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No Blog do Nêumanne: O medo como aliado

No Blog do Nêumanne: O medo como aliado

Agenda positiva não reduzirá o Fora Temer, mas o risco da sucessão

A impopularidade do presidente Michel Temer, sem dúvida, sobe a patamares inéditos e inusitados, confirmados agora pela contestada, mas ainda assim bastante convincente pesquisa do Instituto DataFolha, cujos índices foram divulgados pela Folha de S.Paulo de ontem e anteontem. Da constatação, já adiantada por outros institutos em pesquisas feitas em outras datas, é possível fazer duas previsões capazes de provocar humores muito diferentes, até díspares, sem forçar muito a barra. A primeira é de que os 5% acachapantes de aprovação a Temer, a mais baixa desde o fim da ditadura militar, em nada alterarão a disposição da Câmara dos Deputados de negar os dois terços dos votos de seus membros para autorizar a remessa da segunda denúncia preparada pelo ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot para ter sequência no âmbito decisório definitivo do Supremo Tribunal Federal (STF). A outra é que todos os esforços anunciados ou prometidos pela equipe de comunicação do Palácio do Planalto resultarão em tiros n’água e em nada alterarão a péssima conta em que a opinião pública tem o presidente e sua equipe de governo.

Poder-se-ia concluir, e haveria boas razões para tanto, que a decisão de pelo menos um terço dos deputados impedir, em discussão já aberta na Casa. que o STF investigue Temer (e não se trata de denunciar, o que o ex-PGR já fez, nem de processar, decisão a ser tomada depois pelo mesmo colegiado) tem uma razão acaciana. A denúncia de Janot é inepta, a ponto de incluir no caudaloso papelório de acusação atos que teriam sido cometidos por Temer antes de assumir a Presidência, o que é uma óbvia tentativa de driblar a Constituição. Esta é uma particularidade tupiniquim injustificável: não há por que blindar o chefe do governo de decisões judiciais sobre crimes que não dizem respeito a ações políticas ou administrativas. Mas dura lex sed lex, no cabelo só Gumex, como se dizia na minha adolescência em Campina Grande. Fato é que, jabuticaba ou não, o vice de Dilma, que lhe tomou o posto após o impeachment, não pode ser incriminado, agora que está no  comando da nau dos insensatos, por nada que lhe tenha sido imputado antes da posse. E só poderá a voltar a ser um cidadão qualquer, que pode ser investigado, processado e apenado, após entregar o cargo ao sucessor, seja quem for. Essa poderia ser uma boa razão, mas não é a única nem a mais importante. Nem mesmo se partirmos do pressuposto de que a primeira denúncia de Janot –  que dizia respeito a delito atribuído a Temer no exercício da Presidência e ele nunca o negou, de vez que só se defende tentando incriminar o delator que o denunciou em troca de impunidade já fora jogada no lixo pelo mesmo colegiado decisório que o fará agora.

Os militantes do “Fora Temer” também poderão alegar que o perdão liminar que a Câmara na certa dará ao chefe do Executivo será obtido por dois caminhos escusos. O primeiro é o chamado efeito Orloff – você poderá ser eu amanhã –, apontado como principal motivo do fervor temerista dos nada nobres legisladores de plantão. Afinal, imputa-se a um terço dos jurados que decidirão o destino do mandato de Temer estarem à sombra do mesmo alfanje que ameaça o pescoço presidencial, investigações nada honrosas no âmbito da Lava Jato ou em muitos outros processos e escândalos de corrupção na Justiça pelo Brasil afora.

Outra justificativa comum é a de que o número um está agindo como um zero à esquerda em matéria de pudor e moral pública ao comprar a integridade do próprio pescoço recorrendo a prerrogativas injustificáveis do ponto de vista do espírito público. Isso, aliás, está sendo feito de forma pública e notória. Alguns votos de perdão foram comprados com verbas de emendas orçamentárias. E outros nada insignes parlamentares estão sendo seduzidos pelo “perdoai as nossas dívidas assim como nós nos dispomos a perdoar os vossos malfeitos”. O escambo é notoriamente asqueroso, mas nada indica que isso tenha feito algum dito representante do povo seguir o caminho que parece óbvio de que o presidente deve ser investigado até mesmo se for para provar sua inocência. O lamentável episódio do Refis é o exemplo menos refinado desse mercado de pulgas morais. O governo mandou para a Câmara um projeto perdoando dívidas de contribuintes em atraso com o Fisco para amealhar R$ 9 bilhões para os cofres públicos. O bolo é aparentemente modesto se comparado com o tamanho do déficit público. Mas de bilhão em bilhão é que o buraco terá de ser indevidamente tapado. Como uma Sena acumulada, a relatoria do projeto caiu nas mãos do deputado do tradicional PMDB mineiro Newton Cardoso Júnior e ele se encarregou de promover um perdão generalizado a empresas de parlamentares, começando pelas próprias. A Câmara, como se sabe, reproduz hoje em escala sórdida velhos preceitos bíblicos, a alguns dos quais já me referi antes. O filho do ex-governador Newtão adotou o “venha a nós e ao vosso reino nada” do mesmo Pai Nosso, empregando a vertente que se diz ter sido parodiada de uma oração de São Francisco por um ilustre peemedebista dos tempos do dr. Ulysses, Robertão Cardoso Alves: “É dando que se recebe”. Ou seja, Temer manda a equipe econômica deixar de criar problemas para a aprovação do Refis e permite o perdão generalizado à patuleia. Esta, agradecida, manda a denúncia do dr. Janot para o gabinete do dr. Caligari, ou seja, o quinto dos infernos.

Para tornar o episódio do Refis ainda mais sórdido, Newtinho, o filho pródigo de Newtão, incluiu entre os perdoados notórios corruptos, que, afinal, já que estamos nos referindo à Bíblia, também são filhos de Deus. No governo, na equipe econômica, no Parlamento, na oposição e pelo País afora, muita gente se fingiu de surpreendida. E alguns mais hipócritas fizeram o papel de indignados de fancaria. Mas só se saberá se os coitados dos corruptos serão excluídos do lado direito do pai dos devedores depois que for votado o último destaque do texto legal do tal do Refis.

Toda essa descrição já parece bastante completa para explicar, embora não justifique, o perdão liminar que os velhos amigos de Temer na Câmara – que Sua Excelência, aliás, já presidiu – na certa concederão ao bom companheiro. Mas ainda há mais. Preste atenção num pormenor da notícia da pesquisa da DataFolha para verificar que há uma razão ainda mais forte do que todas. De acordo com o levantamento, em julho do ano passado, dois anos após o dr. Michel ter assumido o posto máximo, sua rejeição era de 31%. E daí para cá nunca parou de crescer: foi para 61% em abril, 69% em julho e agora, os inusitados 73%, Os que consideram o governo regular são 20%. Numa escala de 0 a 10, a média do governo hoje é 2,5. Dilma, em abril, antes do impeachment, tinha 63% de reprovação e 13% de aprovação.

Há, contudo, um índice que favorece o vice que assumiu a cadeira dela. O número dos que concordam com o “Fora Temer” era de 65% em julho, mantém-se amplamente majoritário, mas caiu para 59%. Os que preferem sua permanência passaram de 30% em abril para 37% agora. Os seis pontos porcentuais a menos da rejeição e os sete a mais da aprovação apontam para uma evidência. Os brasileiros rejeitam Temer porque sabem que ele é uma sequência natural de Lula e de Dilma, principalmente desta, que ele ajudou a eleger e reeleger. No entanto, sentem no bolso os efeitos positivos do trabalho da equipe econômica, que não produz milagre nenhum, mas já deixou claro que não se dispõe a continuar a trilha rumo ao inferno contábil que Dilma e seus asseclas seguiram sem medo de serem infelizes. A manutenção por Temer dos Moreira, Padilha e Geddel da vida empurram para baixo seus índices de prestígio popular. A manutenção de Meirelles e seu time de bambas evita que o coro por sua expulsão engrosse e ganhe volume.

Quanto a isso, só há uma conclusão inteligente: se quer manter essa dicotomia de reprovação crescente, mas sem desejo de expulsão iminente, Temer tem de dar cada vez mais força a seus economistas e manter, se isso for possível, seus cavaleiros do apocalipse político longe dos molhos de chaves dos cofres da víúva, que não aguenta mais tanta penúria. A queda do “Fora Temer” não depende de agenda positiva, mas do medo de que seu sucessor seja pior do que ele na economia. O resto é marola maligna.

  • Poeta, jornalista e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Politica, Estadão, na segunda-feira 2 de outubro de 2017)

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No Blog do Nêumanne: Não está fácil pra ninguém

No Blog do Nêumanne: Não está fácil pra ninguém

Troca de comando de assaltantes do erário desmoraliza democracia

Em 13 de fevereiro último, o presidente Temer anunciou à Nação que afastaria temporariamente ministros denunciados por corrupção na Lava Jato. “Se houver denúncia, que é um conjunto de provas, eventualmente que possam conduzir ao seu acolhimento, o ministro que estiver denunciado será afastado provisoriamente. Logo depois, se acolhida a denúncia, e aí o ministro se transformando em réu, o afastamento é definido”, disse o presidente. E completou: “Se alguém converter-se em réu estará afastado, independentemente do julgamento final”. Até agora não contou por que mantém Moreira Franco e Eliseu Padilha em seus cargos, mesmo tendo sido denunciados.

Três meses e cinco dias depois da promessa, os queixos de mais de 200 milhões de brasileiros literalmente desabaram com a revelação feita pelo colunista Lauro Jardim, do Globo, de que o chefe do governo havia recebido o acusado Joesley Batista para um papo íntimo no porão. Quatro meses e uma semana depois, nenhum dos brasileiros surpreendidos recebeu satisfação alguma, convincente ou não, verossímil ou fantasiosa, para o fato. Temer não explicou por que recebeu um delinquente notório (cuja ficha ele mesmo faria questão de divulgar) na calada da noite, na garagem do próprio público onde mora com a mulher e o filho, para discutir assuntos nada ingênuos, como a compra de silêncio de um presidiário e propinas pagas a insignes servidores públicos do Judiciário.

Do ponto de vista da lógica comum dos fatos, além de não justificar ou se desculpar por nada, o mais poderoso dos chefões da República concentrou suas energias para desqualificar o ex-cúmplice tornado oponente, o que, pela lógica, só complicaria a própria situação. Para isso, agarrou-se a particularidades da ordem constitucional vigente no País, conforme a qual o principal mandatário só pode ser processado por quaisquer delitos que cometa antes e depois de haver exercido o cargo. Então, usou sua habilidade de fazer amigos e exercer influência na Câmara, que decidiu mantê-lo no posto, sendo a maioria dos deputados (portanto, ex-colegas) tão ou mais suspeita do que ele e seus auxiliares próximos. Ele não foi golpista quando se beneficiou do impeachment da antecessora, que encabeçou a chapa pela qual foi eleito. Nem é ilegítimo na função que era dela e ele agora ocupa, embora tenha sido denunciado pelo procurador-geral da República por delitos que não são perdoados a um reles punguista ou a um magnata de obras públicas arranjadas por gorjetas dadas a hierarcas da administração do Estado.

Os que berram “Fora Temer” na plateia do Rock in Rio, nas reuniões de artistas que se consideram deserdados dos tempos da tripa forra com o erário no Ministério da Cultura ou nos churrasquinhos de laje devorados na Mesa do Senado, em sua quase totalidade, são os principais responsáveis por sua presença no cargo do qual o querem desalojar. Eles o sufragaram em troca da vitória nas urnas do cérebro menos dotado de nossa politica em todos os tempos. Os índices de pesquisas de opinião pública que o isolam no inferno da impopularidade quase absoluta em nada alteram sua vida. Nem a nossa.

Barômetro Político, pesquisa mensal do Instituto Ipsos, calculou o desapreço por sua pessoa (que nunca primou pela simpatia), por sua equipe (que não é um modelo de ética) e por seu governo (valhacouto de medíocres sem credibilidade) em 94%. Isso não indica que os pesquisados estejam dispostos a marchar por seu afastamento. Não devemos nos espantar com isso. A ressaca de 2013 também não impediu o triunfo da chapa de Dilma, da qual ele era o segundo, na eleição no ano imediato. A vitória nas urnas foi comprada, conforme atestam fartas provas queimadas na fogueira de vaidades de ministros do Tribunal Superior Eleitoral, executando o réquiem de sua justiça especial sob a batuta de Gilmar Mendes, ministro da mais suprema, mas não a mais supimpa das Cortes.

Num espasmo de otimismo, impróprio em análise séria da nojeira que é a prática política no Brasil de hoje, muito maior do que a que já era comum em tempos que pareciam mais sombrios, pode-se conjeturar que o povo na rua não derrotou Dilma e Temer na urna. Mas expeliu-a do poder num impeachment que deixou imenso passivo. Se, ainda assim, se aceitar uma conexão qualquer entre as manifestações de 2013 e a deposição de 2016, será para constatar que o pesadelo do maior escândalo de corrupção da História não acabou. Pois apenas foram trocados os mandachuvas. E a desmobilização de hoje é claramente justificável. Ir às ruad pra quê? Pra trocar os dólares na cueca do assessor do deputado José Guimarães por milhões de reais de Geddel Vieira Lima fotografados no apartamento de um laranja? Ora, convenhamos, uma falcatrua oculta de Vaccari e Palocci não justifica anistiar a corrida na porta da pizzaria, piada pronta da metáfora concretizada, mantendo a mochila, mas trocando o portador. Seria contar demais com a proclamada bestialidade do cidadão comum, escorchado, sim, mas não escrachado a esse ponto.

A caradura de Carlos Marun, Beto Mansur e Darcísio Perondi não foi rígida a ponto de livrar o chefinho Cunha e sua deslumbrada consorte de risco de sofrerem incômodos da carceragem do inferno prisional em que as concorrências e a honra dos homens públicos têm idêntico desvalor. Mas mais do que bastam para garantir a permanência de dom Michel no poder. Palmas para eles, pois! Só que até o cinismo no grau praticado por essa escumalha de raposas, que nunca se fartam de fígado gordo de ganso, é insuficiente para evitar as consequências nefastas de sua desfaçatez.

Há quem comemore a queda do recente índice de rejeição do presidente do conselho deliberativo do assalto inicial aos cofres da viúva, Lula da Silva, na citada pesquisa do Instituto Ipsos. Ela seria um feito que demonstraria a imunidade do multirréu perante o cidadão comum. Essa gente carece de umas aulinhas de aritmética. Entre os enxovalhados da pesquisa, o chefão do mensalão e do petrolão é aquinhoado com 59% dos que nunca votariam nele de jeito e maneira. A curva descendente registra também a curva decadente: o número arrefece o ânimo de quem sonha vê-lo de volta ao trono. O consolo que eles podem ter é que o clube dos reis da rejeição tem sócios tão ilustres como o mais visado de todos. O campeão, inalcançável, é dom Michel, o Único, com 94%. Mas há quem chegue perto: caso de Aécio Neves, o príncipe das Gerais, com seus significativos 89%. Mas o sujeito ainda conspira para ser candidato. Não desiste nem correndo o risco de repetir o vexame do dr. Ulysses Guimarães em 1989, na eleição que consagrou o carcará sanguinolento da Alagoas dos marechais, agora de volta á berlinda nà cloaca geral brasileira.

Outros aspirantes ao pódio têm a matemática do segundo turno como adversária fatal. O anestesista Geraldo Alckmin, picolé de chuchu cada vez mais aguado e pretendente confesso, tem 75%. Henrique Meirelles, a esperança branca do chamado mercado, bateu em 66%. Ciro Gomes, salvação da lavoura dos deserdados do lulismo, ostenta 64%. Jair “Boçalnaro”, comemorado nas redes sociais em que batem caixa os nostálgicos da tortura e da corrupção escondidas da ditadura fardada, 63%,  Marina da Selva, que só deixa o seringal na boa, não baixa de 60%. Mesmo João Doria, favorito dos coxinhas dos Jardins e adjacências, figura com 58%. Dos citados escapou o juiz aposentado Joaquim Barbosa, com 41%, num empate técnico com a aprovação de 38%. Sergio Moro, juiz em atividade (e que atividade!), já não desperta os suspiros de antanho, embora a desaprovação que o atinge (45%) seja inferior à metade e superior ao aplauso, manifestado em 48%, num caso em que a unanimidade nacional murchou para uma posição de maioria apertada, mas ainda manifestada.

Pois é, minha gente, a vida no Brasil de hoje não está fácil pra ninguém. Motivos para comemorar devem ter os negociantes de drogas da Rocinha, que dão calor à tropa verde-oliva como antes o conseguiu o jovem Solano López. Resta agora convocar argentinos e chilenos para, em nova Tríplice Aliança, expulsar as tropas de Nem e seus asseclas do território nacional ocupado pela indústria do crime explícito e rastaquera.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Politica, Estadão, na segunda-feira 25 de setembro de 2017)

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No Estadão desta quarta-feira: A República de bananas podres

No Estadão desta quarta-feira: A República de bananas podres

Temer, Janot e Joesley não dão justificativas convincentes sobre as propinas da JBS

Na sexta-feira 1.º de setembro, data da saída do mês de agosto, ou seja, do desgosto, a Secretaria de Comunicação do Palácio do Planalto divulgou nota oficial longa e vazia na qual chamou o marchante goiano Joesley Batista, do Grupo J&F, de “grampeador-geral da República”. Aparentemente, a Presidência da República apontou suas pesadas baterias antiaéreas para derrubar uma flecha de bambu que o procurador-geral, Rodrigo Janot, preparou, segundo anunciaram as trombetas de Jericó, para atingir o presidente Michel Temer com mais uma denúncia criminal.

Em resposta ao desaforo, o maior produtor e comerciante de proteína animal do mundo chamou publicamente o presidente, que está na China em longa viagem de turismo para evitar vaias amanhã, no desfile militar do Dia da Pátria, de “ladrão-geral da República”. É pouco ou quer mais? Joesley disse ainda que Temer “envergonha” todos os brasileiros. Delator da Lava Jato, o desafeto-mor do chefe do governo afirmou, também em nota (que pretensão!), que a colaboração premiada é um direito e o ataque à prerrogativa revela a “incapacidade” de Temer se defender dos próprios crimes.

Temer, Janot e Joesley

Temer, Janot e Joesley

O Palácio do Planalto desqualificou o duplamente contador (de dinheiro e de furtos desqualificados) Lúcio Funaro, que firmou acordo de delação com o Ministério Público Federal (MPF). Segundo vazamentos, este contou que seu silêncio foi comprado por Joesley, dando sentido ao enigma de Temer no Jaburu: “Tem que manter isso, viu?”. Em seu papel de santo do pau oco, Joesley pontificou: “A colaboração premiada é por lei um direito que o senhor presidente da República tem por dever respeitar”. Entrementes, aVeja publicou entrevista do acusador na qual tentou passar de vilão a vítima: “Na hora em que os nossos anexos começarem a revelar outras organizações criminosas, aí talvez a sociedade vá olhar e dizer: ‘Pô, o Joesley teve a imunidade, mas olha como ele ajudou a desbaratar a corrupção’.” O esperto aposta na idiotice geral das otários.

Só que anteontem o precipitado-mor da (des)União revelou dispor-se a cancelar prêmios e manter penas apontadas na delação de Joesley porque se sentiu logrado pelo bamba do abate. E, pior ainda, traído por seu ex-braço direito Marcelo Miller, de quem a Nação inteira já desconfiava por ter deixado o Ministério Público Federal (MPF), tudo indica sem sequer trocar o paletó, para se dedicar à defesa dos donos e executivos da JBS nas tratativas para a referida dita cuja delação premiada. A revelação de que Janot foi ludibriado pelo procurador que virou advogado do delator valeu por uma flechada de metal no próprio pé. As gravações e documentos antes desconhecidos viraram o jogo em favor de Temer.

Para o advogado do presidente, Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, Joesley “não merece nenhuma resposta em face da sua origem e do conhecido comportamento absolutamente reprovável do delator”. Esta reação pífia não encobre o fato de seu cliente ter recebido o insultado para um papo amigável sobre compra de silêncio de réu e de omissão de juízes e procuradores, ao abrigo das trevas do porão do palácio ao qual este fora acolhido sem revista e usando nome que nem era o seu. Gravada, a tertúlia sustentou o depoimento em que se baseou a primeira denúncia de Janot contra Temer.

O tiroteio de baixo calão travado no curral do Jaburu dá bem uma ideia do nível de desrespeito de autoridades e ex-cúmplices tornados desafetos às nossas instituições republicanas. O pior é que ladrão pesa muito mais do que grampeador. Havemos de observar que, na hierarquia dos crimes, o de furtar é muito mais grave do que o de grampear. E nunca foi dada uma resposta à altura. A única seria Temer explicar de forma detalhada e convincente suas relações e seu compromisso secreto e suspeito com Joesley no Jaburu. E Janot pisou no tomate vencido que atirou na lapela presidencial.

Para a Nação, emergindo agoniada da fossa da depressão, não há mocinhos neste faroeste caboclo. Mede-se a culpa de Joesley pelos 2 mil anos de penas perdoadas para contar uma história da qual só revela a parte que lhe convém. O MPF, após seu chefe ter sido insultado de “ingrato” pelo ex-presidente Lula, aparece depois da última confissão como interessado apenas em implicar Temer e o PMDB. Por isso, relevou úteis informações que o delator na certa tem sobre o padrinho mais forte no poder, Lula, que propiciou a um modesto açougueiro do interior de Goiás tornar-se magnata mundial da próspera indústria do abate de bois com juros de banana podre, subsidiados por um banco público.

Não convence o motivo dado por Janot, a 11 dias de deixar o cargo, para o prêmio excessivo a patrões e empregados da JBS: facilitar a investigação. E mais: não apareceu documento algum esclarecendo as razões de o bamba do abate ter merecido tantas benesses após conversas “republicanas” que disse ter mantido com Lula e o então presidente do BNDES, Luciano Coutinho.

Falta ainda o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin ser questionado pelos colegas a respeito da homologação da delação, agora reveladora de que o populacho tinha razão em abominá-la.

No meio desse charivari todo, do outro lado do planeta, Temer comporta-se como São Sebastião catequizando o Extremo Oriente, à espera de flechas bambas de Janot, que nunca pareceu se esforçar muito para investigar o papel de Dilma Rousseff na compra da “ruivinha” em Pasadena. Ou a conexão de Lula e da própria Dilma com contas milionárias que o próprio Joesley informou ter aberto no exterior.

Esta República de bananas podres ficou a mercê de filhotes de César Maia, Fufuca Dantas, José Sarney e Fernando Coelho – estes dois protagonistas de mais um lance com o qual o governo tenta entregar generosas partes da Amazônia a bandidos proibidos de desmatar e garimpar no exterior.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag2A do Estado de S. Paulo na quarta-feira 6 de setembro de 2017)

No Blog do Nêumanne no Estadão: Areia de castelo na ampulheta

No Blog do Nêumanne no Estadão: Areia de castelo na ampulheta

Não é suspeito, aliás, suspeitíssimo, que agora que começaram a reaparecer vestígios de crime da Operação Castelo de Areia, enterrada pelo ex-ministro da Justiça no primeiro governo Lula, Márcio Thomaz Bastos, um juiz de primeira instância venha determinar a destruição das provas?

De fato, é, no mínimo, estranho. O descarte do material foi determinado em 10 de agosto pelo juiz federal Diego Paes Moreira, da 6.ª Vara Criminal Federal de São Paulo. Ele atendeu a pedido da defesa de três ex-dirigentes da construtora Camargo Corrêa – Darcio Brunato, Fernando Dias Gomes e Pietro Giavina-Bianchi. Eles argumentaram que as provas foram anuladas em julgamento do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de 2011.  Em sua fundamentação, o magistrado indicou que a inutilização das provas consideradas ilícitas é prevista no Código de Processo Penal e que a decisão do STJ que anulou a operação não é mais passível de recurso –  situação que na linguagem jurídica é denominada trânsito em julgado.

O ato de fragmentação dos papéis e de apagamento e quebra de mídias chegou a ser agendado para o dia 23 de agosto, mas foi desmarcado, após pedido de vista da Procuradoria da República em São Paulo. Ao devolver os autos à 6.ª Vara, na semana passada, a procuradora da República Karen Kahn citou reportagem da Folha de S.Paulosobre delação de Palocci na Lava Jato e pediu o adiamento do descarte, pelo menos até ser definido o fechamento da colaboração premiada do ex-ministro da Fazenda de Lula.  A procuradora  alegou que a destruição dos volumes da Castelo de Areia poderá prejudicar a apuração sobre as afirmações de Palocci, caso a delação dele seja assinada com a força-tarefa da Lava Jato, conforme informou a assessoria de imprensa do Ministério Público.

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No caderno Aliás, do Estadão: Herói tratado como um vilão

No caderno Aliás, do Estadão: Herói tratado como um vilão

Em “Guerra fria e política editorial”,
a historiadora Laura de Oliveira retrata o editor Gumercido Rocha Dórea como vassalo dos interesses ianques no Brasil

Como qualquer gênero literário, a ficção científica apresenta aos leitores obras de baixa qualidade ou de esplêndida feitura. Por falta de espaço para elaborar uma lista dos piores livros da modalidade, o autor pede vênia ao leitor para ser dispensado de listá-los. É preferível, para quem escreve e para quem lê, elencar textos que alcançaram o estágio do sublime e que serviram de base para narrativas de alta magnificência em outras artes. É o caso de 2001 – Uma odisseia no espaço, do britânico Arthur C. Clarke. Dele foi extraído o clássico de cinematografia com o mesmo título, dirigido pelo americano Stanley Kubrick. É antológica a cena do primata jogando um osso no espaço com o corte da edição permitindo que o espectador o veja transformar-se numa nave sideral.

FR12 SÃO PAULO - SP - 29/08/2017 - ALIÁS - GUMERCINDO ROCHA DÓREA - Gumercindo Rocha Dórea, fundador da editora GRD, que está com 93 anos. FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

FR12 SÃO PAULO – SP – 29/08/2017 – ALIÁS – GUMERCINDO ROCHA DÓREA – Gumercindo Rocha Dórea, fundador da editora GRD, que está com 93 anos. FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

Um livro britânico e um filme ianque. Será a ficção científica uma exclusividade dos vencedores da Guerra de Secessão? Que dizer de Solaris? Nada poderia ser tão pouco imperialista como uma obra dirigida pelo soviético Andrei Tarkovski no tempo em que a União Soviética ainda existia. E mais: a fita é baseada no romance do polonês Stanislaw Lem, no qual também, diga-se de passagem, baseou-se o gringo Steven Sorderbergh, sulista de Atlanta, para produzir sua própria versão em cinema – exemplo do alcance planetário e extra-ideológico do gênero.

O autor destas linhas é de uma geração de brasileiros privilegiados que conheceram a modalidade multinacional sem ter de aprender russo para ler Cem anos à frente, novela de Kir Bolitchov (1978), e assim conhecer a descrição avant la lettre do corriqueiro celular de nossos dias. Ou fruir em inglês corrente a magnífica prosa de Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury. O baiano Gumercindo Rocha Dórea criou uma editora, a GRD, que lançou em português romances, novelas e contos que inspiraram a fundação de clubes de ficção científica pelo País inteiro, permitindo a patrícios monoglotas conhecerem o gênio de Isaac Asimov. Assim como livros proibidos de dissidentes do regime stalinista, como o celebrado Nós, de Ieuguêni Zemiatin. De lambujem, lançou prosadores na língua pátria da estirpe de Fausto Cunha, autor de As Noites Marcianas, Gerardo Mello Mourão, Rubem Fonseca e Nelida Piñon, que dispensam apresentações.

Por causa disso e de muito mais, Dórea sempre foi tratado como herói por cultores do gênero, caso de Bráulio Tavares, meu conterrâneo e contemporâneo de adolescência em Campina Grande, e Ataíde Tartari, paulistano. A historiadora Laura de Oliveira, premiada por sua tese sobre Guerra Fria e Política Editorial, detentora de láureas de saber acadêmico, com texto recentemente lançado em livro pela Universidade Estadual de Maringá, contudo, resolveu reescrever a história, ao feitio stalinista, que Zamiatin denunciou, atribuindo à ficção científica a sórdida condição de mera propaganda imperialista dos EUA e reservando a Dórea o papel de reles vassalo dos interesses da dominação ianque sobre o Brasil na metade do século 20, a soldo do ouro do Forte Knox. Tudo isso porque Dórea nunca escondeu sua condição de integralista, corrente política de inspiração fascista que teve importância na cena política dos anos 30 aos 60, abraçada por políticos e intelectuais como Dom Helder Câmara, San Thiago Dantas e Miguel Reale. Mas dela hoje só restam vagarosas lembranças, como o equivocado ideário autoritário de Plínio Salgado, autor de uma brilhante Vida de Cristo.

A capa do livro não deixa dúvidas quanto a suas intenções e distorções: Tio Sam, de casaca e calça listrada, senta-se no ombro do jovem editor, certamente soprando palavras de ordem para emitir doses fatais de veneno colonialista com o fito de escravizar nossa doce pátria espoliada. Se a capa é grotesca, o texto da autora é pior. Isso deixa a impressão de que a acadêmica foi movida pela intuição de que jamais a própria obra de vulgarização do marxismo-leninismo teria sido publicada por Dórea. Seja por professar ela ideologia antagônica à dele, seja por não ter o texto dela a qualidade exigida por ele na seleção dos originais a serem postos à venda.

Pela leitura do tatibitate menos do que sofrível texto a que a autora expõe o leitor e pelos deslizes editoriais que a tornam uma missão quase impossível, de tão espinhosa (a revisão deixou passar linhas repetidas em algumas páginas), a obra termina por fazer propaganda de Dórea, embora em nenhum momento lhe faça justiça.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no caderno Aliás, Cultura, Pag. 2, Estado de S. Paulo, no domingo 3 de setembro de 2017)

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Sinfac Sp: Palestra de José Nêumanne Pinto

Sinfac Sp: Palestra de José Nêumanne Pinto

 

 

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