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Nesta quarta-feira no Estadão: Coronavírus, a marcha da insensatez

Nesta quarta-feira no Estadão: Coronavírus, a marcha da insensatez

José Nêumanne

Apoio de Bolsonaro a si mesmo é mais perigoso que tentativa de Collor de evitar impeachment

O apoio do presidente Jair Bolsonaro a si mesmo nas manifestações de rua de domingo 15 de março poderia ser apenas, por si só, ridículo. Mesmo sendo legítimo. E aqui não me refiro a golpe, autogolpe ou simulacro de golpe. Faltam-lhe apoio e base. Em primeiro lugar, porque nada se configura no horizonte que represente ameaça nesse sentido. Desse ponto de vista, os atos seriam inócuos mesmo que tivessem superado em adesão as manifestações de 2013, que foram espetaculares, mas não impediram a reeleição de Dilma Rousseff, codinome de Lula, do PT, na reeleição de 2014. Em segundo lugar, porque o povo, do qual emana todo o poder, exercido em seu nome, tem direito de apoiar e criticar quem quer que seja em qualquer ocasião ou circunstância. E qualquer cidadão brasileiro – o presidente não seria exceção à regra – pode convocar a cidadania a apoiar ou criticar mandatários.

No princípio Bolsonaro limitou-se a compartilhar num grupo de WhatsApp aviso de convocação dos atos. O mundo desabou sobre sua cabeça, dando-lhe razão num argumento: os políticos, de quaisquer partidos e Poderes, têm medo de povo. E não apenas por causa do capitão reformado nem de seu governo. Aliás, os Fundos Partidário e eleitoral e as emendas parlamentares para governadores e prefeitos correligionários de chefões partidários usarem sem fiscalização para financiar eleições municipais em outubro e novembro nunca mereceram oposição cerrada da cúpula do Executivo. Esta tem sido repetidamente cúmplice dessas iniciativas. Onyx Lorenzoni, bolsonarista de primeira hora e ex-chefe da Casa Civil do governo, fez parte da ampla aliança, que incluiu o PCdoB, velho e leal aliado do PT, na eleição de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara. E continua no primeiro escalão como ministro da Cidadania. A pasta é poderosa e administra recursos milionários. Ele ainda lançou outro correligionário do DEM, Davi Alcolumbre, a presidente do Senado, derrotando o emedebista Renan Calheiros em eleição fraudada, na qual 81 senadores votaram e 82 votos foram computados. O líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho, atua como líder do Senado no governo. E pelo menos em teoria o povo se reuniria contra isso.
Portanto, nada há a obstar sequer à convocação explícita do presidente para os atos, da qual depois recuou após constatar o crescimento exponencial de inoculados pelo coronavírus no avião que o levou a um encontro extemporâneo com o presidente dos EUA, Donald Trump, e em aviões de carreira que levavam outros membros do grupo.

O que o torna ridículo é comparecer a atos para apoiar a si mesmo. Nisso lembrou antecedente que poderia ter evitado: o de Fernando Collor convocando o povo para sair de verde-amarelo às ruas e impedir seu impeachment. O povo manifestou-se a favor do oposto, acorrendo às vias públicas vestindo luto, numa clara declaração contra. Não foi o caso desta vez, mas o chefe do governo poderia ter evitado a fria de confraternizar com manifestantes participando de um apoio a si mesmo. Nada disso, contudo, é relevante como o aspecto sanitário lesivo ao povo e a Deus, que ele disse serem os únicos objetos de seu gesto. Por acaso ele não terá jurado lealdade à Constituição? O povo é a primeira vítima de uma eventual catástrofe sanitária a ser produzida pela conjunção perversa da escassa higiene dos chineses governados por uma ditadura comunista, do populismo estúpido da esquerda italiana e da precariedade da saúde pública brasileira. Ninguém precisa ser teólogo para duvidar do princípio universal de quaisquer religiões monoteístas segundo o qual Deus é sempre vida. Isso quer dizer que, em qualquer circunstância, viver, para o cidadão, é um direito acima do de opinar.

Indo ao encontro dos manifestantes à porta do palácio, e ainda levando de testemunha o presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra Torres, um reles bajulador que teve a audácia de argumentar que tinha ido a palácio para tratar de assuntos particulares, Bolsonaro comprova mais uma vez que governa para seus devotos. E não para todos os brasileiros, como deveria ser. Esse é um grave pecado cívico.

A primeira epígrafe que me ocorreu para este artigo foi o título do célebre tratado histórico sobre guerras escrito por Barbara Tuchman: A Marcha da Insensatez. Mas Aninha Franco me lembrou do último parágrafo de A Peste, de Albert Camus, que aqui cabe como uma luva para encerrar: “Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e nas roupas, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz”. Quem quiser que ignore a profecia do Prêmio Nobel de 1957 e espere chegar sua vez.

*Jornalista, poeta e escritor

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No Blog do Nêumanne: O Brasil está entregue aos bacilos

No Blog do Nêumanne: O Brasil está entregue aos bacilos

José Nêumanne

Bolsonaro, deputados, senadores, governadores e prefeitos encaram previsão de mortandade por coronavírus no inverno como algo que pode ser evitado com lorotas, piadas e demagogia barata

Dia destes Isabel leu para mim artigo de Leonardo Coutinho, colunista da Gazeta do Povo, de Curitiba, residente em Washington, DC, que, sinceramente, me estarreceu. Ao correr da leitura conheci fatos estarrecedores. Segundo ele, em 2 de fevereiro, quando já era conhecido no mundo inteiro, o coronavírus, egresso de morcegos e cobras vendidos em mercados para serem cozinhados na região de Wuhan, na China, o prefeito de Florença, Dario Nardella, lançou uma campanha sob o tema “abrace um chinês” contra “o preconceito, a exclusão e o terrorismo psicológico”. Ele e outros políticos esquerdistas, contou Coutinho, espalharam peste similar: a notícia falsa de que o vírus não era contagioso. Ainda de acordo com a mesma fonte, o governador do Lácio, Nicola Zinganetti, que posou sorridente com Lula, comunicou que estava feliz por ter sido inoculado por poder contribuir para socializar a doença respiratória e criar imunidade. Imbecis da esquerda ainda vendem suas fake news com desfaçatez.

Mais de um mês e meio depois, o secretário da Saúde da Lombardia, na mesma Itália, disse que não há mais vagas em suas UTIs. Vindo de lá, o primeiro contaminado pelo coronavírus no Brasil foi localizado e isolado. A médica Ester Sabino, pesquisadora do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP, liderou o grupo de cientistas brasileiros que sequenciou o vírus em 48 horas após a confirmação do primeiro caso brasileiro. Esse é um feito magnífico, que merece o reconhecimento de todos nós pelo pioneirismo. Recentemente, essa mesma cientista disse ao UOL acreditar que o pico no Brasil do novo coronavírus ocorrerá entre abril e maio, ou seja, no começo do inverno quando as doenças respiratórias atingem seu ápice, exigindo esforço concentrado nos prontos-socorros e ambulatórios brasileiros. O governador de São Paulo, João Doria Junior, que certamente foi informado do fato pelo infectologista David Uip, que chefia no Estado o combate ao que já virou pandemia por decisão da Organização Mundial de Saúde, nem sequer cumprimentou a especialista, que mora na mesma cidade que ele. Se tivesse mostrado um mínimo de curiosidade, poderia ter tomado a providência sensata de não comparecer à festa de 1.200 pessoas que comemoraram a estreia da rede de televisão americana CNN no Brasil. Perdeu a boa oportunidade de cancelar o ágape, ao tomar conhecimento do problema por cujo combate é o principal responsável no Estado, mas não desperdiçou a oportunosa ensancha de alfinetar o presidente da República por negligência mais grave.

Não faltou razão a Dória. Afinal, o único político sensato do Brasil, Janaina Paschoal, deputada pelo PSL que chegou à Assembleia Legislativa de São Paulo com 2 milhões de votos, classificou de indefensável a atitude de Bolsonaro, que chegou a cogitar de seu nome para formar chapa com ela para a eleição presidencial. Quando o noticiário sobre a epidemia mundial começou a ocupar espaço e tempo nos meios de comunicação, o capitão desdenhou dos efeitos maléficos do vírus importado da China.

Na semana passada, enquanto Doria, Rodrigo Maia, David Alcolumbre e outros maiorais da República da insensatez festejavam a chegada da CNN, Bolsonaro encontrava-se com Donald Trump na Flórida. Na volta foi constatado que seu secretário especial de Comunicação, Fábio Wajngarten, tinha contraído o bacilo. Na noite desta segunda-feira 17 de março tinha sido notificado o 13.º caso de contaminação na comitiva. Donald Trump, que se encontrou com o maiorial brasileiro, disse que não foi contaminado. O primeiro exame de Bolsonaro também o declarou imune, embora falte um teste para garantir o diagnóstico. Seu anfitrião em Miami, o prefeito Francis Suárez, foi diagnosticado como contaminado.

Cercado por essas evidências, Sua Excelência voltou ao País e fez sua live das tardes de quinta-feira ao lado do ministro da Saúde, o deputado Luiz Henrique Mandetta, que tem sido elogiado por especialistas por sua atuação no comando da reação federal brasileira ao micro-organismo egresso da China. Portando máscara cirúrgica, a exemplo do subordinado ao lado, o chefe do governo recomendou a seus seguidores nas redes sociais que não comparecessem às manifestações marcadas para domingo 15 por causa do risco de contaminação. Seu apelo contradisse compartilhamento no WhatsApp de um anúncio dos atos. Depois de ser criticado forte e injustamente por políticos e magistrados que, segundo ele, com razão, “têm medo de povo”, contudo, voltaria a conclamar os seguidores a apoiá-lo na árdua luta pela governança contra a velha política.

No domingo, à frente do Palácio do Planalto, “teve contato direto com ao menos 272 pessoas em cerca de 58 minutos de interação com apoiadores na frente do Palácio do Planalto”, conforme registrou o Estado em análise feita a partir de vídeo publicado em sua página no  Facebook. Segundo essa análise, ele manuseou no minimo 128 celulares, trocou uns quatro objetos com a plateia, entre eles um boné, que pôs na cabeça, e cumprimentou 140 pessoas. Conforme revelou o vídeo, “parte dos cumprimentos, nos primeiros 50 minutos do vídeo, é de ‘soquinhos’ nas mãos das pessoas ou mesmo apertos de mãos. Nos cinco minutos finais de interação, o presidente alcançou pelo menos 80 apoiadores correndo com a mão estendida e cumprimentando várias pessoas na sequência”. Infectologistas e até aliados próximos do presidente reprovaram sua atitude.

O presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra, completou a infeliz iniciativa sendo fotografado ao lado do chefe. Agências são instituições criadas para evitar abuso econômico de empresas ou do Estado em processos de privatização. Seus dirigentes não são subordinados do presidente, mas o citado comportou-se como vassalo, súdito. Sua presença deu à cena uma lamentável característica de farsa após a explicação dada por Barra. O responsável pela vigilância da saúde pública e privada no Brasil disse que fora ao encontro de Bolsonaro para uma conversa privada no palácio de despachos num domingo livre. O pretexto do encontro particular é pior do que feira ruim ou saco furado, que minha avó chamava de desculpa de cego.

Foi também lamentável a tentativa de mais uma vez contrariar o que ele próprio já havia afirmado e negado antes, ao dizer ao apresentador de televisão José Luiz Datena, da Band, em entrevista exclusiva, que nunca havia conclamado ninguém para ir às ruas. O vaivém de confirma e nega não pega bem num presidente da República de qualquer republiqueta. No entanto, nada se compara à evidência de que o chefe do Executivo ainda não tem a noção completa de dois deveres de seu cargo. O primeiro é o de preservar a confiabilidade e a credibilidade emanada de seu posto máximo. O segundo, o de contrariar diretrizes de sua condição de último chefe no combate a quaisquer males que ameacem seu povo.

Ainda no domingo Bolsonaro disse que só deve lealdade ao povo e a Deus. Convém lembrar-lhe que jurou cumprir a Constituição e as leis da República quando assumiu o mais alto posto da administração federal e da política pública no Brasil. Quanto ao povo, em cujo nome exerce legitimamente o poder por delegação de “cada cidadão, um voto”, deve preservar, com o que estiver ao seu alcance, sua saúde e seu bem-estar. Quanto a Deus, qualquer crente sabe que é fonte de vida e esta está acima da política e até mesmo da democracia.

Hoje o Brasil precisa de um estadista que governe para todos, e não apenas para prosélitos. Seu dever agora seria aconselhar os cidadãos a ficarem em casa, evitarem contato físico com outras pessoas até passar o período de velocidade da contaminação, que é este, segundo o reitor da Universidade de Campinas (Unicamp), Marcelo Knobel. Sábio conselho. Se for o caso, pode até usar força para evitar aglomerações. Da mesma forma que o dever dos políticos atacados nas manifestações de domingo é aprovar sem delongas os R$ 5 bilhões pedidos por Mandetta. E empregar Fundos Partidário e eleitoral para salvar vidas ameaçadas pela covid-19. E se Doria quer enfrentá-lo na eleição presidencial de 2020, que adote medidas empregadas em Itália, Espanha, França, Chile, etc. O Brasil e o Estado de São Paulo precisam de autoridades com hombridade, que não se apoiem em macheza, mas, sim, em capacidade de persuasão, sensibilidade e força para tomar decisões certas e urgentes.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Artigo publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 16 de março de 2020)

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Artigo de José Nêumanne Pinto: Caso Suzi, vergonha para o jornalismo

Artigo de José Nêumanne Pinto: Caso Suzi, vergonha para o jornalismo

Exploração sentimental da solidão de transgênero que violentou e trucidou criança pobre de 9  anos envergonha médico de grife e campeã que já foi monopolista de audiência

No domingo 1.º de março, o Fantástico, da Globo, exibiu quadro apresentado pelo infectologista Dráuzio Varella abordando casos relacionados com a saúde, como o faz há 30 anos. O tema foi a vida de transgêneros nos presídios brasileiros. Todos sabemos que nosso sistema prisional emula na vida real as narrativas mais horripilantes do que se imagina que seja o inferno e, desta vez, a carga emocional foi acima do normal, mas sofreu ao longo da semana uma reviravolta de 180 graus.

Entre depoimentos críticos e outros positivos, um fato raro quando se fala de locais aos quais o então ministro da Justiça da petista Dilma Rousseff, José Eduardo Martins Cardozo, preferia a morte, como declarou publicamente, um gesto do apresentador do quadro teve impacto incomum. Ao ser informado pela entrevistada, identificada como Suzi Monteiro, internada num presídio em Guarulhos, na Grande São Paulo, de que não recebia visitas, correspondência nem presentes em oito anos de pena, comoveu-se o celebrado esculápio. Num rompante gravado e retransmitido, Varella, autor de dois livros sobre o Carandiru e colunista aos domingos da Folha de S.Paulo, levantou-se abruptamente e se ofereceu ao abraço da entrevistada. Editada como um capítulo de telenovela, com música de fundo e apelo piegas, a cena levou mais de 200 pessoas a remeterem para o endereço da detenta cartas e presentes. Na guerra do Ibope, o decadente programa semanal da antiga Vênus Platinada pode ter recuperado ali índices de audiência de um passado que ficou remoto.

Na semana posterior, contudo, a situação inverteu-se totalmente quando o site O Antagonista identificou a solitária “heroína” do dr. Varella como autora de um dos homicídios mais repugnantes da história dos crimes de pedofilia na periferia pobre e abandonada de São Paulo. Há dez anos, ainda com identidade masculina, a trans surpreendeu um filho de 9 anos de Aparecida dos Santos dormindo em casa, violentou-o, assassinou-o e escondeu o corpo, localizado depois já em estado de avançada putrefação. Qualquer pessoa com um mínimo de tirocínio, ao topar com a figura do assassino, saberia que o crime torpe foi cometido também com enorme supremacia de força e peso do assassino sobre sua vítima.

Quando a notícia foi dada, ficou patente que o médico de grife e a Globo, que nada tem de boba, cometeram violações de profissionalismo e ética elementares com a exploração sentimentaloide da solidão da presidiária. O crime é público e notório, com a agravante de a assassina ter sido condenada a 36 anos de prisão. A defesa apelou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), alegando que o cumprimento máximo de pena, então, era de 30 anos (agora são 40), mas o relator do caso, ministro Nefi Cordeiro, manteve-a, certamente motivado pela sórdida motivação do criminoso.

Nenhum repórter iniciante teria completado seu trabalho sem a informação básica sobre a diferença entre Suzi e outras trans, a maioria das quais, segundo informação dada no Fantástico, condenada por pequenos furtos. De início Varella se disse médico, e não juiz. Ninguém exigiria dele mais do que sensibilidade de cidadão ao cometer tão grave omissão, mas médicos não atuam para consolar assassinos, e, sim, para salvar vidas. Ainda bem que o responsável por essa monstruosa barriga, como se define uma notícia falsa no jargão jornalísticos, não se autoproclamou repórter. A profissão de jornalista é regulamentada, como a de médico, e ele não preenche os requisitos para exercê-la, conforme mostrou no caso.

Foram cometidos crimes mais graves ao longo da mistificação usada para comover multidões e anabolizar a audiência de um programa decadente. O tom da edição leva à indignação dos telespectadores ingênuos contra a família que abandonou sua parente. Mas ela tinha bons motivos para isso, pois, além do homicídio com agravantes, a condenada já havia antes tentado violentar menores no próprio núcleo familiar. Qualquer pessoa civilizada há de reconhecer que justiça foi feita com a assassina apenada. Cumprimentos também mereceria em qualquer registro imparcial do caso o fato de o Estado, normalmente omisso em agressões em celas, ter conseguido dar a Suzi proteção num ambiente em que normalmente pedófilos assassinos são torturados até a morte dentro de presídios.

Diante da repercussão do caso, Varella teve a caradura de criticar a exploração política dele, na certa referindo-se ao magnífico discurso da deputada Janaina Paschoal chamando os participantes do caso de “irresponsáveis”. A palavra é leve. Na verdade, tratou-se de crime.

Na terça-feira, 10 de março, o Jornal Nacional, da Globo, exibiu o vídeo em que o infectologista metido a comunicador pediu desculpas à família do menino assassinadoO editor e apresentador William Bonner também se desculpou, em nome do Fantástico e da emissora. “Apenas depois da exibição do quadro, o Fantástico tomou conhecimento da gravidade do crime e só nesta terça-feira a Globo se manifesta com mais clareza sobre o assunto, porque respeitou protocolos de segurança, protocolos que autoridades públicas não seguiram”, afirmou o âncora no encerramento do jornal. No caso, Dráuzio e Bonner se excederam em cinismo. Certamente não é caso de desculpas, mas de demissões. E se algum erro há a criticar das “autoridades públicas”, é o de não haver até agora punido severamente todos os participantes do gravíssimo episódio. Como escreveu Fernando Coelho, que foi competente chefe de reportagem do Fantástico, “essa história não é sobre gênero, sexualidade… É sobre um assassinato hediondo e um jornalismo incompetente”. E temos dito.

*José Nêumanne Pinto. Jornalista, poeta e escritor
Este é o artigo da quarta-feira, 11 de março de 2020, que mando para o grupo Ric de comunicação, coluna semanal oferecida para jornais nacionais

No Blog do Nêumanne: Esse drible Ronaldinho aprendeu com Lula

No Blog do Nêumanne: Esse drible Ronaldinho aprendeu com Lula

Em vez de se defender de crimes de que é acusado, ex-presidiário acusa promotores e juízes que o denunciaram e condenaram de abuso de autoridade, e ex-craque o imita fora do campo no Paraguai

Ronaldo de Assis Moreira é de uma geração de craques posterior à dos heróis de uma torcida só, seja por terem atuado durante quase toda carreira num único time, seja por terem sido responsáveis por grandes conquistas de determinada equipe. Não que isso seja uma novidade. À época do semiamadorismo ocorreu com um gênio que poucos sobreviventes viram nos gramados, numa época em que seus feitos eram contados em textos de jornais e transmissões de rádio, de vez que a televisão não era sequer projeto. Esse foi o caso daquele que, apesar de poucos terem testemunhado seu desempenho, é quase unanimemente considerado o maior de todos antes do surgimento de Pelé, aos 17 anos, na Copa da Fifa na Suécia. O carioca Leônidas da Silva, o homem borracha acrobata que inventou a bicicleta, foi campeão estadual por Vasco, Fluminense, Botafogo, Flamengo e São Paulo e artilheiro do Mundial de 1938 na França.

Com o profissionalismo e a negociação de passes, Ademir de Menezes e Roberto Dinamite sempre foram identificados como ídolos do Vasco; Garrincha, do Botafogo; Pelé, do Santos; Dida e Zico, do Flamengo; e Baltazar, do Corinthians — embora tenham vestido outras camisas veneradas pela torcida. O mercado global de hoje mudou essa exclusividade na idolatria e os deuses dos estádios passaram a ser venerados em várias paróquias. Ronaldinho Gaúcho, seu nome de guerra, começou no Grêmio de Porto Alegre, mas atuou em clubes de massa rivais, como Flamengo e Atlético Mineiro, e brilhou em grandes campeões internacionais, caso do Barcelona. Estreou na seleção brasileira numa Copa América com um gol antológico, descrito por Robson Morelli em sua brilhante coluna do Estado publicada nesta segunda-feira 9 de março. E sagrou-se campeão mundial na Ásia com uma jogada que o goleiro britânico atribui a mero acaso.

Talvez inspirado na própria capacidade de criar lances improváveis, como a falta que cobrou jogando na rede a bola por baixo da barreira, que pulou na certeza de que, como todos os outros, ele cobraria pelo alto, numa partida do Flamengo contra o Santos de Neymar na Vila Belmiro, o artista tem praticado atitudes improváveis fora dos estádios. Assim como o atacante que o substituiu como o melhor do País atualmente na seleção brasileira, o acima citado, essas atuações arriscadas no mundo dos negócios surpreendem muito mais para o mal do que para o bem. A fama que ganhou com a bola nos pés não o tem livrado de consequências nefastas em problemas judiciais que insiste em resolver com habilidade de malabarista e falsa ingenuidade, que engana apenas os mais crédulos.

A exemplo do ídolo que ainda atua, Neymar Júnior, Ronaldo de Assis Moreira complicou-se com problemas tributários na contabilidade recheada de zeros à direita e administrada por um parente muito próximo e também colega de ofício – no outro caso, Neymar, o pai; no dele, Roberto de Assis, o irmão. Assis, como se tornou conhecido o também ex-profissional do futebol sem o talento, a fama e a fortuna do mano mais novo, como ele lançado no Grêmio de Porto Alegre, é seu parceiro em lances contábeis que desafiam as leis fiscais. O mais antigo de que se tem notícia data de 2015, quando os irmãos Ronaldo e Roberto de Assis foram autuados por crime ambiental pela construção sem autorização de um trapiche (ou píer), plataforma para ancoragem de barcos de pesca ou turismo, no Lago Guaíba, no seu Estado natal do Rio Grande do Sul, em área de preservação natural. Pilhada em ilícito por descumprimento de lei ambiental, a dupla foi condenada a pagar R$ 8,5 milhões ao Estado.

Habituada a dar dribles em sequência com a bola sobre a relva, a dupla de ex-craques fez um acordo com a Justiça, mas não o honrou. E, quando foi autorizada a quebra do sigilo das contas bancárias declaradas pelos dois para ressarcimento da multa, foi encontrado um saldo de apenas R$ 24,36 em suas contas bancárias declaradas. E mais: o embarcadouro estava hipotecado e em seu passivo já havia uma grande dívida. Resultado: o passaporte do ídolo foi retido para que não deixasse o País sem antes resolver a falcatrua que pretendeu perpetrar.

O fantástico astro da pelota também se envolveu num episódio de estelionato explícito. Segundo noticiou o UOL, ele “virou réu em ação cível coletiva por pirâmide financeira”. A empresa 18K Ronaldinho é acusada de haver lesado 150 clientes, que o acionam na Justiça cobrando R$ 300 milhões por danos financeiros e morais. Ainda conforme apurou e publicou o UOL, a empresa “dizia fazer marketing multinível e prometia rendimentos de até 2% ao dia, além de prêmios como um Porsche Panamera, a quem comprasse pacotes que iam de US$ 30 a US$ 12 mil (aproximadamente, de R$ 130 a R$ 52 mil). A promessa era auferir rendimento de operações na criptomoeda Bitcoin”.

Agora testemunhas de momentos históricos – como na estreia na seleção nacional e seu gol no Japão contra a Inglaterra –, entre as quais o autor destas linhas, foram surpreendidos com a notícia de que ele e o irmão e empresário passaram o último fim de semana (7 e 8 de março) num presídio da Direção de Apoio Técnico do Grupamento Especializado da Polícia Nacional do Paraguai, em Assunção. A primeira acusação é de que os dois entraram no país com passaportes falsos. Depois de um recuo da Justiça paraguaia, ambos foram mantidos presos a pedido do promotor Osmar Legal, encarregado de inquéritos judiciais pelo crime, muito banal na América Latina contemporânea, de lavagem de dinheiro.

Em sua passagem brilhante pelo gigante Barcelona, Ronaldo de Assis Moreira ganhou o direito de usar um real passaporte espanhol. Consta de seu prontuário recente que tentou usá-lo para embarcar em Guarulhos para algum destino longe do Brasil, onde está encalacrado. O documento ficou retido pelo agente encarregado de revistá-lo no embarque.

Os jornais desta segunda-feira noticiaram a reação furibunda e revoltada de seu advogado brasileiro, Sérgio Queiroz, segundo quem “Ronaldo e Roberto não sabiam que (o documento que usaram) era irregular, tanto que o apresentaram livremente, podendo apresentar apenas o documento de identidade”. Sem se referir à hipótese de os ex-craques estarem sendo investigados, não mais só pela entrada com documentos falsos no país vizinho, mas também por crime, mais grave, de lavagem de dinheiro, o advogado definiu a detenção como “ilícita, ilegal e arbitrária”.

Um leitor por gosto, hábito e obrigação profissional, como é o caso do autor deste texto, já testemunhou esse tipo de atuação de advogados grã-finos à cata de argumentos que podem emocionar torcedores apaixonados, mas dificilmente ultrapassam obstáculos policiais ou jurídicos em investigações de quaisquer crimes, em especial os financeiros. Quem já não leu os da lavra dos defensores dos réus da Operação Lava Jato, entre os quais o ex-presidiário Lula? Na narrativa deles, as alegações do Ministério Público são sempre fantasiosas e com motivação pouco recomendável. Como, por exemplo, o PowerPoint da força-tarefa de Curitiba no momentoso processo do apartamento de cobertura, com propriedade atribuída ao petista, no Guarujá, tema de recurso apresentado pelos advogados ao Conselho Nacional do Ministério Público.

O torcedor apaixonado de futebol, propagador de metáforas futebolísticas de pouca graça e gosto duvidoso, condenado em três instâncias por 13 juízes, desembargadores e ministros de altos tribunais a zero, hoje está livre, leve e solto. Disponível até para visitar o ex-craque no presídio paraguaio. E faria essa visita em mais um passeio fora do Brasil para se permitir andar pelas ruas de Assunção autografando ou posando para selfies ao lado de fãs e livre dos insultos eventuais que o mantêm preso, embora livre, no apartamento de luxo em que vive em São Bernardo do Campo. Lula poderia, então, cobrar pessoalmente do ídolo de tantas torcidas o pagamento de royalties pela invenção desse drible na legislação financeira. Afinal, o deus dos estádios terá sido apenas mais um a tentar imitá-lo na instrução à iracunda defesa binacional. Talvez não o livrasse de cumprir pena no exterior, mas ao menos seria motivo de uma boa história para contar aos bisnetos.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 9 de abril de 2020)

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No Estadão desta quarta-feira: A crise na representação que ainda assola o País

No Estadão desta quarta-feira: A crise na representação  que ainda assola o País

Maia serve a DEM e PCdoB e Alcolumbre foi eleito num pleito de 82 votos e 81 eleitores

Está em plena ebulição no Planalto Central do Brasil uma luta aberta entre os Poderes Executivo e Legislativo em torno da liberação de R$ 46 bilhões, R$ 31 bilhões ou R$ 15 bilhões para emendas parlamentares que beneficiarão prefeitos e governadores estaduais sem necessidade de fiscalização. Na prática, é uma queda de braço na qual quem puder mais chorará menos. Qual das partes tem mais legitimidade para decidir sobre o Orçamento da União? Eis a questão, a ser definida por três princípios básicos da democracia: todo poder emana do povo e em seu nome é exercido, todos são iguais perante a lei e cada cidadão, um voto.

Em teoria, nem deveria ser aberta a polêmica. Afinal, sabe-se que o Poder que realmente representa a sociedade não é o Executivo, que executa leis e orçamentos, nem o Judiciário, que, como determina o próprio nome, julga se a ordem dada está, ou não, dentro da lei e fiel à Constituição. Certo? Não necessariamente. Afinal, no rigor matemático dos fatos o único Poder com mandatário escolhido na base de cada cidadão, um voto é o Executivo. Seja federal, estadual ou municipal. Em mandatos de quatro anos, que só podem ser repetidos uma vez, os chefes de governos federal, estaduais e municipais passam por processos eleitorais de dois turnos para que se garanta sua legitimidade. Na aferição dos votos nas urnas eletrônicas não há dúvidas: garantida a igualdade de condições na disputa, toma posse o eleitor mais votado.

O mesmo não se pode dizer da escolha para a composição do Parlamento de 513 deputados federais e 81 senadores. Os primeiros são eleitos pelo sistema de voto proporcional. Os últimos preenchem três vagas, com oito anos de mandato, dois num pleito e um no outro, e podem ser reeleitos para todo o sempre, amém.

No caso da dita Câmara Alta o cidadão não é representado nem em teoria. Afinal, o plenário dos seniores (do latim “mais velhos”, mas nem sempre) representa cada Estado da Federação por absurdos mandatos de oito anos, inexistentes no modelo do qual a democracia brasileira só imitou o exemplo teórico, o dos Estados Unidos da América, inventados pelos pais fundadores, no que interessava diretamente à oligarquia monarquista que deu o golpe da República em 1889. Senadores americanos têm mandatos de quatro anos e a chamada Casa dos Representantes, modelo de nossa Câmara federal, de dois. O modelo adotado ao norte do Rio Grande contempla a condição especial da história de sua independência de um conjunto de colônias.

A Federação, essencial para os inspiradores, é uma ficção que nunca se justificou nos 131 anos de nossa insana República. O sistema bicameral é uma excrescência tropicalista do Atlântico Sul, herdada do império dos Bourbons, que ruiu 11 anos antes da chegada do século 20. Na República à brasileira dos barões da monarquia que se adaptaram ao novo regime imposto por militares irredentos e positivistas autoritários, o Senado do império derrubado virou uma tal câmara de revisão, que tem servido ao longo deste século de instituições surrealistas. Mas o que revê o Senado e o Senado revê o quê?

No cotidiano sujo do truco do poder, o mando é executado pelo chefe do Executivo, quando este tem força política. Ou, quando não tem ou a perde, pela Câmara dos Deputados. Em teoria, essa é a prática mais aproximada do cidadão. Mas a composição de seu plenário o nega.

Deputados federais e estaduais e vereadores municipais são escolhidos por um regime do “me engana que eu gosto”. No processo herdado da Constituição de 1946 o voto proporcional deu o mando às elites dirigentes dos Estados atrasados sobre os eleitores mais numerosos dos Estados mais ricos. O voto de um acriano em São Paulo tem um poder 13 vezes menor na escolha de seu representante do que o de um mineiro em Roraima. A distorção matemática foi ampliada pela Constituição fajuta dos militares em 1967 e da dita, mas nunca provada, “cidadã” da soi-disant Nova República. No meio disso, o tal pacote de abril dos generais Geisel e Golbery destruiu de vez a representação, criando senadores indiretos, “biônicos”, uma versão exacerbada que não vingou do que são, no fundo, os eleitos.

O Brasil oficial (apud Machado de Assis), que briga pelos bilhões do bolso furado dos pagadores de impostos, é uma aberração que cospe na lógica de Aristóteles e dos tomistas, pois só 7% dos deputados ganharam eleições com o número de votos depositados nas urnas: e são chamados de “puxadores de votos” – como Enéas, Tiririca e Janaina Paschoal. Os restantes 93% dependem do quociente eleitoral de seus partidos e coligações para serem diplomados. Os beneficiários dessa distorção se elegem chefões do Poder dito “representativo” com apoio de opostos, caso de Rodrigo Maia, elevado à presidência da Câmara pelo DEM de Onyx Lorenzoni e pelo PCdoB do Orlando “Tapioca” Silva. Davi Alcolumbre, do remoto Amapá, lançado pelo onipresente ministro da Cidadania de Bolsonaro (que ironia!), venceu o alagoano Renan Calheiros numa fraude de 81 eleitores e 82 votos.

Quem esse chinfrim teatro do absurdo representa?

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Página A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 4 de março de 2020)

No Blog do Nêumanne: Brasil, carnaval e crise

No Blog do Nêumanne: Brasil, carnaval e crise

Maia vem, Lula vai e o mundo, assustado com coronavírus, não teria mais a fazer do que discutir parlamentarismo tropical e chorar com Lula seus queixumes de falso injustiçado?

São Paulo não é mais o túmulo do samba da metáfora do carioquíssimo Vinicius de Moraes. Com 15 milhões de pessoas, aqui foi festejado o maior carnaval do País, superando, imaginem só, Rio, Salvador e Recife. Quem diria! Mário de Andrade, meu paulistano símbolo, conterrâneo de meus quatro filhos e do neto mais velho, ensaiou um passo de frevo no Largo do Arouche, com o solo da Pauliceia Dilacerada, de outro poeta Mário e paulista amigo (de Cajubi), o Chamie, sacudido certamente pela mexida que o poeta de Orfeu do Carnaval solfejou debaixo do chão sobre o qual desfilou a campeã Viradouro. Pois é, seu Mé! Quem caiu fora foi outro carioca, que dizem que nasceu no Chile, Rodrigo Maia.

No meio dos blocos dos sujos, sem o mela-mela rude dos entrudos de antanho, o filho de um descendente dos Maias de Catolé do Rocha e casado com a enteada de Moreira Franco, o “gato angorá” de Brizola, de quem papai César era guru econômico nos anos em que morei no Rio de Janeiro, escafedeu-se para a Espanha. Em Madrid foi recebido por Felipe VI, rei local, filho daquele que mandou o novo deus das esquerdas, Hugo Chávez, calar a boca, em palácio, honraria de deixar boquiaberto o avô Epitácio entre uma refrega e outra contra os Suassunas de João e seu filho Ariano.

O que fazia Sua Excelência na Castela dos reis Fernando e Isabel, enquanto Pindorama deixava de ouvir surdos e cuícas na Marquês de Sapucaí para repercutir a diatribe pesada do chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do governo Bolsonaro, general Augusto Heleno Ribeiro? Este chamou impropriamente de “chantagem” a tentativa do deputado Domingos Neto (PSD-CE), relator do Orçamento da União, de reservar alguns bilhões para emendas parlamentares. Emendas pra lá de especiais, pois seriam destinadas diretamente pelos nobres pares do turista aprendiz a prefeitos e governadores de sua laia, como diria o capitão Bolsonaro, sem fiscalização de órgão algum. O general, por óbvio, errou. Não se trata de mera chantagem. É, como diria a voz do povo, uma punga.

O circo pegou fogo, como aquela tragédia que enlutou nas páginas da revista O Cruzeiro, do rei Chatô, Niterói, terra do quase sogro de Maia, Moreira Angorá, lugar onde, segundo Stanislaw Ponte Preta, “urubu voa de costas”. O decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Celso de Mello, internado em hospital para operar o quadril, esperou Bolsonaro compartilhar no WhatsApp um post sobre manifestação nas ruas dia 15 a favor dele e contra o Congresso, pobre Congresso, para lhe descer o pau: “O presidente não está à altura do cargo”. É, pode ser. Mas estaria Mello, que não renuncia ao posto para cuidar das cadeiras, à altura do dele? Será?

Pelo sim, pelo não, melhor deixar a pergunta sem resposta, de vez que um coleguinha do decano, o ministro, digamos, caçula Alexandre Savonarola de Moraes, pode bater o martelo para inutilizar a mão do escriba. Saulo Ramos, que fez o desfavor ao País de indicar ao chefe Sarney o nome do procurador paulista para servir por muitos anos à elite política dirigente na cúpula do Judiciário, pode até discordar, mas verdade seja dita: o que tinha Maia a explicar aos 74 mil eleitores que o puseram na Câmara, e quase não conseguiram, sobre o que fazia tão longe da mesma mesa à qual o senador Auro de Moura Andrade despachou a renúncia de Jânio sem pôr para votar e o ministro do STF de Rincão (SP) Sydney Sanchez presidiu a votação do Congresso que apeou o alagoano Collor do poder maior? Pois então, que missão oficial tão espinhosa o afastou do exercício de único brasileiro autorizado a começar o processo para depor Bolsonaro, com seus mais de 57 milhões de votos, quase mil vezes os dele?

Perdoe o leitor — que, segundo meu primeiro chefe de reportagem, JB Lemos, é o verdadeiro patrão (e padrão) para um jornalista que se preze –, mas primeiro convém perguntar que missão oficial o dr. Maia cumpria em terras longe do mar em Espanha? Um tuíte inoportuno da Embaixada do Brasil o delatou, dando conta de que fora à Península Ibérica debater parlamentarismo em território brasileiro. Golpe, dirão seus adversários impenitentes. Afinal, quem seria beneficiário de parlamentarismo capaz de tornar o capitão rainha da Inglaterra, a não ser ele próprio? Ah, mas a Embaixada na Espanha sumiu com a prova, apagou o tuíte, ora vejam só!

E Maia voltou para participar daquele momento histórico da tunga dos bilhões que o general Heleno chamou de chantagem e o degas aqui, de mera punga. Ou tunga. Ou qualquer coisa que não seja propriamente motivo para fazer o carnaval da consagração paulistana em meio à crise.

Maia veio e Lula foi. O ex-presidiário foi a Paris em voo de carreira, que só frequenta para o exterior. Domésticos são evitados para que não haja encontros desagradáveis com vítimas da roubalheira comandada pelo PT em seus oito anos de desgoverno e mais oito de indigestão nacional sob o poste Dilma e o parceiro Temer. Não ria. Quem paga as despesas é você, pagador de impostos. O secretário executivo da Secretaria-Geral da Presidência, Antônio Carlos Paiva Futuro, escalou quatro assessores para acompanhar o ex-presidiário no périplo europeu. São eles Valmir Morais da Silva, Elias dos Reis, Carlos Eduardo Rodrigues Filho e Misael Melo da Silva. O quarteto ganhou um passeio a Paris, Genebra e Berlim por conta do chamado erário, também conhecido como viúva, de comprovada e generalizada generosidade. Pergunta-se: que tipo de assessoria quatro servidores da Secretaria-Geral, ocupada pelo apadrinhado de Bolsonaro Jorge Oliveira, poderão prestar àquele que vive chamando o chefe de todos de “miliciano” e outros substantivos não menos ofensivos? Jorginho, que Bolsonaro indicará para o STF, tê-los-á instruído sobre outros atributos?

Então, vejamos. O condenado por 13 juízes, desembargadores e ministros por crimes que atingem o patrimônio público, tais como corrupção e lavagem de dinheiro, recebeu da prefeita de Paris, Anne Hidalgo, o título de cidadão parisiense. Ou seja, teve chance de voltar a insultar o chefe do governo, que lhe impôs uma margem de 10 milhões de votos de vantagem ao humilhar nas urnas seu mais recente poste de plantão, Fernando Haddad. O que farão os assessores de Futuro, o número 2 de Jorginho, que com carteirinha de Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) novinha em folha deverá substituir Marco Aurélio Mello, o primo de Collor, no STF, em julho do ano que vem? Em que temas poderão ter-se especializado no serviço público para ajudarem o condenado e culpado a maldizer o País e sua Justiça?

Já na condição de cidadão parisiense, monsieur Silva, que não deve ter encontro marcado com o inspetor Javert, que perseguia Jean Valjean em Os Miseráveis, de Victor Hugo, participou de uma manifestação pública pelo “Lula livre”. Terá sido o quarteto assessório nomeado pelo sub de Jorginho — segundo Eduardo Bolsonaro, o mais leal servidor de “seu” Jair —  encarregado de convencer os participantes de que a libertação polêmica do novo cidadão da Cidade Luz é apenas um conto policial da direita brasileira? Pois seu acompanhado continua preso em seu apartamento luxuoso em São Bernardo do Campo, de vez que pelo menos no Brasil não consegue sair à rua sem ouvir um insulto ou uma queixa…

Em seguida, a comitiva voa para Genebra, na Suíça, onde o ex-chanceler Celso Amorim recebeu seus vencimentos de diplomata para falar mal do país que lhe paga os proventos mensais. De que servem, então, os asseclas do dr. Futuro a seu protegé? Para apresentar ao filho de dona Lindu os chefões religiosos com os quais tinha encontro agendado? Ou guardaram sua assessoria, paga a precioso ouro dos desempregados por Lula, para dar-lhe argumentos e provar ser injustiçado pela pátria ingrata num encontro em Berlim com sindicalistas do resto do mundo?

O pretexto para o pagamento do turismo de maledicência do ex-sindicalista, presidente e presidiário é uma portaria que já deveria ter sido revogada. Que lealdade é essa do major da PM, que está para ser alçado a ministro do STF, que não serve para evitar esse tipo de vexame para o Brasil? Ou será que Jorginho estava ocupado demais em instruir Bolsonaro a dar mancadas públicas com sua malfadada assessoria jurídica, para cuidar dessas miuçalhas? Por essas e outras o país do carnaval e da crise não se satisfaz com as próprias patacoadas e voa para o exterior para propagá-las.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, na segunda-feira 2 de março de 2020)

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