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Coluna semanal do Ric Mais: O bajulador-geral da República

Coluna semanal do Ric Mais: O bajulador-geral da República

O Grupo Ric de Comunicação põe à disposição de emissoras de rádio e jornais impressos ou em edição virtual três podcasts de três minutos cada e um artigo por semana. Interessados em publicar este material original deve entrar em contato com mash.leonardo@gruporic.com.br

 

 

O bajulador-geral da República

José Nêumanne

Procurador-geral volta aos tempos de dublê de advogado para servir a quem pode levá-lo ao STF

Qualquer advogadozinho de porta de cadeia – até mesmo o rábula petista que ora ocupa a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) – se daria por mais que satisfeito com as provas que o presidente da República, Jair Bolsonaro, dá para justificar todas as acusações feitas contra ele por Sérgio Moro. Era de imaginar, então, que o ex-advogado e atual procurador-geral, Augusto Aras, não perderia o expediente para buscar pelo em ovo no parecer encaminhado ao decano daquela instituição, ministro Celso de Mello, ao fazer considerações aleatórias sobre temas que não são de sua alçada. E pior: para as quais não dispõe de prova nenhuma.

Primeiro, ausentou-se da sessão para a qual foram convidados o Ministério Público Federal (MPF), que chefia, a Advocacia-Geral da União (AGU), à qual parece prestar serviços extraordinários, o acusador Sergio Moro e sua defesa, demonstrando nítido desinteresse pelo assunto em pauta. E, depois, produziu esta pérola: “O procurador-geral da República não compactua com a utilização de investigações para servir, de forma oportunista, como palanque eleitoral precoce das eleições de 2022”. Atribuiu ao acusador a pecha de fazer uso eleiçoeiro de suas denúncias. De lambujem, despachou contra a degravação do vídeo, aproveitando para fazer sibilinas críticas ao relator pela rapidez com que toca o inquérito.

Assim, confirma a avaliação deste autor de que ele é disponível aos interesses de velhos amigos do PT, como José Dirceu. E cumprirá a autoanistia empreendida por quem o nomeou para o cargo, Jair Bolsonaro, desmascarando a sub-reptícia aliança de interesses entre lulopetismo e nazibolsofascismo. Diz-se que o ex-PGR Geraldo Brindeiro foi “engavetador-geral”. Se for coerente com seu parecer, o baiano Aras, filho do petista Roque, maçaneta de Chico Pinto, que frequentava a casa do chefe da segunda seção do Exército em Salvador, a quem revelava nomes e atos de adversários da ditadura militar, arquivará as acusações contra o atual presidente. O despacho de arquivamento não poderá ser anulado pelo relator, pois a decisão final não cabe ao juiz, mas a ele. Ainda assim, as forças democráticas não assoladas pela covardia terão de cobrar do Senado punição cabível para adverti-lo de que o Ministério Público, elevado pela Constituição de 1988 a “quarto poder” de fato, nunca deveria ser chefiado por um “bajulador-geral da República”. Até para os varões desta República se redimirem do aval que deram a quem joga no lixo a imagem positiva que sua corporação tem no povo que paga seus polpudos vencimentos.

E é por isso que aquele que pode indicá-lo para o lugar do decano no STF aposta no destino de país tribal transaariano para nossa desafortunada Pátria amada, mãe gentil.

*Jornalista, poeta e escritor

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Comentário no Jornal Eldorado: A versão mutante de Bolsonaro

Comentário no Jornal Eldorado: A versão mutante de Bolsonaro

Tentando desmentir vídeo da reunião com provas de que interferiu na superintendência da PF no Rio, o presidente Jair Bolsonaro afirmou à imprensa que não havia menção à família nem à Polícia Federal no encontro. “Não existe no vídeo a palavra Polícia Federal e nem superintendente”, disse, então, sendo seguido na mesma narrativa por seus três ministros generais em depoimento no inquérito do STF a respeito das acusações de Sérgio Moro contra ele. Mas a Advocacia-Geral da União (AGU) informou ao Supremo Tribunal Federal (STF) em manifestação para pedir ao decano Celso de Mello que não autorize a abertura do sigilo integral do vídeo trechos de sua participação na reunião citando a sigla PF. E ele voltou atrás. A versão é estapafúrdia e a situação piora muito quando ele a muda amiúde ao sabor da própria conveniência.

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Assuntos para comentário da sexta-feira 15 de maio de 2020:

1 – Haisem – Em reunião, Bolsonaro cita ‘família’ e ‘PF’, diz AGU – diz título do alto da primeira página da edição de hoje. Se nem a Advocacia-Geral da União, em sua defesa, sustenta a versão que o presidente da República e seus ministros militares inventaram para seu desempenho na reunião dó conselho de governo, alguém ainda acredita nela

2 – Carolina – Presidente pede a empresários ‘jogo pesado’ contra Doria – O que significa essa declaração de guerra do chefe do Poder Executivo federal contra os 27 chefes de Poderes Executivos estaduais em plena pandemia e visando a um cálculo para eleição de daqui a 2 anos e 5 meses

3 – Haisem – Medida provisório dá salvo conduto a maus gestores – Que intenções você acha que pode haver nessa providência adotada pelo governo federal e quais são as chances de sua tramitação no Congresso

4 – Carolina – Se é verdade que o Planalto é que pediu à deputada bolsonarista Carla Zambelli para oferecer vaga no Supremo Tribunal Federal a Sérgio Moro em troca da aceitação do afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, em que se sustenta a única defesa do presidente da República diante das acusações do ex-ministro da Justiça ao pedir demissão

5 – Haisem – Qual sua opinião sobre o artigo Limites e responsabilidades, do vice-presidente Hamilton Mourão na página 2 do Estadão de ontem

6 – Carolina, Média de isolamento social no País é de 43,4% – diz a manchete do Estadão na primeira página hoje – Que conseqüências traz esta notícia para a situação que já é pra lá de preocupante na situação do atendimento hospitalar aos brasileiros infectados pela covid-19

No Estadão desta quarta-feira: A democracia apodrece na república dos poltrões

No Estadão desta quarta-feira: A democracia apodrece  na república dos poltrões

José Nêumanne

Bolsonaro dá sinais de que quer autogolpe, mas falsos democratas só reagem em notas inócuas

Em 19 de abril, Dia do Exército, o presidente da República tomou café com os filhos 01, 02 e 03 e foi ao Quartel-General da Força, à frente do qual discursou para manifestantes que carregavam cartazes, entre os quais um clamava: “Intervenção militar já com Bolsonaro”. O ato reivindicava novo Ato Institucional n.º 5 para fechar o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF). Ali, entre acessos de tosse, afirmou: “Eu estou aqui porque acredito em vocês”. A Polícia do Exército garantiu a segurança dos presentes. E nenhum golpista foi preso em flagrante. O procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu e o STF autorizou inquérito para investigar quem organizou, financiou e compareceu ao ato, mas omitiu o nome dele. Ninguém foi processado e preso por ter violado a Lei da Segurança Nacional, incorporada à ordem legal vigente. No dia seguinte, parodiou Luís XIV: “Eu sou a Constituição”.

Em 30 de abril, proibido de empossar na chefia da Polícia Federal (PF) Alexandre Ramagem, seu segurança na campanha e amigo de seu filho 02, por liminar dada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, Bolsonaro chamou a decisão de “canetada política”, em insulto inédito de chefe de um Poder a ocupante de outra instituição sediada na Praça dos Três Poderes.

Em 3 de maio, profissionais da saúde protestaram em silêncio naquela praça contra a inércia do governo federal em relação à pandemia de covid-19. Marluce Gomes fez parte do grupo de bolsonaristas que reagiu à manifestação e insultou uma de suas participantes: “Quando a gente sente o cheiro de quem não passou perfume, a gente entende o tipo de pessoa que você é”. Identificada pelo Conselho Federal de Enfermagem, ela foi processada. Na terça-feira 5, ela iria ao cercadinho, que o chefe do governo usa como tribuna de fala do trono, para homenageá-lo em altos brados. No ataque aos heróis populares, que, ao contrário do “Mito”, arriscam a vida para enfrentar o contágio do novo coronavírus, ela teve a companhia de Renan Sena. Este agrediu um manifestante e é empregado de uma empresa que presta serviços ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (!), de Damares Alves, por R$ 20 milhões. O empresário Gustavo Gayer completa o trio identificado. Não há notícia de que seu idolatrado condottiere os tenha recriminado.

No dia seguinte, domingo 4 de maio, Sua Excelência voltou a se dirigir a manifestantes antidemocráticos da rampa do Palácio do Planalto, símbolo do poder nesta insana República. Mais uma vez, os golpistas não foram abordados pela polícia, cujo superior hierárquico é Ibaneis Rocha, advogado trabalhista e governador do Distrito Federal, que decretou isolamento social e passou um fim de semana em Maceió (AL), com um grupo de amigos. Uma vez mais, o procurador-geral da República não incluiu o nome de Jair Messias no inquérito, autorizado pelo STF.

Na segunda-feira 8 de maio, o chefe do Poder Executivo arrebanhou um grupo de dirigentes de associações sindicais de industriais, que compareceu a seu gabinete para cobrar medidas por ele prometidas três semanas antes à Confederação Nacional da Indústria para uma saída organizada do isolamento social. Em vez de lhes dar satisfação, liderou uma caravana até o outro lado da praça, numa réplica da Marcha sobre Roma, com que Benito Mussolini instalou a ditadura fascista na Itália, em 1922. Foi recebido pelo amigão Dias Toffoli na presidência do STF e este lhe avisou que a responsabilidade sobre o pedido dos empresários era do presidente da República, e não da Justiça. A invasão da cúpula do Judiciário foi transmitida ao vivo em live em rede social.

Ontem, por decisão do decano do STF, Celso de Mello, autoridades e advogados representando o presidente da República, a PGR, a PF, o STF e o ex-ministro da Justiça Sergio Moro viram o vídeo de uma reunião do tal Conselho de Governo, com 30 membros, como parte do inquérito aberto a partir de acusações que o ex-auxiliar lhe havia feito ao pedir demissão. Não faltam vexames: o presidente ameaçando o ex-ministro de demissão, o ministro da (falta de) Educação insultando as homenageadas no domingo 10 pelos membros do STF, o chanceler acusando a China de ter usado o novo “comunavírus” para dominar o mundo e o chefão de todos cobrando de Moro não ter falsificado o atestado de óbito de um agente da Polícia Rodoviária Federal morto por covid-19.

Sua obsessão em debochar da pandemia chegou ao extremo de anunciar um churrasco no sábado 9 de maio, quando o total oficial de óbitos ultrapassou 10 mil. E depois dizer que foi um anúncio fake para desmoralizar repórteres “idiotas”. E passeou de jet ski no Lago Paranoá, enquanto a princesa Sofia, da Suécia, atendia pacientes de covid-19 num hospital em Estocolmo.

Apavorada, a Nação pergunta até quando falsos pais da Pátria, que deviam defender o Estado de Direito com fatos, vão se abrigar em notas oficiais inócuas, enquanto ele inspira canalhas que chutam ataúdes e desonram a Bandeira Nacional hasteada a meio mastro em luto pelas vítimas de um genocida ignorante, perverso e insensível.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo na quarta´feira, 13 de maio de 2020

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No Blog do Nêumanne: Nostálgicos da ditadura

No Blog do Nêumanne: Nostálgicos da ditadura

José Nêumanne

Como Bolsonaro, muitos de seus apoiadores hoje têm saudade de uma ditadura em que eles não viveram, mas têm mesmo ideário de classe média que apoiou o golpe e nos anos de milagre econômico

Durante algum tempo, enquanto o presidente da República, Jair Bolsonaro, mantinha Sergio Moro no Ministério e Paulo Guedes não corria riscos, acreditei que ele havia sido eleito por seus apoiadores a qualquer custo, mas a maioria dos votos seria devida à onda antipetista e ao apoio à Lava Jato. Isso me dava à convicção de que ele seria obrigado a conviver, até a tentativa de se reeleger em 2022, com o ex-juiz e o economista da linha de Chicago no primeiro escalão da própria administração. Minha análise estava contaminada por uma visão crítica parcial e pouco inteligente de que seria insignificante a parcela do eleitorado de viúvas do regime tecnocrático e militar que foi dono absoluto do poder durante o maior período de exceção ao longo de toda a República.

Eu estava redondamente enganado e dou minha mão à palmatória simbolicamente, como dava fisicamente nos tempos em que estudava com uma amiga de minha mãe, professora, dona Nenudes, antes de começar o primário no Grupo Escolar Jovelina Gomes, em Uiraúna, no sertão da Paraíba, em meados e final dos anos 50. Quando assistia às manifestações de rua em 2013 contra o desastre administrativo de nossa insana República, na Avenida Paulista, e pelo impeachment de Dilma Rousseff, do PT, em 2016, desdenhava da pífia participação dos que pregavam a volta dos militares ao poder, relegada aos espaços menos ocupados da massa reunida.

Agora, contudo, a realidade se impõe e urge ter humildade para perceber, enfim, que o capitão reformado numa combinação “mandrake” com os comandantes das Forças Armadas para evitar que a pecha de indisciplinado e terrorista que iria recair sobre ele prejudicasse a imagem “gloriosa” que os fardados tinham, e têm, de si próprios. Em de seu livro O Cadete e o Capitão, sobre a vida de Bolsonaro na caserna, o grande repórter Luiz Maklouf Carvalho relatou o episódio mais vergonhoso da História da nada gloriosa “justiça militar” em todos os tempos. O capitão, obcecado pela ambição de ganhar mais, assinou um artigo no semanário Veja sobre os baixos soldos, tornando-se, com isso, um herói da baixa oficialidade e um elemento perigoso para o alto oficialato. Passou a manter contato com a repórter Cássia Maria, a quem contou seu plano terrorista de explodir bombas em quartéis e na adutora do Rio Guandu, no Rio de Janeiro, onde morava. Fê-lo sob garantia de anonimato e, em confiança, entregou à repórter um croqui de próprio punho do projeto. A repórter quebrou o compromisso e deu nome aos bois, baseada na ética humanista que ele não admitia: não havia sentido em manter o anonimato de autores de um atentado em que vidas humanas corriam risco.

O livro de Maklouf é indispensável para o conhecimento dessa faceta do protagonista do caos sanitário, político e econômico que o Brasil enfrenta agora. Quem não puder ir à livraria comprá-lo pode encontrar no YouTube duas excelentes entrevistas em que o autor narra com precisão e graça o momento capital da obra, qual seja, o julgamento do atual presidente pelo Superior Tribunal Militar (STM). Condenado nas instâncias administrativas iniciais por 3 a 0, saiu da prisão administrativa para enfrentar a alta corte e ganhar por 9 a 4. O incrível é que o resultado foi fundamentado nos mesmos quatro laudos grafotécnicos de seu desenho. No primeiro julgamento ele foi condenado porque dois laudos confirmaram que o gráfico era dele e os outros dois eram “inconclusivos”. Ou seja, 2 a 0. Os ministros do STM, entretanto, acolheram sua tese absurda, em defesa de próprio punho, de que os dois laudos inconclusivos o favoreciam. Portanto: 2 a 2. E ele foi anistiado por nove ministros nomeados durante o regime militar a quatro indicados após a redemocratização. Por trás disso havia um acordo de “cavalheiros” de que ele sairia da Força pela porta dos fundos, mas sem tugir nem mugir.

A absolvição jogou-o na militância política, em que instalou seu posto avançado de “viúva da ditadura”, não a de 1964, mas a instaurada após o endurecimento de 1968. Em dois anos como vereador no Rio e 28 na Câmara dos Deputados, pendurou na parede de seu gabinete de legislador a fotografia de todos os generais que ocuparam o poder na ditadura. Com um discurso de extrema direita, contra o aborto e a favor da mais dura repressão policial, elogiou o miliciano Adriano da Nóbrega da tribuna depois de acompanhar no tribunal pessoalmente o julgamento deste sob a acusação de homicídio de um guardador de carros. Elogiou o golpe do coronel Hugo Chávez, na Venezuela, em entrevista ao Estado, mantendo sempre a mesma retórica armamentista e a favor da repressão. No voto a favor do impeachment da petista Dilma Rousseff, manifestou de forma candente sua admiração pelo torturador-símbolo da repressão: o coronel Brilhante Ustra.

Na semana passada, recebeu e homenageou no gabinete da Presidência da República o tenente-coronel Sebastião Rodrigues de Moura, vulgo Major Curió, encarregado pelo governo federal de gerir o fabuloso garimpo de Serra Pelada, em Marabá, no Pará. A antiga vila de garimpeiros é hoje uma cidade batizada em sua homenagem, Curionópolis. Estive em Serra Pelada e do próprio ouvi o relato circunstanciado sobre os cinco militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) que ele fez questão de executar pessoalmente, gabando-se ao encenar os momentos de desespero e agonia vividos por suas vítimas desarmadas. Esses espetáculos de humor macabro faziam grande sucesso entre homens que, como o próprio Bolsonaro e seu pai, sonhavam com a conquista máxima de “bamburrar” ouro na Torre de Babel em que foi desmontada a montanha que virou lago.

Meu colega no Jornal do Brasil Hugo Studart, professor da Universidade de Brasília (UnB), fez uma pesquisa detalhada da guerrilha do PCdoB no Araguaia e no livro Borboletas e Lobisomens descreveu minuciosamente algumas das execuções que o então capitão Curió fez com as próprias mãos e pistola. Foi o caso de Antônio Theodoro de Castro, o Raul. Na narrativa de Studart, o capitão dirigiu-se àquele e lhe disse: “Nem adiantou ser valentão, pois vai morrer como cachorro” (gíria usada pelos militares referindo-se a delatores que serviam de guia às tropas na selva). E como Laurenti Beria, o carrasco de Stalin que fazia questão de atirar na nuca de dissidentes do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), disparou à queima-roupa na cabeça do guerrilheiro. A outro, com codinome Simão, perguntou: “Você gosta da floresta? “Gosto” “Então, fique nela”. Antes de morrer, a vítima deu um berro de terror, ouvido à distância.

          Para quem não conhece a história em profundidade talvez seja difícil entender como esse tipo de relato de horror pode agradar pessoas comuns. A verdade é que o golpe militar de 1964 teve muito apoio de uma parte da elite e da classe média, que participou de uma “marcha de Deus pela família” contra o governo de João Goulart, que assumiu a Presidência depois que Jânio Quadros tentou dar um golpe e renunciou, frustrando seu eleitorado conservador e anticomunista.

Os anos 1970 foram a época do chamado “milagre econômico” e a repressão política também propiciou uma segurança maior aos cidadãos comuns que não se envolviam com política, principalmente com a aventura dos grupos armados de esquerda que queriam derrubar o regime sem armas nem apoio popular. Muitos pais passaram para seus filhos essa visão nostálgica, presente até hoje, de uma época de paz social sem agitação sindical e em que policiais como Sérgio Fleury matavam esquerdistas e também participavam de grupos de extermínio de bandidos comuns.

O capitão Cavalão dos tempos da caserna é caudatário dessa nostalgia e isso lhe garante os 30% de eleitores fiéis que pouco ligaram para a demissão de Moro e nada se perturbarão com a eventual retirada de Guedes do Ministério. Ou da ministra Tereza Cristina, da Agricultura, que é a avalista do agronegócio, que mantém o Brasil na crise econômica.

Isso lhe dá aval para negociar a alma com os fisiológicos do Centrão e se entregar à tutela de Roberto Jefferson, corrupto condenado e apenado no mensalão e alcaguete de seus companheiros de bando. E a certeza de que já está no segundo turno da eleição de 2020, de preferência contra Lula. A ponto de dizer, como o fez neste fim de semana a um crítico de seu governo que o abordou: “Ficarei no governo até 2027”.

Isso, é claro, vai depender da dimensão do caos social que vem aí, misturando a pandemia com a inércia de um presidente mandrião, que, em plena e assustadora crise, passeia de jet ski no Lago de Paranoá, como se estivesse num fim de semana de paz e prosperidade de sua fantasia.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 11 de maio de 2020)

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Coluna semanal do Ric Mais: Cavalão audaz contra lengalenga covarde

Coluna semanal do Ric Mais: Cavalão audaz contra lengalenga covarde

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Cavalão audaz contra

lengalenga covarde

 

José Nêumanne

Enquanto a covid-19 se aproxima do pico, Bolsonaro usa industriais para pressionar STF

Há três semanas a Confederação Nacional da Indústria (CNI) pediu ao presidente Jair Bolsonaro que anunciasse um plano nacional para a volta da produção e da economia, depois do abandono controlado do isolamento social no combate à covid-19. Dirigentes de associações de setores industriais procuraram-no para saber se tinha algo a informar a respeito. Faziam-no sob o impacto do anúncio pelo ministro da Saúde, Nelson Teich, de que o total diário de mortos pelo novo coronavírus poderia ultrapassar o primeiro milheiro. As autoridades nada têm de novo a dizer, pelos motivos de não terem ideia de quando a pandemia chegará ao pico nem do que fazer.

Enquanto o próprio chefe do Poder Executivo é apontado, pela respeitada revista científica britânica The Lancet, como o maior problema que o Brasil enfrenta na tragédia sanitária vivida pela humanidade, ele usa a urgência do combate à doença como aliada na luta política. Ele e os governadores estaduais, especialmente o de São Paulo, João Doria, e do Rio, Wilson Witzel, visam exclusivamente à eleição presidencial de daqui a dois anos e cinco meses e terçam armas midiáticas. Em vez de apresentar a seus interlocutores um projeto concreto, o capitão de milícias ofereceu uma visita surpresa ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, seu único “chapinha” na Corte, para cobrar dele algo que não pode.

A grosseria, o desconhecimento dos próprios limites como chefe de Poder, que obrigatoriamente tem de estar em harmonia com os outros dois, e o vício de transferir a própria irresponsabilidade para alguém próximo são miuçalhas diante do alto risco da metáfora encenada para seus perfis sociais. O capitão absurdamente anistiado por nove militares saudosos do golpe militar extinto, mas nunca enterrado, atravessou a Praça dos Três Poderes literal e simbolicamente na terceira estação da via-crúcis do Estado de Direito nestes tristes trópicos. A primeira foi o comício golpista à frente do QG do Exército no Dia do Exército, com cartazes pela intervenção militar com ele no poder e pelo Ato-5, para fechar as sedes do Legislativo e do Judiciário. A segunda, o bis encenado na parte de baixo da rampa do Palácio do Planalto. E a terceira é a melhor tradução tupiniquim da Marcha da Insensatez – De Troia ao Vietnã, de Barbara Tuchman.

A reação do anfitrião, Dias Toffoli, foi pífia, como, aliás, a de todos os outros pretensos heróis que defendem a democracia no Legislativo e nas Forças Armadas, que parecem mais coniventes do que conscientes. A Nação morre afogada no seco e, moribunda, assiste ao torneio entre a audácia do Cavalão terrorista e indisciplinado das casernas e a covardia de quem, em vez de enfrentá-lo, usa redes sociais para cuspir retórica inócua.

*Jornalista, poeta e escritor

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Artigo da coluna no Grupo Ric de Comunicação: Autogolpe de Bolsonaro em marcha

Artigo da coluna no Grupo Ric de Comunicação: Autogolpe de Bolsonaro em marcha

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Autogolpe de Bolsonaro em marcha

José Nêumanne

Com leniência do Exército, parte do Centrão comprada e empresários à espera de ajuda, capitão desafia STF

Exemplos de autogolpes na História não faltam ao ocupante do principal gabinete do Palácio do Planalto professores. Adolf Hitler era primeiro-ministro num cambalacho de partidos na República de Weimar quando mandou pôr fogo no Reichstag (parlamento alemão). E se aproveitou da senectude do presidente Paul von Hindenburg para se tornar o Führer (condutor, em português). Com a condescendência do rei Vittorio Emanuele II, o fascista Benito Mussolini usou pobreza e mágoa da Itália, abandonada pelos aliados ricos que venceram a Grande Guerra, para tomar o poder como duce (guia, em português). Deu na Segunda Guerra Mundial. No Brasil, Getúlio Vargas seguiu seus passos e trocou a presidência constitucional pela chefia da ditadura do Estado Novo, em 1937.

Ignorante em praticamente tudo, o presidente Jair Bolsonaro, investido do maior poder republicano com uma votação com mais de 57,7 milhões de votos no segundo turno, deu a dica que faltava para a marcha que Jânio Quadros tentou encetar em 1961 e malogrou. No meio da maior crise sanitária da História, na perspectiva de uma recessão econômica que superará até o craque da Bolsa de Nova York em 1929 e em plena crise política provocada por ele mesmo com o afastamento de Mandetta e Moro do Ministério, ele confessou que levou o País à iminência de um caos institucional. Proibido de trocar o diretor-geral da Polícia Federal, órgão do Estado, e não do governo, muito menos da assessoria pessoal do presidente, para o compincha de seus filhotes malandros, Sua Insolência, em pleno isolamento, insultou o ministro do Supremo Tribunal Federal que interrompeu sua tentativa de intervir na polícia judiciária para blindar o clã. Acusou Alexandre de Moraes de ter dado uma “canetada” de natureza política violando a Constituição, que, dias antes, declarou que encarnava.

Ingredientes para o autogolpe não faltam. Militares juram amor à Constituição, mas fazem vista grossa para seus crimes, como a adesão ao comício pedindo “intervenção militar com Bolsonaro já” no Dia do Exército (19 de abril), à frente do QG do Exército. A quebra de hierarquia, violando a Constituição, foi praticamente autorizada pela Força. Enquanto acusava o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, de dar golpe e a pandemia da covid-19 planta cadáveres pelo país inteiro, ele começou a comprar à luz do dia próceres do Centrão, com dois objetivos. Um é evitar que com três quintos dos votos em plenário seja votado um dos mais de 30 processos de impeachment na Casa. Tudo indica que conseguirá. O outro, livrar-se e blindar seus três filhos mais velhos, 01, 02 e 03, o trio nota zero, de incriminação na CPMI das fake news e em processos instaurados pelo STF para investigar o “gabinete do ódio”. Por enquanto, não parece fácil. Será?

*Jornalista, poeta e escritor

(Artigo da coluna semanal no Grupo Ric Mais)

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