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No Estadão desta quarta-feira: O vendedor de greves

No Estadão desta quarta-feira: O vendedor de greves

Esforço para livrar Lula da lei prejudica mais a democracia do que mentiras que ele diz

Sábado, o País ficou sabendo que o presidente Temer não se intromete em assuntos do Judiciário, mas resolveu meter sua colher imprópria no julgamento de Lula, hoje, no Tribunal Federal Regional da 4.ª Região (TRF-4), em Porto Alegre. À pergunta formulada em entrevista exclusiva pelos repórteres da Folha de S.Paulo Gustavo Uribe e Marcos Augusto Gonçalves sobre como vê o julgamento e se seria melhor que o réu concorresse nas eleições este ano, o presidente respondeu: “Não posso dizer uma coisa que está sob apreciação no TRF. Agora, acho que se o Lula participar, será uma coisa democrática, o povo vai dizer se quer ou não. Convenhamos, se fosse derrotado politicamente, é melhor do que ser derrotado (na Justiça) porque foi vitimizado. A vitimização não é boa para o país e para um ex-presidente”. Pois, segundo Temer, caso Lula seja impedido de se candidatar, isso vai “agitar o meio político”. Ora!

Não é o caso de aqui citar devotos, correligionários e parasitas oportunistas que sonham se coligar com Lula no pleito. Mas, sim, destacar figurões do governo e da oposição – Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin, João Doria, Beto Richa, Ronaldo Caiado, Rodrigo Maia, Raul Jungmann – e vários interessados que dispararam esse mesmo truísmo absurdo e suspeito. No Estado de Direito, vigente no Brasil, não há a hipótese de candidatos escolherem que adversários preferem para a disputa. Ou há?

Eles deveriam é atentar para o pronunciamento de um eventual beneficiário da condenação do ex-líder metalúrgico hoje, o ex-governador do Ceará Ciro Gomes, presidenciável do PDT. Ciro disse que torce pela absolvição de Lula, mas se negou a crer que haja uma conspiração política no Poder Judiciário contra o petista. Em rara prova de lucidez, o ex-ministro do próprio disse que imaginar um complô “ofende a inteligência média do País”. E ainda advertiu que “a consequência inevitável desta constatação teria desdobramentos tão graves que a um democrata e republicano só restaria a insurgência revolucionária”. É isso aí!

Contrariando sua vocação de trânsfuga contumaz, ele é fiel ao juramento de cumprir e defender as leis do País, feito quando assumiu o governo do Ceará, em 1991. Ao contrário, o presidente e alguns citados, ainda vigente o juramento, cometem delito de lesa-pátria, rasgam a Constituição e posam de generosos e benevolentes. Segundo meu avô, de esmola grande cego desconfia. Não é o caso desses que se fingem de cegos para se dar bem no futuro, caso tenham de se submeter ao Estado de Direito, no qual todos têm de seguir a lei.

Quem canoniza o réu investe no falso conceito de que voto substitui Justiça e cancela penas, como pregava Antônio Carlos Magalhães à época do mensalão. E deu no que deu!

Nisso, aliás, todos eles têm no condenado a nove anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro a mais completa síntese de campeões da patranha, celebrados nas figuras de João Grilo e Chicó na obra-prima da comédia popular brasileira O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Basta lembrar que todos manifestam temer uma convulsão social com a eventual confirmação da condenação do Pedro Malasartes dos palanques e palácios. Afinal, ele seria o mais popular líder político do Brasil em todos os tempos. É mesmo? Por que, então, Lula não viaja em aviões de carreira como os mortais comuns e só comparece a eventos controlados pela militância cega por devoção e paixão?

Lula ascendeu entre heróis n<CW-10>acionais como líder das greves de metalúrgicos do ABC paulista em plena ditadura militar, da qual foi vítima. Na verdade, como está explicado no meu livro O que Sei de Lula (Topbooks, 2011), ele teve no general Golbery do Couto e Silva seu propulsor no início da carreira de dirigente. O criador do Serviço Nacional de Informações usou sua liderança carismática para impedir que Brizola empolgasse os movimentos sindicais e solapasse o regime.

Emílio Odebrecht, pai de Marcelo, citado nas delações de 77 executivos de sua empresa e de quem Lula é o “Amigo” da tal lista, contou ao depor na delação premiada a procuradores federais da Lava Jato, a mais bem-sucedida operação policial e judicial da História, que Lula impediu greves em empresas suas, tendo recebido dinheiro para fazê-lo.

Foi nesse ínterim que Lula virou santo popular, por ter sido preso e processado após a intervenção no sindicato que presidiu nos anos 70 e 80. Mas sua passagem pela carceragem do Dops paulista à época da ditadura foi mais confortável que a de outros companheiros de cela, conforme testemunho do delegado Romeu Tuma Jr., secretário nacional de Justiça no primeiro governo Lula e filho do policial homônimo, em Assassinato de Reputações (Topbooks, 2013). Tuma informa que o falso mártir foi agente de informações do pai, a quem informava sobre o movimento. Se Odebrecht e Tuma não mentiram, em vez de vítima, o seis vezes réu de hoje foi, de fato, o que os colegas sindicalistas chamariam, à época, de “traíra” dos trabalhadores e “dedo-duro” dos militantes de esquerda, que sempre o endeusaram. Ninguém, até agora, desmentiu na Justiça os depoimentos aqui citados.

Em périplos pelo País, Lula conta lorotas que mais se acomodariam em narrativas das aventuras de grandes mentirosos do folclore. Como no caso recente em que algum intelectualoide do auditório do teatro Oi Leblon, núcleo de rebeldia juvenil na ditadura sob o nome de Casa Grande, lhe soprou que o assassino de Antônio Conselheiro foi ancestral do presidente do TFF-4, em que hoje está sendo julgado. De fato, o tio-trisavô de Thompson Flores era coronel, não general, e morreu três meses antes do beato de Canudos.

Essa foi apenas uma piada mentirosa e sem graça. Mais graves são as patranhas misericordiosas de pretensos adversários, como Temer, que põem as instituições em risco para tornar um mentiroso serial acima da lei e fora da democracia.

José Nêumanne

Jornalista, poeta e escritor

(Pulicado na Pag2A do Estado de S. Paulo da quarta-feira 24 de janeiro de 2018)

No Blog do Nêumanne: Caixinha, obrigado!

No Blog do Nêumanne: Caixinha, obrigado!

A Caixa não é banco público, mas caderneta de poupança de político

Na minha travessia da infância para a adolescência, internado no Instituto Redentorista Santos Anjos, em Bodocongó, Campina Grande, Paraíba, eu morria de saudade de minha casa paterna, a 360 quilômetros de distância do seminário, em pleno sertão. E, por incrível que pareça, meu lenitivo musical ainda não era Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, Jackson do Pandeiro, o bamba do coco, ou ainda Genival Lacerda, seu Vavá, o democrático senador do rojão. Mas, sim, uma canção de domínio público norte-americana que, desafinado como sempre, cantava, fazendo a segunda voz do coro nas festas mundanas do internato. Seu título: Greenfield.

Não: os campos do sertão normalmente eram ressequidos e cinzentos, nada tendo que ver com o verde da nostálgica canção folclórica dos ianques. Mas sempre me bate uma saudade dolente quando a ouço. Não tanto mais agora que os agentes policiais e procuradores federais recorreram ao título para batizar mais uma daquelas equipes de tarefas  policiais-judiciais com que se pretende pôr fim ao descalabro da corrupção no serviço público nacional. Informa o novo pai dos inocentes, o Google, que ela foi deflagrada em 5 de setembro de 2016 e investiga um desvio dos fundos de pensão, bancos públicos e estatais, estimado, inicialmente, em pelo menos R$ 8 bilhões. Além da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF), também a integram a Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc) e a Comissão de Valores Mobiliários(CVM). A Wikipédia dá conta de que dela participam cerca de 560 policiais federais, 12 inspetores e quatro procuradores federais da CVM, oito auditores da Previc e 14 procuradores da República. A denominação, instigante como de hábito, não se refere à canção citada, mas alude a um jargão dos negócios sobre um tipo de investimento que envolve projetos iniciantes, ainda no papel.

Nesta virada de ano, os agentes da lei houveram por bem recomendar ao presidente da República que demitisse os 12 vice-presidentes da Caixa Econômica Federal (CEF), por suspeitas de corrupção na gestão do banco estatal. Por que o presidente foi incomodado para exercer uma providência normalmente adotada pela diretoria? É que, ao contrário do Banco do Brasil (BB), só para dar o exemplo mais simples e à mão, que tem sócios privados, a Caixa, não. Ela é propriedade exclusiva do Tesouro Nacional e ao presidente cabe geri-la em nome dos cidadãos, que representa por delegação dada nas urnas, além de nomear e demitir diretores e membros de seus conselhos.

De início, Temer não pareceu dar ao caso muita atenção. Até que o MPF informou da recomendação ao Banco Central e a instituição federal encarregada de gerir as transações bancárias se associou à recomendação. Diante da resistência de Temer em atender à recomendação, os procuradores terminaram por avisá-lo de que, caso não tomasse a providência, ele poderia ser responsabilizado por eventuais atos ilícitos assinados por algum vice-presidente da Caixa pilhado em flagrante.

O escândalo ganhou tons mais dramáticos quando o noticiário encontrou um caso de suspeição que chamou a atenção do público. A vice-presidente Deusdina dos Reis Pereira foi flagrada insinuando por e-mail a um interlocutor das Centrais Elétricas de Minas Gerais (Cemg) que sua aprovação a um pedido de crédito da estatal dependeria da indicação do nome dela para seu Conselho Administrativo. Aí Temer agiu: o Planalto informou que ele tinha determinado ao presidente da CEF, Gilberto Occhi, que afastasse por 15 dias quatro dos 12 vice-presidentes (!!!), inclusive Deusdina, cujo e-mail pidão circulou por toda parte, País afora.

Na semana passada a Caixa adaptou a própria governança às exigências da Lei das Estatais. Houve, então, choro e ranger de dentes da chamada base do governo, que se sentiu atingida no coração pelas novas exigências para o preenchimento desses cargos de alta direção.

Em entrevista exclusiva, Temer disse aos repórteres Gustavo Uribe e Marcos Augusto Gonçalves, da Folha de S.Paulo : “Esses casos têm de ser avaliados e não estou os incriminando. Acho que, cautelarmente, você os afasta para que depois o Conselho possa examinar. Porque também, se não tiverem culpa, eles podem até retornar a seu cargos. Se tiverem, não retornam.”

O estilo cauteloso, habitual no presidente, não tem força suficiente para apagar evidências chocantes que podem dotar o escândalo da Caixa de dimensões, se não comparáveis com o da Petrobrás, o petrolão, o maior de todos, no mínimo, ao dos Correios, pavio da dinamite que fez explodir o mensalão. Com consequências imprevisíveis. O e-mail de Deusdina não contém um milésimo do teor explosivo da imagem do século em matéria de corrupção no Brasil: a fotografia do dinheiro em espécie em mochilas e malas no apartamento usado pela família Vieira Lima em Salvador. Ora, Geddel, amigo do peito do presidente e presidiário na Papuda, foi vice-presidente da Caixa no governo Dilma Rousseff, do PT, que passeia pelo mundo maldizendo o vice “golpista”, E este era, como chefão do PMDB, o mais alto poder que se alevantava sobre a caixa de Pandora de todas as malandragens da CEF. Com sua insuperável inimizade com a gramática e a lógica, madame age da mesma forma olímpica e insensata como atua no episódio da compra da “ruivinha” da Astra Oil em Pasadena pela Petrobrás.

Mas Temer não tem como fugir da responsabilidade nem em Davos, na Suíça, na reunião do Fórum Econômico Mundial. E, se, realmente, ele pretende, como anunciou a manchete da Folha no sábado, limpar sua imagem suja que nem pau de galinheiro, deveria ler com atenção a entrevista que o criminalista René Ariel Dotti deu a Ricardo Brandt, no Estadão, publicada nesta segunda 22, com chamada na primeira página. Dotti é assistente de acusação do Ministério Público, contratado pela Petrobrás para os processos da Operação Lava Jato. Neles defende os interesses da empresa, que se considera vítima do petrolão, também no julgamento de segundo grau da condenação de Lula em Porto Alegre.

Na entrevista, Dotti defende a necessidade do fim dos “políticos profissionais” em cargos em comissão nas estatais e no governo como forma de combate à corrupção. “Nas mazelas da administração pública em todos os níveis, a generalidade dos ‘cargos em comissão’ é porta aberta para os malsinados cabides de emprego para a prestação de serviços estranhos à função, como é rotineiro em gabinetes de parlamentares”, afirmou o responsável pela segunda sustentação oral no Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, em Porto Alegre, na quarta 24.

“O fenômeno tornou-se rotineiro na cultura política de aparelhamento do Estado, onde não há desempregados.” O criminalista acompanha parecer do MPF, pedindo a manutenção da condenação do ex-presidente pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, no processo do tríplex do Guarujá. E também aumento de pena, estipulada pelo juiz federal Sergio Moro em 9 anos e 6 meses de prisão. e  ainda que os recursos recuperados pela Justiça sejam transferidos para os cofres da Petrobrás – elementos que constam do documento já entregue no processo.

Ao contrário disso, Temer admitiu a possibilidade de partidos continuarem a fazer indicações políticas na Caixa e afirmou que acolheria “sem dúvida nenhuma” caso lhe fosse sugerido um nome que fosse “um Albert Einstein para uma atividade científica”. Trata-se de uma piada de péssimo gosto, que, aliás, marca distância abissal entre ele e Dotti.

Dotti é um herói dos advogados brasileiros na resistência à ditadura militar e teve moral sustentada pela própria biografia para enfrentar os advogados de Lula, entre os quais o ex-presidente da OAB José Roberto Batocchio, quando tentaram apontar contradição, que não havia, entre sua posição na ditadura e sua postura de advogado da Petrobrás na Lava Jato.

Se Temer, de fato, persegue a purgação de sua imagem emporcalhada por ações de seus correligionários e amigos, neste ano em que a Nação elegerá seu substituto, certamente terá de ir além do afastamento temporário dos representantes dos partidos políticos, que são de fato os verdadeiros donos da CEF. Limpeza mesmo, para valer na Caixa, só se ela for extinta ou, no mínimo, privatizada. Caso contrário, sua sina será a de continuar sendo poupança de político de qualquer partido na base do “caixinha, obrigado.”

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 22 de janeiro de 2018)

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No Blog do Nêumanne: E isso pode?

Por que será que delações contra as cúpulas de Executivo e Judiciário nunca são premiadas, hein?

Em 9 de junho de 2017, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luis Roberto Barroso afirmou que o Estado brasileiro é “rancoroso e vingativo” e que o frigorífico JBS tenderia a sofrer retaliações  após um dos seus sócios, Joesley Batista, haver denunciado o presidente Michel Temer de participação num esquema de corrupção.

De junho de 2017 até hoje os fatos comprovam que Luis Roberto Barroso anteviu e anunciou o que aconteceria e aconteceu mesmo. No início de setembro de 2017, não aguentando a pressão de um “Estado vingativo”, o procurador-geral Rodrigo Janot anulou  a imunidade penal que foi negociada por ele aos executivos da JBS. Ao convocar a imprensa para anunciar perda da imunidade penal, Rodrigo Janot disse que obteve gravações que considerou “gravíssimas e que envolveriam o Supremo Tribunal Federal”

Os irmãos Batistas foram presos à jato a pretexto de terem usado informações para se beneficiarem com a compra de dólares e a venda de ações da JBS, aproveitando-se do impacto no mercado provocado por seu acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal. Este foi um caso sem precedentes no Brasil. Não se conhece caso parecido, prisão por uso de informações privilegiadas.

0s irmãos Batistas sofreram um ataque de denúncias, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), da Receita Federal, etc..

Só na CVM que a tudo assistiu  e deixou o roubo gigantesco ocorresse  na Petrobras sem nada ter feito, quando os executivos da JBS denunciaram Michel Temer “acordou” e abriu 13 processos contra o grupo JBS. 13!!!

Rodrigo Janot agora está as voltas com a PF. Foi chamado para depor em inquérito aberto a pedido da ministra Carmem Lucia. Isso tudo apenas por ter homologado a delação premiada que incriminou o presidente da Republica e fez insinuações contra o STF. Quem duvida que Janot vai de danar? Colocaram a PF no seu pé. Com a policia em seu encalço, tudo indica que Janot não faz parte do club privé os intocáveis que nunca cumprem penas no Brasil

Não vimos até agora nenhuma delação que atinge o judiciário e tem gente querendo denunciar. Regis Fitchner, ex-secretário da Casa Civil de Sergio Cabral, tinha antecipado que pretendia  fazer uma delação premiada e “contar casos sobre o Judiciário”. Foi solto num piscar de olhos.

Antonio Palocci, que também negocia uma delação premiada ,que nunca fecha, antecipou que iria delatar o Judiciário e a troca de decisões por promessa de nomeações. Palocci já antecipou que o ex-presidente do STJ  Cesar Asfor Rocha recebeu suborno de R$ 5 milhões da construtora Camargo Corrêa para anular a operação Castelo de Areia, uma prévia da Lava Jato. Palocci,  como foi publicado,  disse que o acerto com Asfor Rocha foi comandado pelo ex-ministro da Justiça de Lula  Márcio Thomaz Bastos  e incluía também a promessa de apoio para que o então o magistrado fosse indicado para uma vaga no STF. Ao que tudo indica, vai ser difícil fechar essa delação.

Ou seja, Barroso tinha razão: o Estado é vingativo. E isso pode, Arnaldo?

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 15 de janeiro de 2018)

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No Blog do Nêumanne: Tempestade em copo d´água

No Blog do Nêumanne: Tempestade em copo d´água

Tratar julgamento de Lula na segunda instância como estopim de bomba só faz o jogo do réu

Na quarta-feira da semana que vem, 24 de janeiro, todo mundo já está careca de saber, a 8.ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), de Porto Alegre, julgará os recursos apresentados pela defesa de Luiz Inácio Lula da Silva contra sua condenação em primeira instância pelo juiz Sérgio Moro, da 13.ª Vara Criminal de Curitiba, a nove anos e meio de prisão. É claro que não se trata de um julgamento comum, pois o condenado não é um Zé Mané qualquer, mas um ex-presidente da República com grandes possibilidades de vir a ser candidato a este posto mais poderoso pela terceira vez, caso seja absolvido.

Acontece que, caso a votação dos três desembargadores encarregados confirme a sentença do juiz, muitos interessados – além do próprio Lula, de seu Partido dos Trabalhadores (PT), que não tem outro pretendente com condições iguais ou até similares às dele, e seus eventuais aliados – podem ser prejudicados por essa sentença. Não se trata de benemerência, simpatia ou espírito democrático de garantir a disputa igualitária com um concorrente popular. Sentimentos tão nobres assim não fazem parte do cotidiano da política neste país. Trata-se, isso sim, de interesses contrariados que dependem menos da alforria do acusado e muito mais das ambições pessoais e políticas desses atores.

tempestadeemcopo

Advogados e prosélitos de Lula têm tentado eximir o réu de apresentar defesa apoiada em fatos, na lógica e em provas para garantir, se não uma reforma da sentença de Moro por 3 a 0, pelo menos uma derrota com voto de honra, usando aqui a expressão do futebol, tão caro ao indigitado. Dia destes, o autor destas linhas numa rápida conversa pessoal obteve do presidente do Congresso Nacional na votação do impeachment de Collor, o então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Sydney Sanches, a explicação dessa torcida por pelo menos um voto a favor dos interesses de Lula e seus sequazes. Segundo o especialista, o resultado de 3 a 0 não impede que embargos sejam impetrados contra ele, mas não suspende a execução da decisão, que teria de ser suspensa para os novos julgamentos, aí, sim, caso haja um voto dissidente num resultado em que o juiz de primeira instância tenha sua sentença confirmada na segunda.

Ora, não é segredo para ninguém que tudo o que a defesa tem feito para adiar o julgamento do juiz e, depois, do tribunal é ganhar tempo, empurrar sentenças e acórdãos para as chamadas calendas gregas. Dois respeitáveis especialistas nesse assunto, os professores Joaquim Falcão, da Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas no Rio, e Luiz Flávio Gomes, presidente do Instituto Avante Brasil, têm descrito as 18 possibilidades de recursos a que Lula terá direito na eventualidade adversa.

Esses recursos começam no próprio TRF-4 e continuam em instâncias acima: no Tribunal Superior de Justiça (TSJ) e no Supremo Tribunal Federal (STF), na alçada penal, e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) , na eleitoral. A grande questão que se alevanta na opinião pública na primeira alçada diz respeito a uma eventual prisão do condenado. Mais do que a maioria absoluta (54%) dos cidadãos ouvidos na última pesquisa do Datafolha querem que o ex-presidente seja preso. Na mesma pesquisa, contudo, o condenado goza da preferência do eleitorado na próxima eleição presidencial, vencendo a disputa eventual nos dois turnos. A melhor notícia para o PT e seu eterno candidato único à Presidência nessa pesquisa é que sua rejeição caiu para 39%, acima dos 33% de sua vitória em 2002, mas bem abaixo dos 57% de 2016. Ou seja, não é impossível encontrar entre os que lhe prometem votos alguns que imaginam a hipótese de que ele venha a presidir morando no presídio da Papuda, e não no Palácio da Alvorada.

Caprichos estatísticos à parte, mais certo de tudo é que as últimas eleições municipais, há apenas um ano e meio, atiraram o partido dele no fundo do lixo em matéria de desempenho nas urnas – e isso prognóstico nenhum consegue desmentir nem renegar. De qualquer maneira, por enquanto, o busílis para o PT em particular e a esquerda em geral é tê-lo liberado para a disputa, ainda que violando um dos poucos projetos de lei moralizadores, pois de iniciativa popular, aprovados no Congresso: a celebrada, embora, como se poderá ver, nem sempre eficaz Lei da Ficha Limpa. Ora, dane-se a Ficha Limpa, dane-se a honestidade, dane-se a iniciativa popular, dane-se a moralidade pública, dirão os lulistas.

Entre estes, voltemos ao argumento inicial deste texto, há muitos chefões partidários petistas que têm em Lula uma tábua de salvação para sua própria liberdade e seus projetos políticos e uma chance de impor uma derrota histórica ao juiz Sergio Moro e à Operação Lava Jato. Estes, como é público e notório, simbolizam uma nova atitude de parte da magistratura nacional, que, com a ajuda de agentes e procuradores federais, tem ousado revirar pelo avesso o velho axioma da injustiça nacional, pelo qual só conhecem as agruras do inferno prisional tupiniquim os definidos por palavras que começam com pê: pretos, prostitutas e pobres. Com Marcelo Odebrecht em casa de tornozeleira, cumprindo o resto da pena em cujo início amargou o convívio com outros presos em celas, os ricos passaram a ter exceções à velha regra, que até ameaçou cair em desuso. O mesmo se pode dizer de outra ilustre figura da política, José Dirceu de Oliveira e Silva, o fac-totum do próprio Lula, em condição similar à de Marcelo Odebrecht, graças à caridade de praxe de seus amiguinhos do Supremo. Até agora, contudo, mesmo tendo a Lava Jato condenado magotes de políticos – entre eles o ex-presidente Lula, em Curitiba, e seu ex-aliado Sérgio Cabral, ex-governador do Rio, à pena recordista de até agora mais de 80 anos de cadeia – os 55 mil portadores de foro estão livres, leves e soltos.

Somente a 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba, sob o paranaense de Maringá Sergio Moro, condenou 118 réus. Mas o STF, última instância para os recursos a que ainda Lula terá direito, não condenou absolutamente nenhum político com mandato ou burocrata da elite partidária com prerrogativa de função, ou seja, imunidade à qual se pode acrescentar sem favor algum, no caso desta nossa Pindorama, o pê para impunidade.

Por isso os tucanos, adversários políticos dos petistas que arrombaram os cofres públicos nacionais nas indigestões de Lula e Dilma, com o auxílio do hoje MDB (adequadamente agora com o pê amputado) de Temer, babam de compaixão quando se trata de lamentar a sorte do chefão da roubalheira. Nem Fernando Henrique escapa desse chororô de crocodilo. Ao lado de Aécio, é claro. E muitos outros ilustres de sua grei. Ninguém deveria se espantar com isso. Esquecer-se da parte do tucanato de alta plumagem no lodo dos propinodutos do petróleo quem haverá de?

Caso especial é o do citado MDB do atual presidente. Xingado de golpista nas ruas, nas plateias de teatro e nos estádios esportivos, Temer não esboçou nenhuma reação à notícia nas redes sociais de que o chefe de sua Casa Civil, Eliseu Padilha, “curtiu” um tuíte do franciscano Leonardo Boff acusando o “algoz” de todos os larápios de colarinho branco da hierarquia republicana nacional de “injusto”. Por que será que Padilha considera o paranaense implacável portador do maior defeito que qualquer julgador pode adquirir, o de negar a justiça? Por que Temer não viu na atitude pública e declarada do anspeçada nada de reprovável?

O mesmo vale para outros menos óbvios que terminam levando lenha, gasolina e archote para ajudar a fogueira que o PT, os sindicatos e os movimentos sociais manipulados pela esquerda ameaçam atear à frente do TRF-4 no dia 24. Há entre estes também os inocentes que disputam apenas a luz que brota desse fogo. Por que Cármen Lúcia convocou o presidente do tribunal gaúcho, Thompson Flores, para discutir a segurança do julgamento, e tornou a decisão pública, em vez de agir, como seu cargo determina, contra as ameaças que os desembargadores da Corte dizem estar sofrendo? Até adversários entram nesse jogo por estupidez, caso do prefeito de Porto Alegre, o tucano de direita Marchezan Jr., que convocou tropas para impor uma ordem que não está sendo nem será ameaçada.

Quem testemunhou os movimentos pífios no fim de semana e riu da confusão feita pela presidente do PT, Gleisi Hoffman, entre Forza Luca e Forza Lula, talvez por imaginar que em Munique se fala italiano, sabe muito bem que essa tempestade toda só interessa mesmo aos marinheiros de águas turvas, as turbas que seguem certa voz roufenha de comando.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 15 de janeiro de 2018)

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Área de anexos

No Blog do Nêumanne: A galhofa geral brasileira

No Blog do Nêumanne: A galhofa geral brasileira

Escolha pelo pai da deputada para ministério de Temer abriu Caixa de Pandora dos malfeitos dela

Os policiais do Rio Grande do Norte não receberam seus vencimentos de dezembro nem o equivalente ao 13.º salário. Por isso pararam de trabalhar, comprometendo gravemente a segurança pública do Estado. Alegam também não ter condições de entrar em ação porque a frota está sucatada e os equipamentos à sua disposição não lhes permitem enfrentar o cotidiano arriscado e violento em condições condizentes. Não são, como se vê, só pretextos.

A desembargadora Judite Nunes considerou o aquartelamento dos policiais militares e a paralisação dos civis indícios de greve dos agentes estaduais de segurança e isso não é permitido por lei. Mas os policiais não voltaram a patrulhar as ruas e as delegacias continuaram sem funcionar. O desembargador Cláudio Santos, do Tribunal de Justiça, então, determinou que o comandante da Polícia Militar e o secretário de Segurança Pública prendessem os amotinados. Estes se reuniram, algemaram-se a si próprios, num gesto de rebeldia e desafio, mas não foram, e ainda não estão, presos. A solução encontrada foi mandar tropas federais para o Estado sem polícia. Até quando? Quem garante o quê nessa situação? A quem o cidadão desarmado e à mercê de bandidos armados até os dentes na rua deve apelar? Ao papa argentino? Ao bei de Túnis? À Virgem Maria? Ou a Iemanjá, a rainha do mar?

O impasse do Rio Grande do Norte não foi isolado, nem único, nem singular. Os servidores do outro Rio Grande, o do Sul, tomam dinheiro emprestado em bancos para sustentar a família, já que o disponível nos cofres do Estado não lhes supre as necessidades. É o caso de outra Unidade da Federação com nome de Rio, o de Janeiro. Sem recursos para pagar suas contas, funcionários fluminenses reúnem-se nas ruas, gritam palavras de ordem, armam barricadas e queimam pneus. Em vão! Em Aparecida de Goiânia, as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e Comando Vermelho (CV), do Rio, degolam, trucidam e incineram os oponentes ao lado.

Sete dos nove governadores do Nordeste atribuem a situação terminal de seus presídios à inerte insensibilidade do governo federal. O ministro da Justiça, Torquato Jardim, recebe as críticas sem humildade, com quatro pedras na mão. Nessa pendência ninguém tem razão. Os Estados, entes federativos responsáveis pela segurança dos cidadãos, desperdiçam quase tudo o que arrecadam em salários, penduricalhos e outros privilégios do corpo funcional inchado e disforme, cujo dispêndio é desproporcional à capacidade do erário. A União, que deveria mais propriamente ser chamada de Desunião, ocupa-se em distribuir emendas orçamentárias para manter prerrogativas, como o foro privilegiado.

Como não há mais bei em Túnis e os prelados católicos já não dispõem de patrimônio para alimentar e vestir os servidores flagelados, os governadores rebelados apelam ao que lhes parece disponível: o Judiciário. Pediram audiência à presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e, como parece não ter mais a fazer, Cármen Lúcia os recebe. A exemplo dos cavaleiros gaúchos do célebre poema do folgazão pernambucano Ascenso Ferreira, “para quê? Para nada!”. Na reunião, a procuradora de origem só pode usar belas frases inúteis e vazias de sempre. De nada servem. E os chefes dos Executivos estaduais entram e saem de mãos abanando.

Na presidência do STF, Cármen Lúcia interpreta as fadas dos contos infantis e tem valia similar à delas. Em 2017, também presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ela visitou presídios do País, mas passou ao largo de Aparecida de Goiânia, pois o governador de Goiás, Marconi Perillo, achou que seria impróprio. Agora ele mudou de opinião, mas repetiu-se o forfait: não tinha o que fazer lá. Em 2014, e há dois meses, ela encarregou subordinados de fazerem relatórios sobre a prisão. Nada mudou e veio o réveillon do horror.

Seria o caso de, em reuniões como essa, ou quando dispara ordens para que preparem relatórios que só repetem os anteriores e nada produzem de efetivo, dona Cármen e seus dez pares da távola-ferradura se darem as mãos e entoarem em coro, fazendo eco a Roger Moreira e ao Ultraje a Rigor: “Inútel, a gente somos inútel”. Mas, não: enquanto o governador Perillo faltava ao expediente e se escondia da crise pulando as sete ondinhas para Iemanjá numa praia de Pernambuco, Cármen, no plantão do último recesso, antes de passar coroa e cetro para Dias Toffoli, não podia ter perdido essa chance para proferir mais uma frase de efeito. Ela já disse: “Cala a boca nunca mais”. E mais: “O cinismo venceu a esperança e agora o escárnio venceu o cinismo”. Não seria esta a hora de o inócuo derrotar o escárnio? É o que parece!

Hoje nossos presídios são puxadinhos dos palácios. Serviçais de Geddel Vieira Lima, residente na Papuda, em Brasília, cuidam de seus interesses na Secretaria de Governo, sob Carlos Marun, capanga de Eduardo Cunha, que mora numa cela, em Curitiba. A ministra a ser encarregada da reforma trabalhista foi indicada por papai, o ex-presidiário Roberto Jefferson, delator, réu confesso do mensalão, indultado por Dilma e perdoado pelo STF, sempre apto a soltar, nunca disposto a prender. A filhota, condenada por violar as leis trabalhistas, paga acordo com outro “ex-escravo” dispondo da conta bancária de uma assessora, da mesma forma que Job Brandão, ex-empregado da famiglia Vieira Lima, “doava” 80% dos vencimentos às contas dos chefões. A débil gestão Temer caiu… por enquanto na galhofa geral. E se prepara para não reformar a Previdência, mesmo com a ficha-sujíssima sra. Brasil na equipe.

Sendo Cármen Lúcia inapta e inepta para decepar o nó górdio que pretende desatar, e à falta de beis e bispos, a plateia pagante do show só exige que se investiguem todos os suspeitos e se prendam todos os culpados, sob pena de este sr. Brasil velho não ter mais cura.

*Jornalista, poeta e escritor

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A galhofa geral brasileira

José Nêumanne

Escolha pelo pai da deputada para ministério de Temer abriu Caixa de Pandora dos malfeitos dela

Os policiais do Rio Grande do Norte não receberam seus vencimentos de dezembro nem o equivalente ao 13.º salário. Por isso pararam de trabalhar, comprometendo gravemente a segurança pública do Estado. Alegam também não ter condições de entrar em ação porque a frota está sucatada e os equipamentos à sua disposição não lhes permitem enfrentar o cotidiano arriscado e violento em condições condizentes. Não são, como se vê, só pretextos.

A desembargadora Judite Nunes considerou o aquartelamento dos policiais militares e a paralisação dos civis indícios de greve dos agentes estaduais de segurança e isso não é permitido por lei. Mas os policiais não voltaram a patrulhar as ruas e as delegacias continuaram sem funcionar. O desembargador Cláudio Santos, do Tribunal de Justiça, então, determinou que o comandante da Polícia Militar e o secretário de Segurança Pública prendessem os amotinados. Estes se reuniram, algemaram-se a si próprios, num gesto de rebeldia e desafio, mas não foram, e ainda não estão, presos. A solução encontrada foi mandar tropas federais para o Estado sem polícia. Até quando? Quem garante o quê nessa situação? A quem o cidadão desarmado e à mercê de bandidos armados até os dentes na rua deve apelar? Ao papa argentino? Ao bei de Túnis? À Virgem Maria? Ou a Iemanjá, a rainha do mar?

O impasse do Rio Grande do Norte não foi isolado, nem único, nem singular. Os servidores do outro Rio Grande, o do Sul, tomam dinheiro emprestado em bancos para sustentar a família, já que o disponível nos cofres do Estado não lhes supre as necessidades. É o caso de outra Unidade da Federação com nome de Rio, o de Janeiro. Sem recursos para pagar suas contas, funcionários fluminenses reúnem-se nas ruas, gritam palavras de ordem, armam barricadas e queimam pneus. Em vão! Em Aparecida de Goiânia, as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e Comando Vermelho (CV), do Rio, degolam, trucidam e incineram os oponentes ao lado.

Sete dos nove governadores do Nordeste atribuem a situação terminal de seus presídios à inerte insensibilidade do governo federal. O ministro da Justiça, Torquato Jardim, recebe as críticas sem humildade, com quatro pedras na mão. Nessa pendência ninguém tem razão. Os Estados, entes federativos responsáveis pela segurança dos cidadãos, desperdiçam quase tudo o que arrecadam em salários, penduricalhos e outros privilégios do corpo funcional inchado e disforme, cujo dispêndio é desproporcional à capacidade do erário. A União, que deveria mais propriamente ser chamada de Desunião, ocupa-se em distribuir emendas orçamentárias para manter prerrogativas, como o foro privilegiado.

Como não há mais bei em Túnis e os prelados católicos já não dispõem de patrimônio para alimentar e vestir os servidores flagelados, os governadores rebelados apelam ao que lhes parece disponível: o Judiciário. Pediram audiência à presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e, como parece não ter mais a fazer, Cármen Lúcia os recebe. A exemplo dos cavaleiros gaúchos do célebre poema do folgazão pernambucano Ascenso Ferreira, “para quê? Para nada!”. Na reunião, a procuradora de origem só pode usar belas frases inúteis e vazias de sempre. De nada servem. E os chefes dos Executivos estaduais entram e saem de mãos abanando.

Na presidência do STF, Cármen Lúcia interpreta as fadas dos contos infantis e tem valia similar à delas. Em 2017, também presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ela visitou presídios do País, mas passou ao largo de Aparecida de Goiânia, pois o governador de Goiás, Marconi Perillo, achou que seria impróprio. Agora ele mudou de opinião, mas repetiu-se o forfait: não tinha o que fazer lá. Em 2014, e há dois meses, ela encarregou subordinados de fazerem relatórios sobre a prisão. Nada mudou e veio o réveillon do horror.

Seria o caso de, em reuniões como essa, ou quando dispara ordens para que preparem relatórios que só repetem os anteriores e nada produzem de efetivo, dona Cármen e seus dez pares da távola-ferradura se darem as mãos e entoarem em coro, fazendo eco a Roger Moreira e ao Ultraje a Rigor: “Inútel, a gente somos inútel”. Mas, não: enquanto o governador Perillo faltava ao expediente e se escondia da crise pulando as sete ondinhas para Iemanjá numa praia de Pernambuco, Cármen, no plantão do último recesso, antes de passar coroa e cetro para Dias Toffoli, não podia ter perdido essa chance para proferir mais uma frase de efeito. Ela já disse: “Cala a boca nunca mais”. E mais: “O cinismo venceu a esperança e agora o escárnio venceu o cinismo”. Não seria esta a hora de o inócuo derrotar o escárnio? É o que parece!

Hoje nossos presídios são puxadinhos dos palácios. Serviçais de Geddel Vieira Lima, residente na Papuda, em Brasília, cuidam de seus interesses na Secretaria de Governo, sob Carlos Marun, capanga de Eduardo Cunha, que mora numa cela, em Curitiba. A ministra a ser encarregada da reforma trabalhista foi indicada por papai, o ex-presidiário Roberto Jefferson, delator, réu confesso do mensalão, indultado por Dilma e perdoado pelo STF, sempre apto a soltar, nunca disposto a prender. A filhota, condenada por violar as leis trabalhistas, paga acordo com outro “ex-escravo” dispondo da conta bancária de uma assessora, da mesma forma que Job Brandão, ex-empregado da famiglia Vieira Lima, “doava” 80% dos vencimentos às contas dos chefões. A débil gestão Temer caiu… por enquanto na galhofa geral. E se prepara para não reformar a Previdência, mesmo com a ficha-sujíssima sra. Brasil na equipe.

Sendo Cármen Lúcia inapta e inepta para decepar o nó górdio que pretende desatar, e à falta de beis e bispos, a plateia pagante do show só exige que se investiguem todos os suspeitos e se prendam todos os culpados, sob pena de este sr. Brasil velho não ter mais cura.

*Jornalista, poeta e escritor

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No Blog do Nêumanne: O que Lula não foi nem é, e o que podia ter sido

No Blog do Nêumanne: O que Lula não foi nem é,  e o que podia ter sido

Ainda há quem aposte no sonho populista, apesar de ter virado um pesadelo

O primeiro slogan de Lula e de seu Partido dos Trabalhadores (PT) – “contra tudo isso que está aí” – a negação de tudo o quanto o líder e o partido fizeram. E a afirmação exata do que querem aqueles que agora o apoiam, na esperança de que, de volta ao governo do qual saiu com imensa popularidade, ele faça, afinal, o que não fez.

Seria uma simplificação muito grande – e, portanto, inaceitável –   querer dizer agora que tudo o que aqueles que apostaram no líder sindical como dirigente de um partido político só exigiam dele que “não roubasse e não deixasse roubar”. Isso sempre foi repetido por seu lugar-tenente José Dirceu de Oliveira, mas é sentença de lavra de outro aliado dos velhos tempos das “Diretas-já”, Ulysses Guimarães, o timoneiro do MDB, agora de volta à sigla original MDB. Pode-se ainda argumentar que o antigo pessedista que se tornou multipresidente de partido de oposição e do Congresso Constituinte, além de ter ocupado outros cargos de poder e honra não sobreviveu à transformação daquele grupo de políticos civis resistentes à ditadura tecnocrático-militar de 1964, que se radicalizou em brutalidade em 1968, num grupo que o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot definiu como sendo o “quadrilhão do PMDB”. Este perdeu o pê e a honra nestes dias. Mas a verdade histórica é que o combate à corrupção era uma plataforma importante no ideário da esquerda, que carregou o metalúrgico vindo do Agreste nos ombros e combateu à sua sombra. E se o historiador honesto terá de reconhecer que o dr. Ulysses foi traído pelos larápios de sua legenda, o mais correto a dizer de Lula é que ele foi o supremo traidor.

Na ditadura Lula respondeu por greve e agora na democracia por roubo Foto Reginaldo Manente/Estadão

Na ditadura Lula respondeu por greve e agora na democracia por roubo Foto Reginaldo Manente/Estadão

A corrupção não foi inventada por Lula e seus companheiros de lutas no sindicalismo, no partido e na administração pública. Qualquer adversário dele que emitir esse juízo falseará ridiculamente a verdade histórica, que começou a ser contada na Bahia, nos primórdios da colônia, por Gregório de Matos, o Boca do Inferno. A malversação do erário não é também uma jabuticaba, uma especiaria brasileira, uma espécie de doença tropical. Ela é praticada desde priscas eras. Pois o foi no Império Romano, como dia destes lembrou o inefável Moreira Franco, genro dos genros e sogro torto, em momento de Conselheiro Acácio oriundo do Piauí. E hoje suja os negócios republicanos nas ditaduras e nas democracias, nos tristes trópicos e nos continentes temperados, como uma espécie de epidemia maligna que transforma a ambição em delito e o delito em hábito.

A corrupção não é o único dos males da política. Mas também não pode ser tratada como um detalhe de somenos, como o fez o ilustre, mas atarantado, linguística americano Noham Chomski em entrevista a este Estado. “Isso foi particularmente verdadeiro no caso do Brasil, que durante o governo Lula se tornou um dos países mais respeitados do mundo, por bons motivos. Também houve falhas graves, entre elas a falta de diversificação da economia e a extrema corrupção, que persistiu de anos anteriores. Não há razão para que tais falhas não possam ser superadas”, disse o ilustre intelectual, de 89 anos, respondendo às perguntas por e-mail.

Infelizmente a entrevista por e-mail impõe certos limites que tornam o contato pessoal indispensável em casos de reportagens de perguntas e respostas. Esses limites impediram que os colegas que o abordaram questionassem que bons motivos teriam sido esses que teriam tornado o Brasil um dos países mais respeitados do mundo entre 2002 e 2016, considerando não apenas os dois mandatos do ex-operário, mas também o mandato e meio de sua sucessora, por ele ungida. Ainda que se dê ao respeitável filósofo estrangeiro o benefício do silêncio em relação a esses “bons motivos”, não se pode considerar desprezível o erro da corrupção em grau extremo, que ele mesmo definiu como “falha grave”. Mais importante do que importunar o mestre sobre os bons motivos do prestígio do Brasil no exterior é aduzir que esse prestígio está sendo contestado agora exatamente pelo escândalo que abalou a imagem do país.

No mesmo dia, em outro jornal, O Globo, foi possível conhecer um episódio histórico protagonizado pelo herói obreiro do mestre da língua e do pensamento na academia, em testemunho valioso de um político profissional, não um intelectual, mas um perito na arte negocial de comprar e vender votos, o ex-deputado federal Pedro Corrêa. Ex-presidente nacional do PP (Partido dito Progressista, imagine só) explicou outro ponto sobre o qual o mestre não pontificou ao afirmar que a desobediência ao quarto mandamento do decálogo mosaico “persistiu de anos anteriores”.

Pois é. Da varanda do apartamento onde cumpre sua dupla pena de condenado pelos dois processos mais escabrosos da história da República brasileira – o mensalão e o petrolão – o político experiente fixou nos últimos 30 anos – e não apenas nos 13 e meio do mandarinato lulodilmista, com extensão pela atual gestão herdada por Temer – as práticas malignas de comprar apoio de dirigentes partidários em troca de sua interferência na gestão daquilo que os antigos latinos chamavam de “coisa pública”.

Talvez o dr. Chomski pudesse regozijar-se do título da reportagem na página 4, a principal da política do jornal, referindo-se ao período anterior. Este abrangeu a ditadura militar, a chamada Nova República, que seria de Tancredo e terminou sendo de Sarney, o notório governo Collor, a curta transição por Itamar e os oito anos sob o tucano de alta plumagem Fernando Henrique Cardoso, colega de magistério do dr. Chomski.

A frase destacada pelo editor do texto da reportagem, contudo, não teria o mesmo efeito analgésico sobre a alma do bem-intencionado especialista em línguas e filosofia. Pois Corrêa não fez circunlóquios ao se referir àquele que Chomski instalou, ao lado do cineasta grego Costa Gavras e do compositor carioca Chico Buarque, no altar-mor do panteão dos deuses políticos do socialismo populista contemporâneo. “Lula”, contou Corrêa, “dizia que não ia dar em nada, porque todos esses crimes (do mensalão) estavam prescritos. Quem fazia muita restrição a isso era Valdemar (Costa Neto). Ele falava: ‘se prepare que vamos ser presos’. Eu dizia: ‘Mas o homem (Lula) não está falando que vai resolver isso?’”

As entrevistas de Chomski e Corrêa são importantes, mas em nada alteram a ordem natural das coisas da política brasileira em geral e, em particular, da questão relevante da eventual confirmação da condenação de Lula na segunda instância, que pode afastá-lo da disputa presidencial de outubro próximo. Ou até mesmo levá-lo aos presídios pelos quais passaram Corrêa e Dirceu e ao Arquipélago Lava Jato, que hoje tira do convívio social Geddel Vieira Lima e Eduardo Cunha – todos beneficiários da roubalheira instalada pelo PT, seus aliados do MDB e até, quem diria, seus figadais adversários do PSDB.

O dr. Chomski deixa uma porta aberta para aqueles que sonharam com o desmanche da corrupção de antanho, que também mereceu uma definição antológica do ex-deputado pernambucano: “Não sou nenhum santo, sou um político da minha geração, que fazia eleição com dinheiro, acertando compras de votos com os prefeitos e com os vereadores”.

O caso é que não é o fato de a roubalheira ser uma prática política antiga que justifica a volta de quem prometeu lutar “contra tudo isso que está aí” e fez o oposto. Nada disso: a legislação penal não dispensa o cumprimento de pena pelo delito da repetição, mas, sim, o exige pela mera prática do delito. Ao contrário do que imagina o dr. Chomski, o Brasil da Petrobrás instrumentalizada pelos ladrões de PT, PMDB, PSDB e outras siglas viciadas em descumprir o “não roubarás” não merece respeito dentro de suas fronteiras nem fora e até mesmo longe delas.

Esse respeito só será reconquistado se a Justiça cumprir seu papel no Estado de Direito punindo o ídolo que ele, Chico e Gavras adoram pelos crimes que ele eventualmente tenha cometido. E só por eles. Se a Justiça ceder caminho à piedade em nome da demagogia, o Brasil terá de se envergonhar dela mais ainda do que já se envergonha hoje de seus políticos ladrões, sejam quais forem. Apostar novamente na ilusão populista será um ato de traição coletiva à Pátria, que merece mais respeito e proteção.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 8 de janeiro de 2018)

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