, há prazos a cumprir. E Lewandowski, acostumado a “lewar” o tempo a pontapés, já decidiu que na Olimpíada não pode ser. Não explicou em que jurisprudência se baseou. Será que há alguma? O ministro da Justiça de Temer, Alexandre de Moraes, contudo, inverteu o raciocínio procastinatório do juiz maior do Brasil. Se não pode ser durante, por que não julgar antes? “Essa incerteza leva à impaciência, e a impaciência leva, às vezes, a manifestações mais exacerbadas que acabam derivando pra quebra-quebra, para dano ao patrimônio público. Então, o ideal seria, obviamente, que houvesse o julgamento antes, mas, pelo cronograma que o STF elaborou, isso deve ficar para depois. Também não afetará a Olimpíada”, disse Moraes. Depois não digam que ele não avisou.

Há um equívoco aí. O STF nunca elaborou nada a respeito. Quem elaborou, determinou e exige cumprimento é o presidente Ricardo Lewandowski. Este, sim, está comandando a seu talante um processo previsto na Lei de 1950 e na Constituição de 1988 como de exclusivo julgamento da Câmara, que autoriza, e do Senado, que processa e julga. Não há mais testemunhas da defesa a depor nem peritos a periciar. Há apenas a vontade do douto juiz de empurrar com a barriga de tanquinho. Resta saber que tipo de despacho dará para continuar presidindo o julgamento depois que Cármen Lúcia assumir a presidência do STF em seu lugar. Para isso, caro leitor, temos de esperar. Esperemos, pois, 26 de agosto e saberemos o que ele fará. Mas nada de ficar para novembro, certo?

Seja o que for, Lewandowski errará feio. Pois o certo – para o cidadão que fecha empresa, perde emprego e cuja renda acaba antes de o mês acabar – seria o impeachment já.

Jornalista, poeta e escritor.

(Texto do Blog do Nêumanne no Estadão, 11 de julho de 2016)

No Blog do Nêumanne no Estadão: Covarde e mentirosa

No Blog do Nêumanne no Estadão: Covarde e mentirosa

Carta que Dilma não leu no Senado mente, tergiversa e desafia São Gregório

Está preso em Curitiba o marqueteiro João Santana, na adolescência conhecido como Patinhas e nos autos da Operação Lava Jato como Feira, referência a Feira de Santana, cidade da Bahia, próxima daquela onde nasceu, Tucano. Ele responde por ter auferido propinas milionárias de empresas que forneceram equipamentos ou executaram obras para a Petrobrás. Não por ter definido como Coração Valente sua patroa, Dilma Rousseff, em cujas campanhas eleitorais – a eleição em 2010 e a reeleição em 2014 – ele produziu e executou o marketing. Essa marca foi uma obra-prima de sua imaginação fértil.

Nada há de valentia, mas somente covardia, na decisão que a personagem dele tomou de não comparecer à comissão do impeachment do Senado, pela qual está sendo julgada, com prazo de encerramento marcado para novembro, por crime de responsabilidade na administração resultante das vitórias nas urnas. A carta que mandou seu ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União José Eduardo Martins Cardozo ler, ao contrário, é patética, extremamente arrogante, covarde e mentirosa de cabo a rabo. O ato de não comparecer, não tendo nada mais importante a fazer, já é pusilânime em si, pois a única explicação para o que fez é o medo de se comprometer ainda mais diante do questionamento da advogada de acusação Janaína Paschoal e de senadoras e senadores que não simpatizam com sua causa: voltar ao poder.

Despertar piedade sem sequer pedir perdão, arvorar-se em injustiçada sem apresentar evidências e fingir-se de vítima sem definir a atrocidade assacada contra ela foram suas táticas explicitadas sem subterfúgios desde a abertura. “Já sofri a dor indizível da tortura”, começou. É uma óbvia apelação, que se tornou seu mantra desde que surgiu na vida pública pelas mãos do ex-chefe Lula. Foi torturada? E daí? Dilma repete exaustivamente que o foi mesmo. Em entrevista a Luiz Maklouf de Carvalho, à época na Folha, contou que, durante 22 dias no DOI-Codi de São Paulo, teve até  dentes quebrados pelo “capitão Maurício”, o hoje tenente-coronel Maurício Lopes Lima. Outro repórter de responsa, Luiz Cláudio Cunha, atesta que ela disse a verdade, não o oficial, que, ao ser interrogado a respeito, disse que a interrogou, mas nunca a molestou.

Apesar de conhecer sua propensão à mentira, neste caso tudo indica que ela contou, sim, um fato. Sobra, contudo, uma cobrança que Cunha fez e eu repito: o milico, um cínico de marca, contou que lamenta não lhe ter pedido um cartão de visitas por não ter previsto que ela seria presidente, tão bem que a tratou. Na Presidência da República Dilma não enquadrou o indivíduo nem os comandantes das Forças Armadas, inclusive o comandante do Exército, general Enzo Petri, que, em resposta a solicitação oficial da Comissão da Verdade, instituída por Dilma, garantiram não ter havido sevícias nas repartições militares durante a ditadura. Nem o tíbio ministro da Defesa de então, Celso Amorim. Com isso, a presidente inutilizou o trabalho da comissão.

A presidente afastada foi torturada, sim. E daí? Desde quando vítima de tortura tem direito a indulgência plena? Trata-se de uma tolice da doença infantil do esquerdismo, que o velho Lenin execrou. Por falar em doença, voltemos à carta. “Já passei pela dor aflitiva da doença”, alguém escreveu por ela e Cardozo leu aos senadores. Quem não terá passado, principalmente depois dos 60, casos dela e meu? E qual é a conclusão? Quem já adoeceu merece perdão prévio por pecados, erros ou delitos que  cometer – como índices de inflação e desemprego de dois dígitos, quebradeira e roubalheira desenfreadas sob sua égide – só porque sobreviveu? Menas, querida, menas, diria seu chefinho.

“E hoje sofro a dor inominável da injustiça. O que mais dói é perceber que estou sendo vítima de uma farsa política e jurídica”. Qual? Ela foi afastada da Presidência da República, para a qual foi eleita e reeleita, num processo de impeachment instaurado na Câmara a pedido de um ex-fundador de seu partido, o promotor Hélio Bicudo, um ex-ministro da Justiça, o adversário tucano Miguel Reale Júnior, e a professora de Direito da USP Janaína Paschoal. Todos investidos na condição legal de cidadãos brasileiros. E o crime de responsabilidade é grave, porque atinge toda a cidadania, e não apenas cidadãos isoladamente, esclarece o jurista Modesto Carvalhosa.

O Tribunal de Contas da União (TCU) indicou 50 peritos para saber se ela cometeu tal crime ao assinar decretos não autorizados pelo Legislativo e usar saldos de bancos públicos sem devolvê-los imediatamente, as tais “pedaladas fiscais”. Os peritos a incriminaram. O procurador do TCU Júlio Marcelo de Oliveira testemunhou contra ela no processo. Eduardo Cunha, seu antigo aliado e cúmplice, abriu o processo, usando prerrogativa legal de presidente da Câmara. Em plenário, 367 dos513 deputados federais autorizaram o Senado a julgá-la. Na comissão do impeachment do Senado, 16 senadores contra 5, dos 21, encaminharam a votação para o plenário, que a afastou do cargo por 54 votos dos 81 possíveis. Em todos os casos, há mais de dois terços de reprovação ou, no mínimo, dúvida sobre sua conduta. O que justificaria tanta injustiça, a ponto de ela classificar o processo de “farsa jurídica e política” e até de “golpe”, segundo sua carta, de um novo tipo, o desalmado desarmado?

Defendida da “farsa” pela simpatia solidária do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), por seus cinco aliados da “bancada do chororô”, simpatizantes e admiradores ela conseguiu a oitiva de 40 (não podia ser um total que não repetisse Ali Babá, céus?) testemunhas de defesa, que nunca viram nada e, por isso, de nada sabiam. E peritos do Senado reconheceram a prática de crime em três dos quatro decretos ilegais e nas “pedaladas fiscais”, nos quais não encontraram suas impressões digitais. “Crime de responsabilidade também é praticado por omissão”, esclareceram-me pessoalmente juristas ilustres, como Ives Gandra da Silva Martins, Carlos Ari Sunfeld e Régis de Oliveira, Se houve ou não, julgam os julgadores. Não é assunto para peritos. Parece óbvio até para analfabetos jurídicos, como o autor destas linhas.

 Na carta, Dilma também insistiu na hipótese absurda de o principal beneficiário de seu afastamento, Michel Temer, não ser legítimo por, ao contrário dela, não ter votos. Acontece que se Temer a elegeu “presidenta”, em 2010 e 2014, ela também o elegeu eventual substituto. Os 54 milhões de votos que derrotaram Aécio em 2014 foram dados aos dois e em sua obtenção o PMDB liderado pelo vice teve participação decisiva. Ela não teria sequer chegado ao segundo turno se não se tivesse aliado a ele. Por isso mesmo, a dupla Dilma-Temer responde agora mesmo a processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no qual a chapa de ambos pode ser cassada por práticas ilegais, também na eleição. Parece pouco? Olhe que as mentiras que ela contou sobre a situação do País no mesmo pleito não são consideradas criminosas. Embora tenham ajudado a elegê-los.

Por falar nisso, ela escreveu e o garboso Cardozo leu que o governo Temer “É” a crise. Ora, a grave crise data de 2014, como qualquer criança de 2 anos sabe, e o vice assumiu em maio último. O argumento, então, é construído com o mesmo critério antigregoriano dos decretos assinados em julho e legalizados cinco meses depois, em dezembro. A lógica dessa patacoada só se imporá no dia em que efeito causar causa. Mas quem se arrisca a explicar isso pra madama?

Jornalista, poeta e escritor

Para ler no Blog clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/covarde-e-mentirosa/

No Blog do Nêumanne no Estadão: E tudo termina em vinho

No Blog do Nêumanne no Estadão: E tudo termina em vinho

Pizza já era! A velha corrupção brasileira comemora com bons vinhos as colheitas de seu furto

Antes de ser ministro de Lula e de ter estraçalhado a própria biografia combatendo direitos autorais e lutando pela privacidade absoluta dos colegas artistas ricos e famosos, o baiano Gilberto Gil foi exilado pela ditadura militar e de Londres, roendo-se de saudade, compôs e gravou a obra-prima Aquele Abraço. O samba nostálgico virou uma espécie de hino informal dos exilados, fora (ou dentro) do Brasil. Após me ouvir cantarolando-o, a diretora da Rádio Estadão, Paula Miranda, mandou tocá-lo em minha despedida da hora de 7 às 8 que passo no estúdio, na companhia luxuosa de Alexandra Romano e Haisen Abaki, fazendo uma revisão da tumultuada Pátria amada salve, salve. Valeu até como epígrafe: o Rio de Janeiro continua lindo, mas, sobretudo, continua sendo…

Provas não faltam. O prefeito falastrão Eduardo Paes, disposto a fazer o País – e, sobretudo, Maricá, na Grande Rio – esquecer as besteiras que andou falando e, pior que tudo, fazendo – como a ciclovia Tim Maia, que desabou, dissolvida em espumas de ressaca, também continua causando. Depois de ter chamado de “terrível” a gestão da polícia pelo Estado a um mês da Olimpíada, ele resolveu ser camarada dos turistas e avisou que a cidade que ele governa não é nenhuma Nova York, Chicago ou Londres. Esquece-se de que Nova York foi sinistra antes da “tolerância zero”; Chicago era de lascar à época da Lei Seca; e a Londres de Dickens nunca foi um modelo de conforto e tranquilidade. A imagem atual delas foi feita com sangue, suor e lágrimas, como diria um célebre morador de Londres, o lorde almirante Winston Churchill. OK, tudo bem. Talvez fosse o caso de o Comitê Olímpico ter sido avisado quando, seduzido pelo charme de Lulinha de Lindu e Serginho de Cabral, preteriu Madrid, Tóquio, que também podiam ser citadas na frase de Paes, e Chicago, que ele lembrou. Mas não adianta chorar sobre o leite derramado, dizia vovó Quinou: há que pegar o touro à unha longe da plaza madrilenha das Ventas.

Paes não foi o primeiro a avisar aos turistas que a cidade não é mais tão maravilhosa quanto na marchinha de carnaval famosa de André Filho, mas ainda é cheia de encantos mil e também faz festas espetaculares, como o réveillon de Copacabana e o desfile de escolas de samba na Marquês de Sapucaí. Os policiais, que não recebem do governo estadual, fizeram plantão na frente do Galeão (Aeroporto Tom Jobim) para dar a temerários turistas “boas vindas ao inferno”. Um carro da Força Nacional, convocada a colaborar com as autoridades policiais locais no patrulhamento da Olimpíada, teve um retrovisor espatifado por uma bala perdida num lugar que frequentei muito: a Avenida Brasil, perto da Linha Amarela. Nota oficial providencial avisou que a recepção espantosa à ajuda prometida não ocorreu na vigência de seus serviços. Imagine se tivesse ocorrido, diria mestre Ariano Suassuna. Seria a crônica da carnificina anunciada. Nunca vi uma bala perdida, algo inusitado naquele distante 1969, ano em que morei no Rio, mas o agente assustado transmitiu para o País seu terror. Pudera!

E esta não foi a única homenagem que a cidade dedicada a São Sebastião, soldado flechado e seu padroeiro, prestou ao conselheiro Acácio, de Eça de Queiroz, nestes últimos dias. Como aquele predecessor do óbvio ululante do carioca nascido no Recife Nelson Rodrigues, Paes o constatou. E o paulista Alexandre de Moraes, ministro da Justiça de Temer, também. Sua Excelência reconheceu o que nenhum carioca fez, nem os de adoção: que há risco de terrorismo no Rio. Pode ser até que ele se tenha inspirado na conversa que teve com o chefe Temer no barbeiro, depois de esperá-lo, sem que o dono do salão soubesse o que podia fazer naquele seu coco raspado. Bom, pelo menos ele deve ter lido nos jornais que o Estado Islâmico (EI) está espalhando o terror pelo mundo porque é acossado nos territórios que tinha conquistado na Turquia e no Irã. A Olimpíada é um destino óbvio de seus terroristas-bombas. E a não ser que os bandidos locais ajudem a combater os importados, não vai ser fácil as autoridades imporem a ordem pública numa cidade onde traficantes pés-de-chinelo, como o Fat Family, são resgatados á bala, com morte de inocente, em hospital público apontado como modelo na propaganda oficial da Olimpíada mais privatizada do mundo (ao menos segundo Paes). Mas não é o caso de chamar desgraça, pois no Rio este talvez seja o único produto que se pode encontrar nos hospitais, escolas e outras repartições.

Seja Alá misericordioso para que o Estado Islâmico não queira repetir as agruras do Bin Laden imaginário do humorístico da TV, nos morros do Rio! Afinal, Dilma Rousseff, sempre disposta a negociar com os terroristas da jihad, pois agora só cuida de eliminar golpistas ao redor, e não tem mais autoridade para negociar com eles, como pretendia, numa ação sem graça, ainda mais absurda do que a piada na TV.

No meio desses tiroteios todos, o Rio ainda é capaz de apresentar sinais de que a mudança da capital para Brasília não evita que ela continue fornecendo personagens que sintetizam a velha malandragem nacional, nem sempre boa. É o caso de Fernando Cavendish, o empreiteiro grã-fino e finório que se dá bem há muito tempo, apesar de também se ter tornado notório, uma rima, mas nunca uma solução.

Com ele veio a lume o desembargador federal Antônio Ivan Athié, do Tribunal Federal da 2ª Região (TRF2), protagonista de um processo levado ao Supremo Tribunal Federal (STF) em 2004, acusado de ter participado de um esquema de fraudes no sistema judicial que resultaram em danos ao patrimônio público. Athié resolveu mandar Fernando Cavendish e Carlinhos Cachoeira pra casa com tornozeleiras, mas eles só ficaram na prisão porque não há tornozeleiras à disposição no Rio. Tendo-o feito, declarou-se “suspeito” em ações do empreiteiro. Manda soltar e, depois, declara-se “suspeito”. Não é a cara deste nosso Brasil varonil?

De uma coisa, contudo, nem ele nem o Rio podem ser acusados: sua cidade não é mais a capital federal, que Juscelino Kubitschek transferiu para o Planalto Central do País, que Caetano, parceiro de Gil, exalta na canção que começa e encerra a novela Velho Chico, de Benedito Ruy Barbosa, às 21 horas, na Globo.

Em Brasília, ao contrário do que pensa quem não é muito bem informado, nem tudo termina em pizza. A maioria das transações mais sinistras começa em regabofes que reúnem amiguinhos dos três Poderes regados à melhor produção vinícola de Bordéus e arredores. Pois nossa pátria da máfia pública, que ainda controla os cordéis republicanos na cidade construída no lugar onde São João Bosco sonhou, não recorre a tradições napolitanas para celebrar seus feitos de furto. Mas às melhores safras vinícolas do Velho Continente, da Califórnia e da Oceania.

E antes que me esqueça, aquele abraço.

Jornalista, poeta e escritor

No Estadão:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/e-tudo-termina-em-vinho/

Página 20 de 51«...51015...1819202122...2530354045...»
Criação de sites em recife Q.I Genial