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No Blog do Nêumanne: Cobra criada por jararaca

No Blog do Nêumanne: Cobra criada por jararaca

Assim como Palocci, Dida era o queridinho de Lula, Dilma e do mercado

O ex-presidente do Banco do Brasil (BB) e da Petrobrás Aldemir Bendine foi preso na semana passada num condomínio de luxo em Sorocaba, no interior de São Paulo, na Operação Cobra, 42ª fase da Lava Jato. A prisão deixa claro que a devassa continua e as origens e companhias de Temer não deixarão de assombrar as noites no Jaburu (terá sido por isso que a família real se assombrava no Alvorada?). E ainda que o papo da gerentona honestinha, a madama presidenta Dilma Rousseff, é completamente furado. Além disso, esclarece que padim Lula de Caetés é católico praticante, mas se esqueceu do princípio bíblico do “diz-me com quem andas e te direi quem és”. No caso, aliás, foi o ex-presidente petista quem fez de Dida, como chamava Aldemir carinhosamente, cobra criada.

Segundo as investigações realizadas até este momento, o ex-presidente das instituições mencionadas e pessoas a ele relacionadas teriam solicitado vantagem indevida em razão dos cargos exercidos para que a construtora Odebrecht não fosse prejudicada em futuras contratações da Petrobrás. Em troca, a empresa teria efetuado o pagamento em espécie de, no mínimo, R$ 3 milhões. O mais espantoso é que, pelo menos aparentemente, tais pagamentos somente foram interrompidos com a prisão do então presidente da Odebrecht, em junho de 2015.

O nome da 42.ª fase da Lava Jato (Cobra) é uma referência ao codinome dado ao principal investigado nas tabelas de pagamentos de propinas apreendidas no chamado Setor de Operações Estruturadas do Grupo Odebrecht e revelado na 23.ª fase da mesma operação. Bendine foi levado para a companhia de Marcelo na carceragem da Polícia Federal (PF) em Curitiba, por determinação do juiz federal Sérgio Moro, titular da 13.ª Vara Criminal Federal da capital paranaense e responsável pelo julgamento dos acusados por procuradores e policiais federais da celebérrima operação.

O ponto de partida da Operação Cobra foi a delação de Marcelo Odebrecht. Este relatou que, primeiro, quando presidente do BB, Dida pediu R$ 17 milhões para facilitar a concessão de um empréstimo que a  empreiteira tinha reivindicado. O então presidente da Odebrecht, entretanto, não aceitou fazer o pagamento, pois acreditava que a demanda da empresa seria julgada por técnicos do banco, e não pelo presidente. Só que o funcionário de carreira da instituição financeira foi nomeado por Dilma para presidir a Petrobrás, a pretexto de pôr fim às práticas de corrupção da petroleira, que chegaram a tal ponto que o maior escândalo da História recebeu a marca de “petrolão”. Além do mais, Bendine reduziu a pedida para R$ 3 milhões e a propina foi sendo paga em “suaves prestações” até Odebrecht ser preso e o pagamento, interrompido.

Bendine era o queridinho de Lula, que o nomeou presidente do BB em 2009. Dida tinha começado como office boy na instituição e foi mantido em sua presidência até 2015, quando Dilma Rousseff o nomeou para presidir a petroleira, substituindo sua amigona do peito Graça Forster. Sua tarefa seria moralizar e, em consequência, salvar a maior estatal brasileira. A prisão dele  agora confirma, contudo, as desconfianças de parte dos críticos dos presidentes petistas  de que sua missão era, de fato, eliminar provas da cumpanheirada comprometida na roubalheira. Depois da prisão e de suas consequências, que podem levar Bendine à delação premiada, a reputação de Lula e também a de Dilma estão sendo jogadas “na chón”, como diria Dona Armênia, interpretada por Aracy Balabanian na novela global Rainha da Sucata, protagonizada por Regina Duarte. A verdade é que o que a tigrada petista tentou fazer todos os brasileiros de bestas não está no gibi. E pode ser, afinal, que tudo seja desvendado, se Sua Insolência o sinistro da Justiça, Torquato Jardim, permitir.

A delação premiada de Bendine é tão esperada como a do ex-ministro da Fazenda de Lula e ex-chefe da Casa Civil de Dilma Antônio Palocci, porque, como o ex-prefeito de Ribeirão Preto, o bancário também mereceu a simpatia e as bênçãos do mercado.

O cinismo de Dida atingiu as raias do absurdo. Na presidência do BB, foi flagrado com um patrimônio inexplicável em espécie e teve a caradura de dizer que usou dinheiro guardado em casa para comprar um imóvel. A aparente competência com que presidia o banco, à época, evitou que Dilma o demitisse e que os magnatas da burguesia nacional reclamassem de ele ter desonrado uma instituição de crédito de mais de 200 anos, fundada no tempo da estada do rei português dom João VI no Rio. Ao confessar que entesourava o vil papel  debaixo do colchão, o “cobra” de Lula, Dilma e da Fiesp se comportou como o dono de um restaurante chique que faz habitualmente suas refeições no boteco sujinho ao lado.

Mas, mesmo depois desse flagrante e da polêmica em torno do empréstimo para Val Marchiori, uma das Mulheres Ricas da Rede Bandeirantes de Televisão, comprar um Porsche  enquanto os gestores petistas se jactavam de usar os bancos públicos para enriquecer os pobres, ele foi transferido para a Petrobrás. Com Dilma transformada em carta fora do baralho, ele ainda foi cotado para ficar no emprego, pois era tido como um grande gestor por alguns assessores próximos de Temer. Esse incidente mostra que o presidente pode até não ter muito juízo, mas sorte tem de sobra. E mais: Bendine ainda tentou ser o indicado do atual governo para presidir a Vale privatizada. São as delícias do Brasil…!

Além disso, as revelações sobre seu comportamento pelos procuradores da Lava Jato são, no mínimo, pitorescas. O primeiro executivo que presidiu uma poderosa estatal (na verdade, duas entre as maiores) foi preso por ter pedido um adjutório em plena efervescência da Lava Jato no noticiário. Os investigadores ainda descobriram que Dida – que tem o mesmo apelido do grande craque do Flamengo tricampeão carioca de 1953,1954 e 1955, formando a linha campeã com Joel, Moacir, Evaristo e Zagalo – declarou a referida  esmola no Imposto de Renda. Além disso, apagou mensagens no aplicativo quatro horas depois de transmitidas, mas fez questão de manter algumas, sem pensar que ajudariam na investigação, negando sua reputação de cobra criada.

E esse cobra (não no sentido de venenoso, mas de craque) terá de esclarecer o dinheirão aplicado pelo fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, o Previ, por ordem dele numa obra da Odebrecht. Provavelmente, isso ainda vai dar muito pano pra mangas, embora sua prisão agora esteja relacionada ao alegado pedido de recursos para facilitar a situação da empreiteira na Petrobrás, origem de seu ousado, mas não atendido, pedido da propina quase seis vezes maior do que a que ele é acusado de ter recebido.

Segundo Murilo Ramos publicou no site da Época Expresso, há outro capítulo da ligação de Bendine com a Odebrecht que demanda investigação: o empréstimo de mais de R$ 800 milhões da Previ a empreendimento imobiliário da Odebrecht em São Paulo, em 2012. À época, ele comandava o BB. E o fundo de pensão – que, antes. havia tomado um prejuízo gigantesco com a Odebrecht pot yrt investido muito no complexo turístico da Costa do Sauípe – voltou a conceder empréstimo vultoso a outro projeto da empreiteira. A participação do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega no episódio também demanda investigação rigorosa.

Na gestão de Bendine na presidência do maior banco público do País, o Previ também se associou à construtora OAS na empesa Invepar. Ou seja, um novo alvo da Operação Cobra deveria ser o Banco do Brasil e a Previ, a depender das investigações da força-tarefa da Lava Jato e, quem sabe, de uma delação premiada do cobra que o soit-disant jararaca (Lula) criou.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, na segunda-feira 31 de julho de 2017)

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No Estado de S. Paulo: Sociedade dos otários espoliados

No Estado de S. Paulo: Sociedade dos otários espoliados

República dos sem-vergonha vive à tripa forra, à custa de um povo submetido à desonra da pobreza

O historiador cearense Capistrano de Abreu (1853-1927), colega de classe de padre Cícero Romão Batista no seminário de Fortaleza, não ficou famoso por causa disso, mas por uma piada, seu projeto de Constituição, que rezava, categórico: “Artigo 1.º : Todo brasileiro deve ter vergonha na cara. Artigo 2.º: Revogam-se as disposições em contrário”.

Nenhum de nossos projetos constitucionais teve o poder de síntese dessa chacota, que de tão atual se tornou denúncia. A cada nova legislação este país se torna cada vez mais a “república dos sem-vergonha”. E a sociedade dos otários espoliados. A primeira página do Estado de anteontem registrou: Câmara quer mudar delação premiada e prisão preventiva. E a notícia a que ela se refere, da lavra de Isadora Peron, da sucursal de Brasília, completou: “Também estudam revogar o entendimento de que penas podem começar a ser cumpridas após condenação em segunda instância”.

Na mesma edição deste jornal, que se notabilizou pelas lutas pela abolição da escravatura, pela proclamação da República, contra o Estado Novo e a ditadura militar, os repórteres de política Pedro Venceslau e Valmar Hupsel Filho relataram a saga de Vicente Cândido (PT-SP) para promover uma reforma política que inclua um Fundo Partidário de, no mínimo, R$ 3,5 bilhões; o distritão, em que só os mais votados para deputado se elegem; e, last but not least, a “emenda Lula”. Esta merece destaque especial, por impedir que postulantes a mandatos eletivos sejam presos oito meses antes da data marcada para a eleição, mesmo que só venham a ter suas candidaturas registradas oficialmente quatro meses após esse prazo. O nome do presidenciável do Partido dos Trabalhadores (PT), no qual milita Sua Candidez, é usado como marca registrada da emenda por atender ao fato de que Luiz Inácio Lula da Silva acaba de ser condenado a nove anos e meio de prisão e proibido de ocupar cargos públicos por sete anos pelo juiz Sergio Moro, na Operação Lava Jato.

A proibição de prender quem avoque sua condição de candidato é a mais abjeta das propostas do nada cândido (claro, impoluto) relator, mas não é a que produzirá, se for aprovada pelo Congresso Nacional, mais prejuízos, em todos os sentidos, para a cidadania. As medidas cinicamente propostas pelo “nobilíssimo” parlamentar produzem, em conjunto, um despautério que provocaria a aceleração do enriquecimento dos partidos e de seus representantes, em particular os dirigentes, sob a égide de um sistema corrupto e que trava a produção e o consumo, empobrecendo a Nação. O financiamento público das milionárias campanhas eleitorais legaliza a tunga ao bolso furado do cidadão.

Ex-sócio do presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, que não sai do País para não ser preso pela Interpol, Sua Candura-mor, o deputado ecumênico, integra o lobby a favor da legalização dos cassinos e foi um dos idealizadores da campanha de Rodrigo Maia (DEM-RJ) à presidência da Câmara. A reforma ressuscita uma ideia que nunca pareceu ter muito futuro e sempre foi apregoada pelo presidente Michel Temer: o distritão. Trata-se da volta do tílburi ao Vale do Silício, pois reduz a pó as tentativas vãs de tonificar a democracia, dando mais força aos partidos, e estimula o coronelismo partidário, usando falsamente a modernização, confundindo-a com voto distrital.

Estado noticiou que o patrimônio de Cândido aumentou nove vezes nos últimos nove anos (descontada a inflação no período). Neste momento, em que as arenas da Copa do Mundo da Fifa em 2014 – de cuja lei foi relator – têm as contas devassadas por suspeitas de corrupção e um juiz espanhol mandou prender o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira, o eclético parlamentar achou um parceiro no Senado: o relator da reforma política e líder do governo Temer na Casa, Romero Jucá (PMDB-AP).

Enquanto Cândido e Jucá providenciam a engorda dos cofres partidários para garantir as campanhas perdulárias, que vinham sendo feitas à custa de propinas milionárias, a comissão especial da reforma do Código de Processo Penal (CPP) batalha pelo abrandamento da legislação de combate à corrupção no Brasil.

A reforma do CPP, que é de 1941, foi aprovada no Senado em 2010. Na Câmara ficou esquecida até o ano passado e foi desengavetada durante o mandarinato do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), atualmente preso em Curitiba. O presidente da comissão especial que discute as mudanças na Casa, deputado Danilo Forte (PSB-CE), que apareceu recentemente na lambança de Temer ao tentar atravessar a adesão dos dissidentes do PSB ao DEM, discorda de presos fecharem acordos de delação premiada com procuradores.

Forte também considera que é preciso punir juiz que desrespeite as regras da condução coercitiva, que deveria ser empregada apenas se uma pessoa se negar a prestar depoimento. O presidente da comissão especial parece até ter inspirado sua ideia na recente decisão de Nicolás Maduro, que ameaçou de prisão os juízes que o Parlamento da Venezuela – de maioria oposicionista e contra a Constituinte que ele quer eleger no domingo, no modelo da pregada por Dilma – escolheu para a Suprema Corte.

A reforma política de Cândido e Jucá e as mudanças no CPP propostas por Forte, aliado de Temer, evidenciam tentativas de adaptar as leis eleitorais e penais do País aos interesses pessoais de chefões políticos encalacrados nas operações, Lava Jato entre elas, inspiradas em convenções da ONU, da OEA e da OCDE contra a roubalheira geral, importadas por Fernando Henrique e Dilma e agora ameaçadas pelos que defendem a impunidade de quem for flagrado. Esse “acordão”, que denota fraqueza e sordidez, põe o Brasil, já na contramão da prosperidade, também na trilha oposta da luta contra o roubo. Aqui a vergonha empobrece o portador.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. 2A do Estado de S. Paulo da quarta-feira 26 de julho de 2017)

Para ler no Blog do Nêumanne, Politica Estadão, clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/sociedade-de-otarios-espoliados/

No Estadão desta quarta-feira: A República dos sem-vergonha

No Estadão desta quarta-feira: A República  dos sem-vergonha

Sob a égide de Temer, Lula e Cunha, Congresso tenta favorecer corrupção

O historiador cearense Capistrano de Abreu (1853-1927), colega de classe de padre Cícero Romão Batista no seminário de Fortaleza, não ficou famoso por causa disso, mas por uma piada, seu projeto de Constituição, que rezava, categórico: “Artigo 1.º : Todo brasileiro deve ter vergonha na cara. Artigo 2.º: Revogam-se as disposições em contrário”.

Nenhum de nossos projetos constitucionais teve o poder de síntese dessa chacota, que de tão atual se tornou denúncia. A cada nova legislação este país se torna cada vez mais a “república dos sem-vergonha”. E a sociedade dos otários espoliados. A primeira página do Estado de anteontem registrou: Câmara quer mudar delação premiada e prisão preventiva. E a notícia a que ela se refere, da lavra de Isadora Peron, da sucursal de Brasília, completou: “Também estudam revogar o entendimento de que penas podem começar a ser cumpridas após condenação em segunda instância”.

Na mesma edição deste jornal, que se notabilizou pelas lutas pela abolição da escravatura, pela proclamação da República, contra o Estado Novo e a ditadura militar, os repórteres de política Pedro Venceslau e Valmar Hupsel Filho relataram a saga de Vicente Cândido (PT-SP) para promover uma reforma política que inclua um Fundo Partidário de, no mínimo, R$ 3,5 bilhões; o distritão, em que só os mais votados para deputado se elegem; e, last but not least, a “emenda Lula”. Esta merece destaque especial, por impedir que postulantes a mandatos eletivos sejam presos oito meses antes da data marcada para a eleição, mesmo que só venham a ter suas candidaturas registradas oficialmente quatro meses após esse prazo. O nome do presidenciável do Partido dos Trabalhadores (PT), no qual milita Sua Candidez, é usado como marca registrada da emenda por atender ao fato de que Luiz Inácio Lula da Silva acaba de ser condenado a nove anos e meio de prisão e proibido de ocupar cargos públicos por sete anos pelo juiz Sergio Moro, na Operação Lava Jato.

A proibição de prender quem avoque sua condição de candidato é a mais abjeta das propostas do nada cândido (claro, impoluto) relator, mas não é a que produzirá, se for aprovada pelo Congresso Nacional, mais prejuízos, em todos os sentidos, para a cidadania. As medidas cinicamente propostas pelo “nobilíssimo” parlamentar produzem, em conjunto, um despautério que provocaria a aceleração do enriquecimento dos partidos e de seus representantes, em particular os dirigentes, sob a égide de um sistema corrupto e que trava a produção e o consumo, empobrecendo a Nação. O financiamento público das milionárias campanhas eleitorais legaliza a tunga ao bolso furado do cidadão.

Ex-sócio do presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, que não sai do País para não ser preso pela Interpol, Sua Candura-mor, o deputado ecumênico, integra o lobby a favor da legalização dos cassinos e foi um dos idealizadores da campanha de Rodrigo Maia (DEM-RJ) à presidência da Câmara. A reforma ressuscita uma ideia que nunca pareceu ter muito futuro e sempre foi apregoada pelo presidente Michel Temer: o distritão. Trata-se da volta do tílburi ao Vale do Silício, pois reduz a pó as tentativas vãs de tonificar a democracia, dando mais força aos partidos, e estimula o coronelismo partidário, usando falsamente a modernização, confundindo-a com voto distrital.

Estado noticiou que o patrimônio de Cândido aumentou nove vezes nos últimos nove anos (descontada a inflação no período). Neste momento, em que as arenas da Copa do Mundo da Fifa em 2014 – de cuja lei foi relator – têm as contas devassadas por suspeitas de corrupção e um juiz espanhol mandou prender o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira, o eclético parlamentar achou um parceiro no Senado: o relator da reforma política e líder do governo Temer na Casa, Romero Jucá (PMDB-AP).

Enquanto Cândido e Jucá providenciam a engorda dos cofres partidários para garantir as campanhas perdulárias, que vinham sendo feitas à custa de propinas milionárias, a comissão especial da reforma do Código de Processo Penal (CPP) batalha pelo abrandamento da legislação de combate à corrupção no Brasil.

A reforma do CPP, que é de 1941, foi aprovada no Senado em 2010. Na Câmara ficou esquecida até o ano passado e foi desengavetada durante o mandarinato do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), atualmente preso em Curitiba. O presidente da comissão especial que discute as mudanças na Casa, deputado Danilo Forte (PSB-CE), que apareceu recentemente na lambança de Temer ao tentar atravessar a adesão dos dissidentes do PSB ao DEM, discorda de presos fecharem acordos de delação premiada com procuradores.

Forte também considera que é preciso punir juiz que desrespeite as regras da condução coercitiva, que deveria ser empregada apenas se uma pessoa se negar a prestar depoimento. O presidente da comissão especial parece até ter inspirado sua ideia na recente decisão de Nicolás Maduro, que ameaçou de prisão os juízes que o Parlamento da Venezuela – de maioria oposicionista e contra a Constituinte que ele quer eleger no domingo, no modelo da pregada por Dilma – escolheu para a Suprema Corte.

A reforma política de Cândido e Jucá e as mudanças no CPP propostas por Forte, aliado de Temer, evidenciam tentativas de adaptar as leis eleitorais e penais do País aos interesses pessoais de chefões políticos encalacrados nas operações, Lava Jato entre elas, inspiradas em convenções da ONU, da OEA e da OCDE contra a roubalheira geral, importadas por Fernando Henrique e Dilma e agora ameaçadas pelos que defendem a impunidade de quem for flagrado. Esse “acordão”, que denota fraqueza e sordidez, põe o Brasil, já na contramão da prosperidade, também na trilha oposta da luta contra o roubo. Aqui a vergonha empobrece o portador.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. 2A do Estado de S. Paulo da quarta-feira 26 de julho de 2017)

No Blog do Nêumanne: Joesley, Janot, Temer, Fachin & Cia.

No Blog do Nêumanne: Joesley, Janot, Temer, Fachin & Cia.

 

Não se justifica o acordo do bamba do abate com o procurador-geral e o ministro do STF

As lições de educação moral e cívica, que o bamba do abate Joesley Batista e o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, têm ministrado em manifestações impressas e pronunciamentos públicos estão a merecer correções para separar nelas o joio do trigo. Da mesma forma, as tentativas que a principal vítima da dupla, o presidente Michel Temer, faz de desviar a atenção da República em pandarecos por causa do encontro secreto dele com o marchante no porão do Jaburu não justificam os desvios éticos que ele próprio cometeu no episódio e que não podem ser aceitos de ninguém, muito menos de alguém no exercício da Presidência da República.

Joesley age como se fosse um herói de capa e espada, alegando que sacrificou rotina, segurança e fortuna pessoal e teve a vida ameaçada para investigar e denunciar um caso escabroso envolvendo a maior autoridade do País. E por isso se trasveste de defensor da lei e da ordem. A coisa não é bem como ele propaga e o buraco fica bem mais embaixo. A delação premiada exime seu autor de parte das penas (no caso dele, todas) de um acusado, mas não torna automaticamente herói nenhum vilão – seja delatado, seja delator.

O Brasil é signatário dos três acordos internacionais de combate mundial aos corruptos e suas organizações criminosas: a convenção da Organização para Cooperação de Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 1997 (Lei 13.678, de 2000 – governo Fernando Henrique); o Tratado de Cooperação Interamericana Contra a Corrupção, de 1996 (Decreto 4.410, de 2003 – governo Lula); e a Convenção das Nações Unidas Contra a Corrupção, de 2003 (Decreto 5.687 de 2011 – governo Dilma Roussef).

Por causa desses acordos e convenções, o Brasil adotou o instatuto da delação premiada, incorporado à legislação americana nos anos 1970 e também à italiana, com a Operação Mãos Limpas, nos anos 1990. A delação premiada parte do pressuposto de que a colaboração de criminosos, trocada por atenuação ou mesmo anulação de penas, é a melhor, se não a única, forma de conseguir informações de apuração dificílima, quase impossível, pelos métodos convencionais. Para dissolver e eliminar o crime organizado, incluído o de corrupção, e para evitar a natureza depreciativa dos termos delator, delação, premiado e prêmio, usa-se o jargão colaboração com a Justiça, eufemismo que não exclui, contudo, a condição de delinquente do acusado que prestou informações capazes de facilitar o inquérito. Mas nem por isso deixa de ser definido como fora da lei.

Joesley, que obteve do Ministério Público Federal (MPF) a maior premiação dada no Brasil a um acusado de delitos penais graves, acha que R$ 10 bilhões pagariam o prejuízo que seus delitos deram à sociedade brasileira. E lamenta que poucos mencionem a multa de R$ 10,3 bilhões que a holding J&F aceitou pagar (a ser paga em 24 anos e carência de um), mercê do acordo de leniência com as autoridades fiscais brasileiras. Ele parte do pressuposto de que essa obrigação servirá para que as próximas gerações de brasileiros jamais se esqueçam da lição exemplar do que não se deve fazer. Ou seja, ele trata sua delação como didática, quase benemérita.  E somente isso lhe dá a certeza de que o tal acordo de leniência firmado por sua empresa com as autoridades federais pagará “com sobras” possíveis danos à sociedade brasileira. Quanta pretensão!

Não é bem assim. A mirabolante história de uma família de marchantes do interior de Goiás que se tornou proprietária de um conjunto de empresas que produzem e comercializam o maior volume de proteína animal do planeta precisa ser contada em detalhes. Ela não pode ser resumida nas vantagens obtidas na aprovação de leis que favoreçam seus interesses com a contrapartida de propinas milionárias pagas a altas autoridades dos três Poderes. É preciso, em primeiro lugar, relatar como foi possível adquirir essa fortuna a partir de empréstimos conseguidos, sabe-se lá como, graças à benemerência dos responsáveis pela gestão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) nos governos petistas de Lula e Dilma. Joesley teve o desplante de dizer que só manteve com os chefes dessas gestões o que ele chama de “conversas republicanas”, sem se dar sequer ao luxo de relatar o teor de tais contatos. Da mesma forma, trata o distinto público, que pagou com impostos o patrimônio bilionário que acumulou, como uma tropa de bestas quadradas, ao afirmar que só manteve com o presidente da instituição pública oficial conversas de interesse coletivo. Nessas audiências a coletividade entrou com o pagamento e ele, seus familiares e sócios ficaram com os lucros de negócios da China.

A indignação coletiva da sociedade brasileira pela exagerada premiação que ele recebeu para delatar o presidente da República, Michel Temer, também se mescla com episódios obscuros da negociação de seu acordo de “colaboração com a Justiça. A principal delas é o fato de só ter falado dos “indignitários” petistas de forma genérica e inconclusiva. Ele teria administrado contas em seu próprio nome, mas em benefício dos ex-presidentes Lula e Dilma, no valor de US$ 150 milhões, sem ter guardado nenhum documento que os relacionasse às tais contas. E os procuradores do gabinete do dr. Janot engoliram essa conversa fiada numa boa.

O procurador-geral ainda não deu uma explicação razoável sobre a transferência do subprocurador Marcelo Miller, seu ex-subordinado, para um escritório de advocacia que trabalhou para os Batistas na negociação para a delação. O próprio Miller também nada explicou.

Os irmãos Batista não são sequer questionados a respeito desse episódio, que nenhum brasileiro de posse de suas faculdades mentais aceita. O repórter Marcelo Godoy, do Estado, calculou pelos crimes,, sem o perdão, ele seria condenado a 2 mil anos de perda de liberdade.

Em relação tanto à gravação da conversa no Jaburu quanto à ação programada com a Polícia Federal, na qual foi filmada a entrega da mochila com R$ 500 mil ao assessor especial de Temer Rodrigo da Rocha Loures, não é aceitável que o fato de a delação incluir a mais alta autoridade da República compense o perdão de todas as penas ao delator. Essa pena não aplicada, aliás, não permite a Joesley bancar o mocinho da fita policial, já que os fatos que ele delatou não bastariam para tal perdão.

A realidade dos fatos e dos delitos mostra que, ao subverter o sistema eleitoral, como ele mesmo reconhece que fez, jogou o Brasil na mão dos políticos safados, e não nas mãos dos políticos honestos. Os ladrões se dispõem a ser corrompidos e a usar o dinheiro para comprar votos, enganar o eleitor e distorcer o processo eleitoral. E agora conspiram na Câmara para manter intactos os próprios pescoços. As balas perdidas e a situação da saúde decorrem – pelo menos em parte – da ação nefasta destes políticos mal-intencionados. O que Joesley fez custou vidas, além  da situação de penúria generalizada. Interferir ilicitamente no resultado de eleições não tem preço. Corromper o sistema político não é uma conta a ser debitada num cartão de crédito para ser quitada a perder de vista.

Joesley & Janot, com ajuda da mão esquerda do relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Edson Fachin, acham que o empresário quitou sua dívida com a sociedade ao gravar o presidente e fazer a delação, ajudando a tirar do poder a quadrilha que ele ajudou a eleger. Herói ele poderia ser se tivesse gravado uma conversa com Temer pedindo-lhe propina e ele se negando a dar, como fez com Aécio. Aí, sim, talvez pudesse posar de herói. Mas Joesley não é mesmo herói, e, sim,  um delator que escolheu denunciar o cúmplice quando não tinha mais alternativa. Com a coragem de quem pula da janela de um prédio em chamas sabendo que os bombeiros o esperam na calçada com rede.

Para concluir, é indispensável acrescentar que nada disso justifica a atitude de Temer, que, ao recebê-lo e conversar com ele nas condições em que conversou, permitiu que o episódio gerasse uma crise política das dimensões da que assola o Brasil hoje. Não há nesse filme noir só de vilões nenhum personagem que não seja simplesmente indefensável.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, na segunda-feira 24 de julho de 2017)

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Estadão às 5: A lei é dura

Estadão às 5: A lei é dura

O Estadão às 5, produzido no estúdio da TV Estadão, no centro da redação do jornal, comandado por Emanuel Bomfim e com comentários feitos por mim, foi retransmitido pelas redes sociais Youtube, Twitter, Facebook e Periscope Estadão, na terça-feira 18 de julho de 2017, a partir das 17 horas. Adriana Ferraz, editora do caderno Paladar, também participou da transmissão falando a respeito de comidas favoritas no clima frio, que prevaleceu no dia. Na ocasião, comentei os embargos apresentados à sentença pela qual o juiz federal Sérgio Moro, da Operação Lava Jato, condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e também as duras respostas do magistrado, que chegou comparar o episódio da ocultação de patrimônio pelo réu de um tríplex no Edifício Solaris, na Praia de Astúrias, no Guarujá, com a negativa feita pelo ex-deputado Eduardo Cunha de ser titular de contas bancárias na Suíça, nas quais foram depositadas propinas originadas de superfaturamento de obras contratadas pela Petrobrás.

Para ver o programa clique no link abaixo:

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Nêumanne no Roda Viva temático: “O peso da lei”

Nêumanne no Roda Viva temático: “O peso da lei”

Participei do Roda Viva temático sob o título de O peso da lei na TV Cultura de São Paulo, segunda-feira 17 de julho de 2017, às 22 horas, ncorado por Augusto Nunes. Nele constatei que o País vive uma crise gravíssima, da qual o lado mais trágico é representado pelos 14 milhões de desempregados, mas também a saída para este momento de angústia pode representar a redenção do Brasil de pecados históricos que estão sendo enfrentados pela Justiça. A economista-chefe da agência de investimentos XP, Zeina Letif, defendeu o primado da recuperação das contas públicas, que causam a crise que quebra empresários e desemprega empregados sobre as decisões judiciais e políticas. Mas a coordenadora do núcleo de combate à corrupção no Ministério Público de São Paulo, Thaméa Danelon deu prioridade à ação da Justiça contra a corrupção, contrariando posições do jornalista Reinaldo Azevedo, da BandNews e da Rede TV, que criticou duramente procuradores e juízes em atividade em devassas e inquéritos do momento.

Para ver a íntegra do programa, clique no link abaixo:

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