Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

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No Estadão desta quarta-feira: Até quando Jair fará pouco de nossa sobrevivência?

No Estadão desta quarta-feira: Até quando Jair fará pouco  de nossa sobrevivência?

Furto não é “rachadinha”;

Wassef é cúmplice, não advogado;

e Bolsonaro está é apavorado

O Brasil não é mais um Estado de Direito a respeitar, mas um país do faz de conta em que os mandatários recorrem à picaretagem malandra de eufemismos para maquilar crimes abomináveis, dando-lhes nomes simpáticos e leves para agradar a vassalos e enganar os tolos incautos. Dilma, a Weintraub petista de saias, reduziu o peso dos delitos pelos quais seus companheiros foram condenados, chamando-os de malfeitos. Eles, aliás, são malfeitores mesmo.

As enganações do momento têm apodo carinhoso ou são batizados em inglês: “rachadinha”, fake news… A primeira deriva de “rachid”: parlamentares de baixos clero e nível cometem a prática de contratar funcionários fantasmas, dos quais tomam de volta a parte do leão da injusta remuneração que recebem sem dar expediente. O nome do crime de que Flávio Bolsonaro foi acusado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) é peculato, administrado pelo operador, Fabrício Queiroz. O dito representante do povo remunera com dinheiro público quem não tem qualificação para exercer cargo com alto vencimento e furta, no mínimo, 80% deste. Trata-se de nefanda prática criminosa vigente em Casas Legislativas federais, estaduais e municipais, associada a lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa. Antes que algum bolsonarista, em defesa do hoje senador, aponte para o presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), o petista André Ceciliano, cuja assessoria foi flagrada pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) com “movimentações” 20 vezes superiores às do gabinete do nota zero um, ele tem de ser investigado. Mas furto é furto, seja qual for o valor. Teria de ser investigado no inquérito do MP-RJ, mas não inocenta Flávio por ser menor sua quantia.

Circula nos meios jurídicos uma boutade sobre inútil busca em foros de alguma petição redigida pelo ex-satanista Frederick Wassef, que defendeu o titular do mandato na Alerj, conquistado pelo voto. Mas isso não elimina o fato de que, como advogado, ele exibe feito memorável, do qual jamais se poderiam orgulhar colegas celebrados, como Sobral Pinto, Rui Barbosa ou Victor Nunes Leal. Com sua lábia de “jurista de porta de cadeia”, ele convenceu o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, a suspender todas as investigações do Coaf sobre crimes financeiros no País inteiro, só para manter o cliente longe das grades.

Mesmo, porém, que escape da justa punição da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que deixou de ser uma respeitável instituição da cidadania para se defender do arbítrio e virou mero sindicato de causídicos a serviço de ricaços, responderá pela condição de “coiteiro” de suspeito de miliciano. Esse termo define fazendeiros que davam guarida a cangaceiros no sertão e serviram de tema para um romance de José Américo de Almeida. Foi criminoso o papel que exerceu ao homiziar Fabrício Queiroz num escritório fake em Atibaia. Sua impunidade é um acinte. Por favorecimento pessoal, como acha o professor Miguel Reale Júnior, ou por eventual participação em organização criminosa, como aventa o desembargador Walter Maierovitch. E uma sanção administrativa da OAB.

Não dá para omitir o fato de que o cavalheiro em questão também se jactava de ser, mais que representante legal, íntimo do presidente Jair Bolsonaro. Que tem defendido, em preito à sua insensibilidade desumanista, lares não ameaçados de invasão por “esbirros” de seus inimigos prefeitos e governadores por desobediência à obrigatoriedade e portar máscara nas ruas. É evidente que o capitão cloroquina não leu os tratados antropológicos de Roberto DaMatta sobre a oposição entre rua e casa, mas é lamentável que sua sesquipedal ignorância oportunista o impeça de distinguir ambiente doméstico de espaço público.

Outra obsessão dele, de garantir a asseclas o direito constitucional de ir e vir, levou o mesmo político do mais baixo clero a confundir liberdade de expressão com fake news, associação de palavras inglesas que têm equivalente em português significando mentira, tema que ele domina.

E já que Bolsonaro foi citado neste panorama de proteção por eufemismos, é útil acrescentar que o presidente da República tem sido favorecido pela covardia dos pais da Pátria, que fingem não perceber que sua atual interpretação de “Jairzinho paz e amor”, inspirada em desempenho de seu antípoda e aliado secreto Lulinha, não passa de mera manifestação de pavor. Tendo levado a função presidencial à completa desmoralização mundial por sua indiferença criminosa, quiçá genocida, à maior pandemia do último século e temendo revelações incômodas do colega de paraquedismo, abandonou seu apoio a atos golpistas antidemocráticos e insultos às instituições da democracia representativa. E adotou o hábito de falso monge trapista. Com esse truque não será punido, como deveria, pelos crimes que cometeu no exercício da Presidência e puseram em risco diploma e mandato.

Parodiando Cícero contra o também populista Catilina, até quando Jair vai caçoar de nossa sobrevivência?

*Jornalista, poeta e escritor

(Artigo publicado na Página A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 9 de julho de 2020)

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Artigo para coluna do Grupo Ric Mais: Sócios de Bolsonaro para glória da morte, amém

Artigo para coluna do Grupo Ric Mais: Sócios de Bolsonaro para glória da morte, amém

O Grupo Ric de Comunicação põe à disposição de emissoras de rádio e jornais impressos ou em edição virtual três podcasts de três minutos cada e um artigo por semana. Interessados em publicar este material original deve entrar em contato com mash.leonardo@gruporic.com.br

Sócios de Bolsonaro

para glória da morte, amém

José Nêumanne

Presidente, Mandetta, Doria, Covas, Witzel e Caiado têm culpas na tragédia da pandemia

Quando se escrever sobre o impacto do novo coronavírus nestes tristes tempos de doença e morte, papel relevante terá um brasileiro, não de herói, mas de vilão: o presidente Jair Bolsonaro. É difícil encontrar nos registros de séculos de civilização tão bizarra obra de barbárie quanto a desse capitão do obscurantismo, que apostou quase 58 milhões de votos no cassino da política em óbitos e na negação total da empatia, da sensibilidade, do amor e do instinto animal da sobrevivência. Entorpecido pelo servilismo ao pajé ianque Donald Trump, messias da picaretagem como código de honra, nosso tosco propagandista de placebos como panacéia em feiras livres embarcou com entusiasmo cego nas práticas cientificamente inócuas de pílula do câncer, cloroquina e contágio do rebanho como poções mágicas para a cura universal da moléstia ignota. Sumo sacerdote de crendices bárbaras de terraplanismo, criacionismo e demonização da vacina que não previne, mas mata, ele investiu em teorias absurdas como a prevenção pelo banho no esgoto e o convívio com a doença como prova de bravura.

A ajuda dada ao microrganismo por sua meta de contaminar 70% da população não tem paralelo nem mesmo com as idiotices de seus comparsas, os ditadores Daniel Ortega, da Nicarágua, Gurbanguly Berdimuhamedow, do Turcomenistão, e Alexander Lukashenko, da Bielorús.

Sua teimosia estúpida o levou à antecipação da guerra eleitoral em dois anos e a se inimizar publicamente com governadores e prefeitos do País todo, que adotaram a estratégia óbvia de reduzir contato social para atenuar contágio viral. Sua obsessiva cruzada contra a vida e em prol da renda terminou por ocultar as participações desses inimigos eleitorais na disseminação do microrganismo. Luiz Henrique Mandetta, o ministro que abateu por ciúme, inveja e cálculo, deixou o Ministério da Saúde como herói e eventual adversário dele no pleito de 2022. Mas sem ter de explicar por que não comprou testes suficientes para repetir o sucesso da Coreia do Sul. João Doria nunca foi cobrado por ter feito o antigo túmulo do samba de Vinicius tornar-se permanente quarta-feira de cinzas da farra das funerárias sambando sobre sepulturas. Como Dória, Bruno Covas, Wilson Witzel e Ronaldo Caiado caíram na cantiga da sereia da abertura das ruas para a tragédia escancarada da crueldade de capitalistas desumanos, Eles e outros, em associação com as ratazanas da elite dirigente do Estado e do rentismo, investiram pesado em sobrepreços em alta e decência em queda vertiginosa.

Como nas priscas eras de El Rey fujão, a Terra de Santa Cruz manteve o protocolo ritual de eliminar pobres e velhos para nutrir maganões da Corte.

*Jornalista, poeta e escritor

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No Blog do Nêumanne: Os brutos também furtam

No Blog do Nêumanne: Os brutos também furtam

José Nêumanne

Cara de sério e índole casmurra não evitaram que Serra juntasse R$ 40 milhões num banco suíço, algo impensável para um professor universitário, filho de um imigrante de classe baixa

José Serra, quem diria, acabou na Lava Jato.

Ou melhor, os brutos também furtam.

É possível afirmar que esse paulistano, de 78 anos, entrou na política pelas portas mais certinhas da História num século 20 conturbado por duas grandes guerras, fascismo, nazismo e comunismo, sangue, suor e lágrimas, como definiu magnificamente o maior estadista que atuou nele, o britânico Winston Churchill. No entanto, está deixando a cena da forma mais lamentável que poderia ter escolhido, depois de ter construído uma fama de gestor público reto e duro. De uma conta conjunta com a filha, Verônica, possivelmente a pessoa que mais ama, na Suíça das grandes contabilidades paralelas e dos códigos secretos de contas sem nome, foi bloqueada a quantia astronômica de R$ 40 milhões, grande até para os maganões da empresa privada que conviveram com ele em 56 anos de política.

Começou como militante da Ação Popular (AP), grupo armado que pretendia derrubar a ditadura militar, instalada exatamente depois de sua estreia em palanques no Comício da Central do Brasil (ou das Reformas), em 24 de março de 1964. Na presença do então presidente João Goulart, ele, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), deu apoio da juventude estudantil ao projeto de “reformas de base” do herdeiro político de Getúlio Vargas e líder do Partido Trabalhista Brasileiro. Uma semana depois, as famílias católicas fizeram passeatas contra a “ditadura sindicalista”, os generais se irritaram com a movimentação considerada subversiva de suboficiais e o general Olímpio Mourão marchou de Minas para o Rio, o que serviu de senha para o golpe. Então na Juventude Universitária Católica (JUC), foi para a clandestinidade e seguiu para o Chile, exilado. Lá conheceria Mônica, sua ex-mulher e mãe de Verônica.

Com a anistia, emprestou sua fama de durão ao primeiro governador de São Paulo eleito pelo povo pós-golpe, Franco Montoro, emedebista egresso do Partido Democrata Cristão (PDC). Secretário de Planejamento do Estado mais rico do País, foi um ponto de referência na economia, embora tenha estudado engenharia na Universidade de São Paulo (USP). Em nome do combate à corrupção do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), entregue em São Paulo ao governador Orestes Quércia, juntou-se a Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e outros dissidentes no Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB). FHC nomeou-o, para surpresa geral, ministro da Saúde. Na sua gestão, deu força aos medicamentos genéricos e combateu com fervor antitabagista o tabaco. Foi ainda governador de São Paulo, prefeito da capital e perdeu duas eleições presidenciais, para Lula, em 2002, e para Dilma Rousseff em 2006.

Uma língua ferina diria que sua descida começaria no Ministério das Relações Exteriores do emedebista Michel Temer. Depois, passou a  ocupar uma das vagas no Senado, desde 2015, e foi pilhado com a boca na botija pela Operação Lava Jato, justamente agora, nos estertores dela.

Reagiu queixando-se publicamente da data de vencimento da investigação, argumentando que eventuais ilícitos estariam prescritos. Mas se esqueceu de negar a prática furtiva de corrupção. Os tucanos sempre foram favorecidos pela leniência do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), incluindo a Lava Jato, sucesso em Curitiba e no Rio. Só que o saldo bloqueado grita mais alto do que qualquer queixa por ele utilizada em estilo sussurrante, que contraria seu perfil orgulhoso e antipático.

Há outro detalhe. A Operação Revoada, deflagrada em 3 de julho, joga luz num personagem já conhecido da Lava Jato, o lobista de fama internacional José Amaro Pinto Ramos. Este foi indiciado pelo Ministério Público da Suíça pelos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção passiva de agentes públicos nos casos Alstom e Siemens, no governo do PSDB de São Paulo. Os esquemas do PSDB e do PT passaram por ele. Foi sócio de várias empresas do vice-almirante da Marinha Othon Pinheiro da Silva, ex-presidente da Eletronuclear, condenado em primeira instância pelo juiz Marcelo Bretas, da Justiça Federal do Rio, e delatado por diversos executivos da Odebrecht. Um dos 77 delatores do dito “Departamento de Operações Estruturadas”, nome pomposo para o propinoduto da empreiteira corrupteira, Benedito Barbosa da Silva Junior, confessou à Lava Jato que a Odebrecht pagou E$ 40 milhões ao lobista José Amaro Pinto Ramos para fechar o contrato de parceria com a empresa francesa DCNS para a construção de cinco submarinos. Othon Luís Pinheiro da Silva e o PT, por intermédio do ex-tesoureiro João Vacari, levaram propina. O negócio dos submarinos foi fechado, em 2008, por Lula.

Benedito Barbosa da Silva Junior confessou ainda que José Amaro Pinto opera no mercado de armas há muitos anos. A casa caiu para o lobista internacional do PSDB e do PT, ligado a Serra, Lula e às empreiteiras corrupteiras. Sua blindagem simplesmente derreteu.

Em 2017 comentei que o senador José Serra (PSDB-SP) poderia ter sido investigado a fundo em 2008, quando o Ministério Público da Suíça informou às autoridades brasileiras que havia indícios de que a multinacional Alstom teria pago propinas para obter contratos nas áreas de energia e transporte. Mas o procurador Rodrigo de Grandis, à frente do caso, engavetou o pedido da Suíça numa pasta errada!!! E não deu em nada para ninguém.

Esse caso de propina revelado agora e que é a base da denúncia do Ministério Público de São Paulo envolvendo o senador José Serra e as corrupteiras Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez, assim como o caso Alstom, poderiam ter sido investigados e punidos na Operação Castelo de Areia, anulada por intervenção do ex-ministro e advogado de Lula, Márcio Thomaz Bastos. Este pagou RS 5 milhões em propina e prometeu uma vaga ao então presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Asfor Rocha, no Supremo Tribunal Federal (STF) Mas Teori Zavascki foi nomeado por Dilma Rousseff para a vaga. Essa anulação atrasou o combate à corrupção em pelo menos oito anos. Blindou o PT, o PSDB e o lobista internacional José Amaro Pinto Ramos. A Lava Jato só foi um sucesso porque foi feita por Curitiba. Em São Paulo, território de Márcio Thomaz Bastos e seus advogados associados – cupinchas, melhor dizendo –, nada andou.

Agora vou além. O filho de Luiz Gushiken, Guilherme Gushiken, em delação premiada na Operação Greenfield, que apura em Brasília a corrupção nos fundos de pensão Previ, Petros e outros, confessou que a Camargo Corrêa pagou propinas milionárias ao PT e aos dirigentes da Petros. Pois é. Quantos crimes poderiam ter sido evitados se o Ministério Público de São Paulo tivesse agido? As corrupteiras são todas de São Paulo e formavam um cartel. Pegando uma, no caso, a Camargo Corrêa, na Castelo de Areia, pegavam todas. Como diz a metáfora de puxar uma pena e pegar a galinha inteira, da lavra do ministro do STF Gilmar Mendes.

O ex-governador de Pernambuco e ex-ministro da Fazenda Gustavo Krause escreveu-me a respeito das acusações contra Serra: “Nosso memorável Nélson Rodrigues dizia, com a licença que o talento lhe deu: ‘o que o sujeito tem de bom ou sublime está na cara’. Um exagero lombrosiano? Bom, além de uma chatice esculpida em granito, Serra era insuperável. Tinha o que chamo de ‘cara de critério’, máscara que parecia impenetrável aos peccata mundi”. E completou: “Eis que o ventilador cumpriu sua função e nós, nordestinos, a quem ele dispensava especial desdém, assistimos ao espetáculo da desfaçatez do ‘honorável tucano’. Que peste a corrupção! Ou nasce vacinado ou não há anticorpo que imunize”.

O saldo bloqueado da conta na Suíça, em que comprometeu a filha amada, ao estilo pós-petista, revela no sério só na aparência José Serra um traidor da memória impecável de dois antecessores tucanos dele. Franco Montoro, que o lançou na política. E Mário Covas, que não transigia com corrupção, terminou tornando possível a roubalheira ao fazer um trabalho notável na recuperação financeira do Estado mais rico da Federação, depois de Orestes Quércia, que levou o trio a deixar o MDB com o dr. Ulysses e tudo, ter dito: “Quebrei o Banespa (banco do Estado), mas elegi Luiz Antônio Fleury governador”. E assim foi feito.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 6 de julho de 2020)

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Artigo para a coluna da Ric Mais: Sócios de Bolsonaro para glória da morte, amém

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Sócios de Bolsonaro para glória da morte, amém

José Nêumanne

Presidente, Mandetta, Doria, Covas, Witzel e Caiado têm culpas na tragédia da pandemia

Quando se escrever sobre o impacto do novo coronavírus nestes tristes tempos de doença e morte, papel relevante terá um brasileiro, não de herói, mas de vilão: o presidente Jair Bolsonaro. É difícil encontrar nos registros de séculos de civilização tão bizarra obra de barbárie quanto a desse capitão do obscurantismo, que apostou quase 58 milhões de votos no cassino da política em óbitos e na negação total da empatia, da sensibilidade, do amor e do instinto animal da sobrevivência. Entorpecido pelo servilismo ao pajé ianque Donald Trump, messias da picaretagem como código de honra, nosso tosco propagandista de placebos como panacéia em feiras livres embarcou com entusiasmo cego nas práticas cientificamente inócuas de pílula do câncer, cloroquina e contágio do rebanho como poções mágicas para a cura universal da moléstia ignota. Sumo sacerdote de crendices bárbaras de terraplanismo, criacionismo e demonização da vacina que não previne, mas mata, ele investiu em teorias absurdas como a prevenção pelo banho no esgoto e o convívio com a doença como prova de bravura.

A ajuda dada ao microrganismo por sua meta de contaminar 70% da população não tem paralelo nem mesmo com as idiotices de seus comparsas, os ditadores Daniel Ortega, da Nicarágua, Gurbanguly Berdimuhamedow, do Turcomenistão, e Alexander Lukashenko, da Bielorús.

Sua teimosia estúpida o levou à antecipação da guerra eleitoral em dois anos e a se inimizar publicamente com governadores e prefeitos do País todo, que adotaram a estratégia óbvia de reduzir contato social para atenuar contágio viral. Sua obsessiva cruzada contra a vida e em prol da renda terminou por ocultar as participações desses inimigos eleitorais na disseminação do microrganismo. Luiz Henrique Mandetta, o ministro que abateu por ciúme, inveja e cálculo, deixou o Ministério da Saúde como herói e eventual adversário dele no pleito de 2022. Mas sem ter de explicar por que não comprou testes suficientes para repetir o sucesso da Coreia do Sul. João Doria nunca foi cobrado por ter feito o antigo túmulo do samba de Vinicius tornar-se permanente quarta-feira de cinzas da farra das funerárias sambando sobre sepulturas. Como Dória, Bruno Covas, Wilson Witzel e Ronaldo Caiado caíram na cantiga da sereia da abertura das ruas para a tragédia escancarada da crueldade de capitalistas desumanos, Eles e outros, em associação com as ratazanas da elite dirigente do Estado e do rentismo, investiram pesado em sobrepreços em alta e decência em queda vertiginosa.

Como nas priscas eras de El Rey fujão, a Terra de Santa Cruz manteve o protocolo ritual de eliminar pobres e velhos para nutrir maganões da Corte.

*Jornalista, poeta e escritor

 

Artigo no Estadão: O bandido Adriano e a famiglia Bolsonaro

Artigo no Estadão: O bandido Adriano  e a famiglia Bolsonaro

José Nêumanne

MP do Rio desvenda relações promíscuas

entre ex-faz-tudo de Flávio e milícia carioca

As patranhas que envolvem o escândalo no gabinete do senador Flávio, primogênito do presidente Jair Bolsonaro, quando era deputado estadual começam na denominação íntima da prática criminosa investigada pelo Ministério Público (MP) do Rio: “rachadinha” ou “rachid”. Para chamar delitos por sua gravidade real urge usar nomes com que os define o Código Penal: peculato (uso de dinheiro público para proveito pessoal), corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Os seis anos da Operação Lava Jato familiarizaram o brasileiro com o que se faz em Casas Legislativas do País por parlamentares de todos os entes federativos e sem exceção de legendas. Ou seja, contratar por vencimentos superiores à média servidores dispensados do expediente e obrigados a entregar parte do que ganham aos empregadores.

O filhote 01 do fundador da “nova política” é acusado de chefiar malfeitores que atuaram em seus quatro mandatos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Conforme o MP do Rio, cuidava disso o ex-subtenente da Polícia Militar (PM) fluminense Fabrício Queiroz, preso numa operação conjunta das Polícias Civis do Rio e de São Paulo com autorização do juiz Flávio Itabaiana e supervisão da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Esta se tornou necessária pelo expediente a que recorreu o dono da casa, onde foi encontrado o acusado, de pôr na parede a placa do escritório de advocacia Wassef & Sonnenberg (nome da cidade polonesa de um campo de concentração nazista e sobrenome da prima e sócia). Imagens do vídeo produzido pelas autoridades revelam a associação entre tirania, representada por um cartaz referente ao AI-5, sigla com que se sintetiza a ditadura militar, e a Máfia, simbolizada pelo boneco de Tony Montana, personagem do filme Scarface, gângster cruel de Miami na Lei Seca.

A biografia profissional do dono do imóvel que serviu de cativeiro ao protagonista do escândalo acrescenta a essas referências a atuação do ex-advogado do presidente da República e de seu filho senador em denúncias de infanticídios. Frederick Wassef era devoto da seita satânica Lineamento Universal Superior (LUS), liderada por Catarina de Andrade, autora do livro Deus, uma Grande Farsa, acusada e inocentada por falta de provas do desaparecimento de dois garotos de 6 anos em Guaratuba (PR), em 1992. Ele também advogou para Catarina, indiciada como mentora intelectual de 18 homicídios de meninos com idades entre 8 e 14 anos, de 1989 a 1993, no Pará e no Maranhão. Segundo os autos, os assassinatos faziam parte de um ritual de “magia negra”. Desses, cinco corpos não foram encontrados, três sobreviveram mutilados e 11 foram assassinados e castrados em Altamira (PA).

Wassef, que se jacta de ter dado ao deputado Bolsonaro a ideia de se candidatar à Presidência, obteve liminar do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, paralisando por seis meses as investigações financeiras do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para beneficiar Flávio e outros. Mas o plenário anulou seus efeitos. Com isso foi retardada, mas não impedida a investigação do MP do Rio, que contém imagens de Fabrício pagando boletos de escolas das filhas e mensalidades de planos de saúde do chefe na Alerj.

O inquérito resultou na prisão preventiva do ex-companheiro de pescarias do presidente na casa do ex-advogado da famiglia Bolsonaro, desnudando a relação de Fabrício com o capitão Adriano da Nóbrega, chefão da milícia do Rio das Pedras e do Escritório do Crime. O depósito de mais de R$ 400 mil em dinheiro vivo do miliciano na conta do ex-faz-tudo do 01 soma-se agora às manifestações de simpatia do presidente e do senador pelo criminoso executado na Bahia. Jair, então deputado federal, prestigiou seu julgamento por homicídio e ordenou que o filho o condecorasse com a Medalha Tiradentes na cela onde vivia. Flávio ainda manifestou seu apreço por Adriano à época de sua morte, ocasião em que Fabrício se disse muito triste por ter perdido um amigo.

Embora peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa sejam tipificações penais muito graves, elas não são comparáveis à conexão com milícias, grupos mafiosos que espoliam comunidades pobres e matam quem atravessar o seu caminho. Nunca foi secreta a generosidade com que o presidente e o senador transformaram seus gabinetes em associações assistencialistas de familiares “desamparados” de milicianos, empregando-os sem exigir que trabalhassem. Foi o caso de Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano. Outra beneficiária da caridade com chapéu alheio (dinheiro público) do clã presidencial, Márcia Aguiar, mulher de Fabrício, é agora foragida da Justiça.

Com mais de 1 milhão de casos e de 50 mil mortos pela covid-19, aos quais o presidente Jair Bolsonaro nunca deu a mínima atenção, tratando a pandemia como um “resfriadinho”, a crise sanitária e a depressão econômica são usadas por líderes das instituições democráticas como pretextos para não fazerem o que urge ser feito: fora, Bolsonaros. Fazem o que de pior pode acontecer com o Brasil.

*Jornalista, poeta e escritor

(Artigo publicado na Página A2 do Estadão na quarta-feira, 24 de junho de 2020)

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No Blog do Nêumanne: Weintraub fugiu com ajuda do chefe

No Blog do Nêumanne: Weintraub fugiu com ajuda do chefe

José Nêumanne

Ex-ministro da Educação escapou da quarentena imposta pelos EUA a passageiros embarcados no Brasil usando passaporte diplomático por cargo do qual já tinha sido exonerado

Quando Abraham Weintraub embarcou no avião de carreira que o levaria para Miami, na Flórida, com escala em Santiago do Chile, não era mais o bolsonarista de nome e sobrenome estrangeiros que o presidente da República, Jair Bolsonaro, havia escolhido para o lugar de Vélez Rodríguez, que fracassara no Ministério da Educação. Mas um extremista da direita com militância fiel a serviço de seus projetos políticos lunáticos. Pronto até para assumir a liderança em eventual disputa para ocupar o posto do chefe do governo, caso qualquer circunstância tire o “mito” do comando das milícias virtuais. Por enquanto, não há perspectiva nenhuma de que essa substituição seja necessária, mas uma vista d’olhos sobre o panorama na República não será realista se considerar impossível o afastamento do mais poderoso chefão. Nenhum dos mais de 30 processos  guardados na mesa de Rodrigo Maia na presidência da Câmara está na iminência de ser usado. Mas não faltam ações contra a chapa Bolsonaro-Mourão no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Supremo Tribunal Federal (STF) contra arroubos autogolpistas dele; E previsíveis abalos que podem surgir da evolução do inquérito do Ministério Público (MP) do Rio de Janeiro sobre a suspeita gestão financeira do ex-subtenente da Polícia Militar (PM) do Rio Fabrício Queiroz no gabinete do então deputado na Assembleia Legislativa fluminense Flávio, o 01 de Bolsonaro.

As circunstâncias que produziram a súbita e espetacular vitória do capitão reformado do Exército na eleição presidencial de 2018 também provocaram a emergência de novos milionários de votos nas disputas por vagas no Congresso na mesma ocasião. Não há, contudo, nenhum parlamentar do Partido Social Liberal (PSL), legenda pela qual ele se elegeu, que tenha reunido cacife suficiente para ocupar o lugar, incluindo na lista seus herdeiros biológicos, Flávio, Eduardo e Carlos, rematados presepeiros da política, dos costumes e das redes sociais, e que mais contribuem para a ruína do pai do que para sua eventual sucessão.

Weintraub saiu do anonimato absoluto para o almejado lugar de delfim do mais bem-sucedido representante da minoria ruidosa da nostalgia dos tempos de fausto econômico da ditadura militar por causa de sua completa comunhão em pensamentos, palavras e obras com essa militância. Mais que Bolsonaro, que não frequenta nem os cursos do horoscopista na Virgínia, tamanho é seu desprezo pela mínima instrução, ele emergiu das hostes que nos “cursos” do mestre-sala das redes sociais, aprendendo rudimentos da grosseria pré-iluminista que o fizeram surfar nos mares de criacionismo, do terraplanismo, do culto à ignorância explícito e da letal negação da ciência.

Mais do que o chefe do bando, cuja ignorância não lhe permite sequer confundir Kafka com kafta e cuja preguiça evita que cometa erros crassos de grafia, como imprecionante em vez de impressionante, pois atribui a outros semialfabetizados a redação de seus posts no Twitter, Weintraub consagrou-se como burro-símbolo da incultura tupiniquim. Nada mais apropriado, portanto, do que lhe confiar o comando do Ministério da Educação para executar a missão explícita de deseducar as futuras gerações e prepará-las para contrair o neofascismo inculto e mal comportado. Se conseguiu no prazo o que o instinto de sobrevivência do comandante da nau lhe permitiu, isso só saberemos ao longo do tempo em que continuar durando a entrega de nossa Pátria ao bando de anjos da morte e agentes do mal que tratam vacina como origem de doença e pelejam para destruir o legado civilizatório de Galileu, Newton, Fleming e Shakespeare.

Bolsonaro, com sua vocação para vingança e ódio, e no culto à desordem sob suas ordens absurdas, sentiu o calor da fogueira nos fundilhos quando viu Weintraub nos braços de meia dúzia de gatos-pingados que o alçaram aos próprios ombros, raros, mas parrudos, à saída da Polícia Federal (PF) após o depoimento exigido pelo STF, cujos 11 membros ele chamou de “vagabundos”. Merecedor ou não do insulto, elogio, se comparado com o baixíssimo calão reinante no bolsonarismo, o time de togados deu-lhe o caminho de saída para a glória fora do governo ao negar o habeas corpus que pediu. E era plausível, de vez que sem armas nem fogos de artifício à mão, ele não usou mais do que a palavra, a que lhe dá direito o preceito inviolável da liberdade de expressão. Certo é que o STF não o proibiu de sair do País nem mandou recolher seu passaporte diplomático, o que foi comparado pelo desembargador Wálter Maierovitch com um “chapéu”, o mais desmoralizante drible do futebol.

Sem ordem de captura no computador do embarque da PF no aeroporto de Guarulhos, ele voou para Miami, sonho de consumo dos militantes do “ignorantismo” absoluto da dita “ala ideológica” do governo, a maior ofensa semântica a qualquer ideologia que preze a definição, por mais violenta e totalitária que seja. O discurso e a ação dos nazistoides, aliás, não autorizam o uso da expressão para definir supremacia do preconceito sobre empatia e desprezo à vida, manifestado na ausência da máscara, que se tornou uma espécie de desafio à higiene e à vida durante a pandemia, que já contaminou 1 milhão e fez mais de 50 mil vítimas de morte de uma população sem defesa ante táticas de extermínio dos gabinetes do ódio e da adoração onanista de armas e munições. Nos ombros de um bando inferior em número aos 17 racistas que imitaram a Ku KIux Klan levando trevas na ponta de suas tochas à sede do poder republicano, sob a chefia de Sara Giromini, Weintraub viveu seu momento de glória, similar ao incrível emprego ao qual Bolsonaro o destinou no Banco Mundial, em Washington, ao custo de R$ 115 mil mensais, pagos por nós.

A exoneração “a pedido” de Weintraub do MEC exigiu um enorme constrangimento do mercurial presidente da República. Evidentemente constrangido, posto no lugar de coadjuvante sob o protagonismo do subordinado, Bolsonaro participou de uma live, forma de comunicação favorita da extrema direita negacionista nacional, em que até um “abracinho” de despedida foi dado em mais uma provocação às recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), não obedecidas pelo Brasil — além de Nicarágua, Turcomenistão e Bielo-Rússia. Ali, o mestre de cerimônias referiu-se a seus 18 anos de Banco Votorantim (BV). Em entrevista coletiva, seu desafeto Rodrigo Maia lembrou ironicamente que o BV havia quebrado. “Digo apenas que o Banco Votorantim NUNCA quebrou e que existe até hoje. A afirmação dele é uma MENTIRA. Tive a honra de trabalhar lá. Comecei como liquidante (boy) e cheguei a diretor estatutário. Fui economista chefe, ranqueado várias vezes no Top5”, escreveu Weintraub a um seguidor que se referira ao fato. De fato, a instituição financeira ainda existe, só que desde 2009 está incorporada pelo Banco do Brasil num pacote público federal de socorro a bancos em má situação financeira. Votorantim, como se sabe, sempre foi uma marca poderosa, mas no setor industrial.

 O detalhe sórdido da exoneração de Weintraub, contudo, passa longe da discussão inócua sobre a débil saúde da instituição financeira em que fez carreira. A articulação traduz a expressão criada pelo colega Octavio Guedes, da GloboNews, pois é típica peça da “estética de milícia”, reinante em Rio das Pedras, cujo chefão miliciano era o também capitão, só que da PM-RJ, Adriano Magalhães da Nóbrega, executado na Bahia por policiais baianos e fluminenses. No prédio conhecido como “Máscara Negra”, no centro de Brasília, foi recebido pelo diretor-geral da PF, Rolando Alexandre de Souza, e depois entregou o depoimento por escrito, para não responder a perguntas. À saída, foi recebido por meia dúzia de admiradores que o carregaram nos ombros e isso decretou sua despedida do MEC.

Weintraub embarcou na noite da sexta 19. A demissão só seria publicada no Diário Oficial na edição extra de sábado 20, ao meio-dia, quando já tinha passado pelos trâmites de migração no aeroporto. Segundo o advogado constitucionalista Marcellus Ferreira Pinto, em entrevista ao UOL, ele pode ser considerado ilegal pela lei americana e acabar deportado dos Estados Unidos se tiver utilizado o passaporte diplomático de ministro. “Para o direito brasileiro ele é ministro até sábado, quando [o pedido] é publicado no DO (Diário Oficial). Para o direito americano, não. Se pediu exoneração na quinta-feira, já não é ministro desde então” explicou.

Resta-nos pagar para ver, com a vênia de São Tomé.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Artigo publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 22 de junho de 2020)

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