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No Blog do Nêumanne: O Rio de Janeiro continua sendo… e o Brasil também!

No Blog do Nêumanne: O Rio de Janeiro continua  sendo… e o Brasil também!

 

Mesmo na cadeia, Sérgio Cabral continua sendo mais igual do que os demais cidadãos

O ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral começou na política como deputado estadual, implacável perseguidor de corruptos e corruptores. Perseguido pelos desiludidos de 2013, que invadiram a calçada de seu refúgio no Leblon, renunciou em 2014, não se candidatou a nenhum mandato público e terminou perdendo sua prerrogativa de foro. Alcançado pelos afiadas garras da Lava Jato, foi preso sob a acusação de ter surrupiado dos cofres públicos R$ 224 milhões. Uma fortuna, hein?

Os investigadores da Operação Calicute, cidade da Índia onde outro Cabral, Pedro Álvares, descobridor do Brasil, conheceu a derrota e teve iniciada a decadência, acreditam que ele operou um “banco paralelo” à sombra de uma empresa transportadora de valores para receber, guardar e distribuir dinheiro vivo para a mulher, Adriana Ancelmo, e a mãe, Magali. E mais uma penca de gatunos amestrados, todos mimoseados com joias, cargos públicos e porcentagens em obras contratadas pelo Estado e outras benesses. Descoberto, localizado e preso, foi fichado e trancafiado numa cela em Bangu. Ainda assim, goza de privilégio inestimável: seus cinco companheiros de cela não são bandidos comuns, que poderiam machucá-lo, mas cúmplices de suas aventuras folgazãs e de suas atuais desventuras.

A forma como lavou dinheiro sujo se assemelha ao dito Departamento de Operações Estruturadas de sua parceira Odebrecht, um sofisticado data center na Suíça. E também reproduz a tecnologia de entesouramento e investimento de uma prática ancestral no Estado que governou. Os bicheiros de antigamente, praticantes do “vale o escrito”, também driblavam os controles fiscais, abrigados sob a definição penal da contravenção, ou seja, quase crime. E frequentavam a fina flor da high society carioca nos melhores salões e, sobretudo, no Sambódromo, dirigindo escolas de samba, coloridas e cultuadas lavanderias de valores. Agora como dantes no quartel de Abrantes, apontadores da loteria popular de Saenz Peña, nome de praça na cidade ex-Maravilhosa, continuam entregando o “prêmio do delegado” e convivendo com crocodilos em piscinas. O furto político era até pouco menos arriscado, mas deixou de ser.

Anthony Garotinho, ex-governador lançado na política pelo socialista moreno Leonel Brizola e guia de Cabral em sua ascensão aos cargos de mando no Estado mais charmoso do País, foi pilhado em delito mais antigo do que os pontos de bicho e as bocas de fumo de antanho. Comprar votos foi a forma que a elite dirigente nacional encontrou para compensar a extinção da eleição de bico de pena da Primeira República dos coronéis da guarda nacional. Ao soba de Campos dos Goytacazes repugna a mania de ostentação de seu antigo discípulo. Distribuindo “chequinhos” a necessitados, garantiu a permanência do clã na prefeitura municipal local, a eleição de 11 vereadores e o ingresso de Clarissa, amada filhota dele e da prefeita Rosinha, na Câmara dos Deputados. Obediente ao conselho paterno de ajudar a ex-presidente Dilma Rousseff a ficar no cargo máximo, ela alegou resguardo de maternidade recente para não votar pela abertura do processo de impeachment da madama pela Câmara e seu envio ao Senado. A filha obediente pagou pelo desrespeito ao fechamento de questão do PR, legenda pela qual se elegeu, não sendo expulsa pela ausência, que valeu como voto contra o impeachment da deposta, vulgo Janete, mas, sim, porque ela voltou a contrariar o PR de Waldemar Costa Neto votando contra a PEC do teto dos gastos públicos. A vida, decerto, não lhe ensinou que só se pode gastar o que se ganha.

Como na República de Pilatos dos velhos tempos, “uma mão lava a outra” e a mesma água de enxaguar propinas evitou a sofrência de “meu pai não é bandido”, por ela berrado à porta do Hospital Souza Aguiar, no complexo presidiário povoado por feras enlouquecidas de vingança. Afinal, quando Rosinha foi governadora, ele não chegou a ser secretário de Segurança Pública? Como aquele agente funerário que foi chamado para maquiar o filho de dom Corleone no Poderoso Chefão, haveria alguém a quem pedir socorro. Ocorreu-lhe, então, instruir seus advogados a procurarem a mais jovem ministra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com a qual já mantivera contato, Luciana Lóssio. Nomeada pela presidenta afinal deposta, ela poderia evitar humilhação similar à do ex-afilhado e ora desafeto Cabral. As fotos tiradas à entrada deste no presídio para a ficha criminal foram exibidas nos meios de comunicação com estardalhaço idêntico ao dispensado àqueles flagrantes da festa dos guardanapos na cabeça em restaurante de alto luxo em Paris, que Garotinho divulgou em seu blog.

A pressurosa ministra não permitiu que o pai da compreensiva parlamentar passasse sequer uma noite na companhia cruel de antigos desafetos, mais perigosos do que os cinco grã-finos e o colega ex-governador. Dra. Lóssio fora antes advogada de Roseana Sarney, quando esta, derrotada nas urnas pelo adversário Jackson Lago, retomou o posto de governadora do Maranhão, direito do clã inaugurado pelo pai ainda no tempo em que a lei eleitoral dava ao vencido na eleição o cargo que o adversário o houvesse derrotado de maneira ilícita.

Militante petista investida em mandato inviolável, a caridosa magistrada pouco se importou com a divulgação das instruções do réu em questão a seus causídicos, como divulgada fora simultaneamente a investigação aberta pelo Ministério Público Eleitoral sobre denúncia de tentativa de suborno do juiz pelo acusado. O cargo da jovem senhora é vitalício e conta com a proteção automática dos pares. O nobre colegiado apressou-se a soltar uma nota garantindo que todos os seus ministros têm “idoneidade moral” e que as decisões refletem “profundo embasamento teórico”, antes mesmo que qualquer desavisado duvidasse publicamente desses atributos.

Antes de ser solto pela decisão da misericordiosa ministra amiga, o ex-governador protagonizou esperneio registrado por câmeras, ao som da gritaria histérica da mulher e da filha captada por microfones dos meios de comunicação. Piedosos garantistas de quatro costados reclamaram da humilhação imposta ao insigne acusado. Esqueceram-se de que o episódio motivou decisão histórica da jurisconsulta Lóssio. Graças a sua canetada, a piada do “jus sperniandi” (em latim vulgar, direito de espernear) tornou-se jurisprudência na Justiça Eleitoral tupiniquim.

A cena inusitada, a decisão piedosa e o flagrante pornográfico do investimento imobiliário do secretário de governo de Temer (ex-vice da presidenta deposta), ferindo o decoro da paisagem de Salvador, sob a omissão licenciosa do temeroso chefão, ampliam o alcance de constatação de Gilberto Gil. Este outro baiano cantou: “O Rio de Janeiro continua sendo”.

Pelo visto, o Brasil também reproduz a constatação final de George Orwell em A Revolução dos Bichos: “Todos são iguais perante a lei, mas alguns são mais iguais do que os outros”. Quem quer um exemplo? A Comissão de Ética Pública da Presidência começou a votar a decisão se abrirá, ou não, inquérito contra Geddel Vieira Lima, o excelentíssimo padroeiro do espigão: cinco dos sete votos foram a favor e o sexto, José Saraiva, pediu vista para impedir o vexame. Ganhará um docinho de caju de dona Carminha Dantas quem adivinhar quem o indicou para a oportuna sinecura. Pois foi mesmo o fiel escudeiro de Temer – aquele apelidado por Itamar Franco de Percevejo de Gabinete. No fim da tarde da segunda-feira 21 de novembro, pressionado pelos fatos, o próprio Geddel pediu para Saraiva votar pela abertura do inquérito contra ele, o que foi feito por unanimidade. E, assim, confirmou que no governo Temer ele manda parar e seguir. Isso faz com que, como o Rio, o Brasil continue sendo. Sempre e mais o mesmo.

 Deus nos acolha e guarde, irmãos sem opa, abandonados neste bordel em cuja parede um quadro de Cristo a tudo assiste e nada fala nem faz para impor a ordem.

José Nêumanne Pinto

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Política, Estadão na segunda-feira 21 de novembro de 2016)

Para ler no Blog do Nêumanne, Politica, Estadão, clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/o-rio-de-janeiro-contina-sendo-e-o-brasil-tambem/

 

Poema XX, Barcelona, do livro “Barcelona, Borborema”

Deste chão, pedras nascem,
impulso mortal.
Neste vão, pedras morrem,
solitárias e planas.
Em coisas sem vida,
que nunca morrem,
respiram paixões ancestrais
da Catalunha sem fim.
É irregular a superfície
dos caprichos
tecidos por catalão.

Vida, paixão e morte de Güell,
imortal de Gaudí,
mantido podre
no borralho-gelo
deste solo fértil.

O bafo deste parque
sabe a súbito beijo
roubado.

Comentário no Estadão no Ar: Leo, Bob, Gaudí e a poesia de Nêumanne

Comentário no Estadão no Ar: Leo, Bob, Gaudí e a poesia de Nêumanne

Até o dia 30 de novembro próximo substituirei Alessandra Romano no Estadão no Ar, ao lado de Haisem Abaki de segunda a sexta, de 9 às 10 horas, na Rádio Estadão (FM 92,9). Na sexta-feira 18 de novembro de 2016, comentei uma semana singular, iniciada com a morte de um ídolo, Leonard Cohen e continuada com o anúncio, feito por outro, Bob Dylan, de que não irá a Estocolmo receber o Prêmio Nobel de Literatura de 2016, que lhe havia sido conferido. E terminará com exposição no Instituto Tomie Otahke de Antoni Gaudí, arquiteto catalão, que homenageio nos poemas sobre sua obra em meu livro Barcelona, Borborema, registrada por Antonio Gonçalves Filho, do Caderno B do Estadão. Ouça e vá!

(Comentário no Estadão no Ar, da Rádio Estadão – FM 92,9 – na sexta-feira 28 de novembro de 2016, às 9h52m)

Para ouvir clique no link abaixo e, aberto o site da emissora, 2 vezes sob o anúncio em azul

http://radio.estadao.com.br/audios/detalhe/radio-estadao,jose-neumanne-pinto-le-poema-do-seu-livro-barcelona-borborema,663309

Para ouvir no Blog do Nêumanne, Política, Estadão clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/leo-bob-e-gaudi/

Clique no link abaixo para ouvir Hallelujah, de Leonard Cohen, com um coral de 1.500 vozes reunido por Rufus Wainright

http://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/coral-de-1-500-cantores-homenageia-leonard-cohen-com-hallelujah/

Leia e ouça aqui o poema de Nêumanne

Poema XX, Barcelona, do livro Barcelona, Borborema

Deste chão, pedras nascem,

impulso mortal.

Neste vão, pedras morrem,

solitárias e planas.

Em coisas sem vida,

que nunca morrem,

respiram paixões ancestrais

da Catalunha sem fim.

É irregular a superfície

dos caprichos

tecidos por catalão.

 

Vida, paixão e morte de Güell,

imortal de Gaudí,

mantido podre

no borralho-gelo

deste solo fértil.

 

O bafo deste parque

sabe a súbito beijo

roubado.

No Blog do Nêumanne: Como destruir um Estado

No Blog do Nêumanne: Como destruir um Estado

O Rio de Janeiro quebrou, Cabral sumiu, Lula finge que não é com ele e Pezão chantageia Temer

“Se não mexer na Previdência, viramos a Grécia”. O título merece a atenção do leitor para a entrevista que ocupou uma página no caderno de Economia do Estadão de domingo 13 de novembro. O protagonista, ouvido pelos repórteres Mônica Ciareli, Wilson Tosta e Vinicius Neder, é Luiz Fernando Pezão, do PMDB de Sérgio Cabral, por sua vez subPT de Lula e Dilma.

As notícias que ele dá têm o impacto de uma bomba nuclear e merecem atenção. “Temos 100 coronéis (da Policia Militar) na ativa e 600 aposentados ganhando R$ 23 mil (por mês). Se aposentaram com 48 anos, 49 anos. Você acha que essa conta vai fechar?”, perguntou aos repórteres (e ao leitor), em tom de cobrança. Se o ET, de repente, pousasse no Porto Maravilha (obra da Olimpíada), poderia perguntar: “Ei, moço, a culpa é do jornal ou do bispo de Garanhuns?”.

E ainda: “Tenho mais professor inativo do que ativo, em um momento em que a população está demandando mais serviços, porque ninguém tem mais dinheiro para pagar plano de saúde e colégio particular”. Ou seja: será a culpa do fluminense que perdeu o emprego, a renda e os luxos a que estava acostumado? De Carlos Lacerda, que foi governador da Guanabara e deu a seus sucessores o péssimo exemplo de governar bem? Ou podemos imaginar que o desafio tenha sido feito numa mesa branca a Marcelo Alencar, outro governador medíocre? Que nada! O entrevistado é o atual governador do Estado do Rio de Janeiro. Na História será lembrado como um Zé das Couves que ocupou um lugar para o qual não estava preparado e terminou entrando na História por ter reduzido a ex-Cidade Maravilhosa a cenário de um filme B de terror.

O leitor do Estadão foi contemplado com um trabalho de edição exemplar, no qual a ruína é dissecada, pedra a pedra, picareta por picareta. Ao lado da entrevista cínica, foi editado um quadro completo do atoleiro fiscal. Nele 11 pontos mostram como governos corruptos, irresponsáveis e incompetentes destruíram o Estado do Rio e deixaram o legado assustador de uma dívida de R$ 17,5 bilhões.

A desventura começou com uma notícia excepcional. No litoral de Campos de Goitacazes repousa a maior reserva de petróleo do País. Ali, após pesquisa de anos, a Petrobrás concluiu que havia uma jazida enorme de óleo cru nas profundezas, sob a camada do pré-sal. A desassombrada capacidade de mentir do ex-governador Sérgio Cabral e dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff – PT e PMDB de mãos dadas e sujas de graxa – os tornou parceiros na ventura de um enorme potencial de riqueza fácil: o ouro negro a ser extraído do fundo mais profundo do mar. Em 2014, ano em que Dilma foi reeleita, entraram nos cofres estaduais fluminenses  R$ 10 bilhões, reduzidos a R$ 5,6 bilhões em 2015 e R$ 3,48 bilhões pingados este ano (menos 60% em dois anos). A previdência estava ancorada nessa miríada de mil e uma noites. E afundou.

O segundo ponto foi a crise da Petrobrás. Padim Lula convocou o mundo para aplaudi-lo na Bolsa de Valores de São Paulo, ao festejar a maior capitalização da história do capitalismo: o exponencial crescimento da Petrobrás, com sede no Rio. Mas a Operação Lava Jato desvendou nos seus porões o maior escândalo de corrupção da História da humanidade. A maior estatal brasileira deve R$ 332,4 bilhões, sofreu com a queda do valor do barril no exterior e com o congelamento do preço do combustível nos postos para mascarar a inflação. Aí, a cadeia de óleo e gás naufragou.

O propinoduto de grandes empreiteiras, como Odebrecht e Andrade Gutiérrez, paralisou sua atividade e as tornou componentes da recessão que fechou empresas e desemprega 12 milhões de brasileiros. A queda de sua participação na receita do Estado foi de R$ 61,5 bilhões para R$ 44,8 bilhões (menos 20% em termos reais). Em dez anos, o Rio informa ter perdido R$ 9 bilhões em investimentos, por causa da guerra fiscal entre os Estados da Federação.

Em 2014, o governo fluminense reajustou o salário de servidores de 41 categorias e isso onerou a folha de pagamento em R$ 2,7 bilhões. Do déficit projetado de R$ 17,5 bilhões, R$ 12 bilhões são destinados a aposentados e pensionistas. De 2010 a 2015, a dívida pública aumentou 81,6%, ou seja, quase dobrou: de R$ 59,2 bilhões para R$ 107,5 bilhões.

O oitavo ponto é o gasto com a Olimpíada. Sérgio Cabral, o patrono de Pezão, participou da festança de 2009, em Copenhague, ao lado de seu inspirador, Lula da Silva, quando o Rio venceu Chicago, sob os auspícios de Michelle e Barak Obama, Madri e Tóquio, e se tornou sede da Olimpíada de 2016. Tudo a ser financiado pela iniciativa privada, conforme juraram o ex-presidente, sua sucessora, o então governador e o prefeito da cidade-sede, Eduardo Paes, da mesma patota. Pois sim: findos os jogos, feita a conta, coube ao Estado bancar a bagatela de dez projetos, que custaram a ninharia de R$ 9,7 bilhões.

Em 2015, para pagar suas dívidas, o fundo de previdência captou nos EUA US$ 3,5 bilhões (R$ 12 bilhões) em títulos com lastro em royalties de petróleo. O preço do produto desabou e a Rioprevidência não conseguiu pagar o débito. Coube ao Tesouro honrá-lo. Ou seja, o contribuinte paga a conta que Cabral e Pezão gastaram. De 2007 a 2014, foram dados em benefícios a empresas R$ 185 bilhões, com renúncia efetiva de R$ 47 bilhões.

O Legislativo e o Judiciário também fizeram festa paga pelo bolso de todos os fluminenses. De janeiro de 2007 a dezembro de 2015, as despesas da Assembleia Legislativa cresceram 90%. As da Justiça, 145%. E as do Ministério Público, 181%. Junto ao 11º ponto, o Estadão informou que no período a inflação medida pelo IPCA/IBGE foi de 71,82%

Na última resposta da entrevista Pezão não se fez de rogado. Disse que o problema não é só do Rio, mas do Brasil todo. O pior é que ele tem razão. Seus padroeiros deram as de Vila Diogo e imitaram João sem braço. Sérgio Cabral é tido como desaparecido. Lula da Silva, falando para 300 gatos pingados na Casa de Portugal, culpou Temer, que foi vice de Dilma e hoje governa, pelo desemprego e pela queda de renda dos trabalhadores, que estão pagando a conta e não participaram da farra fiscal que está levando o Rio e o País à matroca.

Ao sugerir intervenção federal, Pezão cobra pesado resgate pelo sequestro do Estado, como se chefiasse uma milícia de subúrbio. Mas Temer garante que não aceitará a chantagem, sabendo que, se intervier no Estado do Rio, terá de adiar seus projetos no Congresso para reformar a Constituição e içar o Brasil do pré-sal da recessão. Vai saber…

José Nêumanne

Jornalista e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Politica, Estadão na segunda-feira 14 de novembro de 2016)

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No blog do Nêumanne: Apenas a verdade, nada menos do que a verdade

No blog do Nêumanne: Apenas a verdade, nada  menos do que a verdade

Na entrevista exclusiva ao Estadão, Moro restaurou os fatos no reino das versões que é o Brasil hoje

A entrevista exclusiva que o comandante da Lava Jato, o juiz federal Sergio Moro, da 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba, concedeu a Fausto Macedo e Ricardo Brandt e foi publicada no Estadão de domingo 6 de novembro é um feito jornalístico e histórico. Em dois anos e meio de investigação e julgamento do maior escândalo de corrupção de que já se teve notícia, o jovem magistrado tornou-se o mais popular e admirado brasileiro contemporâneo e até então só tinha dado suas opiniões em palestras ou nos autos dos processos que julga. Nunca antes havia respondido a perguntas diretas de jornalistas como acaba de fazê-lo.

Nas duas páginas da edição dominical do Estadão ele não fez nenhuma revelação espetacular. Não respondeu, por exemplo, à pergunta que os repórteres lhe fizeram e dez entre dez brasileiros, seus admiradores ou detratores, gostariam de fazer: “O senhor vai mandar prender o ex-presidente Lula?”. Sua resposta foi lacônica: “Esse tipo de pergunta não é apropriado, porque a gente nunca fala de casos pendentes”. Ele também perdeu uma oportunidade de desmentir seus desafetos que o acusam de ser tucano ou filho de tucano ao responder à pergunta se votou no referido personagem. “É o tipo de resposta que eu não posso dar, porque acho que o mundo da Justiça e o mundo da política não devem se misturar”, disse.

Ao longo das respostas que deu apenas repetiu, de forma didática e até acaciana (ao estilo do Conselheiro Acácio, personagem de Eça de Queiroz que só proferia o óbvio), verdades que precisam mesmo ser repetidas. Só isso é capaz de removê-las do lixo ideológico sob o qual têm sido soterradas na guerra retórica em que se debate o Brasil. Neste país da polêmica pronta, onde o argumento vale mais do que o fato, sua entrevista restaura a realidade oculta na ilusão e desmente a falácia da utopia pomposa sobre a rotina do dia a dia.

Em Ah se não fosse a realidade, sua recente crônica dominical publicada na última página da Folha Ilustrada, o poeta Ferreira Gullar descreveu essa situação. Ele narra casos do cotidiano em que adeptos do populismo lulopetista, derrotado no impeachment de Dilma no Congresso e massacrado nas urnas em outubro passado, apelam para a descarada desfaçatez de contestar a vida com o lorotário ideológico disponível. O autor ouviu de uma interlocutora esta pérola: “Na cidadezinha onde moro não há desemprego. Duvido muito desses números”. Lembrada de que os dados tinham a chancela autorizada do IBGE, à época em que Dilma ainda presidia o País, a pessoa não se deu por rogada: “E o IBGE não podia estar infiltrado por adversários do governo?”.

A negação do fiasco petista tem no trabalho de Moro uma de suas vítimas preferenciais. A citada ex-“presidenta”, com sua caradura de hábito, atribuía ao trabalho da força-tarefa da Lava Jato, composta por policiais e procuradores federais, a culpa pela crise financeira que devasta o Brasil, gerando quebradeira de empresas, desemprego em massa e inflação. Moro ressuscitou o Conselheiro Acácio para repetir aos repórteres o que a realidade clama: “O que traz instabilidade é a corrupção, e não o enfrentamento da corrupção. O problema não está na cura, mas, sim, na doença. O Brasil pode se orgulhar de estar, dentro da lei, combatendo a corrupção. A vergonha está na corrupção, não na aplicação da lei”. A verdade, a simples verdade, nada mais, nada menos do que a verdade.

A retórica tatibitate da ex-presidente afastada pelo Congresso deixou marcas na discursalhada de seu partido, o PT, e da esquerda em geral. Um dos argumentos mais comuns dessa gente tem sido apoiar o desempenho da Lava Jato, mas cobrar de federais, de procuradores e, sobretudo, do juiz acusações contra corruptos não filiados aos partidos que mandaram e desmandaram na República nos 13 anos, 4 meses e 12 dias antes do afastamento da ampla aliança de forças comandadas pelo PT e pelo PMDB. Trata-se de um argumento falso e hipócrita. Moro despacha-o com lógica e singela clareza. “A atuação da Justiça, do Ministério Público e da polícia não tem esse viés politico-partidário. O fato é que contra quem tem aparecido provas, têm sido tomadas as providências cabíveis”.

“Por que só ex-tesoureiros do PT estão presos?”, perguntaram, então, os repórteres. E Moro respondeu: “Considerando os casos que já foram julgados, há uma afirmação de que a vantagem indevida, a propina que era paga nos contratos da Petrobrás, era dividida entre os agentes da estatal e os agentes políticos que davam suporte à permanência daqueles agentes em seus cargos. Nessa perspectiva, quando isso foi de fato comprovado, é natural que apareçam nos processos exatamente aqueles agentes políticos que pertenciam à base de sustentação do governo”.

Na entrevista, o juiz defendeu as dez medidas de combate à corrupção apresentadas com 2 milhões de assinaturas de eleitores e o apoio entusiástico do Ministério Público Federal. A reputação que ele conquistou na sociedade não basta para tornar o projeto imune a críticas. Nem a emendas, que cabe ao Congresso adotar ou não. É claro que o desempenho de sua função, que permite a punição exemplar aos corruptos e justifica seu prestígio na sociedade, lhe dá autoridade para defender tal posição, mas isso não basta para que ela seja seguida, como ele gostaria, na possível lei que dela advier.

Da mesma forma, devem ser avaliadas suas posições críticas contra a lei do abuso da autoridade, que, por ordem expressa do presidente do Senado, Renan Calheiros, foi desengavetada no momento em que este protagoniza 11 inquéritos no aguardo de decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). O parlamentar goza, como todos os seus pares, da prerrogativa de foro, que Moro, com quem muitos juristas concordam e de quem muitos advogados discordam neste caso, prefere ver limitado aos chefes dos Poderes.

O ministro do STF Gilmar Mendes, sempre disponível para se pronunciar fora dos autos, chamou a sugestão do juiz de primeira instância de “simplista” e disparou, sem dó: “Para todo problema complexo, toda solução simples é geralmente errada”. Sua Excelência não pode ser acusado de originalidade. A frase original é: “Para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada”, da lavra do genial e impiedoso jornalista, sátiro, crítico cultural, poeta e acadêmico americano Henry Louis Mencken.

É do mesmo autor o aforismo que poderia servir de epígrafe para este artigo, para a coluna de Gullar no último domingo e para a entrevista de Moro resgatando a verdade dos fatos neste Brasil que virou atualmente o reino das versões e das utopias complexas, deselegantes e politicamente corretas: “Creio que é melhor dizer a verdade do que mentir, saber do que ignorar, ser livre do que depender”. O ministro Mendes talvez devesse incluí-la em seu estoque de frases feitas para pronto uso.

José Nêumanne Pinto

Jornalista, poeta e escritor

 

No Blog do Nêumanne: O voto útil de Lula, Dilma e Chico

No Blog do Nêumanne: O voto útil de Lula,  Dilma e Chico

Os três só querem votar se for pra vencer: a democracia é uma inocência inútil

Na era pré-PT, a esquerda só conseguia se reunir em paz nas masmorras da ditadura. Assim foi no Estado Novo de Vargas e também no regime autoritário militar e civil, que emergiu do golpe que derrubou o vice no poder, Jango Goulart. E terminou na guerra suja das ruas depois da vigência do Ato 5, que ensanguentou o “ao vencedor as batatas” de Machado de Assis ao transformá-lo no cruento “às favas com os escrúpulos” do coronel Passarinho e da tortura sob o torcedor Médici.

Metralhada nas greves e em manifestações de rua, torturada nos porões e abatida a baionetas, a esquerda militante foi se esconder no exterior e ali descobriu que não teria condições de impor as próprias ideias socialistas à mão armada. Foi então que resolveu recolher o rabo entre as pernas e conquistar o poder pelo voto na velha, boa e execrada democracia burguesa. Fundado em 1980, o Partido dos Trabalhadores (PT) reuniu três correntes principais, mas logo seguiu a tradição da divisão inevitável, fragmentada em várias tendências. De início, esses três troncos eram constituídos pelos líderes do chamado sindicalismo autêntico dos dirigentes sem compromissos com o Partido Comunista Brasileiro (os comunas), pelas comunidades eclesiais de base da Igreja Católica (os “padres de passeata e freiras de minissaia” de Nélson Rodrigues) e pelos ex-guerreiros das milícias comunistas, pretendentes a “heróis do povo brasileiro”. Os primeiros desprezavam o voto por sua inutilidade prática. Os teólogos da libertação nunca viram nele a redenção messiância da humanidade. E os antigos exilados sempre o consideraram uma excrescência burguesa.

O partido que os reuniu viveu em permanente dúvida sobre o consórcio entre a única maneira de chegar ao poder e a sedução bárbara de encurtar o caminho para os cofres públicos evitando as encruzilhadas da volúvel vontade popular. A liderança do ex-sindicalista metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva, conquistada à base de esperteza, malandragem e carisma, encurtou a peregrinação pela via eleitoral e permitiu o uso de uma tática revolucionária dos grupos de esquerda, infiltrando-se pelas brechas à mão entre as instituições do frágil Estado Democrático de Direito. Mas amor pelo voto nunca nenhum petista de responsa teve na vida. Por que agora, em plena travessia aziaga da crise que eles próprios produziram, descobririam nele algum condão que não fosse simplesmente perpetuar-se no comando da desordem pública empunhando as gazuas do poder?

Nas priscas eras da saga do assalto à República, o líder máximo fez das cabines para votar palanques finais de suas disputas eleitorais. Nas perdidas numa estadual e em três presidenciais, o metalúrgico usou sua têmpera mineral para visar a vitória fatídica. E nunca faltou a um compromisso cívico, envergando o macacão de grevista, a camiseta rubra do militante ou a gravata vistosa do mandarim republicano. Agora chegou a vez de chutar a urna.

Em 1988 ensaiou a primeira rebeldia, negando-se a assinar a Constituição que deu vida à democracia de verdade, depois da longa noite autoritária e da transição para o direito do voto universal. Terminou pondo o jamegão no documento dito cidadão por seu autor maior, Ulysses Guimarães, por lhe faltar coragem para enfrentar o venerável ancião. A vingança contra a autoridade moral do velho timoneiro tardou, mas chegou.

Em 30 de outubro de 2016, o fazedor de postes faltou ao encontro com a urna por não ter em quem votar. Compareceu no primeiro turno para sufragar o companheiro Tarcísio Secoli, que não chegou ao segundo. E ele teria de escolher entre Orlando Morando, do PSDB, e Alex Manente, do PPS. Um tucano e um comunista golpistas. Podia votar nulo. Podia votar em branco. Mas Lula preferiu faltar. Não votou em ninguém. Mais tarde, o instituto que leva seu nome explicou que, aos 71 anos, ele não tinha a obrigação de votar. Mas tendo Lula ânsia de vencer sempre, dane-se o eleitor que não escolheu seu companheiro. Dane-se o Estado Democrático de Direito, que desta vez não o atendeu. Dane-se o País, que já se tinha se danado mesmo nos 13 anos, 4 meses e 12 dias sob a égide de seus governos e de sua afilhada e sucessora, Dilma Rousseff.

Por falar na ex-presidente, ela, mais uma vez, seguiu os passos do padrinho, antecessor e patrono, fugindo da urna como o diabo sempre escapuliu da cruz. Madame vota em Porto Alegre, onde Raul Pont, do PT, foi expelido da disputa final do segundo turno pelo eleitorado. E o mesmo caminho tomou outra possível candidata da ex, Luciana Genro, do PSOL. Sobraram o surpreendente Marchezan Júnior, do PSDB, e Sebastião Melo, do PMDB, ambos dos principais partidos “golpistas”. Ela foi a Belo Horizonte visitar a mãe, com quem não se dá e que está doente. Não é fofa? Não se sabe, e nunca se saberá, se seu súbito afeto filial melhorou o estado de saúde da alquebrada genitora.

Lula e Dilma, na certa, não aprenderam que o exercício dos direitos políticos é feito em duas direções: votar e ser votado. Talvez achem que voto só serve para vencer. Não era o que ela argumentava, teimosamente, para tentar desqualificar o processo de impeachment, insistindo no respeito ao voto, que ela não exerceu no segundo turno? Mas a quem importa agora?

Outra personalidade importante que se recusou a votar no segundo turno foi a ex-unanimidade nacional Chico Buarque de Hollanda. Este viajou para Paris, em vez de comparecer à sua seção de votação na Zona Sul do Rio de Janeiro para tentar reduzir a diferença entre seu candidato, Marcelo Freixo, do PSOL, e o favorito Marcello Crivella, do PRB. O que havia de tão importante a fazer na França? Terá o autor de Pedro Pedreiro sido convocado para aconselhar o xará François Hollande sobre como se comportar no conflito sírio? Não se sabe, nunca se vai saber. E é pouco provável que o filho de Sérgio Buarque algum dia justifique sua ausência para os eleitores que convenceu a votar em seu candidato, participando da campanha dele e até juntando sua venerada voz às de outros decantados reis e rainhas da MPB num jingle tocado no horário eleitoral obrigatório.

O voto de Lula, Dilma e Chico só é útil quando pode levar algum companheiro ao poder. Disputa democrática não é com eles, que a consideram uma inocência inútil. Mas mesmo que se disponham a abrir mão do direito de votar, dificilmente terão a humildade de reconhecer que chegou a hora de se aposentarem de seus sonhos de poder, renunciando ao direito de ser votado.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne em 31 de outubro de 2016)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/o-voto-util-de-lula-dilma-e-chico/

 

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