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No Estadão desta quarta-feira: A verdade dos fatos contra lorotas no STF

No Estadão desta quarta-feira: A verdade dos fatos  contra lorotas no STF

“Diálogo” proposto por Marinho para evitar vitória de Bolsonaro é AI-5 pela impunidade

Há quem maldiga a exposição das sessões plenárias do Supremo Tribunal Federal (STF) – televisionadas pela TV Justiça e retransmitidas pelos emissoras de all news na íntegra e com trechos em canais abertos – como uma violação da discrição, que se deveria sobrepor à exibição sem pudor da Justiça. Mas, com a relevância das decisões tomadas nessas sessões, a transparência de debates e votos de seus membros é gênero de primeira necessidade na democracia brasileira. O que não quer dizer que seus componentes não se devam resguardar com um mínimo de pudor, nem sempre praticado como teria de sê-lo.

À exceção de Rosa Weber, que não se expõe além dos votos que profere na chamada Suprema Corte, seus dez colegas – uns mais, outros menos, reconheçamos – reclamam do excesso de trabalho interno, mas fazem palestras bem remuneradas e tocam negócios afortunados, apesar de receberem vencimentos usados como teto no serviço público. Incluindo aí o presidente da República. Nessas ocasiões públicas, não se eximem de proclamar seus pontos de vista, antecipando-se a votos futuros, nem sempre coerentes com decisões pretéritas. Da mesma forma, frequentam convescotes aos quais comparecem advogados de réus de causas em julgamento, abrindo-lhes as portas de seus gabinetes e até elogiando-os em suas perorações.

Com o fito de desqualificar agentes, procuradores e juízes federais de primeira e segunda instâncias, fiel à sua pose de rei de Roma, o ministro Gilmar Mendes, por exemplo, definiu o ex-deputado José Roberto Batochio, do PDT, como vítima de assédio moral desses colegas dele da Justiça. A citação não foi apenas imprópria, mas também falsa. Na verdade, o “jurista”, citado como mártir, havia abandonado a defesa do condenado Antônio Palocci porque este queria fazer delação premiada, contra a vontade do seu defensor. Na ocasião, o mesmo ministro acusou seus atuais inimigos de ocasião de corrupção e práticas de tortura. usuais na ditadura.

Para apoiar suas diatribes, Sua Excelência, que se diz “supremo”, adotando o título da instituição, recorreu a uma conclusão não confirmada pelos fatos. Na acusação furiosa ao instituto usado em democracias mais sólidas e antigas do que a nossa, acusou juízes, procuradores e policiais de prenderem acusados para deles arrancarem confissões. Segundo dados da Lava Jato, porém, 84% das delações premiadas foram obtidas pela operação de cidadãos livres.

No caso, mentiu o ministro ou mente a força-tarefa. Qualquer das hipóteses é gravíssima e merece reparação. Contra o ministro pesa, além de acusar e ofender sem apresentar provas, indiscrição sobre a vida amorosa de seus desafetos.

Na troca de gentilezas entre ministros soit-disant garantistas e advogados de réus abonados, Ricardo Lewandowski chegou a elogiar o francês do citado dublê de advogado e político Batochio, que cometeu pelo menos um erro grave em citação que fez do advogado de Luís XVI, Malesherbes. Em três linhas, o pedetista citou um verbo inexistente, “prener”, quando deveria ter usado prendre. Vovó diria que “ele poderia ter dormido sem essa”.

Tudo isso, porém, não passa de lana caprina se comparado à frequência do citado Mendes em ágapes de Temer, investigado pela terceira vez em cabeludas suspeitas sobre a autoria de um decreto de concessões para operar no Porto de Santos. Uma das empresas beneficiadas, a Libra, deve R$ 2,7 bilhões à estatal que administra o terminal. E ainda usufrui o privilégio de não ter a dívida cobrada, mas tornada objeto de uma arbitragem sem fim, por mercê de medida provisória anterior, que, de acordo com o Ministério Público Federal, foi inspirada pelo próprio Temer e por Eduardo Cunha. Os mesmos acusadores garantem que a empresa doou R$ 1 milhão ao partido do presidente, proibido por lei de aceitar doações de concessionários.

Menos ético ainda é o lobby que o Partido dos Trabalhadores (PT) e o presidente têm feito para mudar a jurisprudência, fixada em 2016, autorizando prisão após segundo instância, conforme reportagem publicada sexta-feira 13 de abril neste jornal, da lavra de Andreza Matais e Ricardo Galhardo.

O pior é que a notícia do acordão foi confirmada na ocasião pelo presidente do PT e seu candidato ao governo de São Paulo, Luiz Marinho, em entrevista à Rádio Eldorado. Este reconheceu que, na companhia de Gilberto Carvalho – o “seminarista” da lista de propinas da empreiteira Odebrecht (pivô do escândalo de corrupção que levou o ex-presidente do Peru Pedro Pablo Kucynski a deixar o governo) –, visitou os ministros do STF Gilmar Mendes (sempre ele!) e Alexandre de Moraes para recomendar a mudança da jurisprudência que autoriza a prisão pós-segunda instância. Contou ainda que estabeleceram esse “diálogo” para impedir que Jair Bolsonaro ganhe a eleição presidencial.

Deus do céu! O PT, que insiste em apresentar como candidato o presidiário mais popular do Brasil, condenado em primeira e segunda instâncias e com habeas corpus negados por unanimidade no Superior Tribunal de Justiça e por maioria no STF, apela para o tapetão para impedir que o povo eleja quem quiser presidente. Se o ministro Mendes se assusta tanto com o fantasma do Ato Institucional n.º 5 (AI-5) dos militares, não seria o caso de ter alertado seus interlocutores sobre a natureza autoritária de sua proposta infame? Só que, naquela ocasião, o Estado noticiou que Mendes visitara Temer para lhe propor nomear Alexandre de Moraes ministro da Defesa e, assim, abrir vaga no STF e garantir o voto de desempate a favor das calendas do “trânsito em julgado”.

Felizmente, Moraes publicou domingo artigo na Folha de S.Paulo em que assevera: “Condenações em 2.º grau devem ser respeitadas; a possibilidade de execução provisória de pena fez evoluir o combate à corrupção”. Eureka! Será que a verdade vencerá as lorotas?

José Nêumanne

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Página 2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 18 de abril de 2018)

 

Estadão às 5H: É cela ou comitê?

Estadão às 5H: É cela ou comitê?

Nos períodos de início de ano e durante 2017 e 2018 houve gravíssimos confrontamentos entre membros de grupos criminosos em presídios em Manaus, Boa Vista, Grande Natal e Goiânia. Ninguém na Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal teve a ideia luminosa e corajosa de verificar as condições dessas prisões. A direita e o centro pelo visto nem frequentam as reuniões desse colegiado e, por isso mesmo, a oposição, um zero à esquerda, conseguiu aprovar uma verificação das condições em que o presidiário mais popular do Brasil, Lula, vive na Superintendência da PF em Curitiba. A juíza de Execuções Penais, Carolina Debbos, considerada durona, acedeu e teve início a transformação do local de visitação em comitê de campanha do preso. Este foi um dos assuntos do Estadão às 5, programa da TV Estadão que completa um ano, foi ancorado por Emanuel Bomfim com comentários meus, transmitido do estúdio no meio do jornal e retransmitido ao vivo pelas redes sociais Youtube, Periscope Estadão, Twitter e Facebook na terça-feira 17 de abril de 2018, às 17 horas.

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No Blog do Nêumanne: O umbigo de Lula e o fim do mundo

No Blog do Nêumanne: O umbigo de Lula e o fim do mundo

Prisão de Lula alterou panorama eleitoral no Brasil, repercutiu muito no exterior, provocou visita de inspeção à cela na Comissão de Direitos Humanos do Senado e inspirou artigo de Vargas Llosa, mas o mundo não acabou.

A semana passada terminou e esta começou com, mais uma vez, o eixo da Terra girando em torno do umbigo de Lula. Ao menos cá entre nós

Nos últimos dias úteis da semana passada, por requerimento da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), a Comissão de Direitos Humanos do Senado resolveu inspecionar as condições de habitabilidade da “sala de estado-maior” na qual vive, privado de liberdade, o ex-presidente. Os senadores que farão a inspeção serão os seguintes, além da autora da proposta: a presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, Gleisi Hoffmann  (PT-PR), Ângela Portela (PDT-RR), Fatima Bezerra (PT-RN), Telmário Mota (PDT-RR), Paulo Paim (PT-RS), Lindbergh Farias (PT-RJ), Jorge Viana (PT-AC) e Paulo Rocha (PT-PA).Todos do PT de Lula e do PDT do caudilho Brizola. E ainda que o PT seja um partido grande, a oposição como um todo não consegue ganhar uma votação no Senado e na Câmara. Como foi, então, possível compor uma comissão tão comprometida ideologicamente com a hipótese absurda de que o condenado em duas instâncias e com habeas corpus negado por unanimidade por uma turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e por maioria do plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) tenha sido preso numa situação arbitrária, por decisões meramente políticas, para impedir que ele participe da disputa presidencial de outubro deste ano? É que à votação não compareceu um único senador governista. Foi “gópi”, como diria a professora Bezerra? Nããããããão! Nananinanão! Os governistas não foram porque faltaram e faltaram porque quiseram. Certo? Certo!

Será que algum dos ilustres varões e nobres damas da casa do mandato dobrado têm alguma noção do inferno que é a vida de um preso comum “sem parentes importantes” e nem sempre vindos do interior? Essa ignorância crassa é improvável, pois os meios de comunicação, “aliados da zelite” que mantém Lula preso “para evitar que os pobres possam cursar universidades e viajar de avião” (não é isso que dizem os visitantes?), nunca o omitiram. Um dos mais estrelados burocratas da esquerda em seu segundo reinado, o de Dilma Rousseff, o douto professor José Eduardo Martins Cardozo, não disse que preferia morrer a ser internado num presídio qualquer, mesmo que fosse na Papuda, construído especialmente para abrigar os luxentos parceiros de Sua Excelência, então ministro da Justiça? Pois então, saber os senadores de esquerda sabem, mas não estão nem aí para os pobretões empilhados em celas infectas sem direito sequer a serem soltos quando acabam de cumprir sua pena. Afinal, este é o país da desigualdade crônica e nele os gatunos ricaços que podem pagar causídicos em Brasília têm quem lute por seu direito ao “trânsito em julgado”, enquanto os “pobres, pretos e prostitutas” não têm direito sequer a um alvará de soltura dos sempre solícitos ministros garantistas da Suprema Tolerância Federal (STF).

Esta semana, que ora se inicia, saltou da cama informada de que Lula perdeu seis pontos percentuais em relação aos 37% de intenções de votos na pesquisa Datafolha de janeiro: agora, depois da prisão, está com 31%. Quem esperava que a prisão o tornasse mais querido deu com os burros n’água. Mas também quem contava como certo que a prisão seria fatal para sua popularidade não se deu bem. O índice obtido por um presidiário é espetacular, mas não animaria uma pessoa realista quanto a suas possiblidades de vitória na disputa presidencial. Mais importante, porém, é o fato de que mais da metade (54%) dos entrevistados acha justa sua prisão e que quase a metade (46%) ficou sem pai nem mãe em matéria de nome para clicar na urna eletrônica em outubro (e talvez novembro). Ou seja, o presidiário mais popular do País tornou mais evidente do que sempre foi a orfandade de um eleitorado ao qual não se apresentam candidatos razoáveis em quem votar. A retirada de Lula do cartão de pretendentes não faz nenhum outro candidato crescer. E o que mais impressiona: quando não são indicados nomes, 46% não citam ninguém.

Outro dado relevante da realidade eleitoral brasileira é a insignificância da Justiça Eleitoral. Segundo a manchete do Estado de domingo, “sem regras, pré-campanha se transforma em vale-tudo”. Calma, ainda não é a campanha, é pré. Assim como não há presidenciáveis, mas apenas e tão somente pré (de pretensos ou de pretensiosos?). Por exemplo, Guilherme Boulos, líder inconteste e insubstituível do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Sua Excelência se vale da mesma bagunça de território sem lei, garantida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Enquanto apenas são pretensos, os ainda não candidatos se valem do fato de que a Justiça Eleitoral só aceita que a campanha comece quando de fato a lei autorizar que comece, numa inversão do que o Velho Guerreiro, Abelardo Chacrinha Barbosa, definia como o começo e o fim de seu programa de palhaçadas. Refiro-me à palhaçada profissional, aquela cheia de graça e da qual os brasileiros tanto gostam. Pois, então, na pré-campanha vale fazer caravana, como o presidiário mais popular do Brasil, Lula do PT, já fez. Vale também meter a mão na orelha de repórter abelhudo, como Ciro Gomes meteu. E vale violar a lei que proíbe racismo e qualquer outro tipo de discriminação, como habitualmente perpetra Jair Bolsonaro, o único fascista assumido de uma plêiade de fascistoides.

Lula ameaçou pôr nas ruas o “exército do Stédile”, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), todos armados de pneus fumegantes para impedir sua prisão. Deu em nada. Mas para não ficar na lenga-lenga, o coleguinha pretenso presidenciável Guilherme Boulos invadiu com sua tropa de falsos famintos o triplex na Praia de Astúrias, destino à beira-mar de pobres como o preso (apud Eduardo Paes, velho aliado da tribo do Leblon). Danem-se os moradores do edifício Solaris, no qual se situa o triplex do condenado. Os invasores arrombaram o portão, ou seja, patrimônio particular. Mas para provar que João Trabalhador Doria se engana quando o chama de Márcio Cuba, em vez de França, e mesmo sendo do Partido Socialista Brasileiro, é também governador e candidato a governador de São Paulo, mandou a PM expulsar os invasores para proteger moradores e o tríplex que Moro arrestou. Pois seria estúpido, até louco, deixar prosperar essa molecagem que Lula mandou Boulos fazer.

E, para ninguém dizer que o mundo girando em torno do umbigo do padim de Caetés não será lembrado neste texto herético, após ter registrado a preocupação dos senadores com o conforto do chefão e a sanha dos invasores de apartamentos alheios, vou direto agora ao noticiário internacional. Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, solidarizou-se com Lula. Adolfo Pérez Esquivel, o único argentino que já torceu por um brasileiro na História, quer o Prêmio Nobel da Paz para o companheiro que só fala em guerra. E Dilma Rousseff, tatibitate em qualquer idioma, percorre o exterior para contar que “carregaran Lula en los ombros”, num portunhol de chanchada.

Jornais internacionais importantes elogiaram Moro e a Lava Jato e consideraram a prisão de Lula um avanço na democracia brasileira. O New York Times, liberal, escreveu que a Lava Jato foi um “duro golpe contra a corrupção no maior país da América do Sul”. E, para oMonde, de tendência socialista, a prisão de Lula mostra que este “não é um ato político” e Lula “não está acima da lei”.

Em artigo publicado no EstadoLula atrás das grades, o Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa escreveu que “é bom, para a América Latina, que pessoas como Marcelo Odebrecht ou Lula da Silva tenham sido presos depois de terem sido processados, concedendo a eles todos os direitos de defesa que existem num país democrático. É muito importante mostrar em termos práticos que a Justiça é a mesma para todos, os pobres diabos que são a imensa maioria e os poderosos que estão no topo graças ao seu dinheiro ou suas posições.”

De tudo isso o mais importante a registrar é que o mundo não acabou com o recolhimento do ex-presidente mais popular do Brasil a uma prisão, o primeiro condenado por crimes comuns na História. O resto, como se dizia na Campina Grande de minha adolescência e se diz até hoje por lá, “o resto é palha”. Ou melhor, “paia”.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, segunda-feira 16 de abril de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/o-umbigo-de-lula-e-o-fim-do-mundo/

No Blog: Nêumanne entrevista Paulo de Tarso

No Blog: Nêumanne entrevista Paulo de Tarso

Memórias implacáveis de um guerreiro

“Lula já era chamado de traidor quando liderava greves”

Paulo de Tarso em entrevista a José Nêumanne Pinto

Ex-guerrilheiro que participou do sequestro do embaixador Elbrick, fundador do PT e primeiro militante a denunciar corrupção em administrações petistas diz que Lula sempre foi beneficiado por vista grossa de companheiros

Paulo de Tarso hoje

Paulo de Tarso hoje

Lula, o metalúrgico, já era acusado de “traidor” (embora as palavras usadas não tenham sido estas, mas outras bem mais pesadas) por seus adversários quando liderava greves. Quem relata isso não é um golpista, fascista ou inimigo da classe trabalhadora, mas um ex-guerrilheiro que participou do sequestro do embaixador dos EUA, Charles Elbrick, fundador do Partido dos Trabalhadores (PT) e militante encarregado de gerir as finanças de duas prefeituras importantes conquistadas pelos petistas no Estado de São Paulo – Campinas e São José dos Campos. O economista e dono de jornal Paulo de Tarso Venceslau tem memórias implacáveis de uma vida dedicada à militância esquerdista na política, que inclui a pioneira denúncia das maracutaias dos ex-prefeitos petistas Jacob Bittar e Angela Guadagnin, em histórica entrevista ao repórter Luiz Maklouf de Carvalho no Jornal da Tarde.

Mandei por e-mail dez perguntas para que ele mas respondesse e com elas estreio uma coluna no Blog do Nêumanne – Dez perguntas para… -, a ser publicada semanalmente. O primeiro destinatário das questões nasceu em Santa Bárbara do Oeste, SP, em 1943, e passou por Piracicaba e Campinas antes de chegar a Taubaté, em 1955, onde fixou residência e hoje dirige o jornal Contato. Estava no Centro Tecnológico da Aeronáutica quando estourou o golpe militar de 1964. Um ano depois, estudou economia na USP. Militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), foi preso de 1969 a 1974. Da primeira mulher, a teatróloga Consuelo de Castro, teve um filho, Pedro, nascido em 1975. Cursou mestrado em sociologia e doutorado incompleto na Unicamp. Fez todos os créditos, mas não defendeu tese.

Nêumanne – O senhor participou do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, no Rio, e logo em seguida, seu líder na Ação Libertadora Nacional, Carlos Marighella, foi executado em São Paulo. Depois, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, mas também o primeiro a denunciar o roubo de petistas nas prefeituras de Campinas e São José dos Campos. Agora viu pela televisão o maior líder operário do Brasil, Lula da Silva, preso por corrupção e lavagem de dinheiro. Em qual desses momentos capitais da História do Brasil sentiu mais forte a convicção de que John Lennon, herói pop da sua e da minha geração, estava certo quando disse que “o sonho acabou”?

            Paulo de Tarso – Minha geração viveu um sonho que pregava uma revolução. As revoluções cubana e chinesa ambientaram grande parte desse sonho. A resistência vietnamita que derrotou o poderoso Exército norte-americano soava como uma sinfonia em nossos ouvidos. Uma viagem a Cuba e o fim da União Soviética foram ingredientes que contribuíram para eu acordar do sonho. E a comprovação de que o Partido dos Trabalhadores não passava de um partido igual aos demais me tirou do pesadelo de que eu não queria acordar. Pior é constatar que os jovens de hoje não sabem sequer o que significa um sonho.

Ficha de Paulo de Tarso na polícia na ditadura

Ficha de Paulo de Tarso na polícia na ditadura

N – Talvez sua primeira decisão pessoal importante com repercussão histórica tenha sido quando aceitou participar do sequestro do embaixador Elbrick. Seu líder à época, Carlos Marighella, opôs-se vigorosamente à decisão, achando que o ato seria o começo do fim da resistência armada à ditadura. Quando constatou que ele estava certo e o senhor havia cometido um erro? Arrependeu-se alguma vez por isso?

           PdeT – Minha trajetória política foi diferenciada. Não começou pela teoria. Constatei na prática a resistência silenciosa ao golpe quando militares e engenheiros do então Centro Técnico da Aeronáutica, o CTA, em São José dos Campos, no interior de São Paulo, ouviam clandestinamente uma rádio gaúcha que transmitia discursos do governador Leonel Brizola. O CTA era um órgão público e o presidente da República era João Goulart. Eu testemunhei, depois que passei a viver na capital paulista, como a Sadia se utilizava do aparato do Estado como se fosse sua propriedade. Eu fui preso no largo da Concórdia, em São Paulo, em 1966, cantando com centenas de colegas “Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós”. Eu participei da ocupação da Assembleia Legislativa paulista, em 1967, que impediu a privatização da USP. Eu participei do movimento estudantil, em 1968, que culminou com o conflito com estudantes do Mackenzie e testemunhei oficiais do Exército fornecendo armas e insuflando os mackenzistas de direita. Quando foi decretado o Ato Institucional n.º 5, o AI-5, em dezembro de 1968, eu estava devidamente preparado para participar da resistência armada à ditadura militar. Nunca me arrependi dessa decisão. Eu acreditava que não havia outra via. Marighella só soube do sequestro depois de realizado.

N- Antes mesmo de denunciar as gestões petistas em Campinas e São José dos Campos, o senhor demonstrou lucidez até premonitória quando apontou e combateu internamente os erros dos grupos armados da resistência à ditadura militar. Foi por isso que passou, então, a ser acusado de ter denunciado ex-companheiros de armas?

            PdeT – Pergunta prejudicada. Nunca combati internamente os erros dos grupos armados. Quando aderi ao PT com parte de meu grupo, acreditávamos que seria possível imprimir uma linha revolucionária. No comício do Lula em 1982, por exemplo, então candidato a governador, meu grupo fez a segurança armada. Estávamos convencidos de que o sistema não permitiria a ascensão de um líder operário que vivia na periferia de São Bernardo. Minhas divergências internas na ALN foram motivadas pelas disputas pelo poder que um companheiro ambicioso moveu. Foi preso e assassinado no começo dos anos 1970. Mas, para mim, foi um sinal de que aquele não seria o melhor caminho. A construção do PT foi decisiva para eu mudar de opinião. O comício de 1982 foi minha última aventura na resistência armada.

N – É improvável que em sua época de guerrilheiro o senhor não tenha ouvido falar nas evidências segundo as quais José Dirceu era, pelo menos à época, agente infiltrado do regime cubano na esquerda armada no Brasil. Por que, então, e quando o comando da operação do sequestro do embaixador, cujo propósito inicial era libertar Vladimir Palmeira, da Dissidência Comunista da Guanabara, aprovou a inclusão de Dirceu na lista dos companheiros a serem trocados por Elbrick? O senhor tem hoje algum indício de que o mesmo Dirceu tenha participado do sequestro e execução do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel?

            PdeT – A origem da ideia sobre o sequestro do embaixador norte-americano surgiu depois do Congresso da UNE em Ibiúna, quando a repressão manteve presas as principais lideranças estudantis: Vladimir Palmeira (a liderança mais expressiva), Luís Gonzaga Travassos (presidente) e José Dirceu (candidato das dissidências comunistas que disputaria com um candidato da Ação Popular, a AP). O objetivo de libertar apenas essas três lideranças estudantis foi ampliado pelo dirigente Joaquim Câmara Ferreira, já no Rio de Janeiro. José Dirceu sempre fez parte da lista. Os boatos sobre a relação de José Dirceu com o aparato de segurança cubano surgiram depois que ele começou a disputar espaço dentro do PT. Sobre seu envolvimento com o assassinato de Celso Daniel só sei o que foi divulgado pela imprensa.

N – No dia em que José Sarney, eleito vice-presidente no Colégio Eleitoral, foi empossado, por impedimento de Tancredo Neves, agonizante, o senhor estava no interior da Bahia trabalhando na formação política de camponeses. O que levou à desconfiança de que a luta tinha de continuar durante a chamada Nova República? Ou seja: como Lula e o PT, que expulsou os militantes que votaram no Colégio, o senhor achava que Maluf e Tancredo seriam “farinha do mesmo saco”?

 Paulo de Tarso na UFBA em 1968 preparando congresso da UE

Paulo de Tarso no rio São Francisco em 1968

            PdeT – Naquela época eu já acreditava na necessidade de se construir uma organização política de massas. A força dessa organização (movimento) é que influenciaria o PT. A hegemonia seria disputada democraticamente dentro do partido. Mas não tinha nenhuma ilusão: Maluf e Tancredo eram “farinha do mesmo saco”.

N – Logo depois, contudo, o senhor esteve entre os fundadores do Partido dos Trabalhadores, o fato mais revelador de que a geração dos “guerreiros do povo brasileiro” tinha desistido da revolução e decidido participar da tentativa de conquista do poder pelo voto democrático burguês. O que o convenceu de que esse seria realmente o passo à frente a ser dado?

            PdeT – Na minha opinião, foi o rumo tomado pela revolução cubana. Quando lá estive no começo dos anos 1980, constatei na prática que não era aquilo que eu queria. A prisão e o assassinato de um dirigente cubano que havia lutado em Sierra Maestra e alguns detalhes da luta interna naquele governo foram a gota d’água. Além disso, fiquei horrorizado com o requinte da recepção oficial (imagino como foi a informal) ao Lula, que ainda não havia disputado qualquer eleição nacional. A luz amarela já estava acesa.

N – Foi também pelas mãos de José Dirceu que o senhor foi nomeado secretário das Finanças das gestões petistas de Jacob Bittar em Campinas e Ângela Guadagnin em São José dos Campos. Nelas descobriu que havia uma rapina que desmoralizaria o partido e a própria esquerda. Em que momento teve consciência disso? Por que resolveu tornar públicas as suas descobertas? Nessas prefeituras paulistas estava sendo gestado o ovo da serpente que resultou nos escândalos do mensalão e do petrolão?

Paulo de Tarso na UFBA em 1968 preparando congresso da UE

Paulo de Tarso na UFBA em 1968 preparando congresso da UE

            PdeT – Apesar de minha relação com José Dirceu, eu sempre tive vida política própria. Em termos locais, fui presidente do Diretório do PT de Pinheiros, um dos mais cobiçados da capital paulista; e fui por dez anos um dos editores da revista teórica do PT – Teoria e Debate. Profissionalmente, como economista, eu era funcionário da Emplasa, a Empresa Metropolitana de Planejamento. E o PT tinha poucos quadros militantes para assumir certas tarefas. Em Campinas, substituí um colega de faculdade e fui avisado de problemas que teriam acontecido. Quando apareceu Roberto Teixeira oferecendo serviços que maquiavam o assalto, tive um bom apoio de companheiros que permaneceram na secretaria das Finanças para recusar a oferta. Mas sofri pressões. Jacob Bittar chegou a me levar para conversar pessoalmente com Lula. O conflito em Campinas aumentou e decidi cair fora. Em São José dos Campos, Roberto Teixeira apareceu logo no começo oferecendo o mesmo serviço: consultoria para revisar o ICMS, principal receita municipal. O serviço seria uma operação de risco: a empresa CPEM ganharia uma participação do que fosse recuperado. Aparentemente, um negócio como outro qualquer. Mas acabei descobrindo que a CPEM corrompia funcionários das grandes empresas, responsáveis pelo cálculo do ICMS. Esses funcionários cometiam “erros” que seriam “descobertos” pela consultoria. Como não era crime, eles “refaziam os cálculos”, aumentando a quota-parte do município, a CPEM recebia uma parte e pagava aos funcionários que haviam cometido “os erros”. Eu fui pessoalmente informar Lula sobre o que estava acontecendo. Ele pediu que Paulo Okamotto marcasse e me acompanhasse em entrevista com Roberto Teixeira. Ou seja, entregar o ouro ao bandido. Eu dispunha de farto material que comprovava minhas denúncias. Teixeira insistiu para que eu não revelasse o que havia descoberto e que juridicamente ele daria um jeito. Logo depois fui demitido pela prefeita Ângela. Não posso afirmar que foi o “ovo da serpente”, mas tenho certeza que foi um bom laboratório.

N – A seu ver, qual foi o maior responsável pela degringolada moral do PT e  da esquerda em geral nos escândalos de corrupção: a desistência de “lutar contra tudo o que está aí” e compor com a velha oligarquia corrupta da República desde os tempos do coronelismo de antanho ou a trágica descoberta da prática da sabedoria do povo de que “quem nunca comeu mel quando come se lambuza”?

            PdeT – O maior responsável foi a conivência do PT com o que Lula fazia de forma escancarada. Se houve exceção, não sei. Pelo menos nunca ouvi ou li qualquer iniciativa. Afinal, os personagens estão aí até hoje: Lula, Okamotto, Teixeiraet caterva que se locupletaram. Palocci que o diga.

N – Em que momento de sua relação com Lula o senhor descobriu que ele nunca foi de esquerda e sempre foi um espertalhão malandro da estirpe de gestores que compõem a longa galeria de cleptocratas brasileiros: Chalaça, Adhemar de Barros, Moisés Lupion, Haroldo Leon Peres, Paulo Maluf e agora Eduardo Cunha e Sérgio Cabral? Até que ponto a admiração atávica do brasileiro pelo estelionatário finório ajudou a reforçar o carisma dele?

            PdeT – Sempre soube que Lula nunca foi de esquerda. Sempre soube de suas negociações com empresários durante a luta sindical (greves). Eu militava no movimento sindical quando testemunhei militantes muito bravos com o fim da greve de 1979, a que Lula se referiu no seu discurso no último sábado. “Traidor” era a única expressão publicável. Testemunhei a traição de Lula à campanha de Waldemar Rossi para a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo para impedir o surgimento de uma liderança num sindicato muito maior que o de São Bernardo. Minha opinião foi formada com base em dados por mim vividos. Infelizmente, Lula foi cooptado pelo sistema com o apoio de seu compadre e a vista grossa de dirigentes que não queriam reconhecer o óbvio. A chegada ao poder – Presidência da República – apenas consolidou e alargou seu campo de operação, que ainda seria ampliado com novas e ambiciosas alianças.

N – Agora que os empresários e burocratas corruptos, além dos políticos e militantes Dirceu, Palocci, Cunha, Cabral e Lula estão presos e ainda há muitos a prender em todos os partidos – e não mais apenas os pobres, pretos e prostitutas, como de hábito no decorrer de nossa juventude, à época da impunidade –, você diria que o novo sonho a alimentar a luta dos cidadãos de bem ou que está fadado a morrer em breve seria a Operação Lava Jato?

            PdeT – Não acredito em milagres. A Operação Lava Jato poderá ser um excelente detonador de novas e promissoras iniciativas. Nada além disso, até porque os empresários e burocratas malandros já estão elaborando novas formas de corrupção para assaltar os recursos públicos. Um partido que tenha como base princípios, valores e uma prática honesta e competente poderá, quem sabe, ser o primeiro passo para que seja retomado um sonho.

Nova coluna do Nêumanne: Dez perguntas a... Primeira edição, 12 de abril de 2018. Entrevista a Paulo de Tarso.

Nova coluna do Nêumanne: Dez perguntas a… Primeira edição, 12 de abril de 2018. Entrevista a Paulo de Tarso.

Podcast Estadão Notícias: O vaivém do PEN

Podcast Estadão Notícias: O vaivém do PEN

Às vésperas da sessão do STF para a qual o relator das ADCs que põem em questão a jurisprudência que permite a prisão após condenação em segunda instância, o PEN divulgou a notícia de que pretende  retirar sua ação, uma das três previstas, porque não era sua intenção beneficiar com ela o adversário Luiz Inácio Lula da Silva. Quem tem inimigos como esse não precisa muito de amigos, primeiro porque tenta recuar de algo de que não pode recuar e, depois, porque revela na maior candidez a sórdida razão. Deus nos livre. Este é meu comentário no Podcast Estadão Notícias, que contém também entrevista com o candidato à Presidência João Amoêdo e que está disponível no  Portal Estadão desde a terça-feira 10 de abril de 2018, às 6 horas.

Para ouvir o Podcast clique no link abaixo:

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No Blog do Nêumanne: Milhões de Lula

No Blog do Nêumanne: Milhões de Lula

Única forma que poderia redimir ex-presidente petista dos estragos dos desgovernos dele e de sua pupila tatibitate, Dilma Rousseff, seria distribuir os milhões de dólares que furtaram a trabalhadores que desempregaram

No circo mambembe que montou defronte ao edifício do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, no qual contou com a cumplicidade de uma pastora (como é mesmo o nome dela?) e do bispo dom Angélico Sândalo Bernardino, que não é um anjo nem cheira a madeira perfumada, Lula disse que não é “mais uma pessoa, mas uma ideia”. Ou seja: se estivesse jogando cartas com Jesus Cristo, tê-las-ia atirado à mesa e berrado com o que lhe restasse de voz e bafo: truco! Pois o filho de Deus feito homem teria multiplicado peixes para saciar a fome dos prosélitos que ouviram seu sermão da montanha, enquanto Lula teria obrado o milagre de multiplicar-se em almas de milhões de brasileiros.

Levado ao extremo, tal delírio blasfemo pretende encarcerar na “sala de estado-maior” da Polícia Federal (PF) em Curitiba, e só por sua pretensão embriagada – não a população brasileira, cuja maioria festejou com foguetório a reafirmação do Estado de Direito no País – pelo menos um terço dela, que continua fazendo autos de fé genuflexos ao bezerro de ouro. Ao produzir material de propaganda eleitoral na sede do lugar do qual emergiu para um sucesso político sem igual na História, o líder das greves da virada dos anos 70 para os 80 e levantador de postes no século 21 mira exclusivamente a cruzada para evitar que os votos da esquerda mingúem. E que o PT seja soterrado por uma onda oponente nas eleições federal e estaduais, aprofundando o fosso escavado nos últimos pleitos municipais.

Como deixou claro, em entrevista ao Globo, Enilson Simões de Moura, o Alemão, militante do MR8 que tinha o encargo de medir a opinião da massa nas assembleias de grevistas no Estádio de Vila Euclides, Lula nunca foi, não é nem será de esquerda. Sua ideologia política, segundo o antigo lugar-tenente, é a de torneiro mecânico, que, aliás, professou durante muito pouco tempo. Na verdade, pelo menos depois que foi eleito duas vezes e elegeu em conluio com o PMDB de Michel Temer a tatibitate profissional Dilma Rousseff, Lula reza no altar das cédulas verdes do dólar. Ou seja, do bezerro de ouro dos apóstatas que negaram Moisés no Sinai. Mas nunca deixou de recorrer à esquerda armada e a prelados da Teologia da Libertação para se dar bem na vida. A esquerda brasileira sempre foi esfacelada e se dizia que só se unia na cadeia. Lula uniu-a em torno do furto generalizado com o qual seus militantes, aliados às velhas raposas da política tradicional, esvaziaram todos os cofres públicos no País. Quando, juntos, fundaram o Partido dos Trabalhadores, ex-guerrilheiros, prelados marxistas e sindicalistas sob a égide do retirante de Caetés diziam que lutavam “contra tudo o que está aí”, o que incluía a corrupção sistêmica.

Hoje todos brigam pela manutenção da velha impunidade contra federais, procuradores e juízes que a combatem em primeira e segunda instâncias e nas operações como a Lava Jato e outras, que conseguiram o feito espetacular de acabar com o paradigma de que só são presos pobres, pretos e prostitutas. O maior empreiteiro do Brasil, Marcelo Odebrecht, está em prisão domiciliar na mansão no Morumbi. Ícone da roubalheira na ditadura militar, Maluf também fica entre os Jardins e o hospital, destino inexorável depois do tempo que se perdeu até prendê-lo. E o criminoso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro na segunda instância, na qual se encerra o trânsito em julgado em matéria fática, Luiz Inácio Lula da Silva, foi preso, um “sonho de consumo” não do juiz que expediu seu mandado de cadeia, mas da maioria dos brasileiros, cuja vida ele desgraçou. O que resta do PT e da esquerda em geral está ao lado dos chefões das quadrilhas partidárias protegidos pelo foro privilegiado, que os mantém a salvo de processos e até inquéritos (caso do presidente Michel Temer), que fatalmente lhes reservariam destino similar. A prioridade zero dessa patota é garantir a vigência do acordão tácito. Mas ela foi surpreendida pelo voto coerente de Rosa Weber no Supremo, negando habeas corpus ao chefão por seis a cinco, e, antes disso, por decisão unânime de turmas do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), em Porto Alegre, e do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília. Nove a zero.

Os sermões depois do serão à frente da sede do sindicato revelam – de parte do bispo dissidente, que falou ao arrepio dos colegas e da instituição, que não respeita – a cristalina demonstração de que a nostalgia da ditadura militar não é exclusiva da direita chucra. A esquerda de vocação ditatorial tem dois motivos fortes para sabotar e solapar a democracia, pela qual a sociedade brasileira tem lutado e à qual tem sido fiel em sua vigência. A primeira delas é que seus inspiradores – Marx, Engels, Lênin, Stalin e Trotsky – sempre desprezaram o que chamavam de liberalismo. A esquerda agora demoniza o “neoliberalismo” burguês. Os grupos que pegaram em armas contra a ditadura fascistoide no Brasil não o fizeram para democratizar o País, mas para aqui instalar uma ditadura comunista. Foram massacrados em porões de quartéis e delegacias, mas sempre mantiveram a fé nos dogmas marxistas da ditadura do proletariado. Por isso mesmo, continuaram venerando tiranos como os irmãos Castro e seus vassalos bolivarianos Chávez, Maduro, Correa, Morales e Kirshner.

O outro motivo advém das torturas e execuções que atingiram alguns desses jovens tidos como idealistas. As barbaridades cometidas pelo regime do arbítrio serviram de pretexto para o oblívio pelo martírio. As vítimas da ditadura militar, fossem democratas ou vassalos das elites dirigentes dos partidos comunistas, passaram a gozar do perdão generalizado simbolizado pela expressão “guerreiros do povo”. E a lengalenga de São Bernardo no sábado 7 de abril reflete essa nostalgia da ditadura do algoz.

A saudade do passado de tirania em que os inimigos ferozes eram usados como avalistas da santidade de quem se propunha a lutar contra eles já se havia manifestado na peroração do advogado de Lula no Supremo, José Roberto Batochio, que apelou para Malesherbes (em francês macarrônico, no qual trocou o verbo prendre por ‘prener’), advogado de Luís XVI, guilhotinado. Não citou os girondinos, revolucionários liberais, como Danton, adversário do jacobino Robespierre, lembrado como réprobo pelo advogado do principal líder populista (“do povo”) no Brasil. E se cristalizou no discurso em que o criminoso. esperneando contra a prisão, incitou a massa à desordem e à rebelião e atacou aparelhos e pilares do Estado de Direito: polícia, Ministério Público, Justiça, direito de ir e vir da cidadania e liberdade de informação, expressão e opinião, entre outros.

No entanto, felizmente, esses ataques à democracia não serviram sequer para reagrupar as forças políticas com as quais o condenado imagina retomar o lugar que já foi seu no proscênio do teatro político nacional. A seu palanque armado para o sermão após o serão no sindicato não compareceram importantes militantes do PT. Tarso Genro, Olívio Dutra, Jaques Wagner, ex-chefe da Casa Civil de Dilma, Rui Costa e outros petistas do núcleo baiano do partido não foram apoiá-lo: a bem da verdade, o politico mais importante presente à “vigília” sindical foi o ator de novelas Osmar Prado, que só deu um recado à militância: “As mulheres também traem”. No que foi entusiasticamente aprovado pelo mais popular presidiário do País. Ciro Gomes, presidenciável esquerdista mais bem colocado nas pesquisas, faltou e foi excomungado com uma negativa de apoio a suas pretensões eleitorais – promessa que só pode ser respondida com uma gargalhada. Marina Silva, antigamente a voz ecológica de Lula e do PT, não poderia se solidarizar, pois no lançamento de sua candidatura a presidente pelo Rede Sustentabilidade disse que “a lei é para todos”.

A maioria da população brasileira, que recusa a duvidosa honra de se tornar um Lula a mais, confia que neste ano eleitoral a discussão política não se limite à fantasia paranoica de um criminoso tentando fugir da Justiça e se fingindo de perseguido por uma conspiração impossível. E mártir de uma causa pela qual nunca lutou, seja como sindicalista de resultados, seja como dirigente de um Estado que agiu como um Robin Hood com amnésia alcoólica: roubou dos ricos e se esqueceu de distribuir aos pobres, como circula no implacável Twitter. Deste panorama visto da ponte  se conclui que o melhor que Lula teria a fazer seria distribuir os milhões de dólares que furtou dos 13 milhões de desempregados pela politica errática dos três mandatos e meio do partido que fundou.

José Nêumanne

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne no Portal Estadão segunda-feira 9 de abril de 2018)

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