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Coluna semanal para o site Rice: Bolsonaro, a imprensa e o coronavírus

Coluna semanal para o site Rice: Bolsonaro, a imprensa e o coronavírus

 
 

ATENÇÃO

 

 

Segue abaixo artigo semanal que a Ric Comunicação põe à disposição de todas as publicações impressas do Brasil.

 

 

O Grupo Ric de Comunicação põe à disposição de emissoras de rádio e jornais impressos ou em edição virtual três podcasts de três minutos cada e um artigo por semana. Interessados em publicar este material original deve entrar em contato com mash.leonardo@gruporic.com.br

 

 

José Nêumanne

Com seu auxiliar Heleno infectado, presidente ainda se recusa a aceitar a gravidade da pandemia, regozija-se por ter confraternizado com militantes à frente do Palácio e não fez o que devia

 

Em entrevista coletiva em que todos usavam máscaras quando ouviam e nunca quando falavam e sem manter a distância de mais de dois metros recomendada como prudente para não contrair nem transmitir a covid-19, o presidente Jair Bolsonaro não fez o que lhe cabe. E parece não ter entendido a gravidade da pandemia, embora tenha sinalizado, ufa, que não está fritando seu excelente ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, deputado escolhido para o cargo – graças a Deus – por ele próprio e por recomendáveis critérios técnicos. Neste momento, o que a parte do País que ainda tem juízo e quer sobreviver espera é que ele, no mínimo, faça um apelo para que quem puder fique em casa e mantenha o mínimo possível de contatos pessoais. Já é um avanço notável, mas ficou faltando algo fundamental, que diferencia um estadista de um político qualquer.

Durante muito tempo Sua Excelência menosprezou o risco representado pela contaminação do novo coronavírus. Viajou para a Flórida num momento em que o mundo inteiro já tinha conhecimento da situação dramática na China, onde o vírus foi inoculado pela primeira vez, e na Itália, de onde a moléstia se alastrou pelo mundo. O mais importante chefe de Estado do mundo, Donald Trump, também incorreu no mesmo engano e cometeu o terrível erro de receber a comitiva dele. O fato de 18 membros terem constatada a contaminação até a noite desta quarta-feira 18 de março de 2020 já fala por si só da imprudência de ambos. No entanto, ainda na entrevista coletiva que convocou na companhia de vários ministros envolvidos com o combate ao alastramento do mal, ele errou gravemente ao insistir em condenar o que considera “histeria”, mostrando que não percebeu a dimensão do que acontece agora no mundo inteiro.

Bolsonaro perdeu também na entrevista a oportunidade que lhe foi dada de pedir desculpas à Nação pela irresponsabilidade de cumprimentar com tapinhas nas mãos manifestantes do ato convocado para apoiá-lo e criticar os corretamente odiados chefões partidários e maganões do Judiciário. Disse que só o fez porque o teste a que se submeteu no Hospital das Forças Armadas, de presença do novo coronavírus, deu negativo. Pena nenhum repórter tê-lo questionado, como deveria fazê-lo, sobre que tipo de sensibilidade, premonição ou informação ele tem de que nenhuma daquelas 272 pessoas que ele tocou ao longo de 58 minutos à frente da rampa de descida do Palácio do Planalto poderia haver-lhe transmitido o terrível micro-organismo malsão. Será que nenhum ocupante dos outros gabinetes instalados naquele prédio é capaz de saber e lhe comunicar que a saúde de um chefe de governo é bem público e ele deve zelar por isso?

Essa entrevista pode ser comparada com outra, na Casa Branca, na véspera, mais ou menos na mesma hora. Nesta Donald Trump, com ar compungido no rosto sem máscara, como convém a um executivo com seu poder, disse: “Temos de lutar contra esse inimigo invisível. Acho que é desconhecido, mas o estamos conhecendo muito melhor”. Mike Spence, o vice, pediu aos americanos que adotem as ações recomendadas pelos infectologistas, nos próximos 15 dias. Talvez por nunca haver entendido que ele foi eleito, sim, mas com um substituto eventual que deve ser respeitado e convidado  como o americano, o capitão nem convocou o outro componente da chapa vencedora, o general Hamilton Mourão. Entre outros presentes ao reconhecimento do erro que o chefe do governo mais poderoso do mundo cometera ao não levar a sério a guerra bacteriológica, o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, disse algo que o brasileiro ainda não aceitou: “A atual situação é pior do que o 11 de Setembro para o setor aéreo”. Referia-se ao atentado terrorista de Osama bin Laden às torres gêmeas. Não faltaram outros exemplos similares no mundo. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, adotou medidas para evitar a disseminação da covid-19, entre as quais a possibilidade de usar tecnologia de ponta para detectar doentes em locais de aglomeração.

Em vez disso, “seu” Jair preferiu renovar seus ataques à imprensa, misturando a atividade com fake news, apesar de não respeitar a verdade em vários momentos. Disse, entre outros insultos, que os meios de comunicação não trataram com o mesmo rigor presidentes que enfrentaram situação semelhante. A imprensa combateu a ditadura militar e não deu paz a nenhum político corrupto, do direitista Paulo Maluf aos esquerdistas sob o comando de Lula. Aliás, nunca houve momento tão grave no Brasil, a não ser em 1919, quando o presidente eleito Rodrigues Alves morreu de gripe espanhola sem ter tomado posse, sendo substituído por um vice louco, Delfim Moreira, até que Epitácio Pessoa o sucedeu. A forma irresponsável como ele tratou a própria saúde talvez não chegue a esse desfecho, e felizmente é notório que Mourão tem saúde mental de sobra.

Tudo o que se espera dele é que lidere o combate à covid-19 usando quaisquer aliados disponíveis, incluindo os meios de comunicação.

*Jornalista, poeta e escritor

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No Blog do Nêumanne: A guerra de todos e a arenga de Bolsonaro

No Blog do Nêumanne: A guerra de todos e a arenga de Bolsonaro

José Nêumanne

Todo o planeta se mobiliza para enfrentar o coronavírus, inimigo invisível e feroz, mas o presidente dá prioridade a sua arenga particular com governadores que só o combaterão em 2022

Atordoada com a quarentena a que está condenada agora para reduzir a velocidade do contágio da pandemia da covid-19, a população brasileira acordou para esta semana, na segunda-feira, com a notícia de uma facada fatal nos mais desvalidos, enquanto os marajás do serviço público continuam à la fresca. O governo Bolsonaro encaminhou ao Congresso Nacional medida provisória autorizando empresas a dispensarem por quatro meses seus funcionários, os mandarem para casa e não pagarem seus salários. Mas, depois da reação indignada no Twitter, ele usou o mesmo instrumento para informar ter revogado a suspensão dos salários. Não falou, porém, em como obrigar empregador a recontratar dispensados.

Antes de se refazer do choque do absurdo, o cidadão identificou-se, no sentido metafórico, com a tragédia vivenciada por Gregor Samsa, protagonista do romance Metamorfose, de Franz Kafka (ou kafta, como prefere o ministro da Educação do governo federal, Abraham Weintraub), logo após ter percebido que se tornara um inseto do tamanho de um ser humano . O que aconteceu na manhã de sol outonal foi que o pagador de impostos, o eleitor, que, em maioria, pôs no comando máximo do País o responsável por essa transformação de gente em barata, não foi informado de que a dita, mas não respeitada, União não aproveitou a oportunidade do combate ao vírus para suspender, nem mesmo temporariamente, privilégios de soit-disant servidores públicos, de fato se-servidores do público. Os marajás, que recebem salários altíssimos, muito longe do alcance do alfanje de el-rey milionário de votos, recebem todo mês, com ou sem vírus, “auxílios” de toda ordem: paletó, serviço odontológico, empurradores de cadeiras, moradia, etc.

Desembargadores, que ganham R$ 38 mil por mês, recebem mensalmente uma média de mais de que quatro vezes essa quantia, já absurda em si. Ainda assim, há procurador federal reclamando desse privilégio, insuficiente para que ele viva mais à tripa forra do que já vive. Políticos acumulam aposentadorias, não importando em que partido militem ou que cargo  ocupem na máquina pública. Os ex-presidentes Dilma e Lula vivem rotina de milionários e viajam para o exterior, onde repetidamente falam mal do País que os sustenta, quantas vezes quiserem. Os signatários do ato que desemprega em pílulas amargas pertencem todos à casta dos sempre servidos.

Em última análise, a omissão é uma autoajuda. Afinal, seja qual for o destino que lhe reservarem as urnas em 2022, ideia fixa no momento do chefe de Jorge Oliveira, que autorizou a ida de quatro assessores pagos pelo distinto público para acompanhar o petista em seu périplo europeu, o presidente e o secretário-geral da Presidência gozarão, no mínimo, de uma aposentadoria de barões, com reforma da Previdência e tudo. O ex-capitão nunca teve de dar um prego numa barra de sabão, como se diz no sertão de onde fui vindo, a vida inteira. Foi sempre um se-servidor do público, primeiro nos quartéis, depois no Poder Legislativo e agora no Executivo. Com sua aposentadoria poderá até ser generoso, doando parte do saldo a amigos de velhos tempos, como Fabrício Queiroz, repassando-lhe o soldo de oficial reformado e onerando os gastos públicos com sua retirada conjunta das atividades parlamentares e presidenciais. O ex-major da PM nem sequer precisará ser promovido ao mais alto salário do se-serviço da República, como pretende seu protetor, o comandante-chefe das Forças Armadas, das quais teve os serviços propriamente ditos dispensados. Mesmo que a vaga que lhe é reservada no Supremo Tribunal após a aposentadoria de Marco Aurélio Mello no ano que vem, seja dada a outro apaniguado, a reforma na caserna bastará para garantir o vinho francês de cada refeição.

Nesse mister de mais uma vez apertar o pescoço do trabalhador de baixa renda, baixa instrução e baixa expectativa de vida e garantir o bem-bom de seus colegas de acepipes e convescotes do distante Planalto Central do País, para onde os remeteu Juscelino Kubitschek à sombra das marmotas arquitetônicas de Oscar Niemeyer, foi o melhor a apresentar como saída sem incomodar seus irmãos de opa. Algumas vezes cheguei a comentar, mas apenas de leve, e agora o faço com vigor, que o bem-sucedido chicaguiano Paulo Guedes tem um currículo acadêmico e de mercado, seja lá o que for isso, mas é sempre generoso com o patronato. E  fala mal dos marajás, mas nunca corta seus excessos. Os conceitos liberais de Milton Friedman inspiraram a ideia de só obrigar os patrões contemplados a fornecerem cursos online a candidatos a famintos que terão de vender o almoço que não comerão para comprar terminais de computadores fabricados por alguns dos amiguinhos da equipe econômica.

Os nobres egressos dos ventos gélidos do lago de Illinois copiaram o modelo da nobiliarquia monárquica absolutista na época dos Luíses da França. Os cursos online do dr. Guedes lembram uma das anedotas mais saborosas (desculpe o leitor o duplo sentido) da História da humanidade. Consta que, diante da multidão faminta clamando por pão nos jardins de Versalhes, maravilha da botânica fechada à visitação pública nestes anos duros de covid-19, a rainha Maria Antonieta perguntou, não se sabe se em francês do marido ou alemão dos ancestrais: “Se falta pão, por que não lhes servimos brioches?”. Mas a pueril e ingênua ignorância de madame chega a ser uma lembrança injusta se comparada com cursos online para desgraçados cujo suor sempre pagou a mais cara e sofisticada pâtisserie da mesa dos se-servidores servidos.

O presidente da XP Investimentos, Guilherme Benchimol, disse que vê um risco de crescimento do desemprego para mais de 40 milhões de brasileiros em decorrência da pandemia da covid-19. “É um número assustador”, disse no domingo 22 em live com outros empresários. Duvida este autor que a MP de Guedes-Bolsonaro tivesse inspirado a conta do financista. Então, é o caso de imaginar que o atual número de desocupados da mão de obra nacional por obra e desgraça do saque generalizado do erário pela canalha do Partido dos Trabalhadores (PT), seus fiéis aliados e falsos oposicionistas (leia-se tucanos) será quintuplicado pela desfaçatez de um governo eleito para pôr fim ao despautério petista e de congêneres.

O presidente eleito por antipetistas e crédulos que imaginaram que ele manteria incólume o combate à corrupção ainda acredita que em 2022, quando as urnas forem abertas, os brasileiros de bem o sufragarão e afundarão os governadores que ousaram fazer o mínimo para evitar a aceleração do contágio do coronavírus no oblívio total. Do alto do palanque imaginário das falas do trono e das mensagens em redes sociais, Sua Insolência esbravejou na TV Record, de seu divulgador Edir Macedo: “Brevemente o povo saberá que foi enganado por esses governadores e por grande parte da mídia nessa questão do coronavírus. Espero que não venham me culpar lá na frente pela quantidade de milhões e milhões de desempregados na minha pessoa”. Alto lá, capitão! Não seja tão otimista. Mesmo que a culpa não fosse também sua, e só da praga chinesa, sua reeleição correrá rico na tempestade de outubro daqui a dois anos e meio.

E se o renomado e respeitado cirurgião Miguel Srugi, da Universidade de São Paulo, tiver razão ao prever que pobres morrerão nas portas dos hospitais pelo contágio do vírus de Wuhan, a estatística tétrica poderá ser sacada de sua conta eleitoral. É uma ilusão sua imaginar que conseguirá convencer alguém mais do que seus devotos, tão fiéis quanto os de seu inimigo e sustentáculo Lula (pelo sinal oposto). Ou que ocorrerá a outrem, com juízo ou não, atribuir a tragédia ao horoscopista da Virgínia, de quem certamente tem usado argumentos para contrariar seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Numa transmissão ele afirmou que não há nenhum caso confirmado de morte por coronavírus no mundo – uma mentira sesquipedal – e que a pandemia, em sua opinião, seria “a mais vasta manipulação de opinião pública que já aconteceu na história humana”.

Caramba, quanta insânia! A questão é saber quem é mais insano: quem profere a blasfêmia ou quem a usa numa arenga particular contra adversários de uma eleição a ser disputada em dois anos e meio a pretexto de negar uma guerra declarada pela humanidade inteira. E ainda deixar de fora do sacrifício a horda de sanguessugas que sempre assola o País.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado segunda-feira 23 de março de 2020 no Blog do Nêumanne)

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Nesta quarta-feira no Estadão: Coronavírus, a marcha da insensatez

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José Nêumanne

Apoio de Bolsonaro a si mesmo é mais perigoso que tentativa de Collor de evitar impeachment

O apoio do presidente Jair Bolsonaro a si mesmo nas manifestações de rua de domingo 15 de março poderia ser apenas, por si só, ridículo. Mesmo sendo legítimo. E aqui não me refiro a golpe, autogolpe ou simulacro de golpe. Faltam-lhe apoio e base. Em primeiro lugar, porque nada se configura no horizonte que represente ameaça nesse sentido. Desse ponto de vista, os atos seriam inócuos mesmo que tivessem superado em adesão as manifestações de 2013, que foram espetaculares, mas não impediram a reeleição de Dilma Rousseff, codinome de Lula, do PT, na reeleição de 2014. Em segundo lugar, porque o povo, do qual emana todo o poder, exercido em seu nome, tem direito de apoiar e criticar quem quer que seja em qualquer ocasião ou circunstância. E qualquer cidadão brasileiro – o presidente não seria exceção à regra – pode convocar a cidadania a apoiar ou criticar mandatários.

No princípio Bolsonaro limitou-se a compartilhar num grupo de WhatsApp aviso de convocação dos atos. O mundo desabou sobre sua cabeça, dando-lhe razão num argumento: os políticos, de quaisquer partidos e Poderes, têm medo de povo. E não apenas por causa do capitão reformado nem de seu governo. Aliás, os Fundos Partidário e eleitoral e as emendas parlamentares para governadores e prefeitos correligionários de chefões partidários usarem sem fiscalização para financiar eleições municipais em outubro e novembro nunca mereceram oposição cerrada da cúpula do Executivo. Esta tem sido repetidamente cúmplice dessas iniciativas. Onyx Lorenzoni, bolsonarista de primeira hora e ex-chefe da Casa Civil do governo, fez parte da ampla aliança, que incluiu o PCdoB, velho e leal aliado do PT, na eleição de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara. E continua no primeiro escalão como ministro da Cidadania. A pasta é poderosa e administra recursos milionários. Ele ainda lançou outro correligionário do DEM, Davi Alcolumbre, a presidente do Senado, derrotando o emedebista Renan Calheiros em eleição fraudada, na qual 81 senadores votaram e 82 votos foram computados. O líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho, atua como líder do Senado no governo. E pelo menos em teoria o povo se reuniria contra isso.
Portanto, nada há a obstar sequer à convocação explícita do presidente para os atos, da qual depois recuou após constatar o crescimento exponencial de inoculados pelo coronavírus no avião que o levou a um encontro extemporâneo com o presidente dos EUA, Donald Trump, e em aviões de carreira que levavam outros membros do grupo.

O que o torna ridículo é comparecer a atos para apoiar a si mesmo. Nisso lembrou antecedente que poderia ter evitado: o de Fernando Collor convocando o povo para sair de verde-amarelo às ruas e impedir seu impeachment. O povo manifestou-se a favor do oposto, acorrendo às vias públicas vestindo luto, numa clara declaração contra. Não foi o caso desta vez, mas o chefe do governo poderia ter evitado a fria de confraternizar com manifestantes participando de um apoio a si mesmo. Nada disso, contudo, é relevante como o aspecto sanitário lesivo ao povo e a Deus, que ele disse serem os únicos objetos de seu gesto. Por acaso ele não terá jurado lealdade à Constituição? O povo é a primeira vítima de uma eventual catástrofe sanitária a ser produzida pela conjunção perversa da escassa higiene dos chineses governados por uma ditadura comunista, do populismo estúpido da esquerda italiana e da precariedade da saúde pública brasileira. Ninguém precisa ser teólogo para duvidar do princípio universal de quaisquer religiões monoteístas segundo o qual Deus é sempre vida. Isso quer dizer que, em qualquer circunstância, viver, para o cidadão, é um direito acima do de opinar.

Indo ao encontro dos manifestantes à porta do palácio, e ainda levando de testemunha o presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra Torres, um reles bajulador que teve a audácia de argumentar que tinha ido a palácio para tratar de assuntos particulares, Bolsonaro comprova mais uma vez que governa para seus devotos. E não para todos os brasileiros, como deveria ser. Esse é um grave pecado cívico.

A primeira epígrafe que me ocorreu para este artigo foi o título do célebre tratado histórico sobre guerras escrito por Barbara Tuchman: A Marcha da Insensatez. Mas Aninha Franco me lembrou do último parágrafo de A Peste, de Albert Camus, que aqui cabe como uma luva para encerrar: “Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e nas roupas, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz”. Quem quiser que ignore a profecia do Prêmio Nobel de 1957 e espere chegar sua vez.

*Jornalista, poeta e escritor

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No Blog do Nêumanne: O Brasil está entregue aos bacilos

No Blog do Nêumanne: O Brasil está entregue aos bacilos

José Nêumanne

Bolsonaro, deputados, senadores, governadores e prefeitos encaram previsão de mortandade por coronavírus no inverno como algo que pode ser evitado com lorotas, piadas e demagogia barata

Dia destes Isabel leu para mim artigo de Leonardo Coutinho, colunista da Gazeta do Povo, de Curitiba, residente em Washington, DC, que, sinceramente, me estarreceu. Ao correr da leitura conheci fatos estarrecedores. Segundo ele, em 2 de fevereiro, quando já era conhecido no mundo inteiro, o coronavírus, egresso de morcegos e cobras vendidos em mercados para serem cozinhados na região de Wuhan, na China, o prefeito de Florença, Dario Nardella, lançou uma campanha sob o tema “abrace um chinês” contra “o preconceito, a exclusão e o terrorismo psicológico”. Ele e outros políticos esquerdistas, contou Coutinho, espalharam peste similar: a notícia falsa de que o vírus não era contagioso. Ainda de acordo com a mesma fonte, o governador do Lácio, Nicola Zinganetti, que posou sorridente com Lula, comunicou que estava feliz por ter sido inoculado por poder contribuir para socializar a doença respiratória e criar imunidade. Imbecis da esquerda ainda vendem suas fake news com desfaçatez.

Mais de um mês e meio depois, o secretário da Saúde da Lombardia, na mesma Itália, disse que não há mais vagas em suas UTIs. Vindo de lá, o primeiro contaminado pelo coronavírus no Brasil foi localizado e isolado. A médica Ester Sabino, pesquisadora do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP, liderou o grupo de cientistas brasileiros que sequenciou o vírus em 48 horas após a confirmação do primeiro caso brasileiro. Esse é um feito magnífico, que merece o reconhecimento de todos nós pelo pioneirismo. Recentemente, essa mesma cientista disse ao UOL acreditar que o pico no Brasil do novo coronavírus ocorrerá entre abril e maio, ou seja, no começo do inverno quando as doenças respiratórias atingem seu ápice, exigindo esforço concentrado nos prontos-socorros e ambulatórios brasileiros. O governador de São Paulo, João Doria Junior, que certamente foi informado do fato pelo infectologista David Uip, que chefia no Estado o combate ao que já virou pandemia por decisão da Organização Mundial de Saúde, nem sequer cumprimentou a especialista, que mora na mesma cidade que ele. Se tivesse mostrado um mínimo de curiosidade, poderia ter tomado a providência sensata de não comparecer à festa de 1.200 pessoas que comemoraram a estreia da rede de televisão americana CNN no Brasil. Perdeu a boa oportunidade de cancelar o ágape, ao tomar conhecimento do problema por cujo combate é o principal responsável no Estado, mas não desperdiçou a oportunosa ensancha de alfinetar o presidente da República por negligência mais grave.

Não faltou razão a Dória. Afinal, o único político sensato do Brasil, Janaina Paschoal, deputada pelo PSL que chegou à Assembleia Legislativa de São Paulo com 2 milhões de votos, classificou de indefensável a atitude de Bolsonaro, que chegou a cogitar de seu nome para formar chapa com ela para a eleição presidencial. Quando o noticiário sobre a epidemia mundial começou a ocupar espaço e tempo nos meios de comunicação, o capitão desdenhou dos efeitos maléficos do vírus importado da China.

Na semana passada, enquanto Doria, Rodrigo Maia, David Alcolumbre e outros maiorais da República da insensatez festejavam a chegada da CNN, Bolsonaro encontrava-se com Donald Trump na Flórida. Na volta foi constatado que seu secretário especial de Comunicação, Fábio Wajngarten, tinha contraído o bacilo. Na noite desta segunda-feira 17 de março tinha sido notificado o 13.º caso de contaminação na comitiva. Donald Trump, que se encontrou com o maiorial brasileiro, disse que não foi contaminado. O primeiro exame de Bolsonaro também o declarou imune, embora falte um teste para garantir o diagnóstico. Seu anfitrião em Miami, o prefeito Francis Suárez, foi diagnosticado como contaminado.

Cercado por essas evidências, Sua Excelência voltou ao País e fez sua live das tardes de quinta-feira ao lado do ministro da Saúde, o deputado Luiz Henrique Mandetta, que tem sido elogiado por especialistas por sua atuação no comando da reação federal brasileira ao micro-organismo egresso da China. Portando máscara cirúrgica, a exemplo do subordinado ao lado, o chefe do governo recomendou a seus seguidores nas redes sociais que não comparecessem às manifestações marcadas para domingo 15 por causa do risco de contaminação. Seu apelo contradisse compartilhamento no WhatsApp de um anúncio dos atos. Depois de ser criticado forte e injustamente por políticos e magistrados que, segundo ele, com razão, “têm medo de povo”, contudo, voltaria a conclamar os seguidores a apoiá-lo na árdua luta pela governança contra a velha política.

No domingo, à frente do Palácio do Planalto, “teve contato direto com ao menos 272 pessoas em cerca de 58 minutos de interação com apoiadores na frente do Palácio do Planalto”, conforme registrou o Estado em análise feita a partir de vídeo publicado em sua página no  Facebook. Segundo essa análise, ele manuseou no minimo 128 celulares, trocou uns quatro objetos com a plateia, entre eles um boné, que pôs na cabeça, e cumprimentou 140 pessoas. Conforme revelou o vídeo, “parte dos cumprimentos, nos primeiros 50 minutos do vídeo, é de ‘soquinhos’ nas mãos das pessoas ou mesmo apertos de mãos. Nos cinco minutos finais de interação, o presidente alcançou pelo menos 80 apoiadores correndo com a mão estendida e cumprimentando várias pessoas na sequência”. Infectologistas e até aliados próximos do presidente reprovaram sua atitude.

O presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra, completou a infeliz iniciativa sendo fotografado ao lado do chefe. Agências são instituições criadas para evitar abuso econômico de empresas ou do Estado em processos de privatização. Seus dirigentes não são subordinados do presidente, mas o citado comportou-se como vassalo, súdito. Sua presença deu à cena uma lamentável característica de farsa após a explicação dada por Barra. O responsável pela vigilância da saúde pública e privada no Brasil disse que fora ao encontro de Bolsonaro para uma conversa privada no palácio de despachos num domingo livre. O pretexto do encontro particular é pior do que feira ruim ou saco furado, que minha avó chamava de desculpa de cego.

Foi também lamentável a tentativa de mais uma vez contrariar o que ele próprio já havia afirmado e negado antes, ao dizer ao apresentador de televisão José Luiz Datena, da Band, em entrevista exclusiva, que nunca havia conclamado ninguém para ir às ruas. O vaivém de confirma e nega não pega bem num presidente da República de qualquer republiqueta. No entanto, nada se compara à evidência de que o chefe do Executivo ainda não tem a noção completa de dois deveres de seu cargo. O primeiro é o de preservar a confiabilidade e a credibilidade emanada de seu posto máximo. O segundo, o de contrariar diretrizes de sua condição de último chefe no combate a quaisquer males que ameacem seu povo.

Ainda no domingo Bolsonaro disse que só deve lealdade ao povo e a Deus. Convém lembrar-lhe que jurou cumprir a Constituição e as leis da República quando assumiu o mais alto posto da administração federal e da política pública no Brasil. Quanto ao povo, em cujo nome exerce legitimamente o poder por delegação de “cada cidadão, um voto”, deve preservar, com o que estiver ao seu alcance, sua saúde e seu bem-estar. Quanto a Deus, qualquer crente sabe que é fonte de vida e esta está acima da política e até mesmo da democracia.

Hoje o Brasil precisa de um estadista que governe para todos, e não apenas para prosélitos. Seu dever agora seria aconselhar os cidadãos a ficarem em casa, evitarem contato físico com outras pessoas até passar o período de velocidade da contaminação, que é este, segundo o reitor da Universidade de Campinas (Unicamp), Marcelo Knobel. Sábio conselho. Se for o caso, pode até usar força para evitar aglomerações. Da mesma forma que o dever dos políticos atacados nas manifestações de domingo é aprovar sem delongas os R$ 5 bilhões pedidos por Mandetta. E empregar Fundos Partidário e eleitoral para salvar vidas ameaçadas pela covid-19. E se Doria quer enfrentá-lo na eleição presidencial de 2020, que adote medidas empregadas em Itália, Espanha, França, Chile, etc. O Brasil e o Estado de São Paulo precisam de autoridades com hombridade, que não se apoiem em macheza, mas, sim, em capacidade de persuasão, sensibilidade e força para tomar decisões certas e urgentes.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Artigo publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 16 de março de 2020)

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Artigo de José Nêumanne Pinto: Caso Suzi, vergonha para o jornalismo

Artigo de José Nêumanne Pinto: Caso Suzi, vergonha para o jornalismo

Exploração sentimental da solidão de transgênero que violentou e trucidou criança pobre de 9  anos envergonha médico de grife e campeã que já foi monopolista de audiência

No domingo 1.º de março, o Fantástico, da Globo, exibiu quadro apresentado pelo infectologista Dráuzio Varella abordando casos relacionados com a saúde, como o faz há 30 anos. O tema foi a vida de transgêneros nos presídios brasileiros. Todos sabemos que nosso sistema prisional emula na vida real as narrativas mais horripilantes do que se imagina que seja o inferno e, desta vez, a carga emocional foi acima do normal, mas sofreu ao longo da semana uma reviravolta de 180 graus.

Entre depoimentos críticos e outros positivos, um fato raro quando se fala de locais aos quais o então ministro da Justiça da petista Dilma Rousseff, José Eduardo Martins Cardozo, preferia a morte, como declarou publicamente, um gesto do apresentador do quadro teve impacto incomum. Ao ser informado pela entrevistada, identificada como Suzi Monteiro, internada num presídio em Guarulhos, na Grande São Paulo, de que não recebia visitas, correspondência nem presentes em oito anos de pena, comoveu-se o celebrado esculápio. Num rompante gravado e retransmitido, Varella, autor de dois livros sobre o Carandiru e colunista aos domingos da Folha de S.Paulo, levantou-se abruptamente e se ofereceu ao abraço da entrevistada. Editada como um capítulo de telenovela, com música de fundo e apelo piegas, a cena levou mais de 200 pessoas a remeterem para o endereço da detenta cartas e presentes. Na guerra do Ibope, o decadente programa semanal da antiga Vênus Platinada pode ter recuperado ali índices de audiência de um passado que ficou remoto.

Na semana posterior, contudo, a situação inverteu-se totalmente quando o site O Antagonista identificou a solitária “heroína” do dr. Varella como autora de um dos homicídios mais repugnantes da história dos crimes de pedofilia na periferia pobre e abandonada de São Paulo. Há dez anos, ainda com identidade masculina, a trans surpreendeu um filho de 9 anos de Aparecida dos Santos dormindo em casa, violentou-o, assassinou-o e escondeu o corpo, localizado depois já em estado de avançada putrefação. Qualquer pessoa com um mínimo de tirocínio, ao topar com a figura do assassino, saberia que o crime torpe foi cometido também com enorme supremacia de força e peso do assassino sobre sua vítima.

Quando a notícia foi dada, ficou patente que o médico de grife e a Globo, que nada tem de boba, cometeram violações de profissionalismo e ética elementares com a exploração sentimentaloide da solidão da presidiária. O crime é público e notório, com a agravante de a assassina ter sido condenada a 36 anos de prisão. A defesa apelou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), alegando que o cumprimento máximo de pena, então, era de 30 anos (agora são 40), mas o relator do caso, ministro Nefi Cordeiro, manteve-a, certamente motivado pela sórdida motivação do criminoso.

Nenhum repórter iniciante teria completado seu trabalho sem a informação básica sobre a diferença entre Suzi e outras trans, a maioria das quais, segundo informação dada no Fantástico, condenada por pequenos furtos. De início Varella se disse médico, e não juiz. Ninguém exigiria dele mais do que sensibilidade de cidadão ao cometer tão grave omissão, mas médicos não atuam para consolar assassinos, e, sim, para salvar vidas. Ainda bem que o responsável por essa monstruosa barriga, como se define uma notícia falsa no jargão jornalísticos, não se autoproclamou repórter. A profissão de jornalista é regulamentada, como a de médico, e ele não preenche os requisitos para exercê-la, conforme mostrou no caso.

Foram cometidos crimes mais graves ao longo da mistificação usada para comover multidões e anabolizar a audiência de um programa decadente. O tom da edição leva à indignação dos telespectadores ingênuos contra a família que abandonou sua parente. Mas ela tinha bons motivos para isso, pois, além do homicídio com agravantes, a condenada já havia antes tentado violentar menores no próprio núcleo familiar. Qualquer pessoa civilizada há de reconhecer que justiça foi feita com a assassina apenada. Cumprimentos também mereceria em qualquer registro imparcial do caso o fato de o Estado, normalmente omisso em agressões em celas, ter conseguido dar a Suzi proteção num ambiente em que normalmente pedófilos assassinos são torturados até a morte dentro de presídios.

Diante da repercussão do caso, Varella teve a caradura de criticar a exploração política dele, na certa referindo-se ao magnífico discurso da deputada Janaina Paschoal chamando os participantes do caso de “irresponsáveis”. A palavra é leve. Na verdade, tratou-se de crime.

Na terça-feira, 10 de março, o Jornal Nacional, da Globo, exibiu o vídeo em que o infectologista metido a comunicador pediu desculpas à família do menino assassinadoO editor e apresentador William Bonner também se desculpou, em nome do Fantástico e da emissora. “Apenas depois da exibição do quadro, o Fantástico tomou conhecimento da gravidade do crime e só nesta terça-feira a Globo se manifesta com mais clareza sobre o assunto, porque respeitou protocolos de segurança, protocolos que autoridades públicas não seguiram”, afirmou o âncora no encerramento do jornal. No caso, Dráuzio e Bonner se excederam em cinismo. Certamente não é caso de desculpas, mas de demissões. E se algum erro há a criticar das “autoridades públicas”, é o de não haver até agora punido severamente todos os participantes do gravíssimo episódio. Como escreveu Fernando Coelho, que foi competente chefe de reportagem do Fantástico, “essa história não é sobre gênero, sexualidade… É sobre um assassinato hediondo e um jornalismo incompetente”. E temos dito.

*José Nêumanne Pinto. Jornalista, poeta e escritor
Este é o artigo da quarta-feira, 11 de março de 2020, que mando para o grupo Ric de comunicação, coluna semanal oferecida para jornais nacionais

No Blog do Nêumanne: Esse drible Ronaldinho aprendeu com Lula

No Blog do Nêumanne: Esse drible Ronaldinho aprendeu com Lula

Em vez de se defender de crimes de que é acusado, ex-presidiário acusa promotores e juízes que o denunciaram e condenaram de abuso de autoridade, e ex-craque o imita fora do campo no Paraguai

Ronaldo de Assis Moreira é de uma geração de craques posterior à dos heróis de uma torcida só, seja por terem atuado durante quase toda carreira num único time, seja por terem sido responsáveis por grandes conquistas de determinada equipe. Não que isso seja uma novidade. À época do semiamadorismo ocorreu com um gênio que poucos sobreviventes viram nos gramados, numa época em que seus feitos eram contados em textos de jornais e transmissões de rádio, de vez que a televisão não era sequer projeto. Esse foi o caso daquele que, apesar de poucos terem testemunhado seu desempenho, é quase unanimemente considerado o maior de todos antes do surgimento de Pelé, aos 17 anos, na Copa da Fifa na Suécia. O carioca Leônidas da Silva, o homem borracha acrobata que inventou a bicicleta, foi campeão estadual por Vasco, Fluminense, Botafogo, Flamengo e São Paulo e artilheiro do Mundial de 1938 na França.

Com o profissionalismo e a negociação de passes, Ademir de Menezes e Roberto Dinamite sempre foram identificados como ídolos do Vasco; Garrincha, do Botafogo; Pelé, do Santos; Dida e Zico, do Flamengo; e Baltazar, do Corinthians — embora tenham vestido outras camisas veneradas pela torcida. O mercado global de hoje mudou essa exclusividade na idolatria e os deuses dos estádios passaram a ser venerados em várias paróquias. Ronaldinho Gaúcho, seu nome de guerra, começou no Grêmio de Porto Alegre, mas atuou em clubes de massa rivais, como Flamengo e Atlético Mineiro, e brilhou em grandes campeões internacionais, caso do Barcelona. Estreou na seleção brasileira numa Copa América com um gol antológico, descrito por Robson Morelli em sua brilhante coluna do Estado publicada nesta segunda-feira 9 de março. E sagrou-se campeão mundial na Ásia com uma jogada que o goleiro britânico atribui a mero acaso.

Talvez inspirado na própria capacidade de criar lances improváveis, como a falta que cobrou jogando na rede a bola por baixo da barreira, que pulou na certeza de que, como todos os outros, ele cobraria pelo alto, numa partida do Flamengo contra o Santos de Neymar na Vila Belmiro, o artista tem praticado atitudes improváveis fora dos estádios. Assim como o atacante que o substituiu como o melhor do País atualmente na seleção brasileira, o acima citado, essas atuações arriscadas no mundo dos negócios surpreendem muito mais para o mal do que para o bem. A fama que ganhou com a bola nos pés não o tem livrado de consequências nefastas em problemas judiciais que insiste em resolver com habilidade de malabarista e falsa ingenuidade, que engana apenas os mais crédulos.

A exemplo do ídolo que ainda atua, Neymar Júnior, Ronaldo de Assis Moreira complicou-se com problemas tributários na contabilidade recheada de zeros à direita e administrada por um parente muito próximo e também colega de ofício – no outro caso, Neymar, o pai; no dele, Roberto de Assis, o irmão. Assis, como se tornou conhecido o também ex-profissional do futebol sem o talento, a fama e a fortuna do mano mais novo, como ele lançado no Grêmio de Porto Alegre, é seu parceiro em lances contábeis que desafiam as leis fiscais. O mais antigo de que se tem notícia data de 2015, quando os irmãos Ronaldo e Roberto de Assis foram autuados por crime ambiental pela construção sem autorização de um trapiche (ou píer), plataforma para ancoragem de barcos de pesca ou turismo, no Lago Guaíba, no seu Estado natal do Rio Grande do Sul, em área de preservação natural. Pilhada em ilícito por descumprimento de lei ambiental, a dupla foi condenada a pagar R$ 8,5 milhões ao Estado.

Habituada a dar dribles em sequência com a bola sobre a relva, a dupla de ex-craques fez um acordo com a Justiça, mas não o honrou. E, quando foi autorizada a quebra do sigilo das contas bancárias declaradas pelos dois para ressarcimento da multa, foi encontrado um saldo de apenas R$ 24,36 em suas contas bancárias declaradas. E mais: o embarcadouro estava hipotecado e em seu passivo já havia uma grande dívida. Resultado: o passaporte do ídolo foi retido para que não deixasse o País sem antes resolver a falcatrua que pretendeu perpetrar.

O fantástico astro da pelota também se envolveu num episódio de estelionato explícito. Segundo noticiou o UOL, ele “virou réu em ação cível coletiva por pirâmide financeira”. A empresa 18K Ronaldinho é acusada de haver lesado 150 clientes, que o acionam na Justiça cobrando R$ 300 milhões por danos financeiros e morais. Ainda conforme apurou e publicou o UOL, a empresa “dizia fazer marketing multinível e prometia rendimentos de até 2% ao dia, além de prêmios como um Porsche Panamera, a quem comprasse pacotes que iam de US$ 30 a US$ 12 mil (aproximadamente, de R$ 130 a R$ 52 mil). A promessa era auferir rendimento de operações na criptomoeda Bitcoin”.

Agora testemunhas de momentos históricos – como na estreia na seleção nacional e seu gol no Japão contra a Inglaterra –, entre as quais o autor destas linhas, foram surpreendidos com a notícia de que ele e o irmão e empresário passaram o último fim de semana (7 e 8 de março) num presídio da Direção de Apoio Técnico do Grupamento Especializado da Polícia Nacional do Paraguai, em Assunção. A primeira acusação é de que os dois entraram no país com passaportes falsos. Depois de um recuo da Justiça paraguaia, ambos foram mantidos presos a pedido do promotor Osmar Legal, encarregado de inquéritos judiciais pelo crime, muito banal na América Latina contemporânea, de lavagem de dinheiro.

Em sua passagem brilhante pelo gigante Barcelona, Ronaldo de Assis Moreira ganhou o direito de usar um real passaporte espanhol. Consta de seu prontuário recente que tentou usá-lo para embarcar em Guarulhos para algum destino longe do Brasil, onde está encalacrado. O documento ficou retido pelo agente encarregado de revistá-lo no embarque.

Os jornais desta segunda-feira noticiaram a reação furibunda e revoltada de seu advogado brasileiro, Sérgio Queiroz, segundo quem “Ronaldo e Roberto não sabiam que (o documento que usaram) era irregular, tanto que o apresentaram livremente, podendo apresentar apenas o documento de identidade”. Sem se referir à hipótese de os ex-craques estarem sendo investigados, não mais só pela entrada com documentos falsos no país vizinho, mas também por crime, mais grave, de lavagem de dinheiro, o advogado definiu a detenção como “ilícita, ilegal e arbitrária”.

Um leitor por gosto, hábito e obrigação profissional, como é o caso do autor deste texto, já testemunhou esse tipo de atuação de advogados grã-finos à cata de argumentos que podem emocionar torcedores apaixonados, mas dificilmente ultrapassam obstáculos policiais ou jurídicos em investigações de quaisquer crimes, em especial os financeiros. Quem já não leu os da lavra dos defensores dos réus da Operação Lava Jato, entre os quais o ex-presidiário Lula? Na narrativa deles, as alegações do Ministério Público são sempre fantasiosas e com motivação pouco recomendável. Como, por exemplo, o PowerPoint da força-tarefa de Curitiba no momentoso processo do apartamento de cobertura, com propriedade atribuída ao petista, no Guarujá, tema de recurso apresentado pelos advogados ao Conselho Nacional do Ministério Público.

O torcedor apaixonado de futebol, propagador de metáforas futebolísticas de pouca graça e gosto duvidoso, condenado em três instâncias por 13 juízes, desembargadores e ministros de altos tribunais a zero, hoje está livre, leve e solto. Disponível até para visitar o ex-craque no presídio paraguaio. E faria essa visita em mais um passeio fora do Brasil para se permitir andar pelas ruas de Assunção autografando ou posando para selfies ao lado de fãs e livre dos insultos eventuais que o mantêm preso, embora livre, no apartamento de luxo em que vive em São Bernardo do Campo. Lula poderia, então, cobrar pessoalmente do ídolo de tantas torcidas o pagamento de royalties pela invenção desse drible na legislação financeira. Afinal, o deus dos estádios terá sido apenas mais um a tentar imitá-lo na instrução à iracunda defesa binacional. Talvez não o livrasse de cumprir pena no exterior, mas ao menos seria motivo de uma boa história para contar aos bisnetos.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 9 de abril de 2020)

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