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Nêumanne entrevista Aninha Franco

Nêumanne entrevista Aninha Franco

Solitária opositora de ACM e do PT, Aninha Franco, agitadora cultural em Salvador, vê luz no fim do túnel na sociedade “indignada, assustada, espoliada”

“Somos ex-colônia há pouco tempo, pois considero o Império um prolongamento colonial. Há 130 anos, humanos escravizados percorriam essas ruas do Pelourinho onde o Olodum percussiona e a República resiste ao populismo. Nossas Repúblicas Velha, Nova, Novíssima ainda não fizeram nada para humanizar esse passado”, dispara a poeta, dramaturga e, sobretudo, agitadora cultural que administra um espaço de prosa, poesia e gastronomia, a República Af, no Pelourinho, centro de sua cidade natal, Salvador, capital da Bahia de todos os santos. Militante petista à época do mando de Antônio Carlos Magalhães, hoje ela é pólo da oposição ao PT do novo patriarca, Jaques Wagner, o Jaquinho, favorito na disputa pelo Senado em outubro. No meio do atual conflito entre mortadelas e coxinhas, ela afirma, sem titubear: “Por experiência, devo dizer que ACM foi um opositor muito mais gentil que Jaques Wagner”. E quem quiser que negue.

Aninha Franco, nascida em 1951 em Salvador, naBahia, é leitora voraz e exigente, escritora de publicações homeopáticas. Hedonista. Assentadora de espaços culturais muito frequentados, o Bleff e o Espaço Bleff nos anos 1980, o Theatro XVIII nos Anos 1990 e 2000, a República Af nos anos 2010. Poeta até os anos 1990, historiadora cultural quando necessário, dramaturga sempre que necessário. Colunista, gourmet e bibliófila sempre. Atualmente, acompanha a edição de Anotações sobre o Fim doSéculo na Cidade da Baía, projeto que ganhou a Bolsa Vitae em 2004, com publicação prevista para este ano. E organiza os 14 mil títulos da República, sua cozinha e sua sala de degustações (Sala Ita) “para receber pessoas de bom gosto.”

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No Blog do Nêumanne no Estadão: A face volúvel da bola

No Blog do Nêumanne no Estadão: A face volúvel da bola

Mundial da Fifa não será resolvido apenas no campo do jogo, mas também na disputa política e de interesses

Como a mulher na famosa ária da ópera Rigoletto, de Verdi, a bola que rola em campos da Rússia no momento em que este texto é lido, é volúvel. Ou seja, pode ser clara, mas nem sempre supera o modo cada vez mais negocial do esporte que mobiliza paixões de massas e lucros, muitos lucros. Maior e mais permanente espetáculo da Terra, superando o circo, o samba e os festivais de rock na constância e na ocupação dos horários da programação da televisão, veículo de informação e entretenimento por excelência do nosso tempo, não se pode nutrir a vã ilusão de que tudo se resolva com absoluta fidelidade à justiça e ao decantado fair play. E não se trata de um fenômeno resultante dos interesses pecuniários envolvidos no jogo ou posterior à descoberta da corrupção nas entidades confederadas e internacionais que promovem os grandes torneios. É provável, embora não mais comprovável, que maus hábitos influam nos resultados de partidas e campeonatos desde as priscas eras do amadorismo então dito marrom.

Aos 67 anos, torcedor de arquibancada e telespectador de futebol desde a infância numa família de rubro-negros apaixonados, começo as minhas lembranças do ludopédio relembrando fatos antigos que não recomendam a história do Clube do Regatas do Flamengo como primor de ética e espírito meramente competitivo. A década de 1950 começou com uma superioridade esportiva avassaladora do Clube de Regatas Vasco da Grama, base da seleção nacional que protagonizou o maracanazo contra a campeã Celeste uruguaia há 58 anos. A supremacia cruzmaltina foi desafiada por outro alvinegro, o Botafogo de Futebol e Regatas, cujo ataque era arrasador, com Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagallo. Mas minha memória de torcedor registra uma fotografia na sala de refeições da casa paterna de nosso time tricampeão de 1953, 54 e 55. Parte da explicação pode ser dada por atuações acima da média de atacantes como Evaristo, que depois seria estrela no Real Madrid e no Barcelona, e Dida, o maior ídolo do clube até a passagem de Zico. No entanto, a história registra que, àquela época, o genial romancista paraibano José Lins do Rego liderou um grupo chamado Os Dragões Rubro Negros para abordar e comprar (talvez a palavra mais exata fosse alugar) o serviço sujo dos árbitros de então. Vai saber…

À mesma época, o Santos formou uma equipe reputada como a melhor de todos os tempos. Vencedor da Libertadores da América e campeão mundial de clubes, o “peixe” tinha uma linha atacante comparada à citada do Botafogo: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Mas meu padrinho jornalístico J. B. Lemos, que foi goleiro do Rádio de Mococa, no interior paulista, jurava de pés juntos que o talento mais efetivo do dito clube praiano era o do bem-sucedido dublê de cartola e político Athiê Jorge Curi, seu presidente. Lemos e Walter Silva, o Picapau do Picape, que divulgavam essa versão, eram corintianos fanáticos (perdão pelo pleonasmo) e todos se lembram de que o Corinthians, à época chamado de “faz-me rir” e presidido pelo também político e dirigente Wadih Helu, era freguês do Santos, só desafiado pela Academia palmeirense.

Mas vamos aos fatos e às Copas. Comecemos pelas ganhas pelo Brasil. Em 1962, o time envelhecido de 1958 esteve a pique de ser eliminado na disputa de grupos ao vencer o México, empatar com a Checoslováquia e começar perdendo para a Espanha, a Fúria, o mais badalado selecionado europeu. O lateral esquerdo Nilton Santos, do timaço do Botafogo, fez pênalti no atacante espanhol, deu um passo para fora da área e para lá foi transferida a cobrança. Aí, a história registra, Amarildo, substituto de Pelé, contundido, marcou duas vezes, virou o jogo e o time terminou sendo bicampeão.

Garrincha tornou-se o dono do time e o conduziu à vitória contra o Chile, dono da casa, mas cometeu uma infantilidade à Neymar Jr., agredindo um adversário e ele, logo ele, caçado por zagueiros “botinudos”, foi expulso. Um emissário brasileiro tirou o árbitro da semifinal de circulação e, sem sua súmula, Garrincha atuou e ganhou o jogo final, dando o bicampeonato a praticamente a mesma equipe que fez a façanha de ser o único selecionado não europeu a ganhar a taça na Europa. A Confederação Brasileira de Desportos (CBD) era comandada, então, por João Havelange, que deu início ao reinado de Macunaíma na sede suíça da Fifa.

Em 1966, os fundadores do esporte bretão que consagrou Biro-Biro conseguiram sua Copa do Mundo em meio a muitas denúncias de apito a favor. Há 52 anos não havia tecnologia para decidir se a bola teria, ou não, cruzado a linha fatal, nem árbitro de vídeo para ajudar o juiz. Mas o fato de a Inglaterra nunca ter conseguido um título fora de casa aumenta as suspeitas. Em 1970 o Brasil era poderoso na Fifa, montou um timaço, considerado o melhor de todos os tempos, e ficou em definitivo com a almejada taça, que foi roubada e, ao que tudo indica, derretida.

Já a vitória da Argentina em casa, oito anos depois, foi maculada pela suspeita de que os ditadores militares no poder tenham contribuído mais para o primeiro lugar da seleção do que seu grande goleador Mario Kempes ou o badalado treinador César Mennotti. Que brasileiro esqueceu o gol de cabeça de Zico no último segundo da partida, após cobrança de escanteio, com o assoprador de apito encerrando o jogo com a bola no ar? Mais inesquecível ainda foi a goleada imposta pelo campeão ao Peru, com os anfitriões sabendo que precisavam de quatro gols para se classificar e marcaram seis. O escândalo foi tal que, depois dele, foi adotado o calendário de jogos decisivos simultâneos, como foi feito na última rodada da fase de grupos na Rússia.

Outro título argentino foi no México, com um gol de mão de Maradona, que revoltou o mundo esportivo, mas não abalou a comemoração dos “hermanos”, que passaram a batizá-lo de obra da “mano de Diós”. Como decisão de árbitro não volta atrás, todo mundo viu, o resultado foi mantido, o título não foi discutido e Maradona virou deus.

Fala-se muito no apito generoso nos anos dourados do Corinthians neste século 21, mas pode ser intriga dos adversários. Reclama-se da atuação de José Roberto Wright na semifinal da Libertadores de 1981, vencida pelo Flamengo após expulsões em série de jogadores do Atlético Mineiro. Ah, mas agora há a tecnologia que mostra se a bola ultrapassou a linha e o vídeo que ajuda a esclarecer jogadas de área. Ajuda?

De novo aos fatos. No prélio entre Brasil e Suíça, o zagueiro suíço empurrou o coleguinha brasileiro Miranda e empatou o jogo de cabeça. Os europeus ficaram com 1 dos 3 pontos que perdiam. O telão no estádio mostrou o empurrão e a Fifa recriminou o erro da exibição do replay. Chororô brasileiro? E que tal a jogada que entrou para a história da Copa da Rússia como ménage à trois, na qual dois zagueiros suíços abraçaram, um pela frente e outro por trás, o avante sérvio que cabecearia para o gol? E não terminaram vencendo o jogo? Coincidência? O fato de a Suíça sediar a Fifa, é claro, nada influiu nessa decisão. Mas será que só o vídeo não viu?

E a campeã do mundo só não caiu na fase de grupos porque o árbitro do jogo e o de vídeo também não enxergaram o empurrão flagrante de Boateng no sueco. O comentarista Edinho, do SporTV, disse que o pênalti só não foi marcado porque a vítima chutou. Quem vê o repeteco sabe que ele não finalizou, mas foi empurrado e a bola bateu nele de volta. O apitador de campo precisa de um cão de guia ou deu pau no tal do VAR?

Os apressadinhos dizem que, antes de embarcar para Sochi, o técnico Tite conseguiu o feito extraordinário de isolar a seleção que ele treina da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em sua caverna de Ali Babões. Quem acreditar nessa bazófia pode embarcar para a Lapônia e treinar a seleção local sob o patrocínio de Papai Noel. Como separar o selecionado de um dirigente como Antônio Carlos Nunes Lima, o coronel Nunes, que se comprometeu a votar em Estados Unidos, Canadá e México para sedes de 2026 e sufragou o Marrocos só por imaginar que o voto seria secreto? A Fifa não deixa de ser como o é a CBF de Marin preso, Sel Nero evitando a prisão sem poder sair do território nacional e do tal basbaque proscrito. Não será fácil ganhar só com bola, como imaginam os ingênuos. Mas, com esses dirigentes, a imaturidade do maior craque do Brasil é limonada refrescante, comparada com a fraqueza política de nossos cartolas gatunos.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 25 de junho de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/a-face-voluvel-da-bola/

Nêumanne entrevista José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni

Nêumanne entrevista José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni

No Brasil estamos “trancados e sem saída”, diz Boni

Para ex-diretor da Globo, corrupção, políticos que não largam o poder e falta de governabilidade são problemas para os quais nenhum candidato à eleição aponta soluções

“Os três maiores problemas do Brasil são a corrupção, a eleição repetitiva dos mesmos políticos e a falta de governabilidade”, disse José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni, criador, com Walter Clark e Joe Wallach, da maior revolução estética na comunicação de massas no Brasil: o padrão Globo de qualidade. Nesta entrevista, ele expressou a voz da maioria da população brasileira, que conta com a Operação Lava Jato e novas leis contra a roubalheira, causa da maior crise moral, política, social e econômico-financeira da História. “Dependemos da renovação dos nossos representantes, mas não vejo na lista dos partidos uma quantidade significativa de candidatos novos”, afirmou. Ele também pregou a reforma política para resolver o impasse da governabilidade, lamentando que, para as eleições gerais do fim do ano, “nenhum projeto sólido e confiável foi apresentado por qualquer candidato”. E mais: “pelo que ouço nas ruas, a população está descrente e sem motivação para votar. Parece estar adivinhando que vamos continuar trancados e sem saída.”

 Comparado com os outros países, o Brasil parece um faz de conta e só sobrevive porque é grande demais, acha Boni. Foto: Acervo pessoal

Comparado com os outros países, o Brasil parece um faz de conta e só sobrevive porque é grande demais, acha Boni. Foto: Acervo pessoal

Boni nasceu em Osasco (Grande São Paulo) em 1935, filho do dentista Orlando de Oliveira, que tocava cavaquinho no regional de Armandinho, e da jornalista, psicóloga e escritora Kina de Oliveira, que lançou um blog aos 94 anos de idade, enquanto escrevia livros, às vezes simultâneos. Sobrinho de Hermínio, do conjunto vocal Quatro Ases e um Curinga, frequentou desde garoto os bastidores das emissoras de rádio. Aprendeu a escrever com Dias Gomes e Manuel da Nóbrega. Trabalhou na produção das pioneiras TVs Tupi, Paulista e Excelsior de São Paulo, na agência de publicidade Lintas e na Lynx Filmes, entre outras. Levado pelo americano Joe Walach, na companhia de Walter Clark, com quem trabalhava na TV Rio, introduziu na TV Globo o conceito de grade na programação, até hoje usado, e fundou a rede nacional de TV, inaugurada com o Jornal Nacional, eterno campeão de audiência do telejornalismo. Atualmente é dono da TV Vanguarda, afiliada da Globo em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo.

Boni com a mãe, dona Kina, que escreveu livros, alguns simultâneos, enquanto viveu e criou um blog aos 94 anos. Foto: Acervo pessoal No Brasil estamos “trancados e sem saída”, diz Boni

Boni com a mãe, dona Kina, que escreveu livros, alguns simultâneos, enquanto viveu e criou um blog aos 94 anos. Foto: Acervo pessoal
No Brasil estamos “trancados e sem saída”, diz Boni

A seguir, Nêumanne entrevista Boni

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Copa do Estadão: ‘Lorotites’

Copa do Estadão: ‘Lorotites’

O que ganha Copa não é saliva, mas, sim, talento, esforço e sorte

Na seleção brasileira jogam  Marcelo e Casemiro, que atuam no Real Madrid da Espanha, que acaba de ganhar a Liga dos Campeões da Europa; Neymar Jr., campeão francês pelo PSG; Gabriel Jesus, campeão da Primeira Liga britânica pelo Manchester City; e Roberto Firmino, vice-campeão da mesma Liga dos Campeões pelo Liverpool, da Inglaterra. O time treinado por Tite, que foi campeão mundial de clubes pelo Corinthians, fez uma eliminatória brilhante em primeiro lugar. Mas nada disso garante a taça.

O time empatou com a Suíça na estreia e isso não quer dizer que não possa ganhar o torneio na Rússia. Para tanto terá de mostrar mais talento, esforço e sorte. O golaço de Phelippe Coutinho resultou de seu engenho individual, não da construção do grupo. O empate da Suíça, de um jogo de sete erros. Thiago Silva e Marcelo se enrolaram com a bola na entrada da área e a perderam para os suíços: dois. O lateral esquerdo pegou uma sobra, perdeu a segunda chance de chutar para longe e teve de ceder lateral perto da linha de fundo: três. Shaqiri dominou e cruzou, a bola bateu em Miranda e saiu pela linha de fundo: quatro. O craque do time bateu o córner, a bola encobriu Casemiro na primeira trave e chegou à cabeça do zagueiro Zuker, que havia saído da esquerda para a direita passando por sete brasileiros em fila dupla, nenhum dos quais fez um movimento para lhe impedir o passeio, com facilidade que Nélson Rodrigues compararia com chupar um Chicabon; e Miranda, tido no Brasil como um dos melhores zagueiros do mundo, deu as costas ao adversário, depois de medir a distância entre os dois com os braços voltados para trás sem olhar a bola: cinco. Alisson não saiu para evitar o cabeceio na pequena área e seus defensores alegam que goleiro não sai da linha de gol em marcação por zona: seis. Ao saltar, o zagueiro suíço empurrou de leve Miranda, que ficou de pé. O árbitro mexicano César Ramos não marcou a falta e a arbitragem de vídeo não alertou para o empurrão: sete.

Para ganhar a Copa, cracaço Neymar precisa esquecer o cabelo e cuidar da cabeça

Para ganhar a Copa, cracaço Neymar precisa esquecer o cabelo e cuidar da cabeça

No jogo dos sete erros, o Brasil entrou com seis e a Fifa, ao escolher um árbitro despreparado, com o sétimo. Ou seja, o pentacampeão mundialo não tem força política na entidade que organiza o torneio, porque a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) não tem moral. Seu ex-presidente Marco Polo Del Nero não viajava para fora do País temendo ser preso por corrupção. O presidente, coronel Antônio Carlos Nunes, comprometido a votar nos EUA, México e Canadá para sediarem a Copa de 2016, fez parte da minoria que sufragou o Marrocos, pensando que o voto seria secreto.

Tudo ainda pode acontecer, até mesmo nada. Se o Brasil for campeão, ninguém se surpreenderá. Mas Tite precisa esclarecer por que proibiu Miranda de cair para não simular, mas não recriminou Gabriel Jesus pela encenação inconvincente para cavar um pênalti, atirando-se ao solo na direção oposta ao puxão do zagueiro.

E Neymar Jr. terá de escolher entre ser campeão do mundo e malabarista de circo.

*José Nêumanne. Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. G4/G5 do Estado de S. Paulo quarta-feira 20 de junho de 2018)

No Blog do Nêumanne: Um país desgovernado

No Blog do Nêumanne: Um país desgovernado

Executivo desacreditado, Legislativo desmoralizado e Judiciário agindo como se fosse mesmo uma corte real se distanciam cada vez mais do povo, do qual só se servem, sem espírito público e com zero pudor

Não é de hoje que o Estado brasileiro atua exclusivamente para satisfazer ânsias de riqueza de seus mandatários e funcionários, a ponto de o verbo servir haver perdido todo o sentido ativo, passando a ter apenas o significado passivo para a casta privilegiada e a burocracia que se presta a trabalhar só para ela. Notícias recentes trazem a público indícios claros de que os Poderes da República, na ânsia de proteger seus privilégios corporativos, tomam o mando, em teoria do povo, para exercê-lo em função de uma classe social que se reproduz por via hereditária, como no ancien régime, por nomeação do chefe do Estado, por concurso público ou até pelo voto. Esta ruptura do mais pétreo dos preceitos constitucionais –  aquele segundo o qual todo o poder deve emanar do povo e em seu nome ser exercido – teve seu apanágio retórico no julgamento de habeas corpus impetrado por um condenado por crime comum. Nele o advogado de defesa, político profissional, Roberto Battochio elegeu como símbolo da justiça que pedia para seu representado, o ex-operário Luiz Lula, o discurso do nobre advogado do monarca Luís XVI, Guillaume-Chrétien de Lamoignon de Malesherbes (atenção para a duplicação da nobiliárquica preposição de), contra o “punitivismo” jacobino na Revolução Francesa.

Agora é muito provável que estejamos em pleno paroxismo dessa lenta e inexorável tomada de poder numa democracia que se perde pela aristocracia de estamento nesta República (de res publica, no latim, coisa pública) assaltada pelos interesses privados de uma classe cínica e insaciável, que não tem espírito cívico nem dá a mínima para a moral e os bons costumes. O presidente mais impopular da História, Michel Temer, protagonizou recentemente um dos episódios mais representativos, mas não o único, nesse sentido. Para resolver o impasse criado pela falta de rumo, autoridade e competência na gestão – o movimento organizado para defender os interesses exclusivos de caminhoneiros e empresas transportadoras –, o chefe do governo atropelou o bom senso e a lei, cedendo a tudo o que exigiam os amotinados. Com isso interrompeu a política de preços adotada para recuperar as finanças da Petrobrás, quase falida pelo furto de seus ativos nos desgovernos de seus ex-aliados Lula e Dilma, restabelecendo o tabelamento de seu correligionário José Sarney para o diesel e para o frete. Com a “bolsa caminhoneiro”, como definiu o Estado em primeira página na edição de domingo 17 de junho, o chefe do Executivo adotou uma medida ilegal, pois, conforme advertiu o Cade, em manchete na segunda-feira 18, violou o princípio da livre concorrência, marco basilar da economia de mercado, vigente no País. Ou não é mais?

O economista Edmar Bacha, em entrevista a este blog na semana passada, lembrou que Temer teve o juízo de montar “uma equipe econômica da melhor qualidade (que) opera com relativa autonomia, dentro dos estreitos limites da atual conjuntura”. Isso só “não funcionou porque o presidente perdeu todo o seu capital político com a revelação de suas tratativas pouco republicanas na calada na noite com o empresário Joesley Batista. A partir daí o governo teve de se dedicar a barrar o impeachment, incapaz de desenvolver uma agenda econômica positiva”, disse Bacha.

O episódio lembrado pelo criador do termo “Belíndia” para definir o Brasil como parte Bélgica e parte Índia é um dos marcos de fundação dessa aristocracia de cartéis. Estes vão do pacto entre políticos governistas e da oposição, grandes empresários, principalmente empreiteiros, e burocratas de estatais, em particular a Petrobrás, e autarquias, até o compromisso ilegal do presidente para interromper a recente pane seca e o consequente desabastecimento de derivados de petróleo e gêneros alimentícios. Um dos lemas dessa situação surreal em que o quinteto Temer, Padilha, Moreira, Marun e Etchegoyen meteu o País é a frase com que o primeiro recebeu o meliante do abate Joesley Batista na garagem do Jaburu (mais adequado seria chamar o palácio de Guabiru) na calada da noite: “Tem que manter isso, viu?” Apesar da desesperada tentativa dos asseclas palacianos de desqualificarem a gravação do palpite pra lá de infeliz, ela se perdeu por lembrar outro lema, que pode valer para essa classe de roedores do erário, da lavra do presidente do MDB temerário, Romero Jucá, ao correligionário que presidiu a BR Distribuidora (de derivados e propinas), Sérgio Machado: “Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria”.

A sangria ainda não foi estancada, apesar do esforço que tem sido feito pelos chefões políticos. Mas as eleições gerais de outubro que vem não são nada promissoras em relação à atuação do combate à corrupção na polícia e na Justiça. Nenhum presidenciável deu até agora sinal de que esteja fora desse pacto. Um deles, Geraldo Alckmin, cujo PSDB foi derrotado por Dilma e Temer em 2014 e hoje é parceiro do governo, teve o descaramento de dizer que este “padece de uma questão de legitimidade”, como se o chanceler Aloysio Nunes Ferreira não fosse tucano, como ele é.

As duas frases sobre as quais se sustenta a oligarquia dos cartéis nos levam, destarte, a introduzir nessa constatação da total deturpação do Estado de Direito em estágio de defeito o Poder Legislativo. Jucá, pernambucano de Roraima, onde faz praça e troça, é um bom exemplo da transformação do governo do povo em desgoverno dos polvos. Desde que o “caranguejo” Eduardo Cunha se assenhoreou do comando da produção de leis, o Congresso Nacional passou a servir apenas a “manter o que está aí” e, para isso, a procurar fórmulas legais para “estancar essa sangria”, aplicando um garrote vil contra a ação moralizadora de agentes, procuradores e juízes federais de primeira instância.

Essa tarefa mesquinha e traiçoeira contra o povo que deputados e senadores fingem representar começou a ser cumprida com a “lei da bengala” que mantém os compadritos (apud Jorge Luís Borges) nos tribunais superiores de Contas, Justiça e Supremo. Com a vigilância sobre propinas e caixa 2 na contabilidade das campanhas eleitorais, para garantir suas vagas e as de parentes e cumpinchas, os legisladores criaram o Fundo Eleitoral, que, segundo a Folha de S.Paulo, usando dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), representa 86,5% das receitas de seus partidos.

Duas notícias, publicadas lado a lado na primeira página do Estado de segunda-feira 18, complementam a anterior. Uma dá conta de que a eleição para o Senado este ano terá número recorde de candidatos – 70% – em busca de reeleição. Em entrevista a Fausto Macedo e Ricardo Galhardo, o ex-diretor da Polícia Federal Leandro Daiello informou que “há material para mais cinco anos de operações”. A reeleição de qualquer político que possa estar nesse “material” é uma ameaça à continuidade do combate à corrupção, sem o qual não há como o Brasil deixar de ser este trem descarrilado, cujo farol é a luz que se poderá ver saindo do túnel das urnas.

O pior de tudo é que a esperança que a sociedade passou a ter na ação das operações a que Daiello se referiu está nas mãos de quem mais as põe em risco. Os seguidores de Malesherbes, representados pelo quinteto Gilmar, Lewandowski, Toffoli e a dupla Mello, continuam a atuar como garantes não da igualdade dos cidadãos perante a lei, assegurada pela Constituição vigente, mas, sim, dos caprichos e “dodóis” dos clientes abonados das bancas que abrigam mulher, genro, amigos e antigos parceiros de convescotes e salamaleques.

Vitimados pelo desemprego, pela violência e por saúde e educação de péssima qualidade, os pobres, que nem sonham poder um dia exigir seus direitos no fechadíssimo clube da impunidade dos que são mais iguais perante a lei, pagam a conta do desgoverno do Executivo, da safadeza do Legislativo e do cômodo uso da definição de Corte para seu colegiado com os mesmos frufrus e minuetos das monarquias absolutistas. A proibição da condução coercitiva de delinquentes de colarinho-branco e a tentativa de garantir a honra de políticos desonrados proibindo fake news são exemplos recentes, mas não os únicos, de como os ministros de tribunais superiores participam, sem pudor, do golpe dos “aristo-ratos” que se locupletam como dantes nos cartéis de Abrantes.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 18 de junho de 2018)

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José Nêumanne, poesia traduzida: “Ancora il Ritorno”

José Nêumanne, poesia traduzida: “Ancora il Ritorno”

 

A Editora Oficina do Livro lançou na noite de quinta-feira 14 de junho de 2018 na Livraria Cultura do Shopping Center Iguatemi de São Paulo a antologia bilíngue em português e italiano Encontro Literário em Milão, organizada por Sílvia Securato. Dela faz parte o poema “A Volta de Novo”, de José Nêumanne Pinto, vertido para “Ancora il Ritorno”.

 


O poema em português


A volta de novo

“Voltar é uma forma de renascer. Ninguém se perde na volta”
(José Américo de Almeida, Antes que me esqueça, A Bagaceira)

No caminho da volta,
o amante pródigo
não se perde: renasce.
As flores da estrada
ganham viço
e uma fragrância nova,
um cheiro macio de perdão,
que se torna espera,
e de espera,
que vira celebração,
um perfume antigo
e fresco,
que lembra limão.

Em Ítaca, Penélope cose
toalhas para o banquete,
fronhas para o bom sono
e os lençóis da conciliação.
Não há ressentimentos
nem orgulho inútil
na fidelidade discreta
desse gesto familiar..
Um xale lhe cobre os ombros
e os dedos macios
puxam a corda da lira
fazendo-a vibrar
em canções de amor
e gestas de esperança
de paciência nada vã.

Volta bem
quem viajou leve:
cabelos à brisa do mar
e as mãos na cintura,
com braços por enlaçar
algum torso feito tronco,
um barco a navegar,
um berço de ninar,
um bote pra salvar.

Volta inda melhor
quem sempre o faz
por um bule de café,
um parco naco de pão
e uma sutil ilusão
de quem só navega
para o eterno retorno,
sempre em busca
da paixão imóvel,
que não muda nem cala,
despedaçado o coração,
só pra depois o colar
caco a caco,
taco a taco,
toco a toco.

Assim são
os caminhos da volta:
sem medo e sem peso,
sem mágoa e sem rota.
Pois na volta
ninguém se perde.
Na volta
ninguém só pede.
E na volta
só se abre mão
da solidão.


A versão em italiano:


Ancora il Ritorno

Ritornare è una forma di rinascere. Nessuno si perde nel ritorno
(José Américo de Almeida, Antes que me esqueça, A Bagaceira)

Sulla strada del ritorno,
il prodigo amante
non si perde: rinasce.
I fiori della strada
guadagnano rigogliosità
e una fragranza nuova,
un morbido profumo di perdono,
che diventa attesa,
e da attesa,
che diventa celebrazione,
un profumo antico
e fresco,
che ricorda il limone.

A Itaca, Penelope cuce
tovaglie per il banchetto,
federe per il buon sonno
e le lenzuola della conciliazione.
Non ci sono risentimenti
ne inutile orgoglio
nella discreta fedeltà
di questo gesto famigliare…

Uno scialle le copre le spalle
e le morbide dita
tirano la corda della lira
facendola vibrare
in canzoni d’amore
e gesta di speranza
di per nulla vana pazienza.

Ben ritorna
chi ha viaggiato leggero:
capelli alla brezza del mare
e le mani sui fianchi,
con braccia da incrociare
qualche dorso come un tronco
una nave a navigare,
una culla a cullare,
una barca da salvare.

Ritorna ancora meglio
chi lo fa sempre
per una teiera di caffè,
un umile tozzo di pane
e una sottile illusione
di chi naviga soltanto
verso l’eterno ritorno,
sempre alla ricerca
d’immobile passione,
che non cambia né tace,
il cuore lacerato,
da incollare poi,
pezzo per pezzo,
bastone per bastone,
tocco per tocco.

Così sono
i cammini del ritorno:
senza paura e senza peso,
senza delusione e senza rotta.
Poiché nel ritorno
nessuno si perde.
Nel ritorno
nessuno chiede soltanto.
E nel ritorno
si rinuncia soltanto
alla solitudine.


Biografia do poeta em italiano:

José Nêumanne Pinto, giornalista, poeta e scrittore, è nato a Uiraúna, nell’entroterra del Paraíba, nel 1951. È stato reporter speciale del giornale Folha de S.Paulo; capo redazione del Jornal do Brasil; editore di politica del O Estado de S.Paulo e capo degli editorialisti del Jornal da Tarde. È editorialista e articolista del O Estado de S.Paulo, oltre a commentatore quotidiano presso la Rádio Estadão, di São Paulo, e nel Jornal da Gazeta (Direto ao assunto). Ha vinto il Prêmio Esso de Informação Econômica (con Maria Inês Caravaggi, Perfil do operário brasileiro hoje, Jornal do Brasil), il Troféu Imprensa de Reportagem Esportiva (con Paulo Mattiussi, Eder Jofre e o boxe brasileiro), entrambi nel 1976, e il premio Senador José Ermírio de Moraes, dell’Academia Brasileira de Letras, nel 2005, al migliore libro del 2004, il romanzo O silêncio do delator. Ha pubblicato undici libri: tre romanzi, tre di poesia e quattro di profili, reportage, articoli e saggi giornalistici. Il più recente, O que sei de Lula, ha avuto grande successo di critica e pubblico. Ha pubblicato anche il CD As Fugas do Sol (CPC-Umes), nel quale legge i propri poemi con la colonna sonora composta e interpretata dal maestro Marcus Vinicius de Andrade.

O poeta José Nêumanne Pinto com a editora e organizadora Sílvia Bruno Securato na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, em São Paulo

O poeta José Nêumanne Pinto com a editora e organizadora Sílvia Bruno Securato na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, em São Paulo

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