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“Na casa avoenga”, poema de José Nêumanne interpretado por Luiz & Gael

“Na casa avoenga”, poema de José Nêumanne interpretado por Luiz & Gael

NA CASA AVOENGA

A nuca cansada apoiada
na palma aberta da mão,
os olhos míopes
do velho Chico Ferreira
escutavam o choro do sertão
no céu sem estrelas
da mais escura vastidão.

um sapo
um grilo
um rês
uma rã

Assim era o serão
na Fazenda Rio do Peixe,
de onde fui vindo.

Todo som que me vier
do bojo da rabeca de Bié,
como chuva na telha
e sabor de leite coalhado
com rapadura rapada
– eta emoção!

na casa2

No Blog: Nêumanne entrevista Roberto Livianu

No Blog: Nêumanne entrevista Roberto Livianu

Urna sem Lula é tão certo como luz do sol, diz promotor

Para Roberto Livianu, presidente do Instituto Não Aceito Corrupção, demora da Justiça em aplicar Lei da Ficha Limpa confunde eleitor e é ruim para democracia

“Lula não estará na cédula eleitoral em 7 de outubro. Isso é tão certo como a luz do sol”, disse o fundador do Instituto Não Aceito Corrupção, o promotor de Justiça Roberto Livianu, em mais esta edição semanal do Nêumanne entrevista no Blog do Nêumanne, Política, Estadão. Para ele, “a Lei da Ficha Limpa veda expressamente sua candidatura e é sempre bom lembrar que essa lei nasceu de um projeto de iniciativa popular, tendo sido aprovado no Congresso e sancionado por Lula. Seu partido sabe disso, mas não o declara publicamente para se beneficiar de sua popularidade até o último segundo que a lei permitir”. O promotor reconhece que a demora da resposta final da Justiça, esperada para o fim do mês, “é ruim para a democracia.” E acrescenta: “Precisamos ajustar o sistema para as futuras eleições, para que no mínimo três meses antes de cada uma delas o eleitor possa ter com clareza o quadro de candidaturas admitidas, assim como dos vices. Esse é um imperativo da segurança jurídica, da democracia e da própria essência republicana. Penso, aliás, que a inclusão de Lula nas enquetes contribui para a desinformação e a indução do eleitor, que não tem discernimento para entender o quadro jurídico.”

Livianu acha que informação sobre condição de se eleger do candidato é imperativo de segurança jurídica. Foto: Acervo pessoal

Livianu acha que informação sobre condição de se eleger do candidato é imperativo de segurança jurídica. Foto: Acervo pessoal

Roberto Livianu é promotor de Justiça em São Paulo desde junho de 1992. Atuou na Baixada Santista, em Juquiá, Paraguaçu Paulista, Itapecerica da Serra, no Júri, na área criminal, na defesa do patrimônio público e do meio ambiente. Coordenou as áreas de comunicação e informatização do Ministério Público. Idealizou diversas campanhas de comunicação, como “Onde tem Ministério Público, não tem mistério”, “20 anos da Lei da Ação Civil Pública”, “Ética”, “Vote Consciente”. Hoje atua na Procuradoria de Justiça de Direitos Difusos e Coletivos, especialmente no combate à corrupção. Há mais de 20 anos se dedica ao estudo do tema, objeto de sua tese de doutorado na USP (onde se graduou), de dois livros publicados e diversas palestras pelo Brasil e pelo mundo. Presidiu o Movimento do Ministério Público Democrático por três gestões. Idealizou em 2014, é um dos fundadores e preside o Instituto Não Aceito Corrupção, associação voltada para a produção de conhecimento científico, políticas públicas, mobilização social e educação anticorrupção, sendo hoje uma das vozes mais autorizadas no Brasil no assunto. Integra a diretoria da Associação Paulista do Ministério Público na área de relações institucionais e assuntos legislativos. É comentarista da bancada do Jornal da Cultura e colunista semanal do Portal Poder360 e da rádio Justiça do STF (coluna Ética & Justiça).

A seguir Nêumanne entrevista Livianu

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No Blog do Nêumanne: Todos juntos pela impunidade

No Blog do Nêumanne: Todos juntos pela impunidade

No último verão o povo sonhou com gatunos no inferno prisional, mas este inverno da desesperança nos traz dias secos em que todos se juntam para anunciar que farão o diabo para ficarem onde estão

A compra de voto sempre existiu, mas cresceu quando o Partido dito dos Trabalhadores (PT), para exercer o poder com “governabilidade” (kkkk), se aliou ao Partido Liberal (PL), que depois viraria Partido da República (PR) (snif), propriedade privada de Valdemar Costa Neto, o Boy. A compra de apoio das miríades de pequenas bancadas com representação no Congresso, equivocadamente alcunhada de mensalão, explodiu quando Roberto Jefferson, à época e até hoje presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), em entrevista a Renata Lo Prete, da Folha de S.Paulo, expôs as entranhas de um Congresso apodrecido. E denunciou a compra dos próceres que se dizem “representantes do povo”.

Antes, o factótum de Lula, José Dirceu, propusera ao poderoso chefão uma aliança do PT com o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), já sob a batuta de Michel Temer. Mas o padim tinha outros planos, que não incluíam sócios poderosos, e preferiu alugar bancadas menores para somar seus votos em plenários fragmentados a ter sócios com mais cacife. Aí, criou-se a incorporação do “toma lá, dá cá” contemporâneo ao maquiavelismo renascentista do “dividir para reinar”. Realizado com a lavagem de dinheiro de campanhas publicitárias, aplicada pelo mineiro Marcos Valério a serviço do tucano Eduardo Azeredo em Minas, o esquema gerou as denúncias da polícia e os indiciamentos do Ministério Público, levados às varas da primeira instância e, mercê do envolvimento de poderosos criminosos de colarinho branco protegidos pela prerrogativa de foro, ao degrau mais alto: o Supremo Tribunal.

Essa história foi contada em detalhes pelo citado mandachuva do PTB, Roberto Jefferson, no livro Nervos de Aço, publicado em 2007. Nele o chefão petebista  afirma que o PT não queria compartilhar um projeto de poder e optou por comprar apoio fragmentado para ampliar a base do Congresso. No mensalão parlamentares foram alugados e pagos diretamente para a patota de Lula e Dirceu não ter de repartir o poder com sócios de organizações criminosas rivais. E para  compensar eventuais insatisfações José Dirceu e sua quadrilha criaram o esquema de repartição de recursos, como descreveu Jefferson no livro citado, leitura obrigatória.

O mesmo chefão da sigla fundada por Getúlio Vargas e, depois, presenteada pela ditadura à sobrinha-neta do caudilho, Ivete Vargas, relatou que o esquema das comissões parlamentares de inquérito (CPIs) é  sempre o mesmo: “Oferecem-se algumas cabeças à guilhotina e não se mexe nas estruturas viciadas da corrupção”. Os verbos estão no presente porque o esquema continua. No caso, as cabeças eram a dele e a de Dirceu.

O causídico acendeu o pavio e ateou fogo no esquema de compra de votos, rompendo a blindagem que se mantinha antes sob a vigilância de Márcio Thomaz Bastos, à época ministro da Justiça de Lula. Não é razoável admitir que esse escândalo de  compra de votos, com dinheiro indo de um lado para outro, não tenha sido descoberto pelo Ministério Publico, pelo Banco Central, etc… E teria acabado em pizza, como sempre ocorrera antes, se não tivesse esbarrado com um grupo de ministros do STF sob a presidência de Joaquim Barbosa, que chegou ao ápice da carreira jurídica por indicação de Frei Betto e José Dirceu a Lula, encantado com a possibilidade de nomear um afrodescendente para a cúpula da Justiça. Mas não atendia aos esquemas negociados nos gabinetes oficiais por Márcio Thomaz Bastos, advogado do ex-sindicalista à época da ditadura militar.

Com a blindagem rompida, Márcio Thomaz Bastos passou a atuar como bombeiro. Livrou Lula e Luiz Gushiken e diminuiu a pena de Dirceu. E a culpa foi empurrada para o pelotão dos mercenários, que  tiveram suas penas turbinadas. Marcos Valério, até hoje preso, foi condenado a 40 anos de prisão e a banqueira bailarina mineira Kátia Rabello, que não tinha a menor noção do que se passava, a 16. Alguma carga do navio tinha de ser, afinal, jogada ao mar. No caso, o sacrifício foi dividido apenas entre os profissionais contratados. Marcos Valério, o “carequinha”, como o chamava Jefferson, foi atirado na cova dos leões. Sua condenação serviu de aviso aos navegantes: o bote salva-vidas do PT não tinha lugar para náufragos sem carteirinha do partido ou de sindicatos. Só que a condenação do chamado “operador” arrombou a caixa de Pandora, sem que eles percebessem. E de nada adiantou o poderoso chefão voltar ao plano original da aliança com o então PMDB, sacramentada na chapa vencedora de 2010 e 2014, Dilma-Temer, pois a aliança derreteu-se na Lava Jato.

Só os ingênuos mais tontos ou os que se fazem de bobos para se dar bem não perceberam naquela troca a permanência da única lei cujos efeitos nunca prescrevem na Justiça brasileira: a de que “quem tem padrinho não morre pagão”. Foi assim que, na Presidência, o poste de Lula, dona Dilma, indultou e, em seguida, o misericordioso clube do Batman do Cerrado perdoou os irmãos de opa. As condenações da dita Ação Penal 470 são os melhores exemplos da inutilidade e da iniquidade da lei e da ordem na República do faz de conta chamada Brasil. A banqueira bailarina e a fina-flor do mecenato cultural das lavanderias de dinheiro sujo ainda purgaram uns aninhos de pena no inferno prisional tupiniquim, mas nele o único que ainda apodrece ali é o “carequinha”. José Dirceu e Pedro Corrêa são exceções que confirmam a regra, de vez que cometeram a suprema arrogância de continuar as práticas criminosas morando na cadeia e nem o supremo cinismo de Dilma os inseriu na lista dos indultados. Logo, porém, interviria a mão grata do ministro do STF Dias Toffoli, que soltou, sem tornozeleiras, um condenado a 30 anos e meio de prisão, mostrando que seu José tem um figurão com um baita martelo à mão para chamar de seu.

A sociedade do PT com o PMDB, que perdeu o pê, não impediu a entrada em cena da Operação Lava Jato, de Sergio Moro, que há quatro anos puxa o fio da meada desse esquema,  definido recentemente por Raquel Dodge como o maior escândalo de corrupção de que há notícia no Brasil – e, sem favor nenhum, um dos maiores da História mundial. Diante da mudança de parâmetro, com empreiteiros na cadeia, para a qual antes só eram mandados pretos, pobres e prostitutas, os mercenários adotaram as Leis de Murici, em que “cada um cuida de si” e “farinha pouca, meu pirão primeiro”, partindo para a delação premiada e, com isso, evitando a “valerização”.  Ou seja, o precedente de Marcos Valério ecoou no pelotão dos mercenários. Estes logo entenderam que teriam de evitar o efeito Orloff, aquele do “eu sou você amanhã”. No rastro do pioneiro Paulo Roberto Costa surgiram delações premiadas de Pedro Barusco, Otávio Azevedo, da Andrade Gutierrez,  Marcelo Odebrecht e tantos outros mais.

Esta é a história da nossa Realpolitik sem pudor, que hoje se mantém firme na coligação do “Centrão” com Alckmin e nas propostas de governo do PT de Lula.  Os petistas, com aquela cara lustrada a óleo de peroba, propõem: “Temos que caminhar para transformar o STF em efetiva Corte Constitucional, com competências limitadas ao controle de constitucionalidade das leis. Faz-se necessário instituir tempo de mandatos para os membros do STF (…). E revisar as leis aprovadas para combater a corrupção e o crime organizado”. O candidato do partido que assim pretende evitar voos de morcegos é o presidiário Luiz Inácio Lula da Silva, a transmitir sermões da cadeia para seus devotos. E é usado numa sórdida campanha de desmoralização das instituições do Estado de Direito. É de dar engulhos na estátua da Justiça à porta do STF!

E Alckmin agora assume o bastão na corrida da impunidade, com o maior tempo de TV e rádio da campanha, mercê da coligação de suspeitos e insuspeitos (de vez que já foram condenados) na Lava Jato, como relatou recentemente a Folha de S.Paulo num título-síntese: Farol do Centrão, Valdemar foi de FHC a Lula, do mensalão à Lava Jato.

Neste ano, o sonho nas noites de verão era o de que a eleição ungisse o profeta da faxina geral da República imoral. Mas nem um “santo” (codinome do candidato tucano na lista de propinas da Odebrecht) encontrará um pretendente comprometido em combater a corrupção como a Nação deseja. Aí a candidata da Rede, Marina Silva, tem razão ao alertar que todos sinalizam que farão “o diabo” para fechar a caixa de Pandora aberta pela Lava Jato o mais rapidamente que puderem. Ora, se o farão!

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 6 de agosto de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/todos-juntos-pela-impunidade/

José Nêumanne: Autógrafos na 25ª Bienal Internacional do Livro

José Nêumanne: Autógrafos na 25ª Bienal Internacional do Livro

Autografarei o meu livro O silêncio do delator, na 25ª Bienal Internacional do Livro de S. Paulo, no próximo dia 10 de agosto, às 19h30, no estande da Universo dos Livros, E080, Pavilhão do Anhembi. Sinta-se especialmente convidado.

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No Blog do Nêumanne: Política sem pudor

No Blog do Nêumanne: Política sem pudor

Lançado à fama pela fantasia incompleta de Lilian Ramos num carnaval com Itamar, Valdemar dedica-se hoje à pornografia nos bastidores, em nome de uma sociedade de suspeitos e condenados chamada Centrão

Em fevereiro de 1994, o então presidente Itamar Franco foi fotografado por todos os repórteres fotográficos profissionais e amadores,paparazzi e que tais que cobriam o carnaval no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, na capital mundial do samba, São Sebastião (vade retro) do Rio de Janeiro. Sua mão direita foi flagrada enlaçada com a esquerda da modelo Lilian Ramos e com a direita mandava beijinhos. O inusitado é que as fotografias daquela ingênua alegria momesca só puderam ser publicadas com a tarja preta da censura. Pois a moça não dispunha de traje íntimo, por mais sumário que fosse, para esconder as partes pudendas. Providenciado pelo prestimoso deputado paulista Valdemar Costa Neto, então desconhecido, o vexame da bela ao lado sem tapa-sexo, habitualmente usado por figurantes nuas de escolas de samba que ali desfilavam, foi atenuado pelo fato de, à época, Itamar ser solteiro.

Itamar Franco nascera em alto-mar, navegando no Atlântico da Bahia para Minas e foi ali que fincou resistência e raízes políticas em Juiz de Fora, cidade onde, por acaso – e a deusa Clio, da História e do tempo (cronos), é pródiga nessas gracinhas –, nasceu Valdemar Costa Filho, pai do pareceiro presidencial. O Filho, que era pai, foi três vezes prefeito de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, onde se tornou chefe de clã, e secretário de Abastecimento numa gestão municipal de Paulo Maluf em São Paulo. Sem ter de purgar pecados pelo episódio do vexame fotografado, pois Itamar entregara a Presidência ao ex-ministro Fernando Henrique e ainda governaria Minas Gerais, derrotando o tucano Eduardo Azeredo, embora este tenha apelado no pleito aos serviços do mesmo Marcos Valério que urdiu o “mensalão”, Costa Neto pôde continuar sua carreira de alcoviteiro em nível mais elevado e lucrativo após trocar a passarela pelo palanque.

Pois em fevereiro de 2002, com a nudez revelada da amiga do insigne parlamentar completando a maioridade de 18 aninhos, o ás da imagem fixa no noticiário de O Estado de S. Paulo, Dida Sampaio, flagrou um cochicho amigável, e então absolutamente insuspeito, entre um ainda inimigo público de dr. Paulo e o filho de seu lugar-tenente em Mogi, dr. Valdemar Costa Filho. Dida tornou então, público sem querer, com o talento profético dos poetas da imagem, um teretetê de pé de orelha entre o então presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), José Dirceu, e o referido dito-cujo Valdemar Costa Neto, sempre tido e havido como Boy, seja pelo aspecto juvenil, seja pela presteza de entregador de pacotes.

Ali foi clicado o instante prévio do encontro a portas fechadas, portanto, distante da curiosidade do repórter fotográfico, em que a dupla do malufista de Mogi e o organizador do congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) que terminou nas celas de Fleury e Tuma firmou um pacto diabólico. No panorama descortinado da ponte daquele ano de 2002 se destacava o casório político em que Lula, o enfant terrible do PT, encomendava o terno de sua futura posse como presidente da República aos alfaiates de plantão na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), em plena Avenida Paulista, canteiro da mais fina-flor da burguesia nacional. Ao encontro o Boy não levava uma bela dama negligenciando parte relevante do vestuário mais pessoal. Mas, sim, a noiva que tornaria o tosco ferramenteiro candidato imbatível a ornar o próprio tórax com a faixa auriverde do poder republicano. Afastado do malufismo paterno, Neto era da bancada do Partido Liberal (PL), hoje da República (PR), sendo que nunca foi liberal nem será republicano. Com tal aliança o sindicalista feroz ganharia a confiança e as graças da cornucópia eleitoral que se autodenomina mercado. Dirceu e Valdemar foram indicados para escolher a almofada na qual se depositariam os aros dourados a serem levados à dupla a ser lançada: Lula e José Alencar, com quem nos reencontraremos no final deste texto, preclaro leitor.

Antes disso, retomemos o fio da meada. O cochicho fotografado e publicado, aparentemente um flagrante pitoresco das pouco confiáveis coligações que apoiam pretendentes ao poder da República, simbolizava outro tipo de conúbio: a mobilidade entre esquerda, direita e centro no aparelhamento descarado das agências reguladoras, que o tucano sociólogo havia inventado sem ajuda daqueles novos sócios – os sindicalistas do ABC com os empresários bem-sucedidos e evangélicos habituados à multiplicação de óbolos e sufrágios. Lula, após a Carta aos Brasileiros, por obra e mercê de Antônio Palocci, encontrava em Alencar o aval pessoal do dito PIB, para sossegar os outros sócios. E também o representante da palavra do dízimo. É claro que isso provocaria, e provocou, a ira sagrada dos bispos católicos que tinham abrigado os metalúrgicos na matriz de São Bernardo no momento de paixão, fé e amargura da greve na ditadura. Mas o operário braçal despia ali o macacão sujo de graxa do irado João Ferrador, ícone do grevista bravo no jornal dos metalúrgicos. E nada havia do lado de fora que os bispos da Santa Madre tivessem a abençoar.

O tucano da cátedra havia criado agências reguladoras para evitarem que o poder econômico de grandes empresas concessionárias, anabolizado com os serviços a serem prestados pela hierarquia partidária, comprada a peso de propina, esmagasse a economia popular, esfolando o cidadão, eleitor e contribuinte. Era programa a ser acompanhado por Lula e Fernando Henrique, mas à época em que o líder operário emergente apoiava o assessor sociológico do dr. Ulysses Guimarães para o Senado, ao qual chegaria pela via da suplência. E dali para o poder e a glória.

Na vida real, o cochicho de 2002 apitou o começo do jogo do PT com os novos pareceiros com os quais comporia o chamado “mensalão”. O resultado chegou aos nossos dias e ultrapassou os portais do “golpismo” de Temer: dos 40 diretores das oito agências principais, 35 são apadrinhados por partidos, segundo reportou O Globo em editorial na semana passada. Nestes 16 anos, onde estava o Banco Central, que não coibiu nem puniu  a lavagem de dinheiro investigada na Lava Jato?

Só para ilustrar, um grãozinho de areia nesse deserto de corrupção: as empresas de Alberto Youssef mantiveram contas em bancos por períodos superiores a três anos. Onde estava a fiscalização do Banco Central? Corretoras de valores e bancos não estão também sujeitos às normativas relacionadas à lavagem de dinheiro. Recentemente, este Estado noticiou que a Receita Federal encontrou indícios que apontam para a responsabilidade de instituições financeiras em crimes investigados na Lava Jato. Para o fisco, os bancos não foram “diligentes” na adoção de políticas, procedimentos e controles internos.  Não foram mesmo!

E o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que é subordinado ao Ministério da Fazenda? Bilhões de reais em cédulas circularam por aí em malas, cuecas, meias, etc. Qual a origem desse dinheiro? Como pode o Coaf não ter desconfiado de nada?

E a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que deixou passar uma manada de elefantes e nada viu ou fez? Petrobrás, Eletrobrás, JBS,  Braskem, por exemplo, são empresas abertas sob a fiscalização da CVM. E onde estava a Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc), vinculada ao Ministério da Fazenda para fiscalizar os fundos de pensão, que não fiscalizou os fundos de pensão estatais que  causaram prejuízos de R$ 8 bilhões a seus associados? Em fevereiro passado, a 34 anos do carnaval de Lilian Ramos e 16 do cochicho fotografado, este jornal informou que o Ministério Público investiga se a CVM e a Previc falharam ao não conseguirem impedir o rombo de R$ 5,6 bilhões no fundo de pensão dos Correios, o Postalis. Segundo o procurador federal Ivan Cláudio Marx, a Previc e a CVM foram envolvidas no esquema e possibilitaram  que o crime prosperasse.

Calma. Não termina aí. Tem mais. Em 2010, o então presidente Lula pediu ao Tribunal de Contas da União (TCU), pelos jornais, vista grossa em obras da Copa. Está claro que houve nessas agências uma contaminação generalizada do aparelhamento do Estado. Mas vamos combinar: essa incompetência foi deliberada!!! Elas foram instigadas a nada fiscalizar!

Valdemar Costa Neto, sempre Boy, apoia Alckmin para presidente. Seu vice favorito é Josué Gomes da Silva, filho de José Alencar, duas vezes vice de Lula. Ou seja: está tudo como dantes no “cartel” de Abrantes…

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda 30 de julho de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/politica-sem-pudor/

Comentário no Jornal Eldorado: “Cale-se” por Lula?

Comentário no Jornal Eldorado: “Cale-se” por Lula?

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, fez muitíssimo bem ao pedir à Justiça o ressarcimento do uso de dinheiro público em fundos partidários e eleitorais por candidatos que não podem ser votados e também que esclareça, de uma vez por todas, as condições de elegibilidade de candidatos condenados em segunda instância, como é o caso de Lula, que, aliás, promulgou a Lei da Ficha Limpa, de iniciativa popular e aprovada pelo Congresso. Esclarecer se um eleitor pode ou não votar num político para qualquer cargo é direito do cidadão e dever de um Poder Judiciário que, de acordo com a presidente do STF, Cármen Lúcia, nunca pode ser desafiado e sempre tem sido criticado quando acerta.

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – 107.3 FM – na segunda-feira 30 de julho de 2018, às 7h30m)

Para ouvir, clique no play abaixo:

Ou clique no link abaixo e, em seguida, no play:

https://soundcloud.com/jose-neumanne-pinto/neumanne-300718-direto-ao-assunto-1

Para ouvir Cálice com Chico e Gil no Lula Livre, clique no link abaixo:

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/video-no-festival-lula-livre-chico-e-gilberto-gil-cantam-afasta-de-mim-este-calice/

Para ouvir no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/cale-se-por-lula/

Abaixo, os assuntos do comentário da segunda-feira 30 de julho de 2018

SONORA Chico e Gil Cálice

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/video-no-festival-lula-livre-chico-e-gilberto-gil-cantam-afasta-de-mim-este-calice/

1 – Há alguma chance real de a procuradora-geral da República Raquel Dodge conseguir o ressarcimento aos cofres públicos de valores usados pelos partidos do Fundo Eleitoral e do Fundo de Campanha para financiar  candidaturas de políticos de ficha suja?

2 – A presidente do Supremo Tribunal Federal, quando estava no exercício da Presidência da República, devido à ausência do titular, Michel Temer, que foi à reunião do G 20 na África do Sul, pontificou que o Judiciário é mais cobrado quando ele acerta. Até que ponto ela tem razão?

3 – A seu ver, o desabafo de Cármen Lúcia tem algo a ver com a denúncia feita pela revista virtual Crusoé do site O Antagonista, que revelou na capa de sua edição semanal uma mesada de 100 mil reais suspeita paga a seu colega Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, pela própria mulher?

4 – Que alerta fez o ex-ministro do Trabalho e ex-presidente do Tribunal Superior do Trabalho Almir Pazianotto Pinto em seu artigo na página 2 do Estadão de sábado passado, 28 de julho?

5 – A manchete do Estadão de ontem registra que “indefinição eleitoral paralisa negócios e trava economia”. Você espera para quando a definição das eleições gerais, particularmente no que diz respeito à disputa pela Presidência da República, e até que ponto pode chegar essa paralisia?

6 – O caderno de Metrópole do Estadão de anteontem “manchetou” a constatação de uma das mais trágicas conseqüências do colapso de saúde pública no Brasil: “Mortalidade infantil cresce em 1 de cada 3 cidades paulistas”. A volta de doenças que há muito tempo estavam afastadas de nosso cotidiano, como sarampo, poliomielite e outras, seria o sinal de que o Brasil está dando marcha à ré até em pontos tão cruciais quanto o são estes?

7 – A prisão pela polícia cearense de suspeitos pela autoria de atentados contra ônibus e prédios públicos na capital e em outras cidades nos últimos dias da semana passada, podem, afinal, tranqüilizar a população do Estado, em geral, e de Fortaleza, em particular, como uma espécie de prenúncio de, enfim, a paz e o sossego público?

8 – Qual é a conexão que existe entre a censura do tempo da ditadura e o atual clima político no Brasil que tornou possível o festival Lula Livre nos Arcos da Lapa no Rio e a nova execução do clássico Cálice nas vozes de Chico Buarque e Gilberto Gil no sábado?

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