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Nesta quarta, no Estadão: Em busca da impunidade perdida

Nesta quarta, no Estadão: Em busca da impunidade perdida

Para manter mandato e foro, nossa casta política aposta tudo em leis em proveito próprio

De hoje, aniversário do golpe militar que “proclamou” a República, em diante, a camarilha dirigente dos negócios públicos prosseguirá em seu ingente esforço para ter de volta a impunidade que, na prática, tem gozado, mercê de foro e de outros privilégios acumulados em 128 anos legislando prioritariamente em proveito próprio.

Com a chancela de uma Constituição promulgada pelo Congresso abusado e abusivo, nossa privilegiada casta dirigente se viu imprensada na parede pelo povo, que em 2013 foi às ruas reclamar de seus maus-tratos à sociedade explorada, humilhada e espoliada. No ano seguinte, graças à renovação dos quadros de agentes concursados da Polícia Federal (PF) e de procuradores da República e juízes federais treinados para combater crimes de colarinho-branco, como lavagem de dinheiro, teve início a Operação Lava Jato,

A união de esforços de corporações divididas internamente e rivais entre si – PF e Ministério Público Federal – levou aos juízes de primeiro grau e, em consequência, às celas do inferno prisional tupiniquim, até então exclusivas de pretos, pobres e prostitutas, uma clientela, branca, poderosa econômica e politicamente e abonada (em alguns casos, bilionária). Como nunca antes na História deste país, no dizer do ex-presidente em cuja gestão a total perda de proporções e do mínimo de sensatez produziu o maior escândalo de corrupção da História, ora nos é dado ver os príncipes de grandes firmas corruptoras tomando banho de sol nos pátios das prisões.

O foro privilegiado, que reserva o julgamento de 22 mil (ou 55 mil?) otoridades (em mais um desses absurdos colapsos de estatística a serviço de meliantes de luxo) à leniência do Supremo Tribunal Federal (STF), mantém um placar absurdo de 118 condenados em primeira instância pela Lava Jato contra zero (isso mesmo, zero) apenado no último e mais distante tribunal do Judiciário. Em caso extremo e inédito, o presidente da República só pode ser acusado por delitos cometidos no exercício do cargo.

Com pânico de perder com o mandato os privilégios, a borra política nacional permitiu-se abrir mão de anéis para manter os longos dedos das mãos que afanam. Mas nestes três anos e oito meses de Lava Jato alguns fatos permitiram a seus maganões investir contra essa progressiva redução da impunidade. A chapa vencedora em 2014, Dilma-Temer, foi absolvida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por excesso de provas. E quando o leniente STF sai um milímetro da curva que interessa aos congressistas, estes logo o reduzem à posição de última defesa de suas prerrogativas de delinquir sem ser perturbados. Até Aécio, derrotado na eleição e guindado ao governo Temer, mantém-se “impávido colosso” no ninho.

Na negociação pelo impeachment da desastrada Dilma, Jucá, o Caju do propinoduto da Odebrecht, definiu “estancar a sangria” como meta de seu grupo, alcunhado pelo ex-procurador-geral Janot de “quadrilhão do PMDB”, para o comparsa Sérgio Machado, cuja delação tem sido contestada. Embora isso esteja sendo confirmado pelas Operações Cadeia Velha e Papiro de Lama, no Rio e em Mato Grosso do Sul, desmascarando os dignitários peemedebistas Picciani e Puccinelli.

Faltam provas, alegam. Mas sobram fatos. Com alguns votos tucanos e todos do Centrão, que defendeu tenazmente Eduardo Cunha, a maioria da Câmara mandou para o lixo investigações contra Temer pedidas por Janot ao STF. O presidente até agora não citou um fato concreto para se defender das acusações de corrupção passiva, obstrução de Justiça e organização criminosa, meio ano após ter sido divulgada a gravação de sua conversa com um delinquente que usou identidade falsa para adentrar o palácio. E agora se sente à vontade para trocar na Procuradoria-Geral da República, em causa própria, o desafeto Janot por Raquel Dodge, indicada pelo parceiro de convescotes em palácio Gilmar Mendes, do STF.

Caso similar é o de Fernando Segóvia, cujo currículo fala por si. No Maranhão, tornou-se comensal e afilhado do clã Sarney. E não deve ter sido a atuação de adido na África do Sul que inspirou Padilha a lutar por sua nomeação. Ao assumir, sem o aval do chefe direto, o ministro Jardim, ele prometeu mudanças “paulatinas” na Lava Jato e reconheceu que terá atuação política. Atuação política na chefia da polícia que investiga os políticos? Hã, hã! O velho Esopo diria que se trata do caso da raposa disposta a assumir a segurança do galinheiro. Mas a fábula é antiga!

Enquanto Segóvia, o “tranquilo”, assume o paulatino como pauladas em subordinados e pagantes, o chefe do governo tenta obter a própria superimpunidade por meios sibilinos. Seu advogado Carnelós pediu toda a vênia possível a Fachin para convencê-lo a desistir de encaminhar Cunha, Geddel, Henriquinho, Rodrigo da mochila e Joesley, entre outros, para a primeira instância de Moro e Vallisney. E assim evitar que surjam delitos desconhecidos em seus depoimentos ou delações dos quais o chefe não tomaria conhecimento no gozo de sua indulgência plena com data marcada para terminar: janeiro de 2019.

Na manchete do Estado anteontem, Pauta-bomba no Congresso põe em risco ajuste fiscal, a reportagem de Fernando Nakagawa e Adriana Fernandes, de Brasília, relata o perdão das dívidas dos ruralistas, depois da dispensa de multas e pagamentos de parlamentares empresários, seus sócios e compadres em outro Refis amigo. E, segundo o texto, a Lei Kandir será alterada. Sem despesas, mas com graves danos ao combate à corrupção, vêm, depois deste feriado, a lei do abuso de autoridade e a redução das punições da Ficha Limpa, só para quem a tiver violado após sua vigência. Rogai por nós!

Na adaptação da obra-prima de Proust, Em Busca do Tempo Perdido, a memória não tem o olor das madeleines, mas dos miasmas de uma República apodrecida, convenientemente distante do Brasil real, que não a suporta mais.

José Nêumanne Pinto

Jornalista, poeta e escritor

(Publicada na Pag2A do Estado de S. Paulo da quarta-feira 15 de novembro de 2017)

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Podcast Comentaristas do Jornal Eldorado: Ao estilo Cunha

Podcast Comentaristas do Jornal Eldorado: Ao estilo Cunha

Meu Direto ao Assunto abriu o Podcast Comentaristas do Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107.3 – da segunda-feira 13 de novembro de 2017 criticando a pauta-bomba do Congresso contra Temer, ao estilo de Cunha contra Dilma; a tramoia da Câmara contra a Lei da Ficha Limpa; a conspiração das centrais sindicais contra a reforma trabalhista; e o lero do diretor da Polícia Federal querendo nos engabelar. Eliane Cantanhêde comentou a pesquisa sobre conservadorismo no Brasil; e a semana paralisada no Congresso por causa do feriado. Gustavo Loyola falou do Boletim Focus e da gastança desenfreada patrocinada pelo Congresso. Em Direto da Fonte, Sônia Racy garantiu que o STF julgará ação contra o programa Mais Médicos até o fim do ano. E, em Perguntar Não Ofende, Marília Ruiz abordou a rodada do fim de semana do Brasileirão.

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No Blog do Nêumanne: Torquemada aqui e agora

No Blog do Nêumanne: Torquemada aqui e agora

O maior desafio da atualidade é preservar o direito à privacidade e à liberdade de pensar

Um dos personagens favoritos de minha pré-adolescência em Campina Grande foi o bodegueiro Joca Leite. Dono de uma tarimba (box) com mercadorias variadas à venda no Mercado Municipal da Prata, bairro onde ficava o colégio estadual, onde cursei os três anos do científico, ele tinha uma ojeriza com a qual eu simpatizava muito: sua repugnância ao fumo – fosse de rolo, cigarros, cachimbos ou charutos. Sua solução para livrar-se do mau cheiro e do mau gosto dos fumantes era singular: “Se eu fosse interventor do mundo, proibiria terminantemente esse vício miserável”. Para chegar a esse degrau na vida pública, porém, o irado comerciante nunca pretendeu ser síndico de prédio, pois, afinal, morava numa casa, nem iniciou carreira política disputando uma cadeira na Câmara Municipal. Seu antitabagismo era simpático porque se assemelhava à luta de Dom Quixote de La Mancha contra os moinhos de vento.

Não sei o que é feito de meu ídolo de pré-adolescência, mas considerando nossa abissal diferença de idade (eu tinha 15 anos e ele, mais de 60 nos anos 60), é pouco provável que permaneça no mundo dos vivos. Nunca convivi muito com ele, mas sua bazófia me veio à memória ao deparar com dois episódios de pequenas arbitrariedades do cotidiano que, entretanto, fazem parte de um perigoso delírio coletivo gerado na soma de milhões de individualismos doentios de natureza intervencionista no planeta da globalização cibernética. Refiro-me à bombástica repercussão da piada de péssimo gosto do apresentador suspenso do Jornal da Globo William Waack, transformada em motivo de seu afastamento da bancada do noticiário na Vênus Platinada. E à agressão que a filósofa americana Judith Butler, professora da Universidade da Califórnia, vinda ao Brasil para fazer uma palestra sobre a questão do gênero. Contra ela agiu a direita raivosa, cevada pela cegueira ideológica da esquerda, cujas gestões públicas federais, com seus titulares devida e legitimamente eleitos pelo povo, Lula e Dilma, provocaram a maior crise moral, política e econômica da História desta República insana e cada dia mais chata.

O calvário de Waack começou quando dois negros – o operador de VT Diego Rocha Pereira, de 28 anos, e o designer gráfico Robson Cordeiro Ramos, de 29 – vazaram vídeo e áudio em seu poder. Neles o apresentador desqualificou como “coisa de preto”, em gravação de dificílima compreensão, o buzinaço estridente e insistente de um transeunte, tirando-lhe a concentração na gravação de uma “externa” em que entrevistaria ao vivo, para o telejornal, do qual era âncora e estava ancorando dos EUA, um convidado para falar da vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais, há um ano.

Ao se identificarem em entrevista à Rádio Jovem Pan, os autores da proeza contaram que passaram um ano até divulgare, o material em rede social porque tentaram negociá-lo, mas não o lograram. Não ficou claro de que negócio se tratava. Certo é que, depois que decidiram por o vídeo e o áudio nas redes, o assunto despertou imediato interesse da rede de televisão da qual Waack é contratado e esta, dizendo-se coerente com sua postura libertária e antipreconceituosa, o afastou provisoriamente tanto do jornal do canal aberto quanto do programa semanal que tem apresentado na GloboNews, com programação exclusivamente noticiosa, ou seja, all news (tudo notícias). Argumentaram que o jornalista é racista e “ofendeu”.

É mentira. Não se pode dizer que Waack é racista só porque, numa piada infeliz e sem graça, atribuiu genericamente a um “preto” o buzinaço que atrapalhava sua entrada ao vivo na cobertura da eleição. Errar é humano, já diziam os romanos muito antigamente. E é claro que Waack errou, reconheceu o erro e pediu desculpas.

Desculpas bastam, resolvem? Isso pode ser discutível. Mas a verdade é que o deslize do profissional de comunicação foi feito em privado e, neste caso, o mínimo que se pode dizer é que ele tem, como qualquer cidadão, direito à privacidade. O delito de racismo no Brasil é grave, previsto em lei e mesmo quando a ofensa é privada será passível de punição penal se a vítima reclamar seus direitos na Justiça. Não foi o que aconteceu. Se a piada privada é racista, sua divulgação pública é que é ofensiva. Nenhum cidadão está imune a uma gravação de áudio ou vídeo num momento de intimidade e essa invasão também é passível de repulsa e condenação, tanto moral quanto penal.

Há, ainda, nesse caso, outro aspecto, o político. Os divulgadores do vídeo e do áudio privados não se identificaram como militantes políticos, mas apenas como negros atingidos pelo racismo do acusado. Mas não se pode deixar de lembrar, nesta ocasião, que o maior líder da esquerda brasileira, Luiz Inácio da Silva, é pródigo em piadas contra mulheres (“grelo duro” é apenas a mais grosseira), homossexuais (“Pelotas exporta viados”) e machistas. Feministas e militantes homossexuais de esquerda nunca cobraram dele desculpas. Isso, contudo, importa menos, de vez que  Waack, personagem do caso, se desculpou.

Mas Waack não está sendo crucificado por ser racista. Não conheço – e até agora não apareceu nenhum registro – manifestações do apresentador afastado do Jornal da Globo de grosserias do gênero em seus textos, suas intervenções nos debates do programa Painel, que apresentava, ou em palestras e outros eventos públicos de que tenha participado.

Quanto a esse particular, Pitigrilli tornou famosa sua afirmação de que “toda pessoa tem seus cinco minutos diários de imbecilidade. A diferença entre as pessoas brilhantes e as demais é que, em seus minutos de imbecilidade, os brilhantes ficam quietos.” No caso de Waacl, ele teve alguns segundos de imbecilidade e sua crucificação nu em praça pública por militantes da intolerância, nestes tempos de fogueiras da inquisição na internet, é tirânica, absurda, injusta e cruel. Acontece que Waack não está sendo exposto e maltratado por ser racista, mas por ser um jornalista independente. E também por seu talento. Os medíocres organizados e que formam quadrilhas de detratores nas redes sociais não perdoam um profissional brilhante, independente, que exerce aquela frase famosa de Millor Fernandes, segundo quem livre pensar é só pensar. Reputo Waack como o jornalista mais competente de nossa geração e um correspondente de guerra comparável ao mitológico Joel Silveira.

Na condição de jornalista independente, sem ter procuração para defender o profissional, homenageio os colegas José Roberto Guzzo, Augusto Nunes e Reinaldo Azevedo, que tiveram a coragem de vir a público denunciar esses novos Torquemadas, fascistinhas de esquerda e de direita que não toleram a convivência pacífica e não perdoam os erros alheios por menores e menos relevantes que sejam, embora sejam muito condescentes com a cafajestice de seus ídolos particulares. O palpite infeliz do apresentador só foi levado ao público pela atitude clandestina, covarde e oportunista de seus detratores.

Torquemada também inspirou o lamentável episódio protagonizado pela autora do livro Problemas do Gênero – Feminismo e Subversão da Identidade, publicado em 1990, mas que não a tornou propriamente conhecida no Brasil. Eu mesmo nunca tinha ouvido falar nela. Ao contrário de muitos que protestaram contra a queima de um boneco de bruxa com o rosto da filósofa na frente do Sesc Pompeia, onde ela fez sua palestra, apesar dos protestos. Teria muito a reclamar se a palestra tivesse sido cancelada por causa do ódio sem motivo que ela despertou. A queima da boneca de bruxa não a feriu, da mesma forma que seus livros, suas aulas e sua militância no movimento gay (e mesmo na ideologia de gênero) não prejudicaram ninguém. Somente impulsos fascistoides e psicopatológicos e manifestações de loucura ideológica podem explicar, embora nunca justifiquem, a atitude absurda de uma manifestante que tentou agredi-la e deu um tapa numa mulher que se prontificou a protegê-la no Aeroporto de Congonhas, quando ela já havia embarcado no avião.

Essa queima de bruxas pode ser tão inofensiva como as fogueiras de Judas na brincadeira de Sábado de Aleluia. Desde que não venham acompanhadas de agressões físicas nem de interferências indesejáveis na carreira de um profissional que só pode ser acusado de não ser uma vaquinha de presépio dos Torquemadas de sempre, aqui e agora.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, na segunda-feira 13 de novembro de 2017)

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Estadão às 5: Chantagistas levianos

Estadão às 5: Chantagistas levianos

Vingando-se de Temer, mas sem atingirá o presidente e, sim, o povo, o Congresso Nacional desenterra velhos projetos para dar prejuízos ao erário e, asso,m, forçar a barra para o governo não cumprir a meta bilionária do déficit fiscal, demonstrando sua irresponsabilidade com o País. Só que isso não chega a ser surpreendente: Eduardo Cunha também aplicou esse truque sujo com Dilma, usando exatamente os mesmos fiéis súditos do Centrão, que agora cobram a fatura de seu apoio fisiológico à decisão da maioria absoluta da Câmara que não autorizou a abertura de investigação pelo Supremo do chefe do governo, pedida pelo ex-procurador Janot. Este foi o principal tema do Estadão às 5, programa ancorado por Emanuel Bomfim, com comentários meus, levado ao ar pela TV Estadão no estúdio no centro da redação do jornal e retransmitido pelas redes sociais Youtube, Twitter, Periscope Estadão e Facebook, na segunda-feira 13 de novembro, às 17 horas.

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Resenha no Aliás, do Estadão: O mártir que morreu três vezes

Resenha no Aliás, do Estadão: O mártir que morreu três vezes

Livro relata a saga de Che Guevara, morto em Cuba, Congo e Bolívia

A paixão assemelha-se a um farol sobre um penhasco cuja iluminação provém de fogo vindo do mais imo do núcleo da Terra. No mar revolto o náufrago pode encontrar nele o rumo da pedra que evite seu afogamento ou, se olhar fixo em sua direção, perder a rota e afundar no pélago. Foi com esse pensamento entre luminoso e tétrico que dei por finda a leitura de As Três Mortes de Che Guevara, de Flávio Tavares.

Final. Corpo do guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara exposto publicamente em 10 de outubro de 1967, em Vallegrande, na Bolívia

Final. Corpo do guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara exposto publicamente em 10 de outubro de 1967, em Vallegrande, na Bolívia

Só a biografia do autor já recomenda vivamente a leitura. Tavares é um jornalista competente e provado nas batalhas da reportagem cotidiana. Pousou em território mexicano por circunstâncias fortuitas: militante da esquerda armada, sob a égide do socialismo moreno do caudilho Leonel Brizola, também ele gaúcho, foi preso, condenado e torturado nas masmorras da ditadura militar até ter seu nome contemplado entre os guerrilheiros trocados pela vida do embaixador americano Charles Elbrick,  sequestrado por um grupo de românticos aventureiros da Dissidência do Partido Comunista Brasileiro na Guanabara, com a ajuda e as armas da Aliança Libertadora Nacional (ALN). Embarcou apátrida para Cuba e de lá foi para o México, onde iniciou carreira bem-sucedida de correspondente internacional do jornal Excelsior, fixando-se depois em Buenos Aires, de onde também produziu reportagens como correspondente deste Estado. De sua experiência nos porões da ditadura brasileira extraiu uma obra-prima da literatura da saga guerrilheira, Memórias do Esquecimento, cujo primoroso estilo foi chamado de “Notas de Subterrâneo, de Dostoievski, na América do Sul”, pelo argentino Ernesto Sábato, de inconteste autoridade em matéria de prosa. E não se trata de um elogio descabido.

Com esse cabedal, o autor escreveu Meus 13 dias com Che Guevara, deixando claro desde então que, se Brizola era seu chefe, seu herói era o argentino que conhecera numa reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA) em Montevidéu, em 1961. Ao conhecimento e ao currículo o autor acresceu uma ideia-mãe genial, ao propor o relato das três mortes do mártir-mor da esquerda nos anos 60. A primeira ocorrera em Havana, quando o velho amigo e companheiro de Sierra Maestra Fidel Castro se viu obrigado a se livrar dele para não criar mais problemas com o patrão soviético, que Che havia preterido em prol do inimigo chinês. A segunda se deu no Congo, uma aventura suicida e surrealista em busca de um ideal perdido no continente africano. A terceira, e definitiva, teve lugar num ermo perdido dos Andes bolivianos, onde foi executado. Desde então, sua imagem passou a ser confundida com a do Cristo morto, quadro de Mantegna exposto na Pinacoteca de Brera, em Milão, repetido na imagem da máscara mortuária do guerrilheiro abatido na selva sul-americana.

Alusão. ‘Lamentação sobre o Cristo Morto’ (1475-78), de Mantegna. PINACOTECA DE BRERA/MILÃO

Alusão. ‘Lamentação sobre o Cristo Morto’ (1475-78), de Mantegna. PINACOTECA DE BRERA/MILÃO

Ao longo da narrativa o fogo da paixão de Tavares alumiou o naufrágio de Che Guevara relatado num estilo literário irretocável. Mesmo um leitor afeito à descrição do mártir como um assassino serial bruto e implacável, que Guevara também foi, não se pode queixar em minuto algum da narrativa em que o romantismo da fé se mistura  com a decepção do devoto com a teimosia de “fé cega, faca amolada” do protagonista. Este recusou conselhos sábios de guerrilheiros africanos e nunca pareceu perturbar-se com as evidências de que o velho companheiro Fidel Castro o condenaria à morte para se livrar do estorvo vivo. E, ato contínuo, aproveitar-se de sua transformação em ícone eterno de uma revolução que trocara o romantismo pela boçalidade, investindo na hagiografia de um companheiro sacrificado pela causa comum.

Foto de arquivo. Estadão.

Foto de arquivo. Estadão.

O capítulo sobre o Congo poderia servir de roteiro para um filme de aventuras à feição de Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, talvez mais atraente do que a produção sobre a viagem de motocicleta do herói quando jovem. A estupidez inimaginável de nunca ter percebido que caíra numa armadilha quando, tendo aprendido quéchua, foi abandonado numa remota região boliviana em que se falava guarani poderia servir de inspiração a Jorge Semprún, autor do romance A Segunda Morte de Ramón Mercader, em cujo título Tavares se inspirou.

As Três Mortes de Che Guevara provoca uma leitura apaixonante por tudo o que há de verdade e emoção na vida de um líder que alcançou o poder por caminhos improváveis e encontrou a morte pela obstinação cega e inconsequente de um espírito aventureiro, rebelde e autocomplacente.

José Nêumanne Pinto

  • Jornalista, poeta e escritor

Print da página do Aliás, do Estadão.

Resenha publicada  no caderno Aliás no Estadão, em 12 de novembro de 2017.

Podcast Comentaristas do Jornal Eldorado: PSDB em farelos

Podcast Comentaristas do Jornal Eldorado: PSDB em farelos

Meu Direto ao Assunto abriu o Podcast Comentaristas do Jornal Eldorado da sexta-feira 10 de novembro de 2017 na Rádio Eldorado – FM 107,3 – comentando a destituição de Tasso em mais um vexame de Aécio; a tentativa de Temer de perpetuar seu superforo privilegiadíssimo de presidente; o golpe do Congresso contra a lei da ficha limpa; e o grotesco episódio da suspensão de William Waack pela Globo. Eliane Cantanhêde abordou a destituição na marra de Tasso por Aécio, agradando ao Planalto e aumentando o racha no PSDB, sem Alckmin ter visto, ouvido nem sabido; e também do empurra-empurra: quem vai liderar reforma da Previdência, Temer ou Rodrigo Maia? Alexandre Garcia falou sobre a reforma da Previdência pela metade e a destituição de Tasso por Aécio no PSDB; e fez uma consideração sobre soberania e fronteiras. Em Direto da Fonte, Sonia Racy contou que Alckmin convidou Pedro Parente para almoçar, sem pauta definida. E, em Perguntar Não Ofende, Marília Ruiz descreveu a situação do Egídio no Palmeiras.

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