Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

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Nêumanne Entrevista Romeu Tuma Jr. – 2019 (10ª)

Nêumanne Entrevista Romeu Tuma Jr. – 2019 (10ª)

Lula era agente duplo servindo

à polícia e às montadoras, diz Tuma

Delegado Tuma Jr. conta que petista informava a seu pai  quem era quem no movimento sindical e combinava greve  com multinacionais para obter vantagens negociais 

“Lula era o tipo de agente duplo, ou seja, passava informações privilegiadas ao meu pai sobre movimentações dos sindicalistas e fazia o jogo das montadoras de veículos para conseguir atender às reivindicações tanto dos empresários quanto dos trabalhadores”, disse o policial Romeu Tuma Jr. nesta edição semanal da série Nêumanne Entrevista neste blog. Autor do best-seller Assassinato de Reputações – Um Crime de Estado (Topbooks), ele também falou a respeito da investigação sobre a morte do prefeito de Santo André Celso Daniel, quando este coordenava o programa de governo do ex-líder sindical em sua primeira campanha vitoriosa para a Presidência da República. “Condenaram alguns indivíduos como executores, mas, pessoalmente, tenho a convicção de que o Dionísio Severo seria um deles e não foi apontado no processo que se encerrou, fruto da investigação feita pela outra equipe (…). Quanto aos mandantes, não se puniu ninguém e creio que, com a morte do Sérgio Sombra, a última esperança reside numa eventual delação premiada dos empresários de Santo André presos e condenados por participação no esquema de propina comprovado. Ficou muito claro para mim que não interessava aos governos federal e estadual da época investigar mais nada”, revelou.

Tuma aposta que mandantes do assassinato de Celso Daniel não foram descobertos por absoluto desinteresse do Estado e da União: Foto: Acervo pessoal

Tuma aposta que mandantes do assassinato de Celso Daniel não foram descobertos por absoluto desinteresse do Estado e da União: Foto: Acervo pessoal

Paulistano, casado, pai de quatro filhas e avô de uma neta, Romeu Tuma Jr. é advogado e sócio fundador do Escritório Romeu Tuma Sociedade de Advogados. Bacharel em Direito pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) e Faculdades Integradas Guarulhos (FIG) (1978 a 1982), diplomou-se no Curso Superior de Polícia pela Academia de Polícia Civil do Estado de São Paulo (2000). É especialista em segurança pública e polícia judiciária, tem experiência em projetos de segurança com cidadania, integrando atuação policial, equipamentos sociais, ações de cidadania e direitos humanos. Habilitado em Processo Legislativo e Direito Eleitoral, atuou como Autoridade Central Brasileira em inúmeros acordos de cooperação jurídica internacional em matéria penal, civil, extradição e em questões migratórias, especialmente acordos multilaterais no âmbito do Mercosul. É delegado de polícia da classe especial da Polícia Civil do Estado de São Paulo  e foi secretário nacional de Justiça, do Ministério da Justiça. É delegado de polícia comissionado na Polícia Federal e foi o primeiro chefe da Interpol em São Paulo. Na política, exerceu mandato de deputado estadual na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (2003 a 2007), na qual presidiu as Comissões de Segurança Pública e de Defesa dos Direitos do Consumidor, além de ter sido eleito corregedor parlamentar e vice-presidente da Comissão de Administração Pública. Já publicou seis livros, entre os quais se destacam Assassinato de Reputações – Muito Além da Lava Jato (2016), Assassinato de Reputações – Um Crime de Estado (2013) e Máfia dos Fiscais, Reflexões Sobre oCrime Organizado (2000).

Nêumanne entrevista Romeu Tuma Jr.

Nêumanne – O senhor se lembra precisamente de como conheceu pessoalmente Luiz Inácio Lula da Silva, em que circunstâncias e com qual frequência chegou a conviver com ele?

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No Blog do Nêumanne: E pode isso, Toffoli?

No Blog do Nêumanne: E pode isso, Toffoli?

Em plenário, ante silêncio cúmplice dos colegas, Toffoli decreta que casta judiciária pode detratar quem quiser, mas ser detratada apenas pelos outros membros da grei acima da lei

A sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) na quinta-feira 14 de março foi aberta com uma declaração que promete pôr fora da lei qualquer cidadão brasileiro que manifeste seu desgosto com a cúpula do Judiciário em palavras que possam ser consideradas desabonadoras por aqueles a quem elas sejam dirigidas. Mas o decreto de Sua Majestade Imperial não vale para os que, vigente o edital comunicado em transmissão direta pela televisão, dirigirem impropérios aos próprios colegas ou a cidadãos comuns – a estes não se dará o direito de contradizer o édito de el-rei e responder no mesmo tom ao insulto.

Na dita reunião, o presidente da “colenda Corte” mandou instaurar inquérito para processar autores de “denunciações caluniosas, ameaças e infrações” contra seus membros e que envolvam também atos de difamação ou injúria, por exemplo. Normalmente quaisquer processos que entrem na instância máxima da Justiça são relatados por ministros indicados aleatoriamente por um sistema eletrônico utilizando algoritmos. Desta vez o próprio idealizador do inquérito indicou o colega Alexandre de Moraes para relatá-lo, com base no argumento de que ele já tratava de tema correlato em outro caso.

Há várias questões que despertam espanto e cobrança dos cidadãos que pagam os vencimentos dos novos monopolistas da opinião no Brasil. Primeiramente, os crimes de calúnia, injúria e difamação já são tipificados nas leis penais em vigor na República brasileira, que foi proclamada em 1889 e confirmada em dois plebiscitos recentes, nos quais a monarquia – e, no caso, a parlamentarista, que, pelo menos em teoria, era o regime vigente no Brasil no século 19, da independência à proclamação – foi sempre fragorosamente derrotada. Não há razão na teoria do Direito que justifique a distinção entre cidadãos que não possam caluniar, injuriar ou difamar e também ser caluniados, injuriados ou difamados.

Há um dispositivo pétreo na Constituição, que, em teoria, o STF existe para evitar que seja desafiado ou violado, pelo qual todo cidadão, alfaiate ou jogador de futebol, gari ou puxador de cadeira de ministro, é sempre igual a outro perante a lei. Assim, a primeira coisa a perguntar será: por que um inquérito especial conduzido pelo STF para salvaguardar a honra e a integridade física de um funcionário público e evitar que ele seja achincalhado por outro, que, aliás, pode considerar-se seu patrão? Pois, pela lei do capitalismo vigente em nossa Pátria, quem paga tem o direito de receber e também o de reclamar. Esse episódio protagonizado por Toffoli lembra-me o que minha avó  diria: “Calma, doutor, que o Brasil é nosso”.

A segunda questão, decorrente desta, é que o STF só tem valor, se é que algum ainda lhe resta, para manter sua função pública, pela qual é regiamente remunerado, que é a de interpretar a letra constitucional. Mas é bom deixar claro que a interpretação também é limitada pelos códigos da velha gramática. Ou seja, proibir nunca pode ser interpretado como permitir, nem abençoar como amaldiçoar. E o dr. Toffoli, do alto de sua incapacidade de ser aprovado num mero concurso de juiz de primeira instância, escusou-se de informar à plebe ignara, que o sustenta, se teve o cuidado de, ao decretar sigilo para o tal inquérito, verificar com zelo se ele consta da lista do que é ditado pela Constituição. Em seu discurso inflamado, esqueceu-se de contar que reputação ele pretende salvar do assassinato: a do assassino ou a da vítima que não honra a instituição.

Pois a omissão mais relevante do discurso da restauração do Império sem intermediação do Parlamento, como acontecia no reino dos Braganças, é a da chacina de reputações que muitas vezes ocorre entre seus ilustres parceiros de privilégios ou deles para outros serviçais do público. Em 22 de abril de 2009, o relator do mensalão na ilustre repartição de cuja reputação Toffoli se impõe como guardião, Joaquim Barbosa, bateu boca com o par Gilmar Mendes. Os dois divergiram no meio de um julgamento. Irritado com Barbosa, Mendes disse que o rival “não tem condições de dar lição a ninguém”. Barbosa, por sua vez, contragolpeou sem dó: “Vossa Excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro”. E prosseguiu: “Vossa Excelência, quando se dirige a mim, não está falando com os seus capangas do Mato Grosso”. Mendes se irritou e cobrou respeito ao contendor. A sessão foi encerrada e ninguém teve de se explicar ao juiz. O distinto público, perplexo e bestializado, como diria o historiador José Murilo de Carvalho, ficou sem saber que jagunços um chefia e por que o outro não pode dar lição.

Oito anos depois, Gilmar protagonizou pugilato, que tem sido frequente desde então, com Luís Roberto Barroso. Este disse que o outro tinha soltado o condenadíssimo José Dirceu, do PT e, assim, o acusou de ter “parceria com a leniência em relação à criminalidade do colarinho branco”. A resposta foi no mesmo tom: “Não sou advogado de bandidos internacionais”, referência ao fato de a banca de Barroso ter defendido o italiano Cesare Battisti. O motivo da querela era a divergência de opiniões sobre ação da OAB contra a doação secreta de empresas a políticos.

Numa discussão sobre permissão de abortar, Barroso interrompeu Gilmar com uma saraivada de críticas de matar o orador Cícero de inveja quando se dirigia ao líder populista Catilina no Senado da Roma antiga: “Me deixa de fora desse seu mau sentimento. Você é uma pessoa horrível. Isso não tem nada a ver com o que está sendo julgado. É um absurdo. Vossa Excelência aqui fazer um comício cheio de ofensas, grosserias. Já ofendeu a presidente, já ofendeu o ministro Fux, agora chegou a mim”.

E continuou, atuando como discípulo do terrível polemista Carlos Lacerda: “O senhor é a mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia. A vida para Vossa Excelência é ofender as pessoas. Qual a sua ideia? Qual sua proposta? Vossa Excelência é uma vergonha, é uma desonra para o tribunal. Vossa Excelência, sozinho, desmoraliza o tribunal. Está sempre atrás de algum interesse que não o da Justiça”. Qual seria ele não disse.

Tudo isso aconteceu à época em que Toffoli não era ainda presidente do STF. Mas algo mais grave foi registrado na mesma sessão em que ele anunciou a instauração do tal inquérito. O relato de Fausto Macedo em seu blog não me deixa exagerar no ataque furibundo dirigido pelo ministro aos procuradores em geral, sem ter apresentado provaalguma contra nenhum.

Cito Fausto: “Gilmar ainda fez uma contundente crítica a procuradores da República, que, segundo ele, vêm ameaçando juízes e atacando pessoas, criticando inclusive o acordo fechado entre a força-tarefa da Lava Jato com a Petrobrás, que criava um fundo para ser gerido por entidade privada. ‘É preciso ter cuidado com esses combatentes da corrupção, é preciso falar quanto ganha, que escritórios fazem os acordos (de delação). É inadmissível tentar constranger juízes dessa forma, vazando informações, atacando pessoas’, disse Gilmar”.

Ainda segundo o texto de Fausto, intitulado Gilmar vota contra separação de corrupção e caixa 2 e ataca procuradores, o ministro disse que procuradores que agem “atacando” a Corte e outros magistrados não têm condições de integrar o Ministério Público. Nos últimos dias, integrantes da força-tarefa da Lava Jato têm sistematicamente se manifestado sobre o julgamento que é feito no STF, publicando frases como “STF, não mate a Lava Jato”. Conforme relata o voto de Gilmar, “o que se trava aqui é uma disputa de poder, disputa de poder que se quer ganhar a fórceps, constranger, amedrontar as pessoas, mas fantasma e assombração aparece (sic) para quem neles acredita. São métodos que não honram instituição”. O acordo dos procuradores da Lava Jato com a Petrobrás, na sua visão, foi planejado para “criar um fundo eleitoral”.

Convém usar no caso a pergunta que virou refrão do narrador esportivo Galvão Bueno, nas transmissões de futebol da Rede Globo, ao então comentarista de arbitragem Arnaldo César Coelho para definir se um lance seria ou não faltoso: “pode isso, Arnaldo?”. Se não mais em relação a Joaquim Barbosa e Luís Roberto Barroso, deve referir-se aos embates entre outros dois conhecidos briguentos da patota, cujos entreveros ainda podem ser acompanhados diariamente: o onipresente Gilmar Mendes e seu desafeto Luiz Fux: “Epode isso, Toffoli?”

  • José Nêumanne – Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 18 de março de 2019)

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Nêumanne entrevista Astier Basílio – 2019 (9ª)

Nêumanne entrevista Astier Basílio – 2019 (9ª)

Esquerda armada não lutou

por democracia

nem venerou Goulart, diz poeta

No relato da guerrilha comunista Astier constatou que presidente deposto em 1964 só foi procurado no exílio por seu adversário, o direitista Lacerda

O poeta, crítico, jornalista, dramaturgo e professor paraibano Astier Basílio, que tem pesquisado e escrito, inclusive no blog O Estado da Arte, no portal do Estado, reuniu argumentos e documentos para desfazer dois mitos da “resistência” da esquerda na cena política brasileira: a de que teria pegado em armas para defender a democracia contra a ditadura militar e a de que o ex-presidente João Goulart, homenageado por Fernando Haddad com o nome do Minhocão, substituindo o de outro ex-presidente, o marechal Costa e Silva, tivesse sido herói e exemplo para seus militantes. “Se a esquerda armada lutava pela democracia, então, obrigatoriamente, tinha de ter sido a favor de Goulart. Os fios para enjambrar a tessitura dessa mentira demandaram alguns remendos”, disse ele, que atualmente estuda na capital da Carélia, no norte da Rússia. E na série Nêumanne Entrevista deste blog, nesta semana, ele completou: “Talvez seja por essa razão que nos últimos anos, sobretudo após a chegada da ex-guerrilheira Dilma Rousseff ao poder, houve uma espécie de reescritura do passado, no qual o presidente deposto foi elevado à categoria de herói da esquerda. O curioso é que não houve uma voz que se levantasse a pedir sua volta quando foi apeado do poder. Nenhuma placa com os dizeres ‘volta Jango’ se ergueu nas passeatas contra a ditadura. Nas listas dos presos políticos trocados em sequestros, João Goulart não figurou nem simbolicamente. E, ironia das ironias, talvez o único grande gesto de consideração, depois do golpe de Estado que o depôs, foi-lhe acenado pela  direita, em 1966.  Quem o visitou no exílio não foi nenhum líder guerrilheiro, nenhum prócer da esquerda, mas ninguém menos que Carlos Lacerda. O ex-governador carioca viajou ao Uruguai para articular a Frente Ampla, que restauraria as eleições”.Astier Basílio é poeta, dramaturgo e jornalista.

Astier sobre o sucesso de Putin: "O caráter viril, forte, é exaltado como uma virtude imprescindível a um líder que conduza a Rússia. E ele sabe muito bem isso" Foto: Augusto Pessoa

Astier sobre o sucesso de Putin: “O caráter viril, forte, é exaltado como uma virtude imprescindível a um líder que conduza a Rússia. E ele sabe muito bem isso” Foto: Augusto Pessoa

Autor de 14 livros, entre os quais Funerais da Fala (Prêmio Novos Autores Paraibanos, 2000) e Finais em Extinção (Prêmio Nacional Correio das Artes, 2010). É citado em Uma História da Poesia Brasileira (Ermakof, 2004), de autoria do escritor Alexei Bueno.  Em 2014 venceu o prêmio nacional de dramaturgia da Funarte, com a peça Maquinista, levada aos palcos pelo grupo cearense Pavilhão da Magnólia. Seu último trabalho foi um musical em cordel, Marco do Rei do Ritmo, em homenagem a Jackson do Pandeiro, a ser lançado, pela editora Mondrongo, da Bahia, em junho. Em 2017, seu romance Supermercado Brasil Novo foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura. Com atuação nos cadernos de política e cultura, trabalhou como repórter, subeditor, crítico de teatro e literatura nos jornais Correio da Paraíba e Jornal da Paraíba e foi editor do suplemento Correio das Artes. É colaborador da revista Continente Multicultural, do Recife, e do blog Estado da Arte, do jornal O Estado de S. Paulo. Atuou como professor e coordenador do clube de conversação do Centro de Cultura Brasileira em Moscou. É bolsista do governo russo, estuda atualmente na faculdade preparatória, na Universidade Federal de Petrozavodsk, na República da Carélia. Mês que vem iniciará o canal no YouTube Direto da Rússia, no qual fará pequenas reportagens com o celular, além de comentar os mais importantes episódios e acontecimentos na área da cultura, da política e cotidiano em geral, da Rússia.

Nêumanne entrevista Astier Basílio

Astier diante da casa em que viveu Dostoievski, gênio da literatura russa, que venera desde as leituras de juventude na Paraíba. Foto: Acervo pessoal

Astier diante da casa em que viveu Dostoievski, gênio da literatura russa, que venera desde as leituras de juventude na Paraíba. Foto: Acervo pessoal

Nêumanne – O que o fez sair da Paraíba, perder o contato com os poetas populares que povoaram sua vida desde a infância e mudar-se para a distante e fria Rússia, com uma língua estranha e costumes totalmente diferentes?

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No Blog do Nêumanne: Ignorância e despudor

No Blog do Nêumanne: Ignorância e despudor

Tuítes de domingos de Bolsonaro (Jair ou Carlos?), reproduzindo vídeo nojento do carnaval num e notícia falsa do site Terça Livre noutro denotam, no mínimo, desconhecimento e falta de compostura

Uma simples calculadora, um instante de lucidez e alguns segundos de humildade cristã nos dedos de digitar dos Bolsonaros – o presidente da República, Jair Messias, e seu “pitbull” de estimação, o zero-dois Carlos, vereador no Rio de Janeiro, poderiam ter poupado dissabores a inocentes e dores de cabeça a seus assessores. Ainda embriagados pela espetacular vitória nas eleições e pela crença de que o mundo se resume a 480 toques de um tuíte, além do engano de que o povo brasileiro é representado por seus seguidores nas redes sociais, o rebento autor e o condescendente progenitor pisaram na jaca, chutaram o balde e entornaram o caldo.

No domingo de carnaval, à noite, a conta de Twitter atribuída a Jair M. Bolsonaro compartilhou um vídeo infame no qual um homem manipulava o próprio orifício extremo de seu aparelho excretor, enquanto outro despejava explicitamente a urina de sua bexiga sobre a cabeça dele. O fetiche é conhecido como golden shower (chuveiro dourado). E Bolsonaro, seja o pai, seja o filho, completou a cena grotesca com um texto absolutamente incompreensível. Foi o seguinte: “Não me sinto confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades. É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro. Comentem e tirem suas conslusões (sic)”. Cálculos feitos pela assessoria palaciana dão conta de que 69% das reações nas próprias redes sociais foram negativas.

Por falta de espaço para reproduzir o estupor com que vídeo e texto foram recebidos, selecionarei aqui, para gáudio do leitor, duas frases de artigo do ex-deputado federal Fernando Gabeira, que sempre fez questão de ressaltar a excelente relação que manteve na Câmara com o ex-colega. O título sintetiza o texto publicado no Globo de segunda-feira 11 de março de 2019 (página 2): O fim da picada. E é. Vamos às frases. “Opresidente usa a mesma tática da imprensa sensacionalista: isola um fato escabroso, mostra-o nos detalhes e tempera com uma lição de moral, para atenuar a culpa da curiosidade mórbida. Mas nem a imprensa sensacionalista mostraria o que Bolsonaro mostrou.” E “o Brasil é surpreendente, mas jamais pensei numa situação dessas: um presidente da República postar um vídeo pornográfico e perguntar por golden shower no tuíte seguinte”. O tuíte em que Bolsonaro (qual dos dois, afinal?) pergunta qual o sentido da expressão citada acima pode até ser sincero e autêntico, no estilo mais apreciado do chefe da Nação. Afinal, ele nunca se envergonhou de reconhecer que é monoglota (traduzindo: não fala inglês, porque só fala português). Apesar de ser notório admirador de americanos.

Uma semana depois do fuzuê provocado pela cena grotesca, que chocou muita gente, contudo, Bolsonaro (seja o pai, seja o filho) superou a tentativa de se mostrar pregador e cobrador de moral,compartilhando uma cena, mais do que imoral, grotesca, ao tentar provar que a “imprensa” quer ver sua caveira. O site Terça Livre atribuiu à repórter Constança Rezende e ao jornal O Estado de S. Paulo a declaração de que teria a “intenção” de “arruinar Flávio Bolsonaro” e o governo chefiado por seu pai, Jair.

A suposta declaração apareceu entre aspas no título do tuíte, mas não foi extraída de nenhuma das falas do áudio editado, recebido com euforia e fervor pelos bolsonaristas mais entusiastas, inclusive o pai e o filho. Às 20h51 Jair M. Bolsonaro compartilhou a mensagem cometendo o descuido de reproduzir em legendas o que a jornalista realmente fala. Quem tem noções mínimas da língua de William Shakespeare não deve perder tempo procurando a confissão, pois ela simplesmente, se existiu, não foi gravada. A publicação da legenda evitará alguma explicação apressada da equipe de panos quentes do Planalto, pois nem Carlos, o mago das redes sociais, conseguirá fazê-la ressuscitar dos ruídos que ocuparam a gravação. O máximo que encontrará serão frases como “o caso pode comprometer” e “está arruinando Bolsonaro”, que o Conselheiro Acácio, personagem-símbolo do óbvio ululante de Eça de Queiroz, poderá até reivindicar como de sua lavra, mesmo não sendo, apesar do sobrenome comum, parente do sargento PM Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Este tenta justificar-se ao Ministério Público do Rio contando a história da multiplicação econômica dos cabos eleitorais no gabinete, mas da qual o chefinho nada sabia, coitado.

A origem dessa montagem mambembe é Allan Santos, editor do tal Terça Livre, que atraiu os devotos dos Bolsonaros com uma manchete sensacionalista: “Bomba!!!! Jornalista do Estadão confessa: ‘a intenção é arruinar Flávio Bolsonaro e o governo’”. E sua fonte, um blog do “francês” Jawad Rhalib, que se apresenta como jornalista e poupa Allan Santos e os Bolsonaro da primeira acusação, que já não se apoiava em fatos e ganhou a descrição de “denúncia”. Segundo notícia publicada segunda-feira 11 na página 8 de sua edição de política, o Estado registrou: “Constança não deu entrevista ao jornalista francês nem dialogou com ele. Suas frases foram retiradas de uma conversa que ela teve em 23 de janeiro com uma pessoa que se apresentou como Alex MacAllister, suposto estudante interessado em fazer um estudo comparativo entre Donald Trump e Bolsonaro”.  Eis aí uma boa missão para Leonardo de Jesus, o Léo Índio, primo de Carlos e frequentador assíduo dos gabinetes do Palácio do Planalto, sem cargo, mas com um crachá amarelo que lhe permite atravessar portas indevassáveis aos mortais comuns. Os seguidores do Terça Livre e de Carlos e Jair M. Bolsonaro certamente fariam festa com entrevistas de Rhalib e, quem sabe, MacAllister. Por que deixar passar uma chance destas, hein?

Por enquanto, há a esclarecer que a primeira reportagem sobre o caso Fabrício Queiroz não foi escrita por Constança, mas pelo repórter Fábio Serapião, da Sucursal de Brasília. Se Allan Santos e seus sequazes se dessem ao trabalho de ouvir, ver ou ler algum de meus comentários, muitas vezes achincalhados por eles, poderiam ter evitado esse erro crasso. Afinal, chegaram ao preciosismo de encontrar origens genealógicas para a “missão” da moça: ela é filha de Chico Otávio, veterano e brilhante repórter do Globo, não por acaso certamente, autor de um primoroso levantamento sobre milicianos do Rio, a que o ex-deputado Flávio dedicou pronunciamentos, medalhas e empregos para seus parentes, conforme está registrado no acervo do jornal carioca, à disposição de Rhalib e Santos.

Tudo isso pertence a um mundo particular das redes sociais, às quais os Bolsonaros atribuem a vitória eleitoral de outubro. Uma simples calculadora de caixa de padaria desmente esse mito. Jair M. Bolsonaro tem 3,6 milhões e seu filho Carlos, 973 mil seguidores no Twitter. O público do presidente no Facebook é de 9.357.973. São números impressionantes, mas cabe argumentar que no primeiro turno o número 17 na urna eletrônica obteve 49.269.990 votos: 30.119.023 mais do que a turma que o acompanha no Facebook. E ainda convém lembrar que Bolsonaro foi eleito no segundo turno com 57.796.986: 54 milhões a mais do que os seguidores no Twitter. Ou seja: o “povo” a que o chefe do governo se explica nas redes sociais, é menor do que o contingente de mais de 12 milhões de desempregados que ele se comprometeu a socorrer com a retomada da economia e continuam a viver nas calçadas, num espetáculo dantesco de miséria que ainda é encenado no Brasil. Essa parte a calculadora de padaria resolveria.

O exército de vingadores do capitão perseguido pela mídia não dispõe de votos no Congresso para dar ao governo a vitória necessária para tapar o rombo da Previdência Social, construído com a ajuda do chefe, que era parlamentar do baixo clero, que por 27 anos pregou que o buraco não existia. E pior: como foi aqui demonstrado matematicamente, esses cruzados não são suficientes sozinhos para levá-lo ao segundo turno em 2022. Pois ele também foi eleito pelos desiludidos com a política, profissão abraçada por seus amados filhos, e, sobretudo, por quem não suportava mais a roubalheira do PT e da esquerda, em sociedade com MDB e PSDB. Repetir a desqualificação da imprensa, imitando Lula, é trair todo o povo brasileiro. Sem humildade para reconhecer isso nem lucidez para constatar a realidade das ruas, o capitão nem precisa fazer como o califa de Bagdá, Harum Al Rashid: vestir-se de cidadão comum e compartilhar o pão que o diabo amassou com os desempregados nas calçadas. Basta pensar um pouco. Pode, então, descobrir que a reflexão é sempre um ato de sabedoria.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 11 de março de 2019)

José Nêumanne Pinto

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 11 de março de 2019)

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Nêumanne entrevista Malu Ribeiro – 2019 (8ª)

Nêumanne entrevista Malu Ribeiro – 2019 (8ª)

Brumadinho ficar impune é desrespeitar

as vítimas e o futuro, diz ambientalista

Malu Ribeiro, da SOS Mata Atlântica, compara o que viu que se tornou o rio Paraopeba contaminado por rejeitos minerais ao panorama de um campo após a batalha

“Foi como reviver o terrível pesadelo do rio Doce, num cenário de total destruição e dor, semelhante ao panorama de uma guerra, composto de destroços humanos e ambientais, onde a vida parece não ter valor algum. Ver um rio tingido de vermelho, cor de sangue, sem vida, em pleno período de piracema, quando a vida deveria estar em sua plenitude, é uma sensação de enorme impotência, que ressalta a nossa incapacidade perante a irresponsabilidade dos grandes degradadores, da impunidade e da falta de respeito pela vida.” Essa descrição precisa e pungente é usada pela jornalista e ambientalista Malu Ribeiro, que coordenou a equipe que percorreu o rio Paraopeba após o arrombamento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, para constatar que ele morreu. Na edição desta semana da série Nêumanne Entrevista, neste blog, ela fez outra observação para ser lida como se fosse uma oração: “As águas do rio fazem a conexão dos povos com o sagrado, com o valor imaterial desse bem, essencial à vida. O sagrado no Brasil está entrelaçado aos nossos rios, não é à toa que a imagem da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, foi encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul”. Amém!

Malu em ação colhe amostras do Rio Paraopeba para concluir que a parte já invadida pela lama do Córrego do Feijão morreu. Foto Giovana Girardi/Estadão

Malu em ação colhe amostras do Rio Paraopeba para concluir que a parte já invadida pela lama do Córrego do Feijão morreu. Foto Giovana Girardi/Estadão

Malu Ribeiro é jornalista, ambientalista, com especialização na área de recursos hídricos e políticas públicas.  Coordenadora da causa Água Limpa e assessora de advocacy e políticas públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, coordena desde 2003 o projeto Observando os Rios,que monitora a qualidade da água em rios e bacias hidrográficas do bioma Mata Atlântica. Conselheira do Conselho Estadual de Recursos Hídricos do Estado de São Paulo. Ela também érepresentante das organizações ambientalistas no Conselho Nacional de Recursos Hídricos e do Comitê Gestor do Observatório de Governança da Água.

Dez perguntas para Malu Ribeiro:

 

Nêumanne – O que levou a equipe de pesquisadores da Fundação SOS Mata Atlântica, que a senhora coordenou, a concluir que o Rio Paraopeba morreu?

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No Estadão desta quarta-feira: Bolsonaro é legítimo, mas não é monarca absoluto

No Estadão desta quarta-feira: Bolsonaro é legítimo, mas não é monarca absoluto

Meios de comunicação tradicionais

perderam o poder que tiveram,

mas não têm substitutos

Jair Messias Bolsonaro ganhou, sem dúvida nenhuma, a eleição presidencial em dois turnos em outubro do ano passado. Obteve 57,7 milhões de sufrágios, mais de 10 milhões a mais do que o adversário de esquerda, Lula, representado por seu boneco de ventríloquo, Fernando Haddad. E não é pouco. Entre a divulgação do resultado final e a posse os derrotados ainda tentaram descaracterizar a legitimidade de sua vitória, alegando que ele não conseguiu os sufrágios de mais da metade dos eleitores aptos, pois 89,4 milhões não o escolheram: 47 milhões preferiram o derrotado, 31,3 milhões abstiveram-se, 2,4 milhões ficaram em branco e 8,6 milhões anularam o voto. O argumento é estúpido sob qualquer ponto de vista, pois o slogan “ele não!” não é previsto no ordenamento constitucional de nossa democracia. O voto no Brasil nunca é negativo, mas sempre afirmativo.

No entanto, no momento em que não está com algum dos filhos, principalmente o zero dois, Carlos, o presidente constitucional e legítimo do Brasil precisa refletir um pouco sobre os números do primeiro parágrafo deste texto para adicionar a seu estilo de governar um mínimo de lógica aristotélica. Ninguém aqui quer tirar o mérito do triunfo de um candidato que desafiou todos os lugares-comuns de qualquer pleito eleitoral para qualquer cargo. Afinal, ele não participou de nenhum debate nos veículos de comunicação de massa, gastou uma quantia ínfima, se comparada com as fortunas dilapidadas pelos disputantes, e ainda foi esfaqueado brutal e covardemente num evento público, o que praticamente o impediu de fazer campanha. Todos os méritos ao vencedor!

Mas isso não o torna monarca absoluto para exercer o poder sob a mira da família onipresente e de militantes que se sentem seus donos. Os votos deles foram essenciais, mas não os únicos. Para sê-lo, a vitória teria ocorrido no primeiro turno. Já então tivera apoio de antipetistas inconformados com a eventual permanência da rapina da esquerda nas gestões anteriores, confirmando essa decisão na rodada final.

Ao dar ao economista Paulo Guedes, na Fazenda, e ao ex-juiz Sergio Moro, na Justiça, “carta branca” – que depois rasgaria ao interferir na negociação da reforma da Previdência e ao “desconvidar” Ilona Szabó da suplência de uma comissão sem poder –, o candidato tornou-se o ai-jesus do chamado “mercado” e de quem temia o desmanche do combate à corrupção. A trajetória do ex-parlamentar revela a guinada nas convicções do antigo crítico da necessidade de equilibrar as contas públicas reduzindo o rombo das despesas com inativos ao adotar o ideário liberal do auxiliar que chamou de “posto Ipiranga”. A desautorização do “indemissível” foi um ritornello a esse passado de fundamentalista devoto.

O presidente ainda tem três anos e dez meses para confirmar sua fidelidade aos acenos que fez ao liberalismo econômico e ao combate ao crime dentro das normas legais vigentes. Só que para tanto deveria cumprir sem tergiversar a promessa que fez no discurso de posse, e repetiu outras vezes, de seguir princípios fundamentais do Estado de Direito, que chefia: o de governar para todos, pois todos são iguais perante a lei – quem votou nele e quem não o escolheu na urna.

Há exemplos históricos de quem seguiu esses conceitos. Seu colega de armas Eurico Gaspar Dutra, ex-chefe militar na ditadura do Estado Novo, orgulhava-se de ter às mãos o “livrinho”, ao qual era tão leal quanto o era aos princípios de sua esposa, dona Santinha. Afinal, ele não interferiu no pacto do PSD, que o elegeu, com a UDN, que ele derrotou na eleição, na votação da Constituição mais liberal da História.

No governo seguinte, Getúlio Vargas, cuja ditadura do Estado Novo ruiu após entrevista do udenista José Américo de Almeida a Carlos Lacerda, do Correio da Manhã, nomeou o paraibano seu ministro de Viações e Obras Públicas, refazendo a aliança antiga de 20 anos na Revolução de 1930.

A “resistência” da esquerda, sob a égide do PT, não tem postura comparável à da UDN de 70 anos atrás e não se exige que o governo atual, escolhido sob a égide do abandono das práticas ilícitas da quadrilha que esvaziou os cofres da República e levou o País à maior crise econômica, política e moral da História, reedite a velha prática.

Mas partir do pressuposto de que as redes sociais devam governar para substituir o que seus usuários, muitos deles à sombra do anonimato e de avatares substituindo fotografias, chamam de mídia lixo com insultos impublicáveis, não encontra amparo na mesma Constituição que legitima o chefe da Nação. Lula, cercado de extremistas que, armados, foram derrotados na guerra suja contra o regime militar, tentou usar suas falanges para destruir os meios burgueses de comunicação e malogrou. Na Vila Euclides, no auge de seu poder sindical, fazia as massas de grevistas ecoarem “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. Hoje, 39 anos depois, ele está preso por corrupção, os sindicatos perderam a força e a emissora, com todos os seus defeitos, ainda é líder de audiência.

Desde aqueles anos 80, os veículos de imprensa e difusão pelo rádio ou pela televisão perderam muito do poder que tinham no fim do século 20, mas há algo que não pode ser deixado de lado no meio dessa crise. Talvez o presidente, notório admirador da democracia americana, devesse atentar para a observação judiciosa do historiador Timothy Snyder, professor de uma das mais respeitáveis instituições da cultura do Tio Sam, a Universidade Yale, em entrevista a Daniel Haiddar, publicada no Estado do domingo 3 de março (pág. A8).

Disse o autor de Road to Unfreedom (A Caminho da Negação da Liberdade): “Qualquer oportunidade que tenhamos de reverter tendências, como desigualdade, corrupção ou aquecimento global, depende do trabalho de seres humanos reais para descobrir coisas e escrever sobre o que eles investigaram. Não há substituto para o jornalismo. A internet não substitui isso”. É isso mesmo.

José Nêumanne Pinto – Jornalista, poeta e escritor

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