Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

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Comentário no Jornal da Gazeta 1: O truque de Lula

Comentário no Jornal da Gazeta 1: O truque de Lula

Truque de Lula será fazer campanha e não registrar candidatura no TSE

(Comentário no Jornal da Gazeta 1 quinta-feira 1;º de março de 2018)

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José Nêumanne na Academia Brasileira de Letras. Dia 6 de março.

José Nêumanne na Academia Brasileira de Letras. Dia 6 de março.

O jagunço e o bacharel

Machado de Assis e Guimarães Rosa. Ligações singulares. Este foi o tema proposto por Carlos Nejar para que eu abordasse terça-feira 6 de março no seminário sobre o autor de Grande sertão: veredas. O que há de mais notável nos narradores Bentinho e Riobaldo, ambos velhos, ambos relatando amores interrompidos ao longo da vida, é que trazem a lume duas figuras luminosas e encantadoras: a serelepe Capitu e a guerreira Diodorim. São relatos pioneiros sobre o mistério, a graça e o veneno da mulher brasileira.

1º Ciclo de Conferências | Guimarães Rosa, escritor e diplomata

1ª Conferência:

Machado de Assis e Guimarães Rosa, ligações singulares.

6 de março de 2018 às 17:30
Academia Brasileira de Letras, Teatro R. Magalhães Jr
Coordenação:
Acadêmico Carlos Nejar
Conferencista:
José Nêumanne Pinto

Entrada Franca / Transmissão ao vivo

Quem não puder ir ao Rio e se dispuser a acompanhar a palestra, poderá fazê-lo on line pelo site: www.academia.org.br

Acessando o site será também possível ver o vídeo da palestra gravada, posteriormente.

ABL

No Blog de Nêumanne: Esquerda infame

No Blog de Nêumanne: Esquerda infame

Socialismo de araque protagonizou mais episódios de infâmia do que de grandeza, que só existe na propaganda

Dois comunistas de origem me serviram de exemplo no início de meus 51 anos de jornalismo: J B Lemos e Marco Antônio Tavares Coelho. Os dois se conheceram na flor da juventude em Belo Horizonte, onde o segundo era da alta hierarquia do Partido Comunista Brasileiro (PCB), conhecido carinhosamente como “partidão” ou pejorativamente como “pecebão”, e dirigia o jornal comunista. Só viria a conhecer Marco em pleno arbítrio dos militares de direita, quando ele foi preso, torturado e usado como exemplo de como os torturadores do regime “tratavam bem” suas vítimas. Lemos foi meu primeiro chefe e o grande líder e orientador de toda a minha carreira. Convivemos praticamente como pai e filho. Os dois fizeram escolhas diferentes: Marco foi comunista a vida inteira, aceitando como inevitável o Tratado Ribbentrop-Molotov, pelo qual Stalin concedeu o prazo de que Hitler precisava para combater nos dois fronts. Os profetas do passado dirão que foi a estratégia certa para deter o avanço da tirania nazista pelo mundo. Certo é que nem a denúncia dos crimes de Stalin por Kruschev, logo depois da morte do tirano, esmoreceu o ânimo de Marco.

Lemos, ao contrário, abjurou a fé marxista-leninista na maturidade e sua justificativa adorável e autoindulgente era a de que o jovem que não tinha sido esquerdista não tinha coração, mas, se mantivesse a mesma fé na maturidade, seria um rematado idiota. Mas isso não valia para Marco, pois os dois foram amigos até a morte, primeiro do capixaba Lemos e depois do mineiro Marco, já que sempre foram cordatos, tolerantes e inteligentes. Recorro à assertiva de meu ex-chefe de reportagem na Folha e diretor de redação do Jornal do Brasil para tentar nestas linhas tecer considerações sobre como os grupos ditos progressistas, que ocupavam o lado esquerdo da Assembleia Nacional à época da Revolução Francesa, enquanto os conservadores se sentavam à direita do presidente da sessão, participaram, apesar de suas juras eternas à sublime solidariedade, da História Universal da Infâmia, genial clássico literário do portenho Jorge Luís Borges.

Infelizmente, desde o Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, de 1848, até hoje, a nobre generosidade socialista nunca saiu do discurso e dos sonhos juvenis, passando a ser impossível servir de guia a gente adulta e lúcida. Não faltam exemplos na História e os primeiros esquerdistas são pioneiros nos piores exemplos de infâmia: o Terror de Robespierre, implacável com o espírito libertário de Danton. O exemplo do século 18 chegou intacto ao século 20, quando o socialismo se definiu como científico após o sucesso dos bolcheviques no golpe militar que Lenine, Trotsky e Stalin aplicaram nos social-democratas de Kerensky na Rússia que virou União Soviética. Eram líderes desumanos e implacáveis no combate à liberdade de opinião, tendo merecido por isso reprimendas de aliados notórios, caso da alemã Rosa Luxemburgo. O terceiro do triunvirato superou os outros com seu ímpeto assassino. Robert Conquest escreveu um clássico da historiografia sobre o império soviético e nele relatou o massacre de 6 milhões de camponeses pela fome na coletivização forçada, por ele imposta. Mas o georgiano não se limitava a ímpetos tirânicos: era um assassino frio e refinado. Cuidou pessoalmente da execução transatlântica de seu camarada, que virou desafeto, Trotsky – da preparação do assassino catalão Ramón Mercader ao desenlace, no México.

Não são escassos os exemplos de stalinistas que se tornaram déspotas liberticidas e assassinos seriais de quem discordasse de sua linha política. O chinês Mao Tsé-tung foi o primeiro de uma lista que abrigou seres abjetos como Pol Pot, no Camboja, Enver Hoxha, na Albânia, e os irmãos Fidel e Raúl Castro, em Cuba. Estes últimos, matadores de liberais, companheiros de jornada, homossexuais e eventuais desafetos, tornaram-se uma espécie de ai-jesus de intelectuais de renome internacional, como o colombiano Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura e vassalo ideológico de grande valia. A infâmia particular a cargo da esquerda latino-americana deve mais a esses tiranetes boçais do que aos senhores de Moscou. Fidel tratou minuciosamente da execução e, depois, da canonização do argentino Ernesto Che Guevara, que virou símbolo mercadológico da bondade humana, mesmo tendo conduzido os fuzilamentos no paredón da fortaleza de La Cabaña; Esse banho de sangue foi inspirado nas leis bíblicas da vingança de talião do “olho por olho, dente por dente”, que cuspiam na Justiça burguesa e na bondade cristã, o que não afasta muitos clérigos católicos e evangélicos adeptos da chamada Teologia da Libertação.

Os frutos podres do castrismo floresceram na América Latina produzindo morte, inanição e atraso. O PT de Lula e Dilma impôs sua gestão corrupta num Estado de Direito que engatinhava no Brasil, admirando à distância a progressiva marcha da democracia para a tirania na Venezuela sob o bolivarianismo de Hugo Chávez. Este conquistou mentes e corações por culpa da democracia de uma elite apodrecida, cujos líderes espirravam sempre que o presidente americano apanhava um resfriado. A caminhada rumo à ditadura brutal e voraz, hoje sob o comando do primário Nicolás Maduro, tem sido acarinhada e louvada pelos petistas e comunistas de partidecos do Brasil e de outros países sul-americanos, a ponto de nenhum dos líderes produzidos por eles, principalmente Lula, Cristina Kirshner, Evo Morales e Rafael Correa, dirigir uma palavra de simpatia e conforto aos refugiados da fome, da miséria e da doença que passam pelas fronteiras dos vizinhos, em particular Brasil e Colômbia, da mesma forma desvalida como o fazem na Europa os expulsos da guerra civil na Síria. Ao contrário, a esquerda caudatária beija os pés do completo idiota Maduro como o fazia com as fímbrias do dólmã de Fidel.

Li sexta-feira 12 de fevereiro no Estado artigo de Fernando Gabeira –  que foi guerrilheiro e exilado na juventude e amadureceu como político e jornalista desde seu livro O que é isso companheiro?, que inspirou filme –  Ao fazê-lo, ocorreu-me refletir sobre o absurdo do abandono desumano a que estão relegados os fugitivos do empobrecido segundo maior produtor de petróleo do mundo. E, ao pensar no tema, vi-me obrigado a refazer a história da solidariedade do tal socialismo, marchando para a evidência límpida de que a esquerda não é infame apenas por volúpia de poder, desprezo à democracia burguesa ou falta de princípios éticos. No Brasil, seus sequazes são fiéis à história e leais a sua tradição de infâmia.

Infelizmente, não me ocorreu um só exemplo histórico de um regime comunista sob cuja égide um país tenha prosperado. Combalida por anos de ditadura bolchevique, a Rússia deixou de ser União Soviética – na qual nunca se realizou o lema “todo poder aos sovietes” – para se tornar valhacouto do crime internacional, cujos chefões são protegidos pelo ex-agente secreto do regime stalinista Vladimir Putin. É um país próspero e seguro e isso dá longa vida ao governante, como explica o poeta paraibano Astier Basílio, que neste momento mora lá. Enquanto isso, a China não deixou de ser comunista para ir avançando e, assim, ameaçar o lugar de líder econômico, militar e político do planeta, os Estados Unidos dos pais fundadores, pelo “igualitarismo socialista”. Mas usa práticas do tempo dos mandarins, como a semiescravidão e o controle policial restritivo dos movimentos migratórios internos, para os quais são exigidos passaportes.

Meu amigo Lobão Woerdenbag Filho avançou no lema de Lemos para contestar Marco quando garantiu que há dois tipos de petistas, definição que serve para esquerdistas brasileiros em geral: cúmplices dos criminosos que saquearam a República e produziram a maior crise econômica da história ou débeis mentais. Já lhe avisei que faltou uma categoria: a dos jumentos. Neste momento em que a UnB se prepara para ministrar curso sobre o “golpe de 2016”, será incompleto omitir a burrice como força política neste país pobre, que empobrece em todos os sentidos, inclusive no intelectual. Afinal, não se pode desdenhar do ínfimo QI de Dilma como uma das principais causas dos 12,2 milhões de desempregados produzidos em seu desgoverno. E ainda há outra categoria que supera as duas definidas por Lobão e a que faltou: a vocação histórica pela infâmia.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 26 de fevereiro de 2018)

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Podcast Comentaristas do Jornal Eldorado: Solução caseira

Podcast Comentaristas do Jornal Eldorado: Solução caseira

Meu Direto ao Assunto abriu o Podcast Comentaristas do Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na manhã da segunda-feira 26 de fevereiro de 2018 comentando a indicação de Raul Jungmann por Temer para o Ministério da Segurança Pública; a perícia da PF reconhecendo como válidos e-mails da Odebrecht que comprometem Lula; o STF quebrando sigilos do inquérito contra Temer; Barroso defendendo o STF em artigo na Ilustrissima da Folha de domingo; a defesa de Aécio contestando o relator Fachin; Cármen Lúcia, prestes a ceder a colegas do STF na questão da prisão pós segunda instância; Marun garantindo ao Antagonista que se confirma conspiração contra Temer na delação da JBS; e Meirelles saindo do PSD para se candidatar a presidente. Alexandre Garcia abordou a economia blindada das incertezas político-eleitorais; e leis que estimulam o crime, com a intervenção no Rio fazendo legisladores pensarem, pois arma em mão de menor matou menino no Rio, chefes de facção foram fuzilados e mulheres fora das prisões. Eliane Cantanhêde falou do furo do Estadão contando sobre Jungmann na Segurança Publica, uma solução caseira bem próxima da que Temer queria prioritariamente, que era Nelson Jobim; do anúncio a ser feito pelo interventor no Rio, general Braga Neto, anunciando o plano de ação (a ver, pois morreu mais uma criança na cidade); da Cartão Vermelho – essa é a operação da vez da PF, agora na Bahia e envolvendo os estádios da Copa; e dos penduricalhos dos juízes que continuam em pauta, desgastando o Judiciário.

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No Blog do Nêumanne: Colarinho sujo

No Blog do Nêumanne: Colarinho sujo

É impossível dizimar crime organizado e assegurar segurança pública e, ao mesmo tempo, afrouxar combate à corrupção

Como todas as iniciativas demagógicas adotadas para algum fim inconfessável e anunciadas como se tivessem por objetivo o interesse público, que dificilmente será alcançado, a intervenção federal sob chefia militar na segurança pública do Rio é, no popular, meia-boca.

O Estado do Rio de Janeiro está clamando por uma intervenção federal por inteiro há muito tempo, desde, pelo menos, a ampla divulgação da roubalheira superlativa que faz do ex-governador Sérgio Cabral protagonista do maior escândalo de corrupção e má gestão da História. E o atual ocupante do cargo (chamá-lo de governador é uma cínica licenciosidade léxica), Luiz Fernando Pezão, não passa de um capataz com carta branca do antecessor, enquanto este passa uma temporada no inferno prisional. Intervir na segurança e mantê-lo no cargo é um acinte para os fluminenses, que terão de continuar a suportar sua óbvia nulidade, e os brasileiros, que pagam a pesada conta secreta para manter essa fantasia de bloco de sujos.

No editorial Uma intervenção injustificável, publicado sábado, este jornal já fez a pergunta que não quer calar: o que aconteceu nos últimos dias que justificasse a decretação da medida radical antes de ser debatida e votada no Congresso Nacional a reforma da Previdência? Ao que se saiba, nada! A crônica do fiasco anunciado na conquista dos três quintos de votos dos congressistas para aprovar a reforma, sem a qual não há remendo possível para as contas públicas nacionais, é mero pretexto.

Em nome da busca desse ideal, Temer nomeou o mais truculento cabo de esquadra das hostes que herdou, no pra lá de baixo clero do MDB – à época ainda com o pê, não o do início de pudor, mas, sim, o do meio de impunidade –, do colega Eduardo Cunha, hoje habitante do Arquipélago Curitiba, onde se encontra Cabral. Carlos Marun na Secretaria de Governo é o erro de pessoa no lugar errado. Nomeado para seduzir parlamentares resistentes a uma causa improvável, ele só sabe rosnar e morder.

Se seria injusto inculpar só o valentão de circo com porrete à mão pela derrota na votação capital para o equilíbrio das contas públicas, sua instalação no Palácio do Planalto, à direita de “deus-pai todo-poderoso”, é a mais completa tradução da desistência sem honra da votação e do pretexto para evitá-la. Marun é subserviente a Eduardo Cunha a ponto de figurar entre os gatos-pingados que tentaram evitar sua cassação pela Câmara e de ir visitá-lo na cela, com passagem paga pelo contribuinte. E Marun não seria Marun se não tivesse confessado, como o fez há pouco, que a única atitude de que já se arrependeu até hoje na vida foi, sob pressão, devolver essa despesa. Pois, para ele, tudo o que o chefe manda é legítimo.

Resta a segunda questão: por que intervir pela metade, se Pezão já renunciou a governar o Estado? Não é o que ele fez ao se acoitar em seu berço, Piraí, para fugir do caos momesco na capital do Estado, depois de ter anunciado um plano de segurança sem dados, comprometimento de verbas nem metas à vista? A única explicação (usar justificativa seria um engano semântico) é a conveniência para os remanescentes palacianos – Temer, Moreira e Padilha –, que preferiram evitar a investigação do que Rodrigo Janot chamou de “quadrilhão do PMDB” a encará-la.

Eles são do mesmo partido de Geddel, que, ainda que viva aos prantos na Papuda, nunca deu nem indício de origem e destino dos R$ 51 milhões encontrados num apartamento em Salvador usado pelo clã, também formado pelo mano Lúcio, da fiel base de Temer na Câmara, e “mãinha” Marluce, acusada de usar o próprio closet como caverna de Ali Babá. São da patota de Rodrigo (nome pelo qual se identificou Joesley Batista ao entrar no Jaburu para gravar o presidente) Rocha Loures, recordista dos cem metros com mala com R$ 500 mil, sem dono nem fiel depositário. E de Henrique Alves, aquele lá das Dunas.

Convém não omitir Jorge Picciani, chefão na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro que conseguiu de Eduardo Cunha a nomeação do filhote Leonardo para a liderança da bancada do então PMDB na Câmara, vendeu o voto dele a Dilma e terminou aderindo ao companheiro de primeira hora, Temer. Por mercê dessa virada dupla, Leonardo Picciani é ministro do Esporte no ano da Copa do Mundo e, ao que indica seu sumiço, deve estar dando expediente na Rússia.

A terceira causa (usar razão seria um escárnio gramatical) da intervenção pela metade é que, despojado do disfarce de presidente reformista em plena Quarta-Feira de Cinzas, o atual chefe-geral da súcia resolveu apelar para o velho refrão da violência como tema de enredo que todos os governos adotam, mas nenhum se arrisca a enfrentar de verdade.

Para isso tomou “na moral” a bandeira de Bolsonaro e apelou para os militares de hábito. Assim foi na Eco-92, nos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Mundial da Fifa em 2014 e na Olimpíada de 2016. Sempre no Rio e com idêntico receituário: um acordo com os chefões do tráfico de drogas, que tiraram férias e deixaram a autoridade brincar de ocupação do Haiti nas praias, longe do seu território. Deu certo enquanto duraram os acordos. E agora?

O problema agora é que um objetivo colide com o outro. A violência campeia porque as Polícias Civil e Militar são corrompidas do topo à base, como constatou Torquato Jardim, “escanteado” ministro da Justiça. E isso só é possível porque os gestores públicos fazem vista grossa após serem comprados como o são os subordinados. Como se reprime o crime organizado se se faz isso para impedir que policiais, procuradores e juízes federais da primeira instância tenham mãos livres para combatê-lo? E isso não é só no Executivo. Quem duvida que o Supremo Tribunal Federal julgue (o que já é um absurdo) e até conceda habeas corpus ao criminoso (condenado por corrupção e lavagem de dinheiro) Lula da Silva? E um fato nega outro.

José Nêumanne

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na página 2 do Estado de S. Paulo quarta-feira 22 de fevereiro de 2018)

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No Blog do Nêumanne: Um ministério pra chamar de seu

No Blog do Nêumanne: Um ministério pra chamar de seu

Temer não sabe o que fazer com a segurança e, por isso, inventou mais um cabide de cargos

O presidente Michel Temer não sabe o que fazer para acabar com a praga que mais assola, ameaça e apavora o cidadão brasileiro: a violência. Isso não é novidade, pois nenhum presidente antes dele sabia. Só que dos anteriores – apenas para lembrar os pós-Constituição de 1988, Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula e Dilma – ninguém imaginou que podia ser tão fácil livrar-se da cobrança pela maior tragédia nacional. E o atual acha que teve uma ideia brilhante, similar à de Cristóvão Colombo quando pôs o ovo em pé: fundar um ministério, nomear um ministro e fazer discursos vazios sem projetos, planos nem relatórios, apenas com boas intenções, das quais, já dizia minha avó, o inferno está cheio.

O ano passado começou com chacinas em presídios em Manaus, Boa Vista e Nísia Floresta, na Grande Natal. O inferno prisional entregou à sociedade brasileira seu cartão de visitas sujo de lama e de sangue. O governo passou unguentos nas feridas abertas e seguiu em frente. Este ano a dose foi repetida, acrescentando aos palcos do horror bárbaro o presídio de Aparecida de Goiânia, na região metropolitana da capital de Goiás, às portas de Brasília. Desta vez, os dados vieram acompanhados com o noticiário trágico da violência urbana no Rio de Janeiro, sede do maior espetáculo do mundo, o desfile das escolas de samba do Grupo Especial. Como o caos ganhou o mundo, o jeito foi inventar uma saída de ocasião para trocar a fantasia de presidente reformista pela de babalorixá da paz entre eleitores. Temer não hesitou: interveio no Rio, que está longe de ser o Estado mais violento do País (é o décimo), e mandou um general tomar conta. O general entrou na liça “causando”. Para ele, o problema do Rio nem era tão grave assim, trata-se apenas de uma invenção da mídia.

Antes de alguém lembrar ao soldado solerte que, se é como ele diz, o que está fazendo na orla da Baía da Guanabara que tanto encantou Cole Porter? Então, seria o caso de lhe recomendar cautela, caldo de galinha e silêncio. Pois, enquanto estiver sorvendo a colherada, não terá de falar a primeira patacoada que lhe ocorrer, como parece ter sido o caso. Em vez de cobrar do militar e de seus superiores, que não são poucos, que moderem o discurso, o presidente resolveu ir ao Rio para anunciar, em tom de comício em fim de feira, algo que poderia ser definido como uma versão política do deus ex-machina do velho teatro grego: um ministério só para salvar a segurança pública. Uau! A notícia foi dada em primeira mão pela repórter Andrea Sadi, da GloboNews, no começo da semana. Consumado e consumido o fato, no domingo à tarde a referida repórter, especialista em bastidores da República dos espertinhos, contou que o presidente se reuniu com seu marqueteiro Elsinho Mouco (que não se perca pelo sobrenome) e o especialista em opinião pública Antônio Lavareda, porque quer usar a calamidade do Rio para se “capitalizar politicamente”. No tempo de Dilma, isso se chamaria sincericídio, mas, como é difícil encontrar sinceridade na confissão, talvez seja mais lógico chamá-la de escorregão nas cascas de banana do vernáculo, que nada tem que ver com isso, coitadinho!

Andreza Matais, que também se adiantou ao anúncio oficial na Coluna do Estadão, advertiu que a medida não é unanimidade no Congresso. Nunca faltará um espertalhão que se sinta incomodado com a esperteza do outro e, por isso, vai querer melar o jogo que não lhe serve. Essa é a esperança que nos resta de que o ovo de Colombo de Temer se espatife. Pois o mínimo que se pode dizer da ideia de jerico é que ela não produzirá nenhum dos efeitos anunciados. Se ministério resolvesse alguma coisa, o da Saúde teria evitado o surto de febre amarela que nos assola um século depois de o trio Oswaldo Cruz, Pereira Passos e Rodrigues Alves haver enxotado a moléstia com o fumacê dos mata-mosquitos na República Velha. Não haveria desemprego, pois o Ministério do Trabalho e todo o aparato da Justiça Trabalhista atuam desde os tempos do Estado Novo de Getúlio, gastando os tubos, sustentando um montão de parasitas, sem nada fazer de útil. E, por fim, a onerosa máquina pública do Ministério da Educação, pelo qual passaram ilustres brasileiros como Gustavo Capanema e Darcy Ribeiro, impediria que o País passasse vexames enormes nos rankings internacionais de aprendizado.

Por enquanto, só dá para saber que a nova pasta de um presidente que assumiu prometendo desocupar gabinetes na Esplanada dos Ministérios terá como primeiro efeito o esvaziamento do Ministério da Justiça, que já foi o primus inter pares (primeiro entre iguais) dos Gabinetes dos velhos tempos, para se tornar o patinho feio do primeiro escalão, hoje. Torquato Jardim, especialista em Direito Eleitoral, não tem o brilho dos titulares da República Velha, como Campos Sales, da democracia de 1946, como Tancredo Neves, ou mesmo da ditadura militar, como Petrônio Portella. Talvez não seja apropriado compará-lo sequer com Francisco Campos, vulgo Chico Ciência, autor da Constituição no Estado Novo. A bem da verdade, ele só saiu do anonimato ao constatar o óbvio ululante, mas incômodo, de que os comandos da Polícia Militar (PM) do Rio estão contaminados pela corrupção. Terá dito a Temer que seria metástase?

Só que agora o ministro acomodado passou a incomodar, porque deixou vazar sua insatisfação com a nomeação do diretor-geral da Polícia Federal (PF), Fernando “Por què no te callas?” Segóvia, abençoado pelo patrono da fina flor da burocracia, José Sarney. E certamente não foi por simpatia ou amor que o chefão do Executivo resolveu tirar o estouvado disparador de patacoadas de baixo de seu guarda-chuva. Oportunidade melhor do que esta não teria: a PF, com armas e bagagens, se mudará da subordinação à pasta mais antiga para ficar sob o pálio do mais novo ministério, qual seja, aquela espécie de procissão do Senhor Morto em busca de Sábado de Aleluia em que se transformará o charco de sangue que Mouco e Lavareda tratarão de transformar em mina de ouro política.

A ensancha não podia ser mais oportunosa. Segovia assumiu a função assegurando que R$ 500 mil numa mala não constitui crime, como se fosse lana caprina um assessor especial e íntimo do chefe da República ser filmado por um delatar correndo com uma mala com essa dinheirama à saída de uma pizzaria. Muitas outras ele disse, mas continua impávido no lugar. Recentemente, o boquirroto desastrado-geral atraiu a ira dos coleguinhas da instituição ao “indicar” (como corrigiu a agência britânica Reuters) o breve engavetamento do inquérito que quer porque quer saber por que cargas d’água a dupla Cunha-Temer tanto insistiu que este até repetiu, em ampliar os prazos de concessão de empresas privadas, uma delas coincidentemente doadora milionária da campanha do MDB agora sem pê nem pudor. E ainda lhes garantiu prorrogações indefinidas de prazo.

Ah, mas aí, segundo garantem os ouvidos menos moucos e mais atentos aos sopros e bafejos do Planalto, a entourage mais próxima de Temer se aborreceu muito com o rapaz. E só porque ele resolveu atender ao pé da letra a todos os desejos do chefe que o nomeou para o distinto posto. E tantas ele fez que o presidente teria resolvido, segundo esses mesmos ouvidores de gemidos e sussurros do pináculo do poder, dar ao pupilo arteiro mandato de três anos, dois deles impostos goela abaixo ao cidadão que ganhar a eleição presidencial de outubro próximo. E com todo esse desvelo cristão, Temer ainda é acusado por maledicentes de ser satanista!

Certo é que o tal Ministério da Segurança Pública vai custar mais uns caraminguás da conta que não será mais economizada da reforma Porcina da Previdência, aquela que só foi por nunca ter sido. Mas, mesmo havendo 12,2 milhões de desempregados espalhados pelas calçadas e pelos abrigos do País, o Brasil é a pátria das oportunidades, e não apenas para refugiados venezuelanos. Então, é o caso de desejar que no novo posto, sob a égide do Marun da vez ou do Ricardo Barros do resto do ano, Fernando “Por què no te callas?” Segovia continuará tendo de calar a boca. Pois foi isso que mandou o ministro do STF Luís Roberto Barroso – o que sempre será um alívio para seu chefe, senhor, protetor e protegido. E incontida alegria dos governadores gastadores, ineptos e incompetentes, que poderão torrar à vontade seus orçamentos e deixar a polícia por conta da viúva rica.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 19 de fevereiro de 2018)

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