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Artigo para coluna da Ric Mais: Só nos resta a Justiça Eleitoral

Artigo para coluna da Ric Mais: Só nos resta a Justiça Eleitoral

O Grupo Ric de Comunicação põe à disposição de emissoras de rádio e jornais impressos ou em edição virtual três podcasts de três minutos cada e um artigo por semana. Interessados em publicar este material original deve entrar em contato com mash.leonardo@gruporic.com.br

Só nos resta a Justiça Eleitoral

Aras inclui delírios de Bolsonaro no parecer ao STF.

E há rastros de Maia em futuras concessões de TV

José Nêumanne

Alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) por óbvia interferência na Polícia Federal (PF) para perseguir inimigos políticos em processos rápidos e letais, o presidente Jair Bolsonaro levantou duas muralhas da China contra tudo o que possa incomodá-lo ou a seus filhotes. No mesmo dia, quinta-feira 11, feriado de Corpus Christi, os responsáveis por eventuais denúncias que possam dar início a investigações sobre suspeitas para lá de “robustas”, como está na moda dizer agora, estão sob seu absoluto domínio.

O procurador-geral da República (PGR), Augusto Aras, numa peça rocambolesca e barroca, em que diz o que desdisse, mentiu ao acusar o relator do inquérito sobre fake news (benévolo eufemismo anglófono para mentira), o ministro do STF Alexandre de Moraes, de tê-lo excluído do processo. O acusado desmentiu e ele calado estava e ficou. Sem denúncia do PGR, nem o último Poder a decidir, o Judiciário, terá como propor à Câmara dos Deputados a abertura de impeachment, nem mesmo abrir ação por violações do Código de Processo Penal. Mas Aras foi além, ao misturar veículos de comunicação com quadrilhas do gabinete do ódio na indústria de mentiras que prospera nas redes sociais. A mistura de liberdade de expressão com esse crime só pode ter sido inspirada pelo asqueroso papel de advogado-auxiliar do capitão de milícias que o intruso incorporou sem pudor algum. Esperar que denuncie quem o nomeou equivale a esquiar no sertão, como  descreve o intendente-chefe da Saúde, Pazuello do planisfério terraplanista.

No dia em que o mundo jurídico tropeçou no pedregulho do petista que comanda o Ministério Público Federal (MPF), o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, a quem Bolsonaro atribuiu a liderança de um golpe contra ele e caberia abrir processo de impeachment, confessou que fora “avisado” da nomeação de Fábio Faria, seu correligionário do Centrão, para o Ministério das Comunicações. Ou seja, o genro do concessionário de TV Sílvio Santos terá o poder de conceder canais. Com todas essas blindagens garantindo a impunidade do pretendente a Chávez de Pindorama, só resta um caminho para a punição dos crimes que não se cansa de repetir, como o de invadir UTIs para fotografar leitos “vazios”: os processos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pelo uso criminoso de mentiras, distorcendo a vontade popular no voto. Eia, SUS!

*Jornalista, poeta e escritor

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No Blog do Nêumanne do Estadão: O submundo mental do capitão enxofre

No Blog do Nêumanne do Estadão: O submundo mental do capitão enxofre

José Nêumanne

Bolsonarismo é vulgaridade indecente, carola, estúpida e ignorante das piores heranças de Mussolini, Hitler, Franco, Frota e Chávez, com métodos de Ku Klux Klan, milícias e tráfico de drogas

Quando o decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Celso de Mello, advertiu que nossa democracia de 1988 corre o risco de dar ao capitão Jair Messias Bolsonaro oportunidade similar à que foi permitida pela Constituição de Weimar ao ex-prostituto Adolf Hitler, não faltou quem lhe erguesse o dedo. Caso do vice-presidente Hamilton Mourão, useiro em fazer citações oportunas de ocasião para arrotar erudição sem, contudo, dispor de verniz cultural com um centímetro de espessura. Na ativa, o general foi afastado pelo comandante do Exército, Eduardo Villas Boas, do Comando Militar do Sul por haver autorizado homenagem ao torturador e assassino Brilhante Ustra. E reincidiu em indisciplina e impropriedade por ter, na chefia da burocratíssima Secretaria de Economia e Finanças do Exército, aventado eventual intervenção militar no governo Temer, tendo sido punido pelo ministro da Defesa, o civil Raul Jungmann. Agora, vice-presidente eleito pelo voto popular no titular da chapa, recriminou o citado ministro do STF em artigo publicado no EstadãoOpinião e princípios (3/6, A2). Nele lhe atribuiu “tomar por modelo de protesto político a atuação de uma organização nascida do extremismo que dominou a Alemanha no pós-1.ª Guerra Mundial e a fez arrastar o mundo a outra guerra. Tal tipo de associação, praticada até por um ministro do STF no exercício do cargo, além de irresponsável, é intelectualmente desonesta”.

Não se sabe se por cegueira seletiva ou vontade excessiva de não parecer “mau caráter”, como o definiu o “pensador” do gabinete do ódio, Carlos Bolsonaro, no Twitter, após artigo anterior (Limites e responsabilidades, de 14/5), ignorou a passeata dos “300 (de fato, 30) pelo Brasil” no sábado 30 de maio. Liderados pela golpista Sara Fernanda Giromini, que usa publicamente o codinome Sara Winter, em homenagem a uma espiã nazista (sabia que espionagem é crime de guerra, general?), um punhado de tresloucados mascarados e empunhando tochas marchou pela Esplanada dos Ministérios. Qualquer pessoa que tenha lido algo diferente das apostilas distribuídas nas escolas militares saberia que a pantomima tinha duas óbvias referências. Saiba o vice-presidente que em 30 de janeiro de 1933, quando o austríaco Adolf Hitler foi nomeado chanceler do Reich pelo debilitado presidente Paul von Hindenburg, Josef Goebbels, ministro da Propaganda nazista, realizou um dos mais espetaculares atos de coação na República de Weimar: uma marcha noturna de 20 mil camisas pardas da tropa de assalto do partido nazista, a SA (Sturmabteilung). Goebbels, para refrescar a memória de Mourão, é o autor do texto lido pelo melhor ex-secretário de Cultura do governo segundo o próprio, Roberto Alvim.

A marcha das tochas dos “30 pelo Brasil” traz outra marca cultural dos caras-pálidas supremacistas, cujas manifestações contra a democracia, criminalizadas pela Lei de Segurança Nacional, passaram em branco pelo desatento escriba fardado. Este autor se refere aos enforcamentos de negros por grupos encapuzados da Ku Klux Klan no sul racista dos EUA.

Referências a outro tirano europeu do século passado, o italiano Benito Mussolini, são feitas pelo titular da chapa vencedora na eleição de 2018. Além do gosto por frases alheias que o duce  usava (como a infeliz comparação entre leão e cordeiro), o capitão, que nunca chegou a major sob condenações por indisciplina e terrorismo, montou o cavalo da PM de Brasília, numa imitação jeca do chefe fascista. Sem falar na grotesca caminhada dos empresários pidões contra o STF, imitação ridícula e desproporcional à Bolsonaro da Marcha sobre Roma, do mesmo inspirador.

O generalíssimo espanhol Francisco Franco entra no rol dos antecessores da direita chula tupiniquim sob o comando do capitão cloroquina pelo apelo hipócrita à fé cristã, paralelo que também poderia ser feito com o português Antônio Salazar. Constante infrator no uso pecaminoso do nome de Cristo, o titular do time em cujo banco de reservas se senta Mourão desafia conceitos de verdade (o célebre versículo do evangelista João) e amor ao próximo, que ele entende como o mais próximo, quais sejam, familiares (em especial filhos) e amigos, citados na reunião, em 22 de abril, de produção das narrativas pornográficas de um desgoverno de cusparadas, caneladas e impropérios.

Exemplo notório de sua estupenda falta de empatia foi a conclamação às devotas reses do rebanho “terrivelmente evangélico” para que invadam UTIs com doentes graves de covid-19 para filmar leitos vazios e lhe mandar de volta para que possa intervir na Polícia Federal e comandar a Agência Brasileira de Inteligência (ou melhor, falta de). E, assim, transferir os cadáveres de quem não sobreviver para o colo de governadores e prefeitos que, segundo Bolsonaro, devem ser mais combatidos do que o próprio “comunavírus” (apud Ernesto Araújo), que em atletas barrigudos como ele só produzem sintomas de “resfriadinho”.

Com 3 mil militares sob sombra e champanhe do erário, Bolsonaro e Mourão, convidados a se retirar da ativa por chefes disciplinadores, mas compassivos, vendem aos analfabetos funcionais que adoram o bezerro de ouro bíblico a ideia de que pretendem reviver a doce vida da ditadura militar de 1964/68. É mentira, pois o quarto presidente militar, Ernesto Geisel, chamou o capitão enxofre (que a “véia do alho” diz que cura a covid-19) de “mau militar”. O currículo de Mourão não sobreviveria à severidade do ex-presidente. Os militares dependurados no cabidão, ora compartilhado pelo Centrão, são frotistas. O herói de presidente e vice, Ustra, o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno Ribeiro, e o tenente-coronel Sebastião Rodrigues Moura, vulgo Major Curió, eram frotistas de carteirinha. E, como tal, golpistas frustrados.

Pode ser que o vice Mourão tivesse um pouco de razão se não levássemos em conta a abertura de O 18 Brumário de Luís Bonaparte (de 1852): “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Pois as similitudes entre Bolsonaro-Mourão Mussolini, Hitler e Franco são a farsa bufa tentando repetir a tragédia do extermínio. Para isso se baseia numa versão mais próxima do que Weimar e a Itália entre guerras. Mas nem o circo mambembe é original. O exemplo mora no outro lado da fronteira: a dupla Chávez-Maduro, que jogou a sólida democracia elitista e corrupta venezuelana de Rómulo Betancourt e Rafael Caldera, depois da ditadura militar de Pérez Jiménez, no esgoto da História.

Não custa repetir o que este Estadão publicou há 21 anos, quando Hugo Chávez assumiu o poder pela primeira vez para criar o bolivarianismo, populismo de esquerda aparentado do PT e congêneres: Em entrevista, Bolsonaro disse acreditar que ele faria no país vizinho o que os militares fizeram no Brasil em 1964, com muito mais força: “Ele não é anticomunista e eu também não. Na verdade, não tem nada mais próximo do comunismo do que o meio militar. Nem sei o que é comunismo hoje em dia”. O então deputado também disse que gostaria de ir à Venezuela para tentar conhecer Chávez, que considerava uma figura “ímpar”. E revelou: “Quero passar uma semana lá e ver se consigo uma audiência”.

Neste momento, em que comprou o Centrão com nosso dinheiro  para se garantir no poder contra as evidências dos crimes de responsabilidade que tem cometido contra a saúde da população e a higidez das instituições, Bolsonaro se garante com o rábula de  púlpito que nomeou para poder interferir à vontade no Ministério da Justiça. No sábado 13 de junho, à noite, o mesmo grupo “30 pelo Brasil” imitou a estratégia de intimidação de traficantes de drogas e milícias da periferia miserável do Rio de Janeiro, ao disparar fogos de artifício contra o prédio do STF. A Polícia Militar do Distrito Federal, que goza os reajustes assegurados pelo atraso da assinatura dele no compromisso em que os governadores aceitaram congelar os vencimentos de servidores, fez vista grossa ao atentado. Assim como o procurador-geral da República, Augusto Aras, investido como seu advogado e bajulador. E o ministro da Justiça, André Mendonça, transferiu seus crimes para os quase 58 milhões de eleitores que o sufragaram: “Devemos respeitar a vontade das urnas e o voto popular”.

Resta-nos contar com a ironia de Clio, deusa da História, manifestada quando reservou ao general Sylvio Frota uma nota de rodapé  na história suja da ditadura militar. E que esse zumbi não ressurja dos escombros desta tragédia recente e do submundo mental do desumano capitão enxofre de alho cru por falta de memória e caráter dele e de muitos.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicada no Blog do Nêumanne na segunda-feira 15 de junho de 2020)

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Opinião no Estadão desta quarta-feira: A pior crise do Brasil é Jair Bolsonaro

Opinião no Estadão desta quarta-feira: A pior crise do Brasil é Jair Bolsonaro

José Nêumanne

Mais maligno que pandemia, recessão e desgoverno, juntos, é o presidente

Intriga o sentido da expressão “tempestade perfeita”, que poderia ser confundida com calmaria. Mas é o inverso do que a ideia da perfeição sugere: a conjunção dos efeitos perversos de temporais coincidentes, como no descontrole do contágio do novo coronavírus provocando uma crise sanitária inusitada, o início e o agravamento da perspectiva da mais profunda recessão econômica de nossa História e a incapacidade de gestão estatal. A cereja do bolo de veneno é a ocupação do mais elevado poder republicano por um cidadão perverso, paranoico, paleolítico e cujo cérebro paira entre ignorância total e insanidade mental.

O Brasil repete-se na perda constante das oportunidades oferecidas pela conjuntura internacional. A pandemia de covid-19 exacerba essa característica de um país que não se livrou do estigma da escravidão como meio de produção. O vírus velocíssimo e até agora indestrutível, egresso do Extremo Oriente, tornou-se planetário ao devastar vidas e poupanças do continente europeu. O fato de o País estar sob a linha do Equador nos permitiu tomar conhecimento de sucesso e insucesso no combate à praga. Mas não dispomos de testes para seguir o exemplo da Coreia do Sul e até hoje não temos a mínima ideia matemática da velocidade da transmissão e da letalidade da nova doença. No fim da semana passada, a incontinência verbal de um bilionário sem juízo nos livrou de sua decisão de nossa retirada do competitivo mercado de respiradores mecânicos para evitar o colapso do sistema da saúde. Até agora evitado pela eficiência do Sistema Único de Saúde (SUS), o patinho feio de nosso horrendo serviço público.

A existência rara de fina inteligência no governo federal premiou nossa Pátria desleixada com a raridade de um ministro de Saúde, Luiz Henrique Mandetta, reunindo credibilidade e popularidade para evitar que as deficiências estruturais e a indigência intelectual de nossas elites reduzissem a índices intoleráveis infecção e letalidade de uma doença que desafia os mais privilegiados cientistas da humanidade. Mas o chefe do Executivo, eleito por 57 milhões, 796 mil e 986 votantes no segundo turno, submeteu-o a humilhações e o demitiu por inveja e paranoia. O primeiro absurdo, demissão do ministro da Saúde em plena subida do contágio do vírus, foi repetido na demissão do segundo, Nelson Teich, em menos de um mês. E por motivo ainda mais fútil: a insubmissão à prescrição de uma panaceia particular, a cloroquina, repetindo o que, como parlamentar, fizera antes com outra picaretagem, a “pílula do câncer”.

Empenhado em fazer valer maluquices de um pornógrafo de rede social e de financiadores de disparos de fake news, Jair Bolsonaro escoiceou ciências médicas e lógica plana ao trocar a coordenação do combate ao microrganismo por uma surrealista dicotomia inexistente entre vidas e negócios. Essa sandice apavorante levou ao comando da guerra virológica Eduardo Pazuello, general da intendência (que, segundo Napoleão Bonaparte, “segue” as tropas, não as lidera), com deficiente compreensão de biologia elementar, como a posição do coração no corpo. E conseguiu superar a própria incapacidade de entendimento básico de administração pública ao nomear para a secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos do ministério Carlos Wizard, bilionário irresponsável que, disposto a impor sua fé criacionista, anunciou a suspensão da compra de respiradores, um crime. E insultou a inteligência da Nação e a honra dos secretários estaduais de Saúde, anunciando a adulteração das estatísticas de casos e óbitos de covid-19 e adicionando um delito de responsabilidade ao rosário de penas do presidente da República e do roliço intendente da Saúde.

A melhor frase sobre essa rematada demência é da lavra do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ): “Um ministério que tortura números cria um mundo paralelo para não enfrentar a realidade dos fatos”. Os atos antibolsonaristas de domingo, desafiando recomendações sanitárias, cumpriram, porém, o papel essencial de mostrar que a seita nazibolsolulofascista, criacionista, terraplanista, “ignorantista” e assassina não é dona das ruas. Mas este não é mais momento de meras belas palavras. A Pátria precisa que mandatários do poder em nome do povo assumam seu dever de atirar o capitão à procela imperfeitíssima no mar, adotando a visão profética do poeta Alberto da Cunha Mello: “A tempestade desse barco é seu próprio comandante”.

A ordem constitucional vigente, da qual a democracia não pode abrir mão, mesmo ante a perspectiva atroz de um golpe policial-militar de milícias populares chavistoides anunciadas por Jair Messias na reunião de porão de Máfia de Chicago durante a lei seca, não tem como repetir a solução de 1919. Na República Velha, Delfim Moreira, o vice psicopata do presidente reeleito morto (Rodrigues Alves), foi isolado sob a regência de Afrânio Mello Franco até a chegada de Epitácio Pessoa, que derrotou Ruy Barbosa na eleição presidencial a bico de pena. Mas coragem e lucidez poderão achar o correto caminho legal para expurgar o capitão tempestade.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na página A2 do Estado de S. Paulo quarta-feira 9 de fevereiro de 2020)

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No Blog do Nêumanne: Escondendo a covid do povo

No Blog do Nêumanne: Escondendo a covid do povo

José Nêumanne

General intendente na Saúde suspende boletim diário da pasta sobre total de contágios pelo novo coronavírus e Bolsonaro comemora Jornal Nacional não ter como informá-los ao público

O Estado de Direito, vigente há 32 anos na forma de Constituição aprovada por representantes da cidadania, foi violentado de forma desrespeitosa e cínica pelo ministro da Saúde, o roliço general intendente Eduardo Pazuello, que interrompeu a comunicação diária de dados de contágios e óbitos da covid-19. A infâmia foi comemorada de forma pueril e estúpida pelo chefe dele, o presidente da República, Jair Bolsonaro, que, num de seus ominosos contatos com adoradores no chiqueirinho montado à frente do Palácio da Alvorada, disse: “Acabou matéria do Jornal Nacional”. E depois chamou a Globo, que veicula o telejornal citado (e explicitamente prejudicado), de “TV Funerária”.

Celebrada como batalha vencida contra inimigo jurado, a rede de televisão aberta monopolista de audiência, na guerra eleitoral da covid, a ordem foi executada com fé cega, faca amolada pelo general boboca, que executou o serviço sujo por crassa ignorância. E resultou em crime brutal contra direito elementar de cada cidadão brasileiro. Pretendente a proprietário exclusivo da liberdade de expressão, conceito que usa e de que abusa para defender acusados de divulgar mentiras para executar reputações de inimigos e louvar seus falsos feitos oficiais, o chefe do governo não sabe da missa um terço, como rezava minha avó.

A liberdade de expressão não é um produto nobre dos meios de comunicação ou exclusivo do ofício de comunicadores. Ao contrário. É um dos direitos humanos fundamentais em qualquer Estado de Direito que se preze. E que também deveria ser prezado por quem se proclama, como é seu caso, defensor do único regime político realmente popular, que é a democracia, palavra egressa do grego que significa “governo do povo”. A liberdade de expressão, informação ou opinião é um direito público, e não uma arma política individual. Ou seja, o usuário do conceito pétreo de qualquer Constituição, incluída a nossa, é o cidadão. O que ele e seu intendente sabujo não conhecem, por interesse ou deficiência intelectual de analfabetos funcionais que são, é que a ordem vigente neste país desde 1988 admite que até seus inimigos, como eles, por exemplo, o exerçam apenas porque a cidadania exige pluralidade de ideias.

No entanto, essa liberdade de um tipo de governo que admite até desaforo (caso das manifestações fascistoides animadas pelo chefe do Poder Executivo diante de edifícios que abrigam instituições do Estado, como o Quartel-General do Exército e os Palácios do Planalto e da Alvorada) não permite caneladas que os impeçam de continuar sua marcha, com a qual o povo brasileiro é comprometido e de que não quer abrir mão.

A liberdade, em toda a ampla extensão do significado dessa palavra sagrada, não é uma permissividade do Estado que a pratica, mas um dever inelutável, uma obrigação indispensável de seguir e manter, tal como expressa o juramento que o capitão reformado fez em sua posse na Presidência da República. Esse exercício é de tal forma exigido que, ao longo dos anos, o configuram em leis ordinárias os membros do Poder Legislativo, eleitos pelo povo da mesma forma que ele, como vive a repetir, pretendendo assim executar todos os Poderes prometidos pelos populistas, sem regras nem limites, tal como faz questão de executar e exibir. É o caso da lei da transparência, também vigente neste país, que não é a senzala da “casa grande” da famiglia Bolsonaro nem a latrina da caserna da qual ele foi convidado a se retirar por indisciplina e terrorismo, e não deveria esquecer-se disso. No caso particular de mais essa lei, que o capitão cloroquina e o general contabilista desafiam como se fosse um dever de casa, exige a divulgação de informações de interesse público que sejam “primárias, íntegras, autênticas e atualizadas”.

No episódio específico da violação da transparência e do direito do público à informação pela providência totalitária tomada pelos dois, há ainda uma agravante. Outro preceito constitucional dá a qualquer cidadão brasileiro o direito à vida e também este é inalienável, precedendo em valor até o da liberdade e o de ir e vir, de que, de forma irresponsável, ele tem lançado mão contra governadores e prefeitos que pretenderam evitar o colapso do sistema público de saúde de seus Estados e municípios.

Ao contrário do que seu mesquinho individualismo doentio pode fazer-lhe crer, não foi por vaidade, exibicionismo ou vontade de brilhar na foto que seu primeiro ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, liderou a equipe em entrevistas coletivas diárias em horário adequado à melhor absorção pelo público pagante, detalhando estatísticas e informações sobre a pandemia: 17 horas. O desempenho do Estado brasileiro na prevenção à circulação do novo coronavírus foi de um ridículo comum no desgoverno de sua excelência. No quarto mês da ameaça crescente da covid-19, o cidadão (e não súdito) brasileiro conviveu com a incompetência de gestão de governos federal, estaduais e municipais, que não providenciaram a compra de testes e de equipamentos indispensáveis para permitirem ao sobrecarregado Sistema Único de Saúde (SUS) cumprir, com dificuldade e heroísmo, a obrigação de manter a higidez de todos os brasileiros.

No entanto, Mandetta nunca negou outro insumo fundamental, a informação, que não é, nunca foi, exclusivo de nenhum veículo, por mais poderoso que possa ser. Mas de todos. As informações que Mandetta e sua equipe deram não serviam apenas para aumentar a audiência ou leitura desses veículos, consequência natural não da histeria detectada pela limitada inteligência do chefão, mas da necessidade comum de tomar conhecimento de tudo o que pudesse ser feito para evitar a contaminação.

O arrivista Nelson Teich, bem-sucedido empresário da área da doença privada, e não da saúde pública, desprezou a prática apenas como concessão à vaidade e à cegueira do chefe máximo. Mas também terminou caindo por não poder emprestar sua assinatura de médico à vocação dele de homem da cobra de feiras livres, a prometer a cura mágica pela cloroquina, que não evitou a mortandade que se abateu sobre o povo brasileiro. Como já tinha feito antes com a tentativa de empurrar goela abaixo de cada um o placebo (que consulte o dicionário e saberá o que é) da “pílula do câncer”.

Agora temos o general guarda-livros, que gosta de falar em logística (aliás, dane-se sua logística). E este cede a seus caprichos. Ainda assim, não sendo médico nem tendo encontrado nenhum profissional das ciências médicas disponível para satisfazer sua altiva ignorância, não firmou o protocolo do medicamento para lúpus, malária e reumatismo, mas promulgou um édito absurdo, que seria cômico se não fosse trágico.

O permanente ministro provisório, de plantão até o fim dos efeitos deletérios da pandemia e da depressão econômica inigualáveis, deu sua contribuição à catástrofe, que parece não ter limite nem fim, de sua gestão com um dedo de ridículo impagável. O bilionário Carlos Wizard é tão absolutamente absurdo em sua falta de “senso de loção”, como dizia minha tia Maria, que queria proibir a importação de mais respiradores. E prometeu recontar e reduzir o número de mortos, feito que nem seus inspiradores da ditadura militar conseguiram com a epidemia de meningite que abalou o País no fim do século passado.

Da obra inesquecível do paspalho ficou, contudo, essa herança que o conduzirá ao opróbrio (será necessária mais uma consulta ao “pai dos burros”) histórico de não ter respeitado alguns direitos elementares que os homens veneram desde que observavam as sombras da fogueira na caverna de Platão. O coronavírus nega a suas vítimas acompanhar seus entes queridos na agonia, confraternizar na despedida dos velórios e contar com amigos em número suficiente para levarem o ataúde até a sepultura. O desgoverno de sua excelência acrescenta a isso a mágica macabra de um ilusionista que tenta se esconder no sobrenome inglês de tal desumanidade que retira seus mortos queridos até da estatística.

 Não omitirei a sentença genial do substituto legal eventual do capitão, o general Hamilton Mourão, seu companheiro de chapa na vitoriosa campanha eleitoral de 2018. “O governo não quer esconder os mortos. É só somar”, sapecou o conselheiro Acácio dos bivaques. Isso poderia, pelo menos, ter servido de alerta ao titular. O Tribunal de Contas da União, a Câmara e o Senado anunciam a criação de plataformas para substituírem a Intendência da Saúde na tarefa que pode ser cumprida por algoritmos de computador. E os meios de comunicação também farão isso.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicada no Blog do Nêumanne na segunda-feira 8 de junho de 2020)

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Comentário no Jornal Eldorado: Manifestos contra o governo

Comentário no Jornal Eldorado: Manifestos contra o governo

Terça-feira 130 entidades subscreveram o documento “Juntos pela democracia e pela vida”, que diz ser “preciso reconhecer de forma inequívoca que a ameaça fundamental à ordem democrática e ao bem-estar do País reside hoje na própria Presidência da República”. Entre os signatários estão grupos de renovação e formação política surgidos nos últimos anos; entidades formadas a partir do incremento do combate à corrupção; movimentos de transparência nas atividades partidárias e na gestão pública; institutos de gestão da educação e outras áreas; organizações ambientalistas, contra o armamentismo, entre outras. O manifesto foi divulgado pelo Pacto pela Democracia e lançado na esteira de iniciativas recentes como o Basta!, o Movimento Estamos Juntos e  o Somos 70%. A sociedade civil manifesta-se contra Bolosonaro.

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Assuntos para comentário da quarta-feira 3 de junho de 2020:

1 – Haisem – Entidades engrossam movimento por democracia – diz título de chamada de primeira página da edição de hoje do Estadão. Por que, a seu ver, ainda é necessário no Brasil mobilizar povo nas ruas para evitar intervenção militar autoritária em 32 anos de vigência da Constituição

2 – Carolina – Indicado pelo Centrão para o BNB é alvo de investigação – diz outra chamada no alto da primeira página do Estadão de hoje. O que esta informação traz de novo sobre a quebra do compromisso de Jair Bolsonaro com a manutenção da Operação Lava Jato e do combate à corrupção

3 – Haisem – Constituição veta intervenção, diz procurador-geral – é mais um título de chamada na primeira página do Estadão. O que levou Augusto Aras a se ver obrigado a fazer declaração tão óbvia

4 – Carolina – TCU diz que 8,1 milhões podem ter recebido 600 reais indevidamente – revela a manchete do Estadão. O que explica um número tão alto de fraudes na entrega do auxílio aos mais pobres pelo governo

5 – Haisem – Brasil passa de 31 mil mortes e está atrás apenas de três países – é mais um retrato na primeira página do Estadão de hoje de uma realidade que o presidente Jair Bolsonaro ainda insiste em negar. Por quê

BOLSO 0306 A

6 – Carolina – Presidente da Fundação Palmares faz ataque a movimento negro – O que há de mais chocante, na sua opinião, nesta notícia de primeira página do Estadão sobre o pandemônio do governo Bolsonaro

Comentário no Jornal da Gazeta: Recorde de toma lá dá cá

Comentário no Jornal da Gazeta: Recorde de toma lá dá cá

Para servir ao Centrão e com isso barrar um eventual processo de impeachment e forçado a gastar para combater a crise sanitária, o governo de Jair Bolsonaro bateu recorde de liberação de emendas parlamentares durante a pandemia. Em abril, R$ empenhou 6,2 bilhões de reais, o maior valor para um único mês desde 2016, ano em que o monitoramento individual das emendas passou a ser possível. O montante que foi de fato pago também foi o maior para um único mês nos últimos anos: R$ 4 bilhões. Os dados compilados do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi) por encomenda do Estadão pela ONG Contas Abertas, é o recorde de toma lá dá cá na lamentável história da relação promíscua entre os podres poderes do Executivo e do Legislativo. É a volta do capitão cloroquina ao brejo do Centrão.

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Assuntos para comentário na terça-feira 2 de junho de 2020?

1 – Haisem – Bolsonaro paga em abril recorde de emendas parlamentares – diz chamada de primeira página na edição de hoje do Estadão. Que razões você aponta para estarmos revivendo o toma lá dá cá 21 meses depois da vitória eleitoral do candidato que prometia o fim da República de coalizão

2 – Carolina – Celso de Mello arquiva pedido de apreender celular de Bolsonaro, mas alerta a presidente – diz chamada de capa do Portal do Estadão hoje. Até que ponto você acha que pode chegar este novo embate entre o Supremo Tribunal Federal e o chefe do Poder Executivo

3 – Haisem – O que você quis dizer com o artigo publicado hoje no Blog do Nêumanne sob o título O chute ideológico da direita chula

4 – Carolina – MP investiga deputado bolsonarista na Alerj – diz título de notícia publicada na capa do Portal do Estadão hoje. Você tem alguma esperança de que essa investigação do Supremo Tribunal Federal terminará por punir de fato os investidores e disseminadores de fakenews

5 – Haisem – Toffoli marca julgamento sobre inquérito das fakenews para o dia 10 – É mais um título da capa do Portal do Estadão hoje. Que perspectivas você enxerga na possibilidade de a cúpula do Poder Judiciário por fim na impunidade gozada por criminosos nas redes sociais no Brasil

6 – Carolina – Um terço dos casos de covid já ocorre fora dos grandes centros – esta é a manchete de primeira página da edição do Estadão de hoje. O que dá para esperar a partir desta tragédia anunciada pela confirmação da interiorização da pandemia

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