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No Blog do Nêumanne: “Num tô nem aí”

No Blog do Nêumanne: “Num tô nem aí”

 

Problema maior do que a corrupção impune é cada martelo de juiz ter um peso e uma medida

O juiz Mirko Vincenzo Giannotte, da 6ª Vara de Sinop (MT), recebeu no mês de julho R$ 415.693,02 líquidos de salário, segundo dados do portal da transparência do Tribunal de Justiça do Mato Grosso (TJMT). O valor bruto pago foi de R$ 503.928,79. O rendimento inclui uma  remuneração de R$ 300.200,27; indenização de R$ 137.522,61, mais R$ 40.342,96 de vantagens eventuais e R$ 25.779 de gratificações.

Procurada pela Coluna do Estadão, que deu a notícia, a assessoria de imprensa do TJMT informou que não se trata de erro e divulgou nota para explicar o salário milionário. Segundo a nota, o pagamento do valor foi autorizado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Eis a nota: “Em atenção a solicitação deste veículo de comunicação informamos que considerando a decisão proferida pelo Conselho Nacional de Justiça no Pedido de Providencias n. 0005855-96.2014.2.00.0000, no mês de julho/2017, no Pedido de Providências 18/2009 (Prot.Atenas 213.568), em que é requerente a Associação dos Magistrados de Mato Grosso (Amam), foi determinado pela Presidência deste Tribunal o pagamento do passivo da diferença de entrância aos magistrados que jurisdicionaram, mediante designação, em entrância ou instância superior no período correspondente a 29/5/2004 a 31/12/2009”. Safadeza agora é entrância?

Ou seja: não houve erro nenhum. Está tudo nos conformes da lei, como diria Odorico Paraguaçu, o prefeito de ficção criado para teatro e televisão por Dias Gomes, O Bem Amado. Isso confirma meu último artigo semanal escrito para este blog afirmando que, ao contrário do que dizem juízes e procuradores, corrupção não é o único pecado grave nas finanças públicas. A má gestão e os privilégios levam aos mesmos resultados.

No mês de junho, o juiz recebeu R$ 53.432,92 líquidos. O valor bruto foi de R$ 65.872,83. Não é propriamente uma ninharia, não é em qualquer situação e, particularmente, na penúria vivida atualmente pelo Brasil, chega a ser chocante, acachapante. Não apenas o absurdo meio milhão somando “direitos adquiridos” e não pagos antes, , o salário mensal do juiz de Sinop, a 477 quilômetros de Cuiabá, e todos quantos ganhem mais de R$ 33 mil mensais, pagos aos membros do Supremo Tribunal Federal (STF) e estipulada pela Constituição como sendo o salário máximo a ser pago a qualquer funcionário público brasileiro, incluindo o presidente da República. É absurdo, fora de qualquer raciocínio lógico, um juiz federal, seja de que comarca for, receber vencimentos superiores ao estabelecido como teto no texto que deve reger a vida de qualquer cidadão brasileiro, inclusive agentes pagos para julgar todos perante a lei.

No dia seguinte à divulgação da notícia, a Folha de S.Paulo e O Globo publicaram que o beneficiário desse megacontracheque, que arrombou as contas públicas federais, reagiu de forma desrespeitosa à indignação provocada pela constatação. “Eu não tô nem aí. Eu estou dentro da lei e estava recebendo a menos. Eu cumpro a lei e quero que cumpram comigo”, declarou Mirko. Em suas contas, ainda tem a receber outros passivos acumulados que batem em R$ 750 mil. E disse. “O valor será uma vez e meia o que eu recebi em julho. E quando isso acontecer eu mesmo vou colocar no Facebook.” E completou que é “famoso” por trabalhar até de madrugada. O Estadão revelou também no dia seguinte que outro juiz, Mário Augusto Machado, recebeu mais de 400 mil no mesmo mês de julho, no mesmo Estado de Mato Grosso.

Antes desses acontecimentos, eu tinha publicado neste blog meu artigo Em benefício do infrator, enquanto o juiz Sérgio Moro, da Operação Lava Jato, participou com a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, de um encontro sobre o combate à corrupção na democracia brasileira. Na ocasião, comentei que alguém precisa dizer ao juiz Sérgio Moro que corrupção corrói a poupança nacional, mas a má gestão e os privilégios, também. Nossas contas públicas não serão acertadas só com combate à corrupção. Ou mudamos as leis acabando com esses privilégios ou não teremos como pagar as contas. O juiz Mirko é o exemplo do megamico nacional por ganhar R$

60 mil por mês, quase o dobro do teto, salário de ministro do Supremo. Qualquer governante só terá condições de administrar um orçamento pra valer se fizer valer o teto constitucional, que é violado em todo o território nacional por todas as corporações que tomaram de assalto a alta burocracia federal.

Ao tomar conhecimento do grotesco episódio do juiz de Sinop, a ministra Cármen Lúcia, também presidente do CNJ, expediu ordens para pôr os salários do Poder Judiciário abaixo do teto constitucional.

Na mesma ocasião, contudo, o Judiciário foi palco de ocorrência que nada tem que ver com folha de pagamento, mas também compromete a imagem do Judiciário, não na instância de Mirko e Moro, mas na de Cármen. Ao pôr em liberdade Marcelo Traça Gonçalves, preso desde julho na Operação Ponto Final, braço da Lava Jato no Rio, e mais três acusados de pertencerem à máfia dos transportes no governo Sérigo Cabral no Rio, um colega dela no STF, Gilmar Mendes, afirmou que “juízes não podem ceder à pressão do grupo de trêfegos e barulhentos procuradores nem se curvar ao clamor popular”. Segundo ele, “a liberdade é a regra no processo penal; a prisão, no curso do processo, justifica-se em casos excepcionais, devidamente fundamentados, e a via do habeas corpus é o instrumento precípuo desta tutela: a proteção da liberdade”.

Com a diatribe, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reagiu aos procuradores do Rio, que pediram seu impedimento no julgamento dos habeas corpus relativos ao chamado “rei do ônibus” Jacob Barata Filho e do presidente . Os procuradores lembraram na petição quee Gilmar foi padrinho de casamento da filha de Barata Filho, Beatriz, em julho de 2013. Faço aos procuradores as mesmas críticas feitas aos juízes, pois também são comuns os contracheques superiores aos salários dos ministros do STF e isso está fora da lei, a que todos eles devem servir.

Nossa diferença no caso é que Gilmar não se reportou a isso para se defender deles, preferindo contrariar o senso comum ao garantir que ser padrinho de um casamento não denota intimidade. Não foi o que eu aprendi em 66 anos de vida. Fê-lo diante de câmeras e microfones e nenhum repórter o  contestou quando perguntou quem acha que é. Eu não acho que seja. Eu tenho certeza de que não é… E nem é mesmo. Não consta que alguém convide um desconhecido, por mais notório que seja, como ele é, para se tornar padrinho de uma cerimônia importante como o casamento. Para completar os disparates da ocasião, argumentou na própria defesa que o casamento da filha de Barata só durou seis meses. E daí? E, por falar em intimidade, os procuradores também alegam que sua mulher, Guiomar Mendes, trabalha num escritório de advocacia que defende investigados da Lava Jato, o de Sergio Bermudes.

Ao mandar soltar o empresário Marcelo Traça Gonçalves, Gilmar afirmou ainda que a prisão preventiva “continua a ser encarada como única medida eficaz de resguardar o processo penal”. “Mas esse abuso não pode mais ser admitido! Como dizia Rui Barbosa, ‘o bom ladrão salvou-se, mas não há salvação para o juiz covarde’”.

O ministro tem todas as razões do mundo para ter opiniões muito fortes e muito peculiares. Há, contudo, algo que não se explica: por que o algoritmo do Supremo sorteia todos os tucanos e todos os apadrinhados, sócios de cunhados et caterva de Gilmar? Será que o algoritmo do Supemo é padrinho de Gilmar, tucanos, seus cunhados e sócios da mulher?

Não vai ser na base do “Tô nem aí” ou de “teje solto” generalizado que o Judiciário vai reconquistar seu prestígio perdido. E aí não se trata de clamor popular. Mas, sim, do mínimo, senso do que é ou não justo. Problema maior do que corrupção também é o uso de um peso e uma medida particular na hora de usar o martelo da lei.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, na segunda-feira 21 de agosto de 2017)

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Comentário na TV Estadão : Vocação suicida

Comentário na TV Estadão : Vocação suicida

Quando tudo parecia encaminhar-se para um acordo que levaria o PSDB ao comando das forças anti-esquerda na eleição de 2018, unindo Dória, ACM Neto e outros escapados do incêndio da Lava Jato contra Lula, Ciro, o PT e os partidecos ecomunistas, o presidente interino do partido, Tasso Jeireissati (CE), pôs tudo a perder mandando produzir um patético programa de autocrítica pela metade que passou na quinta-feira 17 no horário “gratuito”. Os tucanos parecem ter vocação para o suicídio em pleno voo. Este foi o primeiro assunto dos vários comentados no Estadão às 5, ancorado por Pedro Venceslau e com os assuntos comentados por mim. Produzido no estúdio da TV Estadão no meio da redação do jornal, ele foi retransmitido por Youtube, Twitter, Facebook e Periscope Estadão na sexta-feira 18 de agosto de 2017, às 17 horas.

Para vê-lo clique no link abaixo:

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Vocação suicida

José Nêumanne: Leitura do poema “Barcelona”

José Nêumanne: Leitura do poema “Barcelona”

Barcelona, poema XVIII

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Barcelona XVIII
(de Barcelona, Borborema)

Daqui a tantos séculos
quantos conheçam
esta suntuosa luz solar
que banha as avenidas,
teu sangue escorrerá
por estas torres,
pelas luzes e pelos fogos
que queimam a cidade
esplêndida.

Olha esta cidade, artista velho,
ouve  seus carros e seus bondes,
ela será tua ópera.
Teu sangue de argamassa
descerá ramblas em rios,
num crepúsculo semelhante
àqueles que viram
surgir tua força.
Teu sangue se mesclará
ao sangue de teus irmãos
da Praça Catalunha
até a estátua de Colombo
no cais.
Homens diferentes,
por isso iguais a nós,
comporão a argila
de tuas paredes
e ouvirão as conchas surdas
de teus planos pés:
os passos de Francisco Ferrer,
fuzilado por ordem de Maura
e autorização de Afonso XIII,
os rastros de KIibaltchiche,
que logrou fugir do homem de aço;
as pegadas de Felipe González,
tomando manzanilla
na tasca de don José,
o cabo enfeitiçado pela cigana.

Toma esta cidade,
don Antoni Gaudí e Cornet,
e expia os pecados do mundo
com os óbolos que depões
em tuas pranchetas
de ilusão e delírio.

Poema do livro:

 06 Barcelona Borborema. São Paulo: Geração Editorial, 1992.

 Poemas sobre a arquitetura de Gaudi e o forró de Campina Grande. Naquela mesma viagem à Europa para conhecer projetos de privatização, conheci Barcelona e confirmei uma antiga paixão infanto-juvenil (inexplicável) pela capital da Catalunha e pela obra do mais importante arquiteto modernista da Europa. O impacto do Parque Güell e da Sagrada Família sobre mim foi tal que ao embarcar para Paris escrevi os primeiros versos da série “Barcelona” num guardanapo cedido pela aeromoça. Vários dos 25 poemas dessa série foram escritos em guardanapos de aviões e de restaurantes e papel de correspondência dos hotéis de Paris e Londres, por onde passou o grupo com que eu estava e que tinha antes visitado Madrid e Barcelona. Guardei as anotações numa gaveta e muito tempo depois a abri, li, fiz correções e pensei no primeiro projeto: um livro de poemas intitulado 24 horas de Gaudi. Procurei o publicitário barcelonês Francesc Petit, da DPZ, e lhe propus que traduzisse os poemas para o catalão e fizesse um contato com a Generalitat da Catalunya para possibilitar uma edição trilíngüe português-castelhano-catalão. Apesar de catalão, Petit não escreve em catalão. Inês, sua mulher, que é brasileira, escreve. Ele me aconselhou que eu obtivesse uma espécie de aval literário do poeta Mário Chamie. Mário escreveu um competentíssimo posfácio para o livro, que mudou de figura. Convidado por Sérgio Reis, diretor de marketing do Bamerindus, fui ver Antonio Gades dançar Carmen no Teatro Guaíra, em Curitiba. Dali me veio a idéia de escrever uma série sobre dança, o forró de Campina Grande, para servir de contraponto à arquitetura de Gaudi. E resolvi fazer um livro simétrico: 25 poemas sobre Barcelona, 25 poemas sobre Campina Grande (a Rainha da Borborema) e um sobre Gades (o poema vírgula) fazendo a passagem entre a arquitetura e a dança. O 25° poema, depois de muito tempo, me veio num sonho. É o único que nunca foi retocado, com a ajuda feroz de meu amigo editor, Pedro Paulo de Sena Madureira. Mas não foi ele quem editou o livro e, sim, Luiz Fernando Emediato, que agora tinha outra editora, sozinho, a Geração Editorial. O livro saiu com ilustrações, diagramação e capa de Petit e foi publicado porque eu, que fizera sucesso escrevendo um livro sobre a ascensão de Collor, topei a proposta do jornalista, escritor e editor para descrever o processo de sua derrubada. Leia mais…

Estadão às 5: Mateus, primeiro os meus

Estadão às 5: Mateus, primeiro os meus

A tal da reforma política, aprovada na Comissão Especial e a ser encaminhada ao plenário da Câmara para possível votação na semana que vem, é uma mentira do começo ao fim. Primeiro, não é reforma política, pois apenas tem a intenção de manter no mesmo lugar os parlamentares,  cada qual com seu foro para escapar de Moro. Então, sua real denominação poderia ser “Mateus, primeiro os meus”, numa evocação bíblica, ou ainda “quem está fora não entra, quem está dentro não sai”, como no samba Pistom de Gafieira, de Billy Blanco. Outra mentira é o custo do tal fundilho partidário. Ele será proporcional à arrecadação, não fixo em R$ 3,6 bilhões. Foi este meu primeiro comentário no Estadão às 5, programa produzido pela TV Estadão no estúdio da redação do jornal, ancorado por Emanuel Bomfim e retransmitido por Youtube, Twitter e Facebook na quinta-feira 15 de agosto de 2017, às 17 horas.

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No Blog do Nêumanne: Em benefício do infrator

No Blog do Nêumanne: Em benefício do infrator

Políticos de todos os partidos querem mudar regras da eleição para manter foro e escapar de Moro

Um dos mais bem achados e felizes slogans da política brasileira de todos os tempos foi aquele que conduziu Luiz Inácio Lula da Silva à primeira vitória na eleição presidencial de 2002, depois de amargar três derrotas seguidas, para Fernando Collor e Fernando Henrique:  “A esperança vai vencer o medo”.

Passados 15 anos e três gestões e meia do PT, sendo que a metade da quarta está sendo tocada pelo vice que o mesmo Lula escolheu para compor a chapa de Dilma Rousseff duas vezes, o julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF) e a Operação Lava Jato da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, sob a égide do juiz Sérgio Moro, em Curitiba, ensinou à Nação que não foi tudo como se esperava naquele tempo. Na decisão unânime da Segunda Turma do STF que aceitou o despacho de Teori Zavascki, relator da Lava Jato à época, mandando prender o então líder do governo Dilma Rousseff no Senado, Delcídio Amaral, a ministra Cármen Lúcia deu uma lição que se tornou histórica.

“Na história recente de nossa pátria, houve um momento em que a maioria de nós brasileiros acreditou no mote de que a esperança tinha vencido o medo. Depois, nos deparamos com a Ação Penal 470 (mensalão) e descobrimos que o cinismo venceu a esperança. E agora parece se constatar que o escárnio venceu o cinismo. Quero avisar que o crime não vencerá a Justiça. A decepção não pode vencer a vontade de acertar no espaço público. Não se confunde imunidade com impunidade. A Constituição não permite a impunidade a quem quer que seja”, ela disse.

A primeira metade da sentença é irretocável. A segunda, nem tanto. A Nação acompanhava então, entre perplexa e indignada, investigações que desvendavam o maior escândalo de corrupção da História, praticado nos governos em que Lula, que havia cunhado o belo lema, e seus acólitos, que o apregoavam, mandavam na República.  O cinismo continua sendo soberano na reação dos acusados de terem esvaziado todos os cofres disponíveis do País sob a indiferença e depois, conforme tem sido revelado, a cumplicidade dos mandatários máximos, eleitos para executarem um projeto de socialismo real nos trópicos. Agora o escárnio atingiu o ápice, quando, pilhados, os mandatários políticos do governo e da oposição, dos municípios, Estados e União, resolveram intervir para encontrar um meio e um método de se manterem livres de pena e, de preferência, com mandatos à sua disposição para continuarem vivendo à tripa forra por conta de  propinas bilionárias distribuídas por contratantes de obras públicas, dispostos a corromper e ser corrompidos. A conspiração pela impunidade.

Por enquanto, a promiscuidade social vigente na capital federal, erguida no cerrado distante para proteger os donos da lei – que a aprovam, executam e julgam tal execução – da ordem institucional vigente, tem protegido os sócios do club privé dos mandatários. O prestígio popular massivo da Ação Penal 470 tornou inevitável que maganões do ofício político fossem conduzidos às barras dos tribunais e às celas do inferno presidiário. Mas, com o passar do tempo, os maiorais escorregaram pelas frestas da permissividade. Dos condenados do dito mensalão restam presos alguns gatos-pingados sem partidos para escondê-los nem padrinhos para acobertá-los. Do topo do mandato dado pelo voto popular, Dilma perdoou companheiros de partido e de ofício e contou com a complacência da mesma Corte que os apenou. Zé Dirceu, o capitão do time de gatunos, Genoíno, ex-guerrilheiro que presidiu o partido no poder, e todos os seus comparsas voltaram para o conforto do lar, doce lar, com tornozeleiras. Ficaram na prisão os sem-mandato Marcos Valério, Kátia Rabello e outras figuras sem relevância na briga pesada pela ocupação dos palácios.

À exceção de gatos pingados que podem ser contados nos dedos de uma mão só, os companheiros de luta pelo poder não conheceram o mesmo destino de quem os corrompeu, caso de empreiteiros que comandavam o propinoduto, destacando-se o príncipe Marcelo Odebrecht.

Os políticos, mandantes dos crimes praticados, compartilham o conforto do foro privilegiado de que gozam 36 mil nobres patrícios que foram eleitos ou nomeados para cargos de prestígio na burocracia da politicagem. Agora, no entanto, paira no ar seco do Planalto uma ameaça real: as eleições para Presidência, governos estaduais e Casas legislativas federais e estaduais, que podem desalojá-los do foro e entregá-los a Moro. Tal ameaça se concretiza na manchete de primeira página e no noticiário da editoria política doEstado do domingo 13 de agosto, mês da efeméride do martírio político do suicídio do caudilho Getúlio Dornelles Vargas. O noticiário reproduziu pesquisa de um instituto insuspeito de se imiscuir em política paroquial brasileira, o Ipsos. Segundo o levantamento, como enfatiza o redator que escreveu a linha fina da página A4 do jornal, a um ano da eleição, “94% dos eleitores não se veem representados por políticos”, como ressoa a manchete abaixo apenas do título do jornal. Quem convive com o cidadão brasileiro em casa, nas ruas, no trabalho e nos botecos só estranha uma informação da pesquisa publicada: onde se escondem os 6% de entrevistados que não negam peremptoriamente a expressão “democracia representativa”, tal como se define a nossa.

O desencanto da cidadania ainda não atingiu em cheio o prestígio da boa e velha democracia das ágoras gregas, dos burgueses europeus ou dos pais fundadores da Revolução Americana. Metade (50%) dos eleitores brasileiros ainda considera o Estado de Direito o melhor a ser praticado no País, contra a opinião de 33%, aos quais se somam 17% que não sabem o que dizer a respeito. Mas é quase igual (47%) a porcentagem dos cidadãos destes nossos tristes trópicos sul-americanos que não consideram nosso tipo de democracia o mais adequado. Os que deles discrepam e concordam com nossa “democracia” chegam a 38% e os que dizem não saber, a 15%.

Toda a pesquisa é acachapante e está bem resumida nas páginas do Estado ou nos arquivos deste portal. Não me resta mais espaço aqui para expô-los e facilitar sua busca. Falta-me ainda dizer que os políticos que não nos representam, se não sabiam disso, pelo menos desconfiavam desde antes da publicação da pesquisa. E é por isso que tentam agora o tiro de misericórdia na cabeça da democracia para continuarem com seus desmandos – entre os quais a corrupção é apenas mais um.

Por isso o deputado Vicente (nada) Cândido, relator de um mostrengo falsamente apelidado de reforma política, apresentou à comissão especial encarregada de realizá-lo e que o apoiou, deu nomes de santos aos demônios que soltou em nossa vida comum. Além da reforma política, o “distritão”. E para driblar a decisão judicial que mantém interditada a doação empresarial para campanhas, o por fora bela viola, por dentro pão bolorento Fundo para o Financiamento da Democracia, na verdade, um “passe aí sua carteira com o que ela contiver, seu idiota batizado”.

Quando basbaques como o autor destas linhas ou bem-intencionados ingênuos – como Modesto Carvalhosa, José Carlos Dias e Flávio Bierrembach – passaram a divulgar ideias como não votar em nenhum mandatário de qualquer poder e de convocar uma Constituinte independente, eles já tinham o veneno que anularia tais antídotos. Como detêm o apito do jogo na mão e a toga do juiz a seu favor e, perdidos por um, perdidos por mil, resolveram se antecipar às providências da cidadania para providenciarem o próprio e privilegiado salve-se quem poder.

Emulam o coronel Chico Heráclio do Rego, que Chico Anysio imortalizou como Coronel Limoeiro. Na final do campeonato pernambucano das seleções municipais, tendo o árbitro da contenda marcado pênalti a favor de Arcoverde e contra Limoeiro no último minuto da porfia, impressionado com a turba revoltada, o coronel questionou o capanga sobre a causa da confusão. Informado da importância da decisão, desceu à área adversária, apontou o 45 para a cabeça do apitador e mandou que invertesse área e campo. E o pênalti foi batido contra a meta do visitante. Essa boutade é a metáfora perfeita para este benefício para o infrator praticado na Brasília de costas para o Brasil. E para a civilização.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, na segunda-feira 14 de agosto de 2017)

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Comentário no Jornal Eldorado: A crise da democracia representativa

Comentário no Jornal Eldorado: A crise da democracia representativa

“94% dos eleitores não se veem representados por políticos”. Ou seja, “classe política enfrenta rejeição generalizada”. Estes são a manchete de primeira página, do Estado de S. Paulo da segunda-feira 14 de agosto de 2017 e o título da Pag.A4, a primeira e mais importante da editoria de política do mesmo jornal no mesmo dia. As conclusões foram tiradas de uma do Instituto Ipsos, insuspeito de tentativas de tentar imiscuir-se na política paroquial brasileira, sendo, portanto, até segunda ordem, confiável. Quem conhece a realidade política no Brasil e já sentiu o pulso do cidadão comum sabe que é gravíssima a crise de representatividade em nossa democracia e só é difícil acreditar que 6% dos cidadãos sintam-se representados.

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na segunda-feira 14 de agosto de 2017, às 7h30m)

Para ouvir clique no link abaixo e, em seguida, no play:

https://soundcloud.com/jose-neumanne-pinto/neumanne-1407-direto-ao-assunto-1

Para ouvir É ladrão que não acaba mais, com Bezerra da Silva, clique no link abaixo:

Para ouvir no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/a-crise-da-democracia-representativa/

 

Abaixo, minhas anotações para fazer o comentário:

 

Eldorado 14 de agosto de 2017

1 – O Estadão de domingo deu em manchete e em reportagens que abrem a editoria de Política resultado de pesquisa do Instituto Ipsos que dá conta de que 94% dos brasileiros não se sentem representados pelos políticos que se dizem seus representantes. Este índice o surpreende?

O Brasil é um país onde a democracia é respeitada Não 86% X 9% Sim Considera a democracia o melhor regime para o Brasil Sim 55% Não 33% Não sei 17% Considera nosso tipo de democracia o melhor regime para o Brasil? não 47%, Sim 38%, Não sabe 15% Todos os brasileiros devem ser iguais perante a lei? 96 sim 3% não 1 não sabe

No Brasil todos são iguais perante a lei 15% sim 84% não 1% não sabe

o problema do país não é o partido politco, mas  o sistema como um todo 81 12 7 o que vale são partidos políticos que roubam mas fazem  84 10 6

a corrupção é culpa do povo que elege os políticos 44  52   4  É possível governar sem corrupção 84 12  5

2 – É possível fazer campanhas políticas que não custem bilhões ou precisamos de doações empresariais ou recursos públicos?

“A criação de um fundo com recursos públicos, estimado em R$ 3,6 bilhões, para fimanciar as campanha a partir de 2018 é consenso.”

Esse fundo só vai preservar o foro privilegiado letárgico do congresso. Só recebem o fundo os que já estão lá e que foram eleitos com recursos ilegais. Entáo seria um fundo para preservar os defeitos anteriores das eleições, as mentiras. Fundo financiador da impunidade
Miriam Leitão, Campanhas melhores: A democracia tem um custo, Entende-se. O candidato precisa viajar, explicar suas ideias e projetos., convencer o eleitor, preparar suas ideias para o horário eleitoral.. Com menos dinheir9o, a pessoa terá que contar com a própria capacidade de  convencer. Precisará ter ideias próprias e não contratar ivnentores de clichês e de falsas promessas.  Assim, quem sabe o país terá campanhas políticas de melhor qualidade.

3 – Emendas alcançaram 5, 7 bilhões de reais, 33,4% a mais doque o divulgado. Você acha que esse recurso para evitar procesar o presidente obedeceu a critérios democráticos?

Há outras prioridades.

Democracia depende mais de transparência do que de trololó.

4 – Ministério Público desiste de pedir 16,7 % de reajuste salarial. A seu ver, esta é apenas uma boa notícia de pouca significância ou tem valor para nossa democracia tão desprezada?

Primeiro STF, liderado por Cármen Lúcia. Depois o MPF

Raquel Dodge foi corporativista.

Péssimo exemplo dos procuradores.

A força da pressão da opinião pública.

Um bom caminho.

5 -Prejuízo da Oi é um dos maiores da história da Bolsa. O que produziu esse rombo e o que fazer para evitar que ele comprometa ainda mais nossas contas públicas?

Queda recorde

Por Ernesto Neves
O prejuízo de R$ 3,27 bilhões registrado pela Oi entre abril e junho é o terceiro maior da história entre empresas de capital aberto do país. Os dados são da consultoria Economática, que realiza o levantamento desde 1986.
O maior prejuízo até hoje pertence à Sergen, da construção civil, que perdeu R% 5,6 bilhões em 2012. Em seguida vem a finada OGX, de Eike Batista, que registrou queda de R$ 4,7 bilhões em 2013.

Ele deveria insistir que a administração não tem condições de ficar à frente da empresa e que os credores deveriam nomear uma administração.

SONORA Bezerra da Silva É ladrão que não acaba mais

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