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No Blog do Nêumanne: Um país desgovernado

No Blog do Nêumanne: Um país desgovernado

Executivo desacreditado, Legislativo desmoralizado e Judiciário agindo como se fosse mesmo uma corte real se distanciam cada vez mais do povo, do qual só se servem, sem espírito público e com zero pudor

Não é de hoje que o Estado brasileiro atua exclusivamente para satisfazer ânsias de riqueza de seus mandatários e funcionários, a ponto de o verbo servir haver perdido todo o sentido ativo, passando a ter apenas o significado passivo para a casta privilegiada e a burocracia que se presta a trabalhar só para ela. Notícias recentes trazem a público indícios claros de que os Poderes da República, na ânsia de proteger seus privilégios corporativos, tomam o mando, em teoria do povo, para exercê-lo em função de uma classe social que se reproduz por via hereditária, como no ancien régime, por nomeação do chefe do Estado, por concurso público ou até pelo voto. Esta ruptura do mais pétreo dos preceitos constitucionais –  aquele segundo o qual todo o poder deve emanar do povo e em seu nome ser exercido – teve seu apanágio retórico no julgamento de habeas corpus impetrado por um condenado por crime comum. Nele o advogado de defesa, político profissional, Roberto Battochio elegeu como símbolo da justiça que pedia para seu representado, o ex-operário Luiz Lula, o discurso do nobre advogado do monarca Luís XVI, Guillaume-Chrétien de Lamoignon de Malesherbes (atenção para a duplicação da nobiliárquica preposição de), contra o “punitivismo” jacobino na Revolução Francesa.

Agora é muito provável que estejamos em pleno paroxismo dessa lenta e inexorável tomada de poder numa democracia que se perde pela aristocracia de estamento nesta República (de res publica, no latim, coisa pública) assaltada pelos interesses privados de uma classe cínica e insaciável, que não tem espírito cívico nem dá a mínima para a moral e os bons costumes. O presidente mais impopular da História, Michel Temer, protagonizou recentemente um dos episódios mais representativos, mas não o único, nesse sentido. Para resolver o impasse criado pela falta de rumo, autoridade e competência na gestão – o movimento organizado para defender os interesses exclusivos de caminhoneiros e empresas transportadoras –, o chefe do governo atropelou o bom senso e a lei, cedendo a tudo o que exigiam os amotinados. Com isso interrompeu a política de preços adotada para recuperar as finanças da Petrobrás, quase falida pelo furto de seus ativos nos desgovernos de seus ex-aliados Lula e Dilma, restabelecendo o tabelamento de seu correligionário José Sarney para o diesel e para o frete. Com a “bolsa caminhoneiro”, como definiu o Estado em primeira página na edição de domingo 17 de junho, o chefe do Executivo adotou uma medida ilegal, pois, conforme advertiu o Cade, em manchete na segunda-feira 18, violou o princípio da livre concorrência, marco basilar da economia de mercado, vigente no País. Ou não é mais?

O economista Edmar Bacha, em entrevista a este blog na semana passada, lembrou que Temer teve o juízo de montar “uma equipe econômica da melhor qualidade (que) opera com relativa autonomia, dentro dos estreitos limites da atual conjuntura”. Isso só “não funcionou porque o presidente perdeu todo o seu capital político com a revelação de suas tratativas pouco republicanas na calada na noite com o empresário Joesley Batista. A partir daí o governo teve de se dedicar a barrar o impeachment, incapaz de desenvolver uma agenda econômica positiva”, disse Bacha.

O episódio lembrado pelo criador do termo “Belíndia” para definir o Brasil como parte Bélgica e parte Índia é um dos marcos de fundação dessa aristocracia de cartéis. Estes vão do pacto entre políticos governistas e da oposição, grandes empresários, principalmente empreiteiros, e burocratas de estatais, em particular a Petrobrás, e autarquias, até o compromisso ilegal do presidente para interromper a recente pane seca e o consequente desabastecimento de derivados de petróleo e gêneros alimentícios. Um dos lemas dessa situação surreal em que o quinteto Temer, Padilha, Moreira, Marun e Etchegoyen meteu o País é a frase com que o primeiro recebeu o meliante do abate Joesley Batista na garagem do Jaburu (mais adequado seria chamar o palácio de Guabiru) na calada da noite: “Tem que manter isso, viu?” Apesar da desesperada tentativa dos asseclas palacianos de desqualificarem a gravação do palpite pra lá de infeliz, ela se perdeu por lembrar outro lema, que pode valer para essa classe de roedores do erário, da lavra do presidente do MDB temerário, Romero Jucá, ao correligionário que presidiu a BR Distribuidora (de derivados e propinas), Sérgio Machado: “Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria”.

A sangria ainda não foi estancada, apesar do esforço que tem sido feito pelos chefões políticos. Mas as eleições gerais de outubro que vem não são nada promissoras em relação à atuação do combate à corrupção na polícia e na Justiça. Nenhum presidenciável deu até agora sinal de que esteja fora desse pacto. Um deles, Geraldo Alckmin, cujo PSDB foi derrotado por Dilma e Temer em 2014 e hoje é parceiro do governo, teve o descaramento de dizer que este “padece de uma questão de legitimidade”, como se o chanceler Aloysio Nunes Ferreira não fosse tucano, como ele é.

As duas frases sobre as quais se sustenta a oligarquia dos cartéis nos levam, destarte, a introduzir nessa constatação da total deturpação do Estado de Direito em estágio de defeito o Poder Legislativo. Jucá, pernambucano de Roraima, onde faz praça e troça, é um bom exemplo da transformação do governo do povo em desgoverno dos polvos. Desde que o “caranguejo” Eduardo Cunha se assenhoreou do comando da produção de leis, o Congresso Nacional passou a servir apenas a “manter o que está aí” e, para isso, a procurar fórmulas legais para “estancar essa sangria”, aplicando um garrote vil contra a ação moralizadora de agentes, procuradores e juízes federais de primeira instância.

Essa tarefa mesquinha e traiçoeira contra o povo que deputados e senadores fingem representar começou a ser cumprida com a “lei da bengala” que mantém os compadritos (apud Jorge Luís Borges) nos tribunais superiores de Contas, Justiça e Supremo. Com a vigilância sobre propinas e caixa 2 na contabilidade das campanhas eleitorais, para garantir suas vagas e as de parentes e cumpinchas, os legisladores criaram o Fundo Eleitoral, que, segundo a Folha de S.Paulo, usando dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), representa 86,5% das receitas de seus partidos.

Duas notícias, publicadas lado a lado na primeira página do Estado de segunda-feira 18, complementam a anterior. Uma dá conta de que a eleição para o Senado este ano terá número recorde de candidatos – 70% – em busca de reeleição. Em entrevista a Fausto Macedo e Ricardo Galhardo, o ex-diretor da Polícia Federal Leandro Daiello informou que “há material para mais cinco anos de operações”. A reeleição de qualquer político que possa estar nesse “material” é uma ameaça à continuidade do combate à corrupção, sem o qual não há como o Brasil deixar de ser este trem descarrilado, cujo farol é a luz que se poderá ver saindo do túnel das urnas.

O pior de tudo é que a esperança que a sociedade passou a ter na ação das operações a que Daiello se referiu está nas mãos de quem mais as põe em risco. Os seguidores de Malesherbes, representados pelo quinteto Gilmar, Lewandowski, Toffoli e a dupla Mello, continuam a atuar como garantes não da igualdade dos cidadãos perante a lei, assegurada pela Constituição vigente, mas, sim, dos caprichos e “dodóis” dos clientes abonados das bancas que abrigam mulher, genro, amigos e antigos parceiros de convescotes e salamaleques.

Vitimados pelo desemprego, pela violência e por saúde e educação de péssima qualidade, os pobres, que nem sonham poder um dia exigir seus direitos no fechadíssimo clube da impunidade dos que são mais iguais perante a lei, pagam a conta do desgoverno do Executivo, da safadeza do Legislativo e do cômodo uso da definição de Corte para seu colegiado com os mesmos frufrus e minuetos das monarquias absolutistas. A proibição da condução coercitiva de delinquentes de colarinho-branco e a tentativa de garantir a honra de políticos desonrados proibindo fake news são exemplos recentes, mas não os únicos, de como os ministros de tribunais superiores participam, sem pudor, do golpe dos “aristo-ratos” que se locupletam como dantes nos cartéis de Abrantes.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 18 de junho de 2018)

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José Nêumanne, poesia traduzida: “Ancora il Ritorno”

José Nêumanne, poesia traduzida: “Ancora il Ritorno”

 

A Editora Oficina do Livro lançou na noite de quinta-feira 14 de junho de 2018 na Livraria Cultura do Shopping Center Iguatemi de São Paulo a antologia bilíngue em português e italiano Encontro Literário em Milão, organizada por Sílvia Securato. Dela faz parte o poema “A Volta de Novo”, de José Nêumanne Pinto, vertido para “Ancora il Ritorno”.

 


O poema em português


A volta de novo

“Voltar é uma forma de renascer. Ninguém se perde na volta”
(José Américo de Almeida, Antes que me esqueça, A Bagaceira)

No caminho da volta,
o amante pródigo
não se perde: renasce.
As flores da estrada
ganham viço
e uma fragrância nova,
um cheiro macio de perdão,
que se torna espera,
e de espera,
que vira celebração,
um perfume antigo
e fresco,
que lembra limão.

Em Ítaca, Penélope cose
toalhas para o banquete,
fronhas para o bom sono
e os lençóis da conciliação.
Não há ressentimentos
nem orgulho inútil
na fidelidade discreta
desse gesto familiar..
Um xale lhe cobre os ombros
e os dedos macios
puxam a corda da lira
fazendo-a vibrar
em canções de amor
e gestas de esperança
de paciência nada vã.

Volta bem
quem viajou leve:
cabelos à brisa do mar
e as mãos na cintura,
com braços por enlaçar
algum torso feito tronco,
um barco a navegar,
um berço de ninar,
um bote pra salvar.

Volta inda melhor
quem sempre o faz
por um bule de café,
um parco naco de pão
e uma sutil ilusão
de quem só navega
para o eterno retorno,
sempre em busca
da paixão imóvel,
que não muda nem cala,
despedaçado o coração,
só pra depois o colar
caco a caco,
taco a taco,
toco a toco.

Assim são
os caminhos da volta:
sem medo e sem peso,
sem mágoa e sem rota.
Pois na volta
ninguém se perde.
Na volta
ninguém só pede.
E na volta
só se abre mão
da solidão.


A versão em italiano:


Ancora il Ritorno

Ritornare è una forma di rinascere. Nessuno si perde nel ritorno
(José Américo de Almeida, Antes que me esqueça, A Bagaceira)

Sulla strada del ritorno,
il prodigo amante
non si perde: rinasce.
I fiori della strada
guadagnano rigogliosità
e una fragranza nuova,
un morbido profumo di perdono,
che diventa attesa,
e da attesa,
che diventa celebrazione,
un profumo antico
e fresco,
che ricorda il limone.

A Itaca, Penelope cuce
tovaglie per il banchetto,
federe per il buon sonno
e le lenzuola della conciliazione.
Non ci sono risentimenti
ne inutile orgoglio
nella discreta fedeltà
di questo gesto famigliare…

Uno scialle le copre le spalle
e le morbide dita
tirano la corda della lira
facendola vibrare
in canzoni d’amore
e gesta di speranza
di per nulla vana pazienza.

Ben ritorna
chi ha viaggiato leggero:
capelli alla brezza del mare
e le mani sui fianchi,
con braccia da incrociare
qualche dorso come un tronco
una nave a navigare,
una culla a cullare,
una barca da salvare.

Ritorna ancora meglio
chi lo fa sempre
per una teiera di caffè,
un umile tozzo di pane
e una sottile illusione
di chi naviga soltanto
verso l’eterno ritorno,
sempre alla ricerca
d’immobile passione,
che non cambia né tace,
il cuore lacerato,
da incollare poi,
pezzo per pezzo,
bastone per bastone,
tocco per tocco.

Così sono
i cammini del ritorno:
senza paura e senza peso,
senza delusione e senza rotta.
Poiché nel ritorno
nessuno si perde.
Nel ritorno
nessuno chiede soltanto.
E nel ritorno
si rinuncia soltanto
alla solitudine.


Biografia do poeta em italiano:

José Nêumanne Pinto, giornalista, poeta e scrittore, è nato a Uiraúna, nell’entroterra del Paraíba, nel 1951. È stato reporter speciale del giornale Folha de S.Paulo; capo redazione del Jornal do Brasil; editore di politica del O Estado de S.Paulo e capo degli editorialisti del Jornal da Tarde. È editorialista e articolista del O Estado de S.Paulo, oltre a commentatore quotidiano presso la Rádio Estadão, di São Paulo, e nel Jornal da Gazeta (Direto ao assunto). Ha vinto il Prêmio Esso de Informação Econômica (con Maria Inês Caravaggi, Perfil do operário brasileiro hoje, Jornal do Brasil), il Troféu Imprensa de Reportagem Esportiva (con Paulo Mattiussi, Eder Jofre e o boxe brasileiro), entrambi nel 1976, e il premio Senador José Ermírio de Moraes, dell’Academia Brasileira de Letras, nel 2005, al migliore libro del 2004, il romanzo O silêncio do delator. Ha pubblicato undici libri: tre romanzi, tre di poesia e quattro di profili, reportage, articoli e saggi giornalistici. Il più recente, O que sei de Lula, ha avuto grande successo di critica e pubblico. Ha pubblicato anche il CD As Fugas do Sol (CPC-Umes), nel quale legge i propri poemi con la colonna sonora composta e interpretata dal maestro Marcus Vinicius de Andrade.

O poeta José Nêumanne Pinto com a editora e organizadora Sílvia Bruno Securato na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, em São Paulo

O poeta José Nêumanne Pinto com a editora e organizadora Sílvia Bruno Securato na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, em São Paulo

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No Blog: Nêumanne entrevista Edmar Lisboa Bacha

No Blog: Nêumanne entrevista Edmar Lisboa Bacha

Remédio para crise: voto consciente em outubro,

receita criador da Belíndia

Contra saudosos da ditadura e devotos do “gasto é vida” de Dilma, Bacha lamenta acefalia do atual governo e espera com ansiedade resultado das urnas em outubro

“Voto consciente em outubro deste ano.” Com essa frase curta, escorreita e lógica o economista Edmar Bacha, um dos autores do Plano Real, a maior revolução social da História do Brasil, resume a chave para a economia brasileira sobreviver à crise atual e voltar a crescer. O presidente Michel Temer teve, segundo ele, o juízo de montar “uma equipe econômica da melhor qualidade (que) opera com relativa autonomia, dentro dos estreitos limites da atual conjuntura”. Bacha acha que isso só “não funcionou porque o presidente perdeu todo o seu capital político com a revelação de suas tratativas pouco republicanas na calada na noite com o empresário Joesley Batista … A partir daí o governo teve de se dedicar a barrar o impeachment, incapaz de desenvolver uma agenda econômica positiva”.

Edmar Lisboa Bacha nasceu em Lambari, MG. Casado com Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti, reside no Rio de Janeiro desde 1979. Formou-se em economia pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, em 1963. É um dos primeiros economistas brasileiros com doutorado no exterior, pela Universidade de Yale, em 1968. Em 1974, durante a ditadura militar, publicou uma fábula sobre o reino de Belíndia, junção de Bélgica com Índia, que se tornou desde então uma recorrente imagem do Brasil. Integrou a equipe econômica que dominou a hiperinflação, com o Plano Real. Foi também presidente do BNDES e do IBGE e professor em diversas universidades brasileiras e americanas. Foi consultor sênior do Banco Itaú BBA e presidente da Associação Nacional de Bancos de Investimento (Anbid, atual Anbima). Autor de 12 livros, é organizador de outros 18 sobre temas econômicos, políticos e sociais do Brasil, da América Latina e internacionais. Seu último livro autoral é Belíndia 2.0: Fábulas e Ensaios sobre o País dos Contrastes  (Civilização Brasileira, 2012). O último livro que organizou é A Crise Fiscal e Monetária Brasileira (Civilização Brasileira, 2016). Ambos foram agraciados com o Prêmio Jabuti. Publicou também cerca de 200 artigos em periódicos especializados, cerca de 100 artigos em órgãos da imprensa e concedeu cerca de 250 entrevistas a jornais e revistas brasileiros e internacionais. É sócio fundador e diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças no Rio de Janeiro, e membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Ciências.

Para Bacha, Temer montou equipe econômica de maior qualidade, mas perdeu capital político lutando contra impeachment Foto: Tasso Marcelo/AE

Para Bacha, Temer montou equipe econômica de maior qualidade, mas perdeu capital político lutando contra impeachment Foto: Tasso Marcelo/AE

A seguir Nêumanne entrevista Edmar Bacha:

JNP – O senhor cunhou uma metáfora perfeita para o Brasil: a Belíndia, parte Bélgica, parte Índia. Essa definição continua valendo em nossos tempos? O que mudou basicamente de lá para cá?

EB – O Rei de Belíndia é uma fábula que publiquei no jornal Opinião em agosto de 1974, no auge da ditadura militar. Era uma crítica aos efeitos negativos sobre a distribuição de renda da política econômica daqueles tempos

De lá para cá, houve avanços. O principal avanço foi o fim da ditadura militar e o retorno da democracia. Depois, o fim da hiperinflação e a instituição do tripé da política econômica: superávit primário nas contas públicas, câmbio flutuante e política de metas de inflação. E então, políticas buscando uma melhor distribuição de renda, como a valorização do salário mínimo e o Bolsa Família.

Em compensação, houve atrasos. A economia antes crescia a taxas elevadas, mas entrou num regime de semiestagnação a partir de 1980. Ficamos presos na armadilha da renda média. Além disso, apesar de arremedos de abertura e de privatização nos anos 1990, continuamos sendo uma das economias mais fechadas do mundo e com um alto grau de intervenção estatal na economia. Daí Mário Henrique Simonsen, a propósito dos exageros da Constituição de 1988, ter proposto para o País a alcunha de Banglabânia, um país que associava a pobreza de Bangladesh  ao fechamento econômico da Albânia.

Outro atraso é que os impostos aumentaram muito (de 25% para 35% do PIB), mas os serviços públicos continuaram miseráveis. Razão por que Delfim Neto propôs chamar o país de Ingana: impostos da Inglaterra, serviços públicos de Gana.

Infelizmente, agora tem mais, com o desvendamento da corrupção endêmica do sistema político-empresarial e da violência sem controle nas ruas. Viramos uma Rusmala, com níveis de corrupção da Rússia e a violência da Guatemala.

N – O senhor é um dos artífices do que eu, particularmente, considero a maior revolução social da História do Brasil: o Plano Real. O que reuniu e inspirou aquela equipe escolhida por Fernando Henrique Cardoso? O que permitiu o sucesso imediato e até inesperado no Brasil daquele ovo de Colombo?

 B – É uma longa história, que começa no final da década de 1970 com a constituição do mestrado em Economia da PUC-Rio. Ali se reuniu um grupo excepcional de jovens economistas, todos com doutorado no exterior e preocupados com as grandes questões econômicas do Brasil de então, especialmente a hiperinflação. Diversas formulações novas daí resultaram, tanto de interpretação do fenômeno hiperinflacionário como de formas de combatê-lo.

O Plano Cruzado foi uma primeira tentativa de estabilização de que alguns desses economistas participamos. Éramos muito jovens e jejunos em questões de política, enfrentando nossa primeira experiência de administração pública e sem poder efetivo de decisão. Não deu certo.

Passaram-se muitos anos e outros planos frustrados de estabilização. Deles ficaram mais lições sobre o que não fazer.

A ida de Fernando Henrique Cardoso (de quem muitos de nós éramos amigos de longa data) para o Ministério da Fazenda, em 1993, com amplos poderes para executar um novo plano de estabilização, deu-nos uma segunda oportunidade de aplicar não só nossas hipóteses teóricas, mas também os conhecimentos que adquirimos com os insucessos anteriores. Dessa vez funcionou.

Em 1994, Bacha com equipe do Plano Real, que chegou ao sucesso como resultado do aprendizado de várias tentativas e erros. Foto: Acervo pessoal

Em 1994, Bacha com equipe do Plano Real, que chegou ao sucesso como resultado do aprendizado de várias tentativas e erros. Foto: Acervo pessoal

N – Que circunstâncias políticas, econômicas, financeiras e até históricas impediram que aquela estrutura tão sólida montada sobre moeda estável, inflação controlada, liberdade cambial e austeridade fiscal sobrevivesse ao segundo governo Fernando Henrique e afundasse no populismo amoral do segundo governo Lula, depois do sopro da brisa da Carta aos Brasileiros, da autoria de Antônio Palocci, hoje preso, condenado na Justiça por corrupção e lavagem de dinheiro?

B – Os economistas temos uma expressão – o efeito voracidade – para caracterizar o impacto político negativo de uma bonança de recursos naturais em países com instituições fracas. Também há outra expressão que é pertinente: a maldição dos recursos naturais, creio que inventada para tentar explicar como a Venezuela, tão rica de petróleo, se tornou a desgraça que hoje é.

No período de 2003 a 2008, na frase do economista americano Kenneth Rogoff, o mundo experimentou  “o mais longo, o mais forte e o mais amplamente disseminado ciclo de expansão da época moderna”. O Brasil foi particularmente beneficiado por essa bonança: alta dos preços de nossas exportações, entrada maciça de capitais estrangeiros, descoberta do pré-sal. A consequência foi que, parodiando a frase já histórica da semana passada do ex-governador Sérgio Cabral, Lula não soube se conter diante de tanto poder. Até que foi parado pela Lava Jato.

N – Algum dos pilares da política de estabilidade e controle fiscal sobreviveu ao segundo governo Lula e aos dois mandatos de Dilma Rousseff? Quais foram? E que causas permitiram que isso ocorresse?

B – Tentar derrubar esses pilares, bem que Dilma tentou, com a tal de “nova matriz macroeconômica”, apenas um novo nome para o velho populismo econômico. Mas quando a inflação subiu ficou claro, até mesmo para o PT, que isso os levaria a um desastre eleitoral. Esse foi outro legado do Plano Real: mostrar que a estabilização vence eleições e que a inflação derrota aqueles que estão no poder.  Tentaram dar uma guinada de 90 graus com a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, mas logo ficou claro que uma andorinha só não faz verão. Deu no que deu.

Em 2009, Bacha com Fernando Henrique em lançamento do livro do ex-chefe, colega acadêmico e amigo de longa data. Foto: Paulo Giandalia/AE

Em 2009, Bacha com Fernando Henrique em lançamento do livro do ex-chefe, colega acadêmico e amigo de longa data. Foto: Paulo Giandalia/AE

N – O senhor esperava ou se surpreendeu com os ataques feitos ao edifício da força-tarefa do Plano Real pela conjunção de doenças antigas da ordem econômica no Brasil: gastos desenfreados do Estado estroina, uso político das estatais, em especial a política de preços da Petrobrás, crescimento exponencial da burocracia do Estado e uso abusivo do orçamento público, sobre o qual Tancredo Neves já advertia, na pré-história do sucesso do primado do respeito ao valor da moeda, com seu “é proibido gastar”?

B – O período de consolidação do Plano Real incluiu a aprovação da Lei da Responsabilidade Fiscal e a instituição do tripé da política econômica já mencionado. Na Carta aos Brasileiros Lula se comprometeu a seguir essas regras e, de fato, o fez no início de seu primeiro mandato. Sobrevieram a crise do mensalão e a queda de Palocci. Internacionalmente, com a ascensão da China e o auge das commodities o País passou a desfrutar um céu de brigadeiro. Foi nessas circunstâncias que se deu a guinada de Lula da responsabilidade fiscal para o social-desenvolvimentismo, de uma forma então bem expressa pela então chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff: “Gasto é vida”.

Enquanto durou a bonança externa, parecia tudo bem. Mas o cenário internacional se agravou a partir da crise financeira de 2008-2009. Manteve-se, não obstante, o curso da mesma política, com a adição de controles de preços e do câmbio. Quando houve uma tentativa de ajuste, a partir da reeleição de Dilma, era tarde demais: a consequência foi a mais longa e a segunda mais profunda recessão econômica de nossa História.

Bacha com a mulher, Maria Laura, e o filho Carlos comemorando o Jabuti de 2013 pelo livro O Rei de Belíndia. Foto: Acervo pessoal

Bacha com a mulher, Maria Laura, e o filho Carlos comemorando o Jabuti de 2013 pelo livro O Rei de Belíndia. Foto: Acervo pessoal

N – Até que ponto a roubalheira desencadeada pela volúpia do PT em se lambuzar do mel que nunca havia provado, auxiliado por cúmplices da velhíssima política patrimonialista e pela tibieza da oposição da soit-disant social-democracia do PSDB, corroeu a solidez do edifício do tripé moeda forte, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante? O senhor diria que o mal da corrupção institucionalizada já afastou para um horizonte muito mais longínquo sonhos que voltaram a ser nutridos depois do sucesso do Real?

B – Estranhamente, mesmo um Executivo impopular como o atual, comprometido pela Lava Jato e sobrevivendo na base do toma cá, dá lá, com um Congresso corrompido, tem consciência da importância política de procurar manter íntegro o tripé da política econômica. Uma equipe econômica da melhor qualidade opera com relativa autonomia, dentro dos estreitos limites da atual conjuntura. É um bom sinal para o futuro. O que preocupa é a situação fiscal, que se agravou sobremaneira e cujo enfrentamento exige medidas duras, particularmente no que se refere à reforma da Previdência. Não é para este governo. Vamos ver o que acontece a partir das eleições de outubro.

N – Para deter os efeitos letais do populismo que levou aos 24 milhões de desempregados e desiludidos, Temer, ao substituir Dilma depois do impeachment, tentou uma fórmula mágica da convivência da histórica política da rapina do MDB de sempre com o neoliberalismo do time dos sonhos da economia liderado por Meirelles, Mansueto, Goldfajn, Parente e outros. O senhor diria que não funcionou porque são água e óleo e não se misturam ou pela ligação atávica do presidente com seus antigos aliados?

B – Não funcionou porque o presidente perdeu todo seu capital político com a revelação de suas tratativas pouco republicanas na calada na noite com o empresário Joesley Batista, no Palácio Jaburu, em março de 2017. A partir daí o governo teve de se dedicar a barrar o impeachment, incapaz de desenvolver uma agenda econômica positiva.

N – O sonho (eu diria até delírio) eleitoral de Meirelles, ao sair do governo para disputar a eleição, ajudou a aprofundar a perda de autoridade do governo central depois do lamentável episódio do movimento dos transportadores, que me parece ter desmontado qualquer tentativa de salvar algo daquilo que Temer chamava de seu legado?

B – Parece-me que Eduardo Guardia está mais do que capacitado para dar conta do recado no Ministério da Fazenda, contando com a ajuda de Ilan Goldfajn na presidência do Banco Central. O problema não é esse. É, por um lado, a acefalia política do atual governo. Por outro, a incerteza sobre o que as urnas nos reservam em outubro deste ano.

Em 2017, Bacha entra na Academia Brasileira de Letras para tomar posse na cadeira 40, cujo patrono é o Visconde do Rio Branco . Foto: Guito Moreto/O Globo

Em 2017, Bacha entra na Academia Brasileira de Letras para tomar posse na cadeira 40, cujo patrono é o Visconde do Rio Branco . Foto: Guito Moreto/O Globo

N – Que conselhos sua experiência profissional e sua sensibilidade acadêmica teriam a dar ao País para evitar que aquilo que antes se pensava ser a luz no fim do túnel seja apenas o farol de um trem descarrilado?

B – Voto consciente em outubro deste ano.

N – Espera-se que o resultado da eleição de outubro/novembro resolva de vez a tragédia da Previdência falida, das contas públicas destrambelhadas e de um país afundado na tragédia da violência, da ineficácia da educação, da perda de sentido das palavras saúde e pública pronunciadas em conjunto de candidatos a presidente sem projeto, de um Congresso suspeito e de uma Justiça dividida entre o combate à corrupção na primeira instância e tribunais que se põem a serviço das elites corrompidas desde sempre. Que saídas o senhor vê para esse impasse?

B – Não creio que tecnicamente haja grandes dúvidas. Há consciência da gravidade do desequilíbrio das contas públicas e dos remédios amargos que precisam ser aplicados para deter a expansão da dívida pública sem sacrifício da política social. Há também razoável consenso técnico de que somente recuperaremos a capacidade de crescer com amplas reformas: tributária, educacional e de abertura ao comércio internacional. Nada disso vai acontecer sem lideranças políticas esclarecidas. E estas só podem sair das urnas. Tomara que saiam.

(Publicada no Blog do Nêumanne quarta-feira 13 de junho de 2018)

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Nêumanne entrevista Edmar Lisboa Bacha: 9a. entrevista da Série 10 Perguntas.

Nêumanne entrevista Edmar Lisboa Bacha: 9a. entrevista da Série 10 Perguntas.

No Blog do Nêumanne: Paradoxos de um país surreal

No Blog do Nêumanne: Paradoxos de um país surreal

Mesmo isolado na cadeia, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, Lula lidera pesquisas para presidente beneficiando-se dos sucessores que impôs ao PT e ao País: tatibitate Dilma e desastrado Temer

Os resultados da última pesquisa Datafolha, publicada domingo pela Folha de S.Paulo, não podem ser considerados definitivos para prenunciar a apuração da eleição de daqui a quatro meses porque representam um retrato atual, como sempre, nunca uma profecia exata. E também porque revelam agora uma decisão que muitos cidadãos ainda estão por tomar. Configuram, contudo, e ao que parece de forma cristalizada, tendências que dificilmente mudarão, pois refletem uma situação antiga, crônica, lógica e irrefutável.

Os 30% de preferência pelo soit-disant presidenciável do Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva, impressionam por dois motivos. Antes de tudo, porque ele foi condenado em segunda instância pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, em Porto Alegre, a 12 anos e 1 mês por corrupção e lavagem de dinheiro. E é inelegível. Em segundo lugar, por cumprir pena em Curitiba e, portanto, não ser disponível para participar de comícios, carreatas e até, conforme presume quem tem bom senso, gravar pronunciamentos para a propaganda nada gratuita no rádio e na televisão. O comportamento inusitado da Justiça, permitindo-lhe um dia a dia não vivido por outro preso comum – e ele é apenas mais um –, pode pôr em questão a segunda afirmativa. Mas, por enquanto, prever a continuação dessa anomalia, vencidos os prazos legais para o registro de candidaturas, não é realista.

A fidelidade de quase um terço do eleitorado brasileiro ao carisma do mais popular líder político e mais famoso presidiário do País, a esta altura do campeonato, confirma uma evidência e nega uma lenda urbana. O primeiro lugar no ranking atesta que a emoção é decisiva no ato de digitar o número do pretendente na máquina de votar. E o petista é, disparado, o único dos que se apresentaram à liça a despertar a paixão do cidadão, seja por afeto, seja por repulsa. Mas também, por paradoxal que pareça, o voto em quaisquer nível social e escolaridade é decidido pelo estômago e pelo bolso.

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, perdeste o senso”, resmungará o leitor aflito, citando o repetido verso de Olavo Bilac. Afinal, além de condenado, Lula responde na Justiça a mais seis processos criminais, que, juntos, o desmascaram na chefia de uma organização criminosa que levou a Petrobrás à falência, quebrou as contas públicas, esfolou a economia a ponto de gerar 24 milhões de desempregados e desiludidos, conforme o confiável IBGE, e indicou os dois presidentes mais desastrados e, por isso mesmo, mais impopulares da História: a companheira petista Dilma Rousseff e o cúmplice Michel Temer, do PMDB. Sem Temer, Dilma não teria sido eleita. Sem os votos do PT, Temer não seria presidente.

É aí que entra neste raciocínio a negação de que o brasileiro não tem memória, uma lenda antiga e frágil. Os apressadinhos, que, conforme ensinava vovó, comem cru ou sapecado, arguirão que, ao desprezarem os dados da realidade que fazem de Lula um réprobo, e não os quindins de iaiá, os brasileiros que vegetam abaixo da linha da pobreza não têm memória mesmo e ponto final. Alto lá! História é uma coisa, memória é outra. A História é objetiva, relata fatos indesmentíveis, questiona mitos aparentemente indestrutíveis. A memória é subjetiva. Cada um tem a sua. A lembrança dos fatos ao redor é sempre imprecisa e traiçoeira. A recordação dos benefícios pessoais é permanente. Os que asseguram que votarão em Lula têm a memória gostosa dos tempos de ouro do crédito fácil e do acesso à proteína barata sobre a mesa da família.

A História revela que a inflação acabou, o poder de compra da moeda permitiu o acesso das famílias pobres ao consumo inatingível, por obra e graça do Plano Real, do câmbio flutuante e da Lei de Responsabilidade Fiscal, sob a égide do tucano Fernando Henrique. Mas a memória ressuscita o crédito farto e fácil e é isso que segura Lula no topo das pesquisas.

Detratores de institutos de opinião poderão até constatar que os índices recentes não se confirmarão. Mas dificilmente as tendências serão desmentidas. A principal delas é a novidade que ameaça surgir do panorama visto da pinguela sobre a fossa: a disseminação generalizada de que político nenhum presta mesmo e, então, o melhor é escolher um entre tantos condenados que no passado mais recente lhes “encheram o bucho”, como se diz em meu Nordeste de origem, região tida como baluarte lulista. Sabe o “rouba, mas faz”? Pois…

Em 2013, a população foi à rua protestar contra tudo e no ano seguinte reelegeu Dilma e Temer, dois precipícios para a tragédia. Em 2016 o eleitor surrou o PT porque a Lava Jato levou o partido aos tribunais e às prisões. Presos em Curitiba estão todos os chefões petistas: o próprio Lula, Zé Dirceu e Palocci. E, pior de tudo, três ex-tesoureiros – Delúbio, Vaccari e Paulo Ferreira – tiveram o mesmo destino. Há quem lembre diante desse fato que a organização criminosa, vulgo quadrilha, se afigura na forma da lei com a reunião de mais de quatro membros. Ou seja…

Em 2014 o PSDB fez de Aécio Neves a esperança anti-PT para pelo menos metade da sociedade, que não cai na lábia do profeta de Vila Euclides. O neto de Tancredo Neves, ilusão da Nova República abatida pela septicemia, contudo, protagonizou a maior frustração política da nossa História. Denunciado por um suspeito de ter enriquecido pelo compadrio de Lula e asseclas, gravado anunciando a morte do primo, caso este o delatasse, o mineiro poderia ter passado em branco pela inutilidade que protagonizou em seu mandato de senador pelo Estado mais habilidoso do Brasil. Mas fez muito pior, ao mostrar que seu adversário-mor comprou até a oposição fajuta em que ele mandava.

Lula nem precisará candidatar-se para encarnar o paradoxo deste país surreal, que mantém sob sequestro em sua cela de preso comum: beneficia-se por ter escolhido sucessores que quebraram o Brasil e pagou à oposição para anulá-la.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na página 2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 13 de junho de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/paradoxos-de-um-pais-surreal/

No Estadão desta quarta-feira: País sequestrado por um condenado preso

No Estadão desta quarta-feira: País sequestrado por um condenado preso

Lula lidera pesquisas porque escolheu sucessores ineptos e desmoralizou oposição

Os resultados da última pesquisa Datafolha, publicada domingo pela Folha de S.Paulo, não podem ser considerados definitivos para prenunciar a apuração da eleição de daqui a quatro meses porque representam um retrato atual, como sempre, nunca uma profecia exata. E também porque revelam agora uma decisão que muitos cidadãos ainda estão por tomar. Configuram, contudo, e ao que parece de forma cristalizada, tendências que dificilmente mudarão, pois refletem uma situação antiga, crônica, lógica e irrefutável.

Os 30% de preferência pelo soit-disant presidenciável do Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva, impressionam por dois motivos. Antes de tudo, porque ele foi condenado em segunda instância pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, em Porto Alegre, a 12 anos e 1 mês por corrupção e lavagem de dinheiro. E é inelegível. Em segundo lugar, por cumprir pena em Curitiba e, portanto, não ser disponível para participar de comícios, carreatas e até, conforme presume quem tem bom senso, gravar pronunciamentos para a propaganda nada gratuita no rádio e na televisão. O comportamento inusitado da Justiça, permitindo-lhe um dia a dia não vivido por outro preso comum – e ele é apenas mais um –, pode pôr em questão a segunda afirmativa. Mas, por enquanto, prever a continuação dessa anomalia, vencidos os prazos legais para o registro de candidaturas, não é realista.

A fidelidade de quase um terço do eleitorado brasileiro ao carisma do mais popular líder político e mais famoso presidiário do País, a esta altura do campeonato, confirma uma evidência e nega uma lenda urbana. O primeiro lugar no ranking atesta que a emoção é decisiva no ato de digitar o número do pretendente na máquina de votar. E o petista é, disparado, o único dos que se apresentaram à liça a despertar a paixão do cidadão, seja por afeto, seja por repulsa. Mas também, por paradoxal que pareça, o voto em quaisquer nível social e escolaridade é decidido pelo estômago e pelo bolso.

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, perdeste o senso”, resmungará o leitor aflito, citando o repetido verso de Olavo Bilac. Afinal, além de condenado, Lula responde na Justiça a mais seis processos criminais, que, juntos, o desmascaram na chefia de uma organização criminosa que levou a Petrobrás à falência, quebrou as contas públicas, esfolou a economia a ponto de gerar 24 milhões de desempregados e desiludidos, conforme o confiável IBGE, e indicou os dois presidentes mais desastrados e, por isso mesmo, mais impopulares da História: a companheira petista Dilma Rousseff e o cúmplice Michel Temer, do PMDB. Sem Temer, Dilma não teria sido eleita. Sem os votos do PT, Temer não seria presidente.

É aí que entra neste raciocínio a negação de que o brasileiro não tem memória, uma lenda antiga e frágil. Os apressadinhos, que, conforme ensinava vovó, comem cru ou sapecado, arguirão que, ao desprezarem os dados da realidade que fazem de Lula um réprobo, e não os quindins de iaiá, os brasileiros que vegetam abaixo da linha da pobreza não têm memória mesmo e ponto final. Alto lá! História é uma coisa, memória é outra. A História é objetiva, relata fatos indesmentíveis, questiona mitos aparentemente indestrutíveis. A memória é subjetiva. Cada um tem a sua. A lembrança dos fatos ao redor é sempre imprecisa e traiçoeira. A recordação dos benefícios pessoais é permanente. Os que asseguram que votarão em Lula têm a memória gostosa dos tempos de ouro do crédito fácil e do acesso à proteína barata sobre a mesa da família.

A História revela que a inflação acabou, o poder de compra da moeda permitiu o acesso das famílias pobres ao consumo inatingível, por obra e graça do Plano Real, do câmbio flutuante e da Lei de Responsabilidade Fiscal, sob a égide do tucano Fernando Henrique. Mas a memória ressuscita o crédito farto e fácil e é isso que segura Lula no topo das pesquisas.

Detratores de institutos de opinião poderão até constatar que os índices recentes não se confirmarão. Mas dificilmente as tendências serão desmentidas. A principal delas é a novidade que ameaça surgir do panorama visto da pinguela sobre a fossa: a disseminação generalizada de que político nenhum presta mesmo e, então, o melhor é escolher um entre tantos condenados que no passado mais recente lhes “encheram o bucho”, como se diz em meu Nordeste de origem, região tida como baluarte lulista. Sabe o “rouba, mas faz”? Pois…

Em 2013, a população foi à rua protestar contra tudo e no ano seguinte reelegeu Dilma e Temer, dois precipícios para a tragédia. Em 2016 o eleitor surrou o PT porque a Lava Jato levou o partido aos tribunais e às prisões. Presos em Curitiba estão todos os chefões petistas: o próprio Lula, Zé Dirceu e Palocci. E, pior de tudo, três ex-tesoureiros – Delúbio, Vaccari e Paulo Ferreira – tiveram o mesmo destino. Há quem lembre diante desse fato que a organização criminosa, vulgo quadrilha, se afigura na forma da lei com a reunião de mais de quatro membros. Ou seja…

Em 2014 o PSDB fez de Aécio Neves a esperança anti-PT para pelo menos metade da sociedade, que não cai na lábia do profeta de Vila Euclides. O neto de Tancredo Neves, ilusão da Nova República abatida pela septicemia, contudo, protagonizou a maior frustração política da nossa História. Denunciado por um suspeito de ter enriquecido pelo compadrio de Lula e asseclas, gravado anunciando a morte do primo, caso este o delatasse, o mineiro poderia ter passado em branco pela inutilidade que protagonizou em seu mandato de senador pelo Estado mais habilidoso do Brasil. Mas fez muito pior, ao mostrar que seu adversário-mor comprou até a oposição fajuta em que ele mandava.

Lula nem precisará candidatar-se para encarnar o paradoxo deste país surreal, que mantém sob sequestro em sua cela de preso comum: beneficia-se por ter escolhido sucessores que quebraram o Brasil e pagou à oposição para anulá-la.

*José Nêumanne – Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na página 2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 13 de junho de 2018)

No Blog do Nêumanne: Suprema platitude federal

No Blog do Nêumanne: Suprema platitude federal

Como não se conseguem entender entre eles mesmos, ministros do STF tecem loas acacianas à democracia, mas um deles confessa que só não ama o povo para não ter de imitar Hitler

Atualíssima é a frase urdida pelo gênio político do pessedista maranhense Vitorino Freire nos idos sob a égide da Constituição mais liberal que o Brasil teve, a de 1946: “É tão grave a crise que vaca não reconhece bezerro”. A de hoje é pior: ficou difícil até distinguir vaca de bezerro, tão confuso se tornou o cenário institucional brasileiro. O presidente Michel Temer mandou as fantasias reformistas para as calendas que as prorroguem ou para os infernos que as carreguem. Fê-lo porque o Congresso também assumiu o Poder Executivo para livrar o chefe deste de duas incômodas investigações pedidas pelo amaldiçoado ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot, não reconduzido ao posto, para se afastar do céu seco do Planalto a sombra de sua espada de Dâmocles enferrujada.

Na recente revolta dos carreteiros, o País parou, os preços de gás de cozinha e da gasolina subiram a bel-prazer dos transportadores de cargas, que bloquearam as rodovias e provocaram pane seca e desabastecimento geral de gêneros alimentícios de primeira necessidade. As batatas sumiram até da mesa dos vencedores, contrariando a lei da tribo imaginada por Machado de Assis, o gênio do Cosme Velho. Após ter mandado as Forças Armadas prenderem os rebelados do asfalto e não ter sido obedecido, decretado prisões que a Polícia Federal (PF) fingiu que não tinha de cumprir e lavrado multas que só serão cobradas quando o País construir o trem bala de submetralhadoras roubadas de quartel ou contrabandeadas por traficantes, o chefe do governo instituiu a “polipartilha” do poder, na qual caminhoneiros mandam, o Congresso ouve porque tem juízo, o Executivo obedece porque não pode mais e o Judiciário cala ou emite platitudes aos borbotões por meras vaidade e insensatez. Antes, falava-se em democracia, governo do povo, e agora chegamos à “dialogocracia” repetida, na qual o ex-futuro chefe e futuro ex-chefe na mesma pessoa fixa uma tabela de frete, anunciada como a mais nova “lei do antimercado” negociada, até que esta seja renegada pelos mais antigos mandamentos do mercado de pulgas da reinante insensatez ruminante.

Os pronunciamentos de brinquedo de papel machê foram economizados ou repetidos de acordo com a conveniência. Durante a crise na estrada, o dra. Cármen Lúcia, chefe suprema da Corte em que a Justiça não tem dois pesos e duas medidas, mas 11 passos e 11 retrocessos, em que os maus são abençoados e as pestes são distribuídas, fechou-se em copas, paus, ouros e espadas. No meio da refrega, fez-se ler em entrevista na qual falou sobre generalidades, mas nada disse nem lhe foi perguntado sobre a crise em que os consumidores de diesel ascenderam à aristocracia.

Mas seria injusto afirmar que, findas as batalhas após as quais os feridos foram meticulosamente espetados em ponta de baionetas, ela não se manteve silente e ausente. “A construção permanente do Brasil é nossa e é democrática e comprometida com a ética. Não há escolha de caminho: a democracia é o único caminho legítimo. Cumprimos nosso dever com a República Federativa do Brasil. Há de se ter serenidade, mas também rigor com o cumprimento e o respeito aos direitos, especialmente os fundamentais”, afirmou Cármen, na abertura de uma sessão do STF, que lhe cabe presidir até entregar, em setembro, o bastão ao atual vice, Dias Toffoli. No meio da balbúrdia generalizada de um plenário que não se entende nem sobre a duração do intervalo para o cafezinho, Cármen garantiu que essa algaravia promoverá a “aliança de cidadãos”, que se engalfinham nas redes sociais sobre a condução dos negócios da República, a necessidade de a atriz mulata ser retinta para interpretar a sambista negra e as decisões disparatadas de árbitros sobre as regras “claras” do ludopédio.

“Há de se ter seriedade e também manter a esperança. Há de se cuidar dos direitos e também garantir os serviços e o incansável combate à corrupção. Não vivemos de quimeras, embora lutemos por sonhos”, disse madame presidente na qualidade de Acácia dos Acácios naquela mesma ocasião. Dias depois, contrataria espaço e transporte exclusivo para ela e seus dez colegas evitarem o povo rebelde e barulhento no acesso comum aos aviões de carreira. Não é sui generis o conceito de igualdade dela?

No sábado, 9 de junho, palestrando em Londrina, no norte do Paraná, Estado onde o juiz de primeiro grau Sérgio Moro reina porque pune, o relator da Operação Lava Jato caprichou na paródia do bom mocismo galopante dando ao “óbvio ululante” de que falava o gênio do teatro e da crônica esportiva Nélson Rodrigues a majestade do nariz de cadáver de suas grã-finas favoritas. Ao participar do 2.º Congresso Internacional de Ciência Jurídica, o ministro do STF Edson Fachin obtemperou: “Parlamentares erram e por isso devem responder. Mas o Parlamento é essencial à vida democrática. Juízes também erram e por isso o Estado deve responder, mas o Judiciário é essencial à vida democrática. No Estado, administração também cometem erros desde o funcionário mais humilde ao mais gabaritado da Nação. E quem erra deve responder”. Fachin deu continuidade à manifestação deixando claro que considera fundamental a manutenção da administração pública como aparelho do Estado democrático. E também ponderou: “É fazendo as instituições funcionarem que o Brasil vai dar um futuro ao seu passado, como escreveram as professoras Heloisa Starling e Lilia Schwarcz, esta última em uma obra importante sobre a história recente do País” (Brasil, uma Biografia). Talvez fosse o caso de ele empregar definição mais clara e também mais escorreita a que recorreu Jânio Quadros quando questionaram sua predileção pela ingestão alcoólica: “Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia!”

 Essa simplicidade cômica do ex-presidente não compareceu ao texto Contra notícia falsa, mais jornalismo, da lavra do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), também ministro do STF Luiz Fux, publicado neste Estado (na página 6 da edição de Política do domingo, 10 de junho), à guisa de introduzir sua eventual participação no Fórum Estadão sobre Fake News, ao qual terminaria faltando. Segundo o doutor, “o jornalismo de qualidade pode incomodar, mas sua existência, deve ser garantida”. No mais lídimo estilo Cármen Lúcia e Fachin, Fux completou seu rosário de lugares comuns com um que ao menos nos consola. Assim ele concluiu o texto publicado: o TSE “defende os profissionais que lutam para promover participação ativa dos cidadãos no processo democrático e repele qualquer tentativa de silenciá-lo”. Ufa, aleluia!

O mesmo não se pode dizer de seu inimigo cordial, o famigerado Gilmar Mendes, que o antecedeu na cadeira do TSE. Vários corpos à frente na corrida pela coroa de impopular-mor da República contra Temer, do qual é conviva no Jaburu, Sua Excelência capricha em atitudes antipáticas em pronunciamentos e votos no Supremo. Recusa-se a se considerar impedido e concede habeas corpus a mancheias a parentes da mulher, Giomar, e clientes da banca de advocacia da qual ela é sócia. E sempre que pode, citando ou sendo citado pelos “coleguíssimos” Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli, desanca policiais, procuradores ou juízes federais de primeira instância pelo fato de combaterem a corrupção com denodo, atribiuindo-lhes garras e ganas absolutistas.

Em entrevista a Mário Vitor Rodrigues, que circula neste Portal do Estadão de domingo, o ministro que se diz “O Supremo” desfiou uma série de argumentos contra a simpatia do povo e a favor da impopularidade como único instrumento viável de justiça. Por falta de espaço, resumo todos em seis frases: “É preciso sempre advertir que se os tribunais decidem em consonância com a opinião pública eles colocam em risco os direitos e garantias constitucionais. Hitler dizia que os tribunais nazistas traduziam o espírito do povo… e foi o que foi. Eu cumpro esse papel com bastante tranquilidade e sei que estou honrando a minha missão institucional. Eu hoje disse a você que não me preocupo em fazer grandes obras, mas em evitar que se cometam catástrofes”. Quem quiser conhecer a íntegra de seus argumentos sobre a gênese nazista do populismo clique no link:

https://brasil.estadao.com.br/blogs/mario-vitor-rodrigues/entrevista-gilmar-mendes/

Em resumo, no Brasil, se não é cega, a Justiça é muito míope e só consegue enxergar o que mais apraz a quem dela se serve.

  • Jornalista, poeta e escritor

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/suprema-platitude-federal/

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