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No Blog: Nêumanne entrevista José de Souza Martins

No Blog: Nêumanne entrevista José de Souza Martins

Polarização de extremos será rejeitada pelo eleitor, diz sociólogo

O professor José de Souza Martins acha que candidatos indicam que “o mesmo de sempre prevalecerá”, mas o eleitor rejeitará polarização entre extremistas

“A enorme competência teatral de Lula acobertou a incompetência política do partido para se sobrepor a interesses que contrariavam sua ideologia e seus compromissos com as bases populares”, disse o sociólogo José de Souza Martins, protagonista da série Nêumanne Entrevista da semana. Para ele, “o PT se empenhou em dividir o Brasil até o ponto extremo de dividir famílias, destruir amizades, inviabilizar harmonias, até mesmo distanciar pais e filhos. No Brasil do PT, hoje, só existe lugar para quem subscreve tanto a ideologia quanto os atos do PT e do petismo”. Por outro lado, o ex-docente da USP que lecionou em Cambridge, Universidade da Flórida e Lisboa, constatou que “não houve um gesto do governo Temer que de fato se orientasse para a prática da justiça social, a começar do enquadramento, no mesmo rigor que vitimou quem trabalha, dos privilegiados dos três Poderes”. E previu que, com a rejeição aos extremistas nas urnas, haverá “uma reproposição do centro-esquerda como eixo do processo político brasileiro”.

José de Souza Martins em lançamento de livro de Celso Lafer, seu colega na Academia Paulista de Letras. Foto: Silvana Garzaro/Estadão

José de Souza Martins em lançamento de livro de Celso Lafer, seu colega na Academia Paulista de Letras. Foto: Silvana Garzaro/Estadão

José de Souza Martins é doutor em Sociologia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, de que foi docente e professor titular. Foi professor visitante da Universidade da Flórida (EUA) e da Universidade de Lisboa. Em 1992 foi eleito professor da Cátedra Simón Bolívar da Universidade de Cambridge (Inglaterra) para o ano acadêmico de 1993-1994 e fellow do Trinity Hall. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão (Genebra, 1996-2007). Coordenador pro bono da Comissão Especial da Secretaria de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, em 2002, que elaborou o Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, é autor de A Política do Brasil Lúmpen e Místico (Contexto) e de Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder (Contexto). É colaborador semanal do suplemento Eu & Fim de Semana, do jornal Valor Econômico.

osé de Souza Martins ministra aula prática, de rua, para os alunos do Curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia da USP, na vila ferroviária de Paranapiacaba, no Alto da Serra (SP), em 1999. Foto: Acervo pessoal

José de Souza Martins ministra aula prática, de rua, para os alunos do Curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia da USP, na vila ferroviária de Paranapiacaba, no Alto da Serra (SP), em 1999. Foto: Acervo pessoal

Nêumanne entrevista José de Souza Martins

Nêumanne – No começo do século 21, durante o primeiro governo Lula, o Brasil vivia um tempo de bonança e paz, com pleno emprego, políticas sociais a todo vapor, reservas internacionais bombando e inflação sob controle. Tudo parecia ir às mil maravilhas. Mas, no fundo do cenário, o ovo da serpente – um escândalo de corrupção inédito na História, mais tarde revelado nos casos mensalão e petrolão – ameaçava essa calmaria. Até que ponto a rapina generalizada foi responsável pela crise ética, financeira, econômica, política e social que reverteu tudo do melhor para o pior dos mundos?

 José de Souza Martins – O “melhor dos mundos” estava sendo minado pela crise econômica internacional. Não obstante, o governo Lula beneficiou-se do legado do governo de FHC. Não concretizou grandes avanços sociais nem protagonizou reformas sociais e políticas inovadoras. Conseguiu manter sob tênue controle as adversidades econômicas da população mais pobre. A superficialidade de suas medidas revelou-se no súbito declínio das condições de vida dos que teriam sido, e não foram, elevados à condição de uma nova classe média. Além disso, a corrupção que se seguiu mostrou que esse governo só conseguiu sobreviver consorciando-se com o que havia de pior na política brasileira, na da troca de favores. O governo Lula, no entanto, conseguiu evitar que chegassem à superfície os graves problemas sociais que se precipitaram no governo Dilma e no governo Temer.

Martins visita Aparecido Galdino Jacinto, trabalhador rural e preso político, durante 9 anos recolhido ao Manicômio Judiciário do Juqueri, no início da campanha por sua libertação, em 1979. Foto: Acervo pessoal

Martins visita Aparecido Galdino Jacinto, trabalhador rural e preso político, durante 9 anos recolhido ao Manicômio Judiciário do Juqueri, no início da campanha por sua libertação, em 1979. Foto: Acervo pessoal

N – Em 2013, a insatisfação da grande maioria da população levou o povo às ruas num movimento de revolta popular que, pelo menos à época, parecia ser inédito na História do Brasil. No entanto, nada de que o povo se queixou nas ruas foi modificado em profundidade e, no fim, o poste escolhido por Lula e pelo PMDB de Temer, Dilma Rousseff, ganhou a eleição mais fraudada da História e que ainda receberia o aval da Justiça Eleitoral. Por que aconteceu isso tudo dessa forma, em sua opinião, professor?

J – Vejo a situação daquele momento de um modo diferente. A grande maioria da população não foi à rua. Aquela parte que foi à rua o foi dividida e polarizada. A única diferença em relação a momentos anteriores da história do petismo foi a de que cresceu significativamente o número de brasileiros dispostos a manifestar descontentamento com o governo e com o petismo. A população começou a distinguir o petismo de um lado e Lula de outro.

Embora Temer tivesse sido eleito na mesma chapa de Dilma, ao chegar ao poder não foi fiel ao programa subscrito pelos dois em nome do acordo político do PT com o PMDB. Promoveu uma ruptura do acordo. A população que foi à rua contra Dilma e o PT não o foi para se manifestar a favor de Temer e muito menos de uma ruptura com o PT por meio de Temer. Neste ano, os dados indicam uma rejeição quase absoluta de Temer, ao mesmo tempo que indicam uma opção eleitoral tão acentuada por Lula que não há como não entender que as manifestações de 2013 foram contra o governo Dilma, contra o fato de ele ter abandonado itens referenciais das lutas subscritos por seu partido.

Capa do livro Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder (Contexto, 2016), que reúne artigos de acompanhamento das conjunturas e crises do partido desde 2002, publicados no Estado. Foto: Acervo pessoal

Capa do livro Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder (Contexto, 2016), que reúne artigos de acompanhamento das conjunturas e crises do partido desde 2002, publicados no Estado. Foto: Acervo pessoal

As manifestações de rua foram muito mais para contestar a incompetência política de Dilma, que, por sua vez, fez acordos políticos que os apoiadores do partido nunca aceitariam, como o apoio ao agronegócio, a interrupção da reforma agrária e o abandono da política indigenista. O crescimento do desemprego e o agravamento dos problemas sociais solaparam bases importantes do apoio ao petismo.

N – O impeachment de Fernando Collor de Mello não abalou a democracia, apesar de ter deposto logo o primeiro presidente eleito pelo voto direto desde 1960. A seu ver, o mesmo processo de descontinuidade que interrompeu o segundo mandato de Dilma Rousseff na metade – depois daquele círculo virtuoso que foi o tema da primeira pergunta que lhe fiz –  deu início a este mar de tormentas em que o País parece naufragar agora?

J – A crise que vem até nós começou mais cedo, com o mensalão. O PT e o governo Lula foram engolidos pela política de coalizão, perderam as referências de partido da ética, a grande bandeira do petismo e do próprio Lula, e entraram no regime da troca de favores e da opção do poder pelo poder. Lula até mesmo temeu não ser reeleito em 2006. E só o foi devido ao apoio dos grupos de Igreja e à lealdade das bases no Brasil remoto e na periferia. As descobertas do mensalão e da Lava Jato mostraram conexões do PT com o que havia de pior na política brasileira, as oligarquias e a troca de favores. As mesmas práticas que levaram ao impedimento de Collor já indicavam os fatores persistentes do que se poderia chamar de crise da Nova República, como a batizou Tancredo Neves. Ela culmina com o impedimento de Dilma. Com Lula e Dilma o PT mostrou que não tinha condições de se insurgir, em nome de uma opção propriamente social, contra os vícios do sistema político brasileiro. A enorme competência teatral de Lula acobertou a incompetência política do partido para se sobrepor a interesses que contrariavam sua ideologia e seus compromissos com as bases populares. Por outro lado, há a distância enorme de uma geração inteira entre a eleição de Lula, em 2002, e os movimentos de rua de 2013. O abismo de gerações vitimou o PT, que não conseguiu manter erguida a bandeira da justiça social, acima das desigualdades crescentes.

Na Flip de 2004, em Paraty, como debatedor da obra do escritor Ferrez, com Zuenir Ventura e Flávio Pinheiro. Foto: Acervo pessoal

Na Flip de 2004, em Paraty, como debatedor da obra do escritor Ferrez, com Zuenir Ventura e Flávio Pinheiro. Foto: Acervo pessoal

N – Depois do impeachment de Dilma Rousseff, eclodiu a situação crítica que levou à amargura do desemprego, afligindo 13 milhões de lares brasileiros, e, acima de tudo, da desilusão, que, segundo o IBGE, agora tortura 24 milhões de nossos trabalhadores. Até que ponto, a seu ver, esse fel envenena as relações sociais entre patrícios, criando a luta fratricida que se tornaram a política, as relações sociais e até familiares, nas batalhas retóricas das redes sociais e das tribunas públicas?

J – O desemprego já vinha crescendo. As opções de política econômica do PT, surpreendentemente, não conseguiram se orientar por valores social-democráticos, nosso máximo de opção política socialmente transformadora, associando desenvolvimento econômico e desenvolvimento social. Ao mesmo tempo, o PT e Lula,em particular, empenharam-se em encontrar no PSDB um bode expiatório na fakenews do que chamaram de herança maldita. O PT se apresentou como vítima da crise que, na verdade, ele próprio protagonizara. Com isso recusou-se a, ou não se revelou capaz de, abrir uma frente de salvação nacional, uma coalizão verdadeira, que levasse a um pacto capaz de assegurar a unidade nacional. O PT se empenhou em dividir o Brasil até o ponto extremo de dividir famílias, destruir amizades, inviabilizar harmonias, até mesmo distanciar pais e filhos. No Brasil do PT, hoje, só existe lugar para quem subscreve tanto a ideologia quanto os atos do PT e do petismo.

N – Vivemos hoje sob a égide do vice eleito na chapa de Dilma, Michel Temer, que se tornaria, depois do impeachment da titular, o mais impopular presidente de nossa História. Suas tentativas de equilibrar as contas públicas goraram no debate parlamentar e a falta de perspectivas da quase totalidade da população desassistida do Brasil dificulta a busca de saídas viáveis tanto na economia quanto na política. No que falharam, a seu ver, os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário na criação desse nó górdio?

J – Falharam completamente quando decidiram impor uma reforma econômica e trabalhista que pune a vítima, aquele que trabalha e carrega nas costas a economia do País. Não houve um gesto do governo Temer que de fato se orientasse para a prática da justiça social, a começar do enquadramento, no mesmo rigor que vitimou quem trabalha, dos privilegiados dos três Poderes.

No Palácio da Alvorada, em 2002, como coordenador da Comissão Especial do Ministério da Justiça que preparou o Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil e do Trabalho Escravo, e sua entrega ao presidente Fernando Henrique, acompanhado do secretário dos Direitos Humanos, Paulo Sérgio Pinheiro. Foto: Acervo pess

No Palácio da Alvorada, em 2002, como coordenador da Comissão Especial do Ministério da Justiça que preparou o Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil e do Trabalho Escravo, e sua entrega ao presidente Fernando Henrique, acompanhado do secretário dos Direitos Humanos, Paulo Sérgio Pinheiro. Foto: Acervo pessoal

N – A chamada Ação Penal 470 no Supremo Tribunal Federal transmitiu à população a sensação de que, enfim, os “donos do poder”, definidos por Raymundo Faoro, estavam sendo punidos. A Operação Lava Jato trouxe a lume a ação da polícia, dos procuradores e dos juízes federais de primeira instância, que, ao apenar empreiteiros, entre os quais o maior de todos, Marcelo Odebrecht, e figurões da política, entre eles o mais popular, Lula, pôs fim à trágica constatação de que só pretos, pobres e prostitutas conheciam a realidade de nosso inferno prisional. Confirmado na segunda instância, esse combate à corrupção na política e na administração pública parece minguar na cúpula do Judiciário e pelo poder dos dirigentes partidários em geral. O senhor acha que ainda é possível que o resultado da eleição pelo menos mine essa sabotagem dos poderosos e privilegiados ou teremos de esperar a próxima eleição ou a próxima geração?

J – O número de vítimas da ordem econômica iníqua e mal administrada é extenso, não tem cor nem condição social. Os movimentos de rua de 2013 foram movimentos da classe média, a mais ameaçada pelo petismo e mais indignada com os problemas sociais que se espalharam por todo o País, independentemente de classes sociais. O fato de que não tenha sido feita uma verdadeira reforma política deixou o povo brasileiro sem canais de mediação representativos para expressar nestas eleições não só descontentamento, mas, sobretudo,vontade de mudança política em direção a outra orientação doutrinária, diversa das que têm prevalecido. O quadro das candidaturas ao Legislativo e aos governos de Estado indicam que o mesmo de sempre prevalecerá. E que o novo governo não terá nem meios nem vontade de propor uma grande e radical reforma de nossa representação política defeituosa, injusta e conservadora.

N – Na condição de intelectual e, sobretudo, como acadêmico respeitado, como o senhor reagiu à notícia de que toda a memória histórica e cultural e todo o conhecimento científico amealhados em 200 anos de existência do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, arderam? A quem o senhor atribui maior responsabilidade por aquela catástrofe anunciada?

– Visitei o Museu Nacional pela primeira vez em 1955, quando me iniciava como pesquisador autodidata. Ví, com emoção, as coleções etnográficas e o meteorito do Bendengó, que só conhecia de fotografias em livros. E lá voltei muitos anos depois, já professor da USP, para fazer um seminário sobre meu livro O Cativeiro da Terra. A mesma emoção que tivera quando visitei pela primeira vez, em 1947, ainda criança, o Museu do Ipiranga, uma visita que me pôs diante das possibilidades da vida intelectual.

O que aconteceu no Rio apenas confirma o que nos meios intelectuais há muito se desconfiava, o risco de desastres nos edifícios que abrigam instituições culturais, por imprópria ou nenhuma manutenção. O Estado brasileiro nunca teve grande respeito por essas instituições e os governantes nunca entenderam corretamente a função cultural e social dos museus. Nem a importância da memória social de que são abrigo em sua função de referência de nossa concepção de pátria e de nossa identidade como povo e nação. No geral, nossos políticos têm mais apreço pelas caríssimas quinquilharias de seus privilégios do que pelos signos de referência da representação política que nos usurparam. A responsabilidade é do governo, mas é também de todos nós. Se excluíssemos das nossas opções eleitorais aqueles que não são animados pela consciência de pátria e pelo respeito à memória da pátria, diminuiríamos riscos como esses.

Capa do livro A Sociabilidade do Homem Simples, lançado por José de Souza Martins pela Hucitec no ano 2000. Foto: Reprodução/Divulgação

Capa do livro A Sociabilidade do Homem Simples, lançado por José de Souza Martins pela Hucitec no ano 2000. Foto: Reprodução/Divulgação

N – O que de positivo, na sua opinião,  se poderá extrair de eleições gerais cujos principais expoentes são Lula, condenado, preso e, por isso, inelegível, e Bolsonaro, ocupante de um leito de unidade de terapiaintensiva, vitimado por um ataque desferido pela intolerância com trágicas consequências para o Estado de Direito?

J – No meu modo de ver, nem Lula prisioneiro, em cumprimento de sentença por crime comum, nem Bolsonaro, ferido injustamente e hospitalizado, são referências apropriadas para avaliação das eleições presidenciais deste ano. Não é a condição de cada um que define o cenário da eleição. A prisão de Lula não lhe tolheu a influência eleitoral. A hospitalização de Bolsonaro não encolheu a eficácia de sua candidatura. Lula influenciará os resultados da eleição por meio das contradições e dos legados de sua biografia política. Muita gente votará pensando em Lula ou porque o quer influente, ou porque rejeita sua influência. Bolsonaro, de biografia bem mais pobre que a de Lula, carrega muito mais contradições do que o ex-presidente da República. Nem por isso representa o fracasso do momento político. Sua liderança nas pesquisas de opções eleitorais é muito indicativa de que os brasileiros estão à procura de um candidato diferente em relação a nomes consagrados. Há certo cansaço político que se reflete nas escolhas desse nome.

De positivo, nestas eleições, parece-me que será a recusa da polarização dos extremos ideológicos e políticos. Nesse sentido, uma reproposição do centro-esquerda como eixo do processo político brasileiro.

N – O que o senhor espera das investigações policiais e judiciais dos três atentados históricos deste ano: a execução de Marielle Franco e Anderson Gomes no Estácio, o tiro contra o ônibus da caravana de Lula numa estrada do Paraná e a facada desferida no candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro, em Juiz de Fora? Será que polícia, Ministério Público e Justiça realmente desvendarão a verdade sem máscaras nem fantasias e, assim, produzirão o efeito benéfico necessário no clima político nacional?

J – Em princípio, deve-se esperar que a justiça será feita. Não posso julgar a Justiça, em casos como esses,se o rito judicial ainda não se consumou.

No Palais Wilson, em Genebra, em 2002, na reunião da Junta de Curadores das Nações Unidas contra as Formas Contemporânea de Escravidão com o embaixador Sérgio Vieira de Mello, que seria assassinado pouco tempo depois, num atentado terrorista no Iraque. Foto: Acervo pessoal

No Palais Wilson, em Genebra, em 2002, na reunião da Junta de Curadores das Nações Unidas contra as Formas Contemporâneas de Escravidão com o embaixador Sérgio Vieira de Mello, que seria assassinado pouco tempo depois, num atentado terrorista no Iraque. Foto: Acervo pessoal

N – Até que ponto chegamos agora, a seu ver, ao fundo do poço e, ao mesmo tempo, ao local exato da inflexão, que seja capaz de interromper o círculo vicioso e permitir a reconstrução da estrada institucional que nos leve de volta ao clima de bonança e aparente fartura de 15 anos atrás?

J – Não sei se já chegamos ao fundo do poço. Sem dúvida, o momento é crítico. A crise certamente ainda terá desdobramentos no próximo governo. O maior indício nesse sentido é o de que nenhum dos candidatos com mais probabilidade de chegar ao poder, nem os respectivos partidos, tem um projeto político para o Brasil nem tem programas de superação de nossas contradições e nossos impasses. Estão dominados por teses de reiteração do que já é conhecido e até mesmo de retorno a momentos da história política brasileira que tiveram avanços, mas também contradições e recuos.

Assista aos vídeos.

Perfil com Renata Lo Prete.

Jornal da Gazeta, Ropolpho Gamberini

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Nêumanne entrevista José de Souza Martins. 22ª edição da Série 10 Perguntas.

Nêumanne entrevista José de Souza Martins. 22ª edição da Série 10 Perguntas.

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No Blog do Nêumanne: Democracia apunhalada

No Blog do Nêumanne: Democracia apunhalada

Tentativa de assassinar candidato à Presidência não pode ser tratada como ato insano de ‘lobo solitário’, pois é, de fato, atentado contra liberdade e direito de discordar e disputar eleição

O servente de pedreiro Adélio Bispo de Oliveira, mineiro, 40 anos, tem, como todo brasileiro, liberdade para, em nome dos ideais que o levaram a filiar-se ao PSOL e depois desfiliar-se, discordar de todos quantos não professem sua fé revolucionária e, no limite total, insultar quem dele discorde. Mas qualquer bebê de colo tem plena noção de que não lhe assiste autorização da sociedade para, munido de uma arma branca, ferir e tentar matar quem não comungue de seus ideais revolucionários e antidemocráticos. Ao fazê-lo, atentou contra o maior bem de que dispõe qualquer ser humano, a vida. Só que fez muito mais: cometeu um grave crime político de lesa-liberdade contra o Estado de Direito, que assegura a todos, sem exceção, permissão para pensar, empreender, expressar-se, concordar ou discordar e seguir qualquer credo religioso ou partidário.

O que aconteceu no fim da tarde de quinta-feira 6 de setembro em Juiz de Fora (MG) foi a terceira ocorrência criminal grave na política brasileira neste ano de sangue, ódio e medo. O primeiro teve lugar em 14 de março no centro do Rio de Janeiro e nele foram vitimados a vereadora do PSOL Marielle Franco e o motorista, Anderson Gomes, executados a balaços de um fuzil automático usado por atiradores até agora não identificados, que passavam num carro ao lado do ocupado pelos baleados. Em 27 de março, 13 dias depois, um atirador até agora não identificado pela autoridade policial – Polícia Rodoviária Federal (PRF), Polícia Civil do Paraná ou Polícia Federal (PF) – alvejou com um revólver um ônibus da caravana que seguia o pretendente à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT). E Jair Bolsonaro, deputado federal pelo Partido Social Liberal (PSL) disputando idêntico posto, foi esfaqueado, sobreviveu e está internado em estado gravena Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, depois de ter sido submetido a uma laraparoscopia na Santa Casa de Misericórdia na cidade onde foi ferido.

Tudo o que se conhece sobre autorias ou motivação dos três crimes, todos graves, embora cada um com sua natureza específica, é o que tem sido dito em evidentes platitudes ou em desinformação declarada, de forma leviana e sem base em nada de concreto, pelo ministro extra extra ordinário da Segurança Pública, Raul Jungmann. Nada do que foi “informado” pela autoridade máxima responsável pela “insegurança” nacional serve para uma nota de pé de página num compêndio de História do Brasil. Ele revelou detalhes vagos sobre suspeitas dos assassinos até hoje desconhecidos do massacre no Rio. Considerou “inaceitável” o tiro que acertou a lataria do ônibus de devotos de Lula e não feriu ninguém. Agora, enquanto seus subordinados da PF ainda investigavam a participação de eventuais cúmplices do agressor do candidato que concorre de verdade em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto e também em rejeição, o chamou de “lobo solitário”. Como rezava o samba-canção, “e daí, e daí?”.

Da execução do Rio, do tiro disparado na estrada entre Quedas do Iguaçu e Laranjeiras do Sul, no Paraná, e da punhalada na democracia no interior de Minas, por enquanto, o público interessado só conhece o que a incompetência proverbial dasPolícias Civis e Federal em matéria de investigação de crimes contra a vida autoriza: a autoria desconhecida nos dois primeiros casos e questões não respondidas no outro. A execução de Marielle e Anderson abriu a temporada das conjecturas oportunistas da guerra política em ano de campanha. A esquerda mendaz preferiu elegê-la mártir da revolução, em vez de mobilizar sua artilharia contra a incompetência das polícias do Rio e da intervenção militar na Segurança do Estado, todos incapazes de resolver um crime cujos autores deixaram óbvios vestígios. A direita infame preferiu satanizar a vítima, como se ela tivesse disparado os projéteis, e não sido o alvo deles. E recorreu a crimes similares contra cidadãos anônimos, como se uns justificassem o outro, critério estúpido, desumano e inócuo. Enquanto Jungmann anunciava à Nação que milicianos suspeitos estavam sendo investigados e seu chefe, o presidente Temer, comemorava o êxito da operação incapaz de resolver um crime de repercussão internacional, os brasileiros com um mínimo de inteligência e pundonor choravam a própria sorte, entregue a essa gente incapaz e mentirosa. A viúva de Marielle, Mônica Benício, contou, pasme, que só neste fim de semana a polícia lhe pediu a senha do telefone da vítima para investigar suas chamadas. Cinco meses depois do crime…

Assim como na chacina do Estácio, berço das estripulias dos sambistas de antanho fugindo de chefes da polícia, o tiro no ônibus da caravana de Lula continua sem explicação das autoridades policial e judicial que esclareça mais do que os exames periciais divagando sobre o ângulo geométrico do cano da arma que disparou ou a solução do enigma da velocidade com que o ônibus se movia (ou não) quando foi alvejado. Jungmann decretou-o “inaceitável”. Mas até agora a evidência que salta do episódio, que pelo menos não deixou vítimas, é que a chefia dos policiais encarregados da investigação, passando pelo autor do truísmo, “aceita”, sem exigir explicação nenhuma, a inépcia de seus subordinados. Enquanto isso, os ditos “pescadores em águas turvas” põem a imaginação para funcionar apontando para os inimigos que teriam atirado, no mínimo, para assustar os peregrinos do lulismo. Ou para devotos do padim, que teriam atirado para adicionar cheiro de pólvora à teoria da perseguição imaginária com que vendem a militantes crédulos do Brasil e do mundo a fancaria hagiológica de que, além de carismático, seu líder é mártir dos exploradores de sempre, só por ser bom para pobres e desvalidos.

A vítima da tentativa de assassinato em Juiz de Fora correu risco de morte, está viva, grave, em estado grave, mas bem na UTI em São Paulo. Em princípio, ele foi beneficiado pela multiplicação automática de horas em copiosa cobertura no noticiário da campanha. Sua cota no horário no rádio e na televisão é de 9 segundos e ele passou a ocupar o noticiário (e não os comerciais) em minutos que superam muito os dos campeões do PSDB e do PT. Mesmo quando tiver saído do hospital e continuado a campanha, a audiência da grade da programação e a leitura das páginas nobres dos meios da comunicação produzirão em seu favor mais efeitos do que a soma do tempo no horário da propaganda de todos os seus adversários. Se prevalecer a experiência de que a comiseração é um elemento forte de simpatia e até apoio na política, é provável que o atentado possa beneficiá-lo na disputa. A retirada da propaganda agressiva do campeão do tempo e das iniciativas estúpidas, Geraldo Alckmin, do PSDB, já poderá favorecê-lo duplamente: por ter sido insultado na propaganda do adversário, ao mesmo tempo que era ferido de morte por um inimigo ideológico, teve reduzida sua altíssima rejeição.

A PF teria muito a explicar ao chefe Jungmann, se este estivesse interessado em explicações. A facada é uma imperdoável falha de segurança. A oportunidade para se redimir dela será dada por uma investigação completa, isenta e transparente do crime. Há dúvidas que estão aí para ser dirimidas. Quem pagou as aulas de Adélio numa academia de tiro onde praticavam os filhos da vítima, na distante Santa Catarina? Que generoso cliente paga a um quarteto de advogados grã-finos para defender a tese oportuna de que ele é doido, agiu sozinho e obedeceu a uma ordem divina? Por que o advogado mentiu de forma tão abjeta quando lhe atribuiu o desejo de ferir, mas não matar, com uma facada no abdômen?

Não dá para imaginar que Bolsonaro tenha ficado feliz com a exposição na mídia depois de ter corrido o risco que correu. Mas o que menos interessa agora são eventuais vantagens do candidato ferido. O Estado de Direito no Brasil depende de informações precisas, isentas e lógicas da autoridade policial que investiga o caso. O resto é lana caprina. Ao contrário do que faz crer a nota venenosa do PT contra a entrevista do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, ao Estado, este tem razão e fala a verdade. Os riscos para a sobrevivência e a higidez de nossa democracia aumentarão se nada for esclarecido tintim por tintim. E isso vale para os três atentados deste ano: a execução de Marielle e Anderson, o tiro no ônibus da caravana de Lula e a facada em Bolsonaro.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 10 de setembro de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/democracia-apunhalada/

No Blog: Nêumanne entrevista Mary Del Priore

No Blog: Nêumanne entrevista Mary Del Priore

Somos todos culpados pelo incêndio do museu, acusa historiadora

Autora de 41 livros sobre História do Brasil, Mary Del Priore pergunta: “o que esperar de uma corja de ladrões incompetentes que nunca pisaram num museu?”

Emocionada com o trágico incêndio que devorou a coleção insubstituível do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, domingo, no Rio, a historiadora Mary Del Priore, disparou: “a pergunta devia ser: o que fazemos com a nossa indiferença?” Em sua opinião, “ao buscar “culpados” pelo incêndio, raramente pensamos que os culpados somos nós, o povo. Qual a parede que não está pichada? Qual o busto ou placa de bronze que não foi derretido? Quantos casarões coloniais não viraram estacionamento? Quantos pais levam filhos aos museus, em vez de levá-los ao shopping? E pior, quantos se incomodam com que isso aconteça? Passamos com absoluta insensibilidade diante das perdas de nosso patrimônio. Afinal, ele é ‘público’. A preocupação com o bem público não faz parte da mentalidade da grande maioria.” E não perdoou a chamada elite na sérieNêumanne entrevista: “Nossos ‘ricos’ preferem um apartamento em Miami ou uma quinta em Portugal a ajudar o País. Quanto às autoridades públicas, com raras exceções, o que esperar de uma corja de ladrões incompetentes que certamente nunca pisaram num museu?”

Autora do sucesso de crítica e vendas História da Gente Brasileira entende que solução da crise brasileira passa pela melhora radical da educação. Foto: Acervo pessoal

Autora do sucesso de crítica e vendas História da Gente Brasileira entende que solução da crise brasileira passa pela melhora radical da educação. Foto: Acervo pessoal

Mary del Priore é autora de 51 livros sobre História do Brasil, ganhadora de mais de 20 prêmios literários nacionais e internacionais, entre os quais, três Jabutis. Pós-doutorada pela École des Hautes Études em Sciences Sociales, de Paris,  lecionou nos Departamentos de História da FFLCH-USP e da PUC-RJ  e atualmente ministra aulas na pós-graduação da Universidade Salgado de Oliveira. Colabora com periódicos científicos e não científicos nacionais e internacionais, anima o programa Rio de Histórias, da Rádio CBN-RJ, é consultora de cineastas como Daniela Thomas, Beto Amaral e Estevão Ciavatta, sócia do IHGB, do IHGRJ, PEN Clube do Brasil e membro da Academia Carioca de Letras, entre outras academias internacionais, como a Real Academia de Espanha.

A seguir Nêumanne entrevista Mary Del Priore:

Mary Del Priore ladeada por seus amigos Luís Fernando Veríssimo, colunista, à sua direita e, à esquerda, Zuenir Ventura, acadêmico. Foto: Acervo pessoal

Mary Del Priore ladeada por seus amigos Luís Fernando Veríssimo, colunista, à sua direita e, à esquerda, Zuenir Ventura, acadêmico. Foto: Acervo pessoal

Nêumanne – Como frequentadora habitual do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, como pesquisadora e historiadora, qual foi seu sentimento após ter tomado conhecimento da tragédia terrível do incêndio que destruiu completamente aquela instituição pública de importância capital para a memória e a cultura brasileiras?

Mary Del Priore – Tenho um sentimento de profundo pesar, mesmo de luto, pois é uma perda que afetará as gerações futuras. Felizes os que conheceram o acervo do museu, puderam ali realizar pesquisas ou teses ou se encantaram em simplesmente percorrer os mesmos salões que percorreram a família de monarcas portugueses e, depois, os imperadores brasileiros. Lugar de memória de nossa História, o Museu Nacional não contava apenas a grande História, por ter sido palco da assinatura da independência ou espaço onde republicanos se reuniram para elaborar a Constituição de 1891, mas também da pequena história. Ali dom Pedro II tomava sua canja de galinha todas as noites, a imperatriz Leopoldina deu à luz nove filhos e faleceu em profunda solidão, dom João VI recebia seus súditos para o beija-mão ou dom Pedro I cruzava os jardins para encontrar a marquesa de Santos. Para além da belíssima coleção de história natural, que impressionava as crianças com múmias e dinossauros, foi-se uma parte da História do Império brasileiro. Para apagar novos incêndios só muita, muita educação!

N – Recentemente foi feita uma vaquinha para reabrir a sala dos dinossauros no museu da Quinta da Boa Vista. Além de ser uma vergonha inominável, o que dizer do desempenho de nossas autoridades, preocupadas apenas em dilapidar o patrimônio público e que foram incapazes de salvá-lo depois de dado esse sinal?

– A “vaquinha” não é problema, nem vergonha. Em museus europeus, notadamente nos ingleses, é comum o frequentador participar da aquisição de nova obra ou do restauro de partes do museu, com doações. Podem ser mínimas. Abre-se uma lista e deposita-se, com maior ou menor generosidade, uma quantia que servirá ao bem comum. Em outros países, EUA, França ou Holanda, os grandes mecenas se encarregam de colaborar com as instituições de cultura. Uma política fiscal impulsiona os donativos e alimenta a promoção social. Entre nós, raro o museu que não tenha uma sociedade de amigos. Sua eficiência, porém, varia de uma instituição para outra. No Brasil, nomes como Angela Gutierrez, Milu Villela, Paula e Sílvio Frota, Carlos Lessa através do BNDES e Roberto Marinho através da fundação que leva seu nome deram exemplo de civilidade impecável, restaurando o patrimônio ou dando acesso a suas coleções ao grande público. São casos raros e raramente copiados. Nossos “ricos” preferem um apartamento em Miami ou uma quinta em Portugal a ajudar o País. Quanto às autoridades públicas, com raras exceções, o que esperar de uma corja de ladrões incompetentes que certamente nunca pisaram num museu?

N – O que a envergonha mais: ter um criminoso condenado por crimes comuns como corrupção passiva e lavagem de dinheiro protagonizando as atenções em torno da disputa pela Presidência da República e um acusado por delitos como incentivo ao estupro e racismo com possibilidades reais de chegar ao topo do poder federal, ou não ver nenhum dos candidatos à eleição de outubro manifestar uma palavra de repúdio ao completo menoscabo do valioso patrimônio público acumulado em séculos?

M – Os eleitores dos candidatos descritos acima não estão preocupados com cultura, e sim com saúde, segurança e emprego. Ambos os candidatos são uma das caras do Brasil. Ao buscar “culpados” pelo incêndio, raramente pensamos que os culpados somos nós, o povo. Qual a parede que não está pichada? Qual o busto ou placa de bronze que não foi derretido? Quantos casarões coloniais não viraram estacionamento? Quantos pais levam filhos aos museus, em vez de levá-los ao shopping? E pior, quantos se incomodam com que isso aconteça? Passamos com absoluta insensibilidade diante das perdas de nosso patrimônio. Afinal, ele é “público”. A preocupação com o bem público não faz parte da mentalidade da grande maioria. E só corrigiremos isso com educação, com professores de História apaixonados pelo que fazem, com séries de TV que não transformem nossos personagens históricos em caricaturas, com obras acessíveis ao grande público. Não adianta ter museus impecáveis com salas vazias. Para que os brasileiros tenham interesse em respeitar o patrimônio histórico é preciso fazê-los entender que seu passado é parte do presente. Que a memória é parte de sua identidade. E que jamais saberemos quem somos se não soubermos quem fomos.

Foto publicada na orelha do livro de Mary Del Priore Matar para não morrer sobre trágico triângulo amoroso de Euclides da Cunha e Anna e Dilermando de Assis. Foto: Divulgação

Foto publicada na orelha do livro de Mary Del Priore Matar para não morrer sobre trágico triângulo amoroso de Euclides da Cunha e Anna e Dilermando de Assis. Foto: Divulgação

Rio de Janeiro, onde Mary nasceu e cenário da tragédia da Quinta da Boa Vista no domingo 2 de setembro de 2018, é tema de várias de suas pesquisas históricas. Foto: Acervo pessoal

Rio de Janeiro, onde Mary nasceu e cenário da tragédia da Quinta da Boa Vista no domingo 2 de setembro de 2018, é tema de várias de suas pesquisas históricas. Foto: Acervo pessoal

N – Será enganosa a impressão que o cidadão comum e leigo em História tem de que as elites dirigentes no Império e nos anos anteriores da República tinham mais pudor e vergonha na cara do que os atuais políticos que foram definidos por Raimundo Faoro como “donos do poder”?

M – Outra época, outros perfis, mas nenhum deles hegemônico. Também no Império a elite política tinha bases econômicas muito diversas. Seus representantes saíam da Guarda Nacional, da Câmara dos vereadores ou eram indivíduos ricos de uma localidade. Muitos padres e juízes integravam os escalões políticos. O que contava eram os laços locais, regionais e as relações com o Estado.  Não por acaso, Getúlio Vargas tentou criar, com Luís Simões Lopes, uma escola nacional deAdministração, nos moldes da ENA francesa, para evitar o que vemos hoje no Congresso: semianalfabetos, sem nenhuma formação que lhes permita contribuir para o bem comum. Max Weber dizia que existiam políticos que viviam para a política e os que viviam da política. Parece que só temos os do segundo grupo. Hoje, a democracia representativa está fragilizada por vários motivos. Fronteiras porosas entre as divisões sociais, surgimento de uma classe média sem interesse em política, fragmentação das divisões esquerda e direita e divisões políticas que simplesmente desaparecem nas agendas, cada vez mais iguais, permitem a ascensão de oportunistas e incompetentes. E diante da instabilidade fazemos do passado um cenário nostálgico e ideal. Não foi bem assim.

N – Até que ponto o descaso dos responsáveis pela gestão do Estado brasileiro pode ser responsabilizado por uma tragédia irreparável e das dimensões dessa da noite de domingo?

M – Penso que os leitores estão informados de que o Estado brasileiro está claudicante. Que os representantes, no poder graças à democracia e ao voto, têm como objetivo básico seu único e exclusivo enriquecimento. Resultado? Não há dinheiro para o bem público. Os privilégios no serviço público, que é, aliás, péssimo, são escandalosos. A administração dos recursos públicos orçamentários, desastrosa. As pressões para a manutenção de privilégios fiscais e previdenciários, criminosas. A cultura “sangra”, como disse alguém? Sim. E vai sangrar até reformas previdenciária e fiscal serem aprovada, até termos caixa para alimentar as inúmeras necessidades dos vários ministérios. Até voltarmos a crescer. E crescer valorizando a educação, que é base de tudo, para todos.

N – O que explica a indiferença de nossos homens públicos e da sociedade em geral em relação à situação lamentável em que se encontra, por exemplo, o Museu da Independência, da USP, no Ipiranga, em São Paulo, e outras instituições da importância do Arquivo Nacional, da Biblioteca Nacional, etc.? Como deter esses crimes de lesa-memória e lesa-cultura, que estão aí à vista de todos, e nada se faz para acabar com o despautério?

M – Disse bem: à vista de todos. E o que faz a sociedade? Lê jornais, assiste na TV. E… segue em frente. Temos uma sociedade com parcelas mínimas sensíveis aos crimes de lesa-memória. A começar pelos políticos, que não fazem valer a Lei de Arquivos para os municípios, ou seja, a preservação da história da política municipal, pois ali os pesquisadores do futuro só encontrarão furos. “Aonde foi o dinheiro que estava aqui? O gato comeu!” Por que a ANPUH não se manifesta em torno da valorização e divulgação de tais instituições ou se cala no debate sobre biografias? Por que as universidades não dialogam nacionalmente com a escola pública para melhorar o ensino e mudar a camisa de força do vestibular de História? E a comunidade, o que faz pela preservação de sua cena histórica, a igreja, a praça e o coreto, os sobrados? Creio que o único momento em que vozes se levantaram contra o crime de lesa-memória foi nas décadas de 30 e 40: Gilberto Freyre e José Mariano capitanearam um movimento de valorização da arquitetura colonial e imperial, contra a devastação de bairros históricos e o crescimento de muros e paliteiros em todas as capitais. E Maria do Carmo Nabuco e o casal Ana Maria e John Parsons, que salvaram Tiradentes, nos anos 60.  A pergunta devia ser: o que fazemos com a nossa indiferença? Podemos imaginar que as desigualdades sociais permitem que as classes desfavorecidas não se identifiquem com a dita “alta cultura”, cultivando sua memória de outro jeito. O que poderia significar para um morador do Morro do Alemão o Museu Nacional, casa dos imperadores brasileiros? Nada, se ele não conhecer a História do Brasil.

 N – Como profunda conhecedora da História do Brasil, a senhora é capaz de identificar em algum momento dela uma situação tão desoladora como esta em que nos encontramos agora, como resultado da crise ética, econômica, financeira e institucional, para a qual não parece haver saída possível?

M – O Brasil conheceu, regionalmente, crises terríveis que esquecemos. Para ficar em alguns exemplos, as elites políticas provocaram a Revolta Federalista, com cerca de 30 mil mortos e a degola institucionalizada; na Bahia, em 1910, a “campanha civilista” de Rui Barbosa e Hermes da Fonseca  provocou o canhoneio da cidade, com luta campal e centenas de corpos chegando às praias de Rio Vermelho e Porto da Barra; sem contar São Paulo, em 1930, com luta armada entre irmãos, bombardeio da capital e do interior e milhares de mortos. Mas hoje a situação é nova e não pode ser comparada a nenhuma anterior. O Brasil mudou, mas o mundo também. A globalização e a digitalização são fenômenos recentes cujos efeitos em nosso país ainda não podemos medir. Crises? Todas têm seu fim. Resta saber se a atual trará melhoramentos estruturais que nos permitam concretamente progredir.

Mary Del Priore pergunta sem subterfúgios: "o que esperar de uma corja de ladrões incompetentes que certamente nunca pisaram num museu?”. Foto: Acervo pessoal

Mary Del Priore pergunta sem subterfúgios: “o que esperar de uma corja de ladrões incompetentes que certamente nunca pisaram num museu?”. Foto: Acervo pessoal

N – Que lições da História do Brasil poderemos compulsar para nos indicarem os caminhos de saída e de superação desse ambiente de desespero provocado pelo desemprego, pela falta de perspectivas denotada pela total ausência de espírito público e civismo até em momentos cruciais como as eleições gerais, incluída a presidencial, marcadas para outubro?

M – De fato, as instituições brasileiras, a Constituição e as organizações político-administrativas contribuíram, e muito, para provocar tal situação. Todos sabemos que o Brasil não pode mais suportar o custo de uma organização altamente ineficiente e corrupta. Reformar o sistema político é obrigatório, ou não teremos verdadeiras mudanças.

 N – O mensalão e a Operação Lava Jato deram à Nação a esperança de que, pelo menos, a devassa da corrupção ilimitada dos últimos anos pudesse identificar, punir e prender os responsáveis por essa poucavergonha, mas a reação organizada dos partidos e políticos põe essa perspectiva sob sério risco. Ainda crê que seja possível desatarmos ou deceparmos o nó górdio desse impasse? Como sairmos dessa encalacrada se não avançarmos no combate à impunidade, iniciado no último decênio?

M – Mensalão e Lava Jato são operações que merecem todo o respeito e apoio da sociedade, como, aliás, vêm recebendo. Sou grande admiradora de Sergio Moro. Mas elas apontaram uma judicialização crescente. Economias saudáveis não podem depender da decisão de juízes, que por mais sábios que sejam são inexperientes em inúmeros aspectos do que devem julgar. A deriva jurídica fornece um álibi segundo o qual o País se regeneraria por meios judiciais, sem atacar nem resolver as causas da corrupção. E mais: da ineficiência nacional. A economia do País estaria preparada para tal juducialização? O exemplo da Itália demonstra que as dificuldades de limpar um sistema corrupto dependem muito mais da adesão popular a certas regras do que da exemplaridade das condenações.

 – A senhora ainda tem alguma esperança de que, mesmo que leve muito tempo e exija muita paciência, o Brasil terá capacidade para se reerguer do estado atual de descalabro da administração pública e dessa mistura de indignação e indiferença da maioria silenciosa?

M – Sim. Penso que o Brasil tem 220 milhões de habitantes e é dotado de um tecido econômico capaz de fabricar de aviões a carros, de recursos naturais que vão de petróleo a commodities, e com a presença, até agora, de grandes empresas estrangeiras. O Brasil não tem problemas econômicos. Tem problemas políticos. E de políticos que não se empenham em resolver os problemas básicos de saúde, educação e segurança. De políticos que pouco fazem para resolver o problema de desigualdade pela criação de empregos, e não distribuição de bolsas. Mas com os vagabundos que elegemos como políticos as soluções não virão em curto prazo. Está na hora de assumirmos a possibilidade de votar como cidadãos conscientes. Se todos os brasileiros soubessem como a conquista do voto democrático foi difícil e sofrida, dariam mais valor ao gesto e… à História!

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/somos-todos-culpados-pelo-incendio-do-museu-acusa-historiadora/

Saiba mais sobre Mary Del Priore. Assista aos vídeos. Clique nos links abaixo:

Mary no Jô

https://www.youtube.com/watch?v=zmK1ntzPQp0

Mary Sala de Visita

https://www.youtube.com/watch?v=7L0GyBKNqoA

Nêumanne entrevista Mary Del Priore. 21ª EDIÇÃO DA SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista Mary Del Priore. 21ª EDIÇÃO DA SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nesta quarta-feira no Estadão: Incêndio no Museu Nacional foi um crime

Nesta quarta-feira no Estadão: Incêndio no Museu Nacional foi um crime

Políticos prometem reconstruir o prédio para que gerações futuras não os incriminem

Os 20 milhões de itens expostos ao público, objetos de pesquisa e testemunhas à mão da memória e da História do Brasil ainda ardiam no incêndio que devastou o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, por não haver água nos hidrantes do prédio, e vários oportunistas já vinham à tona para se aproveitarem da tragédia.

O esqueleto de Luzia, a mulher mais antiga do continente, resistente a 12 mil anos de intempéries, era apenas uma imagem virtual quando os repórteres dos telejornais, enfrentando a desinformação absoluta com a necessidade de falar alguma coisa, noticiaram que a polícia terá de descobrir e revelar se o incêndio foi acidental ou criminoso. Truísmo é pouco para definir essa platitude. Minhas senhoras, meus senhores, o que se assistiu na noite de domingo passado foi ao assassinato sem piedade de milhares de anos da História do País e da humanidade pelas castas que dilapidam há séculos o patrimônio público. A documentação do registro da passagem do mamífero bípede, impropriamente definido como racional, e da identidade nacional de uma pretensa civilização, instalada nestes tristes trópicos em substituição à barbárie dos silvícolas, anterior a ela, virou cinzas molhadas pelos jatos impotentes de uma (!) escada de bombeiros jorrando água suficiente para apagar uma fogueira junina, se muito.

A primeira instituição científica nacional, fundada há 200 anos por dom João VI, o rei fujão de Portugal, sucumbiu a descaso, insensibilidade, estupidez, incompetência, desídia e rapina de sórdidas castas elitistas de políticos ambiciosos, gestores públicos irresponsáveis e intelectuais militantes.

Os acadêmicos José Sarney e Fernando Henrique, o breve Itamar Franco, os populistas Lula da Silva e Dilma Rousseff e os oportunistas Fernando Collor e Michel Temer não deram a museu algum um segundo de atenção, só usada para ludibriar eleitores e comprar congressistas para se reeleger ou escapar de impeachment, fugir de inquéritos ou prorrogar prerrogativa de foro.

Ora, direis, museu não dá voto. Aliás, é difícil encontrar algo de interesse público que dê votos a quem os disputa na arena cada vez menos ética da política brasileira. Votos se vendem e se compram com vil metal, empregos privilegiados na estroina e corrompida máquina pública nacional e também ideologias generosas somente na aparência. A gestão do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, por exemplo, cabe à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), cuja administração é compartilhada por partidos da extrema esquerda sem representatividade popular, PSOL e PCdoB, em aliança com representantes da elite partidária que dá as cartas na República, embora se denomine como “dos Trabalhadores”.

A cúpula dos três Poderes, a intelligentsia acadêmica e, pasme, os responsáveis diretos pela indigência da instituição que ardeu choram e se lamuriam pelo destino dela, como gângsteres que levam flores ao velório das vítimas de sua brutalidade. O presidente Temer divulgou nota oficial quando ainda faltava água para apagar o fogo: “Incalculável para o Brasil a perda do acervo do Museu Nacional. Hoje é um dia trágico para a museologia de nosso país. Foram perdidos duzentos anos de trabalho, pesquisa e conhecimento. O valor para nossa história não se pode mensurar, pelos danos ao prédio que abrigou a família real durante o Império. É um dia triste para todos brasileiros”.

O ministro da Cultura, Sérgio de Sá Leitão, disse que “certamente a tragédia poderia ter sido evitada”, numa tentativa absurda de transferir apenas para os governos anteriores as causas do desastre, que, segundo Walter Neves, antropólogo que pesquisava o esqueleto de Luzia, foi “anunciado”. A culpa não é apenas do governo atual, é claro, mas é principalmente deste. Leitão age como um sujeito que cai do décimo andar, sai caminhando e pergunta aos transeuntes o que aconteceu. E ninguém foi demitido!

É inútil querer que os incendiários da Quinta da Boa Vista respondam pela omissão do Estado, que se negou a gastar caraminguás para dotar o mais antigo museu nacional de chuveirinhos automáticos e extintores de incêndio que a lei exige de qualquer boteco da periferia. Mas, já que não se dispuseram a abrir mão dos bilhões do Fundo Partidário para salvar o museu extinto, que nos poupem de sua hipocrisia. E sendo inútil exigir que façam algo para a tragédia não se repetir no Arquivo Nacional e na Biblioteca Nacional, podiam fazer o que sempre fizeram: esquecer o tema. E nada de reconstruir o prédio para as gerações futuras se esquecerem de sua participação no crime.

Os candidatos ao posto mais elevado, cujos currículos frustram os cidadãos carentes de um presidente que evite que a economia arda, sabotada pela corrupção do PT, de seus aliados, entre os quais o MDB, e dos falsos oponentes do PSDB, reduziriam o teor de cinismo de suas campanhas se não chorassem sobre a aguinha que não evitou que o incêndio se alastrasse.

A Universidade de São Paulo (USP) e o ex-governador do Estado Geraldo Alckmin devem explicações sobre o cupim que ameaça a integridade das paredes do Museu do Ipiranga, fechado à visitação desde 2015 e com obras a serem iniciadas no ano que vem. Ou quando, enfim, não chegarem as calendas gregas. Fernando Haddad, o estepe de Lula, não terá como explicar seu silêncio no governo do patrono, quando foi ministro de Educação, sobre a ominosa situação em que a memória nacional embolora, apodrece e arde, enquanto os chefões partidários enriquecem ilicitamente. Nenhum dos dois projetos assinados por Jair Bolsonaro e aprovados em seus 27 anos na Câmara diz respeito a esse assunto. A militância ecológica de Marina Silva não inclui uma denúncia da penúria dos museus, tema também excluído da enxúndia demagógica de Ciro Gomes.

Só restará como testemunho da inépcia deles Bendegó, meteorito que caiu perto de Canudos e resistiu ao fogo feroz.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na página A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 5 de agosto de 2018)

Para ler no Portal do Estadão clique no link abaixo:

https://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,incendio-do-museu-nacional-foi-um-crime,70002488267

Diário da Crise no Blog do Nêumanne: A vingança do PT

Diário da Crise no Blog do Nêumanne: A vingança do PT

Se Fernando Haddad, o estepe de Lula, vencer as eleições, Moro e a turma do MPF de Curitiba correm risco de serem presos. E o PT não precisa de motivos para prender. Eles inventam. O PT é famoso por derrubar reputações. Criam falsas notícias e repetem cansativamente até virarem verdades, no conhecido estilo Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler. Recentemente, Fernando Haddad, oficialmente vice de Lula, e verdadeiramente estepe e mais um poste de Lula, vem atacando o Lava Jato. Haddad afirma que “milhões de empregos foram perdidos desnecessariamente”. Como assim Haddad? O desemprego está no nível que está pela lambança dos governos do PT e principalmente pelo governo de Dilma Rousseff. Estas são as anotações que faço nesta terça-feira 4 de agosto de 2018 no Diário da Crise no Blog do Nêumanne.

Para ler a íntegra das anotações clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/diario-da-crise-terca-feira-4-de-agosto-de-2018/

No Blog do Nêumanne: O Estado a serviço do crime

No Blog do Nêumanne: O Estado a serviço do crime

O cidadão brasileiro quis renovar os quadros políticos, mas os partidos impuseram a própria vontade para garantir sua permanência no poder e a descriminalização da corrupção

E Lulinha “guerra e ódio” perdeu mais uma votação num tribunal superior por goleada. Desta vez foi 6 a 1 no julgamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de 16 pedidos de impugnação do registro de sua candidatura pelo Partido dos Trabalhadores (PT) à Presidência.

Bem que poderia ter sido por 7 a 0. Seria a lógica dos fatos, sem fantasias ideológicas, e também de decisões anteriores de todo o Judiciário. Condenado em primeira instância a nove anos e meio pelo juiz Sergio Moro, o ex-presidente levou surras de 3 a 0 na turma do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4) e de 5 a 0 no âmbito do Superior Tribunal de Justiça (STJ). E ainda sem complacência nas decisões monocráticas dos relatores dos recursos, Gebran Neto, em Porto Alegre, e Félix Fischer, em Brasília. Caindo no plantão de Laurita Vaz, à época presidente do STJ, foi mantida, da mesma forma, a decisão do TRF-4 de deixá-lo preso “na sala de estado-maior” na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.

O preso mais famoso do Brasil perdeu de novo, por maioria simples, quando o habeas corpus pedido pela defesa subiu para julgamento no STF: 6 a 5. O ministro Luiz Edson Fachin, relator da Operação Lava Jato, puxou os votos para ele ficar privado de liberdade. Com ele votaram, em abril, Alexandre de Moraes, Luís Barroso, Luiz Fux, Rosa Weber e a presidente Cármen Lúcia. Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio Mello, Gilmar Mendes e o decano Celso de Mello deramos votos perdedores. E, em votações na Segunda Turma do STF, Fachin perde suas tentativas de punir, às vezes com voto de Celso de Mello e sempre contra a maioria formada pelo trio Parada Mole: Lewandoswki, Toffoli e Gilmar.

A sessão histórica do TSE em que o registro da candidatura do PT foi negado começou com a leitura do relatório didático e na mosca do relator Luís Roberto Barroso. Parecia nem haver muito a discutir. Pois a Constituição de 1988 consagrou a figura da lei de iniciativa popular. Lula e o PT foram convencidos por Ulysses Guimarães a assinar e apoiar esse tipo de legislação fora dos cânones. A Lei da Ficha Limpa é a mais popular das iniciativas partidas do povo sem intermediação e atendeu a um apelo da população, acompanhada pelos petistas, a favor da moralização da atividade política e da gestão pública. Na Presidência, Lula em pessoa promulgou a lei. Mas a sempre irônica deusa Clio, que, segundo os gregos, manda na História, logo fez-se presente: o militante que assinou a lei proibindo candidaturas de políticos com a fichasuja caiu nas malhas do Código Penal, personificando um dos pré-requisitos que a norma acrescentou à letra constitucional: condenados em segunda instância não podem disputar eleição nenhuma. Assim mesmo, sem mais.

Não há nem pode haver exceções à regra. Mas os devotos de padim Lula tentaram criar uma inovação: o signatário da Lei da Ficha Limpa teria de ser a exceção à regra e, mesmo condenado e cumprindo pena, ter sua pretensão presidencial autorizada pela Justiça Eleitoral por exigência da mesma instituição do Estado de Direito que havia tomado a iniciativa da legislação contra a corrupção: o povo. A Lei da Ficha Limpa fora avalizada por mais de 1,5 milhão de assinaturas de cidadãos aptos a votar. A exceção exigida pelos lulistas teria como base apenas pesquisas de intenção de votos, que não sãomeio válido de aferição para eleger ninguém.

À falta de um dispositivo constitucional que garanta impunidade plena ao chefe de Estado que promulgou a punição, a defesa do preso e seu partido inventaram um slogan de muito apelo e lógica nenhuma: “Eleição sem Lula é fraude”. E recorreram a uma recomendação assinada por dois dos 18 peritos do Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) exigindo que, em nome do povo – que nem consultado o fora em plebiscito, referendo ou disputa eleitoral –, o “Brasil” (seja lá o que diabo for isso) permita a um condenado em segunda instância disputar pleito, seja qual for ele, inclusive o presidencial.

Antes da condenação e prisão de Lula, seus asseclas providenciaram uma campanha em duas fases para uma eleição em dois turnos. Ela começaria com propaganda maciça da chapa Lula e Haddad para depois poderem acrescentar um acento agudo, passando para Lula é Haddad, ou “Andrade”, como se propaga num de seus mais fiéis redutos, o interior de Pernambuco, dominado pelos “socialistas” saudosos de Arraes e Campos.

A farsa foi submetida ao TSE e o julgamento da sexta 31 de agosto para o sábado 1.º de setembro finalmente adotou a decisão definitiva para por a falsa candidatura de quem não pode ser eleito no lixo da História. Assim se deu o julgamento, mas com uma exceção à regra geral. Fachin, o implacável relator da Lava Jato, votou a favor do óbvio relatório de seu colega Barroso, considerando Lula “inelegível”. Só que rasgou os dicionários, inelegível significa quem não pode ser eleito, ao autorizar o ex a participar da disputa eleitoral até passar pelo fabuloso “transitado em julgado”, como sugeriam dois “peritos” da ONU. Com isso despedaçou a Constituição, que não consagra comitês das Nações Unidas como revisores da Justiça brasileira, e a própria biografia de justo e honrado. Sua decisão, diga-se em seu favor, não altera a derrota acachapante sofrida pelo não candidato, mas levanta uma dúvida: como votará agora o relator da Lava Jato, que foi sempre implacável legalista tido como coerente?

O voto de Fachin só se apoia em sua biografia de esquerdista que apoiou publicamente Dilma na eleição presidencial. E reforça a mentalidade colonizada da esquerda brasileira, que Nélson Rodrigues batizou de “complexo de vira-lata”, ao dar valor a uma instituição internacional que não dispõe, como argumentaram os seis outros votantes, de poder vinculante sobre decisões do Judiciário brasileiro. Ponto final. E somente o futuro poderá desvendar o mistério do voto fora da curva dele.

Por enquanto, basta a clareza didática de Barroso, Jorge Mussi, Og Fernandes, Admar Gonzaga, Tarcísio Vieira e Rosa Weber, apesar da enxúndia do voto final dela. E nos resta testemunhar o PT desmoralizando a Justiça ao se negar a cumprir a decisão final da maioria de ter de substituir Lula por Haddad/“Andrade” e ainda justificando que o faz para “testar” até que ponto iria sua resolução sobre a qual não restam dúvidas.

Esta, aliás, é uma boa hora para contar que de gratuito o tal de horário eleitoral não tem nada. A propaganda partidária é financiada pelo erário. E o horário dito “gratuito” em emissoras de rádio e TV é bancado por isenção de impostos. A isenção fiscal equivale a cerca de 80% do que seria obtido com a venda publicitária. Segundo cálculo da ONG Contas Abertas, tal custo representa R$ 6,9 por eleitor. Além disso, as campanhas em geral são bancadas com dinheiro público. Os partidos têm à sua disposição R$ 1,7 bilhão do Fundo Eleitoral e R$ 888 milhões do Fundo Partidário para as eleições de 2018, despesas definidas pelo Congresso.

A distribuição dos recursos do Fundo Eleitoral ficou assim: 48% conforme o número de deputados de cada partido na Câmara, 35% entre os partidos com ao menos um representante na proporção dos votos obtidos pelos deputados na última eleição e 15% de acordo com o total de senadores de cada sigla. O MDB foi o maior beneficiado, com direito a R$ 234,2 milhões, seguido pelo PT, com R$ 212,2 milhões e pelo PSDB, com R$ 185,8 milhões. Já o critério de distribuição do Fundo Partidário é o seguinte: 95% são distribuídos na proporção de votos obtidos por cada legenda na última eleição para a Câmara de Deputados e 5% divididos igualmente entre todas as siglas. O PT é o partido que tem direito à maior fatia do Fundo Partidário, seguido pelo PSDB. Esses números constam de reportagem do Igor Machado no Estado de 22 de junho de 2018.

As eleições são bancadas com dinheiro público e a forma da distribuição dos recursos privilegia os políticos que já estão no poder. O eleitor que quer renovar paga a conta dos políticos que exigem ficar.

É beneficiado quem comprou seus lugares com dinheiro de propina e aprovou uma lei para o Estado gastar para mantê-los no poder. Ganharam a corrida recorrendo a dopping financeiro. O lema da turma é não renovar e descriminalizar. E receberá os recursos dos fundos tendo ainda vantagem indevida sobre quem não aderiu ao esquema – o Estado a serviço do crime.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 3 de setembro de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/o-estado-a-servico-do-crime/

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