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No Blog: Nêumanne entrevista Afonsinho

No Blog: Nêumanne entrevista Afonsinho

Ícone do passe livre, Afonsinho prega mais força para os clubes

Para “prezado amigo” de Gil, supremacia do futebol brasileiro depende hoje de fortalecimento dos times e de opções de educação e profissões para talentos

Com a autoridade de quem simbolizou o movimento que libertou os craques de futebol da escravidão do passe, que os prendia aos clubes, Afonso Celso Garcia Reis, o meia Afonsinho, do Botafogo do Rio dos tempos de Nilton Santos, Garrincha e Didi, acha que esta é a hora de valorizar esses clubes. Em entrevista ao Blog do Nêumanne, o personagem de Gilberto Gil, invocado no samba Meio de Campo — “Prezado amigo Afonsinho, eu continuo aqui mesmo, aperfeiçoando o imperfeito” –, enxerga no eventual fortalecimento deles o necessário contrapeso para os “empresários”. Estes, segundo o craque, “hoje grupos fortíssimos, intermediários, ganham o protagonismo, porque a ‘cartolagem’ usa o clube como balcão de feira, o torcedor (suporter) é apenas consumidor, não tem peso político, apenas pode fazer arruaça e violência quando o time perde”. Para ele, “as arenas e a multiplicação exagerada de canais de esporte são consequências dessa explosão financeira descontrolada pela sociedade.”

Afonsinho nasceu em São Paulo em 1947. Meia-armador de estilo elegante, foi descoberto no XV de Novembro de Jaú em 1962 e tornou-se conhecido nacionalmente como jogador do Botafogo do Rio, que o contratou em 1965, tendo sido várias vezes campeão e capitão na conquista da Taça Brasil de 1968. Em 1970, no auge de sua forma, foi emprestado para um time de subúrbio, o Olaria, à época treinado pelo supercraque Jair da Rosa Pinto, como punição por ter-se recusado a aparar os cabelos compridos e a barba. Voltou ao alvinegro da Rua General Severiano, mas encostado, e então ficou nacionalmente conhecido por sua luta contra o sistema escravagista de trabalho dos jogadores presos aos clubes nos quais jogavam pelo passe. Foi o primeiro jogador profissional a ganhar passe livre, em decisão do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), em 1971. Somente 27 anos depois, em 1998, a Lei n.º 9615 deu liberdade ao jogador para trabalhar onde quiser, no Brasil. Afonsinho jogou ainda nos times de Fluminense, Flamengo, Vasco, Santos (com Pelé), América de Minas e Madureira. E foi tema da canção Meio de Campo, de Gilberto Gil, dos filmes Passe Livre, de Osvaldo Caldeira, e Barba, Cabelo & Bigode, de Paulo Branco (com seus amigos Paulo Cézar Lima e Nei Conceição), e dos livros Prezado Amigo Afonsinho, de Kleber Mazziero de Souza, e Afonsinho e Edmundo – A Rebeldia no Futebol Brasileiro, de José Paulo Florenzano. Mora em Paquetá com a mulher, Regina, e é médico aposentado da saúde pública.

Nêumanne entrevista Afonsinho

Após deixar o futebol, Afonsinho trabalhou como médico na saúde pública na Ilha de Paquetá, onde, aposentado, hoje mora. Foto (2001): Otavio Magalhães/AE

Após deixar o futebol, Afonsinho trabalhou como médico na saúde pública na Ilha de Paquetá, onde, aposentado, hoje mora. Foto (2001): Otavio Magalhães/AE

Nêumanne – O senhor tornou-se conhecido no Brasil inteiro por sua luta pelo passe livre dos jogadores de futebol, numa época em que a carreira do futebolista se assemelhava ao trabalho escravo. De lá para cá, a Lei Pelé e a Lei Zico mudaram radicalmente esse panorama. A seu ver, essas leis modificaram as relações de trabalho entre clubes e craques para melhor?

Afonsinho – As leis que vigoram no esporte, atualmente chamadas de modo geral de Lei Pelé, mudaram muito pouco para o esporte em geral, sabemos que no Congresso Nacional existem as ditas bancadas do boi, da bala e da bola e o quanto todas são daninhas para a vida no Brasil. As proposições dos projetos do Pelé, Zico e várias outros que os precederam e lhes sucederam vão sendo “depenadas” à medida que passam pelas Casas Legislativas, de modo semelhante a outras de interesse popular. Cada ministro que entra anuncia para breve um Plano Brasileiro de Esportes, mas como é o patinho feio da política vai servindo apenas de moeda de troca. Em relação aos jogadores, mesmo assim mudaram, e muito, para melhor, embora de forma desequilibrada com setores correlatos que se mantêm amarrados (federações, etc.)

N – As novas legislações a que me referi puseram fim à época em que os ídolos dos clubes conquistavam a paixão das torcidas ao longo de muitas temporadas. Dida e Zico no Flamengo, Ademir de Menezes e Roberto Dinamite no Vasco, Garrincha e Quarentinha no seu Botafogo, Castilho e Carlos Alberto no Fluminense, Luisinho e Baltazar no Corinthians, Dudu e Ademir da Guia no Palmeiras, Pelé e Coutinho no Santos. São vários os exemplos. A constante mudança de camisas permitida pelas novas regras do mercado do futebol interferiu na devoção de seus ídolos pelas torcidas?

A – Mudou, sim, e para pior, a ligação dos torcedores com seus “ídolos”, de modo coerente com o funcionamento da sociedade brasileira, seguindo o exemplo clássico da abolição da escravatura negra. Quando o “passe” foi extinto na Europa, depois do processo Bosman, jogador belga que teve situação semelhante à minha algum tempo depois, foi imediatamente substituído pela “multa contratual”. Os clubes passaram a fazer contratos de cinco ou seis anos, de modo a proteger os investimentos feitos nas transferências entre eles. Os jogadores tornaram-se profissionais de fato, garantidos por contratos mais longos e tudo seguiu em frente. No Brasil, ainda hoje, vivemos na “falsa malandragem” de contratos curtos, até de seis meses ou menos (não sendo cumpridos), e vemos divulgados de boca cheia campeonatos de séries A,B,C,D (de profissionais?).

Os clubes que constituem a base larga de sustentação da grandeza do esporte brasileiro vão morrendo à míngua, sem calendário e com custos elevados. Os jogadores “formados” saem logo cedo dos clubes, não firmam uma identidade com os torcedores; fica rompido o elo mais forte que sustenta a paixão simbolizada pelas cores do seu clube; por sua vez, o torcedor é sempre o que move o esporte; independentemente de sistema político e econômico, o clube deve ser sempre a parte mais valorizada.

Afonsinho chegou a atuar no Santos ao lado de Pelé (na foto contra o Palmeiras no Pacaembu, em 1972) . Foto: Domício Pinheiro/JT

Afonsinho chegou a atuar no Santos ao lado de Pelé (na foto contra o Palmeiras no Pacaembu, em 1972) . Foto: Domício Pinheiro/JT

N – De certa forma, sua luta nos anos 60 e 70 do século passado foi visionária, porque de lá para cá o futebol deixou de ser romântico para se tornar o maior espetáculo da Terra, pela frequência dos espetáculos (os jogos e a variedade dos campeonatos) e pelas imensas audiências das transmissões pela televisão, o veículo mais importante de entretenimento e informação de nossa época. Como o senhor acompanhou e encara essa mudança?

A – Tenho pensado muito nesse fato de o futebol se ter tornado um dos grandes negócios da sociedade atual e a Copa praticamente parar o mundo por um mês a cada quatro anos. De cara vem o lado favorável, um fôlego na rigidez da vida cotidiana, um carnaval fora de época. A TV, responsável por essa explosão, está na cabeça do fenômeno, que vem sendo seguido por outros meios de comunicação (mídia) e outros formatos. Vamos ver como vai ficar daqui pra frente. Vejo as mudanças como o processo natural de evolução e, como sempre, o que pega é a distribuição de tudo o que isso produz.

N – A transformação do esporte em geral – e do futebol em particular – em imbatível campeão de audiência gera fortunas tanto para os executivos do negócio quanto para os intermediários (os empresários dos jogadores, hoje os verdadeiros donos de seus passes) e, é claro, as estrelas do show. O senhor sente saudade dos velhos tempos dos estádios ou uma pontinha de inveja dos milionários da bola nesta era das arenas e dos canais de esporte?

A – A todo momento sou instigado pelas pessoas com o raciocínio de não estar metido na Babel em que se transformou a atividade esportiva destes nossos dias. Não me impressiono nem um pouco: minha geração ganhou mais do que as que a antecederam, mesmo as de 58 e 62, que foram as melhores, no meu entendimento, saíram da derrota de 1950, foram bicampeãs e ainda produziram a geração de 1970, da qual fiz parte. Depois disso, foram 24 anos de jejum do período ditatorial. Insisto em dizer que o “clube” deve sempre ser a parte mais valorizada e os “empresários”, hoje grupos fortíssimos, são intermediários, ganham o protagonismo, porque a “cartolagem” usa o clube como balcão de feira, o torcedor (suporter) é apenas consumidor, não tem peso político, apenas pode fazer arruaça e violência quando o time perde. As arenas e a multiplicação exagerada de canais de esporte são consequências dessa explosão financeira descontrolada pela sociedade. Sinto muitas saudades da camaradagem entre os amigos, com os quais não posso conviver por diferentes razões e que são o tesouro maior que amealhei como esportista profissional: ter me tornado amigo do Zizinho, Didi e Nilton Santos, apenas como exemplo para não cometer injustiças com tantos parceiros queridos, é minha fortuna.

Médico aposentado da saúde pública, Afonsinho mora na ilha de Paquetá e guarda fichas dele no SNI. Foto (de 2014): Marcos de Paula/Estadão

Médico aposentado da saúde pública, Afonsinho mora na ilha de Paquetá e guarda fichas dele no SNI. Foto (de 2014): Marcos de Paula/Estadão

N – Desde os tempos do amadorismo marrom, a gestão do futebol já não era um exemplo de honestidade, limpeza e ética. Hoje, mais ainda, com os volumes de dinheiro em jogo, a corrupção é um componente importante em clubes, federações e confederações. Isso se reflete na organização dos torneios esportivos, eivados de suspeitas. Exemplo agora são as investigações policiais na Fifa, na CBF e em outras entidades. Esse aspecto o preocupa? O senhor tem alguma sugestão para combater esse mal?

A – O sistema Fifa tem natureza medieval, estruturada no esquema liga, federação, confederação de poder legado a familiares ou próximos, que apenas se adapta quando é molestado, como agora, nessas crises da CBF e do sistema como um todo. Consegue ser pré-capitalista, é muito atraso.

N – A circulação de fortunas, incomparável com o que acontecia antes, promove também uma distorção de natureza econômica, com os países de economia forte impondo suas regras aos mais pobres. A ida precoce de Vinicius Jr., do Flamengo, Rodrygo, do Santos, e Paulinho, do Vasco, para a Europa, e hoje também para o Oriente próximo e distante, é o exemplo extremo da exportação de craques. Hoje, na condição de ex-jogador e torcedor, o senhor lamenta a abissal diferença entre os campeonatos do Primeiro Mundo e os nossos, com nossos clubes fracos e as seleções ainda fortes?

A – Justamente isso, a contradição aviltante destes nossos dias, ao mesmo tempo que a pessoa com um celular à mão pode resolver tudo o que for necessário para assistir amanhã à final da Copa em Moscou, vemos o horror das correntes migratórias. Os jovens saem dos clubes sem dar sua contribuição ao futebol brasileiro. Exemplo disso foi a transferência oficial de um clube de empresário, como foi o caso do zagueiro Thiago Silva, que foi capitão num dos jogos da seleção brasileira na Copa da Rússia: ele saiu do Fluminense para o PSG da França, mas o vínculo era da Tombense. Pior ainda que, ao se fazerem as contas, os jogadores estão fatiados entre “investidores” e  o clube fica de mãos abanando. Penso que, em pouco tempo, deve haver alguma alteração. Como, por exemplo, o jogador que estiver vinculado a uma determinada federação por algum tempo (de três a cinco anos, talvez) poderá jogar pelo respectivo país automaticamente. Messi é o exemplo mais gritante: um dia é o melhor do mundo. no dia seguinte não joga nada (???!!!). Absurdo!

Com cabelos e barbas longas, Afonsinho foi símbolo da rebeldia no futebol brasileiro dos anos 60 em diante. Foto: Arquivo/AE

Com cabelos e barbas longas, Afonsinho foi símbolo da rebeldia no futebol brasileiro dos anos 60 em diante. Foto: Arquivo/AE

N – Em plena Copa do Mundo na Rússia, com o Brasil vivendo a pior crise moral, social, política e econômica da História, nos vemos diante daquelas velhas reclamações contra o fanatismo pela seleção, visto como alienação política, apontada como a maior culpada pela degradante situação de nosso povo e pela amoralidade explícita de nossa elite política dirigente. Mas essas queixas têm razão de ser?

A – Definitivamente. o esporte não é o ópio do povo. A política é a razão que está ao fundo de tudo, mas é apenas um momento da vida em sociedade. E de que a elite brasileira é perversa estamos tendo mais uma demonstração inequívoca…

N – O que o senhor viu até agora na Copa que está sendo jogada na Rússia é suficiente para animá-lo em relação à melhora da qualidade do jogo, à limpeza na condução administrativa do negócio do futebol e às perspectivas dos jovens craques que ainda se formam nos campos de pelada do Brasil?

A – Infelizmente, não! Mesmo quando a Copa já tiver 64 participantes, como se anuncia, ainda é muito pequeno o número de jovens que passam pelo funil estreito. Como sugestão, penso que deveria haver um equilíbrio entre o que se exige dos jovens, o que o esporte toma de seu tempo e o que os clubes oferecem de garantia para seu futuro. O caso é o seguinte: em qualquer rincão do País os clubes veem e ouvem na TV e no rádio que houve treino em tempo integral, musculação, regeneração e não sei o que mais, que outra atividade, e procuram fazer a mesma coisa, ocupando sem contrapartida o tempo de formação profissional e humana do jovem. E o que fará depois, se ele não se tornar jogador profissional e tiver outras obrigações, familiares, por exemplo?

N – Como médico, o senhor tem a oportunidade rara entre os membros da classe média do Brasil de conviver com as carências absurdas e desumanas em que vive nossa população mais pobre. O que mais o comove e o indigna em seu contato permanente com a realidade dura de seus clientes?

A – Aposentei-me recentemente como médico de Saúde da Família, estando bem próximo do dia a dia das situações mais agudas da maioria da população brasileira, apenas uma confirmação de que a questão é política, de injustiça social profunda.

N – Cresce no Brasil uma sensação geral de impotência, desconfiança, falta de credibilidade e até desespero em relação a nossas perspectivas, agora que estamos a quatro meses de eleições gerais. Quais são as suas expectativas quanto ao pleito e também à capacidade da sociedade de virar o jogo e melhorar nossas condições de vida?

A – As eleições, se houver, serão apenas mais um momento na dinâmica da população relegada à luta pela sobrevivência, calejada, outra vez diante do sufoco obrigada a seguir procurando a saída. Um abraço!

(Publicada no Blog do Nêumanne na quarta-feira 4 de julho de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Politica, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/icone-do-passe-livre-afonsinho-prega-mais-forca-para-os-clubes/

Nêumanne entrevista Afonso Celso Garcia Reis, Afonsinho. 12ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista Afonso Celso Garcia Reis, Afonsinho. 12ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

No Blog do Nêumanne: STF: suprema tavolagem federal

No Blog do Nêumanne: STF: suprema tavolagem federal

Supremo devia ser instância de juízes de reputação ilibada e notório saber jurídico para dirimir querelas judiciais à luz da Constituição e virou casa de apostas onde ministros lutam por causas pessoais

“O atual Supremo não parece muito afeito a questões jurídicas, por mais relevantes que elas sejam num Estado de Direito. O rigor técnico tem cada vez menos importância. O que importa é a perspicácia de antever os movimentos dos outros ministros e assegurar um jeito para que sua posição prevaleça. É assim que se pratica a tavolagem na Suprema Corte.” Esta frase não é de autoria de um político de oposição ou do patrocinador de algum pleito não atendido em decisão monocrática, plenário de turma ou dos 11 membros do Supremo Tribunal Federal (STF), mas faz parte do editorial intitulado Fuzuê, publicado no domingo 1.º de julho de 2018 em O Estado de S. Paulo. Para o leitor desacostumado de brasileirismos nestas eras de anglicismo cibernético, convém lembrar o significado desse título, de acordo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa: “substantivo masculino, brasileirismo informal; folia coletiva, ruidosa, animada por música, dança, alegria; carnaval, folia, funçanata, pândega.” Ou ainda, “por extensão informaldesavença, altercação agressiva envolvendo várias pessoas; briga, confusão, desordem, rolo”.

Em preito à clareza e culto ao idioma falado e escrito como mandam os cânones, talvez convenha acrescentar, para não deixar brechas à incompreensão ou à confusão própria dos fuzuês, termo usado no título de uma peça de teatro do poeta paraibano Marcos Tavares (Fuzuê de Finados), o verbete que esclarece o que seja tavolagem em outro dicionário. Vamos ao Aulete Digital, sem delongas: “substantivo feminino. 1. Vício do jogo; jogatina 2. Casa destinada aos jogos de azar; baiuca, cassino, garito, jebimba, tabulagem 3. Ant. Casa destinada aos jogos de tabuleiro”. Na tradicionalíssima página A3 desse diário, fundado em 1875 e desde então dedicado a causas como a abolição da escravatura, a proclamação da República, a revolução constitucionalista paulista de 1932 e a resistência às ditaduras do Estado Novo e militar de 1964, essa comparação das sessões do STF com o vício do jogo resulta de profunda reflexão sobre fatos recentes. E passa a merecer a atenção de todos.

O editorial acima citado comentou a suprema insolência apelativa descrita de Nota & Informações e, no verso dessa, foi reproduzida reportagem importante e chocante da autoria de Julia Affonso, do Blog do Fausto, espaço reservado ao melhor da reportagem investigativa na imprensa brasileira. O título da abertura da editoria de Política do Estado do domingo 1.º foi: Defesa de Lula entrou com 78 recursos do caso tríplex. Acima do texto propriamente dito, o espanto provocado pelo título é devidamente justificado na linha fina acima dele: Lava Jato. Levantamento mostra que questionamentos foram apresentados entre fevereiro de 2016 e a semana passada: advogados do petista fizeram ofensiva no STF.

Para não perdermos de vista os “pais dos burros”, assim mesmo como o vulgo define os dicionários, muito vendidos e pouco lidos – e esses tomos deveriam ficar sempre ao alcance de nossas mãos –, talvez urja esclarecer que no caso a palavra “ofensiva” pode abarcar pelo menos dois significados. O primeiro, usado conscientemente pelo redator, quer dizer ataque. A defesa de Lula atua como um avanço de tropas contra o território inimigo. O segundo, depreende o leitor mais atento, representa um sinônimo de insolência, ou seja, uma extensão da palavra ofensa em seu sentido mais comum. Os advogados do petista, que não se cansam em atacar o Poder Judiciário da planície ao topo da montanha, ofendem não apenas seus membros de primeira, segunda e terceira instâncias, como também exercem o desplante de exigir da última delas comportamento condizente não com os autos dos processos aos quais seu cliente responde, mas de acordo exclusivamente com a conveniência dele.

No domingo em que julho foi inaugurado, o editorial do Estado e o levantamento feito por Júlia Affonso justificaram com sobras muitas atitudes da defesa do ex-presidente. O relator da Lava Jato no STF, Edson Fachin, pediu à Procuradoria-Geral da República parecer sobre recurso dos defensores de Lula contra a condenação do cliente pelo juiz da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba, Sergio Moro, sentença confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, em Porto Alegre. Mas os causídicos não se satisfizeram com a decisão e exigiram que sua demanda fosse encaminhada diretamente à Segunda Turma do Supremo, também conhecida como “o jardim do Éden” pela generosidade com que de três a quatro (às vezes) dos cinco membros concedem habeas corpus a quem os pede. Fachin não ficou esperando sentado a decisão majoritária de seus “colegas” de turma e encaminhou o recurso ao plenário de 11. Antes do recesso de julho Alexandre de Moraes negou o pedido malcriado.

Por sinal, o membro da Academia Brasileira de Letras e professor de Direito da Fundação Getúlio Vargas Joaquim Falcão, especialista em STF, fez uma magnífica descrição da distorção provocada pela guerra interna dos “supremos” que permitem tais malcriações. No artigo A Segunda Turma é o Supremo, publicado na quarta-feira 27 de junho no jornal O Globo, Falcão focou a situação com olhos de águia e desferiu: “A questão hoje não é a palavra final. É a palavra intermediária. É quem manda no ‘durante’. Até chegar ao final. E como o atual sistema é de recursos infindáveis, o final também é, às vezes, infindável. Não adianta o plenário dizer que cabe prisão a partir da condenação em segunda instância. Pois a Segunda Turma pode sempre interpretar diferentemente. Nos últimos tempos, os ministros Ricardo Lewandowski, Dias Toffoli e Gilmar Mendes consolidaram uma maioria de três que têm tentado, e muitas vezes conseguido, controlar a Segunda Turma — composta de cinco ministros”. Ou seja, os representantes de Lula provocam porque os “colegas” de Fachin permitem. E o resto é balela.

O resultado dessa batalha absurda só será conhecido em agosto, pois na “tabulagem” do Supremo o sorteio do recurso de Lula versusFachin caiu nas mãos de Alexandre de Moraes, que é da Primeira Turma, cujo desempenho na concessão de habeas corpus é normalmente oposto ao da Segunda. Isso ocorre graças à posição do próprio Moraes, de Luiz Fux e Luis Roberto Barroso, que conta com o apoio de Rosa Weber, que vota contra a própria convicção por apoiar a permanência da jurisprudência da autorização de prisão após condenação na segunda instância, após ter dado na votação da medida voto vencido. Nessa turma, Marco Aurélio Mello, que faz de tudo para desmoralizar os oponentes que o derrotaram na votação, mantém uma tradição antiga de se isolar naquilo que chama de suas convicções. Por isso, ao contrário da Segunda, a Primeira Turma do STF foi chamada de “câmara de gás” por Gilmar Mendes, cujo voto ajudou a formar a jurisprudência, mas agora a combate com inusitada ferocidade.

Na semana passada, o citado ministro Mello deu exemplo de como se comporta nessa guerra de chicanas autorizadas com citação constitucional: concedeu habeas corpus ao multicondenado do MDB Eduardo Cunha, que, contudo, foi mantido preso por conta de outros dois mandados de prisão. Ou seja, ele não quis soltar o “Caranguejo” da Odebrecht, mas desafiar a decisão da presidente Cármen Lúcia de não marcar, como ele pretende, a rediscussão da jurisprudência até setembro, quando ela entregará a presidência da Corte a Dias Toffoli. Este foi lembrado nas redes sociais por ter mantido preso um morador de rua acusado de furtar uma bermuda de R$ 10, da mesma forma que soltou o ex-chefe José Dirceu, acusado de roubar R$ 10 milhões na Lava Jato. Será possível, então, dizer que o “garantismo” do futuro presidente do STF não é medido em unidades, mas em milhões?

E mais: a defesa de Lula, que pediu para a inelegibilidade dele pela ficha suja ser anulada no “jardim de Éden”, para o caso de votação no pleno, desistiu do pleito, o que não passou despercebido a Fachin. Que tal?

Seja lá como for, certo é que, se a “suprema tavolagem federal” mantiver sua atitudes recentes, descritas no editorial do Estado e no artigo de Falcão, as bancas milionárias de advogados grã-finos continuarão suas ofensas ofensivas, tal como a descrita por Júlia Affonso no caso de Lula.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda 2 de julho de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/stf-suprema-tavolagem-federal/

No Blog: Nêumanne entrevista Aninha Franco

No Blog: Nêumanne entrevista Aninha Franco

Solitária opositora de ACM e do PT, Aninha Franco, agitadora cultural em Salvador, vê luz no fim do túnel na sociedade “indignada, assustada, espoliada”

“Somos ex-colônia há pouco tempo, pois considero o Império um prolongamento colonial. Há 130 anos, humanos escravizados percorriam essas ruas do Pelourinho onde o Olodum percussiona e a República resiste ao populismo. Nossas Repúblicas Velha, Nova, Novíssima ainda não fizeram nada para humanizar esse passado”, dispara a poeta, dramaturga e, sobretudo, agitadora cultural que administra um espaço de prosa, poesia e gastronomia, a República Af, no Pelourinho, centro de sua cidade natal, Salvador, capital da Bahia de todos os santos. Militante petista à época do mando de Antônio Carlos Magalhães, hoje ela é pólo da oposição ao PT do novo patriarca, Jaques Wagner, o Jaquinho, favorito na disputa pelo Senado em outubro. No meio do atual conflito entre mortadelas e coxinhas, ela afirma, sem titubear: “Por experiência, devo dizer que ACM foi um opositor muito mais gentil que Jaques Wagner”. E quem quiser que negue.

Aninha Franco, nascida em 1951 em Salvador, naBahia, é leitora voraz e exigente, escritora de publicações homeopáticas. Hedonista. Assentadora de espaços culturais muito frequentados, o Bleff e o Espaço Bleff nos anos 1980, o Theatro XVIII nos Anos 1990 e 2000, a República Af nos anos 2010. Poeta até os anos 1990, historiadora cultural quando necessário, dramaturga sempre que necessário. Colunista, gourmet e bibliófila sempre. Atualmente, acompanha a edição de Anotações sobre o Fim doSéculo na Cidade da Baía, projeto que ganhou a Bolsa Vitae em 2004, com publicação prevista para este ano. E organiza os 14 mil títulos da República, sua cozinha e sua sala de degustações (Sala Ita) “para receber pessoas de bom gosto.”

Nêumanne entrevista Aninha Franco

Em sua República Af, em pleno Pelourinho, Aninha atua em política, poesia, teatro e cultura, especialmente a afro. Foto: Acervo pessoal

Em sua República Af, em pleno Pelourinho, Aninha atua em política, poesia, teatro e cultura, especialmente a afro. Foto: Acervo pessoal

JNP – Nós dois somos da geração em que a produção de arte e cultura era irmã gêmea da liberdade, da criatividade e também da irreverência e da rebeldia. O que está acontecendo no Brasil, que, nestes últimos anos, os artistas, pendurados em verbas do Ministério da Captura passaram a se submeter a partidos e políticos, numa devoção mais religiosa do que leiga?

AF – Sobreviver de arte sempre foi difícil no Brasil, país que surgiu de um entreposto colonial pra enriquecer a Europa. Durante séculos os artistas foram invisíveis e não serviam pra nada. Depois que a televisão lhes deu visibilidade, eles passaram a ser capturados pelo capital/governos do PSDB por meio das leis de incentivo, adaptadas em 2002 aos interesses lulopetistas de controle de pensamento e propaganda. O edital, por exemplo, que era uma ferramenta de incentivo aos jovens talentos até 2002, foi transformado em bolsa de controle artístico. Na Bahia, as comissões que selecionam produções servem ao lulopetismo e os artistas premiados, também. Os espectadores, que não são bobos, se recolheram em casa. A produção cultural baiana está assim neste momento.

N – A senhora virou uma espécie de bastião isolado da contestação na Bahia, que sempre foi um Estado inconformista, desde os tempos de Gregório de Matos, o Boca do Inferno, até o comunista Jorge Amado, o gênio iconoclasta Glauber Rocha e os tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil. O que mudou em seu Estado para que esse inconformismo virasse uma procissão de mendigos de verbas cantando loas ao chefão de ocasião e pedindo esmolas a el-rey?

A – A Bahia foi colonizada pelos jesuítas, a serviço do Vaticano. Os jesuítas controlaram sua educação e modelaram sua mentalidade de 1549 a 1759. Viver do Estado é uma prática enraizada na Bahia desde a colônia. E como viver do Estado e fazer oposição ao governo, na Bahia, são antônimos perfeitos, a oposição por aqui é sempre temporária. Faz-se oposição, mas não é nada sério.

Eu sempre estive na oposição. Fiz oposição a ACM, quase sozinha, da juventude à maturidade. O poder de ACM foi longo. Trabalhei para eleger o PT na Bahia, mas quando ele venceu me mudei pra oposição. Por experiência, devo dizer que ACM foi um opositor muito mais gentil que Jaques Wagner. Nos primeiros momentos do governo Wagner, em 2007, eu tive a impressão de que estava sob a gestão de Médici que nós sabemos como foi. Os lulopetistas subalternos são raivosos, ressentidos, e quando chegaram aos seus pequenos poderes acharam – ainda acham – que eram donos do Estado, com tudo o que havia dentro dele.

Aninha recebendo o Prêmio Remington de Poesia das mãos do presidente Austregésilo de Athayde na Academia Brasileira de Letras, em 1976. Foto: Acervo pessoal

Aninha recebendo o Prêmio Remington de Poesia das mãos do presidente Austregésilo de Athayde na Academia Brasileira de Letras, em 1976. Foto: Acervo pessoal

N – Nós dois somos de um tempo em que pessoas que discordavam umas das outras se respeitavam, pois mais do que a defesa desenfreada de convicções, que sempre termina em xingamentos grosseiros, quando não em desforço físico, valiam o fogo e a luz que surgem dos debates. O que, a seu ver, motivou essa transformação, que faz tanto mal à vida social e à necessidade de união para sairmos da encrenca em que nos metemos?

A – A existência de pensamento impõe esse respeito de que você fala. Somos de uma geração educada pela escola laica/pública para pensar, escola que sobreviveu pouco tempo. Quando os jesuítas, que detiveram o monopólio da educação brasileira até meados do século 18, foram expulsos, deixaram a lacuna enorme da educação da colônia, que depois de cem anos de República não foi preenchida. Mas parece que entre os anos 1930 e 1970 houve um projeto bom de educação laica/pública. Eu tive isso que a ditadura desmontou nos anos 1970. E que nenhum político fala em remontar. Por isso o Brasil está esse gigante “pela própria natureza”, à deriva, achando que Lula ou Bolsonaro estão aptos para governá-lo.

N – A Bahia já foi o território de Juraci Magalhães, tenente de 1930, e de Antônio Carlos Magalhães, o ACM, Toninho Malvadeza ou Toninho Ternura, dependendo das circunstâncias, e hoje é território impenetrável do PT, em que Lula é deus, Jaquinho Wagner, seu profeta e Rui Costa, o balançador de turíbulo. A senhora diria que esses coronéis de direita e esquerda seriam azeite de dendê da mesma garrafa?

A – O dendê oligarca de ACM e o dendê aparentemente novo dos sindicalistas têm o mesmo ranço populista. ACM controlou a Bahia durante toda a sua vida adulta. Elegia-se senador e despachava como governador porque ele havia elegido o governador. ACM foi o inventor dos postes que Lula copiou. Controlava os três Poderes com uma habilidade que espantaria Montesquieu. Mas com esse poder exercido por tanto tempo, ele esqueceu de um detalhe importantíssimo: esqueceu que era mortal e estava aqui de passagem, como todos nós. Quando saiu da vida política baiana pela porta da morte, deixou uma massa pronta e deseducada para a política populista dos sindicalistas, que têm entre seus objetivos apagar a memória de ACM do Estado. Estamos neste momento de Bahia.

Homenagem do ator (Cinema Novo) e artista plástico Sante Scaldaferri a Aninha Franco e ao Theatro XVIII. Foto: Acervo pessoal

Homenagem do ator (Cinema Novo) e artista plástico Sante Scaldaferri a Aninha Franco e ao Theatro XVIII. Foto: Acervo pessoal

N – Do Pelourinho, onde fica sediada sua República, a senhora costuma andar para áreas longínquas do imenso território nacional. Quais seriam, segundo suas impressões de viagens, as principais causas da crise moral, política, econômica, financeira, espiritual e social que está levando nosso Brasil velho de Cabrália a virar frege e beleléu?

A – Somos ex-colônia há pouco tempo, pois considero o Império um prolongamento colonial. Há 130 anos, humanos escravizados percorriam essas ruas do Pelourinho onde o Olodum percussiona e a República resiste ao populismo. Nossas Repúblicas Velha, Nova, Novíssima ainda não fizeram nada para humanizar esse passado. E o presente continua perverso com qualquer brasileiro que não seja político. A capacidade de pensar, no Brasil, que sempre foi combatida com ferocidade, com esquartejamentos e torturas, hoje é combatida institucionalmente, com educação de péssima qualidade. Li em Hannah Arendt dos anos 1970 que, possivelmente, 6% de humanos pensavam no planeta e, portanto, eram racionais. Temo conhecer a porcentagem dos que pensam no Brasil de hoje. Mas a irracionalidade brasileira está exposta. E é mortal.

N – Por que a senhora nunca se engajou na palavra de ordem de muitos de seus companheiros de velhos tempos que pregavam o fim da corrupção e hoje querem o juiz Sergio Moro fora e o condenado Lula livre?

A – Eu sou anarquista desde que li Bakunin, quase adolescente. Nunca fui comunista ou socialista. A Polícia Federal invadiu minha casa em 1971 e me levou para o Dops por causa de um cordel que eu escrevi, A História de um Militante nas Unhas de Um Militar, e dei de presente ao meu namorado do PCB, contando como ele entregaria todo mundo quando fosse preso. Ele foi preso e me entregou. Eu estava com 19 anos, mas já sabia que o comunismo tinha um componente (im)previsível: a espécie humana.

Nos anos 1970, Aninha circulava na moto Rocinante, companheira a caminho do Forum (advogou) e das praias de Salvador. Foto: Acervo pessoal

Nos anos 1970, Aninha circulava na moto Rocinante, companheira a caminho do Forum (advogou) e das praias de Salvador. Foto: Acervo pessoal

 N – O que a senhora considera mais daninho para a moral, os bons costumes e os lhanos negócios republicanos: a roubalheira encampada pelo PT e seus cúmplices ou a comodista aceitação da propina pelo PSDB fingindo que era oposição para se dar bem na vida?

A – Os dois. PT e PSDB são iguais. A turma da Segunda Turma (Gilmar, Tofolli e Lewandowsky), nomeada por FHC e Lula para o STF, é a expressão precisa de como o PT e o PSDB são semelhantes e agem da mesma maneira.  Os dois fazem a mesma coisa com regras cerimoniais próprias. Por exemplo, um político do PSDB jamais chamaria sua propina de “pixuleco”. Aécio chamou seu acerto financeiro com Joesley de “empréstimo”. Mas, no final, os maços de dinheiro são a mesma coisa.

N – O que a senhora espera que aconteça na Bahia de Todos os Santos e no Brasil de todos os demônios para que, se não se ufane, como o conde Afonso Celso, ou não se orgulhe, como os patrícios que ainda choram quando ouvem o Hino Nacional nos pódios olímpicos, pelo menos não tenha mais motivos para se envergonhar e até se enojar de nossa Pátria?

A – Eu não tenho a mínima ideia do que acontecerá com a Bahia nos próximos anos. A era oligárquica de ACM acabou. E foi substituída por uma oligarquia sindicalista que tem ACM como modelo. Os sindicalistas repetem todos os defeitos de ACM, mas como são limitados intelectualmente não conseguem repetir suas virtudes. O Estado sindicalista perdeu todas as conquistas dos anos 1990 em cultura e turismo, sob o comando de ACM. E não consegue avançar em nenhuma área. Temos algumas das cidades mais violentas do Brasil, nós que há 30 anos éramos conhecidos por nossa cordialidade. Alguns dos 417 municípios do Estado não produzem nada e sobrevivem de Bolsas Família. E não percebo projetos para alterar isso, infelizmente.

Aninha com a comerciante Socorro, vizinha da biblioteca e da mesa de refeições de sua República Af, no Pelourinho. Foto: Acervo pessoal

Aninha com a comerciante Socorro, vizinha da biblioteca e da mesa de refeições de sua República Af, no Pelourinho. Foto: Acervo pessoal

N – Que critérios a senhora usará para escolher um candidato em quem votar nas próximas eleições de outubro, se é que pode haver algum?

A – Se nenhum dos candidatos me convencer de que pode alterar esse modelo horrível que nos governa desde sempre, votarei em alguém com nenhuma possibilidade de vencer. Já elegi o PT. Não quero ser cúmplice, mais uma vez, da deriva do Brasil.

N – Sua experiência de lutas política e cultural lhe permite enxergar uma luz no fim do túnel ou o farol do trem descarrilado, quando o resultado das contestadas urnas eletrônicas indicar um começo de reconstrução das ruínas da crise total ou a caminhada cega do rebanho de ovelhas?

A – Não vejo nada que possa ser considerado recomeço nos políticos e nas políticas brasileiras neste momento. Mas percebo uma sociedade no fim do túnel, indignada, assustada, espoliada. E nela tem luz.

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Nêumanne entrevista Aninha Franco. 11ª. Edição da Série 10 Perguntas. http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne

Nêumanne entrevista Aninha Franco. 11ª. Edição da Série 10 Perguntas. http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne

No Blog do Nêumanne no Estadão: A face volúvel da bola

No Blog do Nêumanne no Estadão: A face volúvel da bola

Mundial da Fifa não será resolvido apenas no campo do jogo, mas também na disputa política e de interesses

Como a mulher na famosa ária da ópera Rigoletto, de Verdi, a bola que rola em campos da Rússia no momento em que este texto é lido, é volúvel. Ou seja, pode ser clara, mas nem sempre supera o modo cada vez mais negocial do esporte que mobiliza paixões de massas e lucros, muitos lucros. Maior e mais permanente espetáculo da Terra, superando o circo, o samba e os festivais de rock na constância e na ocupação dos horários da programação da televisão, veículo de informação e entretenimento por excelência do nosso tempo, não se pode nutrir a vã ilusão de que tudo se resolva com absoluta fidelidade à justiça e ao decantado fair play. E não se trata de um fenômeno resultante dos interesses pecuniários envolvidos no jogo ou posterior à descoberta da corrupção nas entidades confederadas e internacionais que promovem os grandes torneios. É provável, embora não mais comprovável, que maus hábitos influam nos resultados de partidas e campeonatos desde as priscas eras do amadorismo então dito marrom.

Aos 67 anos, torcedor de arquibancada e telespectador de futebol desde a infância numa família de rubro-negros apaixonados, começo as minhas lembranças do ludopédio relembrando fatos antigos que não recomendam a história do Clube do Regatas do Flamengo como primor de ética e espírito meramente competitivo. A década de 1950 começou com uma superioridade esportiva avassaladora do Clube de Regatas Vasco da Grama, base da seleção nacional que protagonizou o maracanazo contra a campeã Celeste uruguaia há 58 anos. A supremacia cruzmaltina foi desafiada por outro alvinegro, o Botafogo de Futebol e Regatas, cujo ataque era arrasador, com Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagallo. Mas minha memória de torcedor registra uma fotografia na sala de refeições da casa paterna de nosso time tricampeão de 1953, 54 e 55. Parte da explicação pode ser dada por atuações acima da média de atacantes como Evaristo, que depois seria estrela no Real Madrid e no Barcelona, e Dida, o maior ídolo do clube até a passagem de Zico. No entanto, a história registra que, àquela época, o genial romancista paraibano José Lins do Rego liderou um grupo chamado Os Dragões Rubro Negros para abordar e comprar (talvez a palavra mais exata fosse alugar) o serviço sujo dos árbitros de então. Vai saber…

À mesma época, o Santos formou uma equipe reputada como a melhor de todos os tempos. Vencedor da Libertadores da América e campeão mundial de clubes, o “peixe” tinha uma linha atacante comparada à citada do Botafogo: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Mas meu padrinho jornalístico J. B. Lemos, que foi goleiro do Rádio de Mococa, no interior paulista, jurava de pés juntos que o talento mais efetivo do dito clube praiano era o do bem-sucedido dublê de cartola e político Athiê Jorge Curi, seu presidente. Lemos e Walter Silva, o Picapau do Picape, que divulgavam essa versão, eram corintianos fanáticos (perdão pelo pleonasmo) e todos se lembram de que o Corinthians, à época chamado de “faz-me rir” e presidido pelo também político e dirigente Wadih Helu, era freguês do Santos, só desafiado pela Academia palmeirense.

Mas vamos aos fatos e às Copas. Comecemos pelas ganhas pelo Brasil. Em 1962, o time envelhecido de 1958 esteve a pique de ser eliminado na disputa de grupos ao vencer o México, empatar com a Checoslováquia e começar perdendo para a Espanha, a Fúria, o mais badalado selecionado europeu. O lateral esquerdo Nilton Santos, do timaço do Botafogo, fez pênalti no atacante espanhol, deu um passo para fora da área e para lá foi transferida a cobrança. Aí, a história registra, Amarildo, substituto de Pelé, contundido, marcou duas vezes, virou o jogo e o time terminou sendo bicampeão.

Garrincha tornou-se o dono do time e o conduziu à vitória contra o Chile, dono da casa, mas cometeu uma infantilidade à Neymar Jr., agredindo um adversário e ele, logo ele, caçado por zagueiros “botinudos”, foi expulso. Um emissário brasileiro tirou o árbitro da semifinal de circulação e, sem sua súmula, Garrincha atuou e ganhou o jogo final, dando o bicampeonato a praticamente a mesma equipe que fez a façanha de ser o único selecionado não europeu a ganhar a taça na Europa. A Confederação Brasileira de Desportos (CBD) era comandada, então, por João Havelange, que deu início ao reinado de Macunaíma na sede suíça da Fifa.

Em 1966, os fundadores do esporte bretão que consagrou Biro-Biro conseguiram sua Copa do Mundo em meio a muitas denúncias de apito a favor. Há 52 anos não havia tecnologia para decidir se a bola teria, ou não, cruzado a linha fatal, nem árbitro de vídeo para ajudar o juiz. Mas o fato de a Inglaterra nunca ter conseguido um título fora de casa aumenta as suspeitas. Em 1970 o Brasil era poderoso na Fifa, montou um timaço, considerado o melhor de todos os tempos, e ficou em definitivo com a almejada taça, que foi roubada e, ao que tudo indica, derretida.

Já a vitória da Argentina em casa, oito anos depois, foi maculada pela suspeita de que os ditadores militares no poder tenham contribuído mais para o primeiro lugar da seleção do que seu grande goleador Mario Kempes ou o badalado treinador César Mennotti. Que brasileiro esqueceu o gol de cabeça de Zico no último segundo da partida, após cobrança de escanteio, com o assoprador de apito encerrando o jogo com a bola no ar? Mais inesquecível ainda foi a goleada imposta pelo campeão ao Peru, com os anfitriões sabendo que precisavam de quatro gols para se classificar e marcaram seis. O escândalo foi tal que, depois dele, foi adotado o calendário de jogos decisivos simultâneos, como foi feito na última rodada da fase de grupos na Rússia.

Outro título argentino foi no México, com um gol de mão de Maradona, que revoltou o mundo esportivo, mas não abalou a comemoração dos “hermanos”, que passaram a batizá-lo de obra da “mano de Diós”. Como decisão de árbitro não volta atrás, todo mundo viu, o resultado foi mantido, o título não foi discutido e Maradona virou deus.

Fala-se muito no apito generoso nos anos dourados do Corinthians neste século 21, mas pode ser intriga dos adversários. Reclama-se da atuação de José Roberto Wright na semifinal da Libertadores de 1981, vencida pelo Flamengo após expulsões em série de jogadores do Atlético Mineiro. Ah, mas agora há a tecnologia que mostra se a bola ultrapassou a linha e o vídeo que ajuda a esclarecer jogadas de área. Ajuda?

De novo aos fatos. No prélio entre Brasil e Suíça, o zagueiro suíço empurrou o coleguinha brasileiro Miranda e empatou o jogo de cabeça. Os europeus ficaram com 1 dos 3 pontos que perdiam. O telão no estádio mostrou o empurrão e a Fifa recriminou o erro da exibição do replay. Chororô brasileiro? E que tal a jogada que entrou para a história da Copa da Rússia como ménage à trois, na qual dois zagueiros suíços abraçaram, um pela frente e outro por trás, o avante sérvio que cabecearia para o gol? E não terminaram vencendo o jogo? Coincidência? O fato de a Suíça sediar a Fifa, é claro, nada influiu nessa decisão. Mas será que só o vídeo não viu?

E a campeã do mundo só não caiu na fase de grupos porque o árbitro do jogo e o de vídeo também não enxergaram o empurrão flagrante de Boateng no sueco. O comentarista Edinho, do SporTV, disse que o pênalti só não foi marcado porque a vítima chutou. Quem vê o repeteco sabe que ele não finalizou, mas foi empurrado e a bola bateu nele de volta. O apitador de campo precisa de um cão de guia ou deu pau no tal do VAR?

Os apressadinhos dizem que, antes de embarcar para Sochi, o técnico Tite conseguiu o feito extraordinário de isolar a seleção que ele treina da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em sua caverna de Ali Babões. Quem acreditar nessa bazófia pode embarcar para a Lapônia e treinar a seleção local sob o patrocínio de Papai Noel. Como separar o selecionado de um dirigente como Antônio Carlos Nunes Lima, o coronel Nunes, que se comprometeu a votar em Estados Unidos, Canadá e México para sedes de 2026 e sufragou o Marrocos só por imaginar que o voto seria secreto? A Fifa não deixa de ser como o é a CBF de Marin preso, Sel Nero evitando a prisão sem poder sair do território nacional e do tal basbaque proscrito. Não será fácil ganhar só com bola, como imaginam os ingênuos. Mas, com esses dirigentes, a imaturidade do maior craque do Brasil é limonada refrescante, comparada com a fraqueza política de nossos cartolas gatunos.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 25 de junho de 2018)

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No Blog: Nêumanne entrevista José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni

No Blog: Nêumanne entrevista José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni

No Brasil estamos “trancados e sem saída”, diz Boni

Para ex-diretor da Globo, corrupção, políticos que não largam o poder e falta de governabilidade são problemas para os quais nenhum candidato à eleição aponta soluções

“Os três maiores problemas do Brasil são a corrupção, a eleição repetitiva dos mesmos políticos e a falta de governabilidade”, disse José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni, criador, com Walter Clark e Joe Wallach, da maior revolução estética na comunicação de massas no Brasil: o padrão Globo de qualidade. Nesta entrevista, ele expressou a voz da maioria da população brasileira, que conta com a Operação Lava Jato e novas leis contra a roubalheira, causa da maior crise moral, política, social e econômico-financeira da História. “Dependemos da renovação dos nossos representantes, mas não vejo na lista dos partidos uma quantidade significativa de candidatos novos”, afirmou. Ele também pregou a reforma política para resolver o impasse da governabilidade, lamentando que, para as eleições gerais do fim do ano, “nenhum projeto sólido e confiável foi apresentado por qualquer candidato”. E mais: “pelo que ouço nas ruas, a população está descrente e sem motivação para votar. Parece estar adivinhando que vamos continuar trancados e sem saída.”

 Comparado com os outros países, o Brasil parece um faz de conta e só sobrevive porque é grande demais, acha Boni. Foto: Acervo pessoal

Comparado com os outros países, o Brasil parece um faz de conta e só sobrevive porque é grande demais, acha Boni. Foto: Acervo pessoal

Boni nasceu em Osasco (Grande São Paulo) em 1935, filho do dentista Orlando de Oliveira, que tocava cavaquinho no regional de Armandinho, e da jornalista, psicóloga e escritora Kina de Oliveira, que lançou um blog aos 94 anos de idade, enquanto escrevia livros, às vezes simultâneos. Sobrinho de Hermínio, do conjunto vocal Quatro Ases e um Curinga, frequentou desde garoto os bastidores das emissoras de rádio. Aprendeu a escrever com Dias Gomes e Manuel da Nóbrega. Trabalhou na produção das pioneiras TVs Tupi, Paulista e Excelsior de São Paulo, na agência de publicidade Lintas e na Lynx Filmes, entre outras. Levado pelo americano Joe Walach, na companhia de Walter Clark, com quem trabalhava na TV Rio, introduziu na TV Globo o conceito de grade na programação, até hoje usado, e fundou a rede nacional de TV, inaugurada com o Jornal Nacional, eterno campeão de audiência do telejornalismo. Atualmente é dono da TV Vanguarda, afiliada da Globo em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo.

Boni com a mãe, dona Kina, que escreveu livros, alguns simultâneos, enquanto viveu e criou um blog aos 94 anos. Foto: Acervo pessoal No Brasil estamos “trancados e sem saída”, diz Boni

Boni com a mãe, dona Kina, que escreveu livros, alguns simultâneos, enquanto viveu e criou um blog aos 94 anos. Foto: Acervo pessoal
No Brasil estamos “trancados e sem saída”, diz Boni

A seguir, Nêumanne entrevista Boni

Nêumanne – Durante certo tempo, a Globo, depois de ter adotado o padrão de qualidade da programação que o senhor exigia, teve um monopólio de audiência inédito na história da televisão brasileira e inigualável no resto do mundo. O que esse reinado tem que ver com tal padrão?

Boni– A conquista de um padrão de qualidade foi um trabalho de equipe. O americano Joe Wallach havia sido chamado para recuperar as finanças da falida Globo e pesquisou o mercado brasileiro de profissionais de televisão e nos convidou, a mim e ao Walter Clark, para operar a Globo. A emissora do Rio de Janeiro ocupava o quarto lugar de audiência. A TV Paulista amargava o quinto lugar em São Paulo. O mercado publicitário aplicava pouca verba em televisão, uma vez que em 1967 não existiam mais que 3 milhões de aparelhos de TV em todo o Brasil. Nos Estados Unidos a televisão havia nascido a partir da poderosa indústria do cinema. Aqui não havia produção e os talentos disponíveis eram raros.  Parecia impossível sobreviver num mercado tão fraco com concorrentes, na época, muito fortes. Entendemos que não seria suficiente mudar a Globo, e sim que havia necessidades de renovar a televisão brasileira, seu conteúdo, sua gestão e sua comercialização. Com uma equipe de especialistas executamos um projeto amplo e não abrimos mão de uma execução perfeita e com aprimoramento contínuo. Prometemos à Globo que em cinco anos chegaríamos à liderança, mas em apenas três atingimos esse objetivo.

N – Padrão de qualidade não é certamente o forte da administração pública brasileira e até mesmo da gestão em nosso setor privado. Como empresário bem-sucedido em seu ramo de comunicação eletrônica, o senhor se disporia a explicar por que um país que conheceu um sucesso tão avassalador como foi o da Globo só tem piorado em seu desempenho negocial?

B – Pode parecer que as diferenças entre a atividade pública e a atividade privada impeçam uma comparação. Mas, no fundo, são a mesma coisa. Os pilares que sustentam uma administração eficiente são: seriedade, competência, coragem e determinação. Seriedade e competência são fundamentais para a elaboração de um projeto amplo e consequente. Sem projeto não há empresa nem haverá nação.  Um projeto compreende metas definidas e prazo para atingi-las, e prioridades determinadas com coragem e determinação na execução, de forma a evitar desvios de percurso. No caso do Brasil eu acredito que a ênfase estaria nas prioridades. Não dá para tentar resolver tudo de uma vez, repartindo verbas para contentar a todos. Uma noite, em Brasília, o diretor da Globo Toninho Drummond me convidou para jantar com Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, exatamente quando se elaborava a Constituição de 1988. Perguntei ao dr. Ulysses se o trabalho estava indo bem. Ele me respondeu, literalmente: “O Brasil é o país da demanda. Todos querem puxar a brasa para sua sardinha.  Chegar a um acordo é um desespero.”

 Boni com Walter Clark e Roberto Marinho, artífices de sucesso prometido para 5 anos e realizado em 3. Foto: Acervo pessoal

Boni com Walter Clark e Roberto Marinho, artífices de sucesso prometido para 5 anos e realizado em 3. Foto: Acervo pessoal

N – De uns tempos para cá, as emissoras abertas têm sofrido uma concorrência comercial cerrada dos canais por assinatura e outras modalidades possíveis com a cibernética. Tal como a imprensa e a radiofonia, a televisão comum tem seus dias contados no futuro ou o senhor acredita que há como se adaptar e sobreviver?

B – Imprensa é um mundo em extinção. Depende de papel e transporte para entrega. Vai ter de migrar completamente para a internet. Fazem parte de outro mundo a radiofonia, a  televisão aberta ou por assinatura e a internet. Todas essas plataformas são de um mesmo mundo. São apenas distribuidoras de conteúdo e são complementares entre si.  O que vai determinar quando e como o usuário estará utilizando esse grupo de veículos será o conteúdo.  Com a avalanche e a rapidez das alterações tecnológicas é impossível prever o futuro. Mas uma única coisa é certa: os grandes produtores de conteúdo sobreviverão.

N – O monopólio de audiência produziu riqueza e muito poder para o grupo da família Marinho e seus principais executivos, além de ter distribuído celebridade instantânea a seus funcionários no jornalismo e no entretenimento, influindo muito na produção da cultura. O que a literatura, o teatro, o cinema, a música popular e as artes plásticas  ganharam e perderam com essa influência?

B –  Alberto Madia, presidente da Academia Brasileira de Marketing, autor dos livros mais vendidos sobre o assunto, Prêmio Jabuti de 2006, costuma dizer: “A Globo revolucionou a estética brasileira”. Eu tenho certeza que a Globo deu uma contribuição sem precedentes para o entretenimento, informação, educação e cultura. A literatura ganhou espaço na televisão. Só no meu tempo foram adaptadas e exibidas 282 obras de autores brasileiros e internacionais.  A produção da Globo influiu na linguagem, na moda, no grafismo e até na propaganda. A Globo, de forma permanente, faz uma intensa cobertura sobre artes plásticas, exposições e eventos dessa natureza.  O Telecurso ensinou o governo a produzir teledidática e formou milhões de alunos.  O teatro  recebe uma promoção diária e rotineira. No cinema tem coproduzido os melhores filmes da atualidade. Inúmeros talentos surgiram nos festivais da Globo e hoje os compositores e cantores brasileiros estão presentes em toda linha de programação. O Jornal Nacional foi o primeiro traço de união entre os brasileiros e a notícia.  As sucursais da Globo por meio dos satélites ligam o Brasil ao mundo.

Carnavalesco assumido, Boni foi tema da Beija-Flor de Nilópolis no desfile de 2013. Foto: Acervo pessoal

Carnavalesco assumido, Boni foi tema da Beija-Flor de Nilópolis no desfile de 2013. Foto: Acervo pessoal

N – Esse longo reinado, porém, também produziu, mais do que fastio, certa implicância com o poderio da Vênus Platinada. Lembro-me de que os metalúrgicos liderados por Lula nas greves do ABC já tinham uma palavra de ordem que a agredia: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. Hoje internautas se manifestam com fúria, a ponto de terem criado o neologismo “globolixo”. A que ponto podem chegar essas grosserias, que às vezes produzem até agressões físicas contra jornalistas a trabalho ou invasões de imóveis da empresa?

B– Ninguém chuta um cão morto. Hostilidades e protestos contra quem está em evidência são comuns. O Brizola aproveitou-se dessa oportunidade e tentou jogar seus eleitores contra a Globo. O PT aproveitou-se também e entrou nessa onda. A Globo, ela mesma reconhece que cometeu erros no passado, mas hoje é um exemplo de isenção, mantendo neutralidade e equidistância entre todas as correntes políticas. Devidamente comunicado e de forma transparente, qualquer veículo pode assumir uma posição política. Foi brilhante e é, até hoje, amplamente aplaudida a atuação do Estadão contra a ditadura Vargas. A tomada de posição de um veículo é um direito, quase um dever. Quanto à internet, todos nós partimos do princípio de que cada um é livre para dizer o que quiser. É bonito, mas perigoso. Sou contra a censura, mas a favor da responsabilidade. É importante limpar a “WEB” e responsabilizar quem cometer abusos. A Europa deu início a esse processo. Todos os países vão ter de encontrar caminhos.

N – Um dos negócios muito atingidos pelo reinado das diversas empresas de comunicação de massas foi o futebol. Em que a transmissão dos jogos em canais específicos todos os dias da semana mudou a indústria do ludopédio e até o comportamento das torcidas?

B – Gostei do ludopédio. Quer dizer que estamos na CML, a Copa do Mundo do Ludopédio? Pois a gente está vendo a força do futebol. É uma atração importante para a televisão. Eu, pessoalmente, sou contra a exibição semanal de futebol no horário nobre. Muitos jogos são desinteressantes e derrubam a audiência da emissora. Acho que deveriam ficar restritos aos fins de semana, em horários diurnos. O pior é que os jogos são feitos para atender à programação de televisão e os horários tardios vão acabar esvaziando os estádios. Estamos tomando um porre de futebol, não somente na TV, mas com excesso de campeonatos em todo o mundo e a acelerada contratações de jogadores. O torcedor comum já não sabe nem o nome de quem joga no próprio time.

Boni com Senna, campeão de automobilismo, cuja carreira foi acompanhada pelas coberturas da Globo. Foto: Acervo pessoal

Boni com Senna, campeão de automobilismo, cuja carreira foi acompanhada pelas coberturas da Globo. Foto: Acervo pessoal

N – O maior negócio do esporte televisado é a Copa do Mundo da Fifa. Como fanático telespectador de futebol, sinto certa indiferença minha e da torcida em geral em relação ao destino da seleção brasileira, embora em nada se tenha alterado, mas, sim, talvez até exacerbado, a paixão “clubística”. O senhor se arriscaria a dar um palpite sobre as causas desse fenômeno? 

B – O fenômeno é político, e não futebolístico. Está todo mundo preocupado com outra coisa: emprego, segurança, saúde e com o futuro em geral. Ninguém se liga nem nas eleições nem no futebol. Há também a lembrança da Copa de 2014. Como diria o Washington Olivetto, o primeiro 7 a 1 a gente nunca esquece. O frustrante empate com a Suíça na estreia da seleção também foi um balde de água fria. Vamos ver o que acontecerá quando o Brasil estiver caminhando melhor.

Boni com Joe Wallach, o americano que o levou com Walter Clark para mudar a TV nestes trópicos. Foto: Acervo pessoal

Boni com Joe Wallach, o americano que o levou com Walter Clark para mudar a TV nestes trópicos. Foto: Acervo pessoal

N – Além de seu ofício, o senhor envolveu-se muito também com os desfiles de escolas de samba no carnaval do Rio de Janeiro. Quais serão, a seu ver, as principais modificações que esse negócio poderá absorver para se manter ou até prosperar como “maior espetáculo da Terra”, principalmente na crise de segurança e violência do Rio?

B –  Temos no Rio um prefeito que, por natureza de sua religião, não é um entusiasta do carnaval. Mas o carnaval dá dinheiro e rende para a prefeitura. Além de ser a maior atividade turística do País, é um expressivo movimento da cultura popular brasileira.  Deveria haver mais investimento no carnaval, mas o que houve foi corte de verbas. Acho que com esse corte a qualidade caiu muito. Por outro lado, se não houver mudanças no Sambódromo, que foi construído há mais de 30 anos, os desfiles das escolas de samba vão continuar sofrendo desgaste e a festa vai acabar se transformando, simplesmente, em “carnaval de rua”. Quanto à violência, ela tem se mostrado pouco ativa no carnaval. Está todo mundo envolvido no evento, mas são os sambistas verdadeiros que descem para o asfalto. E é bom lembrar um samba do Wilson das Neves que diz: “O dia em que morro descer e não for carnaval, vai ser o juízo final”.

N – O senhor tem vivido a maior parte de seu tempo dividido entre o Brasil e o exterior, principalmente os Estados Unidos. Que impressões e lições o senhor obteve dessa experiência múltipla? Por que, ainda assim, o senhor não desistiu do Brasil?

B – Viajo bastante, não só para países desenvolvidos, mas para onde também a gente encontra fome e miséria. Países e cidades têm problemas. Mas todos se empenham em encontrar soluções. O Brasil, diante deles, parece um país do faz de conta. Governos, Congresso, instituições se parecem com os equivalentes em países de primeira linha, mas a realidade do nosso país é praticamente deixada de lado. O Brasil sobrevive porque é grande demais. Vou ficando por aqui. Sou um sonhador por natureza e teimoso por deformação profissional. Quem sabe se a gente vai…? Mas suspeito que só iremos mesmo por acaso e sorte.

 Boni, em 1998, na sacada de seu apartamento nos Jardins em São Paulo. Foto: Mônica Zarattini/AE

Boni, em 1998, na sacada de seu apartamento nos Jardins em São Paulo. Foto: Mônica Zarattini/AE

N – Como executivo importante de comunicação, o senhor conviveu com os chefões da política e da administração no Brasil. Depois da Lava Jato, combatendo a corrupção, e da falência do populismo assistencialista, que saqueou os cofres da República e produziu a maior crise da História, que saídas o senhor vê para o Brasil neste ano em que um governo desastrado dissemina a desesperança e nenhum dos candidatos à eleição presidencial tem a apresentar algo sólido e confiável à população?

B – O Brasil não tem um grande problema. Tem vários problemas enormes. Eu apontaria três como os mais importantes: a corrupção, a eleição repetitiva dos mesmos políticos e a falta de governabilidade. O combate à corrupção precisa da continuidade da Lava Jato e de  novas leis. Dependemos da renovação dos nossos representantes, mas não vejo na lista dos partidos uma quantidade significativa de candidatos novos.  E a governabilidade? Está aí um dos grandes problemas do Brasil. Entre outras reformas, a reforma política tem de ser discutida com urgência  para que o País possa libertar-se e progredir na velocidade exigida. E a eleição presidencial? Sua observação está corretíssima. Nenhum projeto sólido e confiável foi apresentado por qualquer candidato. Pelo que ouço nas ruas, a população está descrente e sem motivação para votar. Parece estar adivinhando que vamos continuar trancados e sem saída.

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entrevista10

Copa do Estadão: ‘Lorotites’

Copa do Estadão: ‘Lorotites’

O que ganha Copa não é saliva, mas, sim, talento, esforço e sorte

Na seleção brasileira jogam  Marcelo e Casemiro, que atuam no Real Madrid da Espanha, que acaba de ganhar a Liga dos Campeões da Europa; Neymar Jr., campeão francês pelo PSG; Gabriel Jesus, campeão da Primeira Liga britânica pelo Manchester City; e Roberto Firmino, vice-campeão da mesma Liga dos Campeões pelo Liverpool, da Inglaterra. O time treinado por Tite, que foi campeão mundial de clubes pelo Corinthians, fez uma eliminatória brilhante em primeiro lugar. Mas nada disso garante a taça.

O time empatou com a Suíça na estreia e isso não quer dizer que não possa ganhar o torneio na Rússia. Para tanto terá de mostrar mais talento, esforço e sorte. O golaço de Phelippe Coutinho resultou de seu engenho individual, não da construção do grupo. O empate da Suíça, de um jogo de sete erros. Thiago Silva e Marcelo se enrolaram com a bola na entrada da área e a perderam para os suíços: dois. O lateral esquerdo pegou uma sobra, perdeu a segunda chance de chutar para longe e teve de ceder lateral perto da linha de fundo: três. Shaqiri dominou e cruzou, a bola bateu em Miranda e saiu pela linha de fundo: quatro. O craque do time bateu o córner, a bola encobriu Casemiro na primeira trave e chegou à cabeça do zagueiro Zuker, que havia saído da esquerda para a direita passando por sete brasileiros em fila dupla, nenhum dos quais fez um movimento para lhe impedir o passeio, com facilidade que Nélson Rodrigues compararia com chupar um Chicabon; e Miranda, tido no Brasil como um dos melhores zagueiros do mundo, deu as costas ao adversário, depois de medir a distância entre os dois com os braços voltados para trás sem olhar a bola: cinco. Alisson não saiu para evitar o cabeceio na pequena área e seus defensores alegam que goleiro não sai da linha de gol em marcação por zona: seis. Ao saltar, o zagueiro suíço empurrou de leve Miranda, que ficou de pé. O árbitro mexicano César Ramos não marcou a falta e a arbitragem de vídeo não alertou para o empurrão: sete.

Para ganhar a Copa, cracaço Neymar precisa esquecer o cabelo e cuidar da cabeça

Para ganhar a Copa, cracaço Neymar precisa esquecer o cabelo e cuidar da cabeça

No jogo dos sete erros, o Brasil entrou com seis e a Fifa, ao escolher um árbitro despreparado, com o sétimo. Ou seja, o pentacampeão mundialo não tem força política na entidade que organiza o torneio, porque a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) não tem moral. Seu ex-presidente Marco Polo Del Nero não viajava para fora do País temendo ser preso por corrupção. O presidente, coronel Antônio Carlos Nunes, comprometido a votar nos EUA, México e Canadá para sediarem a Copa de 2016, fez parte da minoria que sufragou o Marrocos, pensando que o voto seria secreto.

Tudo ainda pode acontecer, até mesmo nada. Se o Brasil for campeão, ninguém se surpreenderá. Mas Tite precisa esclarecer por que proibiu Miranda de cair para não simular, mas não recriminou Gabriel Jesus pela encenação inconvincente para cavar um pênalti, atirando-se ao solo na direção oposta ao puxão do zagueiro.

E Neymar Jr. terá de escolher entre ser campeão do mundo e malabarista de circo.

*José Nêumanne. Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. G4/G5 do Estado de S. Paulo quarta-feira 20 de junho de 2018)

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