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Comentário no Jornal Eldorado: Analfabetos que não sabem contar

Comentário no Jornal Eldorado: Analfabetos que não sabem contar

A mãe das muitas tragédias de nosso País é a falência de nosso ensino, incapaz de preparar os jovens brasileiros para o mundo contemporâneo globalizado e competitivo. O mais grave é que estamos em plena disputa eleitoral para escolher o presidente da República, que até bem pouco tempo atrás era tido como a esperança para retirar a Nação do caos e da crise, e não há em nenhum dos candidatos com alguma chance de vitória nada que possa alimentar nossa esperança de que, pelo menos, algo possa melhorar, ainda que seja um pouco. A realidade é que o povo vegeta e a elite política só cuida em manter e ampliar privilégios, entre os quais o direito a uma Justiça lerda, leniente e sem moral nem honra.

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na sexta-feira 31 de agosto de 2018, às 7h30m)

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Abaixo, os assuntos para o comentário de sexta-feira 31 de agosto de 2018

1 Haisem – “Dólar dispara, ensino piora, campanha esquenta”. Que primeira página, hein? Você se surpreendeu, se assustou ou se indignou com as conclusões divulgadas nos meios de comunicação pelo Ministério da Educação do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), o mais importante exame brasileiro que mede desempenho dos alunos?

2 Carolina – Que motivos teve o presidente Michel Temer para surpreender e decepcionar todo mundo ao recuar na decisão anterior de adiar por um ano o reajuste dos servidores em plena crise e negociar com os ministros do Supremo Tribunal Federal um aumento salarial de 16,38% incluindo nele auxílios-moradia e que tais?

3 Haisem – “Caso Lula gera divisão interna no Tribunal Superior Eleitoral – relator do registro, ministro Luis Barroso quer agilizar processo enquanto a presidente da corte, Rosa Weber, defende respeito aos prazos” – estes são o título e a linha fina da notícia mais importante da política neste último dia da semana. O que justifica essa divisão entre dois ministros do Supremo Tribunal Federal, que têm votado juntos ultimamente sobre casos afins?

4 Carolina – Que razões teve o ministro do Tribunal Superior Eleitoral Tarcísio Vieira para negar o pedido do Instituto Democracia e Liberdade (IDL) para proibir a divulgação de pesquisas que incluam o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), condenado, preso e inelegível, entre os candidatos a presidente na eleição de outubro?

5 Haisem – Que conseqüências poderão ter as informações dadas pelo doleiro delator premiado Lúcio Funaro a respeito da entrega pessoal de 20 milhões de reais ao ex-ministro de Temer Geddel Vieira Lima, citando ainda como beneficiários de propina Lúcio, irmão de Geddel, e seus antigos companheiros do PMDB, hoje MDB, Temer e Eduardo Cunha?

6 Carolina – Por que a juíza Simone Barbisan Fortes, da 1.ª Vara Federal de Florianópolis, rejeitou a denúncia do Ministério Público Federal contra o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Ubaldo Cesar Balthazar, e o chefe de gabinete da Reitoria, Áureo Mafra de Moraes, por suposta injúria contra a delegada da Polícia Federal Erika Marena, da Operação Ouvidos Moucos, que investiga suspeitas de desvios na Universidade?

 

7 Haisem – Que conseqüências terá para a economia brasileira em crise econômica, financeira e social, a decisão do Supremo Tribunal Federal declarando que a terceirização irrestrita é lícita e constitucional?

8 Carolina – Por que a entrevista que você publicou esta semana com o economista Cláudio Porto, fundador e presidente da Marcoplan, no Blog do Nêumanne está fazendo tanto sucesso no Portal do Estadão e no Twitter?

No Blog: Nêumanne entrevista Cláudio Porto

No Blog: Nêumanne entrevista Cláudio Porto

Fim da crise depende da certeza do fim da impunidade, diz economista

Para Cláudio Porto, da Macroplan, somente punição exemplar de corruptos trará verdadeira economia do mercado e a saída da crise em longo processo de maturação

“As operações anticorrupção desmantelaram em parte essa engrenagem que gerou mensalão e petrolão, mas como ela não é  uma máquina, e sim uma construção social, rapidamente se reorganizou, adaptou e criou vários mecanismos de sobrevivência que passam desde o Congresso e o Poder Judiciário até boa parte das candidaturas que hoje (2018) estão postas ao eleitor”, disse o economista Cláudio Porto, fundador e operador da Macroplan. Nesta edição semanal de Nêumanne entrevista no Blog do Nêumanne, Politica, Estadão, ele disse ainda que “não será nada fácil trazer a corrupção brasileira para os patamares ‘normais’ de uma democracia madura”. Nesse campo a aposta do especialista em planejamento “é de longo prazo: a abertura de nossa economia e a nossa exposição à competição global,  quando  vierem, nos revelarão que a corrupção não é um bom negócio para o desenvolvimento de um capitalismo competitivo e inclusivo no Brasil.” Porto se baseia num exemplo próximo, o Plano Real, que “só se viabilizou depois que (quase) chegamos à hiperinflação e de dois ou três planos econômicos anteriores fracassados. A seu ver, talvez tenhamos de aturar mais quatro anos de recessão e de políticas erradas para acertar o passo mais adiante.”

Cláudio Porto nasceu, cresceu e estudou Economia em Campina Grande, na Paraíba. Lá fez política estudantil, primeiro como secundarista, depois na universidade. Na época era de esquerda, integrante da Ação Popular (AP). Foi preso no Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ibiúna, em 1968. Desejava ser político, sua geração era diferente de hoje – a maioria tinha princípios e ideais. A ditadura militar bloqueou esse caminho. Mudou o foco para consultoria em organização, planejamento e estratégia.  E também de lugar: trabalhou e empreendeu por 20 anos em Recife. Redirecionou sua energia da política para a prática profissional e empresarial, associada a muito estudo: mergulhou fundo, primeiro nas teorias de sistemas e da complexidade e depois na economia política. Foi pioneiro na construção e aplicação, no Brasil, do método de construção de cenários e prospecção de futuros. Por isso o mercado, em 1989, via Petrobrás, o levou para o Rio de Janeiro e o projetou para o Brasil. No Rio (cidade que divide seu coração com aquela onde nasceu) fundou a Macroplan, empresa especializada em análise prospectiva, estratégia e gestão, que no próximo ano fará 30 anos de mercado, entregando resultados com visão de futuro. E integridade total.

Para Cláudio, "talvez tenhamos de aturar mais quatro anos de recessão e de políticas erradas para acertar o passo mais adiante.” Foto: Acervo pessoal

Para Cláudio, “talvez tenhamos de aturar mais quatro anos de recessão e de políticas erradas para acertar o passo mais adiante.” Foto: Acervo pessoal

A seguir Nêumanne entrevista Cláudio Porto:

Nêumanne – Quando li o estudo Cinco Cenários para o Governo do Brasil 2019-2023 e me deparei com a conclusão de que 77% da população adulta brasileira se dispõe a marchar para o abismo como um bando de ovelhas tresmalhadas e seguindo pastores destrambelhados, me assustei muito. Sou jejuno em matemática, mas me parece óbvio que 23 é melhor do que zero, mas 77 está mais próximo de 100. Estamos enfrentando uma crônica sobre o suicídio anunciado?

Cláudio Porto – Espero que não. Não há dúvida de que hoje são muito altas as chances de esse desastre acontecer (ou melhor, se repetir mais uma vez, em 2014 já tínhamos uma situação complicada e deu no que deu…). Mas ainda há tempo para uma reversão, o jogo político ainda está sendo jogado e hoje em dia, com a “compressão” ou encurtamento dos tempos de decisão, esse jogo ainda pode ser virado e revirado algumas vezes até outubro ou novembro.

N – Até há bem pouco tempo ninguém, incluído o autor destas perguntas, levava a sério a eventualidade de o Brasil atingir o paroxismo de desgoverno alcançado pela vizinha Venezuela, que de próspera produtora de petróleo passou a figurar entre as sociedades miseráveis do planeta. Essa distância de 77% a 23% não faria do contágio venezuelano uma perspectiva real e até relativamente próxima?

C – Em curto e médio prazos, creio que não. No longo prazo é possível, mas muito pouco provável. Nossa economia é muito mais complexa, diversificada e integrada ao mundo (embora ainda sejamos uma economia muito fechada). Nossas instituições, apesar de todas as “lambanças” recentes, ainda têm certa funcionalidade. Se o Brasil continuar nessa toada dos últimos 12 anos, o cenário que me parece mais provável é o de uma “argentinização à brasileira”, uma trajetória de decadência secular (ver o special report The tragedy of Argentina – A century of decline – One hundred years ago Argentina was the future. What went wrong?feb 17th 2014). Afinal, após meio século crescendo bem acima da média mundial (entre 1930 e 1980), nos últimos 38 anos – incluindo este –  estamos crescendo menos que o mundo: em média 2,3%, ante 3,5% ao ano. E o pior: segundo análise de meu colega Armando Castelar, mantido o ritmo de nosso aumento de produtividade só daqui a cem anos, repito, cem anos, teremos um padrão de vida semelhante ao de Portugal hoje!

"O Plano Real só se viabilizou depois que (quase) chegamos à hiperinflação e de dois ou três planos econômicos anteriores fracassados", lembrou Cláudio

“O Plano Real só se viabilizou depois que (quase) chegamos à hiperinflação e de dois ou três planos econômicos anteriores fracassados”, lembrou Cláudio

N – Desde que os revolucionários franceses decapitaram a nobreza e instalaram a democracia no século 18, as políticas de governo do povo passaram a se dividir entre os que, à esquerda, lutam por mudanças radicais na sociedade e os opostos, à direita nos assentos da Assembleia Nacional, que defendem a manutenção do status quo. O que fez a Macroplan mudar o plano de referência e dividir os métodos de governança entre populistas, que apelam para o assistencialismo, e não populistas, que pregam austeridade fiscal e rigor monetário. Não seria essa uma versão contemporânea da velha dialética metafórica de esquerda e direita?

C -Talvez, mas com sinais trocados. Do que sei da nossa História, fomos de esquerda 50 anos atrás. Naquela época a esquerda tinha uma agenda progressista, humanista, um projeto de sociedade mais equitativa, embora acreditasse na virtude da ditadura do proletariado – que a História provou ser um “erro fatal”. Já a maior parte da direita daquele tempo – pelo menos no Brasil – destilava um elitismo retrógrado e conservador do atraso; os verdadeiros liberais eram minoria. Hoje, creio que nós ambos temos um viés predominantemente liberal e é aqui que estão os melhores fundamentos para uma agenda contemporânea: o livre mercado, o respeito à democracia e às liberdades individuais e, sobretudo, a garantia de igualdade de oportunidades. A chamada “esquerda brasileira” envelheceu, é refém e porta-voz das corporações (sindicais, de funcionários públicos e de empresários de compadrio que se penduraram nas tetas do Estado e o estão exaurindo). Quer agenda mais retrógrada e elitista do que defender universidade pública e gratuita para todos, até mesmo para os ricos, num país que não tem recursos públicos para oferecer creche a uma mãe de periferia que precisa trabalhar longe de casa?

N – O seu mais recente estudo de cenários, entretanto, põe no mesmo prato, digamos assim, populistas de esquerda e de direita, de certa forma reeditando o velho Pacto Molotov-Ribbentrop, que pôs do mesmo lado nazistas alemães e comunistas soviéticos, antes de estes se matarem no vasto território da mãe Rússia e na guerra fria. Quais são os pontos comuns identificados no estudo entre devotos do petismo do nada esquerdista Lula e adoradores do mito da ordem militar sob o comando do deputado Bolsonaro?

C – O principal traço característico do populismo, seja de direita, de esquerda ou até “de ocasião” (nesta eleição está surgindo essa espécie metamórfica) é a emergência de um líder carismático que encarna o sentimento popular, apresenta-se como o “salvador da pátria” e faz uma comunicação direta com a população. Tempos de crise são propícios ao surgimento desses “messias” e nossa sociedade tem certa propensão “salvacionista” em suas escolhas políticas. O líder populista nomeia inimigos, geralmente genéricos (as elites, os comunistas, os rentistas, a grande mídia, os banqueiros, os malandros, até o imperialismo americano!). Promete soluções simples e rápidas, que são impossíveis na vida real. Suas ferramentas políticas usuais são o confronto, a divisão e o ressentimento. E revela forte propensão ao intervencionismo estatal, ao autoritarismo, à indisciplina fiscal e ao assistencialismo. O maior risco do populismo é o das “canetadas” que são feitas apesar da lei (ou quase). Três casos  de nossa História recente: 1) populismo de ocasião, José Sarney, 1986, Plano Cruzado; 2) populismo de direita, Fernando Collor, 1990, congelamento da poupança; e 3) populismo de esquerda, Dilma Rousseff, 2012, Medida Provisória 579 de 11 de setembro, que alterou as concessões de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica e reduziu as  tarifas de energia elétrica, o  que praticamente “quebrou” o nosso setor elétrico.

Foto oficial de finalização do Plano Estratégico Petrobras 1990-2010, no Hotel Charles em Itaguaí, em 1989 (Cláudio no círculo) Foto: Acervo pessoal

Foto oficial de finalização do Plano Estratégico Petrobras 1990-2010, no Hotel Charles em Itaguaí, em 1989 (Cláudio no círculo) Foto: Acervo pessoal

N – Na Realpolitik de Pindorama, populistas e não populistas terminam se misturando em políticas de governo propostas não apenas por populistas de esquerda, direita e oportunistas, mas também quando se misturam com os não populistas que pedem votos para a manutenção do status quo e até mesmo os 23% que investem no “reformismo modernizante”, tendo como exemplo desse panorama – de que falava a música-ícone do tropicalismo, Geleia Geral, de Gilberto Gil e Torquato Neto –favoritos como Bolsonaro e pigmeus políticos como Henrique Meirelles. Como situar isso nas dicotomias expostas no estudo da Macroplan?

C – Embora estejamos num momento histórico de crescente indignação das sociedades em relação aos políticos (em geral) e de forte polarização política, historicamente no Brasil temos uma propensão acomodatícia. O diplomata Marcos Azambuja, em memorável entrevista a Roberto d’Ávila este ano, destacou que somos um povo de conciliação… e até mesmo de acomodação (com a mediocridade, interpretação minha). A “geleia geral” combina bem com nosso cenário de conservação do status quo – mudar as aparências e adjacências para manter o essencial como está. Não me surpreenderei se um eventual populista, vencedor nas eleições de 2018, seja, logo adiante, cooptado ou “sequestrado” por uma grande aliança “modo Centrão” que termine dando as cartas, tudo em nome da governabilidade e da preservação dos privilégios, dos “direitos adquiridos”. Como você, Nêumanne, escreveu em no seu artigo A farsa da pagologia’, “a distribuição do Fundo Partidário reelegerá este Congresso corrupto: (…) dos seis pretendentes à Presidência da República com chance, nenhum se compromete com o que de fato importa: o combate a privilégios, política econômica para pôr um fim  à crise e ao desemprego e o basta à impunidade de criminosos armados e de colarinho branco”. Confesso que às vezes perco o ânimo com tanto atraso…

N – Outro ponto polêmico a reunir as várias bandas desse desconcerto seria a corrupção, um elemento vital na economia e na política brasileiras. Parece claro que só a Nação vitimada se entusiasma com a guerra à rapina, enquanto o Estado algoz a defende com unhas e dentes, argumentando até que operações policiais e judiciárias como a Lava Jato terminam sendo prejudiciais à produção, ao consumo e à economia. Qual o papel que o furto deslavado e seu antídoto vigoroso desempenham em seus cenários?

C – Temos uma cultura de corrupção e clientelismo enraizada na nossa formação histórica. Concordo com o ex-presidente Fernando Henrique quando ele destaca (em Crise e Reinvenção da Política do Brasil, 2018) que “corrupção não é coisa nova no Brasil. (…) Mas, num passado não tão longínquo, não era geral, sistêmica (…) e sim um ato individual de conduta ou uma prática isolada de grupos políticos. (…) A mudança de patamar na (nossa) corrupção decorreu de dois fenômenos: o ressurgimento de um Estado desenvolvimentista (…) e o crescimento dos gastos com o sistema político-partidário, sobretudo no financiamento eleitoral”. A partir do mensalão e depois com o petrolão e  derivados, montou-se um sofisticado sistema de drenagem de recursos públicos e de estatais, “que transitava por grandes  empresas privadas  e pela coalizão de partidos dominantes…” As operações anticorrupção desmantelaram em parte essa engrenagem, mas como ela não é  uma máquina, e sim uma construção social, rapidamente ela se reorganizou, adaptou e criou vários mecanismos de sobrevivência que passam desde o Congresso e o Poder Judiciário até boa parte das candidaturas que hoje (2018) estão postas ao eleitor. Não será nada fácil trazer a corrupção brasileira para os patamares “normais” de uma democracia madura. Minha aposta nesse campo é de longo prazo: a abertura de nossa economia e a nossa exposição à competição global,  quando  vierem, nos revelarão que a corrupção não é um bom negócio para o desenvolvimento de um capitalismo competitivo e inclusivo no Brasil.

Cláudio no lançamento do livro 2022 - Propostas para um Brasil melhor, ao lado do outro co-organizador Fábio Gambiagi Foto: Acervo pessoal

Cláudio no lançamento do livro 2022 – Propostas para um Brasil melhor, ao lado do outro co-organizador Fábio Gambiagi Foto: Acervo pessoal

N – A única saída que dá para enxergar do túnel percorrido por um trem, por enquanto de luzes apagadas, é a capacidade de agentes do chamado “reformismo modernizante” conseguirem mostrar a realidade à maioria do eleitorado. A que argumentos seria possível recorrer? Como desconstruir a farsa populista dos pacotes de bondade da demagogia vil e fácil?

C – Com dados, fatos e pequenas vitórias rápidas. Com um discurso competente (no sentido do uso de argumentos sólidos expostos de  um modo de todos entendam) e uma prática exemplar. Tivemos um grande caso de sucesso em nossa História recente: o Plano Real. Seguir o exemplo da estratégia técnica e política, repito, técnica e política, que foi empregada no Plano Real. Apesar das imensas resistências, o Plano Real foi sendo viabilizado e consolidado ano após ano, com a maior parte dos ajustes feitos em tempo hábil. O Real só se viabilizou depois que (quase) chegamos à hiperinflação e de dois ou três planos econômicos anteriores fracassados. Talvez tenhamos de aturar mais quatro anos de recessão e de políticas erradas para acertar o passo mais adiante.

N – Dois males viciam o panorama eleitoral brasileiro hoje: de um lado, a lembrança do pleno emprego e dos tempos de bonança das gestões de Lula, em contraponto à dificuldade de encontrar nelas as causas, origens e raízes da crise ética, política, econômica e financeira que assola o Brasil, produzindo uma massa de 26 milhões de trabalhadores sem emprego nem esperança ou ânimo sequer para procurar uma colocação. Como explicar o óbvio difícil a milhões de almas viciadas pela ilusão do facilitário?

N – O cenário recessivo alimenta a nostalgia dos bons tempos do Lula. Que teve até a sorte de ter sua sucessora (que acelerou a produção desta crise, semeada desde 2010) impedida dois anos antes de terminar o mandato.  Com isso, Temer herdou não só o governo, como o “carrego” da crise. Pelo menos para a base da população, o PT soube apagar com maestria as suas digitais da autoria desta crise. Mas essa versão fake da história da crise pode ser contestada com argumentos racionais, falando a verdade, mostrando dados, fatos, bons exemplos de ajustes e também contraexemplos, como o colapso do Estado do Rio de Janeiro. Mas isso tem de ser feito numa linguagem de fácil entendimento pelo povo. Não no modo professoral como alguns candidatos têm falado por aqui. E não há solução mágica e fácil nesse campo. Um exemplo recente de caso de sucesso é Portugal, que hoje é “sonho de consumo” de muitos brasileiros. Depois que entrou na União Europeia, deu uma de “novo-rico” com os juros baixos e uma grande onda de investimentos em infraestrutura. Mas aumentou o gasto público de custeio – o que elevou sua dívida – e o país foi perdendo competitividade. Mergulhou numa crise severa a partir de 2008, quando estourou a crise financeira global. Portugal foi afundando numa grande dívida pública, que ficou cada vez mais difícil de ser financiada. Sem saída, Portugal seguiu o exemplo da Grécia e da Irlanda e em 2011 pediu ajuda financeira à União Europeia. Entre 2011 e 2012 o gasto público português caiu mais do que o PIB, indo de 51,8% do PIB em 2010 para 48,5% do PIB em 2012 mesmo com a economia em recessão. Houve até mesmo uma redução de salários do setor público, incluídos os juízes. E mesmo com a volta do crescimento o gasto retomou a trajetória de queda em relação ao PIB. A política expansionista do atual governo português tem tido sucesso até aqui porque está respaldada num forte ajuste fiscal prévio. O conjunto da obra mudou as expectativas dos investidores e da população e criou um ambiente propício  ao crescimento.

Capa do livro Propostas para o governo 2015/2018, organizado por Cláudio Porto e Fábio Gambiagi e lançado em abril de 2014. Foto: Reprodução

Capa do livro Propostas para o governo 2015/2018, organizado por Cláudio Porto e Fábio Gambiagi e lançado em abril de 2014. Foto: Reprodução

N – A outra moléstia que degenera o organismo político brasileiro nestas eleições gerais, e em particular a presidencial e a de parlamentares, é a contaminação indiscriminada de praticamente todos os agentes e realmente todos os partidos políticos da cumplicidade com a corrupção e com os crimes de facções armadas ou de quadrilhas de colarinho-branco. O que fazer para romper esse paradigma dentro das normas vigentes de nosso Estado de Direito, que torna a República refém dos malfeitores que a dirigem e mamam em suas “tretas”?

C – Creio que, depois dos resultados das operações anticorrupção, especialmente da Lava Jato, o Brasil não retornará aos mesmos níveis de impunidade de antes. Claro que os corruptos e corruptores não abandonaram o jogo e agora só temos relações virtuosas. O establishment é muito competente, criativo e adaptativo. Muda as regras a seu favor – vide o caso do financiamento público da campanha eleitoral deste ano, um mecanismo poderoso de conservação do status quo. Mas com a sucessão de prisões e condenações de empresários e políticos poderosos (um deles, ex-presidente da República) e operações, acabou a certeza de impunidade em nosso país e isso joga a favor da verdadeira economia de mercado. Só que, infelizmente, esse processo de depuração é de longa maturação. Repito: talvez a gente ainda tenha de amargar um aprofundamento do crise atual para a sociedade descobrir que soluções fáceis, jeitinhos e salvadores da pátria  não funcionam.

Para Cláudio, "a abertura da economia e a a exposição à competição global, revelarão que a corrupção não é um bom negócio para o desenvolvimento." Foto: Acervo pessoal

Para Cláudio, “a abertura da economia e a a exposição à competição global, revelarão que a corrupção não é um bom negócio para o desenvolvimento.” Foto: Acervo pessoal

N – No panorama desolador de candidatos incapazes de formular uma política séria de equilíbrio das contas públicas, combate ao desemprego, elevação sustentável da renda per capita, fim dos privilégios do baronato dos chefões políticos e dos marajás da máquina “pública”, guerra à violência urbana e rural e combate à rapina do erário, o que pode ser feito pragmaticamente para evitar a bancarrota nacional, que parece iminente?

C –  Manter a indignação, ter visão de longo prazo e persistir. Pode demorar um pouco mais. Mas nossas chances de um dia dar certo são muito boas. Apesar de tudo, não somos um país qualquer. Temos ativos estratégicos muito valiosos no século 21 que sustentam uma atratividade diferenciada do Brasil neste mundo globalizado: 1) ampla disponibilidade de recursos naturais valiosos no século 21 – terras agricultáveis, água potável, belezas naturais, florestas, recursos minerais e energéticos, biodiversidade; 2) mercado nacional integrado e de grande porte; 3) setores produtivos mundialmente competitivos – agronegócio, mineração, indústria aeronáutica, alimentos; 4) solidez, agilidade e elevado desempenho do sistema financeiro nacional, embora seja fortemente oligopolizado e pratique juros e margens astronômicos; 5) continuidade democrática e instituições que funcionam, mesmo com alguns problemas; 6) fronteiras “em paz” – relações pacíficas com os países vizinhos (o problema com os refugiados venezuelanos em Roraima é uma exceção vergonhosa); e  7) uma sociedade que, quando adequadamente mobilizada e liderada, tem alta propensão à  cooperação, com capacidade, flexibilidade e adaptabilidade para lidar com situações difíceis e complexas. O Brasil tem jeito. Mas só com muito trabalho e visão de longo prazo.

Vídeo:

Nêumanne entrevista Cláudio Souto. 20ª  edição Da SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista Cláudio Souto.
20ª edição Da SÉRIE
10 PERGUNTAS

Para ler no Blog do Nêumanne no Estadão:

Fim da crise depende da certeza do fim da impunidade, diz economista

No Blog do Nêumanne: A farsa da ‘pagologia’

No Blog do Nêumanne: A farsa da ‘pagologia’

No Brasil vigora um sistema de faz de conta, uma farsa, que protege quem está no poder, quem paga, quem promove, quem nomeia e quem demite. Não é uma proteção ideológica, mas só adesão ao ‘pagou, levou!’

Joesley Batista foi preso preventivamente por insider trading. Diga-se que  foi a primeira prisão preventiva por esse crime comum e rasteiro, mas de nome sofisticado, em inglês de Oxford, em nossos tristes trópicos. Recentemente, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso disse que o Estado brasileiro é “rancoroso e vingativo, a JBS sofreu retaliação após denunciar o presidente Temer de participar de esquema de corrupção. A JBS é terra arrasada. Já estão lá a Polícia Federal, a Receita Federal e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM)”.

No Caderno Economia, o Estado revelou que a CVM condenou Eduardo Cunha e Lúcio Funaro a pagarem multa de R$ 8,9 milhões. Os dois foram acusados de ter obtido ilegalmente ganhos de quase R$ 2 milhões do fundo de pensão Prece, dos funcionários da Companhia Estadual de Água e Esgoto (Cedae), do Rio de Janeiro. O processo foi instaurado em 2012 para apurar operações realizadas entre 2003 e 2006.  A Prece está tecnicamente quebrada desde junho de 2010, segundo reportagem de O Globo. “O quadro encontrado na Prece é de terra arrasada”, é a conclusão do texto. Mas a CVM ainda não veio a público justificar-se por ter ficado parada como um dois de paus à época do roubo propriamente dito. Como explicar que o órgão encarregado de acompanhar as transações no mercado financeiro e garantir que elas sejam praticadas dentro da legislação vigente tenha engolido uma manada de elefantes desmemoriados na savana, como se tivesse sido reduzida a um ínfimo e inocente inseto em voo?

Em junho, a CVM condenou a ex-presidente Dilma Rousseff pela compra da famigerada Dusty (“Ruivinha”) da petroleira belga Astra em Pasadena, no Texas, EUA. De acordo com o Tribunal de Contas da União (TCU), essa transação causou prejuízo de mais de US$ 580 milhões à Petrobrás. À época, a ex-presidente da República chefiava a Casa Civil de Lula e presidia o Conselho de Administração da estatal.

Antes de Joesley Batista ter gravado Temer, Eduardo Cunha era o todo-poderoso presidente da Câmara dos Deputados e Dilma Rousseff, presidente da República. A CVM, então, nada percebeu, nada investigou, ninguém puniu. É possível seus membros não terem espirrado ao inalar o pó levantado pela manada de elefantes passando ao largo do nariz deles?

Segundo O Globo, o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral pagava mensalão ao chefe da Procuradoria da República no Estado do Rio à época, Cláudio Lopes. Por isso as denúncias contra o governo do emedebista, que frequentou os palanques de Lula, Dilma e, depois, do falso oposicionista tucano Aécio Neves, não eram apuradas.

Eduardo Cunha, deputado federal influente no Rio desde o governo Collor, usufruía os favores daquele agente do Estado pago para acusar delinquentes. Antony Garotinho, cuja candidatura ao governo do Estado do Rio nesta eleição é contestada pelo Ministério Público Eleitoral por compra de votos, republicou em seu blog que “na gestão de Cláudio Lopes à frente do MP Estadual ficou conhecido como Engavetador-Geral porque mandou para a gaveta todos os pedidos de investigação que envolviam o governo Cabral. Mas esse caso agora é crime de prevaricação. Usou o cargo e a informação sigilosa do inquérito que investigava Eduardo Cunha para avisar o deputado, que com autorização judicial tinha sido grampeado. O (então) procurador-geral da República, Roberto Gurgel, está mandando o processo para o Supremo (sic)”. E Garotinho lembrou que “Cabral vinha pressionando a presidente Dilma para conseguir a nomeação de Cláudio Lopes para uma vaga no STJ. Chegou a mudar uma lei estadual só para seu amigo poder disputar. Depois dessa fica difícil (sic).”

Como se vê, o Ministério Público Federal (MPF) não é, como pretendem seus membros, completamente isento e inocente nesta República do faz de conta. Maracutaia similar à de Cláudio Lopes fez Marcelo Miller, quedeixou o MPF em abril de 2017 para atuar no escritório Trench Rossi Watanabe, responsável pelo acordo de leniência da J&F, controladora da JBS, dos irmãos Batista. Mas, como ele admitiu, assessorou executivos da JBS antes de ter deixado seu cargo de procurador. Pasme: o processado Miller foi aprovado na primeira fase de um exame para juiz substituto do Tribunal Regional Federal da 3.ª Região (TRF-3), em São Paulo. Seu nome consta da lista de aprovados divulgada na terça-feira 14 de agosto.

Esses procuradores de santos e justiceiros nada têm, mas são devotos da “pagologia” reinante, encaixam-se o título de Apareceu a Margarida, monólogo de Roberto Athayde, interpretado por Marília Pêra. E nas letras deMargarida, do baiano de Bom Jesus da Lapa Gutemberg Guarabira, e marchinha de carnaval de João Roberto Kelly, inspiradas numa brincadeira infantil de roda falando do súbito aparecimento de uma pessoa que há muito não se via. Pois nessa torpe história de contaminação pelo roubo não falta mais o que faltava: o MPF. A Justiça já estava na lama pelas acusações de Palocci de que o ex-presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Cesar Asfor teria recebido propina para barrar a Operação Castelo de Areia, morta e enterrada sob os auspícios do criminalista Márcio Tomaz Bastos, ex-ministro da Justiça de Lula, este hoje preso em Curitiba.  Como dizia Eliana Calmon, quando era corregedora nacional de Justiça,  existem no Judiciário “bandidos de toga”.

O escândalo do mensalão da Procuradoria-Geral da República (PGR) no Rio ilumina o fato de o Ministério Público Federal em São Paulo nunca ter feito nada contra as empreiteiras com sede na capital paulista. Só que aí, depois, apareceram o juiz Sergio Moro e a força-tarefa da Operação Lava Jato, em Curitiba, os off-broadways. Pois só desde então deu no que deu.

Os governantes aparelham o Estado e o status quo blinda o poder: este é um sistema prostituído. Lula achava que tinha um caso de amor com o Estado, mas assim que ficou fora do poder acabou preso. Michel Temer está protegido hoje, mas nem Deus sabe se continuará sendo depois de passar a faixa presidencial ao vencedor da eleição presidencial de outubro. Quando a arma mudar de mãos,  Temer deixará de atirar e setornará alvo. Ou algum ingênuo ousa apostar que MPF,  PF, Justiça, Receita Federal, Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Banco Central (BC), etc., etc., não apontarão contra ele seus fuzis de mira oportunista?

Se o Partido dos Trabalhadores (PT) eleger seu candidato,  o atual presidente poderá encomendar o caixão. As pesquisas eleitorais, com Lula – condenado em segunda instância, preso e inelegível pela Lei da Ficha Limpa, à frente – atestam que a confiança da população nas instituições é baixa. E que a higienização institucional se limita a mais do mesmo da velha esperança de o que está pior pode melhorar. Não é uma tendência.

Os juízes Sergio Moro e Marcelo Bretas, estranhos nesse ninho, autênticos off-broadways, até agora estão furando essa blindagem. Mas a distribuição do Fundo Partidário reelegerá esse Congresso corrupto: “90% dos deputados e 65% dos senadores candidatos sepultam o devaneio de ‘não reeleja’ ninguém”. Como alertei na semana passada em artigo no Estado, “dos seis pretendentes à Presidência da República com chance, nenhum se compromete com o que de fato importa: o combate a privilégios, política econômica para pôr fim à crise e ao desemprego e o basta à impunidade de criminosos armados e de colarinho branco”. Acrescente-se  a esse caldo podre proposta já anunciada de candidatos à Presidência – Ciro Gomes, o poste de Lula e Geraldo Alckmin com um Centrão para chamar de seu – da premiação com  indulto aos corruptos e atenuações nas leis de combate a corrupção.

Pois o Estado é leal a el-rei e sempre faz o serviço sujo de quem estiver no pudê. As chances de esse sistema mudar são próximas de zero: vista grossa para o governo e chumbo grosso para os adversários. Continua agora valendo o que escrevi na quarta-feira da semana passada no jornal: O Brasil tem tudo para não dar certo tão cedo. O resto é faz de conta, sem ninguém para fazer as contas que precisam ser feitas para que algum dia dê.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 27 de agosto de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Politica, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/a-farsa-da-pagologia/

No Blog: Nêumanne entrevista Paulo Melo

No Blog: Nêumanne entrevista Paulo Melo

Chega de Lula!

Para cineasta e ex-analista do CNPq, petista “já deu o que tinha de dar”, está muito rico e agora deve submeter ao julgamento da História seu legado de recessão, desemprego e inflação

O cineasta e ex-analista do Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) Paulo Melo disse que “o grande esforço nacional seria no sentido de esquecer Lula, por um simples e prosaico motivo: ele já deu o que tinha a dar”. Segundo o assistente de direção do filme Menino de Engenho, de Walter Lima Jr., “bem ou mal, que a História, no seu tempo devido, o julgue, que diga realmente em que importaram para o Brasil seu poder e sua glória. Quanto à fortuna, se é o caso da financeira, essa ele já tem usufruído de há muito”. Na série Nêumanne Entrevista, publicada semanalmente neste blog, Melo afirmou ainda que, “de toda essa confusão armada pelo PT, nada indica de que Lula possa vir a fazer algo de significativo para o País, se que é verdadeiramente chegou a fazer, haja vista o legado de recessão, desemprego e inflação que ele deixou. Em causa própria, inteligente e esperto como poucos, fez até demais. Deixou até de ser uma pessoa para se tornar uma ideia”.  E mais: “Nessa podridão em que está envolvida a classe política, e num país sem partidos políticos verdadeiros, o fato de ele ter cometido crimes e por eles estar cumprindo pena pouco importa, até o ajuda, pois para muitos, em especial no nosso irremediável Nordeste, ele é mesmo um preso político, quem sabe um mártir e talvez até mesmo um santo”,ponderou Melo.

Paulo Melo: "Estamos engalfinhados em discussões radicalizadas de uma nota só e desafinada, que só levam a um febril culto à personalidade" Foto: Acervo pessoal

Paulo Melo: “Estamos engalfinhados em discussões radicalizadas de uma nota só e desafinada, que só levam a um febril culto à personalidade” Foto: Acervo pessoal

Paulo Melo nasceu em João Pessoa (Paraíba), em maio de 1943. Graduado em Filosofia pela UFPB, com especialização em administração cultural pela UnB/OEA. Diretor da Divisão de Documentação e Cultura (1968-9), do Teatro Santa Roza (1970-5) e do Departamento de Assuntos Culturais/Diretoria Geral de Cultura (1975/79), órgãos da Secretaria de Cultura do Estado da Paraíba, diretor das quatro primeiras edições do Festival de Areia (1976-1979) e diretor da Editora da Universidade Federal da Paraíba (1979-1980). No CNPq, em Brasília, assumiu as funções de coordenador editorial (1980-6) e secretário dos Órgãos Colegiados (1991-2013), incluindodiretoria executiva (redação da ata de 364 reuniões) e conselho deliberativo (organização e secretaria executiva de 128 reuniões). Foiassessor especial da Secretaria de Cultura da Presidência da República (1990-1), gestão de Ipojuca Pontes. Participou de 11 filmes: foi assistente de direção em Menino de Engenho (1965), de Walter Lima Jr.; Onde a Terra Começa (1967), de Ruy Santos; Fogo Morto(1976), de Marcos Farias, e Soledade (1975) e Batalha de Guararapes (1977), ambos de Paulo Thiago; produtor executivo de O Homem de Areia (1980), de Vladimir Carvalho; co-roteirista e autor da pesquisa em Poética Popular (1970), de Ipojuca Pontes, e Incelência para um Trem de Ferro (1973), de Vladimir Carvalho; e diretor dos curtas-metragens Contraponto sem Música (1968), com Virgínius da Gama e Melo, Paraíba, prá seu Governo (1969), e A Última Chance (1973). Escreveu na imprensa de João Pessoa no período de 1959-1980.

Nêumanne entrevista Paulo Melo

Nêumanne – As narrativas de grandes feitos de líderes revolucionários de origem popular, das quais o senhor tem conhecimento, foram capazes de profetizar ou registrar uma história de vida como a do brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que saiu da extrema miséria echegou apoder, glória e fortuna, em proporção igual ou similar à por ele atingida?

Paulo Melo – Você já imaginou o quanto se tem perdido de tempo, energia e dinheiro com essa lengalenga do PT com a inviável candidatura de seu único líder? É como se o Brasil, com seus gravíssimos problemas, não existisse, fosse uma espécie de Escandinávia. É por isso que, dias atrás, lhe disse que o grande esforço nacional seria no sentido de esquecer Lula, por um simples e prosaico motivo: ele já deu o que tinha a dar. Bem ou mal, que a História, no seu tempo devido, o julgue, que diga realmente em que importaram para o Brasil esse poder e essa glória a que você se refere. Quanto à fortuna, se é o caso da financeira, essa ele já tem usufruído de há muito. De toda essa confusão armada pelo PT, nada indica de que ele possa vir a fazer algo de significativo para o País, se que é verdadeiramente chegou a fazer, haja vista o legado de recessão, desemprego e inflação que ele deixou. Em causa própria, inteligente e esperto como poucos, fez até demais. Deixou até de ser uma pessoa para se tornar uma ideia. Para júbilo da militância. Imagine aonde chegamos! Tá difícil. Por exemplo, de suas dez perguntas, a metade diz respeito diretamente a ele. É preciso ter, então, paciência.

Paulo Melo, líder estudantil, discursa para colegas do tradicional Lyceu, de João Pessoa. Foto: Acervo pessoal

Paulo Melo, líder estudantil, discursa para colegas do tradicional Lyceu, de João Pessoa. Foto: Acervo pessoal

N – Há na História universal o caso de algum líder político, social ou empresarial que caiba de forma tão total e acabada no perfil daquilo que os burgueses chamam de self-made man capaz de se igualar ao do mesmo Lula, que foi de entregador de lavanderia a presidente da República e depois se revelou vitorioso produtor de presidentes, governadores e outros políticos poderosos?

P – É possível que essa trajetória de sucesso pessoal seja a principal responsável pela relevância que ele ainda ocupa no cenário político. Uma série de fatores convergiu para que isso acontecesse. Numa época, estou falando nos anos 1970-1980, quando ainda se considerava o proletariado o salvador coletivo, a emergência de Lula como líder sindical, em aparente oposição aos pelegos patrocinados pelo getulismo, parecia uma mão na roda. Os intelectuais orgânicos, na falta de melhor opção, trataram, então, de moldá-lo no melhor figurino de um genuíno líder esquerdista, e o fizeram a contento. Com a fundação do PT, em 1980, e transformado num político profissional, não faltou muito para que a peça esculpida assumisse vida própria e fosse pouco a pouco, bom de palco e ardiloso nas articulações como lhe é proverbial, galgando posições e se tornasse o que veio a ser. E assumiu de forma que nada é feito no PT sem o seu consentimento. Sem nenhum espírito democrático, tornou-se o partido um suserano, um absolutista, a exemplo de um Luiz XIV ou um pequeno Stalin. Para tanto, o que não é pouco, o talento e o instinto contribuíram, mas não foi o suficiente, de forma que, como tal, não foi exatamente um self-made man.

Paulo Melo em intervalo das filmagens de Menino de Engenho, de Walter Lima Jr., com Sávio Rolilm no papel-título. Foto: Acervo pessoal

Paulo Melo em intervalo das filmagens de Menino de Engenho, de Walter Lima Jr., com Sávio Rolilm no papel-título. Foto: Acervo pessoal

N – Em sua vida, o senhor já leu algum folheto de cordel, romance de realismo mágico, tratado de psicopatologia, poema épico, peça de teatro do absurdo, filme documentário ou de ficção ou letra canção popular ou erudita que narre a saga de um herói que ascendeu ao poder nos braços do povo, foi condenado sob acusação de ter promovido uma rapina em todos os cofres públicos de uma nação miserável, apenado e preso, mas, ainda assim, ser tido como o maior chefe político da História e liderar da cadeia as pesquisas de intenção de voto da próxima eleição direta?

P – Meu caro Nêumanne, pouca gente neste país conhece a carreira de Lula tão bem como você. Mas só para recordar, quando ele surgiu, no regime militar, já tinha o instinto e a intuição como qualidades e o poder como projeto de vida. Teve a inteligência necessária, e nem sempre o escrúpulo devido, para ir lidando com as pessoas de uma forma muito eficaz e para muitos até com certo encanto. Já no comando do PT,  a candidatura ao governo de São Paulo foi apenas um exercício para o salto maior, qual seja, a Presidência da República. Na quarta tentativa conseguiu, depois de ter perdido para o Collor e duas vezes para o Fernando Henrique, que, coitado, com essas vitórias sobre o operário salvador angariou da intelectualidade, em especial, a uspiana, uma irreversível antipatia. Bem, quando o hoje milionário Lula chegou ao Planalto, explorando ao máximo as suas origens de sofrido retirante, ele já possuía uma sólida máquina de propaganda e, no exercício do poder, essa máquina não só se azeitou como se tornou imbatível e poderosa financeiramente. Isso sem contar que nos oito anos de Brasília se esmerou em procurar ser a mãe dos pobres, o pai dos ricos e o benfeitor da politicagem baixa e rasteira. Tudo isso contribuiu para que fosse criada, ao menos para aqueles tradicionais 30%, uma imagem redentora difícil de se desconstruir. E nessa podridão em que está envolvida a classe política, e num país sem partidos políticos verdadeiros, o fato de ele ter cometido crimes e por eles estar cumprindo pena pouco importa, até o ajuda, pois para muitos, em especial no nosso irremediável Nordeste, ele é mesmo um preso político, quem sabe um mártir e talvez até mesmo um santo.

Paulo Melo em intervalo das filmagens de Menino de Engenho, de Walter Lima Jr., com Sávio Rolilm no papel-título. Foto: Acervo pessoal

Natanael Alves, Gonzaga Rodrigues, Paulo Melo e Vladimir Carvalho entrevistam José Américo de Almeida para filme O homem de Areia. Foto: Acervo pessoal

N – A que tipo de messianismo, sebastianismo, fanatismo ou qualquer outro fenômeno religioso e social o senhor associa a fé cega e faca amolada com que as multidões de devotos rezam pela cartilha da fantasia insana, de tão absurda, para considerar com seriedade e sem serenidade a hipótese estapafúrdia de que Luiz Inácio Lula da Silva não é um mero criminoso condenado pela Justiça em segunda instância, mas, sim, um preso político injustiçado e perseguido pela gana de seus inimigos do status quo, que não querem permitir sua volta?

P – Quanto mais enraizada for a crença, mais difícil é sair dela e não importam as evidências, os fatos, o dado concreto e a realidade objetiva. Quando você se impregna de uma fé, cristalizada ao longo do tempo, superá-la é como se estivesse jogando fora um pedaço de sua vida, é como se reconhecesse que teria sido enganado, iludido. Se você abriu mão de muita coisa, às vezes até de sua dignidade, em favor de uma causa, por mais questionável que ela se tenha tornado, não é uma tarefa fácil abandoná-la. Supostos princípios e valores que nortearam suas convicções passaram a constituir um dom moral de que sua subjetividade não toleraria abdicar. É preciso, então, muito coragem pessoal e, sobretudo, muita honestidade intelectual. Nem todos são capazes dessa autocrítica, dessa insurgência, dessa insubmissão. Ao contrário do que Lula acabou dizer sobre o juiz Sergio Moro ser intocável, ele, sim, é que se considera como tal e mais ainda seus seguidores sobre ele. Reconhecer que Lula foi capaz das mais baixas falcatruas, para não dizer vilanias, indo de encontro a uma imagem erigida com um fervor mais que religioso, não só é uma ofensa, uma heresia, mas afeta diretamente a consciência de quem o elegeu seu guia e seu condutor. E para muitos, até mesmo de forma consciente, ainda que sem fundamento ético ou histórico, ele está acima de qualquer jurisprudência, seja ela moral, política ou jurídica. E não é à toa que ele mesmo se considera o homem mais honesto deste país. E a militância entra em êxtase, não admitindo ter sido ele condenado e estar cumprindo pena, não importando que em todo o processo tenham sido respeitadas as leis em vigor.

Natanael Alves, Gonzaga Rodrigues, Paulo Melo e Vladimir Carvalho entrevistam José Américo de Almeida para filme O homem de Areia. Foto: Acervo pessoal

Paulo Melo com Glauber Rocha e o francês Jean Rouch, teórico do cinema direto, no hall do Hotel Nacional em Brasília. Foto: Acervo pessoal

 N – Que explicação o senhor dá, a partir de sua experiência como educador, para a vassalagem absoluta com que grandes líderes da esquerda se têm submetido ao poder mágico de Lula da Silva, desde seu surgimento, seguindo seus passos e beijando as fímbrias de suas vestes, tais como Miguel Arraes no passado e tantos outros em nossos tempos frios e secos?

P – É possível que parte dela esteja na resposta anterior. Muito embora as revoluções do século passado tenham sido deflagradas em nome e em favor dos, digamos, oprimidos, nenhum destes as liderou, à exceção talvez de Lech Walesa, em quem, aliás, Lula não só se espelhou, como esperava suplantá-lo como personalidade internacional. Desde a redemocratização não temos lideres nacionais. Para muitos, o regime militar dificultou o aparecimento deles, o que pode ser verdade, mas Lula se lançou naquele período e, para alguns, sob o patrocínio do Golbery do Couto e Silva. Como nenhum outro político alcançou a sua dimensão do ponto de vista popular, o comodismo, o paternalismo e a inércia propiciaram toda essa submissão. Quando o ex-operário do ABC conquistou o poder, o que poderia ter acontecido antes não fosse a impertinência de FHC, toda uma estrutura já estava montada para que essa nova onda nele permanecesse por décadas. Naquela ocasião, a Carta ao Povo Brasileiro foi o selo de garantia para que teórico opositor, ou seja, o capital, não fosse importunado, muito ao contrário, como se viu depois. Mas por falar em Arraes, afirmam que Pernambuco é o Estado mais lulista do País. Em compensação, não tem um escasso deputado federal numa bancada de 25 representantes. Aliás, dos 151 deputados federais do Nordeste, o PT tem 15, sendo 7 da Bahia.

N – No verão de nossas ilusões, os cidadãos – encantados com o trabalho eficiente de uma geração de policiais, procuradores e juízes federais, que rompeu o ancestral paradigma de que no Brasil o inferno prisional deve ser destinado apenas a pretos, pobres e prostitutas – ensaiaram uma reação, imaginando ser possível adotar o lema otimista “não reeleja ninguém”.Onde e por que, a seu ver, se perdeu o ânimo da massa e de alguns brasileiros bemintencionados que prometiam sair de seus casulos para entrar no perigoso e sujo universo político, mas terminaram se protegendo de volta a suas vidas confortáveis, sem mais ambição de poder?

P — É difícil você manter e aprofundar um movimento de contestação, para não dizer de insurgência, sem uma efetiva liderança que não só imprima consistência às reivindicações e galvanize os anseios da sociedade naquele determinado contexto, como imponha respeito e credibilidade. Muito se fala dos acontecimentos de meados de 2013 aqui, no Brasil, mas tenho minhas dúvidas quanto à sua eficácia política, como, aliás, ainda hoje tenho com relação a maio de 1968, até porque De Gaulle, o grande contestado na ocasião, terminou obtendo logo em seguida uma vitória esmagadora nas eleições parlamentares. O ânimo trazido pela Lava Jato tem tido algum resultado e atingido seus objetivos primordiais, mas sabemos que não o suficiente  para alterar substancialmente o comportamento dos políticos e fazer com que eles tomem vergonha na cara. De todo modo, a prisão de Lula e a condenação de outros poderosos não deixam de ser um grãozinho de areia nesse enorme edifício de respeitabilidade que precisa ser construído neste país. Só que é preciso muito otimismo para acreditar que ele se erga sem ameaças de desmoronamento. Mas a respeito dessas movimentações de massa, com a licença dos mestres Cleonice e José Paulo, permita-me indicar a leitura de uma crônica de Fernando Pessoa intitulada A ilusão política das grandes manifestações populares. É uma maravilha!

N – Porque passamos pelo outono das desilusões, caímos no inverno da desesperança e hoje nos deparamos com uma disputa presidencial pela qual a população parece não se interessar mais e numa eleição para a renovação do Congresso Nacional, que é quem mandará na próxima gestão, na qual, como dizia Jânio Quadros, e agora mais radicalmente do que à época dele, as moscas mudam, mas as fezes são as mesmas?

P – Ótimo o trocadilho com as estações do ano. Mas já não poderia dizer o mesmo com essa nefasta, mas verdadeira, previsão para as próximas eleições. Penso ser difícil haver desenvolvimento com um país desunido e parece não haver nenhum candidato que possa, mesmo de longe, começar a representar a possibilidade de agregar forças para o salto de qualidade que se espera. De vez em quando penso nos tigres asiáticos e a experiência de alguns deles, em particular a da Coreia do Sul, é costumeiramente lembrada como um modelo a seguir. Tudo bem. Nos anos 1950 estava bem atrás do Brasil, hoje, muito à frente. Mas o Brasil é muito grande, muito diversificado, muito heterogêneo, muito populoso. Não é fácil administrá-lo. Aí você fala da China e até mesmo da Índia. Mas são países milenares, de fortes tradições culturais, e têm um povo acostumado a pensar coletivamente. Em geral, o brasileiro sempre espera que o Estado possa fazer alguma coisa por ele e em face desse paternalismo a tendência tem sido de acomodação. É assim desde sempre. Difícil de mudar. É por isso que costumo dizer: tem coisas que dão certo e tem coisas que não dão certo. O Brasil, desafortunadamente, está neste último caso. Paciência, mais uma vez.

Cartaz do longa-metragem autoral Paulo Melo e o cinema, de Wills Leal. Reprodução: Acervo pessoal

Cartaz do longa-metragem autoral Paulo Melo e o cinema, de Wills Leal. Reprodução: Acervo pessoal

N – O que ainda lhe interessa numa campanha eleitoral em que não se discutem temas como a recuperação das finanças públicas, à beira do colapso, uma política de segurança pública capaz de deter a violência desmedida do crime organizado, a continuação do combate eficaz à corrupção deslavada, desvairada e deletéria e programas que tirem saúde e educação do fundo do poço em que foram atiradas pela sequência de desgovernos sem outro compromisso que não fosse com o enriquecimento dos maganões da elite política, que age, de fato, como uma escória?

P – Num país como o nosso, em que parece que perdemos o bonde da História, os problemas básicos se impõem como absolutamente prioritários. É o que vemos na agenda dos candidatos, mas em geral com muita demagogia e muito populismo. São discursos que se repetem ad nauseam. Aí o pretenso compromisso se reveste de uma capa de cinismo que as campanhas tornamintolerável. Depois de eleitos, assumem o estelionato com o maior descaramento possível e o povo, desconsolado, arruma a viola no saco e procura se virar como pode. Muito se fala em projeto de nação.Mas qual, que cabeças pensantes poderiam ser mobilizadas para sua elaboração, quais as metas perseguidas, como avaliar sua execução e seu desempenho? Sem conferir à educação e à saúde o peso de que são merecedoras, não tem jeito, a gente não sai do lugar. E olhe que para universalizar uma educação e uma saúde de qualidade, em que todos esses novos instrumentos de informação e comunicação devam ser considerados, são necessários, no mínimo, uns 20 anos. O gapante os países que já superaram essa etapa aumenta em proporção geométrica. E aí, onde ficamos? Por falar em educação, que contribuição a universidade brasileira tem dado nesse sentido? Ideologizada como está, preocupa-se mais em garantir a hegemonia de suas correntes de pensamento do que em discutir e formular propostas que a tornem um núcleo com o qual a sociedade conte para seu aprimoramento sociocultural. Quando olho o descaso criminoso com a saúde pública, emotivo que sou, não contenho a emoção. Quando vejo o comportamento dos nossos parlamentares, democrata que sou, sofro de indignação.  .

N – Durante algum tempo, ultimamente, alguns ingênuos, como este seu velho amigo, acreditaram na lorota de que bastaria uma maciça votação popular que legitimaria um presidente, congressistas e chefões partidários, aos quais entregaríamos o poder para ao menos minorarem a penúria de 26 milhões de brasileiros sem emprego digno e sem esperança. Hoje já se percebe que não existe possível deus exmachina do teatro grego, que tanto o senhor aprecia, para desatar o nó górdio que nos enforca, nem espada como a de Alexandre Magno que venha a ser capaz de decepá-lo?

P – Pois é, se não temos nem uma coisa nem outra, a quem recorrer? De que vale a legitimidade, se falta demonstração convincente de compromisso com a coisa pública, além de autoridade, competência, honestidade e firmeza de propósitos? E sobram demagogia e populismo. Isso me faz pensar na reeleição, que existe nos países democráticos e desenvolvidos.  O problema é que entre nós e em parte da América Latina ela existe não como um tempo a mais para o governante poder equacionar aqueles problemas básicos, mas, sim, como projeto de poder, quase sempre com resquícios de autoritarismo. Se tivéssemos a lucidez de seguir o modelo dos EUA, com apenas dois mandatos consecutivos e depois o velho e confortável pijama, certamente não estávamos engalfinhados em discussões radicalizadas de uma nota só e, ainda por cima, desafinada, que não levam a nada, a não ser a um febril culto à personalidade, como agora estamos tristemente vivendo. E, como disse no início, o Brasil, que é bom, fica pra depois, e olhe lá.

Almoço em Cabedelo, Paraíba, com outros dois cineclubistas, o crítico de cinema Martinho Moreira Franco e o cineasta Ipojuca Pontes. Foto: Acervo Pessoal

Almoço em Cabedelo, Paraíba, com outros dois cineclubistas, o crítico de cinema Martinho Moreira Franco e o cineasta Ipojuca Pontes. Foto: Acervo Pessoal

N – O que o senhor tem dito a seus netos para prepará-los para enfrentar sem esmorecer o futuro que os espera à saída da maior crise moral, política, econômica e financeira, pela qual o avô deles ainda está passando?

P – Como não se pode nadar contra a correnteza dos smartphones, dos tablets, da internet e das redes sociais, mesmo não sendo fácil prever até onde ela vai chegar, é preciso de todo o modo que ela seja levada em conta no processo de aprendizagem. As mudanças ocorridas nos últimos anos no campo da informação eram impensáveis no final do século 20 e creio ainda não existirem as ferramentas necessárias para lidar com os efeitos que essas transformações podem causar, e têm causado, na percepção e na dinâmica do que essa nova forma de relacionamento pode produzir. Como cultivar de maneira constante e sistemática o espírito crítico nessa meninada me parece o grande desafio e as novas gerações parecem subestimar a possibilidade de orientação que velhos como nós possam ainda proporcionar nesse sentido. E eu, que não tenho celular, não estou no Facebook e em assemelhados, sou visto com um ser estranho, fora da realidade. Pois é, pode até ser.

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/chega-de-lula-2/

Nêumanne entrevista: Paulo Melo. 19ª edição da Da SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista: Paulo Melo. 19ª edição da  SÉRIE
10 PERGUNTAS

No Estadão desta quarta-feira: O Brasil tem tudo para não dar certo tão cedo

No Estadão desta quarta-feira: O Brasil tem tudo para não dar certo tão cedo

País está dividido entre os que se deixam seduzir pelo populismo e os que o rejeitam

O ano começou com uma expectativa generalizada de que teria início nele algo que um romancista inspirado chamaria de “o verão de nossas esperanças”. Antes de setembro chegar, trazendo a primavera, ninguém precisará ser muito pessimista para lembrar, neste “inverno de nossas desilusões”, que agosto é, de fato, um mês de muito desgosto e que o verão de 2019 em nada corresponderá aos sonhos de renovação de oito meses atrás. Por quê?

Em 2005 teve início no Supremo Tribunal Federal (STF) o julgamento da Ação Penal 470, que ficou popular com o apelido de mensalão e radiografou a podridão das vísceras do primeiro governo soit-disant socialista da História, sob a égide do ex-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva. Nos debates do plenário da Corte, acompanhados com interesse antes só despertado pelos festivais da canção e pela Copa do Mundo, foi revelado ao povo um esquema de compra de apoio parlamentar com o erário sendo tratado como quirera.

Os “supremos” magistrados condenaram à prisão políticos de alto coturno, que trataram os partidos que dirigiam como se fossem organizações criminosas: José Dirceu e José Genoino, que tinham presidido o Partido dos Trabalhadores (PT), Roberto Jefferson, suserano do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Valdemar Costa Neto, rei do Partido Liberal (PL), que viraria Partido da República (PR), Pedro Corrêa, dirigente do Partido Progressista (PP), e outros.

Reza o folclore político que, instado a participar de um movimento para depor o então presidente Lula, o ex-chefão do Partido da Frente Liberal (PFL), hoje o Democratas (DEM), Antônio Carlos Magalhães, disse que preferia derrotá-lo nas urnas. Como a História, implacável, registra, Lula bateu o tucano Geraldo Alckmin na eleição de 2006. Os chefões das quadrilhas partidárias seriam, depois, indultados pela companheira Dilma Rousseff, que Lula elegeria sua sucessora, e, afinal, perdoados pelos companheiros nomeados para o fiel e desleal STF.

Mas, ah, ora, direis, ouvindo estrelas, o povo foi às ruas para reclamar daquilo que, antes de comandar a rapina nos cofres públicos, o PT chamava de “tudo o que está aí”. A rebelião das ruas, que apoiou o combate à corrupção por uma geração de jovens policiais, procuradores e juízes federais, porém, passou ao largo de alguma mudança de fato no Brasil que Machado de Assis chamava de “oficial”, em contraponto ao nobre, pobre e probo “País real”. No ano seguinte às espetaculares manifestações de rua em nossas cidades, 2014, Dilma foi reeleita com Temer e o PMDB na chapa em campanha de que, como depois revelaria outra devassa, nem os vencidos sairiam inocentes. Tudo como dantes no cartel de Abrantes.

Para cúmulo da ironia, levado a julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o triunfo da chapa que juntou a fome com a vontade de comer passou a ser dado como absolvida “por excesso de provas”. Mas a decisão, tomada numa sessão presidida pelo ministro do STF Gilmar Mendes, manteve Temer na Presidência, depois do impeachment da titular da chapa vencedora. E Dilma sem cargo, mas liberada para ocupar posto público por uma canetada praticada pelas mãos esquerdas do senador peemedebista Renan Calheiros e do então presidente do STF, Ricardo Lewandowski.

Isso ocorreu apesar do enorme entusiasmo popular com novo feito da Justiça em primeira instância, a Operação Lava Jato, iniciada em 2014 e responsável pela sequência da AP 470, levando às barras dos tribunais e às celas os maiores empreiteiros do Brasil, Marcelo Odebrecht à frente, e o ex-presidente Lula. Este havia saído incólume do mensalão por obra e graça da omissão do relator, tido como implacável, Joaquim Barbosa, e a atenta proteção do sucessor deste na presidência do STF, Lewandowski. O que não impediu que depois fosse condenado e preso como “chefe da quadrilha”.

No verão, esperava-se que se elegessem um presidente para limpar a máquina pública e um Congresso para apoiá-lo na guerra à corrupção. No inverno, 90% dos deputados e 65% dos senadores candidatos sepultam o devaneio do “não reeleja ninguém”. Dos seis pretendentes à Presidência com chance, nenhum se compromete com o que de fato importa: o combate a privilégios, política econômica para pôr fim à crise e ao desemprego e o basta à impunidade de criminosos armados ou de colarinho branco. Quem está em primeiro lugar nas pesquisas de preferência de voto é um condenado por corrupção e lavagem de dinheiro a 12 anos e 1 mês de prisão.

O economista Cláudio Porto, da Macroplan, acaba de divulgar a pesquisa Cinco cenários para o governo do Brasil 2019-2023, que conclui que qualquer governo terá de conviver com cinco condicionantes imediatos: renda per capita 9% abaixo da de 2014 e desemprego de 14 milhões de pessoas; contexto externo menos favorável do que o dos últimos anos; tensão permanente entre a população impaciente e a maioria fisiológica dos políticos; demandas da sociedade por mais e melhores serviços públicos, em confronto com a manutenção e a conquista de mais benesses pelo baronato de políticos; e combate à corrupção menos intenso.

Para enfrentar esses problemas o eleitorado, segundo Porto, divide-se pela metade, não entre esquerda e direita, mas entre a sedução do populismo e a saída não populista. A pesquisa, feita para a Macroplan pelo economista Flávio Tadashi entre 6 e 8 de agosto, situa em 16,1% a adesão ao populismo de esquerda; 17,4% ao de direita e 16,5% ao “de ocasião”. A saída não populista divide-se em 27% para a conservação do status quo e 23% para o “reformismo modernizante”.

As chances de o Brasil continuar a não dar certo são de 77% e as necessárias reformas e modernização para o País crescer e prosperar não são inviáveis, mas dependem de a maioria do eleitorado ser convencido de que a melhor saída seria essa.

Jornalista, poeta e escritor

 

No Blog do Nêumanne: ONU do B a serviço de Lula

No Blog do Nêumanne: ONU do B a serviço de Lula

‘The New York Times’, a BBC e a ONU não têm compromisso de lealdade com Estado de Direito brasileiro, mas o candidato condenado, o PT e o PCdoB deveriam respeitá-lo

Em abril, antes de ser preso em São Bernardo do Campo por ordem do Tribunal Federal Regional da 4.ª Região (TRF-4), de Porto Alegre, Lula lamentou que, por conta de um importantíssimo “compromisso”, perderia a chance de discorrer sobre como acabou com a fome no Brasil. Há na lamúria uma mentira e uma meia-verdade. A mentira foi desmascarada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que flagrou no Brasil pós-PT e PMDB de Lula, Dilma e Temer a existência de 26 milhões de patrícios desempregados e desiludidos, que nem procuram mais emprego.

Ele, de fato, fora convidado a participar não de um evento na programação oficial do órgão que trata da fome na Organização das Nações Unidas (ONU), a FAO, como foi divulgado no Brasil. Mas de uma reunião da cúpula da União Africana, cujos membros lideram regimes que não primam pela fidelidade aos princípios democráticos. A máquina de marketing político montada nos desgovernos Lula e Dilma fez um tremendo escarcéu a esse respeito. Pois a prisão, tratada pela cúpula petista e pela defesa do condenado em segunda instância como “perseguição para impedir sua candidatura”, teria impedido que gozasse os louros do reconhecimento daqueles tiranos da adoção no maior país da América do Sul de programas como o Bolsa Família.

Mesmo com seu líder cumprindo pena numa dita sala de “estado-maior”, como definiu o juiz Sergio Moro, que o encarcerou, a máquina de propaganda dos tentáculos do petismo espalhados em organizações internacionais não cessou de funcionar. Em 14 de agosto, o jornal The New York Times (NYT) publicou um artigo, de suposta lavra da pena (no sentido figurado) do ex, no qual exaltou programas de seu governo e chamou de “golpe” o impeachment do poste que elegeu presidente, Dilma Rousseff. Ou seja, o órgão de imprensa de convicções liberais que trava, ao lado de concorrentes, uma guerra contra o presidente Donald Trump, que os considera “inimigos do povo”, reproduziu as diatribes a que recorrem os advogados do apenado e dirigentes do Partido dos Trabalhadores (PT), por cuja legenda requereu registro de sua candidatura à Presidência.

A máquina de propaganda petista, sem contar mais com os colunistas de aluguel nem com emissoras ditas públicas de rádio e televisão, cabides de emprego de militantes e simpatizantes, divulgou com estardalhaço o texto de seu profeta. Como se, por terem sido impressas sob o timbre do jornalão nova-iorquino, representassem uma adesão deste às teses absurdas de defesa de um criminoso e acusação contra a Justiça brasileira. Pois, como escreveu Fernando Gabeira em artigo no Globodesta segunda-feira 20 de agosto, Meditando com Daciolo, “para salvar Lula, é necessário condenar a Justiça”. Mas, na verdade  por mais que possa parecer estranho à patota esquerdista, numa democracia os jornais, especialmente os liberais, como o NYT, publicam rotineiramente opiniões estranhas e até opostas às deles. Este foi o caso do artigo em questão. Embora isso não impeça que, do lado de cá, em defesa da democracia que escolhemos para nos reger, não tenhamos comentários desairosos sobre esses registros de pulp fiction.

José Roberto Guzzo lembrou na Veja: “O que a imprensa mundial diz ao público é que Lula está preso porque lidera ‘todas as pesquisas’; se estivesse solto, seria candidato a presidente e ganharia a eleição, e ‘não querem’ que isso aconteça, porque ele voltaria a ajudar os pobres. Quem ‘não querem’? E o que alguém ganharia ficando contra ‘os pobres’? Não há essas informações. Também não há nenhuma palavra sobre o fato de que a presidência de Lula foi o período de maior corrupção já registrado na história mundial ­— realidade comprovada por delações, confissões e devolução de bilhões em dinheiro roubado. Mas e daí? Ninguém está ligando para o Brasil como ele é. O Brasil do Zé Carioca é muito mais interessante.”

O apoio que a cambada lulista acha ter encontrado na mídia burguesa, porém, não basta. Em pleno mês do desgosto, a fábrica de fake news, hoje por conta de robôs nas redes sociais, encontrou mais um tema para nutrir nos desinformados a ilusão de que o condenado e, portanto, inelegível pela Lei da Ficha Limpa conta com adesão internacional para defender sua candidatura inviável à Presidência da República. Fê-lo com a notícia de que certo “comitê” de direitos humanos da ONU, sempre a ONU, tinha intimado o Brasil, ou o governo brasileiro, ou seja lá o que for, a permitir que o condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro dispute as eleições, ao arrepio da lei.

O que houve de verdade? O comunicado a que recorreu a fábrica petista de fake news em exigência para permitir candidatura do condenado é um documento emanado de um “comitê” formado por 18 “especialistas” independentes – acadêmicos em geral – sem nenhum poder decisório ou mandatório. Ou seja, está sendo repetido o estratagema do convite da FAO, já denunciado por Carlos Brickman no site Chumbo Gordo: não havia – e não havia mesmo – nenhum registro no calendário de eventos oficiais daquele órgão da ONU do tal compromisso oficial. Agora também não há. A notícia foi dada (ou seja, vazada) pela BBC, não pelas Nações Unidas.

E tanto nunca foi oficial que a própria ONU divulgou nota na qual informou que a função do tal “comitê” é “supervisionar e monitorar” o cumprimento dos acordos internacionais de defesa dos direitos humanos. E fazer recomendações, sempre em entendimento e consultas com os países envolvidos. O texto dessa nota de informações não deixa dúvidas quanto ao uso impróprio da entidade na divulgação: “É importante notar que esta informação, embora seja emitida pelo Escritório das Nações Unidas para Direitos Humanos, é uma decisão do Comitê de Direitos Humanos, formado por especialistas independentes. (Logo) esta informação deve ser atribuída ao Comitê de Direitos Humanos”.

Ontem o título da coluna de Jânio de Freitas na Folha de S.PauloBrasil ignora tratados internacionais no caso de Lula, vai na contramão dessas conclusões falsas e apressadas. Já na quinta-feira 16 de agosto o comentarista de economia José Roberto Sardenberg registrou em seu artigo semanal na página de opinião de O GloboFake ONU, o seguinte: “Vai daí que são fake todas as notícias do tipo: ONU manda, determina, exige que Lula participe da eleição; Conselho da ONU decide a favor de Lula (forçando uma confusão do Comitê com o Conselho, por ignorância ou má-fé); decisão do Comitê é obrigatória”.

Aliás, ainda na semana passada, em pleno espocar dos foguetões dos lulistas devotos, o colega José Fucs esclareceu no site BR18 do Portal do Estadão: “O comunicado revela, de qualquer forma, o grau de interferência política que predomina nas iniciativas do órgão e o seu aparelhamento pelos PTs do mundo e por países cujos interesses têm pouco ou nada a ver com a defesa da liberdade e dos direitos humanos. Não por acaso, em junho deste ano, os Estados Unidos decidiram se retirar da entidade, que inclui “exemplos” de democracia, como Angola, China, Cuba e Venezuela, em protesto contra suas críticas frequentes a Israel”. Os fanáticos do padim Lula poderão argumentar que o presidente norte-americano, Donald Trump, não é flor que se cheire em matéria de verdade, além de se declarar publicamente inimigo número um da imprensa livre de seu país. No entanto, ninguém de boa-fé ou de boa vontade pode considerar os ditadores comunistas dos países citados por Fucs como militantes da defesa da liberdade de dissentir de seus dissidentes internos.

The New York Times, a BBC, a ONU e os tais militantes, que não são diplomatas das “nações unidas”, mas “especialistas em direitos humanos”, normalmente de esquerda e que compõem o tal “comitê”, não assumiram nenhum compromisso de lealdade com as instituições do Estado de Direito vigente no Brasil por livre e soberana vontade majoritária do povo brasileiro. Os robôs a serviço da pregação ideológica da farsa da “perseguição de Lula para evitar que ele se candidate” não têm vontade própria nem discernimento. Mas, pelo menos em teoria, o PT e o PCdoB, que apoiam as pretensões presidenciais de Lula, e principalmente ele próprio deveriam respeitar e proteger nossas instituições democráticas, se é que pretendem mesmo disputar o voto do cidadão sob a égide delas.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no blog do Nêumanne na segunda-feira 20 de agosto de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo):

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/onu-do-b-a-servico-de-lula/

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