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No Blog do Nêumanne: Quebrar o ovo da serpente

No Blog do Nêumanne: Quebrar o ovo da serpente

Vereadora e motorista executados e ônibus da caravana de Lula são alvo da mesma estupidez epidêmica

Nesta terceira semana após a morte de Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes, nada foi feito de prático para esclarecer o crime nem parece que haja alguém realmente empenhado em explicar o que houve, identificar os responsáveis e puni-los na forma da lei. Com todos os cuidados para não ser confundido com os oportunistas que não disfarçam seu evidente interesse em tirar proveito da tragédia, da dor e do sangue derramado para sórdidos efeitos políticos. A esquerda achou a mártir de que precisava para narrar a saga do desespero, da miséria e da insegurança de seus militantes. A direita limita-se a desmoralizar a vítima, dando-lhe características satânicas com a mesma desfaçatez e idêntica imaginação para pintar e bordar seus preconceitos e soluções mágicas para velhos dramas rotineiros da violência que assola o País, na cidade e no campo, e da insegurança que a todos devia assustar, mas para alguns serve de válvula de escape.

Episódio bastante diferente teve igual repercussão: os furos de bala na lataria do ônibus que transportava convidados e encarregados da cobertura para a imprensa da caravana do pretenso pré-candidato à Presidência da República Lula da Silva. O tempo passa e, assim como a violenta e inepta polícia fluminense, a autoridade responsável pelo combate ao crime no Paraná não dispõe de um mísero fato para justificar seja qual for das versões díspares a mais provável. A esquerda não tem dúvida de que os insignes comandantes do Partido dos Trabalhadores (PT) e representantes da multifacetada e despreparada ala socialista foram alvo de um atentado político malsucedido. Não lhe faltam razões para espalhar essa notícia sem base em fatos: a direita é suficientemente estúpida para dar ao condenado em fuga da cadeia pretexto para se vitimizar. E seu discurso armamentista justifica a hipótese plausível, mas longe de ser comprovada. Essa ala elitista e “golpista”, de seu lado, já tem uma teoria para chamar de sua: “Ora, foram os próprios comunas que atiraram contra o ônibus” – que, aliás, não transportava ninguém relevante na hierarquia dos partidos em disputa eleitoral pelo lado gauche. O discurso de vitimização dos militantes da caravana dá também uma forte tonalidade provável a essa teoria, que, da mesma forma que a dos oponentes, não pode ser descartada.

Fake news de um lado ou de outro, contudo, incrementam a violência de parte a parte e a impunidade generalizada é reforçada pela cegueira ideológica e pela falta de compromisso com a verdade e com o Estado de Direito, que ambos os lados desprezam. Pois, afinal, ambos querem mesmo é impor seus métodos e ideias sobre os outros, que são amigos ocultos no combate à democracia, ao império da lei, que é deixada de lado, e no apanágio do convívio pacífico, que é simplesmente queimado na fogueira dos autos de fé desses extremos sem juízo nem caráter.

Marielle Franco era mulher, negra, militante de um partido de esquerda, homossexual e voz minoritária, mas ativa, contra a intervenção militar na segurança do Estado do Rio e altiva e corajosa contra a letalidade de uma polícia em que cabem muito bem os dois papéis: o de carrasco e o de vítima. O ovo da serpente é também um enigma impossível, pelo menos nas atuais circunstâncias, de decifrar: policiais morrem mais porque matam mais ou acontece exatamente o inverso? A resposta a essa terrível questão passa pelo debate inócuo sobre a inocência ou o oportunismo dos mártires dessa intifada de inimigos inconciliáveis, que deveriam ser adversários civilizados. E deixa de lado o único jeito de estancar o sangue derramado pelas balas perdidas, das quais só se conhece o alvo, nunca a mira.

Neste instante, nada trará de volta a vida da vereadora e do motorista, da mesma forma que ninguém, de um lado ou de outro, depois das balas disparadas contra o ônibus da caravana de Lula, recorrerá à razão, à cabeça fria e à prudência para erguer a voz contra o ódio à diferença. Não interessa a esta altura nem a lógica que acusa nem a mão que atira a pedra ou o ovo. A razão começa na capacidade de investigar e descobrir antes de concluir e apontar o dedo na direção do nariz do outro.

A intervenção militar, dita federal, na Segurança do Rio começou errada e não tem como produzir acertos, pelo menos enquanto não abandonar as raízes podres plantadas no pântano de suas primícias. Marielle tinha razão de ser contra. O governo que a engendrou estava interessado em pirotecnia e marquetagem política, definida na expressão calhorda do porta-voz do presidente, adequadamente chamado de Mouco: “capitalização política”. Tanto tempo depois do “golpe de mestre”, a violência recrudesce e não há lenitivo para os disparos em sequência e os urros dos atingidos, inocentes ou suspeitos. Em dezembro, quando o prazo se esgotar, com os governos federal e estadual nos estertores de uma agonia que só o povo sofre, a intervenção ainda será popular pelo que representa de óbvia esperança. Mas também ineficaz, enquanto não responder aos desafios fáticos com a realidade nua e crua, e não tontas teorias apressadas.

Neste fim de semana, O Globo publicou testemunhos oculares da execução de Marielle e Anderson que a polícia não ouviu porque dispensou, seja na cena do crime, seja, depois, na delegacia. Tudo o que a autoridade trouxe a lume foi a tentativa de usar o fato para bater caixa. O ministro da Segurança Pública cometeu o desatino de sair disparando por aí futricas desconexas que ouvia nos corredores de quartéis e delegacias desprovidas de inteligência de verdade, mas cheias de comadres fofoqueiras – o carro localizado em Minas, a fábula de mil e uma noites da munição da Polícia Federal (PF) usada na chacina de Osasco, no massacre de São Gonçalo e em agências de correios da Paraíba, etc.

Os generais Braga e Richard já perderam muito tempo ensinando repórteres a entrevistar e distribuindo comunicados sem fatos a narrar. Poderiam agora partir de um pressuposto básico: ou recorrem à PF, à Agência Brasileira de Informação (Abin), ao FBI ou ao Serviço Secreto de Sua Majestade para descobrir quem matou Marielle e Anderson, ou terminarão incluídos no rol dos Judas a serem malhados no Sábado de Aleluia que vem. Nada há de seguro para servir de ponto de partida para uma certeza qualquer, mas a inépcia das polícias do Rio resulta da incompetência reconhecida por anos de fiasco na guerra contra o crime ou da desconfiança de que os verdadeiros autores da execução jamais apontarão para o próprio peito. Nesse sentido, aliás, a autoridade perdeu muito terreno: afinal, os assassinos da juíza Patrícia Acioli, que ousou desafiar a banda (será mesmo só uma banda?) podre das forças de repressão do Estado do Rio, foram apontados e punidos. Pelo andar da carruagem (e que carruagem lenta, seu Jungmann!), isso não acontecerá agora. Como também a polícia paranaense não tem competência nem vontade para dar à opinião pública neutra nessa guerra ideológica de completos idiotas uma satisfação lógica sobre os furos na fuselagem do ônibus dos jornalistas e convidados de Lula, em Francisco Beltrão. Sei que não é simples. Mas a questão é que ou dá ou desce, ou vai ou racha. Não há panos quentes que não queimem nem água fria que não afogue nesse cruzamento de torpedos de investigação cegos e trôpegos.

É ingenuidade demais imaginar que é possível calar os torpedos verbais do condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro ou os ovos e pedradas de seus inimigos figadais. Ou pedir que a esquerda desarme o altar de Marielle para ajudar a descobrir os que encurtaram sua vida promissora de líder política de uma comunidade sem voz. Mas urge exigir dos militares que entraram na fria da intervenção por falta de coragem e dos policiais federais que só querem protagonizar a guerra popular contra a corrupção que façam um esforço sério, competente e de verdade para identificar, prender e processar os verdadeiros donos dos revólveres que dispararam contra o Agile no Estácio, o berço do samba, ou o ônibus que cruzava a terra fértil do Paraná, que teve em José Richa, pai do governador Beto, um político capaz e responsável, que ajudou a construir a democracia com ousadia e sem tremer de medo do arbítrio armado e truculento. A democracia hoje precisa mais dessas investigações do que da propaganda boboca da Justiça Eleitoral de uma eleição da qual não é capaz sequer de acompanhar a contabilidade ilícita.

José Nêumanne

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 2 de abril de 2018)

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No Blog do Nêumanne: Na Corte do rei Luís

No Blog do Nêumanne: Na Corte do rei Luís

Defesa de Lula no STF assume discurso aristocrático de antes da Revolução Francesa e execra a “turba”

Não foi à toa que o encarregado de fazer a defesa oral do habeas corpus de Lula perante o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) na tristemente histórica sessão de quinta-feira 22 de março de 2018, o criminalista – e militante do PDT de Brizola – José Roberto Batochio, trocou o discurso socialista de antanho para recorrer à retórica monarquista contra as pretensões daquilo que chamou de “turba”. E citou em francês a frase com que Chrétien Guillaume de Lamoignon et Malesherbes começou sua defesa do monarca absolutista Luís XVI, que seria guilhotinado após o julgamento: “Monsieurs le juges, je vous porte ici aujourd-hui deux choses. La première est ma tête. Et la deuxième, la vérité. Vous pouvez prendre la première. Mais aprés écouter la deuxième” (“Senhores juízes, trago aqui hoje duas coisas. A primeira é minha cabeça e a segunda, a verdade. Poderão dispor da primeira, mas só depois de ouvirem a segunda”.)

O ex-presidente do STF Ricardo Lewandowski desmanchou-se em mesuras em relação ao “acento” francês da leitura da frase do defensor de um rei que, por coincidência (será?), também se chamava Luís. E seu colega de plenário Dias Toffoli talvez não tenha exagerado tanto ao promover a peroração a “histórica”. Histórica pode ser, mas por motivos que talvez não sejam tão dignos de aplausos. É verdade que ao improviso do causídico faltou rigor histórico. Nicolas Sarkozy não foi presidente da França por duas vezes, mas apenas de 2002 a 2007, portanto, num mandato. Mas, em compensação, o orador foi, no mínimo, original quando – representando um condenado por crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro e que se diz de esquerda, como, aliás, também ele próprio –  defendeu a realeza, ao “enfrentar a opinião pública e os jacobinos sedentos de sangue e punição a qualquer preço”. A identificação do orador da semana passada com seu inspirador exumado do século 18 foi de tal ordem que num determinado instante do discurso apropriou-se do termo “turba” para definir os que agora se opõem a seu representado. Como antes os monarquistas pré-revolucionários o faziam para desqualificar o populacho que ousava tirar do rei deposto o poder que herdara dos ancestrais.

Mas Malesherbes, denominação de um boulevard que começa atrás da igreja de Madeleine e atravessa um dos bairros mais nobres de Paris, não foi o único francês homenageado por Batochio. Ele também fez apaixonada defesa de Nicolas Sarkozy, bem-sucedido arrivista de direita, adversário figadal dos socialistas e agora acusado de hábitos que outro advogado de Lula, Márcio Thomaz Bastos, teria dificuldades em chamar de “republicanos”. O público, incauto e surpreendido com a convicção da defesa de práticas contábeis eleitorais da direita francesa, talvez pudesse obter do criminalista informações mais detalhadas a respeito da investigação sobre eventuais delitos que lhe são atribuídos. E o que tem a ver o umbu com as cascas? Caso não o faça, correrá o risco de ser contestado por leitores mais respeitosos da verdade histórica chamados a lembrar-lhe que a República Francesa, que, a seu ver, “no passado foi modelar e, através do Iluminismo, exportou liberdade e democracia para o mundo”, somente o fez após decapitar o rei xará de seu cliente e cujo defensor foi citado em seu discurso como inspiração máxima.

O inflamado inimigo da “maré montante do autoritarismo”, que, segundo o douto defensor, hoje assola o Brasil e o mundo a ponto de se negar a viver no futuro sob tal égide, um inesperado anúncio prévio de suicídio, foi capaz de algumas agressões à verdade histórica. Mas não as perceberam os enlevados ministros que o ouviram na sessão interrompida para Marco Aurélio Mello poder comparecer à própria posse numa “relevantíssima” associação do Direito do Trabalho, logo ele que, para isso, estava tendo de faltar à própria função de julgador. Tarefa, aliás, muito cansativa também para Dias Toffoli e Rosa Weber, na certa levada à exaustão pela penosa leitura dos textos postos à mesa por sua assessoria.

Além da boutade de seu nobre (sem aspas mesmo) colega francês, o causídico socialista moreno também recorreu a um texto que tem sido usado como ai-jesus de todos quantos defendem a jabuticaba podre conforme a qual a execução da pena só pode ser iniciada quando é percorrido todo o trânsito em julgado. É bem verdade que, como lembram os pernambucanos José Paulo Cavalcanti Filho e Joaquim Falcão, essa esquisitice tropicalista não é praticada em nenhuma das 194 democracias com assento na Organização das Nações Unidas. Como foi dado a perceber, o STF prepara-se para retirar o Brasil dessa unanimidade civilizada para reduzir o País à esquisitice singular que instalará o “festim da impunidade” (expressão do brilhante editorial do Estado de domingo 25 de março) e à orgiástica celebração de advogados de bandidos grã-finos de colarinho branco, que agora têm em Luiz Condenado seu ícone vivo, livre, leve e solto. Refiro-me, é claro, ao artigo 5.º, inciso LVII da Constituição, cujo teor o orador oportunisticamente omitiu, com a provável intenção de omitir o abismo que há entre o texto constitucional e a determinação do trânsito em julgado, cujo destino exigirá resignação dos brasileiros de bem que querem punição para criminosos antes de executarem os 12 trabalhos de Hércules e alcançarem o velo de ouro de Jasão.

No entanto, a ex-promotora e atual advogada criminalista Luiza Nagib Eluf, que defende similar postergação, fez aos leitores da página de Opinião do Estado o especial obséquio de citá-lo por inteiro. E aqui está: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória”. Aí é que está o busílis. Em que dispositivo constitucional se explicita que só será preso quem for considerado culpado? Em que dicionário da língua portuguesa prisão e decretação de culpa se associam no mesmo verbete? É nessa confusão que incorrem a articulista, o neodireitista e os abnegados defensores de poderosos que atualmente compõem a maioria avassalada de uma instituição que não tem agido de forma a ser considerada suprema. A não ser se se levar em conta a generosidade com que trata seuscompadritos que participam de seus convescotes no Planalto Central, longe demais dos anseios da Nação.

Registro neste texto o otimismo dos especialistas Cavalcanti e Falcão, que ainda acreditam na possibilidade de não ser concedido habeas corpus a Lula, mesmo depois do supremo deboche de que participaram ao adiarem a sessão para cumprimento de uma Páscoa de 12 feriados sem expediente. Duvido e faço pouco, como diria meu avô Chico Ferreira, que não teve o desprazer de sobreviver à plataforma de chicanas que transforma o STF numa corte de achincalhes ao digno contribuinte, que lhes paga o salário mais alto permitido a um servidor público nesta República de réus.

Os juristas pernambucanos que consultei, perplexos com as decisões estrambólicas de Cármen Lúcia, que deixou de julgar para liderar um time de privilegiados empenhados em garantir as prebendas de quem os alçou ao topo de suas carreiras, têm razão num ponto. O destino judicial de Lula já foi decidido na primeira e na segunda instâncias. O que se está concedendo àquele que seu advogado agora nomeia herdeiro de Luís XVI (sem Maria Antonieta) não é um habeas corpus. Já defini a medida ao dia e à hora como sendo uma anistia. Mas talvez seja obrigado a reconhecer que a melhor definição foi dada pelo general da reserva Hamilton Mourão: um salvo-conduto. Exatamente aquele bilhetinho amarfanhado pelo suor que os “coiteiros” de Lampião usavam para percorrer o sertão sem risco de serem assaltados por algum cangaceiro desavisado.

Talvez não seja de todo fora de propósito advertir o público pagante de que o soit-disant Supremo está levando a sério demais sua condição de Corte (agora um puxadinho da de Luís XVI). E, por isso, resolveu zerar o placar acusador de que em quatro anos de Lava Jato 123 pessoas foram condenadas na primeira instância e nenhuma pelo STF. Quando o chefão da quadrilha do mensalão e do petrolão (conforme reconheceu agora o Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, TRF-4, for anistiado e começar sua campanha presidencial, de salvo-conduto em punho, e o efeito Lula tiver reduzido o déficit presidiário, tirando os gatunos de colarinho branco de suas celas, o placar será zero a zero. Nosso consolo vai ser dizer que o STF se concedeu com o número de condenações a nota certa para seu vergonhoso desempenho. Ou seria o escárnio que venceu o cinismo?

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 26 de março de 2018)

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http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/na-corte-de-luis-xvi/

Comentário no Jornal Eldorado: Anistia para Lula

Comentário no Jornal Eldorado: Anistia para Lula

A anistia ilegal para Lula, dada em 22 de março de 2018 pelo STF, foi a encenação de uma peça de horror com a assinatura de uma maioria de vassalos do poder político vigente que encontraram uma leniente interpretação da Constituição para justificar seus préstimos à elite dirigente que fez um acordão que começou com a anistia anunciada de Lula e continuará com a manutenção dos privilégios que afastam da polícia e da Justiça dos chefões de PT, MDB, PSDB e outros penduricalhos. A peça encomendada por Temer, Moreira, Padilha, Geddel, Rocha Loures, Henriquinho, Eduardo Cunha, Alckmin, Aécio, Collor e outros figurantes terá como consequências a candidatura de Lula e a manutenção do foro privilegiado para a canalha poderosa.

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na sexta-feira 23 de março de 2018, às 7h30m)

Para ouvir

Ou clique no link abaixo e, em seguida, no play:

https://soundcloud.com/jose-neumanne-pinto/neumanne-2303-direto-ao-assunto

Para ouvir o samba-canção inédito e anônimo que aborda o conflito Barroso X Gilmar clique no link abaixo:

http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/duelo-entre-barroso-e-gilmar-mendes-vira-musica-e-ate-poema-nas-redes-sociais-veja-principais-memes/

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http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/anistia-para-lula/

Assuntos abordados no comentário:

1 – Haisem Manchete do Estadão hoje – Supremo cede à pressão e Lula ganha fôlego contra prisão – resume, a seu ver, o que aconteceu ontem?

SONORA STF 2303 BATOCHIO

2 – Carolina O que levou às posições esdrúxulas assumidas pela maioria dos ministros do Supremo?

3 – Haisem Quais foram os personagens-chaves da reviravolta do Supremo que condenou a cúpula política federal do Mensalão, que agora permitiu a virada de 180 graus em relação ao combate à impunidade promovido pela nova geração de policiais federais, procuradores públicos e juízes sintonizados com a guerra contra a corrupção travada no mundo inteiro, a partir do Estados Unidos, desde a derrubada das torres gêmeas em Nova York?

4 – Carolina  O que significa a manutenção do julgamento dos embargos de declaração apresentados pela defesa de Lula no TRF-4 na segunda-feira depois da decisão do STF ontem?

SONORA STF 2303 DODGE

5 – Haisem Que conseqüências práticas na luta contra a corrupção pode ter a decisão tomada ontem pelo STF antes de julgar o habeas corpus de Lula de manter proibidas as doações ocultas nas campanhas eleitorais?

6 – Carolina Por que uma decisão óbvia como a proibição do auxílio-moradia dos juízes está agora diante da expectativa de produzir um prejuízo de 135,5 milhões por mês?

7 – Haisem – Que conseqüências poderão advir sobre a disputa eleitoral de outubro da decisão da Lava Jato de denunciar Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, chamado de operador do PSDB de São Paulo pelo desvio de 7,7 bilhões?

8 –Carolina Seria censória a decisão da Justiça que determinou que o Google exclua 16 vídeos ofensivos a Marielle Franco?

SONORA Anônimo Você é uma pessoa horrível, de Barroso para Gilmar

No Blog do Nêumanne: Sempre ausente

No Blog do Nêumanne: Sempre ausente

Estado brasileiro nem se solidariza com vítimas de tragédias que produz

Foi noticiado que o presidente Michel Temer iria ao Rio no domingo 18 de março para celebrar o primeiro mês da meia intervenção militar, dita federal, na segurança pública do Rio de Janeiro. Mas ele não demorou muito para desmarcar a viagem e ficou em Brasília. Esse é o maior símbolo da ausência decretada pelas autoridades brasileiras ao momentoso episódio político causado pela execução da vereadora Marielle Franco, do PSOL, na noite da quarta 14. Se nada havia a comemorar, muito havia – e ainda há –  a lamentar. Inclusive a ausência da autoridade.

A meia intervenção no Rio é uma tragédia de erros e se perde na noite dos séculos quando nos é dado analisar a evidência de que o princípio da ocupação da periferia e a transformação da antiga Cidade Maravilhosa no inferno a céu aberto tem a participação decisiva do Estado. Lembro-me bem, pois morava no Rio à ocasião, quando tudo se agravou. E digo que se agravou porque já então era notória a conivência de ex-governadores, como o famigerado Chagas Freitas e Marcelo Alencar, chamado de Velho Barreiro, com o jogo do bicho, disfarçado de contravenção penal. Leonel Brizola encontrou o pretexto politicamente correto para justificar o acobertamento dos bandidos que lhe serviam de cabos eleitorais: “Polícia minha não sobe em morro para bater no povo”, dizia o socialista moreno.

Como houve também uma série de crimes de colarinho-branco, a Operação Lava Jato, que acaba de completar quatro anos de existência, desmascarou uma quadrilha no Estado do Rio, com penetração nos três Poderes. Seu chefe, o ex-governador Sérgio Cabral, já foi condenado a mais de 100 anos de cadeia e, no andar atual da carruagem, deve chegar a 300. Seus três mais notórios aliados na Assembleia Legislativa – Jorge Picciani, Paulo Mello e Edson Albertassi – estão presos e a Justiça os mantém  na prisão para evitar que prejudiquem as investigações. Só uma conselheira do Tribunal de Contas do Estado escapou de vexaminosas prisões ou conduções coercitivas na Polícia Federal (PF). E nem os membros dos altos escalões da Justiça estadual dormem bem, por temerem a chegada dos agentes federais para arrancá-los do recesso do lar, doce lar.

Diante desse quadro, convicto de que não conseguiria fazer a reforma da Previdência, o presidente Michel Temer resolveu intervir para virar tudo pelo avesso, naquilo que seus aliados chamam de “golpe de mestre”. Seu próprio marqueteiro pessoal, Elsinho Mouco, o definiu como algo que poderia ser “capitalizado politicamente”. No entanto, para surpresa geral, inclusive deste escriba, o chefe do governo limitou-se a decretar uma intervenção militar apenas na segurança pública, deixando seu antigo aliado e correligionário Luiz Antônio Pezão, cria política e ex-vice de Sérgio Cabral, continuar com sua gestão desastrosa do Estado.

Na mesma ocasião em que a Operação Lava Jato – cujo braço fluminense é comandado pelo juiz Marcelo Bretas, que disputa em rigor com o paranaense Sergio Moro – completou quatro anos de existência, a meia intervenção militar, dita federal, de Temer fez um mês. A efeméride daria ocasião a discursos e pronunciamentos oficiais do chefe do Poder Executivo e tudo foi devidamente programado. Mas, repetindo a velha piada da pergunta de Garrincha a Feola –  se o técnico da seleção de 1958 teria combinado o jogo que programava com os adversários russos – esqueceram-se de combinar com os milicianos. E passaram a impressão de que as tropas redentoras da paz social carioca não têm a mínima ideia de que bandidos teriam de combater em primeiro lugar.

Aí, na quarta-feira 14 de março, à noite, enquanto seu time, o Flamengo, ganhava o primeiro jogo fora de casa numa Libertadores em quatro anos, a vereadora negra, esquerdista, homossexual e militante dos direitos humanos, crítica da violência policial e da intervenção militar, foi morta. Não foi vítima de uma bala perdida, como o menino abatido comprando algodão doce no Alemão. Foi executada com requintes de crime mafioso e o general Braga Netto ficou sabendo que não vai ser com operações-modelo na Vila Kennedy, uma invenção da Aliança Para o Progresso, velho engodo colonialista da época da guerra fria, que estancará  o sangue derramado nas calçadas, nem calará a matraca das metralhadoras.

O general é um engano a mais de Temer. O fuzilamento da líder (nascida na Maré) numa rua do Estácio, vindo da Lapa, bairros tradicionais da boêmia carioca dos tempos da Cidade Maravilhosa, origem e reduto do samba, foi, ao que, tudo indica, obra e desgraça de milicianos. O sociólogo José Cláudio Souza Alves, autor do livro Dos Barões ao Extermínío: A História da Violência na Baixada Fluminense, com 25 anos de expertise no local, deixou claro, em entrevista ao blog da revista Exame, que o verdadeiro desafio ao Estado na região que ele conhece muito melhor do que o novo secretário de Segurança, um general egresso do mais absoluto anonimato, como seu chefe interventor, não vem mais dos traficantes de drogas, que substituíram os bicheiros sambistas e hoje foram submetidos pela presença dos milicianos. Estes controlam, como já sabemos por notícias da imprensa, negócios e serviços públicos, como venda de água, fornecimento de sinais de televisão, celular e internet, entre outros.

O Estado já não domina o território das chamadas comunidades da periferia carioca há muito tempo. Ultimamente Sérgio Cabral inventou a fantasia de que as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) do então secretário de Segurança José Mariano Beltrame devolveria o território ao controle estatal. Tudo mentira, tudo propaganda.

Do mesmo partido de Cabral, Temer e seus ministros de confiança do Planalto inventaram outra ficção de propaganda com a intervenção meia-boca. No primeiro mês, tudo parece mais um filme da série dos Trapalhões. Na tarde do enterro de Marielle e do motorista Anderson Gomes, Temer fez uma festa no Palácio do Planalto e lhes dedicou um minuto de silêncio, que de fato durou 30 segundos, passando a ser a maior autoridade ausente no velório da vereadora. Apesar de ter divulgado um vídeo para a televisão afirmando que o atentado atingiu a democracia, não se fez presente nas exéquias da nova mártir. O ainda governador sem segurança Luiz Fernando Pezão também choramingou publicamente e evitou comparecer ao funeral. Assim como o prefeito Marcelo Crivella, que decretou três dias de luto e correu de medo das vaias da multidão, que se mostraram até contidas na hora de berrar seu habitual “fora Temer”.

A autoridade ausente continua sendo a marca de um Estado conflagrado pela violência, onde os pobres usam serviços normalmente públicos vendidos a preços exorbitantes pelas prósperas milícias e sempre são assistidos pelos traficantes, agora em decadência financeira, quando o Estado falha. Enquanto o interventor, general Braga Netto, tratava de orçamento inexistente com o governador meio deposto, herdeiro do gatuno Cabral, a poucos metros do Palácio Duque de Caxias, patrono do Exército Nacional e chamado de o Pacificador, um homem foi morto por tiros não identificados no ponto de ônibus, tentando ir para o trabalho.

A primeira semana após o primeiro mês de existência da intervenção começou sob o signo da confusão. O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, que supre o silêncio do interventor, que mantém distância da imprensa, criou uma trama policial ao afirmar, no sábado, que as balas de calibre 9 mm usadas no atentado eram de um lote comprado pela Polícia Federal e roubadas numa agência de correio em João Pessoa. Só que o presidente dos Correios, que não é russo e com quem Jungmann nada combinou, o desmentiu em nota. Na segunda-feira, o Ministério da Segurança Pública cumpriu o doloroso dever de comunicar que a imprensa entendeu mal o democomunista, que de jeito e maneira jamais teria dito o que disse, embora tenha sido gravado e retransmitido. Jungmann teria feito melhor se tivesse comparecido ao velório público da vítima. Mas também se ausentou. Assim como o general Braga Netto, que deu entrevista por e-mail aoEstado para garantir que “o assassinato de Marielle reforça os objetivos da ação federal no Estado, como reduzir a criminalidade”.

De truísmo em truísmo, a autoridade ausente, como de hábito, vai promovendo a erosão da própria credibilidade, apesar de ainda lidar com a esperança dos cariocas, que, em sua maioria, a apoiam, ao contrário da vereadora executada. A questão é uma só: até quando?

  • Jornalista, ploeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 19 de março de 2018)

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No Blog do Nêumanne: Visitas inconvenientes

No Blog do Nêumanne: Visitas inconvenientes

Presidente do STF tem sido importunada por conselheiros importunos preocupados com Lula

A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, está sendo pressionada, de maneira imprópria e até desagradável, por visitantes que foram a seu gabinete e até sua casa às vésperas e logo depois de ter comunicado oficialmente que não porá em discussão na pauta pedidos de habeas corpus de condenados em segunda instância. O mais famigerado de todos é de autoria da defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, agora sob a chefia de Sepúlveda Pertence, conterrâneo e amigo dela, a ponto de chamá-la de “prima”, que foi ministro da Casa e é tido como o principal defensor de sua nomeação para o STF pelo apenado mais célebre do País. Há ainda outros dois casos que não o envolvem direta, mas indiretamente, de vez que uma decisão tomada a respeito deles modificará outra, três vezes votada e adotada há pouco mais de um ano.

A respeito da controvérsia em torno da matéria em si, por me faltar o mínimo de autoridade acadêmica, socorro-me de um dos mais respeitáveis juristas brasileiros, o pernambucano José Paulo Cavalcanti Filho. Encontramo-nos pessoalmente apresentados por um conhecido comum, Tancredo de Almeida Neves, que o nomearia, em seguida, para a chamada “comissão de notáveis” encarregada de preparar o anteprojeto inicial da Constituição. Depois, nomeado por Dilma Rousseff, ele faria parte da célebre Comissão da Verdade, que causou muita polêmica. Quando o assunto veio à baila por conta das visitas de Pertence a seus antigos colegas do STF e, depois, dos conselhos do decano Celso de Mello e de antigos patronos da causa “garantista”, Marco Aurélio Mello e Ricardo Lewandowski, agora com a entusiástica adesão de Gilmar Mendes, Cavalcanti escreveu um primoroso artigo, em 8 de março, no Jornal do Commercio, do Recife, e no Blog de Noblat, a respeito da natureza da questão, dando razão à resistência de Cármen Lúcia. Dele destaco dois parágrafos, que me servem de alicerce para opinar sobre o tema.

“Por aqui, prisões sempre se deram em segunda instância. Desde o Código de Processo Penal de 1941. Por uma razão técnica. É que o recurso nas decisões em Primeira Instância, Apelação, tem efeitos Devolutivo (faz com que o assunto seja rediscutido por tribunal) e Suspensivo (a decisão não produz efeitos, até decisão do tribunal). Enquanto os recursos subsequentes, Especial e Extraordinário, contra decisão desse tribunal, apenas Devolutivo. Para que o caso chegue em Tribunais Superiores – STJ e Supremo. Que não podem rediscutir provas, por conta da Súmula 7. E sem suspensão da decisão do tribunal anterior, que deve ser executada. No caso, a prisão.”

“Mesmo depois da Constituição de 1988 (art. 5º, LVII, ‘Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória’), continuou sendo assim. Suspensa em brevíssimo interlúdio no Mensalão, quando gente graúda passou a ser condenada, com o julgamento do HC 84.048 (em 2009), voltou a se dar com o HC 126.292 (em 2016). A Ministra Carmem Lúcia já disse que não porá novamente o tema em votação agora, tão pouco tempo depois da última decisão, ‘para não apequenar o Supremo’. Uma decisão respeitável.”

Com vênia do autor, de volta ao tema, eximindo-me de ter de voltar a questões de hermenêutica, reporto-me apenas aos fatos. Na primeira vez em que o tema foi discutido no plenário do Supremo, Cármen Lúcia esteve entre os 7 vencedores contra 4 vencidos. Na segunda, Dias Toffoli, ex-advogado do PT e ocupante da Advocacia-Geral da União (AGU) no governo Lula, mudou o voto, passando a defender uma esquisitíssima dependência para a prisão de uma decisão pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), admitindo, então, a quarta instância, o STF, à qual me tenho referido, apesar das críticas ferozes dos defensores da “prisão só nas calendas”, das chicanas e dos recursos infinitos per omnia saecula saeculoum (por todos os séculos dos séculos). Amém. Então: 6 a 5.

Na porfia vitoriosa, mercê da qual não há um só tucano condenado em última instância nos quatro anos que a Operação Lava Jato tem durado, aos trancos e barrancos, Gilmar Mendes alterou o balanço do pêndulo: passou a anunciar seu voto contra a prisão pós-segunda instância, virando o placar a favor do “garantismo” geral na cúpula judiciária.

Votação recente na Primeira Turma do mesmo STF resultou na prisão do condenado em segunda instância e deputado Francisco Souza, que tentou escapar da punição se homiziando em Assunção, mas terminou preso pela Polícia Federal (PF) no Aeroporto Internacional de Cumbica. O relator, Alexandre de Moraes, confirmou o voto a favor da opinião de Cármen Lúcia, posição de seu antecessor na vaga, Teori Zavascki. Mas Rosa Weber, de quem alguns esperavam uma guinada na direção da possibilidade de execução da pena após condenação na segunda instância, manteve seu voto do ‘transitado em julgado”, expressão antipática para definir o apego exclusivo à interpretação ao pé da letra. E similar à dos evangélicos em relação à Bíblia, o que torna o Éden, o dilúvio, a catástrofe de Sodoma e Gomorra e a estátua de sal em que se transformou a mulher de Lot verdades absolutas da História, embora lhes faltem comprovação e verossimilhança. À época de sua posse, repito, Cármen Lúcia me disse textualmente que venceu três vezes e em todas a vitória não se tornou súmula vinculante. Por isso, sob sua presidência não se votará de novo. É o que ela tem reafirmado com decisões agora e não há por que recuar. A não ser que ela se disponha, como disse, a “apequenar” a Corte. Será?

Aí, o gabinete de Cármen foi invadido por parlamentares petistas, liderados pela presidente nacional do Partido dos Trabalhadores – PT –, Gleisi Hoffmann. Aos que estranham como pôde o ruidoso bando invadir o lugar mais resguardado da cúpula do Judiciário, o comentarista Gerson Camarotti achou uma explicação plausível para o absurdo: os invasores foram guiados pelas mãos que rabiscaram a Constituição dando a Dilma Rousseff condições de ser “merendeira de escola”, o revisor do mensalão, ex-presidente do STF e íntimo do clã Lula da Silva, Ricardo Lewandowski. Este, contudo, negou em nota sua condição de “maçaneta” dos invasores da Corte, contando uma estória mirabolante na qual os parlamentares chegaram à antessala sem estar agendados, como convém no caso, e, então. a colega presidente pediu-lhe que ficasse na condição de “ouvinte”.

A invasão e a versão poderiam passar para a História como o caso máximo de incivilidade petista. Mas o constitucionalista de Tietê na presidência da República superou a falta de educação com anuência da incomodada. Sábado, Michel Temer visitou Cármen Lúcia em casa. E foi recebido. A “velhinha de Taubaté”, que Luis Fernando Veríssimo aposentou desde que o partido de seu coração passou a comandar a roubalheira em níveis nunca antes “na História deste país”, diria que todo cidadão brasileiro tem a obrigação de receber o presidente da República no recesso de seu lar a qualquer hora do dia e da noite. Não é o caso dessa visita importuna. Temer é um presidente singular na história, pois já teve de comprar votos de parlamentares com dinheiro publico para se livrar de duas investigações criminais por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. E atualmente está encalacrado em mais duas: uma portaria e um decreto sobre portos, envolvendo o de Santos, e uma delação premiada da Odebrecht de propina ao MDB no total de R$ 10 milhões.

As relações entre a empresa Rodrimar e a estatal que controla o maior porto do país levaram o colega de Cármen Luís Roberto Barroso a autorizar a quebra do sigilo bancário de Temer (uma excrescência brasileira é um presidente não ter suas contas expostas ao público!). Ele atendeu a pedido da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, a quem Temer mandou carta propondo a reforma léxica em que os verbos responsabilizar, usado na Constituição, e investigar, pedido  autorizado pelo relator do caso, outro colega de Cármen, Edson Fachin), se tornariam sinônimos.

A carta é um acinte. A visita, um escárnio, na escala de valores que a própria Cármen criou. Só que ela a permitiu, levou o enxerido à porta, deixou-se fotografar e sorriu para os fotógrafos. Agora só nos restaria apelar ao bei de Túnis. Se ainda houvesse, é claro, bei na Tunísia.

José Nêumanne

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 12 de março de 2018)

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O jagunço e o bacharel

O jagunço e o bacharel

Machado de Assis e Guimarães Rosa: ligações singulares

 Academia Brasileira de Letras – 6 de março de 2018

Ciclo de Conferências “Guimarães Rosa, escritor e diplomata”
Conferência: “Machado de Assis e Guimarães Rosa. Ligações singulares”
Coordenação: Carlos Nejar
Palestrante: José Nêumanne Pinto

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Quando Deonísio da Silva, espécie de Indiana Jones na caça à origem das palavras, me avisou que o poeta Carlos Nejar queria  me incluir na programação de seminário sobre Guimarães Rosa, tremi nas bases. E mais ainda: abrindo o ano desta Casa de Machado de Assis. Que desafio para esse cangaceiro das palavras, sem formação acadêmica para me escudar nem leitura recente em que me apoiar, ao discorrer sobre o percurso daquele jagunço das letras!  Contudo, não sou de fugir de desafios, e não me abalei com a segunda parte da proposta: teria de fazer uma conexão – provável, porém pouco estudada – entre o gênio de Cordisburgo e o bruxo do Cosme Velho. Aí, danou-se! Mas me dispus a navegar nas carrancas do Velho Chico e a viajar de carruagem nas priscas eras da República entre a rua Matacavalos e a praia do Flamengo.

José Nêumanne, Marco Lucchesi, Carlos Nejar

José Nêumanne, Marco Lucchesi, Carlos Nejar

Como diria meu avô Chico Ferreira, que diacho podia haver que identificasse o amanuense que fundou a Academia Brasileira de Letras com o diplomata e ex-médico fulminado por um infarto horas após tomar posse nesta venerável instituição cultural que reúne intelectuais e notáveis? Muito amiga de minha mulher, Isabel, aqui presente, e minha, a professora Márcia Lígia Guidin, cuja tese de doutorado na USP versa  sobre Machado, sugeriu-me que abordasse dois dos principais relatos dos gênios da literatura pelo que têm em comum. Duas de suas obras-primas, Dom Casmurro e Grande Sertão:Veredas, são relatos de velhos saudosos de episódios do passado, protagonizados pelas duas mais sedutoras mulheres da literatura nacional em todos os tempos: Capitolina,  no formoso e frenético burgo de São Sebastião do Rio de Janeiro, ex-Corte do Império e capital da República Velha, e Deodorina, nos ermos e ignotos sertões ditos dos Gerais às margens do Velho Chico e seus afluentes. Os episódios, ocorridos no século 19, presumivelmente ainda no Segundo Império, são narrados por velhos que viveram amores mal resolvidos com as damas citadas, que se tornaram as verdadeiras protagonistas, conhecidas tempos afora pelos apelidos familiares:  Capitu e Diadorim.

José Nêumanne

José Nêumanne

Aprendi desde cedo que quem tem amigo não morre pagão. Recorri à cultura inesgotável dos leitores obsessivos José Mario Pereira e Christine Ajuz e eles prontamente me socorreram. Outro leal amigo, Maurício Melo Júnior, que acaba de lançar um romance e tem obra biográfica de destaque no campo do documentário sobre grandes escritores no canal de TV do Senado Federal, citou-me a coincidência notória de que o bruxo do Cosme Velho e o filho de Cordisburgo (a cidade do coração) publicaram contos com o mesmo e significativo título – O Espelho –, o primeiro em Papéis Avulsos, o segundo em Primeiras Estórias. Em comum entre os dois, porém, apenas o tema e o título. Machado escreveu uma novela de realismo mágico avant-la-lettre. E Rosa aventurou-se por digressões psicanalíticas, como se abordasse um assunto mais científico do que ficcional.

Disposto a evitar o naufrágio de minha alocução e o tédio de meu público, eu não poderia apelar para a memória, cada vez mais escassa nesta idade em que tenho, se não alcançado, pelo menos me aproximado da dos narradores paralelos no momento em que resolveram dividir suas experiências e aventuras, no caso de Machado, com o distinto público leitor urbano da Corte e, no de Rosa, com o anônimo e silente ouvinte que passou três noites do sertão escutando, certamente com encantamento, embora não registrado nem relatado.

Prestes a completar 67 anos – se Deus, Nosso Senhor, me permitir comemorar o próximo aniversário, em maio – não podia contar com o socorro da memória de minhas leituras juvenis dos dois clássicos. Lembro-me que os li aos 14 anos, portanto há 52 distantíssimos carnavais, num quarto no quintal da casa de meus pais, no centro de Campina Grande, Paraíba, onde cursava o científico no Colégio Estadual da Prata. Adquiri-os, ambos, na Livraria Pedrosa, cujo dono, José Pedrosa, se dava ao luxo de importar da Alemanha livros para um freguês de escol, o saudoso acadêmico Ariano Suassuna. Primeiramente, devo ter lido a saga de Bento, o bacharel, que chegou à senectude, anunciada ao leitor incauto, carregando o significativo apelido infantil de Bentinho, o que não deixa de sugerir que jamais atingiria o que chamamos de maturidade. Somente depois de algum tempo, não muito longo, me deixei levar pela viagem, ou melhor, pela travessia de Riobaldo por veredas, rios e vilarejos do interior mais ermo, entre o sul da Bahia e sua cidade natal.

É claro que me apaixonei perdidamente por Capitu, mas isso não foi algo que pudesse considerar de muita relevância na minha pré-adolescência de leitor ativo, atento e deslumbrado. Afinal, o caso de identificação mais apaixonante que vivi nos meus 14 anos não foi com nenhum personagem feminino, mas com um jovem de minha mesma faixa etária à época: Werther, de Goethe. Foi tão fulminante que cheguei a considerar a hipótese de cometer suicídio, o que, como se sabe, acometeu muitos meninos de minha idade, em “Oropa, França e Bahia”. Mas isso não interessa agora. O que importa é que me deixei levar pelos devaneios, primeiro com Capitu e depois com Diadorim, apesar dos relatos abertamente opostos a respeito das duas: a adoração que virou desprezo do bacharel Bento Bentinho e a veneração ampliada com o distanciamento dos fatos narrados pelo jagunço RiobaldoTatarana Urutu-Branco sobre o mais que amigo que conheceu na infância como Reinaldo, depois transformado no companheiro Diadorim em vários bandos de jagunços aos quais a dupla pertenceu.

Desde que li Dom Casmurro, há 52 anos, não me lembro de haver voltado ao clássico de Joaquim Maria, muito embora tenha guardado todos os momentos de genialidade que o autor carioca produziu, como a progressiva descrição dos olhos de ressaca até a veneração pela forma de seus braços desnudos nos bailes que frequentava. Durante todo o enlevo do narrador pela protagonista, que ocupa pelo menos dois terços do livro, apesar de não ter em nenhum momento se referido a uma formosura que a tornasse uma Tônia Carrero do século 19, são feitas várias referências aos olhos de Capitu, tema que virou uma espécie de coqueluche para os leitores. É o caso do capítulo 32, Olhos de ressaca, no qual Bento Bentinho descreve os olhos de Capitu da seguinte maneira:

“Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que…

Carlos Nejar

Carlos Nejar

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca”.

É impossível ler essa descrição sem ser assaltado pelo êxtase causado pela emoção provocada pela beleza da narrativa, pela elegância do estilo e pela veneração do autor por nossa língua portuguesa. Do capítulo específico sobre os braços, extraí alguns parágrafos que lerei para nosso deleite:

“De dançar gostava, e enfeitava-se com amor quando ia a um baile; os braços é que… Os braços merecem um período.

Eram belos, e na primeira noite que os levou nus a um baile, não creio que houvesse iguais na cidade, nem os seus, leitora, que eram então de menina, se eram nascidos, mas provavelmente estariam ainda no mármore, donde vieram, ou nas mãos do divino escultor. Eram os mais belos da noite, a ponto que me encheram de desvanecimento. Conversava mal com as outras pessoas, só para vê-los, por mais que eles se entrelaçassem aos das casacas alheias. Já não foi assim no segundo baile; nesse, quando vi que os homens não se fartavam de olhar para eles, de os buscar, quase de os pedir, e que roçavam por eles as mangas pretas, fiquei vexado e aborrecido. Ao terceiro não fui, e aqui tive o apoio de Escobar, a quem confiei candidamente os meus tédios, concordou logo comigo.

— Sanchinha também não vai, ou irá de mangas compridas; o contrário parece-me indecente.

— Não é? Mas não diga o motivo; hão de chamar-nos seminaristas. Capitu já me chamou assim.

Nem por isso deixei de contar a Capitu a aprovação de Escobar. Ela sorriu e respondeu que os braços de Sanchinha eram mal feitos, mas cedeu depressa, e não foi ao baile; a outros foi, mas levou-os meio vestidos de escomilha ou não sei quê, que nem cobria nem descobria inteiramente, como o cendal de Camões”.

A citação deste trecho permite-me chamar-lhes a atenção para o ciúme doentio que foi tomando conta da narração, de forma sibilina e também exaltada, injetado pelo autor no pleno domínio de seu ofício.

Li, é claro, todo o Machado, e nada dos seus escritos românticos de juventude me marcou muito. Para cúmulo do que podem considerar absolutamente fora de esquadro, também guardo lembrança viva da leitura fascinada das obras da maturidade, particularmente Memorial de Aires, que ficou registrado em minha memória abalada pela vechiaia como o livro que eu gostaria de ter escrito, embora muitos críticos percebam em seu texto certo desleixo de velho distraído. No entanto, não foi este, nem Dom Casmurro, diga-se de passagem, que entrou na minha escassa obra de ficcionista, e sim Memória Póstumas de Brás Cubas. O antigo respeito que tinha pelo velho Aires terminou se transferindo para o memorialista post-mortem que inspirou meu romance O silêncio do delator, que em 2005 mereceu desta casa o prêmio Senador José Ermírio de Moraes como melhor livro de 2004, o primeiro romance a receber este prêmio, do qual muito me orgulho. À presença de Machado foi acrescentada a influência de Fazes-me Falta, da portuguesa Inês Pedrosa, narrativa em que a primeira pessoa estava sendo velada, e não já sepultada, como no caso de Brás Cubas.

Não me arriscaria a tanto, mas talvez Dom Casmurro, como, de resto, a obra inteira de Machado, possa ter em comum com a de Rosa certa referência aos deslocamentos, no caos urbano, de seus personagens. Se Xavier de Maistre intitulou sua obra Viagem em redor de meu quarto, por que não poderíamos designar a obra maior de Machado como pequenas viagens em torno de sua cidade natal? Tomo a liberdade de recorrer a esse expediente após fazer uma observação sobre algo notável do livro. Machado, como o alemão Karl May – autor de minha predileção durante minha pré-adolescência no Instituto Redentorista Santos Anjos, um seminário em Bodocongó, bairro de Campina Grande – nunca precisou sair da cidade onde nasceu para criar sua fabulação fantasiosa. May, de cujas obras compartilho similar à de nossa querida Nelida Piñon, conforme ela mesma relatou recentemente, descreveu aventuras fabulosas em selvas norte-americanas e paragens desérticas da Arábia. Machado era tão fiel ao Rio de Janeiro que desprezou os anos passados por seu narrador bacharel nas arcadas do convento de São Francisco, em São Paulo, limitando a descrição mais detalhada de sua formação escolar aos anos de seminário, e só voltando à narrativa já com diploma de Direito em punho no Rio. Ao acompanhar neste fim de semana o sucesso da branquela paulistana Rita Lee Jones ao cantar Valsa de uma Cidade, composta em homenagem ao Rio pelo paraense Ismael Netto, fundador do grupo vocal Os Cariocas, e o pernambucano Antônio Maria, tive ímpetos de falar desse amor que todos nós, forasteiros, sentimos, como ela o fez entoando “gosto de quem gosta deste mar, deste céu, desta gente feliz”. Machado é um dos mais razoáveis motivos para se amar a cidade em que ele nasceu e sobre a qual apoiou sua obra inteira. Aprendi a amar o Rio lendo Machado.

Peço licença a este paciente público para chamar atenção para mais essa similitude entre a cena urbana da Corte que virou capital da República no século 19 e o sertão de então e de hoje. O menino Bentinho, como sabemos, passou a infância atormentado por seu destino traçado pela promessa da mãe de fazê-lo padre. Nos primeiros anos de minha vida, conheci muitos meninos que cumpriram esse desatino de promessas paternas, sobretudo maternas, ou pela necessidade que as famílias de posse sentiam-se obrigadas a ter um prelado na intimidade doméstica. Dizia-se que qualquer lar de respeito deveria abrigar, pelo menos, um padre, um bacharel e, no caso de meu sertão natal, um funcionário do Banco do Brasil. Não foi o meu caso. Como Bentinho, fui seminarista, mas por outros motivos, que peço vênia para descrever. Nasci na casa de meu avô, no alto sertão, e cursei o primário no Grupo Escolar Professora Jovelina Gomes, num vilarejo que virou cidade e se chamava Belém do Arrojado, antes de, por decisão ditatorial do Estado Novo, ter adotado a denominação indígena de Uiraúna, pássaro preto em tupi. A única biblioteca existente era zelosamente guardada pelo vigário local, Cônego Antônio Anacleto, numa estante com portas de vidro, cujas chaves ficavam guardadas no bolso de sua batina. Minha mãe frequentava aquelas obras, em sua quase totalidade hagiográficas, e lá encontrou o nome com que me batizaria. Pediu que meu pai me registrasse como José Newman, em homenagem ao cardeal britânico John Henry Newman, convertido do anglicanismo para o catolicismo já em idade provecta, admiradíssimo por Gilberto Freyre, e recentemente canonizado por João Paulo II, talvez considerando o fato de ter sido um dos maiores oradores sacros em língua inglesa na passagem do século 19 para o 20. Minha mãe ficou de resguardo em casa, e meu pai, José de Anchieta Pinto, foi ao cartório providenciar o registro civil. Como resultado do desconhecimento dele e da tabeliã, Chiquinha Figueiredo, do idioma inglês, tenho, desde então, a obrigação de soletrar meu nome quase alemão aonde quer que vá.

Ao contrário de Bentinho, não fui seminarista por imposição ou promessa familiar, mas por vontade própria. E abandonei a carreira eclesiástica sem sequer ter ingressado no seminário maior. De qualquer maneira, posso testemunhar que no sertão de Riobaldo, assim como no burgo de Bentinho, o ensino religioso era, à época das narrativas comparadas, a saída encontrada por muitos jovens para suprir as carências educacionais de seus lugares de origem. Em relação a Dom Casmurro, chamo atenção para o fato de o narrador ter sido forçado a deixar a Corte para cursar leis em São Paulo de Piratininga, mas nem por isso Machado encontrou nesse périplo qualquer coisa de relevante para relatar.

Deixei a casa paterna no sertão aos 10 anos de idade e só tenho ido lá esporadicamente. Mas sou capaz de apostar que até hoje, no Semiárido nordestino como nos Gerais, deve haver jovens que migram para instituições de ensino religiosas para alcançar graus mais elevados de instrução. Isso, para conforto de vocês, nos leva de volta à saga de Riobaldo e Diadorim.

Minha relação com a obra magistral de Rosa foi mais permanente do que a que mantive com a de Machado, mas também mais casual. O exemplar de Grande Sertão: Veredas esteve sempre à mão, pois costumava lê-lo como o faço com poesia e com a Bíblia. Nunca li uma obra poética do começo ao fim, mas escolhendo aleatoriamente os poemas a serem lidos. Da mesma forma, ex-seminarista, li a Bíblia livro a livro, sem ordem predeterminada. Com o clássico de Rosa fiz o mesmo ao longo desse meio século de contato: abria ao acaso uma página e lia o que estava à minha frente. Lembro-me de ter tido acesso a magníficas obras de arte que têm como origem o escritor que desde então passei a chamar de Joca de Cordisburgo, tão íntimo me sentia da obra dele. Assim foi com a minissérie da Globo com Bruna Lombardi e Tony Ramos; algumas gravações do Fantástico com Lima Duarte; o clássico de Roberto Santos, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, o filme Noites do Sertão, de Carlos Alberto Prates Corrêa, a pretensiosa e decepcioinante e fraquinha adaptação cineatográfica de Grande Sertão: Veredas por Geraldo Santos Pereira, e, sobretudo, dois momentos capitais do teatro brasileiro e mundial: Meu Tio o Iaueretê e, acima de todos, Vau da Sarapalha, dirigido por Luis Carlos Vasconcelos, da Escola de Teatro Piolim, de João Pessoa, certamente um dos mais altos momentos de encenação teatral que pude testemunhar em minha vida.

José Nêumanne

José Nêumanne

Mas é claro que todo esse trajeto não bastava para me levar a algumas conclusões que lhes trago agora. Tinha de reler os dois clássicos para enfrentar esta plateia. A respeito desta decisão, gostaria de lhes contar uma anedota interessante. Eu trabalhava no Jornal do Brasil e fui a Buenos Aires cobrir o julgamento dos militares. Na ocasião, fui recebido pelo genial poeta e prosador argentino Jorge Luis Borges, que me disse, e eu publiquei em reportagem de capa do Caderno B: “Ler é uma atividade muito pouco inteligente, pois a imprensa é uma das mais malignas invenções da humanidade. Imprime-se muita porcaria em papel. Hoje não existe mais a seletividade de antigamente com os copistas que cuidavam dos textos em papiros, manuscritos e palimpsestos. O prelo é uma praga. O mais inteligente é reler, porque só relemos aquilo de que gostamos”.

Nessa tarefa de releitura, comprei uma edição recente e muito boa de Dom Casmurro, lançada pela Penguin/Conpanhia das Letras, dirigida pelo colega Matinas Suzuki. A introdução do professor Luís Augusto Fischer é um verdadeiro vade-mecum da fortuna crítica do romance mais comentado e criticado da literatura brasileira. Ao deparar com os nomes citados por ele, percebi que a aventura de abarcar essa fortuna crítica seria mais penosa do que o destino de Capitu depois da conclusão a que chegou Bentinho de que ela o traíra com Escobar, resultando no “fruto podre” que o levou a proferir uma das piores imprecações do histórico da relação entre pai e filho: a de que não lamentava os gastos com seu enterro, por compará-los com o alívio representado pela ausência de um bastardo, já que este só reproduzia sua vergonha de marido traído pela amada de infância com o amigo que mais respeitava, e pelo qual tinha um afeto incomum. Essa aventura seria tanto mais dificultosa pela evidência de que grandes exegetas de Machado, como não poderia deixar de ser, ocuparam ou ocupam cadeiras neste plenário, ou pertencem ao panteão da crítica literária nacional: Sílvio Romero (que foi contra), Antonio Cândido, Lúcia Miguel Pereira, Alfredo Bosi, Raimundo Magalhães Júnior, que dá nome a este auditório, Elen Caldwell, Roberto Schwarz, John Gledson, Silviano Santiago, Hélio de Seixas Guimarães, Raymundo Faoro, Otto Lara Resende, Richard Miscolci e tantos outros. Ana Maria Machado chegou a escrever uma versão do entrecho à luz de Capitu. E Antônio Carlos Secchin, num conto curto, propôs uma terceira hipótese.

A questão do adultério de Capitu preencheu páginas e páginas desde 1899, e, embora o crítico José Veríssimo a tenha negado peremptoriamente já em 1900, continua em debate fragoroso; o último petardo crítico foi disparado por Dalton Trevisan, convicto de que ela traíra, sim, e não se fala mais nisso. Não vou querer eu agora tentar decepá-la com um golpe como Alexandre o Grande fez com o nó górdio. Não vim aqui para entrar na liça, mas para sugerir, parodiando a frase de Abelardo Barbosa, Chacrinha, o Velho Guerreiro. De qualquer maneira, não posso deixar de acrescentar uma colher de puro fel de meu amigo Jacob Pinheiro Goldberg, advogado e psicólogo, que exaltou a genialidade de Machado ao incutir no narrador indignado uma desconfiança que povoa o imaginário masculino brasileiro: todo homem acha que foi, é ou virá a ser traído. Acrescento ao maldoso diagnóstico de Jacob uma observação extraída da leitura mais recente do livro máximo de Machado: o autor salpicou toda a estória do narrador (e faço questão de reforçar o e no lugar do hi no início da palavra) com um dos vários episódios de sua imaginação farta e falsa.

No capítulo 29, O Imperador, ele descreve:

“Em caminho, encontramos o Imperador, que vinha da Escola de Medicina. O ônibus em que íamos parou, como todos os veículos; os passageiros desceram à rua e tiraram o chapéu, até que o coche imperial passasse. Quando tornei ao meu lugar, trazia uma ideia fantástica, a ideia de ir ter com o Imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não confiaria esta ideia a Capitu. Sua Majestade pedindo, mamãe cede, pensei comigo.

Vi então o Imperador escutando-me, refletindo e acabando por dizer que sim, que iria falar a minha mãe; eu beijava-lhe a mão, com lágrimas. E logo me achei em casa, a esperar, até que ouvi os batedores e o piquete de cavalaria; é o Imperador! é o Imperador! Toda a gente chegava às janelas para vê-lo passar, mas não passava, o coche parava à nossa porta, o Imperador apeava-se e entrava. Grande alvoroço na vizinhança: O Imperador entrou em casa de D. Glória! Que será? Que não será? A nossa família saía a recebê-lo; minha mãe era a primeira que lhe beijava a mão. Então o Imperador, todo risonho, sem entrar na sala ou entrando, — não me lembra bem, os sonhos são muita vez confusos, — pedia a minha mãe que me não fizesse padre, — e ela, lisonjeada e obediente, prometia que não.”

— A Medicina, — por que lhe não manda ensinar Medicina?

— Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade…

— Mande ensinar-lhe Medicina; é uma bonita carreira, e nós temos aqui bons professores. Nunca foi à nossa Escola? É uma bela Escola. Já temos médicos de primeira ordem, que podem ombrear com os melhores de outras terras. A Medicina é uma grande ciência; basta só isto de dar a saúde aos outros, conhecer as moléstias, combatê-las, vencê-1as… A senhora mesma há de ter visto milagres. Seu marido morreu, mas a doença era fatal, e ele não tinha cuidado em si… É uma bonita carreira; mande-o para a nossa Escola. Faça isso por mim, sim? Você quer, Bentinho?

— Mamãe querendo…

— Quero, meu filho. Sua Majestade manda.

Então o Imperador dava outra vez a mão a beijar, e saía, acompanhado de todos nós, a rua cheia de gente, as janelas atopetadas, um silêncio de assombro; o Imperador entrava no coche, inclinava-se e fazia um gesto de adeus, dizendo ainda: A Medicina, a nossa Escola. E o coche partia entre invejas e agradecimentos.

Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de Ariosto não é mais fértil que a das crianças e dos namorados, nem a visão do impossível precisa mais que de um recanto de ônibus. Consolei-me por instantes, digamos minutos, até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus companheiros.

O gênio de Machado também incluiu na história um personagem de alta relevância, o agregado José Dias – que podia ser intrigante ou bajulador, dependendo da circunstância – e este cultivava o vício de reforçar seus argumentos com o uso exagerado dos aumentativos. Não é de estranhar que, convivendo com essa figura, Bentinho se tornasse, ele mesmo, um narrador exagerado, e assim não seria gratuito incluir a questão do adultério da mulher nesse vício retórico aumentativo.

Uma aventura pelo território da crítica publicada ou falada também poderia ser mais fatal do que os tiroteios em que Riobaldo e Diadorim se envolviam contra e a favor de Zé Bebelo, principalmente os que empreenderam perseguindo Hermógenes, o assassino de Joca Ramiro, espécie de heterônimo de Joca de Cordisburgo e pai de Diadorim. Por isso, reli Grande Sertão: Veredas em voz alta para Isabel, jeito diferente do silêncio com que o li pela primeira vez, como agora o fiz no caso da releitura de Dom Casmurro. A leitura falada me propiciou uma abordagem nova da linguagem de Rosa, que eu tentarei resumir, não tanto para surpreendê-los, encantá-los ou informá-los, e sim, muito mais, para lançar algumas inquietações de leitor sobre a possibilidade de preservar o legado canônico da língua de Camões e Eça em terras de Machado e Rosa, cujas obras-primas, como definiu um colega de ofício que também pertenceu a essa Academia, Antônio Callado, compõem em paralelo o díptico que mostra, de um lado o Brasil  profundo do sertão e, do outro, o país urbano, paradoxo quem desde então, está sempre a nos desafiar.

José Nêumanne e Marco Lucchesi

José Nêumanne e Marco Lucchesi

Vim morar no Rio em 1969 e meu primeiro emprego aqui foi na Editorial Bruguera, na Rua Filomena Nunes, em Olaria. Chefiei no escritório o departamento de reembolso postal, responsável por parte considerável das vendas da editora espanhola, cujas publicações populares em paperback, das quais até os autores eram inventados, caso de Corín Tellado, e histórias em quadrinhos com os heróis gauleses Asterix e Obelix, o detetive francês Tintin e o cowboy americano Lucky Luke eram verdadeiros arrasa-quarteirões. O chefe da redação, o poeta, escritor e tradutor Leonardo Fróes, chegava de uma viagem aos Estados Unidos, onde peregrinara pelo roteiro empreendido por Holden Caulfield, o herói de O Apanhador no Campo de Centeio, para mim um dos livros capitais da ficção no século 20. Leonardo era um grande fã do inglês Lawrence Sterne e incutiu em mim a missão de ler sua obra-prima The Life and Opinions of Tristram Shandy, segundo ele grande fonte de inspiração do estilo machadiano, Meu inglês insuficiente para a árdua tarefa forçou-me a esperar até que o poeta José Paulo Paes, autor do prefácio de meu primeiro livro de poesia, As Tábuas do Sol, fizesse a tradução para português. Sei que, apesar desse contato com um escritor de língua inglesa, nosso maior gênio literário se destacou sempre pelo uso elegante daquela que Olavo Bilac chamou de “última flor do Lácio, inculta e bela”. Ler e reler o mestre é ter sempre o conforto de reencontrar a língua em que minha mãe, a professora Mundica Ferreira Pinto, dizia de cor para os filhos, em meio às trevas sem eletricidade no sertão do Rio do Peixe, os versos imortais de Navio Negreiro, de Castro Alves, entre outros. Desde então, dedico-me a ler os melhores textos em português, pois aprendi e pratico duas lições de meu mestre e pai no jornalismo, o capixaba J. B. Lemos, meu primeiro chefe de reportagem na Folha de S.Paulo. Lemos dizia sempre que só escreve bem quem lê muito e seleciona os textos que lê entre os de melhor qualidade. E também que fazer ironia em texto escrito é uma temeridade, porque o único capaz de fazer isso bem era justamente Machado.

Reler Dom Casmurro,  mantendo contatos esporádicos com os textos de Machado, foi a chamada oportunosa ensancha para aprimorar o gosto e, em seguida, o texto, em que pontifica a verve do Bruxo, capaz de produzir no idioma de Camões e Eça o suprassumo da melhor embocadura do sense of  humour da verve na língua de Shakespeare, reconhecida como ponto máximo da fina ironia. E esta oportunidade, que me foi dada pela Academia pela intercessão de Nejar, só será bem aproveitada se eu lhes disser que aqui volto ao tema de uma palestra anterior, feita neste mesmo auditório, em que tive a chance de clamar pela preservação da melhor língua canônica. Especialmente agora, quando ela é insistentemente combatida pelos populistas, que adotam o barbarismo como manifestação democrática e de igualdade social, e as canhestras e aberrantes abreviações dos textos de computador como um meio de simplificar a transmissão de informação e o debate das ideias. Hoje como à época da palestra anterior, continuo  empenhado em manter o inestimável tesouro da literatura portuguesa produzida no Brasil, de Gregório de Matos Guerra a Jorge Amado.

A releitura em voz alta, às vezes interrompida por exclamações de deleite e entusiasmo, tanto de minha parte quando da parte de Isabel, nos fez perceber que a obra-prima de Guimarães Rosa também tem esse condão de preservar o melhor de nosso vernáculo na urdidura de sua escrita, em que a trata de forma erudita e com apoio em seu notório e notável conhecimento de várias línguas estrangeiras, com as quais demonstrava intimidade E o faz de tal forma que consegue reproduzir expressões de um arcaísmo saboroso, que se perderam na algaravia urbana, mas se mantêm intactas tanto no sertão de onde Isabel e eu viemos quanto naquele em que Rosa viveu. E que reproduziu de forma magistral em suas narrativas. Esta observação pode parecer estranha, pois o mineiro é tido e havido como um dos mais habilidosos criadores de neologismos da literatura universal em seu tempo. Na primeira vez em que li Grande Sertão: Veredas, tive evidentemente contato com palavras e expressões criadas e outras que parecem bebidas nos potes de barro de minha infância. Desde então, sempre me senti tentado a incluir o ápice da literatura tida como de vanguarda na estirpe de escritores que, em minha opinião de leitor, bebem da mesma água com que se destila o uísque irlandês. Exatamente na época em que tive o primeiro contato com Dom Casmurro e Grande Sertão: Veredas, até mesmo antes, graças a Sagarana, percebi no autor sua filiação à corrente recriadora da ficção com a metamorfose das palavras a partir de um conhecimento enciclopédico das estruturas das línguas todas da literatura ocidental, cujo ápice está na obra de James Joyce. Não me refiro a Finnengans Wake, mas especificamente à tradução de Ulysses feita pelo grande mestre da filologia nacional, Antonio Houaiss. Peço, porém, vênia para reafirmar que o recurso ao neologismo não contradiz o uso criativo e ao mesmo tempo respeitoso de Rosa da nossa língua materna e de João Cabral, Bandeira e Drummond. Neste esforço para fazer ligações singulares entre nossos dois gênios, encontrei a incomum palavra espórtulo, usada por Machado no conto O Espelho e por Rosa em seu clássico sobre o qual tratamos neste momento.  É apenas uma boutade, pela qual talvez J. B. Lemos me repreendesse, mas não resisti ao registro.

E, por falar em boutade, domingo passado, em visita à impressionante e invejável biblioteca do poeta Antonio Carlos Secchin, este me contou uma que não podia faltar aqui.  Segundo o acadêmico, diz-se que, certo dia, um dos poetas concretistas de São Paulo teria dito a Rosa que identificava sua obra com a de outro grande romancista brasileiro: Oswald de Andrade. O interlocutor logo percebeu um visível desapontamento do interpelado, que confessou que esperava que fosse Machado de Assis. Pois Rosa tinha toda razão: nenhum outro escritor no Brasil poderia ser comparado com o autor de Grande Sertão: Veredas. E esta seria mais uma das chamadas “ligações singulares”, concordam?

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Voltando a meus 14 anos, em Campina Grande, o contato com a obra-prima de Rosa me levou a outras aventuras no universo da leitura. Foi ao encerrá-la que me senti impelido a conhecer melhor o tema que motiva o projeto do romance: o  pacto de Fausto com o Diabo. Não me lembro mais nem tenho a edição lida  àquela época para registrar o tradutor do Fausto, de Goethe, que adquiri na mesma Livraria Pedrosa onde havia comprado os outros livros. Mas me recordo que li depois a tradução do Doutor Fausto, de Thomas Mann, da lavra de Herbert Caro. E esta me introduziu no universo de Mefistófeles, levando-me a encarar outras obras-primas do romancista: Os Buddenbrook, A Montanha Mágica, Morte em Veneza e, sobretudo, a tetralogia José e seus Irmãos.

Ainda há pouco lhes narrei que quase acompanhei os jovens eu seguiram o impulso suicida de Werther. E lhes digo agora que só não o fiz porque, ao contrário de Euclydes da Cunha, acho que a principal característica do sertanejo não é a força, mas, sim, a capacidade de sobreviver às intempéries.

E este sertanejo que lhes fala passou por muitas intempéries até descobrir num livro como é grande a genialidade, a ponto de transmitir a uma pessoa comum, a capacidade de repassar ao leitor a luz e a energia de seu talento incomum. Este foi o caso de Goethe, e não apenas pelo fato de seu poema seminal ter inspirado obras-primas como a de Mann e a de Rosa. Desde que li A Segunda Morte de Ramón Mercader, tornei-me fã de carteirinha do espanhol Jorge Semprun, que escreveu quase toda a obra literária em francês. Um de seus livros que muito me encantaram é Um Belo Domingo, no qual ele narra conspirações armadas na proximidade da latrina de cheiro insuportável e, por isso mesmo, menos vigiada pelos guardas no campo de concentração de Buchenwald, perto de Weimar, onde Goethe tinha vivido. No romance Semprun refere-se às conversas que o poeta manteve com um cidadão comum, que terminou escrevendo um livro fundamental não apenas para o conhecimento da obra do criador de Fausto, mas também para servir de iniciação à compreensão da poesia, prosa e até da filosofia alemã e mundial. Falo de Conversações com Goethe, de Johann Peter Eckermann, que li numa versão em castelhano, mas acabo de saber que acaba de sair uma edição em português, cuja leitura recomendo. E aqui o registro porque, assim como outros livros já citados, esse me permitiu avaliar de forma ampla a importância do tema do Fausto na obra de Rosa.

Peço licença para narrar outro episódio pessoal que me permitiu entender melhor a escritura do Grande Sertão: Veredas. Fui a Cordisburgo para conhecer a casa onde João Guimarães Rosa nasceu e passou a infância, e ali me deparei com algo que chamaria de iluminação. Depois de percorrer a gruta de Maquiné, visitei o museu e fiz uma parada mais longa na vendinha de seu Rosa, o pai de João. Ali imaginei que o futuro prosador, na infância, se escondia no balcão da venda para ouvir os relatos de jagunços, tropeiros e boiadeiros que paravam para comprar mantimentos, arreios e outras utilidades para suas marchas. É possível que lá o romancista tenha começado a engendrar o idioleto que criaria depois em contos como A Hora e a Vez de Augusto Matraga e no roman-fleuve de que aqui tratamos. A releitura deste me permitiu compreender melhor essa descoberta infantil e, depois, todas as viagens que o autor faria pelo sertão, narradas em livros como o de Fernando Granato e em documentários como o de Pedro Bial para a televisão. Lendo em voz alta o texto seminal de Rosa, pude me deparar com esse linguajar que, em muitas ocasiões, se assemelha muito ao universo vocabular a que Isabel e eu nos acostumamos em nossa infância e juventude no sertão de Uiraúna, Pombal e Condado, no Semiárido paraibano, e em Campina Grande, que, no alto do Planalto da Borborema, sempre tem acolhido esses vocábulos.

José Nêumanne

José Nêumanne

Aliás, não posso omitir o fato de que, em 1969, trabalhei na Bruguera com Nei Leandro de Castro, que havia conhecido antes, pois, tal como ele, eu havia feito parte do grupo Poema/Processo, liderado pelo carioca do Mato Grosso Wlademir Dias Pino, pelo camoniano Álvaro de Sá e por sua mulher e musa, a poeta e artista plástica Neide Dias de Sá, ambos do Rio. Naquele ano, Nei, hoje publicitário de ofício, ganhou o prêmio do Instituto Nacional do Livro (INL) com a obra resultante de sua pesquisa ortográfica, Universo e Vocabulário do Grande Sertão, publicada em 1970 pela Vozes, cujo catálogo à época era feito por Rosemarie Muraro e frei Clarêncio Neotti, diretor da Revista de Cultura Vozes, na qual publiquei muitos textos e resenhas de livros. Mais do que um fato biográfico, dos quais aqui abusei, esse é também o resgate de uma obra importante, que caiu no ostracismo e merecia maior atenção no debate sobre o clássico dos clássicos em matéria de registro literário do Brasil rural profundo.

Convém registrar ainda que refiz alguns conceitos de minha primeira leitura do grande romance de um fôlego só, e uma delas diz respeito ao gênio que escreveu Os Sertões, de que acaba de sair mais uma edição crítica, organizada por Walnice Nogueira Galvão. À primeira leitura, concluí que o sertão de Joca de Cordisburgo não era o mesmo meu, de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e José Américo de Almeida, nem mesmo o de Canudos. Hoje, contudo, percebo que me enganei redondamente. Como diz Riobaldo, o sertão é um só, e, embora todos os escritores citados aqui, e muitos outros, sejam luminares e superiores, não têm hoje a repercussão ao=lcançada pela obra de Rosa e Euclydes. A minúcia enciclopédica com que o diplomata e ex-médico mineiro descreveu a terra, a flora e a fauna do Norte de Minas em tudo se assemelha ao trabalho ciclópico do fluminense que relatou a campanha de Canudos como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, onde hoje milito.

Encontrei, ao longo da releitura do Grande Sertão, referências à luta entre Deus e o Diabo que lembram alocuções de Antônio Conselheiro, relatadas por Euclydes e usadas por Glauber Rocha num dos mais esplendorosos momentos do cinema brasileiro, Deus e o Diabo na Terra do Sol. E também em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, que, segundo definiu genialmente seu Zé, porteiro do Cine Capitólio em minha pré-adolescência em Campina Grande, é um “faroeste de cangaceiros”. Destaco que as pregações do profeta cearense Antônio Vicente Maciel, o Conselheiro, citadas por Euclydes, usadas por Glauber e hoje também recolhidas em livro específico, espalham-se pelas referências permanentes de Rosa ao pacto com o demônio, leitmotiv de seu clássico. Resumo-as na toada de Sérgio Ricardo com que Glauber encerra o filme citado: “Que a terra é do homem, não é de Deus nem do diabo”, talvez o resumo do relato de Riobaldo Tatarana, marcado pela repetição de frases que causaram o maior impacto neste locutor que vos fala. Tudo isso é da mesma inspiração de Rosa ao concluir seu romance imenso: “Nonada. O diabo não há. É o que digo, se for… Existe é homem humano. Travessia”.

Antes de chegarmos a esse fecho magnífico, tropeçamos em pérolas do vernáculo, como o é o caso de “viver é muito perigoso”. Se é! Mas, sobretudo, na epígrafe mais adequada que já encontrei numa obra em minha trajetória de leitor: “o diabo na rua no meio do redemoinho”. Na primeira vez em que deparei com essa epígrafe, li, parei, repeti e fiquei  meia hora pensando, lendo e relendo. Só depois é que aventurei-me a navegar no curso do texto-rio para saber que muitas frases ainda me fariam parar a leitura, algumas, aliás, repetidas por ele. Selecionei uma:

“É preciso de Deus existir a gente, mais: e do diabo divertir a gente com a sua dele nenhuma existência. O que há é uma coisa, – uma só, diversa para cada um – que Deus está esperando que esse faça. Nesse mundo tem maus e bons – todo grau de pessoa. Mas, então, todos são maus. Mais, mais então, todos não serão bons? Para o prazer e para ser feliz, é que é preciso a gente saber muito, formar alma, na consciência, para se pensar, não se carece. Bicho tem dor, e sofre sem saber mais porque. Digo ao senhor: tudo é pacto”.

E, antes de encerrar, preciso abordar as “ligações mais singulares” entre o tema do seminário e o fundador desta casa de sábios: a beleza, o charme e o veneno da mulher brasileira. Refiro-me, naturalmente, à carioca Capitolina e à sertaneja Deodorina. São dois nomes estranhos e incomuns. A única referência que conheço em relação à musa que Machado presenteou ao bacharel Bentinho é o nome da escola em que Isabel lecionou, em João Pessoa, capital da Paraíba: Capitulina Sátiro. De Deodorina, nome que só é revelado junto com a citação do batistério nas últimas páginas da saga, que apelidei, de forma roseana, de “ságua” do jagunço tiro certo, só me ocorre que pode ser o feminino de Deodoro, general que deu o primeiro golpe bem-sucedido da nossa História: a República que pegou o povo bestializado, no dizer do jornalista socialista Aristides Lobo, lembrado no clássico de nossa historiografia, da lavra do acadêmico José Murilo de Carvalho. Como a República insana já tinha dez anos quando a obra veio a lume, talvez não se devesse levar demasiado em conta essa ironia, associando-a ao mito de Hua Mulan, a guerreira mais famosa da China ancestral de Reinaldo/Diadorim.

De qualquer forma, isso não teria importância maior, pois Machado realizou em Dom Casmurro a narrativa espetacular sobre uma mulher fascinante e uma dúvida cruel. E isso foi tão celebrado já em seu tempo que, conforme registra notícia de jornal à época, seu caixão foi levado da casa do Cosme Velho ao coche fúnebre que o transportaria à Academia por mocinhas, entre as quais as muito jovens filhas de Fausta (mais uma coincidência, hein?), prima  de o arqueólogo Edgardo Pires Ferreira, que recentemente nos contou que ainda as conheceu. A mulher é Capitu, cujo apelido, este sim, é mais usado do que o próprio nome em nossos dias; e a dúvida que Machado lançou no ar é a do possível adultério que atormentou Bento /Bentinho, o bacharel da capital. Peço licença aos ilustres ouvintes para afirmar que não considero capital a questão do adultério de que a verdadeira protagonista do romance foi acusada, e pelo qual se exilou e morreu em solidão no exterior. Capitu é de longe, muito longe, longe mesmo, a figura que merece destaque e simpatia. Bento Bentinho é a criação genial de um personagem mesquinho, medíocre, de pouca relevância e escasso brilho intelectual, sempre socorrido pelo agregado José Dias e pelo melhor amigo Escobar nas empreitadas que exigiam lógica e raciocínio. Ele resumiu este episódio difamatório a um ponto final no qual só restou a tirânica palavra do narrador contra o silêncio sepulcral de sua vítima. A Bento o que é de Bento, a Capitu o que a Capitu pertence.

E, se há ainda a contar uma ligação singular entre estes dois entre os pontos altos da literatura brasileira é o fato de que o julgamento de Zé Bebelo, do qual não falarei porque se trata do tema da palestra de Deonísio da Silva, terça-feira próxima nesta mesma hora e lugar, de certa forma também se aplica a Capitu. Sim, minhas senhoras e meus senhores, Zé Bebelo foi julgado e exilado, num marco civilizatório inverossímil em romance de aventuras de jagunços sertanejos. E Capitu está sendo julgada até hoje, após ter morrido no exílio, ao qual a relegou seu próprio criador e carrasco.

Quanto a Deodorina, ficou a glória de ser a mais deslumbrante, mas também a menos verossímil heroína de romance da história da literatura mundial. Guerreira como ela foi a francesa Joana d’Arc, mas o martírio desta é verossímil porque aqueles com quem conviveu sabiam que era mulher, e do povo, com armadura de soldado. E ela terminou sendo o marco da identidade francesa. O mesmo se pode dizer de personagens do mesmo gênero, tais como Luzia-Homem, de Domingos Olímpio, e Maria Moura, de Rachel de Queiroz. Diadorim é uma espécie de anjo inefável que acompanha o atirador de tiro certo dos bandos de jagunços do norte de Minas como uma espécie de brisa benfazeja, a guiá-lo para longe das encruzilhadas onde poderia vender a alma ao Mefisto das margens do São Francisco, nos sertões de Bahia e Minas Gerais. Confundi-la com concessão à moral, como fez o escritor Dominique Fernandez em entrevista a Betty Milan no livro O Poder da Palavra,  é engano similar à confusão recente de que se teve notícia de Diadorim com transgêneros. Poucas personagens poéticas terão seu charme relatado pelo amante ao qual o mistério só foi desvendado com a morte, que o liberou para a noiva dos sonhos, uma entre muitas mulheres de um narrador mulherengo como o autor das memórias de Giácomo Casanova. Como Bento Bentinho, Riobaldo Tatarana é um velho nostálgico contando uma história de amor impossível. Mas, diferentemente daquele outro, este era merecedor da mulher disfarçada de companheiro de jagunçagens  pelo fato de ter sido fiel a seu mistério até o fim.

Ao concluir, lerei um do texto de Rosa em que ele narra a descoberta poética de que o parceiro tão amado era fêmea; algo poético, simbólico e, por isso mesmo, inverossímil, como o marco civilizatório que foi o julgamento de Zé Bebelo. Encantemo-nos com o texto de Joca de Cordisburgo:

“Eu dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo o mundo sair.

Eu fiquei. E a Mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal-entendia.

Não me mostrou de propósito o corpo. E disse… Diadorim — nu de tudo. E ela disse:

— ‘A Deus dada. Pobrezinha…’

E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu não contei ao senhor — e mercê peço: — mas para o senhor divulgar comigo, a par,  justo o travo de tanto segredo, sabendo somente no átimo em que eu também só soube… Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita… estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d’arma, de coronha…

Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer — mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero.

O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.

Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável; abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca.

Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata… Cabelos que, no só ser, haviam de dar para abaixo da cintura… E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:

— ‘Meu amor!…’

Foi assim. Eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo.

A Mulher lavou o corpo, que revestiu com a melhor peça de roupa que ela tirou da trouxa dela mesma. No peito, entre as mãos postas, ainda depositou o cordão com o escapulário que tinha sido meu, e um rosário, de coquinhos de ouricuri e contas de lágrimas-de-nossa- senhora. Só faltou – ah! – a pedra-de-ametista, tanto trazida…

O Quipes veio, com as velas, que acendemos em quadral. Essas coisas se passavam perto de mim. Como tinham ido abrir a cova, cristãmente. Pelo repugnar e revoltar, primeiro eu quis: — ‘Enterrem separado dos outros, num aliso de vereda, adonde ninguém ache, nunca se saiba … ’

Tal que disse, doidava. Recaí no marcar do sofrer. Em real me vi, que com a Mulher junto abraçado, nós dois chorávamos extenso. E todos meus jagunços decididos choravam… Daí, fomos, e em sepultura deixamos, no cemitério do Paredão enterrada, em campo do sertão.

Ela tinha amor em mim. E aquela era a hora do mais tarde. O céu vem abaixando. Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez até ache mais do que eu, a minha verdade. Fim que foi”.

Resta-nos, com a chegada da noite, o encantamento e o espanto. Quanto a mim, não posso encerrar sem agradecer a enorme generosidade da Academia, dos acadêmicos que me prestigiaram e deste atento e simpático publico que aqui compareceu. Agradecidíssimo a todos, pois!

Paulo César Lima, tricampeão mundial de 1970, foi à ABL

Paulo César Lima, tricampeão mundial de 1970, foi à ABL

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Ciclo de Conferências “Guimarães Rosa, escritor e diplomata”
Conferência: “Machado de Assis e Guimarães Rosa. Ligações singulares”
Coordenação: Carlos Nejar
Palestrante: José Nêumanne Pinto
Data: 06/03/2018

Imagens: recortes da transmissão ao vivo da Academia Brasileira de Letras. Acesso ao vídeo  com a conferência completa: Clique aqui!

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