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Estadão às 5: Lula condenado

Estadão às 5: Lula condenado

Ancorado pelo repórter da Polícia Pedro Venceslau e com comentários meus e do professor Fernando Castelo Branco, o Estadão às 5 produzido na TV Estadão e retransmitido por Youtube, Twitter, Facebook e Periscope do Estadão tratou da condenação de Lula pelo juiz Sérgio Moro a 9 anos e meio de prisão por crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro na aquisição e reforma do apartamento no Guarujá pela OAS. Ainda solto, pelo menos até o julgamento do recurso de sua defesa pelo TRF4 de Porto Alegre, o ex-presidente petista passou a ser uma espécie de último símbolo da velha impunidade. Sua condenação é, por isso, um marco histórico.

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No Estadão, desta quinta-feira: Macunaíma de palácios e palanques

No Estadão, desta quinta-feira: Macunaíma de palácios e palanques

Maior traíra da história do movimento obreiro, Lula é o político mais celebrado na memória do povo e mais temido pela elite a quem sempre serviu

Quando alguém pede um autógrafo num exemplar de meu livro O que Sei de Lula (Topbooks, Rio de Janeiro, 2011), minha definição favorita para o protagonista que perfilei em suas 522 páginas é “Macunaíma de palanques e palácios”. É necessária, contudo, uma pequena inversão na frase com que Mário de Andrade definiu magistralmente seu personagem-símbolo da brasilidade, “um herói sem nenhum caráter”. Lula talvez mereça uma definição com uma troca de lugar do pronome indefinido na frase: “um herói sem caráter nenhum”.onheci-o em 1975, quando acompanhei sua ascensão à condição de maior dirigente sindical da História ao preparar, negociar e dirigir as greves que ajudaram a extinguir a longa noite da ditadura tecnocrático militar. Quase meio século depois, contudo, o empreiteiro Emílio Odebrecht, herdeiro e herdado da construtora encalacrada na corrupção da Lava Jato, contou que lhe pagou propinas para evitar greves. Ou seja, o maior líder operário teria sido também o maior “traíra” da História do movimento obreiro, tendo chegado ao ponto de tirar proveito pessoal de sua condição de condutor de massas.

Entrevista coletiva de Lula à época das greves. Este repórter, de terno.

Entrevista coletiva de Lula à época das greves. Este repórter, de terno.

As greves espetaculares dos metalúrgicos do ABC, lideradas por ele de um palanque armado no centro do Estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, contestaram a estrutura legal do peleguismo varguista, que perdurou na ditadura. As paralisações das montadoras de automóveis e fábricas da cadeia automotiva roeram os pés de barro do regime autoritário, que ruiu sobre as próprias bases. Mas ele mesmo foi informante dos militares, como contei na abertura de meu livro citado. E também do diretor do Dops paulista, o delegado Romeu Tuma, conforme relatou o filho deste, o também delegado que foi secretário de Justiça do Ministério da Justiça da primeira gestão presidencial de Lula, Romeu Tuma Jr. Nunca, em momento algum, as informações dadas nas páginas seja de O que Sei de Lula, seja de Assassinato de Reputações, também editado pela Topbooks, foram contestadas em entrevista, artigo ou processo judicial.

No entanto, essas bombas de hidrogênio sobre a imagem de qualquer político de esquerda no mundo inteiro não produziram o efeito de um traque junino na mitologia em torno do entregador de lavanderia e torneiro mecânico que chegou ao mais elevado posto da República. Neste, aliás, produziu a catástrofe de efeito ainda mais deletério: o maior escândalo de corrupção da História e, em consequência dele, uma crise política, que está passando pela segunda tentativa de afastamento do presidente da República, e econômica, que levou 14 milhões de trabalhadores à tragédia do desemprego. No entanto, o ex-presidente mantem a fama, a condição de mito e o poder que isso transfere. É o político mais celebrado na memória do povo e o mais temido pelas elites dirigentes, às quais sempre serviu, embora tendo sempre vendido o peixe de que é seu inimigo favorito.

O retirante nascido no agreste pernambucano e criado nas franjas industriais da Grande São Paulo, de onde emergiu para a fama, foi o pai dos pobres, que nunca se esquecem dele, e a mãe dos burgueses, que preferem vê-lo a distância segura, mas sabem que na hora H poderão contar com sua eterna gratidão. Por isso, o chefe da organização criminosa que limpou todos os cofres da República é o chefão da conspiração daqueles que participaram com ele desse assalto. Agora condenado, vale mais para ele do que para qualquer outra eventual vítima da limpeza da Operação Lava Jato aquele slogan do anúncio de vodca: “Eu sou você amanhã”.  Por isso é o “rei do paparico”, embora suas qualidades pessoais e de gestor não possam ser comparadas ao cardápio do restaurante do Porto que leva esse nome.

    • José Nêumanne Pinto. Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na PagA10 do Estado de S. Paulo de quinta-feira 13 de julho de 2017)

Imagem montagem, Folha Política

Imagem montagem, Folha Política

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No Blog do Nêumanne: O piquenique das bandalheiras

No Blog do Nêumanne: O piquenique das bandalheiras

Sequestro da Mesa do Senado na votação da reforma trabalhista é o ápice da guerra às instituições

A série de insultos às instituições republicanas culminou ontem com o sequestro da Mesa do Senado por uma horda de bandalheiras – as senadoras Fátima Bezerra (PT-RN) e Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM,) à frente – para impedir a votação da reforma trabalhista. Ao mandar apagar as luzes do plenário, o presidente da Casa, Eunício Oliveira (PMDB-CE), fez a metáfora típica de membro do baixo clero num cargo do qual não está à altura.

Essa submissão da coisa pública às mesquinhas ambições pessoais da baixa política teve início após o impeachment de Dilma Rousseff (PT-RS), quando seus sequazes percorrerem o Brasil e o mundo a denunciar o “gópi” (da lavra da acima citada Fátima Bezerra), garantindo que a democracia havia sido interrompida por uma intervenção ilegítima. Agora que o governo Temer se assemelha cada vez mais a um zumbi assombrando um Brasil espoliado e intranquilo, os mesmos pregoeiros da desgraça garantem que o eventual substituto provisório e, quem sabe, provável sucessor até 2018, Rodrigo Maia (DEM-RJ), estaria protagonizando o golpe do golpe. Mas as instituições parecem funcionar e Deus queira que as aparências não nos enganem.

O que não falta desde então, entretanto, são tentativas insidiosas de desmoralizá-las em proveito próprio. O Partido dos Trabalhadores (PT) foi o primeiro a entrar nesse cordão dos “arrasa-instituições”. Defenestrada em processo constitucional normalíssimo, a mineira dos Pampas não perde uma oportunidade de maldizer os Poderes Legislativo e Judiciário, que a depuseram para punir crimes de responsabilidade que ela cometeu, como as famigeradas “pedaladas fiscais”. Sua narrativa da deposição ilícita de uma “presidenta” honesta, sem contas no exterior, pelo vingativo e corrupto inimigo, o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que presidia a Casa que a destituiu, com o voto de mais de dois terços do total dos seus membros, correu o mundo para macular o seu afastamento definitivo, satanizando o sistema que a deserdou.

Responsável por sua insensata e inesperada ascensão ao posto máximo da República, o antecessor e padrinho dela, Luiz Inácio Lula da Silva, recorreu a idêntico expediente ao tentar transferir para investigadores, acusadores e julgadores de seus crimes as penas que lhe cabem. Após constatar, em telefonema a um comparsa, que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, seria “ingrato”, incapaz de ser minimamente leal a benfeitores que o promoveram, abusa de ataques insanos ao Ministério Público (MP), à Polícia Federal (PF) e ao juiz federal Sergio Moro, responsáveis pelos cinco processos a que responde. E, dizendo-se vítima de ditadura inexistente, avisou que, se condenado, apelará a Cortes no exterior.

Na guerra de vaidades e por poder nem todos os chefes dessas instituições têm agido de forma incontestável no uso de suas atribuições. Rodrigo Janot, que se jacta de enfrentar, de forma imparcial e sobranceira, os mais poderosos varões nada impolutos da República, escorregou na baba da própria ambição. Em busca de um lugar no pódio da corrida do combate à corrupção, autorizou uma negociação nefasta para o interesse público com os marchantes da família Batista de Anápolis, propiciando-lhes impunidade absurda por sua participação numa ação programada de que a principal vítima foi o presidente da República. A obra-prima dele, a delação premiada de Joesley Batista, seu irmão e seus empregadinhos, resultou num desastre de relações públicas. A troca de 2 mil anos de pena por uma gravação do chefe do governo em flagrante delito empata em desconfiança e impopularidade com a desastrada atuação no comando do Executivo do mais poderoso de seus acusados. Comparar a troca com a “escolha de Sofia”, referência à opção entre dois filhos, salvando um em troca da morte do outro, da protagonista de William Styron, é a metáfora que sai pior do que a tentativa de correção.

A desastrada estratégia do tudo ou nada de Janot terminou por prejudicar muito mais a ação dos procuradores, incluindo os da força-tarefa da Operação Lava Jato, do que todas as tentativas de barrar suas iniciativas feitas pelos suspeitos de corrupção que ocupam cargos de mando na República. Sua sucessora, Raquel Dodge, terá uma missão árdua para corrigir isso, ao mesmo tempo que terá de esgarçar a teia de cumplicidade em que Temer e aliados pretendem enredá-la.

Impossível ainda será deixar o presidente de fora dessa tentativa malfazeja de desmoralizar as instituições da República para tentar safar-se dos próprios erros. Por mais inepta e frágil que seja a peça da acusação da lavra de Janot, que deu entrada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, ela tem como núcleo um fato incontestável: o encontro injustificável de Temer com Joesley na calada da noite, no porão do Jaburu, para tratar de assuntos pra lá de suspeitos e da forma mais inconveniente.

Desde que a reunião foi divulgada, a expectativa de delação de ex-parceiros, como o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e o contador Lúcio Funaro, desafia a reputação impecável alegada pelo morador do Jaburu. Nada disso, contudo, viria à baila se ele não tivesse permitido a constatação lógica de que pode ter cometido delitos de corrupção passiva, obstrução à investigação e formação de organização criminosa no único prazo em que não poderia tê-lo feito: os dois anos e meio em que completaria o mandato reduzido de Dilma Rousseff.

Sem fatos que possam socorrê-lo, o presidente contratou seu amigo fiel e conviva semanal Antônio Cláudio Mariz de Oliveira para enxovalhar a reputação da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e de um órgão técnico em cuja boa-fé repousam inquéritos criminais da maior relevância, o Instituto Nacional de Criminalística. Mas o Estado de Direito depende do funcionamento de instituições que a defesa de Temer tem enxovalhado para garantir o bom emprego dele.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.2A do Estado de S. Paulo da quarta-feira 12 de julho de 2017)

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No Estadão, desta quarta-feira: Instituições insultadas

No Estadão, desta quarta-feira: Instituições insultadas

Interesse pessoal leva poderosos a tentarem dificultar atuação do Estado de Direito

A série de insultos às instituições republicanas culminou ontem com o sequestro da Mesa do Senado por uma horda de bandalheiras – as senadoras Fátima Bezerra (PT-RN) e Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM,) à frente – para impedir a votação da reforma trabalhista. Ao mandar apagar as luzes do plenário, o presidente da Casa, Eunício Oliveira (PMDB-CE), fez a metáfora típica de membro do baixo clero num cargo do qual não está à altura.

Essa submissão da coisa pública às mesquinhas ambições pessoais da baixa política teve início após o impeachment de Dilma Rousseff (PT-RS), quando seus sequazes percorrerem o Brasil e o mundo a denunciar o “gópi” (da lavra da acima citada Fátima Bezerra), garantindo que a democracia havia sido interrompida por uma intervenção ilegítima. Agora que o governo Temer se assemelha cada vez mais a um zumbi assombrando um Brasil espoliado e intranquilo, os mesmos pregoeiros da desgraça garantem que o eventual substituto provisório e, quem sabe, provável sucessor até 2018, Rodrigo Maia (DEM-RJ), estaria protagonizando o golpe do golpe. Mas as instituições parecem funcionar e Deus queira que as aparências não nos enganem.

O que não falta desde então, entretanto, são tentativas insidiosas de desmoralizá-las em proveito próprio. O Partido dos Trabalhadores (PT) foi o primeiro a entrar nesse cordão dos “arrasa-instituições”. Defenestrada em processo constitucional normalíssimo, a mineira dos Pampas não perde uma oportunidade de maldizer os Poderes Legislativo e Judiciário, que a depuseram para punir crimes de responsabilidade que ela cometeu, como as famigeradas “pedaladas fiscais”. Sua narrativa da deposição ilícita de uma “presidenta” honesta, sem contas no exterior, pelo vingativo e corrupto inimigo, o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que presidia a Casa que a destituiu, com o voto de mais de dois terços do total dos seus membros, correu o mundo para macular o seu afastamento definitivo, satanizando o sistema que a deserdou.

Responsável por sua insensata e inesperada ascensão ao posto máximo da República, o antecessor e padrinho dela, Luiz Inácio Lula da Silva, recorreu a idêntico expediente ao tentar transferir para investigadores, acusadores e julgadores de seus crimes as penas que lhe cabem. Após constatar, em telefonema a um comparsa, que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, seria “ingrato”, incapaz de ser minimamente leal a benfeitores que o promoveram, abusa de ataques insanos ao Ministério Público (MP), à Polícia Federal (PF) e ao juiz federal Sergio Moro, responsáveis pelos cinco processos a que responde. E, dizendo-se vítima de ditadura inexistente, avisou que, se condenado, apelará a Cortes no exterior.

Na guerra de vaidades e por poder nem todos os chefes dessas instituições têm agido de forma incontestável no uso de suas atribuições. Rodrigo Janot, que se jacta de enfrentar, de forma imparcial e sobranceira, os mais poderosos varões nada impolutos da República, escorregou na baba da própria ambição. Em busca de um lugar no pódio da corrida do combate à corrupção, autorizou uma negociação nefasta para o interesse público com os marchantes da família Batista de Anápolis, propiciando-lhes impunidade absurda por sua participação numa ação programada de que a principal vítima foi o presidente da República. A obra-prima dele, a delação premiada de Joesley Batista, seu irmão e seus empregadinhos, resultou num desastre de relações públicas. A troca de 2 mil anos de pena por uma gravação do chefe do governo em flagrante delito empata em desconfiança e impopularidade com a desastrada atuação no comando do Executivo do mais poderoso de seus acusados. Comparar a troca com a “escolha de Sofia”, referência à opção entre dois filhos, salvando um em troca da morte do outro, da protagonista de William Styron, é a metáfora que sai pior do que a tentativa de correção.

A desastrada estratégia do tudo ou nada de Janot terminou por prejudicar muito mais a ação dos procuradores, incluindo os da força-tarefa da Operação Lava Jato, do que todas as tentativas de barrar suas iniciativas feitas pelos suspeitos de corrupção que ocupam cargos de mando na República. Sua sucessora, Raquel Dodge, terá uma missão árdua para corrigir isso, ao mesmo tempo que terá de esgarçar a teia de cumplicidade em que Temer e aliados pretendem enredá-la.

Impossível ainda será deixar o presidente de fora dessa tentativa malfazeja de desmoralizar as instituições da República para tentar safar-se dos próprios erros. Por mais inepta e frágil que seja a peça da acusação da lavra de Janot, que deu entrada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, ela tem como núcleo um fato incontestável: o encontro injustificável de Temer com Joesley na calada da noite, no porão do Jaburu, para tratar de assuntos pra lá de suspeitos e da forma mais inconveniente.

Desde que a reunião foi divulgada, a expectativa de delação de ex-parceiros, como o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e o contador Lúcio Funaro, desafia a reputação impecável alegada pelo morador do Jaburu. Nada disso, contudo, viria à baila se ele não tivesse permitido a constatação lógica de que pode ter cometido delitos de corrupção passiva, obstrução à investigação e formação de organização criminosa no único prazo em que não poderia tê-lo feito: os dois anos e meio em que completaria o mandato reduzido de Dilma Rousseff.

Sem fatos que possam socorrê-lo, o presidente contratou seu amigo fiel e conviva semanal Antônio Cláudio Mariz de Oliveira para enxovalhar a reputação da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e de um órgão técnico em cuja boa-fé repousam inquéritos criminais da maior relevância, o Instituto Nacional de Criminalística. Mas o Estado de Direito depende do funcionamento de instituições que a defesa de Temer tem enxovalhado para garantir o bom emprego dele.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na PagA2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 12 de julho de 2017)

 

No Blog do Nêumanne: Selvageria no futebol

No Blog do Nêumanne: Selvageria no futebol

Violência depois de jogos do Brasileiro no Rio desmentem lugares-comuns

A morte de um torcedor do Vasco logo após o clássico contra o Flamengo sábado, à tardinha, em São Januário, os riscos compartilhados por crianças, mulheres e famílias inteiras no velho estádio e a confusão antes do jogo do Botafogo contra o Atlético Mineiro na Arena do Engenhão domingo cedo resultarão, enfim, num basta na impunidade dos bandidos que se misturam às torcidas para brigar e ferir? Esta é a pergunta que não quer calar, mas infelizmente ainda não dá para respondê-la.

O procurador-geral do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), Felipe Bevilacqua, no calor da hora, antes de terminarem as transmissões dos canais de TV por assinatura, informou que  encaminharia a denúncia contra o clube no início desta semana. Ele admitiu que, independentemente do julgamento, que pode resultar em perdas de mando de campo na primeira divisão do Brasileirão, o local da dita porfia poderá ser interditado, a exemplo do que ocorreu em junho com o Serra Dourada, em Goiânia. E interditou segunda, à tarde… Até a próxima vistoria…

O Ministério Público (MP) do Rio de Janeiro também prometeu exigir, com igual presteza, a interdição do campo por um longo período. O promotor Rodrigo Terra ressaltou que o pedido do MP ocorrerá de forma distinta ao do STJD. De acordo com ele, o objetivo do pedido de interdição é que sejam apresentados planos estratégicos de segurança para a realização de eventos no estádio. “É uma exigência do Estatuto do Torcedor que haja planos de ação para jogos e campeonatos. Vamos pedir a interdição até que estes documentos sejam apresentados, examinados e aprovados pela Polícia Militar” disse Terra, em entrevista ao canal Sportv.

O que houve duas vezes no fim de semana na zona norte do Rio não foi algo insólito. Mas apenas a repetição de ocorrências mais ou menos graves dentro dos estádios de futebol ou em seus arredores em praticamente todas as cidades brasileiras que sediam partidas de campeonatos estaduais, regionais, federais ou internacionais. A diferença do que se sucedeu dentro e perto do campo do Vasco é que dessa vez os incidentes tiveram início antes do jogo, atingiram o clímax pouco antes de a partida terminar e continuaram nas ruas do entorno, culminando com uma morte.

 Do lado de fora do estádio histórico das celebrações do Dia do Trabalho com o presidente Getúlio Vargas, foi morto a tiros Davi Rocha, de 26 anos, que fazia parte da 9.ª Família da Força Jovem do Vasco, da zona oeste do Rio. Morador de Santa Cruz, o ajudante de eletricista saiu sozinho de casa, mas teria integrado um comboio da torcida. A família até tentou desmentir sua ligação com a “torcida organizada”, mas O Globo a comprovou com fotografias e a reprodução de mensagens em redes sociais.

A ligação da vítima com parte dos agressores não é inusitada, mas, ao contrário, confirma que a paixão por um time ou pelo esporte profissional não passa de pretexto. Todos os eventuais motivos aventados para a eclosão da fúria nas arquibancadas foram negados no desenrolar dos acontecimentos. Antes do apito inicial do árbitro, os repórteres encarregados da cobertura do clássico de maior rivalidade no futebol carioca foram advertidos pelo próprio corpo de segurança do clube anfitrião de que deveriam passar rapidamente, sem demonstrar estranhamento, que poderia ser confundido com hostilidade, num determinado ponto da arquibancada apelidado de “Faixa de Gaza”.

No gramado, diante das duas maiores torcidas da antiga capital federal (daí, a denominação de “clássico das multidões”), os dois times desempenharam uma exibição tensa e faltosa, de baixíssima qualidade técnica, com as atuações merecendo a nota explicitada no placar: 0 a 0. Com a torcida do time visitante segregada a um canto tido como mais seguro da arquibancada, sem esboçar reação notória, o segundo tempo foi iniciado com uma leve melhora da qualidade do prélio.

Numa jogada violenta no campo de ataque do dono da casa, o artilheiro Luís Fabiano, conhecido como Fabuloso, deu uma entrada de extrema violência num adversário, o zagueiro Leo Duarte, que saiu machucado de campo. O lance foi interrompido e o gol anotado pelos anfitriões em seguida, anulado com a paralisação da partida. Foi uma espécie de senha para o começo da violência: bombas, água em copos de plástico, barras de ferro e varetas transformadas em lança foram jogadas no gramado, no qual o visitante terminou marcando o único tento, da vitória.

O melhor relato da batalha campal que se seguiu ao apito final do árbitro foi escrito pelo repórter Pedro Ivo Almeida, do Uol, que salvou uma criança de nove anos, com incômodo respiratório provocado pelo gás de pimenta jogado pela Polícia Militar (PM) para tentar acuar os arruaceiros. Depois de molhar os olhos, a boca e o nariz do menino envergando uma camisa do Vasco com seu nome – Carlos Henrique – estampado abaixo do número 10, usado pelo ídolo do time, Nenê, o repórter teve a lucidez de chamar a atenção de seus leitores para alguns lugares-comuns que em nada ajudam a entender. Mas, ao contrário, só trazem mais confusão às vãs tentativas de acabar com a insensatez reinante nas explosões de violência e nos métodos utilizados sem resultado para detê-las.

Um lugar-comum negado é o de que a violência resulta da paixão exacerbada dos torcedores por seus clubes de coração e sua rivalidade com os adversários. Na verdade, tudo foi planejado antes. A guerra se travou no espaço reservado unicamente à torcida “da casa” e foi exercida por quem acorreu ao jogo para bater e matar, não para torcer. Esporadicamente as torcidas se aproximaram e jogaram objetos nos adversários tornados inimigos.. Mas o conflito travou-se apenas entre cruz-maltinos.

Dessa forma, o martírio de São Januário desafiou a falsa solução da torcida única, a que as autoridades responsáveis pela segurança recorrem sempre para evitar desforços físicos entre rivais, sendo que, na verdade, as brigas entre quadrilhas organizadas fantasiadas de torcedores de um time são mais comuns do que imagina a vã filosofia de policiais e promotores.

O presidente do Vasco, Eurico Miranda, inculpou a PM por não ter feito com competência a revista de quem teve acesso às arquibancadas com bombas. O major PM Hilmar Faulhaber, do Grupamento Especial de Policiamento de Estádios, deu entrevista insinuando que funcionários do clube podem ter guardado as bombas no campo da batalha para serem usadas durante o jogo disputado no gramado. Nenhum dos dois convence. Eurico quis provar que seu estádio é seguro e foi desmentido pelos fatos: ficou evidente que o imóvel é velho e não dispõe das condições exigidas para a realização de clássicos em suas dependências. O oficial não apresentou provas de que sua hipótese não passava de mera desconfiança.

A tentativa feita pelo cartola de explicar a tragédia como reação indignada à situação calamitosa do Estado do Rio, a cuja elite política, aliás, ele pertence, ou à crise econômica, moral e política do Brasil padece de extremado irrealismo. A culpa do Estado pelas ocorrências lamentáveis de sábado limita-se ao abandono em que se encontra o Maracanã, construído pela prefeitura do Rio para a Copa de 1950 e hoje gerido pelo governo do Estado, mas no centro de uma polêmica judicial depois que o consórcio, formado por uma empresa gestora americana e a empreiteira Odebrecht, envolvida na corrupção investigada pela Operação Lava Jato, decidiu devolver ou transferir a concessão. Eurico não pode, contudo, usar essa justificativa, pois o jogo de sábado só foi realizado na praça esportiva obsoleta do clube que preside por ele ter exigido exercer seu direito de mando, com evidente prejuízo neste particular desde a interdição decretada dois dias depois da tragédia num bairro que o samba consagrou como símbolo da adesão do malandro ao operário que ia de bonde ao emprego.

Na manhã do domingo seguinte, antes da disputa entre Botafogo e Atlético-MG no Estádio Nilton Santos, construído para os Jogos Panamericanos do Rio e adaptado para ser uma moderna arena, usada na Olimpíada do Rio em 2016, torcedores cariocas e mineiros entraram em confronto perto da estação de Engenho de Dentro, da Supervia. Ou seja, e la nave va e vida que segue. Ou melhor, a violência, a mortandade e a impunidade continuam… Também no futebol.

  • Jornalista, poeta e escritor

( Publicado no Blog do Nêumanne, Politica, Estadão, na segunda-feira 10 de julho de 2017)

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Estadão às 5 da TV Estadão: Leal a quem, cara-pálida?

Estadão às 5 da TV Estadão: Leal a quem, cara-pálida?

Na Argentina, o mais cotado dos eventuais sucessores de Temer, que balança e está para cair da Presidência da República, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), erra ao se declarar leal ao presidente e que aprendeu isso em casa. Na verdade, como parlamentar, deve lealdade à República, a seu Estado e a seu eleitorado. Como presidente da Câmara, deveria ser leal aos deputados, particularmente a seus apoiadores. Não é, ao contrário do que deu a entender, subordinado ao chefe do Executivo. Ainda que fosse, declarações do tipo em nada ajudam o presidente que está para ser substituído. Este foi o primeiro tema da conversa com Adriana Ferraz, do Estadão, no Estadão às 5 da TV Estadão.

(Estadão às 5, transmitido por Youtube, Twitter e Facebook na sexta-feira 7 de julho de 2017, às 17 horas)

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