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No Blog do Nêumanne: O chute ideológico da direita chula

No Blog do Nêumanne: O chute ideológico da direita chula

José Nêumanne

Bolsonaro quer dar autogolpe, como Hitler, Mussolini e Getúlio, mas não se inspira neles nem no golpe de 1964, e, sim, em Ku Klux Klan,  Chávez e Frota, que tentou derrubar Geisel

Parece que o presidente Jair Bolsonaro ainda não percebeu. Mas conseguiu um feito pelo avesso, que antes era impossível de ser imaginado: ao estrebuchar (e não apenas espernear) contra Celso de Mello e Alexandre de Moraes, ele uniu o Supremo Tribunal Federal (STF), que até agora parecia fadado a uma eterna divisão em seis a cinco. Espectadores atentos de entrevista do ministro Gilmar Mendes à GloboNews, domingo, notaram o tom respeitoso e prudente dele ao se referir ao desafeto jurado Luís Roberto Barroso. E, fora do convívio no “pretório excelso”, tratou o alvo favorito de seus vitupérios, o ex-ministro Sergio Moro, usando palavras e modos educados em tom cordial, imaginem.

No sábado, o “capitão cloroquina” foi alvo de uma saraivada de pitos jurídicos do normalmente polido decano do STF, que dias antes fora execrado em nota estúpida do chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, general Augusto Heleno Ribeiro. O procurador egresso de Tatuí, cidade paulista conhecida pelos pendores musicais de seus filhos, normalmente autor de votos longos e barrocos, usou uma linguagem direta (e até desabrida) contra o dito magistrado número um da República, chegando a abusar de letras capitais, que em internet, correspondem a gritos. Na mensagem, dirigida a amigos pelo WhatsApp, comparou os disparates verbais de seu recente oponente ao comportamento do maior vilão do século 20, o michê austríaco Adolf Hitler, responsável pelo maior malogro da reputação de bons soldados dos alemães, ao mergulhar numa aventura insana declarando guerra ao mundo.

Mello, relator do inquérito pedido pelo procurador-geral da República, o chapinha Augusto Aras, para investigar acusações que Moro fez a Bolsonaro, afirmou que, guardadas as proporções, “parece estar a eclodir no Brasil” o “ovo da serpente, à semelhança do que ocorreu na República de Weimar (1919-1933) … É PRECISO RESISTIR À DESTRUIÇÃO DA ORDEM DEMOCRÁTICA, PARA EVITAR O QUE OCORREU NA REPÚBLICA DE WEIMAR”, lembrando que, eleito chanceler, o nazista rompeu com a democracia, rasgando a Constituição de Weimar e “impondo ao país um sistema totalitário de poder”. Antes, Sua Insolência decretara “acabou, porra!”, referindo-se a outro ministro do STF, Alexandre de Moraes, que mandara fazer buscas e apreensões em gabinetes, escritórios e residências de bolsonaristas suspeitos de executarem assassinatos de reputações de ex-aliados e inimigos do chefão. Aos berros, como costuma se dirigir a interlocutores reais e imaginários, havia dito que ordens absurdas da Justiça não devem ser cumpridas.

De fato, há semelhanças entre o autogolpe do primeiro-ministro da República de Weimar e o projeto de poder total de Bolsonaro. Derrotada numa guerra que iniciara para realizar um projeto de conquista territorial, humilhada pelo Tratado de Versalhes e empobrecida, a antes próspera e orgulhosa Alemanha achou no artista frustrado a oportunidade para a revanche contra os tradicionais inimigos franceses e britânicos. À saída da crise, provocada pela roubalheira das lideranças políticas, o Brasil elegeu um presidente para afastar o PT do poder e dar continuidade ao combate à corrupção. Como Hitler, Bolsonaro teve a ascensão facilitada pela covardia das elites civis, pela ganância de um empresariado viciado em boa vida e pela oportunidade dada aos militares de recuperarem o orgulho ferido pela imagem destroçada por práticas abomináveis contra civis indefesos.

Parlamentar do baixíssimo clero por 30 anos, com desempenho para o qual a definição de medíocre equivale a uma medalha de demérito, cujo ponto alto foi a aprovação da maior picaretagem da medicina no País, a “pílula do câncer”, o negacionista, terraplanista e armamentista é produto e objeto de vários enganos. Um deles é sua falsa veneração pela ditadura militar, retratada na parede de seu gabinete na Câmara dos Deputados com as fotos oficiais dos cinco generais que ocuparam o poder nos 21 anos de tirania. Não é segredo para ninguém que sua saída do Exército foi negociada para evitar um escândalo. Pilhado na realização malsucedida de um atentado à bomba em quartéis e na adutora do Rio Guandu pela pouco altruísta causa do aumento do próprio soldo, foi corretamente definido por Geisel como “mau militar”, em documento histórico de valor inegável.

O general tinha motivos razoáveis para dar a definição, pois sabia do pendor terrorista e do comportamento indisciplinado do oficial. “Revolucionário” em 1930 e 1964, o quarto presidente da ditadura tinha também um desconfiômetro aguçado. O herói militar do capitão era o coronel Brilhante Ustra, torturador e assassino que homenageou ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff. Outro altar em seu panteão era de  Sebastião Rodrigues de Moura, vulgo Major Curió, recentemente celebrado em seu gabinete e que sempre se jactou de ter executado com a própria pistola cinco guerrilheiros presos, manietados e desarmados do PCdoB, na insana aventura da revolução comunista que seria deflagrada dos confins do vale do Rio Araguaia, no Centro-Oeste do Brasil. A dupla participou de uma das tentativas de golpe mais ridículas da História do Brasil. Eram fiéis discípulos do general Sylvio Frota, ministro do Exército de Geisel e que tentou impor o próprio nome à sucessão presidencial, mas foi preterido em benefício de João Figueiredo. Ustra e Curió eram dois dos 12 oficiais mandados por Frota ao aeroporto de Brasília para esperar os comandantes dos Exércitos, mas não conseguiram, porque foram ludibriados pelo general Fernando Bethlem, que também era frotista, mas aceitou substituir o malogrado sedicioso no Ministério do Exército.

Também fazia parte do golpe malogrado o capitão Augusto Heleno Ribeiro de Almeida, que era ajudante de ordens de Frota e fez parte dos apóstolos enganados pelo ex-parceiro na recepção aos comandantes. Esse, contudo, não é o único momento polêmico da vida do oficial. Ele foi condenado pelo Tribunal de Contas da União por irregularidades na compra de equipamentos para um torneio esportivo do Exército. Foi também substituído no comando da tropa da ONU no Haiti por ter comandado um massacre num bairro miserável de Porto Príncipe. Desde então, tem o então presidente Lula na pior conta. O que não o impediu de aceitar fazer parte da equipe do Comitê Olímpico Brasileiro, que, presidido por Arthur Nuzman, participou da escolha do Rio para sediar a Olimpíada de 2016. E só deixou o emprego no dia em que o chefe foi preso, ao ser flagrado no escândalo de corrupção de que resultou tal decisão.

O signatário da nota grosseira ameaçando com “consequências imprevisíveis” o fato de Celso de Mello ter mandado apreender o celular do amado chefe (o que é falso), completa, então, a constatação de que a nostalgia de Bolsonaro pela “gloriosa revolução de 1964” não passa de uma farsa. Faltou uma fotografia na parede do gabinete do deputado multipartidário na Câmara: do golpista fracassado Sylvio Frota.

É louvável a bravura com que Mello tem defendido a democracia do autogolpe que Bolsonaro pretende dar, mas nega, alegando que não teria sentido fazer a ruptura (como anunciou seu filho Eduardo, o 03) por já estar no poder. Há, é claro, inúmeros exemplos disso na História, tais como Hitler, Mussolini e Getúlio Vargas. Pois a própria palavra que indica golpe em si mesmo não teria sentido se alguém não recorresse a esse extremo em busca do poder absoluto, como Jânio Quadros tentou, e fracassou, em 1961.

Mas o empregador de parentes de milicianos, defensor de mentiras fascistoides e de armar o povo para se defender da “ditadura” de seus inimigos se inspira em ídolo mais próximo. Em entrevista a este Estadão em 1999, disse que o bolivariano Hugo Chávez era uma “esperança para a América Latina” e gostaria muito que essa filosofia chegasse ao Brasil, “Acho ele (sic) ímpar. Pretendo ir à Venezuela e tentar conhecê-lo. (…) Chávez não é anticomunista e eu também não sou. Na verdade, não tem nada mais próximo do comunismo do que o meio militar”. Para ele, o venezuelano o “remetia ao marechal Castelo Branco, primeiro presidente da ditadura militar. “Acho que ele vai fazer o que os militares fizeram no Brasil em 1964, com muito mais força. Só espero que a oposição não descambe para a guerrilha, como fez aqui”, completou.

Em 2002, confessou ter votado em Lula. E indicou para ministro da Defesa José Genoíno e Aldo Rebelo, ambos do PCdoB e que sobreviveram ao Major Curió. Esse é o típico chute ideológico de nossa direita chula, com tochas e máscaras como seus inspiradores da Ku Klux Klan cabocla, os 30 que se dizem 300 de Esparta e marcharam sábado, em Brasília.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 1 de junho de 2020)

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Artigo para coluna da Ric Mais: Autogolpe de Bolsonaro ainda é no gogó

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O Grupo Ric de Comunicação põe à disposição de emissoras de rádio e jornais impressos ou em edição virtual três podcasts de três minutos cada e um artigo por semana. Interessados em publicar este material original deve entrar em contato com mash.leonardo@gruporic.com.br

Autogolpe de Bolsonaro ainda é no gogó

José Nêumanne

Prioridade do presidente é se dar bem e enfraquecer instituições para exercer poder absoluto

Muitos meios de comunicação deixaram de frequentar o chiqueirinho diante do Palácio da Alvorada, onde o presidente Jair Bolsonaro recebe fiéis devotos e os vê agredirem repórteres. Chamou de entrevista o monólogo do rancor. Mas alguém ousou fazer uma pergunta e ele não berrou o “cala a boca” de vez anterior, mas deixou claro que, na modalidade cloroquina de entrevistas, perguntas nunca interrompem suas arengas de baixo calão.

Aos berros, como aprendeu na casa paterna e os usa para tornar o Brasil uma republiqueta de bananas do Vale do Ribeira, onde foi criado, deu a própria versão do “diga ao povo que fico” do príncipe Dom Pedro ao ser convocado a voltar para Lisboa. “Acabou, porra!”, resumiu o recado ao Supremo Tribunal Federal (STF). Tradução social: “Ordens absurdas não se cumprem”. Defendia bandidos que pagam ou são pagos para disparar mentiras em redes sociais, inspiradas no “gabinete do ódio” do filhote 02.

À tarde, na live das quintas dos infernos, disse que pretende nomear o procurador-geral da República, hoje na prática “puxa-saco oficial do presidente”, para a terceira vaga que preencherá no STF. Mas só dois ministros se aposentarão na vigência de seu mandato atual (quem lhe garante que haverá outro?). Ué, na hipótese de algum dos remanescentes desaparecer. Lembrou aí desaparecidos na ditadura ou uma nova forma de assassinato de milícias da periferia do Rio, onde mora? Quem vai saber? Certo é que Augusto Aras lhe tem prestado excelentes serviços no cargo para o qual o nomeou, à revelia das listas tríplices dos procuradores. O petista baiano, como deixou claro o chefão, tem-lhe prestado bons serviços.

Bobocas como o autor deste texto imaginavam que isso seria feito mesmo, mas não às escâncaras. Será que o fez por escassez de inteligência ou falta de finura no trato institucional? Tanto faz. Pois no dia seguinte o leão de comédia da Metro baliu como cordeiro em pele de lobo ao falar para o público amestrado, respondendo a um admirador sobre abertura de escolas. “A decisão das escolas cabe aos governadores e prefeitos”, afirmou, fugindo a essa e outras oportunidades de criticar o STF. Dá para entender Bolsonaro? Perfeitamente. Ele sempre dá dois passos à frente e um para trás com o objetivo de solapar as instituições e dar um autogolpe. Na proclamação desse golpe do gogó, falou em “armas da democracia”.

Mas os generais Hamilton Mourão, seu vice, e Augusto Heleno Ribeiro, chefe de sua segurança pessoal, deixaram claro que os fardados armados não apoiarão golpe algum. O general Santos Cruz, amigo desde a Academia Militar de Agulhas Negras, que vilmente expulsou do Palácio do Planalto , renegou o devaneio. Aí, ele afinou. E miou, que besta ele não é.

*Jornalista, poeta e escritor

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No Blog do Nêumanne: Nada de ideologia, é delinquência

No Blog do Nêumanne: Nada de ideologia, é delinquência

José Nêumanne

Há quem acredite que existe uma ala ideológica do governo Bolsonaro, que teria protagonizado reunião exibida em vídeo, mas, de fato, o que salta aos olhos são crimes do chefão e dos chefetes

Muitos comentaristas e cronistas das atividades políticas no Brasil acostumaram olhos e ouvidos do público assaltado à existência de um ente imaginário que chamam de “ala ideológica do governo Bolsonaro”. A oportunidade dada pela liberação do sigilo judicial da reunião do tal Conselho de Governo realizada em 22 de abril e vista por quem se habilitou um mês depois, por decisão do decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Celso de Mello, deu a todos, comunicadores e receptores da mensagem, o azo de descobrirem dois fatos elementares. Primeiramente, os ditos “ideológicos” mereceram do chefão, Jair Bolsonaro, aprovação às vezes manifestada em sonoras gargalhadas. Em segundo lugar, “ideologia” neles em nada se equipara às definições da palavra usada no embate político desde os tempos da luta entre girondinos e jacobinos na Revolução Francesa. Não se realizou em momento nenhum das duas horas de vídeo uma manifestação da primeira definição de ideologia no Dicionário Aurélio, o mais consultado no Brasil: “ciência da formação das ideias; tratado das ideias em abstrato; sistema de ideias”. Ou houve?

Vamos tirar aqui a prova dos noves. Que ideologia está por trás dos três mais graves crimes cometidos pelo chefão de todos os chefetes reunidos naquela assembleia, que em nada lembra a ágora do debate em Atenas, na Grécia antiga? Que crença ou conjunto de crenças de algum sistema pode justificar a interferência do presidente da República na nomeação do superintendente da Polícia Federal (PF) no Rio de Janeiro para blindar de investigação parentes e amigos dele? Em que ponto na história das ciências políticas se destina à esquerda ou à direita, definição ideológica clássica da luta política desde os tempos dos embates entre Danton e Robespierre, que lhe sirva para determinar aos ministros da Justiça e da Defesa que liberem a venda de armas de fogo a cidadãos para receberem à bala policiais que cumprirem determinações sanitárias emanadas de prefeitos e governadores, tão eleitos pelo voto popular quanto o autor da sugestão? Em que livros de teoria ou prática da ciência política se confere ao chefe do poder democrático instalar um serviço clandestino próprio de informações, à margem do que é determinado por lei?

Pode-se argumentar que os bandos armados não são inusitados na luta por poder. O partido nacional-socialista do austríaco Adolf Hitler na Alemanha de Weimar criou as Sturmabteilungs (operações tempestade, popularmente conhecidas como as tropas de assalto SA). O socialista italiano Benito Mussolini chegou ao poder obtendo a autorização do covarde rei Vittorio Emanuelle para seus fasci di combattimento, que assassinaram outro socialista, Giacomo Mateotti, abrindo caminho para a marcha contra Roma e a tomada do poder real pelos fascistas no Parlamento. Mas aqui não estamos falando de política, e sim de poder, o que é o caso das milícias populares de Hugo Chávez e agora Nicolás Maduro na Venezuela, de Daniel Ortega na Nicarágua e de Pablo García na Colômbia. As milícias populares de Bolsonaro não podem ser confundidas com as de inspiração esquerdista acima citadas, mas são em tudo e por tudo antidemocráticas e, portanto, contra o exercício da democracia na política.

“Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF”, disse, em curtíssima intervenção, o ministro da (falta de) Educação, Abraham Weintraub, irmão de Arthur, que se considera representante em Brasília do “ideólogo”-mor da famiglia Bolsonaro, Olavo de Carvalho. O programa de fechar o órgão máximo do Judiciário, bandeira dos bolsonaristas de raiz, entre eles o ministro que confunde Kafka com kafta, e depois prender por nada seus componentes do poder de nossa republiqueta das bananas do Vale do Ribeira, onde viveu o magistrado supremo, como se diz no formalismo do poder republicano, não está previsto em nenhum manual decente de política, por mais ideológico que seja. É apenas um crime previsto no Código Penal e na Lei de Segurança Nacional, abrigada na Constituição em vigor. É, portanto, o ânimo criminal, e não ideológico, que inspira o idiota que comanda a pasta mais importante do País e não disse uma palavra a respeito dela na ocasião.

Muitos termos chulos foram usados pelos membros do chulé da extrema direita, mas nenhum foi pronunciado na fala do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Nada, contudo, foi tão pornográfico como o que fez numa rara menção à gravíssima crise sanitária provocada pelo novo coronavírus. “O meio ambiente é o mais difícil de passar qualquer mudança infralegal em termos de infraestrutura, instrução normativa e portaria, porque tudo que a gente faz é pau no Judiciário, no dia seguinte. Então para isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só se fala de covid, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”, disse, sem tugir nem mugir. Entre Weintraub e ele, o ex-ministro da Saúde Nelson Teich retorceu-se em evidente desagrado, que, na certa, o levou a desertar da patota imunda. Fez bem. O recorde de derrubada da Floresta Amazônica demonstra que as palavras do ministro, condenado por improbidade em primeira instância por ato administrativo no governo do tucano Alckmin no Estado de São Paulo, não foram semeadas em vão.

Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, também se referiu à terrível crise sanitária vivida no Brasil. “A pandemia vai passar, mas governadores e prefeitos responderão processos e nós vamos pedir inclusive a prisão de governadores e prefeitos. E nós tamo (sic) subindo o tom e discursos estão chegando. Nosso ministério vai começar a pegar pesado com governadores e prefeitos. Nunca vimos o que está acontecendo hoje”, disse, bem ao estilo terrivelmente evangélico que encanta o bajulado pornógrafo-chefe. Sua inspiração não pode ter sido do evangelho do amor, mas, provavelmente, do gabinete do ódio, chefiado pelo filho 02 do chefão da União, Carlos Bolsonaro. É inimaginável que ela tenha aprendido esse tipo de delinquência vulgar com Jesus Cristo na goiabeira. Mais fácil terá sido em seu ofício de coletora de dízimos do que em manuais de política, democracia e coisa pública (res publica em latim).

Um silêncio eloquente na reunião foi o do chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno Ribeiro de Almeida, a quem o “capitão da cloroquina” teria dirigido as queixas mais duras (na verdade, o vídeo provou que eram contra Moro), numa estúpida versão fantasiosa bolada por ele e dois colegas de farda e galões no Palácio do Planalto, Walter Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos. Não se sabe se para esconder a vergonha da mentira desmascarada antes de ser contestada, ele deixou para aparecer na sexta-feira 22 de maio assinando de próprio punho uma nota golpista de ameaça ao decano do STF, por ter este encaminhado a seu amado chefe aviso de que consultara o procurador-geral da República, Augusto Aras, sobre notícia-crime de que é alvo.

O autor do crime contra a Lei de Segurança Nacional, assinada por João Figueiredo no último governo da ditadura e incorporada à Constituição, já foi condenado por um crime menor, de intendente. O Tribunal de Contas da União o flagrou em compra irregular de equipamentos esportivos numa olimpíada do Exército. O general, que foi gravado cantarolando “se gritar pega centrão, não fica um, meu irmão”, também foi obrigado a deixar discretamente a sinecura de que gozava no Comitê Olímpico Brasileiro assim que seu chefe e protetor, Arthur Nuzman, foi preso sob a acusação de ter participado da compra da escolha do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016.

A experiência “ideológica” do arapongão do Palácio foi o golpe frustrado do general Sylvio Frota, de quem era ajudante de ordens como capitão, contra Ernesto Geisel. O grupo, a que também pertenciam os assassinos e torturadores Brilhante Ustra e Major Curió, escalado pelo chefe para receber os comandantes de tropas no aeroporto foi enganado por um “frotista”, general Fernando Bethlem, que recebeu os quatro-estrelas à saída da escada dos aviões em que chegaram para a posse deste.

Hoje o acusado de crimes contra humanidade no Haiti é estrela “frotista” dos generais empregados pelo capitão na produção de gosto similar ao linguajar chulo da reunião, intitulada “a volta dos que não foram”. E o que é grave: ninguém parece querer impedir que fiquem pendurados no cabide de altíssimos cargos com as garras fincadas no filé mignon do poder da triste república dos sem-coragem nem vergonha.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 25 de maio de 2020)

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Coluna semanal do Ric Mais: Marinho complementa Moro

Coluna semanal do Ric Mais: Marinho complementa Moro

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Marinho complementa Moro

José Nêumanne

Em entrevista e depoimentos, ex-aliado de Bolsonaro amplia alcance das acusações de ex-juiz

O empresário carioca Paulo Marinho, que emprestou sua casa para a gravação de programas da campanha de Jair Bolsonaro à Presidência, contou a Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, que o primogênito do chefão, Flávio, respondeu à questão feita pela Nação sobre motivos pelos quais o capitão é obcecado pela superintendência da Polícia Federal (PF) no Rio. O filhote dito 01 contou-lhe que três assessores dele ouviram de um delegado bolsonarista da PF que a Operação Furna da Onça foi deflagrada depois do segundo turno da eleição para não prejudicar o então candidato do PSL à Presidência. Marinho contou aos jornalistas que apresentou “elementos” (provas) em dois depoimentos à PF. Não havia dúvida de que Moro não mentiu ao acusar e, ao fingir defender-se, o próprio presidente comprovou tudo. Mas a entrada desse personagem novo acabou por dar toda a razão ao ex-ministro da Justiça e tornar as tentativas de responder do senador mera galhofa.

O corpo mole da Procuradoria-Geral da República (PGR) transforma o dublê de advogado Augusto Aras em “puxa-saco presidencial” de uma republiqueta de bananas (egressas do Vale do Ribeira, onde JB nasceu) se continuar se negando a oferecer denúncia sobre o chefe do Poder Executivo, apesar de todas as evidências. À saída do segundo depoimento, um dos inquiridores do empresário deu mais uma razão a essa hipótese ao declarar aos repórteres que o Ministério Público Federal não poderia investigar a denúncia de O Antagonista de que contas bancárias do acusador foram devassadas “informalmente” pelo Coaf, hoje órgão do Banco Central, sob comando do PR. Afinal, a devassa teria sido “informal”. O sub-relapso é Eduardo Benones, fiel à linha do relapso-mor.

Pelo que já se sabe do caso, é possível que sejam instalados com urgência, no Senado, processos de impeachment do presidente, do senador das milícias e do “puxa-saco presidencial”. Para os dois primeiros, a Câmara terá de autorizar, com dois terços dos votos. Para comprar o terço de votos necessários para os dois primeiros escaparem de punição o principal denunciado desembolsa no momento R$ 86 bilhões de orçamentos de FNDE, Banco do Nordeste, Codevasf e Dnocs. A famiglia Bolsonaro nunca teve dificuldade para usar dinheiro público em proveito próprio. No rastro da denúncia de Marinho foi publicado que um dos assessores de Flávio que conversaram com o vazador bolsonarista da PF, o advogado Victor Granado Alves, recebeu R$ 500 mil do PSL, cujo diretório no Rio era presidido pelo primeiro filhote, na base de R$ 40 mil por mês, subtraídos do Fundo Partidário, para honrar honorários privados do clã. Como o partido não está sob controle da famiglia, não será impossível comprovar esse dano ao erário.

  • Jornalista, poeta e escritor

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Comentário no Jornal Eldorado: Direita cloroquina e esquerda tubaína

Comentário no Jornal Eldorado: Direita cloroquina e esquerda tubaína

Na terça-feira 19, em que foram registrados oficialmente, 1.179 mortos pelo novo coronavírus  no Brasil, o presidente da República, Jair Bolsonaro, esbanjou cinismo, frieza e perversidade ao fazer uma piada de péssimo gosto na live que fez no blog do jornalista pernambucano Magno Martins. “Direita toma cloroquina e esquerda toma tubaína”, disse e repetiu várias vezes a comparação sem nexo entre a droga com a qual planeja combater a pandemia e o refrigerante barato. O deslize foi cometido ao anunciar e justificar o novo protocolo sobre uso do medicamento para malária em casos leves de covid-19, a ser assinado na quarta-feira de manhã pelo ministro provisório da Saúde, general Eduardo Pazuello. A gargalhada que acompanhou a rima comprovou com sobras seu desprezo pela vida alheia.

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Assuntos do comentário de quarta-feira 20 de maio de 2020:

1 – Haisem – Mais de mil mortes por dia e 1 a cada 7 casos no mundo – Esta foi a manchete de um dia de cão na edição de hoje do Estadão, mas o presidente Jair Bolsonaro não perdeu a chance de debochar de cada uma dessas tragédias. Até quando vamos tolerar o intolerável, Nêumanne

2 – Carolina – A cloroquina e o crime de responsabilidade – É o título do primeiro editorial da página de Opinião do Estadão de hoje. Que lições este texto nos traz para este momento difícil

3 – Haisem – Bolsonaro entregou, sem hesitar, a chave do cofre bilionário do FNDE ao Centrão – é o título de reportagem publicada na primeira página do Portal do Estadão. Qual a palavra que resume sua reação a esta notícia de um ato asqueroso do chefe dó Executivo

4 – Carolina – Celso de Mello ficou incrédulo com vídeo da reunião ministerial – revelou outro título da capa do Portal do Estadão. O que motivou a surpresa do decano do Supremo Tribunal Federal e a que reação dele ela pode levar

5 – Haisem – Aliados de Flávio Bolsonaro citados em ‘vazamento’ tiveram sigilos quebrados – Eis mais um título da capa do Portal do Estadão hoje. A que conseqüências esta devassa anunciada pode levar na prática, em sua opinião

6 – Carolina – O que ainda há a dizer sobre o fuzilamento do adolescente João Pedro Mattos, de 14 anos, e a forma como a família foi tratada pela Policia Federal e pelos policiais do Rio depois dessa execução em São Gonçalo no Grande Rio

SONORA NEILTON 2005A

No Blog do Nêumanne: Marinho encalacra Bolsonaro de vez

No Blog do Nêumanne: Marinho encalacra Bolsonaro de vez

José Nêumanne

Entrevista de empresário cria quatro problemas novos para presidente: é verossímil, revela crimes gravíssimos, encaixa-se em fatos notórios e permite cassação de sua chapa na Justiça Eleitoral

A entrevista do empresário Paulo Marinho à colunista Mônica Bergamo, publicada na Folha de S.Paulo de domingo 17 de maio, tem um efeito de bomba de hidrogênio sobre o destino do presidente da República, Jair Bolsonaro, e, em consequência, de suas vítimas, cidadãos brasileiros.

Bolsonarista de primeira hora, com relevantes serviços prestados ao vencedor do pleito presidencial, entre os quais a cessão de sua mansão no Rio para servir de quartel-general da comunicação da campanha da chapa formada por dois militares, o próprio e o vice, general Hamilton Mourão, o entrevistado contou um fato de inegável verossimilhança. Disse que o filho do capitão, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, lhe contou que um delegado da Polícia Federal (PF) vazou a informação sigilosa de que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) encaminhou à Operação Furna da Onça, da Lava Jato, relatório sobre movimentação de R$ 1,2 milhão em contas do caixa informal do clã, Fabrício Queiroz.

No relato, Marinho ofereceu, de lambujem, mais quatro testemunhas: o ex-coronel Miguel Braga, chefe de gabinete do 01 de Jair, hoje senador; a funcionária Val Meliga, de sua total confiança e irmã de dois milicianos presos na Operação Quatro Elementos; e os advogados Victor Alves, que até hoje trabalha no gabinete do senador, e Christiano Fragoso. De acordo com o entrevistado, o encontro do primogênito do presidente com ele e Christiano Fragoso, que ele mesmo havia indicado ao então presidente eleito para cuidar do caso, ocorreu na quinta-feira 13 de dezembro de 2018 na casa que serviu de estúdio na campanha deste.

A versão apresentada pelo filho 01 do presidente foi de que o ex-coronel Braga, o advogado Victor e a funcionária Val foram ao encontro marcado por telefone com o policial à porta da sede da PF na Praça Mauá.  O delegado ­– que, segundo a repórter Thaís Oyama, do UOL, autora do livro Tormenta, contendo bastidores do governo federal, atende por um apelido, e não é o ex-segurança do presidente depois do atentado em Juiz de Fora, Alexandre Ramagem – narrou-lhes sobre “milhões movimentados” por Fabrício Queiroz, que administrava o gabinete do 01 na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), apontados pelo Coaf como suspeita “movimentação ilícita”.

O delegado disse ainda que a operação estava sendo adiada para depois do segundo turno para não prejudicar o então deputado federal na eleição presidencial pelo PSL. E sugeriu que fossem demitidos Fabrício, do cargo de “assessor parlamentar 3” que ocupava no gabinete da Alerj, e sua filha Natália, que era “secretária parlamentar” no gabinete do pai.

Pai e filha foram demitidos em 15 de outubro. Esse fato particular viria a conhecimento público após a publicação pelo Estadão do primeiro furo jornalístico sobre o episódio, em 6 de dezembro, com a revelação do documento do Coaf e do inquérito do Ministério Público (MP) e da PF em reportagem de Fábio Serapião no blog de Fausto Macedo. O escândalo, contudo, não mobilizou os políticos a ponto de adiar a posse da chapa vencedora nem de perturbar os primeiros 500 dias do governo federal. Apesar das desculpas esfarrapadas que sempre inspiram notas oficiais da família presidencial tentando defender o indefensável. Argumentos estúpidos como o do senador alegando que a publicação motivava prejudicar a gestão do pai presidente. E o conto de carochinha sobre um depósito de Fabrício na conta de Michelle, sua mulher, como pagamento de parcela de uma dívida do assessor com ele. Que caradura!

Só que o caso pôs em evidência suspeitas conexões de pai, filho e seu trêfego espírito de porco com as milícias que disputam com o tráfico de drogas o poder paralelo na periferia miserável do Rio. Fabrício, que serviu na brigada de paraquedistas com Jair Messias e se tornou amigo íntimo dele e conviva de churrascos e pescarias, é suspeito de ter prestado serviços a milicianos. E não é a única conexão entre a família do presidente e tal prática criminosa. O 01 condecorou o capitão miliciano da Polícia Militar Adriano da Nóbrega com a Medalha Tiradentes, da Alerj, alegando tê-lo como herói do Bope. Mas o “comendador” já estava, na ocasião, preso por homicídio. Nessa condição também teve o privilégio de contar com o deputado Bolsonaro em seu julgamento, o que propiciou ao parlamentar um emocionado discurso em sua defesa na tribuna da Alerj. Mais tarde, “seu” Jair viu-se enredado na execução da vereadora Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, por ser vizinho de condomínio dos acusados da execução do crime pela polícia estadual, Ronnie Lessa e Élcio Queiroz.

  O capitão miliciano foi assassinado covardemente por tropas policiais baianas com ajuda de agentes da polícia estadual fluminense, em Esplanada (BA). Até agora os agentes do governador Wilson Witzel e o MP do Rio não revelaram os mandantes do assassinato da vereadora do PSOL e de seu motorista, em 14 de março de 2018. Nada também têm a dizer sobre a eventual queima desse arquivo em 9 de fevereiro de 2020.

Aliás, o MP do Rio nunca explicou por que Fabrício Queiroz ainda não depôs no inquérito cuja abertura foi adiada, conforme a elucidativa e definitiva entrevista de Marinho, que acaba de fornecer uma peça aparentemente pequena do quebra-cabeça que foi escondida da sociedade brasileira nestes últimos anos, apesar de todas as evidências do envolvimento do clã Bolsonaro. Agora chegou a hora da elucidação total de um caso horrendo e mantido oculto por desfaçatez e falta de caráter de todos. É uma caixa de Pandora da qual o empresário carioca entregou a chave. Para ser aberta se demanda mais vergonha na cara do que coragem.

A Nação exige comportamento diferente do oportunista procurador-geral da União. Augusto Aras, que tem poupado o presidente da República com tanto zelo que passa a merecer a mudança da denominação de seu alto cargo de procurador-geral da República para “puxassaco-presidencial”. Depois que Bolsonaro prestigiou e apoiou manifestantes golpistas pela terceira vez, um à frente do QG do Exército e dois na Praça dos Três Poderes, ele “passou o pano”. Mas pode recuperar o terreno perdido se  aproveitar a oportunosa ensancha dada por Paulo Marinho e incluir sua entrevista no inquérito aberto pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a seu pedido, para investigar as graves acusações feitas pelo ex-ministro da Justiça Sergio Moro contra o ex-chefe. Para isso teria de apensá-la pelas evidências oferecidas pelo clã no poder republicano. Fatos, apenas fatos.

As questões são óbvias. Por que Bolsonaro disse que seu sonho era fazer do presidente da Agência Brasileira de Inteligência (quanta estupidez!), Alexandre Ramagem, diretor-geral da PF? Por que nomeou para esse posto o obscuro lugar-tenente dele, Rolando (Lero) Alexandre de Souza, após ter tido o sonho interrompido pelo ministro do STF Alexandre de Moraes? Seria Fabrício Queiroz a pessoa à qual se referiu ao tentar impedir que ferrassem (perdão pelo eufemismo) sua família e seu “amigo”?

O depoimento de Marinho não surpreende. Este autor já se referia ao saco de gatos briguentos que é a PF (petistas de Paulo Lacerda, tucanos de Marcelo Itagiba e viúvas de Romeu Tuma) no livro O que Sei de Lula (Topbooks), editado em 2019. No artigo Polícia Federal, uma santinha de pau oco, publicado no Estadão em 29 de abril passado, constatei as novas alas de petistas grã-finos liderados por Luiz Fernando Corrêa, discípulo de Márcio Thomaz Bastos e o mais longevo diretor-geral da história da instituição, e bolsonaristas, agora, ao que parece, sob a batuta de Alexandre Ramagem. A entrevista, talvez provocada pelo risco de seguir o destino do capitão ex-herói do Bope ou de um enfarte como o que calou seu amigão Gustavo Bebianno, mas também por uma respeitável coragem de enfrentar suas responsabilidades, que dá lógica e possivelmente consequências a fatos que não deviam mais ser escondidos da cidadania.

Assim como é o caso do vídeo de uma reunião com 40 pessoas, nem todas altas autoridades, em que o governo Bolsonaro, que acompanha, impassível, a morte de 16 mil brasileiros, mostra não ter honra, juízo, empatia e pudor para administrar esta crise sanitária, econômica, política e social. E usada criminosa e covardemente como estelionato eleitoral. Seja qual for a sentença – anulação da chapa pelo Tribunal Superior Eleitoral, condenação por crime de responsabilidade no Senado ou comum pelo STF –, sua impunidade envergonha mais o Brasil do que os nefastos frutos dessa safra de ódio, despudor e desmandos.

·        Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 18 de maio d3e 2020)

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