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No Blog do Nêumanne: O peso da coroa na balança

No Blog do Nêumanne: O peso da coroa na balança

Se o preço da redução das pesadíssimas penas de Sérgio Cabral for a revelação dos podres do Judiciário mantidos em segredo pela força do corporativismo, por que não pagá-lo?

Exemplo claro de que normalmente quem detém a coroa consegue safar-se de qualquer apuro, por mais complicado que possa parecer, é a recente decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux, em plantão no recesso do fim de ano, de, a pedido do deputado estadual fluminense e senador eleito pelo PSL Flávio Bolsonaro, primogênito do presidente da República, suspender a investigação de seu ex-motorista e segurança Fabrício Queiroz, PM aposentado, para apurar movimentação financeira atípica constatada pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), hoje sob o ministro da Justiça, Sergio Moro. As investigações serão suspensas até o relator, ministro Marco Aurélio Mello, se pronunciar. Dilma, rainha deposta, denunciada por Palocci, poderá ser presa a qualquer momento, mas a investigação sobre o herdeiro do trono foi suspensa.

E aí, Moro, como é que fica? Vai levar uma bola nas costas ou apurar o assunto? O silêncio só se justifica se a desconfiança gerada for a melhor explicação encontrada. Ficou patente que houve desvio de verbas pela família para atender às despesas sem se lançarem nas mãos das empreiteiras. Se sair, Sua Excelência pode acabar com o governo que o povo escolheu para limpar o Brasil e fazer as reformas necessárias. Se ficar e mandar investigar a primeira-dama, poderá derrubar o governo  e cair junto. A geometria da situação só admite uma saída: a bola autodirigida às próprias costas. Ou seja, procurar para não achar. Lula usou esse expediente de forma recorrente. É o dilema  da lei contra a coroa.

No passado tivemos exemplos que não foram, em momento algum, considerados pelo PT, dado que se trata de um partido pouco afeito ao  estudo da História e do funcionamento das instituições democráticas. Durante a Revolução Francesa, por exemplo, Robespierre, o incorruptível, depois de se tornar um dos campeões do Terror revolucionário, acabou guilhotinado. Os líderes revolucionários e os governos que instituíram  encontraram quase sempre ao final do seu trajeto  o cadafalso, incluído o suspeito Danton, mas a coroa resistiu, tanto que,  assim que conseguiu, Napoleão Bonaparte tratou de se ser sagrado imperador.

Quando Márcio Thomaz Bastos partiu para a eternidade, levando no ataúde a caixa-preta  de muitas ações criminosas perpetradas pelo partido ao qual serviu como ministro da Justiça, logo ficou claro que o PT tinha perdido o controle das instituições, e aí o sistema voltou-se contra ele.

A saída de cena de Márcio, na verdade, ensejou o surgimento da Operação Lava Jato. Os outsidersconseguiram, em Curitiba, identificar uma poderosa rede criminosa envolvendo o PT, seus aliados e até a soit-disant oposição tucana (comprada), políticos e  empresários, corajosamente posta atrás das grades. Os números da operação comandada por Sergio Moro surpreendem: foram 2.476  procedimentos instaurados, 82 acusações contra 347 pessoas e 215 condenações. Os principais líderes do PT foram condenados e o chefão do bando, o ex-presidente Lula, está preso.

     Mas ainda não chegou ao fim. Como escrevi em artigo publicado na semana passada neste blog sob o título deAinda a roubalheira do PT (https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/ainda-a-roubalheira-do-pt/), o procurador da Lava Jato Roberson Pozzobon, em entrevista a O Estado de S. Paulo, declarou recentemente  que muito ainda está por vir.

Os malfeitos de Executivo e Legislativo foram expostos e as punições estão em curso.  Agora eventuais delações do ex-ministro Antônio Palocci, do ex-procurador-geral de Justiça do Rio de Janeiro Cláudio Lopes e de Sérgio Cabral prometem abrir mais caixas-pretas. Urge criar condições para que os três falem com detalhes sobre os crimes que protagonizaram ou de que foram cúmplices.

Palocci dispõe-se a revelar as falcatruas postas em prática pelo PT nos fundos de pensão. Ele  acaba de assinar a terceira delação premiada, no âmbito da Operação Greenfield, que investiga os desvios nos fundos de pensão do Banco do Brasil (Previ), da Petrobrás (Petros) e da Caixa Econômica Federal (Funcef). O PT, de forma escandalosa, fez uso da  poupança dos aposentados e associados dos fundos de pensão para se perpetuar no poder. Ele se propõe a contar os bastidores do mercado persa das medidas provisórias, cujos números impressionam. Segundo Palocci, “900 das mil medidas provisórias envolviam propinas”. Não é espantoso por um motivo simples: o espanto passou a ser a regra, não mais a exceção. Mas Palocci não delataria empresas e instituições financeiras? Será que vai? Ou será mais uma omissão premiada?

Outro que tem muito a contar é o procurador-geral Claudio Lopes, delatado por receber propina para abafar a corrupção  do governo de Sérgio Cabral. Do seu depoimento poderão sair informações preciosas para entender como funcionava a poderosa máquina de corrupção que pôs a pique as finanças do Estado do Rio de Janeiro.

Ciente de que pode passar décadas na prisão, Sérgio Cabral convenceu-se, afinal, de que só lhe resta, para amenizar as penas a que faz jus, negociar uma delação premiada. Sabe-se que, para intranquilidade de muitos, ele promete revelar as mazelas da magistratura do Estado que governou, magistratura essa  que o cortejou muito e lhe garantiu por anos a fio  forte influência no Ministério Público e em varas, cortes e tribunais.

Um dos maiores aliados do PT, “Serginho”, como era  carinhosamente tratado por Lula, tem muito a contar. Sem o apoio do Estado de São Paulo, e tendo  Minas alternado o poder com o PMDB, o apoio de Cabral foi vital para o petista. A aliança dele com Lula mostrou-se fundamental para o PT. Em troca de apoio político, Cabral  ganhou  influência na área da  Justiça, tendo conseguido nomear vários ministros para as Cortes Superiores.

Sua delação deve ser encarada, portanto, como uma urgência, pois ela tem tudo para ajudar a promover uma benéfica higienização das togas, o que vai contribuir para que o Brasil avance no campo da transparência institucional  e da ética  no âmbito dos Três Poderes.

Há que atentar, entretanto, para uma questão grave: o difícil será o emedebista encontrar um advogado disposto a tocar uma delação que vai  devassar  a podridão instalada nos subterrâneos do Judiciário. Dois de seus advogados já o abandonaram quando ele admitiu que, acuado, só lhe resta agora entregar os maganões do Judiciário, sob pena de sua delação não interessar mais à Polícia ou ao Ministério Público Federal. Mas quem opta pela delação premiada  tem cada vez mais dificuldade de  contratar advogado. No caso do ex-governador, chefão político recordista absoluto em duração de penas, a situação é ainda mais complicada, dado que ele se dispõe a contar dos atos nada honrosos praticados por integrantes dos  tribunais superiores. Teme-se que nenhuma banca de advocacia resista à retaliação dos tribunais e ao fato de os clientes preferirem ir embora.

O certo é que a cúpula judiciária não quer saber desse assunto e tudo fará para manter o ex-governador no silêncio de sua cela.  O Judiciário teme um incêndio que poderá ir longe, destruindo reputações até agora intocadas, protegidas pelo corporativismo.

O atual ocupante do Ministério da Justiça, o ex-juiz Sergio Moro, que conhece a fundo os crimes praticados por políticos e empresários durante os mandatos de Lula e Dilma, terá agora a oportunidade de contribuir com seu saber, sua experiência e seu destemor para que não se imponham obstáculos de nenhuma ordem à necessária e urgente delação de Sérgio Cabral sobre o  Judiciário, com o qual ele conviveu tão intimamente, mas por cuja cúpula foi tão hostilizado. E até humilhado. Basta lembrar, nesse particular, o carão que levou do atual presidente do STF, Dias Toffoli, pelo crime, para este, imperdoável, de determinar o uso de tornozeleiras pelo ex-chefinho adorado José Dirceu de Oliveira e Silva. Parece-me razoável que, se forem consistentes os fatos e as provas apresentados por Sérgio Cabral, ele  poderá mesmo merecer uma redução de suas  penas enormes. Diante de tudo o que têm sofrido em crises política, econômica, financeira e, sobretudo, moral, o Brasil e os brasileiros precisam ter certeza de que seus magistrados, inclusive os “supremos”, são honestos e não se deixam manobrar por siglas ou partidos. Ou seja: que o martelo do juiz seja usado para punir todos os culpados e o peso da coroa não distorça tanto o equilíbrio de sua balança.

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 21 de janeiro de 2019)

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Nêumanne entrevista Wálter Maierovitch – 2019/01

Nêumanne entrevista Wálter Maierovitch – 2019/01

Juiz narra barbaridades de Battisti

a pretexto da ideologia

Maierovitch diz que Suplicy mentiu para defender italiano, delinquente oportunista cuja organização terrorista aleijava vítimas para servirem de propaganda ambulante

O juiz Wálter Fanganiello Maierovitch, fundador e presidente do Instituto Giovanni Falcone de Ciências Criminais, que leu inúmeras vezes o processo em que o italiano Cesare Battisti foi duas vezes condenado por quatro crimes, garante que ele era um delinquente oportunista, que nunca quis trabalhar. Na volta depois das férias da série semanal Nêumanne Entrevista, publicada neste blog, o ex-ministro responsável pela Secretaria Nacional Antidrogas descreve em detalhes o que conhece dos autos e da História italiana, que lhe serve de pano de fundo, e atribui à esquerda brasileira “pura ignorância” para defendê-lo. Lula, Tarso Genro e outros petistas responsáveis por sua permanência de dez anos no Brasil nunca se deram sequer ao trabalho de consultar o que pensava a esquerda democrática de seu país de origem. O relato do professor de Direito Penal é confirmado pelo fato de a expulsão de Battisti pela Bolívia ter sido festejada por esquerda e direita na Itália. A esse relato Maierovitch adiciona o episódio cruel da carbonização de uma família de pobres trabalhadores italianos, cujo chefe militava num grupo neofascista, por outro facínora, Achille Lollo, adotado como ideólogo pelo PT, do qual foi expulso quando denunciado pelo entrevistado, e pelo PSOL, no qual militou até voltar para a Itália quando sua pena prescreveu.

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No Blog do Nêumanne no Estadão: Ainda a roubalheira do PT

No Blog do Nêumanne no Estadão: Ainda a roubalheira do PT

Há muito a investigar, punir e ressarcir o erário dos bilhões subtraídos do patrimônio público pelos gestores corruptos das gestões Lula, Dilma e Temer e que não podem cair no esquecimento

A recente notícia de que a Petrobrás concluiu haver sofrido prejuízo de US$ 16 bilhões (cerca de R$ 58 bilhões) na política de “nacionalização” de equipamentos da estatal trouxe à tona o que se sabia, mas sempre vale a pena recordar para não repetir: o Partido dos Trabalhadores (PT) montou uma organização criminosa multidisciplinar de dimensões inimagináveis.

Até agora, verdade seja repetida, muito pouco dos crimes de corrupção que depauperaram o Estado brasileiro na era federal petista foi apurado.  O esquema era enorme e ainda tem muito por vir, delações premiadas serão fechadas e outras servirão de base para abertura de novos inquéritos. Recentemente foram noticiadas a busca e apreensão na casa do ex-ministro da Ciência e Tecnologia, na gestão Temer, Gilberto Kassab, que, por causa disso, pediu licença da chefia da Casa Civil do governo João Doria, no Estado de São Paulo. E na casa da mãe do senador Aécio Neves. O ponto de partida dessas investigações foi a delação premiada do grupo J&F, dos irmãos Batista de Anápolis (GO). Isso sem falar nos 1.829 candidatos a político e 28 partidos citados na delação do mesmo grupo empresarial e constantes da lista do ministro Edson Fachin com 108 alvos dos 83 inquéritos que a Procuradoria-Geral da República (PGR) encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) com base na delação dos 78 executivos da Odebrecht.

Em entrevista ao Estado, Roberson Pozzobon, procurador da Justiça da força-tarefa da Operação Lava Jato, de Curitiba, disse que o esquema da Petrobrás se repetia nos Estados e que haverá novidades até o carnaval. Como todos sabemos, ainda não soaram as cornetas de Momo.

Palocci fechou o terceiro acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal (MPF), no âmbito da Operação Greenfield, em Brasília, que investiga os desvios nos maiores fundos de pensão. Importantíssimo esse capítulo! Os fundos de pensão foram instrumentos do PT para chegar ao poder e de sua tentativa de nele se perpetuar. Graças ao ex-juiz Sergio Moro, ministro da Justiça de Bolsonaro, o objetivo de nunca mais deixar o poder falhou. Mas ainda há muito crime a ser apurado.

O conteúdo das delações de Palocci, que não é um zé-mané qualquer, pois foi ministro da Fazenda de Lula e chefe da Casa Civil de Dilma, é uma bomba. Mal comparando, ele foi um general civil de cinco estrelas do neopopulismo lulista e o primeiro petista de alto coturno a delatar o que viveu e acompanhou na cúpula da gigantesca organização criminosa, testemunhando suas formação e atuação. Quem viver na certa verá Palocci tocar fogo no circo e mostrar a outros a via da delação.

Convém lembrar que o Judiciário ainda não entrou na roda. O próprio Palocci já afirmou que o ex-presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Cesar Asfor Rocha recebeu suborno de R$ 5 milhões da Construtora Camargo Corrêa para barrar a Castelo de Areia, em acerto arranjado por Márcio Thomaz Bastos.

A Lava Toga, anunciada pelo site Antagonista, vem aí. Sérgio Cabral, como anunciou o colunista do Globo Lauro Jardim, fechará delação premiada e denunciará membros do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) e do STJ. O ex-secretário da Casa Civil de Cabral Régis Fichtner também abriu a possibilidade de contar “casos” do Judiciário, incluídos episódios envolvendo o STJ. E foi solto rapidamente. Ainda segundo Lauro Jardim, o Judiciário é a prioridade número um, dois e três da Lava Jato no Rio de Janeiro em 2019. “Os procuradores querem mergulhar nas relações da organização criminosa de Sérgio Cabral com magistrados e com integrantes do Ministério Público”, ele publicou.

Única saída de Cabral, delação premiada do Judiciário é dificultada pela reação corporativista que impede até que ele contrate algum advogado Foto: Fábio Motta/Estadão

Única saída de Cabral, delação premiada do Judiciário é dificultada pela reação corporativista que impede até que ele contrate algum advogado Foto: Fábio Motta/Estadão

O mais difícil agora está sendo Cabral arrumar um advogado. Dois contratados pelo ex-governador largaram a causa quando, sem saída, este resolveu delatar o Judiciário. Hoje em dia quase não há advogado que tope ficar com o cliente quando este decide delatar, principalmente quando se propõe a denunciar tribunais superiores. Os tribunais estaduais são mais vulneráveis, pois sempre se pode conseguir defensor em outros Estados. Pelo visto, os maiorais das grandes bancas já foram alertados e não querem meter a mão em cumbuca. Nenhum deles resiste à retaliação desses tribunais: os clientes correm deles como o diabo da cruz. O Judiciário não quer saber desse assunto. Se começar, o incêndio vai longe.

O que, de fato, há a denunciar é a troca de nomeações por decisões. Em português claro, compra de sentença paga com promoção. No artigo No Supremo pela porta dos fundos (https://opiniao.estadao.com.br/noticias/espaco-aberto,no-supremo-pela-porta-dos-fundos,70002657768), abordei a lambança do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello, que, a poucos minutos do recesso de fim de ano, tentou soltar 169 mil presos, entre os quais Lula. Marco Aurélio e Luiz Fux tiveram filhas nomeadas desembargadoras por Dilma, por sugestão de Cabral. Se este não for solto, o mercado persa de nomeações pode bombar.

No mensalão, o ministro do STF Joaquim Barbosa aliviou a barra de Lula, que o indicou para a Corte. Barbosa e todo mundo sabiam quem era o chefe da quadrilha, melhor dizendo, que o mensalão não teria como ocorrer sem Lula. Alô, alô, Sergio Moro, tornado herói nacional pelo desempenho na Lava Jato, veja se não vai “barbosar” no caso do Fabrício Queiroz, hein?

Segundo a revista Crusoé, do site O Antagonista (Edição 37 do passado dia 11), “ministros de tribunais superiores têm trocado figurinhas sobre o desenrolar do acordo de delação premiada de Orlando Diniz, o ex-presidente da Fecomércio do Rio de Janeiro que despejou dinheiro em escritórios de advocacia ligados a alguns colegas de toga, especialmente do Superior Tribunal de Justiça. Há quem veja sinais de que está em curso uma articulação para que Diniz poupe, em seus depoimentos, figuras estreladas das altas cortes brasilienses. Em troca, como ‘bois de piranha’, ele entregará as cabeças de um ministro do Tribunal de Contas da União e de desembargadores do Tribunal de Justiça fluminense”. Vôte!

Se procuradores e juízes seguirem a cartilha de Moro, o que não acontece como regra, mas, por enquanto, como exceção, muito desse esquema de corrupção ainda virá à tona. Vamos convir que o conjunto de provas até agora disponíveis é uma fração pequena do total de crimes cometidos. Neste momento, convém lembrar uma das mais célebres máximas de Winston Churchill: “Agora isto não é o fim. Não é nem o começo do fim. Mas é talvez o fim do começo”. Oxalá, Xangô, meu pai!

Por último, e não menos importante, o crime não pode compensar. A ex-ministra-chefe da Advocacia-Geral da União (AGU) Grace Mendonça, que será sócia do escritório de advogados Wald (o Arnoldo da farra de Nova York), ao apagar das luzes da gestão Temer fechou um perdão com o nome de acordo de leniência com a Andrade Gutierrez. A empreiteira vai pagar R$ 100 milhões por mês, durante 16 anos, pelos danos causados à administração pública, e com isso, voltará a fazer contratos com o poder público. O valor é ínfimo em relação ao dano que causou ao País tocando obras desnecessárias e superfaturadas. A empreiteira confessou atos ilícitos relacionados a 250 pessoas físicas e 100 pessoas jurídicas, envolvendo 64 contratos fraudados. A prisão de Cesare Battisti está aí para lembrar que o criminoso italiano circulou livremente pelo Brasil sob a égide de Lula para pagar favor pessoal do petista ao ex de Marta Suplicy Luís Favre, que hospedou sua filha Lurian no apartamento dele com a mulher de então, Marília, filha de Sérgio Andrade, dono da empresa ora premiada. Só para efeito de comparação: a Petrobrás foi vítima e, ainda assim, pagou US$ 3,8 bilhões, R$ 14 bilhões ao câmbio atual, em três parcelas, para acabar com o inquérito aberto por seus acionistas minoritários nos EUA.  A firma do pai de Marília, corruptora, beneficiária do esquema, pagará menos de 1% por ano do montante que a estatal teve de pagar de indenização por não avisar aos acionistas que estava sendo roubada.

Até agora a Operação Lava Jato é altamente deficitária para os cofres da viúva com a devolução à Petrobras de R$ 3 bilhões.  A indenização que a petroleira pagou aos acionistas estrangeiros, praticamente à vista, é mais de cinco vezes o valor que os acordos de leniências arrecadaram. Isso sem falar no prejuízo da petroleira, muito maior, provocado pelos corruptores. Agora, a dita acusada afirma que tem todo o interesse em colaborar com a Justiça. Por que não o fez antes, não fraudando licitações? A AGU comemora esse citado acordo de leniência e alega que vai usar parte desses recursos para ressarcir a empresa de economia mista. Caberia à AGU, já que lhe falta calculadora, usar um lápis para conferir.

As empreiteiras que causaram prejuízos ao País, do Oiapoque ao Chuí, teriam de pagar por isso, incluindo os custos do acordo que a Petrobrás fez com acionistas minoritários, obras que fizeram sem necessidade e valores repassados pelo BNDES aos países que as contrataram e que nunca vão pagar. As empresas corruptoras são parte da organização criminosa que tomou o País de assalto. Assaltaram os cofres públicos para enriquecer e comprar votos.  Os acordos de leniência sendo anunciados como vitória do Estado estão parecendo obras da Copa e da Olimpíada, que eram anunciadas para o bem de todos e felicidade geral da Nação, omitindo-se o que estava acontecendo por baixo dos panos.

Bruno Dantas, ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), em seminário organizado pelo site Consultor Jurídico, afirmou que acordos de leniência não podem ter como objetivo salvar empresas, como apregoava Dilma, e, sim, recuperar o dano causado à população. De acordo com o ministro, “a sociedade não pode ser punida duas vezes, primeiro quando foi roubada e, segundo quando quem roubou foi anistiado”. Bruno Dantas ilustra com o caso da Odebrecht, que o presidente da empresa confessou fazer parte do esquema de propina e um diretor estatutário era o responsável por fazer os pagamentos. Para Dantas, correto é afastar os sócios dessas empresas, como se faz nos EUA: preservando a empresa, mas demitindo o empresário. Perdoar o dano é “colocar para dentro da empresa algo que ela roubou do Estado. Isso é o clássico conceito de lavagem de dinheiro”. E há que distinguir o que é multa, imposta pelo Ministério Público, e o que terá de ser ressarcido ao erário em razão do dano.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, segunda 14 de janeiro de 2019)

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Comentário no Estadão Notícias: Furto e fascismo

Comentário no Estadão Notícias: Furto e fascismo

É pouco provável que o presidente do STF, Dias Toffoli, tenha negado o pedido do PDT para interditar a extinção do Ministério do Trabalho, decretada pelo presidente Bolsonaro, pelos motivos que enumero abaixo, mas isso é o menos relevante. O que importa é que o órgão, criado por Getúlio para perpetuar o controle dos sindicatos pelo Estado em 1930, tendo como base aCarta del Lavoro do fascista italiano Mussolini, nunca passou de uma carga pesada demais para as costas da classe operária, apesar de sua retórica trabalhista. E, ao longo do tempo, tornou-se um antro de roubalheira que transferia recursos direto do bolso do operário para os políticos ladinos que o dirigiam. Decisão correta. Este é meu comentário no Estadão Notícias, no Portal do Estadão desde 6 horas da sexta-feira 10 de janeiro de 2019.

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No Blog do Nêumanne no Estadão: E Queiroz, Moro?

No Blog do Nêumanne no Estadão: E Queiroz, Moro?

Para manter aura a que chegou como juiz, ministro da Justiça não pode fingir que devassa sobre atuação dos ‘rolos’ de ex-assessor de Flávio Bolsonaro na Alerj não é com ele

Em artigo publicado no fim do ano passado neste Blog do Nêumanne, A PM do Rio e a família Bolsonaro, expliquei o principal obstáculo à permanência do ex-juiz federal Sergio Moro no Ministério da Justiça, no qual tomou posse dia 1º.

Veja só, nenhuma das empresas que caíram na rede anticorrupção da Lava Jato tinha sede em Curitiba: a da Petrobrás, origem da operação, fica no Rio e como ela, as matrizes das empreiteiras Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa, UTC, Queiroz Galvão, Engevix, Galvão Engenharia, Mendes Júnior, Skanska, GDK, Toyo Setal, Iesa, Techint, Carioca Engenharia, Schahin, Alumini Engenharia, Tomé Engenharia, e Andrade Gutierrez não ficam em Curitiba. Os doleiros também não viviam na capital paranaense.

Lula e o núcleo duro do PT, José Dirceu, Antônio Palocci e os ex-tesoureiros Delúbio Soares e João Vaccari, são de São Paulo. Assim como o triplex no Guarujá, o sítio em Atibaia e o Instituto Lula, objetos da mais famosa devassa policial e judicial da História da República.

Moro precisou de uma gambiarra para pegar o touro à unha e levar para a vara sob sua jurisdição a investigação e, assim, tentar salvar o País da corrupção institucionalizada em que estava e da qual ainda não saiu completamente. Ele espichou uma investigação de um posto de gasolina em Brasília para incendiar a rapina de cofres públicos no Brasil inteiro. E foi assim que conduziu o movimento para descriminalizar o Brasil.

Se inquéritos e ações ficassem em São Paulo, nada aconteceria. No caso Alston, o Ministério Público Federal (MPF) de São Paulo nada fez e, pelo menos até agora, não deu em nada. Ficou claro, nesse caso, que na Bastolândia (o reino do mago Thomaz Bastos), o Judiciário e o MPF evitavam atrito com o sistema vigente. No Rio ficou explícito por que a roubalheira comia solta quando se descobriu que o MP recebia mesada de Sérgio Cabral e nada investigava. Vista grossa para a corrupção, a exemplo do que exigia Lula em relação às obras superfaturadas das arenas da Copa do Mundo.

Moro pôs Curitiba no mapa. Hoje são comuns em Curitiba os Tours Lava Jato, para ver a Polícia Federal, onde fica a cela de “estado-maior” que abriga o presidiário Lula, a Procuradoria da República, a Justiça Federal e o Complexo Médico-Penal, a penitenciária das celebridades.

Depois da divulgação dos fatos em pauta, foi possível ao cidadão comum perceber que as autoridades do nosso Brasil hoje podem ser classificadas em seis categorias:

1) Os do partido, que lutam pela causa;

2) os mercenários, que fazem tudo por dinheiro;

3) os políticos, pela perspectiva de promoções;

4) os surfistas, para aparecer e ficar bem com a imprensa, pelos benefícios da notoriedade;

5) os vulneráveis, que atuam por ameaça;

6) e os incorruptíveis, que julgam pelos méritos.

Ninguém duvida hoje, no Brasil, que Moro seja categoria 6, pois teve de chamar a si as iniciativas, ou, caso contrário, ainda estaríamos na situação anterior. Pois foi assim que a Lava Jato fez de Moro um herói nacional. O certo seria todos os outros juízes agirem como Moro, e aí nos poderíamos orgulhar de termos um Judiciário. Mas, por enquanto, poucos o imitaram. A maioria continua entre o auxílio-moradia e as traças tomando conta dos processos nos cartórios das varas.

Moro chegou a ser ameaçado por Lula. Em audiência pública em maio de 2017, o ex petista afirmou: “Se eles (agentes da polícia e o Ministério Público) não me prenderem logo, quem sabe um dia eu mando prendê-los?”. Podia ser mais explícito?

O padim de Caetés queria mesmo era ir para Paságarda, onde “lá sou amigo do rei”, o belíssimo poema de Manuel Bandeira inspirado na cidade persa. Mas mesmo com a perspectiva, antes e agora, da presença de Moro no Ministério da Justiça – e nós sabemos que quando aparece uma barata na cozinha nunca é uma só -, o ex-motorista do hoje senador Flávio Bolsonaro, à época da Alerj velha do achego e do achaque, Fabrício Queiroz não compareceu nas quatro vezes em que foi intimado para depor no Ministério Público, conforme ele próprio revelou em entrevista a Débora Bergamasco, do SBT. Entrevista, aliás, que só piorou a situação dele e de todos os citados. Não depor no MP e dar entrevista no SBT… Isso pode, Arnaldo?

Flávio Bolsonaro foi para o Senado e foge do ex-chefe de segurança como o diabo da cruz. Papai presidente reconheceu publicamente que Queiroz fazia “rolos” na Alerj. PM do Rio fazer rolos na pouquíssimo confiável Alerj seria uma forma antiga de fazer a política nova, capitão?

Ah, mas o “roleiro” agora tem o beneplácito dos procuradores fluminenses: segundo o MP, Fabrício Queiroz está doente e só vai depor com a autorização do médico. Que beleza! Bolsonaro diz que ele fazia rolos, o filho Flávio atestou como “plausível” a versão na qual nem ele mesmo deve acreditar. Mas o nada insuspeito MP do Rio entregou ao médico particular do “paciente” (palavra que vale para réu e para doente) o poder de julgar e executar sua sentença. Não é possível que o cidadão que virou o ai-jesus do Brasil inteiro considere isso legal, normal. Muito menos ético. Ou é? Sê-lo-ia nos conceitos da “nova política”?

Há, contudo, perguntas a que o MP pode responder, ainda que seja, digamos, frágil a saúde de Queiroz, a exemplo do que acontece com o coronel João Batista Lima Filho, amigão do ex-presidente Temer e protagonista do processo da alienação da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp). No tal caso rumoroso da Alerj, porém, resta uma pergunta ao MP: se Fabrício está doente, por que não convocar sua filha personal trainer, Nathalia Queiroz? Ou, quem sabe, Michelle Bolsonaro, craque em marketing político, como ficou demonstrado no parlatório do Planalto na posse do marido e, antes disso, beneficiária de depósitos do ex-assessor? Elas não estão doentes e não há como arguir que não fazem parte no rumoroso episódio, apesar da explicação do devotado esposo.

Dizem línguas ferinas da Boca Maldita, em Curitiba, que a delação de Sérgio Cabral vai tocar fogo no Judiciário e, à luz de fogueiras, mesadas ao MP serão reveladas. Pode ser, então, que venha à tona o porquê da mão leve do MP nesse até agora aparente simulacro de investigação. Tem gente aí remando com o pé dentro d’água. Só que, ao contrário do que os personagens do caso imaginam, para complicar a vida deles a imprensa não vai largar esse assunto. Apostar em esquecimento é uma atitude suicida, como também o é silêncio até agora adotado.

No fim do ano passado a Coluna do Estadão revelou, na nota Fermento, que o caminho natural é o Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf) ampliar as buscas para revelar para quem mais Fabrício Queiroz repassou o dinheiro. E o Coaf agora está sob as ordens de Moro. Segundo o ministro, a transferência do Coaf para sua pasta permitirá “o fortalecimento do órgão”, que “sofreu com redução do quadro funcional por questões circunstanciais”.

Pois é, pelo visto, Moro não vai poder fazer vista grossa, como pediu Lula ao TCU nas obras da Copa. É que no tempo do petista existia uma contaminação, uma incompetência deliberada e generalizada do aparelhamento do Estado. As agências sob a batuta dos petistas deixaram passar uma manada de elefantes, e nada fizeram: CVM, Coaf, Banco Central, só para citar algumas.

Esse assunto foi tratado em artigo que escrevi em 30 de julho de 2018 também no blog,Política sem pudor. Quem quiser reler pode fazê-lo clicando aqui.

Moro assumiu o Ministério da Justiça e agora não tem saída. Na função, terá de se preservar. Pois o Brasil tem muitos ministros e poucos heróis.

Nêumanne Entrevista 2018

Nêumanne Entrevista 2018

Trinta e seis personalidades da política, cultura, literatura, arte e dos esportes concederam entrevistas disponibilizadas no Blog do Nêumanne no Estadão e nesta Estação Nêumanne. Acesse num único link: clique aqui.

Ou clique abaixo no nome do entrevistado de seu interesse:

Marina Colasanti, José Augusto Guilhon, Márcia Lígia Guidin, José Mario Pereira , Evandro Affonso Ferreira,  GuzzoDeonísio da SilvaFernando L. SchülerJoice HasselmannJanaína PaschoalIpojuca PontesMárcia CavallariRubens FigueiredoCelso LaferJosé de Souza MartinsMary Del PrioreCláudio PortoPaulo MeloAugusto NunesRoberto LivianuLuiz Flávio GomesJosé Paulo Cavalcanti FilhoArthur Antunes Coimbra, ZicoElena LandauAfonsinhoAninha FrancoJosé Bonifácio de Oliveira Sobrinho, BoniEdmar Lisboa BachaJuca de OliveiraRoberto RodriguesMara GabrilliHeloisa StarlingJacob Pinheiro GoldbergModesto CarvalhosaAlmir PazzianottoPaulo de Tarso.

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