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Artigo de José Nêumanne Pinto: Caso Suzi, vergonha para o jornalismo

Artigo de José Nêumanne Pinto: Caso Suzi, vergonha para o jornalismo

Exploração sentimental da solidão de transgênero que violentou e trucidou criança pobre de 9  anos envergonha médico de grife e campeã que já foi monopolista de audiência

No domingo 1.º de março, o Fantástico, da Globo, exibiu quadro apresentado pelo infectologista Dráuzio Varella abordando casos relacionados com a saúde, como o faz há 30 anos. O tema foi a vida de transgêneros nos presídios brasileiros. Todos sabemos que nosso sistema prisional emula na vida real as narrativas mais horripilantes do que se imagina que seja o inferno e, desta vez, a carga emocional foi acima do normal, mas sofreu ao longo da semana uma reviravolta de 180 graus.

Entre depoimentos críticos e outros positivos, um fato raro quando se fala de locais aos quais o então ministro da Justiça da petista Dilma Rousseff, José Eduardo Martins Cardozo, preferia a morte, como declarou publicamente, um gesto do apresentador do quadro teve impacto incomum. Ao ser informado pela entrevistada, identificada como Suzi Monteiro, internada num presídio em Guarulhos, na Grande São Paulo, de que não recebia visitas, correspondência nem presentes em oito anos de pena, comoveu-se o celebrado esculápio. Num rompante gravado e retransmitido, Varella, autor de dois livros sobre o Carandiru e colunista aos domingos da Folha de S.Paulo, levantou-se abruptamente e se ofereceu ao abraço da entrevistada. Editada como um capítulo de telenovela, com música de fundo e apelo piegas, a cena levou mais de 200 pessoas a remeterem para o endereço da detenta cartas e presentes. Na guerra do Ibope, o decadente programa semanal da antiga Vênus Platinada pode ter recuperado ali índices de audiência de um passado que ficou remoto.

Na semana posterior, contudo, a situação inverteu-se totalmente quando o site O Antagonista identificou a solitária “heroína” do dr. Varella como autora de um dos homicídios mais repugnantes da história dos crimes de pedofilia na periferia pobre e abandonada de São Paulo. Há dez anos, ainda com identidade masculina, a trans surpreendeu um filho de 9 anos de Aparecida dos Santos dormindo em casa, violentou-o, assassinou-o e escondeu o corpo, localizado depois já em estado de avançada putrefação. Qualquer pessoa com um mínimo de tirocínio, ao topar com a figura do assassino, saberia que o crime torpe foi cometido também com enorme supremacia de força e peso do assassino sobre sua vítima.

Quando a notícia foi dada, ficou patente que o médico de grife e a Globo, que nada tem de boba, cometeram violações de profissionalismo e ética elementares com a exploração sentimentaloide da solidão da presidiária. O crime é público e notório, com a agravante de a assassina ter sido condenada a 36 anos de prisão. A defesa apelou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), alegando que o cumprimento máximo de pena, então, era de 30 anos (agora são 40), mas o relator do caso, ministro Nefi Cordeiro, manteve-a, certamente motivado pela sórdida motivação do criminoso.

Nenhum repórter iniciante teria completado seu trabalho sem a informação básica sobre a diferença entre Suzi e outras trans, a maioria das quais, segundo informação dada no Fantástico, condenada por pequenos furtos. De início Varella se disse médico, e não juiz. Ninguém exigiria dele mais do que sensibilidade de cidadão ao cometer tão grave omissão, mas médicos não atuam para consolar assassinos, e, sim, para salvar vidas. Ainda bem que o responsável por essa monstruosa barriga, como se define uma notícia falsa no jargão jornalísticos, não se autoproclamou repórter. A profissão de jornalista é regulamentada, como a de médico, e ele não preenche os requisitos para exercê-la, conforme mostrou no caso.

Foram cometidos crimes mais graves ao longo da mistificação usada para comover multidões e anabolizar a audiência de um programa decadente. O tom da edição leva à indignação dos telespectadores ingênuos contra a família que abandonou sua parente. Mas ela tinha bons motivos para isso, pois, além do homicídio com agravantes, a condenada já havia antes tentado violentar menores no próprio núcleo familiar. Qualquer pessoa civilizada há de reconhecer que justiça foi feita com a assassina apenada. Cumprimentos também mereceria em qualquer registro imparcial do caso o fato de o Estado, normalmente omisso em agressões em celas, ter conseguido dar a Suzi proteção num ambiente em que normalmente pedófilos assassinos são torturados até a morte dentro de presídios.

Diante da repercussão do caso, Varella teve a caradura de criticar a exploração política dele, na certa referindo-se ao magnífico discurso da deputada Janaina Paschoal chamando os participantes do caso de “irresponsáveis”. A palavra é leve. Na verdade, tratou-se de crime.

Na terça-feira, 10 de março, o Jornal Nacional, da Globo, exibiu o vídeo em que o infectologista metido a comunicador pediu desculpas à família do menino assassinadoO editor e apresentador William Bonner também se desculpou, em nome do Fantástico e da emissora. “Apenas depois da exibição do quadro, o Fantástico tomou conhecimento da gravidade do crime e só nesta terça-feira a Globo se manifesta com mais clareza sobre o assunto, porque respeitou protocolos de segurança, protocolos que autoridades públicas não seguiram”, afirmou o âncora no encerramento do jornal. No caso, Dráuzio e Bonner se excederam em cinismo. Certamente não é caso de desculpas, mas de demissões. E se algum erro há a criticar das “autoridades públicas”, é o de não haver até agora punido severamente todos os participantes do gravíssimo episódio. Como escreveu Fernando Coelho, que foi competente chefe de reportagem do Fantástico, “essa história não é sobre gênero, sexualidade… É sobre um assassinato hediondo e um jornalismo incompetente”. E temos dito.

*José Nêumanne Pinto. Jornalista, poeta e escritor
Este é o artigo da quarta-feira, 11 de março de 2020, que mando para o grupo Ric de comunicação, coluna semanal oferecida para jornais nacionais

No Estadão desta quarta-feira: A crise na representação que ainda assola o País

No Estadão desta quarta-feira: A crise na representação  que ainda assola o País

Maia serve a DEM e PCdoB e Alcolumbre foi eleito num pleito de 82 votos e 81 eleitores

Está em plena ebulição no Planalto Central do Brasil uma luta aberta entre os Poderes Executivo e Legislativo em torno da liberação de R$ 46 bilhões, R$ 31 bilhões ou R$ 15 bilhões para emendas parlamentares que beneficiarão prefeitos e governadores estaduais sem necessidade de fiscalização. Na prática, é uma queda de braço na qual quem puder mais chorará menos. Qual das partes tem mais legitimidade para decidir sobre o Orçamento da União? Eis a questão, a ser definida por três princípios básicos da democracia: todo poder emana do povo e em seu nome é exercido, todos são iguais perante a lei e cada cidadão, um voto.

Em teoria, nem deveria ser aberta a polêmica. Afinal, sabe-se que o Poder que realmente representa a sociedade não é o Executivo, que executa leis e orçamentos, nem o Judiciário, que, como determina o próprio nome, julga se a ordem dada está, ou não, dentro da lei e fiel à Constituição. Certo? Não necessariamente. Afinal, no rigor matemático dos fatos o único Poder com mandatário escolhido na base de cada cidadão, um voto é o Executivo. Seja federal, estadual ou municipal. Em mandatos de quatro anos, que só podem ser repetidos uma vez, os chefes de governos federal, estaduais e municipais passam por processos eleitorais de dois turnos para que se garanta sua legitimidade. Na aferição dos votos nas urnas eletrônicas não há dúvidas: garantida a igualdade de condições na disputa, toma posse o eleitor mais votado.

O mesmo não se pode dizer da escolha para a composição do Parlamento de 513 deputados federais e 81 senadores. Os primeiros são eleitos pelo sistema de voto proporcional. Os últimos preenchem três vagas, com oito anos de mandato, dois num pleito e um no outro, e podem ser reeleitos para todo o sempre, amém.

No caso da dita Câmara Alta o cidadão não é representado nem em teoria. Afinal, o plenário dos seniores (do latim “mais velhos”, mas nem sempre) representa cada Estado da Federação por absurdos mandatos de oito anos, inexistentes no modelo do qual a democracia brasileira só imitou o exemplo teórico, o dos Estados Unidos da América, inventados pelos pais fundadores, no que interessava diretamente à oligarquia monarquista que deu o golpe da República em 1889. Senadores americanos têm mandatos de quatro anos e a chamada Casa dos Representantes, modelo de nossa Câmara federal, de dois. O modelo adotado ao norte do Rio Grande contempla a condição especial da história de sua independência de um conjunto de colônias.

A Federação, essencial para os inspiradores, é uma ficção que nunca se justificou nos 131 anos de nossa insana República. O sistema bicameral é uma excrescência tropicalista do Atlântico Sul, herdada do império dos Bourbons, que ruiu 11 anos antes da chegada do século 20. Na República à brasileira dos barões da monarquia que se adaptaram ao novo regime imposto por militares irredentos e positivistas autoritários, o Senado do império derrubado virou uma tal câmara de revisão, que tem servido ao longo deste século de instituições surrealistas. Mas o que revê o Senado e o Senado revê o quê?

No cotidiano sujo do truco do poder, o mando é executado pelo chefe do Executivo, quando este tem força política. Ou, quando não tem ou a perde, pela Câmara dos Deputados. Em teoria, essa é a prática mais aproximada do cidadão. Mas a composição de seu plenário o nega.

Deputados federais e estaduais e vereadores municipais são escolhidos por um regime do “me engana que eu gosto”. No processo herdado da Constituição de 1946 o voto proporcional deu o mando às elites dirigentes dos Estados atrasados sobre os eleitores mais numerosos dos Estados mais ricos. O voto de um acriano em São Paulo tem um poder 13 vezes menor na escolha de seu representante do que o de um mineiro em Roraima. A distorção matemática foi ampliada pela Constituição fajuta dos militares em 1967 e da dita, mas nunca provada, “cidadã” da soi-disant Nova República. No meio disso, o tal pacote de abril dos generais Geisel e Golbery destruiu de vez a representação, criando senadores indiretos, “biônicos”, uma versão exacerbada que não vingou do que são, no fundo, os eleitos.

O Brasil oficial (apud Machado de Assis), que briga pelos bilhões do bolso furado dos pagadores de impostos, é uma aberração que cospe na lógica de Aristóteles e dos tomistas, pois só 7% dos deputados ganharam eleições com o número de votos depositados nas urnas: e são chamados de “puxadores de votos” – como Enéas, Tiririca e Janaina Paschoal. Os restantes 93% dependem do quociente eleitoral de seus partidos e coligações para serem diplomados. Os beneficiários dessa distorção se elegem chefões do Poder dito “representativo” com apoio de opostos, caso de Rodrigo Maia, elevado à presidência da Câmara pelo DEM de Onyx Lorenzoni e pelo PCdoB do Orlando “Tapioca” Silva. Davi Alcolumbre, do remoto Amapá, lançado pelo onipresente ministro da Cidadania de Bolsonaro (que ironia!), venceu o alagoano Renan Calheiros numa fraude de 81 eleitores e 82 votos.

Quem esse chinfrim teatro do absurdo representa?

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Página A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 4 de março de 2020)

No Blog do Nêumanne: Brasil, carnaval e crise

No Blog do Nêumanne: Brasil, carnaval e crise

Maia vem, Lula vai e o mundo, assustado com coronavírus, não teria mais a fazer do que discutir parlamentarismo tropical e chorar com Lula seus queixumes de falso injustiçado?

São Paulo não é mais o túmulo do samba da metáfora do carioquíssimo Vinicius de Moraes. Com 15 milhões de pessoas, aqui foi festejado o maior carnaval do País, superando, imaginem só, Rio, Salvador e Recife. Quem diria! Mário de Andrade, meu paulistano símbolo, conterrâneo de meus quatro filhos e do neto mais velho, ensaiou um passo de frevo no Largo do Arouche, com o solo da Pauliceia Dilacerada, de outro poeta Mário e paulista amigo (de Cajubi), o Chamie, sacudido certamente pela mexida que o poeta de Orfeu do Carnaval solfejou debaixo do chão sobre o qual desfilou a campeã Viradouro. Pois é, seu Mé! Quem caiu fora foi outro carioca, que dizem que nasceu no Chile, Rodrigo Maia.

No meio dos blocos dos sujos, sem o mela-mela rude dos entrudos de antanho, o filho de um descendente dos Maias de Catolé do Rocha e casado com a enteada de Moreira Franco, o “gato angorá” de Brizola, de quem papai César era guru econômico nos anos em que morei no Rio de Janeiro, escafedeu-se para a Espanha. Em Madrid foi recebido por Felipe VI, rei local, filho daquele que mandou o novo deus das esquerdas, Hugo Chávez, calar a boca, em palácio, honraria de deixar boquiaberto o avô Epitácio entre uma refrega e outra contra os Suassunas de João e seu filho Ariano.

O que fazia Sua Excelência na Castela dos reis Fernando e Isabel, enquanto Pindorama deixava de ouvir surdos e cuícas na Marquês de Sapucaí para repercutir a diatribe pesada do chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do governo Bolsonaro, general Augusto Heleno Ribeiro? Este chamou impropriamente de “chantagem” a tentativa do deputado Domingos Neto (PSD-CE), relator do Orçamento da União, de reservar alguns bilhões para emendas parlamentares. Emendas pra lá de especiais, pois seriam destinadas diretamente pelos nobres pares do turista aprendiz a prefeitos e governadores de sua laia, como diria o capitão Bolsonaro, sem fiscalização de órgão algum. O general, por óbvio, errou. Não se trata de mera chantagem. É, como diria a voz do povo, uma punga.

O circo pegou fogo, como aquela tragédia que enlutou nas páginas da revista O Cruzeiro, do rei Chatô, Niterói, terra do quase sogro de Maia, Moreira Angorá, lugar onde, segundo Stanislaw Ponte Preta, “urubu voa de costas”. O decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Celso de Mello, internado em hospital para operar o quadril, esperou Bolsonaro compartilhar no WhatsApp um post sobre manifestação nas ruas dia 15 a favor dele e contra o Congresso, pobre Congresso, para lhe descer o pau: “O presidente não está à altura do cargo”. É, pode ser. Mas estaria Mello, que não renuncia ao posto para cuidar das cadeiras, à altura do dele? Será?

Pelo sim, pelo não, melhor deixar a pergunta sem resposta, de vez que um coleguinha do decano, o ministro, digamos, caçula Alexandre Savonarola de Moraes, pode bater o martelo para inutilizar a mão do escriba. Saulo Ramos, que fez o desfavor ao País de indicar ao chefe Sarney o nome do procurador paulista para servir por muitos anos à elite política dirigente na cúpula do Judiciário, pode até discordar, mas verdade seja dita: o que tinha Maia a explicar aos 74 mil eleitores que o puseram na Câmara, e quase não conseguiram, sobre o que fazia tão longe da mesma mesa à qual o senador Auro de Moura Andrade despachou a renúncia de Jânio sem pôr para votar e o ministro do STF de Rincão (SP) Sydney Sanchez presidiu a votação do Congresso que apeou o alagoano Collor do poder maior? Pois então, que missão oficial tão espinhosa o afastou do exercício de único brasileiro autorizado a começar o processo para depor Bolsonaro, com seus mais de 57 milhões de votos, quase mil vezes os dele?

Perdoe o leitor — que, segundo meu primeiro chefe de reportagem, JB Lemos, é o verdadeiro patrão (e padrão) para um jornalista que se preze –, mas primeiro convém perguntar que missão oficial o dr. Maia cumpria em terras longe do mar em Espanha? Um tuíte inoportuno da Embaixada do Brasil o delatou, dando conta de que fora à Península Ibérica debater parlamentarismo em território brasileiro. Golpe, dirão seus adversários impenitentes. Afinal, quem seria beneficiário de parlamentarismo capaz de tornar o capitão rainha da Inglaterra, a não ser ele próprio? Ah, mas a Embaixada na Espanha sumiu com a prova, apagou o tuíte, ora vejam só!

E Maia voltou para participar daquele momento histórico da tunga dos bilhões que o general Heleno chamou de chantagem e o degas aqui, de mera punga. Ou tunga. Ou qualquer coisa que não seja propriamente motivo para fazer o carnaval da consagração paulistana em meio à crise.

Maia veio e Lula foi. O ex-presidiário foi a Paris em voo de carreira, que só frequenta para o exterior. Domésticos são evitados para que não haja encontros desagradáveis com vítimas da roubalheira comandada pelo PT em seus oito anos de desgoverno e mais oito de indigestão nacional sob o poste Dilma e o parceiro Temer. Não ria. Quem paga as despesas é você, pagador de impostos. O secretário executivo da Secretaria-Geral da Presidência, Antônio Carlos Paiva Futuro, escalou quatro assessores para acompanhar o ex-presidiário no périplo europeu. São eles Valmir Morais da Silva, Elias dos Reis, Carlos Eduardo Rodrigues Filho e Misael Melo da Silva. O quarteto ganhou um passeio a Paris, Genebra e Berlim por conta do chamado erário, também conhecido como viúva, de comprovada e generalizada generosidade. Pergunta-se: que tipo de assessoria quatro servidores da Secretaria-Geral, ocupada pelo apadrinhado de Bolsonaro Jorge Oliveira, poderão prestar àquele que vive chamando o chefe de todos de “miliciano” e outros substantivos não menos ofensivos? Jorginho, que Bolsonaro indicará para o STF, tê-los-á instruído sobre outros atributos?

Então, vejamos. O condenado por 13 juízes, desembargadores e ministros por crimes que atingem o patrimônio público, tais como corrupção e lavagem de dinheiro, recebeu da prefeita de Paris, Anne Hidalgo, o título de cidadão parisiense. Ou seja, teve chance de voltar a insultar o chefe do governo, que lhe impôs uma margem de 10 milhões de votos de vantagem ao humilhar nas urnas seu mais recente poste de plantão, Fernando Haddad. O que farão os assessores de Futuro, o número 2 de Jorginho, que com carteirinha de Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) novinha em folha deverá substituir Marco Aurélio Mello, o primo de Collor, no STF, em julho do ano que vem? Em que temas poderão ter-se especializado no serviço público para ajudarem o condenado e culpado a maldizer o País e sua Justiça?

Já na condição de cidadão parisiense, monsieur Silva, que não deve ter encontro marcado com o inspetor Javert, que perseguia Jean Valjean em Os Miseráveis, de Victor Hugo, participou de uma manifestação pública pelo “Lula livre”. Terá sido o quarteto assessório nomeado pelo sub de Jorginho — segundo Eduardo Bolsonaro, o mais leal servidor de “seu” Jair —  encarregado de convencer os participantes de que a libertação polêmica do novo cidadão da Cidade Luz é apenas um conto policial da direita brasileira? Pois seu acompanhado continua preso em seu apartamento luxuoso em São Bernardo do Campo, de vez que pelo menos no Brasil não consegue sair à rua sem ouvir um insulto ou uma queixa…

Em seguida, a comitiva voa para Genebra, na Suíça, onde o ex-chanceler Celso Amorim recebeu seus vencimentos de diplomata para falar mal do país que lhe paga os proventos mensais. De que servem, então, os asseclas do dr. Futuro a seu protegé? Para apresentar ao filho de dona Lindu os chefões religiosos com os quais tinha encontro agendado? Ou guardaram sua assessoria, paga a precioso ouro dos desempregados por Lula, para dar-lhe argumentos e provar ser injustiçado pela pátria ingrata num encontro em Berlim com sindicalistas do resto do mundo?

O pretexto para o pagamento do turismo de maledicência do ex-sindicalista, presidente e presidiário é uma portaria que já deveria ter sido revogada. Que lealdade é essa do major da PM, que está para ser alçado a ministro do STF, que não serve para evitar esse tipo de vexame para o Brasil? Ou será que Jorginho estava ocupado demais em instruir Bolsonaro a dar mancadas públicas com sua malfadada assessoria jurídica, para cuidar dessas miuçalhas? Por essas e outras o país do carnaval e da crise não se satisfaz com as próprias patacoadas e voa para o exterior para propagá-las.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, na segunda-feira 2 de março de 2020)

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No Blog do Nêumanne: Tiroteio no curral dos Gomes em Sobral

No Blog do Nêumanne: Tiroteio no curral dos Gomes em Sobral

José Nêumanne

Duelo de retroescavadeira e pistola em quartel no Ceará exibe resultados funestos de conluio entre populismo e impunidade, que prejudica cidadãos comuns e democracia, que devia lhes servir

Indiferença, desinteresse e um grau repugnante de desumanidade caracterizam a reação pública nacional diante da crescente violência no Estado do Ceará. Esta atinge prioritariamente os cidadãos, em especial os desvalidos, e mantém livres, leves e soltos políticos vorazes, corruptos e maus gestores. A crise da Polícia Militar cearense com os governantes do PT e seus asseclas do PDT não é exclusiva da Unidade da Federação nem resulta apenas da realidade interna. Mas uma grossa camada de pó e fumaça na cena do conflito toma conta do restante do País, como se fosse uma fatalidade, que põe os beneficiários à distância da responsabilização criminal e da punição eleitoral.

A Constituição de 1988 proíbe greves no serviço público, em especial em casos em que agentes da lei portem armas e exerçam na prática das ruas, cujos ecos não chegam aos palácios, sob a indiferença generalizada dos que se arvoram na condição de monopolistas da consciência nacional. Os parlamentares, que, neste momento, disputam com o Executivo o domínio sobre fatias bilionárias do Orçamento da União, sem controle algum, para poderem usar apenas o próprio arbítrio para administrar as chamadas emendas individuais, nunca moveram uma palha para regulamentar essa restrição. E se aproveitam das brechas abertas por sua indiferença e seu insidioso cinismo para levarem vantagem na narrativa partidária e na disputa dos votos de cidadãos e vítimas.

Nessa regra geral parece não haver exceções. O estopim da dinamite de brutalidade que explodiu no Estado de José de Alencar foi aceso pela covardia, incompetência gerencial e incapacidade de enxergar um palmo adiante do nariz do partido chamado de Novo e de seu governador de Minas, Romeu Zema. Esse senhor, dos baixos da pusilanimidade cívica, concedeu um reajuste inviável de 46% aos PMs do Estado de Tiradentes. O aumento é ínfimo para cobrir as reais necessidades da tropa policial, incapaz de manter a ordem necessária para que ele governe a contento. Mas qualquer aluno do curso primário em Alfenas será capaz de perceber que seu Estado, quebrado, não tem condição de honrá-lo.

Mas o ocupante do posto pelo qual Juscelino Kubitschek passou fez o mais fácil a seu alcance. Pois pelo menos não faltou à aula de Sociologia Política no curso de Administração que ensina que a União sempre socorre Unidades Federativas em estado falimentar. A Pátria amada, idolatrada, salve, salve, não deixará os colegas contemporâneos do alferes morrerem de fome. Essa conta oportunista sempre ficou ao alcance dos governadores e foi paga por gestores federais escravos da demagogia militante.

No entanto, nunca nenhum deles se atreveu a romper esse círculo vicioso, seja por cálculo oportunista, seja por confiança comodista de que o destino manifesto de provedor-geral da República sempre será exercido além dos limites do Estado. O disparo de Zema no próprio pé, jogando no lixo a “novidade” de sua proposta de gestor, mais um irresponsável como os demais, passa ao largo, como sempre passou, das obrigações de seus colegas espertalhões, que deixam mofando nas gavetas a Lei de Responsabilidade Fiscal e o exemplo dado pelo santista Mário Covas em São Paulo de que a prioridade deve ser sanear financeiramente o Estado.

O Ceará de padre Cícero e Floro Bartolomeu, que deram ao bandido mais famoso do Nordeste, Lampião, uma falsa patente de capitão do Exército para combater a Coluna Prestes, sob a também falsa promessa de enfrentar a peregrinação iniciada sob o comando do general Miguel Costa, tem uma tradição de rotina sangrenta. Durante os governos do PDT dos irmãos Ferreira Gomes, do feudo de Sobral, e do PT de Camilo Santana, essa tradição foi radicalizada pela farsa da leniência disfarçada de tolerância. Uma rápida, e até preguiçosa, consulta ao Google velho de guerra alcançará a constatação dessa evidência: em 30 de maio de 2019, Cadu Freitas, do G1 da terra natal do beato Antônio Conselheiro, que enfrentou a República em Canudos (BA), descreveu: “O número de mortes provocadas por agentes da segurança pública no Ceará cresceu 439% entre 2013 e 2018, de acordo com a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). No início da série histórica, foram contabilizados 41 assassinatos por agentes do Estado; já no ano passado, o total foi de 221. O crescimento percentual estadual, em números gerais, é maior do que o ocorrido no Brasil, que teve aumento de 178,4%”. Quem acreditar na justificativa de defender os direitos humanos dos jagunços fardados da terra de Iracema na certa também aposta na inocência e na perseguição de Lula. Fazer o quê?

A entrada dos irmãos Ferreira Gomes, caudatários da política dos coronéis da Guarda Nacional desde a República Velha, incorporou à prática da violência pitadas de cinismo e cafajestice. Da dita “república de Sobral” a elite coronelista interiorana incorporou a essa tragédia de pólvora e sangue um típico componente de farsa de ocasião. O ridículo em série misturou componentes de ficção de A Peste, de Albert Camus, e Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, e cenas de chanchada da Atlântida na Copacabana dos anos 50. Na quarta-feira 19 o ex-governador Cid Gomes tentou atropelar com uma retroescavadeira uma malta de PMs amotinados, de capuz, derrubando o portão do quartel em que se abrigaram. A óbvia tentativa de assassinato em massa tinha conotações de piada de caserna, mas, de fato, configurou crime previsto no Código Penal. Se o invasor frustrado não for processado e preso por isso, o Brasil terá assumido a condição de satélite da truculência irresponsável e desmedida dos fanfarrões de Sobral, que se destacam por tratar política como briga de rua.

Para isso contribuíram socos e pontapés retóricos trocados pelo vereador do Rio Carlos Bolsonaro, o ex-ex-tudo Ciro Gomes, irmão do meliante, e o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), coadjuvante estridente da guerra que a esquerda sem votos pretende mover contra o governo constitucional. “‘Vambora’, Ciro. Já estou indo para Sobral, me espera aí!”, diz Randolfe em vídeo em cima de um trator. “(Randolfe) quer passar por cima de crianças e mulheres com o pessoal do nariz nervoso e lambedor de beiço do Ceará”, comentou Carlos. A esses golpes de MMA abaixo da linha da cintura o irmão mais velho do valentão da retroescavadeira reagiu como dele se espera, é claro. “Libélula deslumbrada, nós aqui no Ceará somos e seremos o pior pesadelo de sua família de canalhas, milicianos e peculatários corruptos. Quanto dinheiro roubado o Queiroz depositou na conta da mulher de seu pai, o canalha maior?”, reagiu o fracassado expelido no primeiro turno da eleição de 2018 pelo eleitor previdente. E o incauto terceiro pulou fora, que não é besta. Randolfe saiu de fininho temendo que seu fio de voz se perdesse nos berros do ex-componente da base da Arena, partido da ditadura: “Fiz um vídeo, em clima de carnaval, em que me solidarizava com a luta do senador licenciado Cid Gomes”, escreveu no Twitter. Ou seja, tentou se escafeder do boteco antes que o conflito entre Sobral e Barra da Tijuca produza um duelo sangrento no curral dos Ferreira Gomes. A guerra eleitoral no Amapá não leva a esses extremos, mas também é pródiga em mentiras pusilânimes.

Rodrigues, intrometido inconveniente, que entrou na briga sem ser chamado, trouxe valiosa compreensão da falsidade como arma política. Foi solidário aos rebelados, tratados como “desertores”, que é mesmo o que são, pelo governador petista, aliando-se aos cowboys sobralenses. Mas contra motins. Então, façamos chegar aos pubs festivos da esquerda a realidade das vaquejadas cearenses. Os PMs rebelados não são grevistas, mas promoveram um motim, cujo resultado pode ser contabilizado no total das inocentes vítimas de morte da guerrilha da retroescavadeira: pelo menos 122 da quarta-feira 29 do insano ato do coronelzinho Cid ao domingo 23 do debate entre o mano Ciro e Carlos, o filhinho do capitão.

Pela paz desses filhos de Deus sacrificados por incúria e indiferença gerais, urge tomar decisões. Processar o senador licenciado por tentativa de assassinato. Em seguida, localizar e prender suas vítimas eventuais, uma das quais atirou nele. Nunca anistiar desertores, contrariando a chusma de ex-oficiais de PM que ocupam Legislativo e Executivo federais. Um deles, o ex-major Jorge Oliveira, Jorginho para o clã Bolsonaro, cujo chefe anunciou que o nomeará para o Supremo Tribunal Federal, mesmo sendo bacharel em Direito há apenas 13 anos. E nada de intervenção federal no Estado. O PT precisa pagar pelo menos por seus erros de gestão, já que o STF se exime de pôr na cadeia seus excelentíssimos dirigentes, no caso de Lula pelo assalto impune ao erário.

·        Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 24 de fevereiro de 2020)

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Coluna semanal do Nêumanne: Brasil, república de cafajestes

Coluna semanal do Nêumanne: Brasil, república de cafajestes

José Nêumanne
Coluna semanal, distribuída pela Ric para vários jornais

Condenado por 9 a 0 em três instâncias, Lula passeia em Roma e Brasília posando de herói, socialista Coutinho é absolvido e fica solto e Bolsonaro insulta repórter na maior cafajestice

Parecia chanchada da época gloriosa de Oscarito e Grande Otelo nos velhos tempos da Atlântida. Ladrão e lavador de dinheiro julgado e condenado por nove magistrados, juiz, desembargadores e ministros, o ex-presidente Lula tinha um interrogatório marcado com o juiz federal Vallisney de Souza Oliveira, no âmbito da Operação Zelotes, em 11 de fevereiro último. Pediu para faltar ao compromisso, pois o papa Francisco o receberia no Vaticano no dia 13. Poderia ter viajado no dia 12 à noite, pois não faltam aviões de carreira para Roma nem empresários milionários dispostos a pagar velhos favores, ou conquistar futuros prováveis, dispostos a embarcá-lo num jatinho particular para recolhê-lo em Brasília e deixá-lo no aeroporto mais próximo da Praça de São Pedro.

Difícil mesmo era o bispo de Roma justificar o compromisso, marcado pelo amigo do amigo, condição lembrada pela empreiteira corrupteira Odebrecht para adotar como codinome do ilustríssimo advogadinho do PT alçado pelo mesmo Lula ao pináculo do Judiciário, Dias Toffoli. Em território brasileiro, dizem, vive a maior população católica cá da Terra. E a maioria dos brasileiros maiores de idade e aptos a votar elegeu presidente um obscuro parlamentar da direita, o capitão reformado Jair Bolsonaro, pelo simples fato de representar a esperança da população de afastar os gatunos travestidos de socialistas (et pour cause) por todos os séculos, amém, das chaves dos cofres do erário, preenchidos pela suada poupança de todos. O pontífice argentino e esquerdista, já havia resistido à tentação de vir ao Brasil para prestigiar a festa de uma negrinha, Nossa Senhora Aparecida, porque as instituições republicanas, constatados o crime e o pecado contra o oitavo mandamento (“não furtarás”) presente nas tábuas da lei, haviam decretado a aposentadoria perene e o ostracismo eterno ao Ali Babá de Caetés.

Mas o sumo pontífice recebeu e se permitiu fotografar pelo retratista oficial do líder da esquerda estelar pousando a caridosa mão habituada a empunhar o cajado simbólico de pastor do pescador Pedro sobre a fronte do condenado que nunca se arrependeu de seus crimes. E, depois, ainda manifestou sua satisfação por ter propiciado um périplo do gatuno pelas ruas da Cidade Eterna, num ato falho em que omitiu o fato de que seu dileto filho pródigo não frequenta aviões de carreira nem vias públicas, no lado de lá do Atlântico, para evitar insultos dos cidadãos que roubou.

De volta da Europa, o líder sindical que vendia greves e dirigente político que fazia favores remunerados a empreiteiros corruptores por América e África deu-se ao luxo de conduzir seus companheiros de rapina e fortuna a salões de hotéis de alto luxo para combinar a volta ao comando dos cofres públicos nas próximas cruzadas de engana-povo.

Trata-se de um caso espantoso, mas jamais singular. O socialista paraibano Ricardo Coutinho, protagonista de vídeos exibidos nos noticiários da televisão cobrando propinas de um lobista da Cruz Vermelha gaúcha, passou pela capital federal na mesma semana da visita do petista para ser ouvido pela direção de seu partido, o PSB de Miguel Arraes e Eduardo Campos, sobre os passos a dar para enganar os incautos nas eleições municipais deste ano e na presidencial e estadual de 2022.

Acusado de ter amealhado fortuna pessoal de R$ 130 milhões (o que significa que tungou dos cofres de um dos Estados mais pobres do Brasil, a Paraíba, pelo menos R$ 1,3 trilhão), sua insolência insolentíssima recebeu a grata (para ele) notícia de que continuará gozando de liberdade para conduzir os destinos da Orcrim Ricardo Coutinho com o mesmo pulso de ferro com que liderava o Coletivo Ricardo Coutinho, à época em que começou carreira política sob a sigla do PT do mesmo Lula. A 6.ª Turma do Superior Tribunal de Justiça manteve a decisão de soltura de que gozava com a condição de cumprir restrições que somente um néscio total acredita que serão fiscalizadas a contento pelas autoridades responsáveis.

Enquanto a esquerda comemorava em silêncio o patético desfile dos zumbis políticos Silva e Coutinho, a direita se refestelava em gargalhadas ao ouvir o inédito insulto desferido pelo inimigo de ambos, futuro adversário na eleição presidencial de 2022, Jair Bolsonaro, à repórter da Folha de S.Paulo Patrícia Campos Mello. Nunca o calão foi tão baixo no alto poder concedido ao ex-oficial pelo voto popular milionário.

A jornalista publicou uma reportagem implausível atribuindo a vitória eleitoral do presidente a disparos de WhatsApps nunca comprovados. Mas, talvez por ser usuário frequente da postura de acusar sem ter prova da acusação, Sua Insolência jogou a excelência do comportamento na vala comum e apelou para a ignorância (aliás, nunca uma expressão foi usada de forma tão precisa quanto esta). O pai do senador Flávio Bolsonaro, que distribuiu no Twitter vídeo apócrifo de um cadáver identificado não por suas notórias feições, mas por um esparadrapo nas costas com as inscrições Adriano Magalhães, fez a versão sangrenta do mesmo espírito que comandou a piada do pai, consagrando uma das práticas mais empregadas no buliçoso clã presidencial – a cafajestice.

 A maioria dos brasileiros deplora as atitudes de cafajestes e não as pratica, mas convive pacificamente sob o comando de gente como Lula, Coutinho, Jair e Flávio, que usam o baixo calão no bélico discurso político como se isso representasse um diferencial para o alto da glória, nunca para baixo da linha da cintura.

*Jornalista, poeta e escritor

 

 

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No Blog do Nêumanne: Este é o país do faz de conta

No Blog do Nêumanne: Este é o país do faz de conta

José Nêumanne

Tribunal condena partidos a multas e não as cobra, benemérito ofereceu R$ 6,4 milhões do erário a sócio, políticos fogem da “vacina ética” e Congresso cobra carteira de estudante pobre – é o Brasil

Já há bastante tempo tenho criticado com rigor a existência da Justiça Eleitoral. Assim como a Trabalhista, é uma excrescência que só serve para gastar dinheiro da escassa e suada poupança do trabalhador e nada faz de útil para merecer os prédios suntuosos de suas sedes e as folhas de pagamento com que sustenta afilhados e apaniguados dos políticos.

Nunca me faltaram exemplos para comprovar esses argumentos, que são muito mais do que opiniões. Não se trata de um problema nacional. O complicado sistema norte-americano de coleta e contagem de votos levanta dúvidas sobre a vitória de John Kennedy sobre Richard Nixon, em 1960, com suspeitas de que o prefeito Daley, de  Chicago, virou a disputa com base em fraude. Assim como Jeb Bush, à época governador da Flórida, teria garantido a vitória do mano George (filho) na eleição de 2000, contra o democrata Al Gore, vice-presidente de Clinton e Prêmio Nobel da Paz.

No Brasil das eleições a bico de pena da República Velha, as fraudes têm passado ao largo da Justiça Eleitoral. Em 1966 na disputa pelo governo da Paraíba João Agripino derrotou Ruy Carneiro, que recorreu da contagem. O recurso só foi julgado depois dos quatro anos do mandato do adversário. Caso mais escandaloso foi 24 anos depois na disputa pelo governo do Paraná, onde o favorito no primeiro turno, José Carlos Martinez, foi derrotado por um golpe baixo de seu adversário, Roberto Requião, no começo do segundo turno. Foi veiculado na propaganda eleitoral, dita gratuita, do rádio e da TV o depoimento de um falso “Ferreirinha”, motorista na campanha, que se dizia pistoleiro de ofício e “confessava” ter matado pequenos proprietários rurais a serviço do empresário Oscar Martinez, pai de José. O impacto virou o resultado. Requião ganhou, Martinez recorreu, ganhou nas primeiras instâncias e perdeu no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), porque sua defesa não havia denunciado o vice. Martinez morreu, Requião ainda disputa eleições.

O último golpe no TSE, contudo, não foi dado por políticos, mas por ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Estes desviaram todos os processos criminais em eleições da Justiça penal para a Eleitoral. Impunidade garantida e seu voto perdido. Fiquei rouco de tanto denunciar isso, mas não adiantou. E me lembro sempre de que fraudes contábeis em campanhas passam em branco por falta de vontade jurídica de um plenário político por excelência de provocar danos nas finanças de seus partidos e padrinhos. O exemplo mais absurdo foi a absolvição da chapa Dilma-Temer, em sessão presidida por Gilmar Mendes, por “excesso de provas”, na definição do relator, Herman Benjamin.

Enorme, pois, foi minha satisfação ao ler reportagem da colega Carolina Brígido, manchete do Globo na segunda 17 de fevereiro de 2020. De acordo com ela, o TSE “impõe centenas de multas todos os anos a partidos, candidatos e políticos. No entanto, não exerce fiscalização nenhuma sobre o pagamento dessas multas. Não há lista de devedores, ou cadastro informando quem paga e quem não paga as multas. Logo, quem não quita o débito, na prática, não sofre sanção porque não existe um sistema de cobrança das dívidas.” Só um completo idiota poderia acreditar na eficácia das ações da Lava Jato que passaram de penais a eleitorais por obra e desgraça dos ministros Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Celso de Mello, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio Mello e Dias Toffoli.

Segundo a reportagem de Carolina Brígido, “a falta de controle contrasta com as cifras sob a responsabilidade da Justiça Eleitoral. O orçamento do TSE para 2020, ano de eleições, é de R$ 2,1 bilhões. Cabe ainda a esse ramo da Justiça fiscalizar R$ 959 milhões correspondentes ao Fundo Partidário e outros R$ 2 bilhões do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, conforme os gastos previstos para este ano. Se o dinheiro das multas fosse devidamente cobrado, o erário estaria mais recheado para arcar com esses custos”. As multas decretadas só são cobradas se algum cidadão se interessar em saber se algum político condenado quitou seu débito, tendo para tanto de especificar em questionamento a ser encaminhado aos técnicos do TSE. Dependendo do número de páginas do processo, a resposta poderá ir para as calendas gregas, ou até um prazo maior.

Em reportagem dominical neste Estado, os repórteres Pedro Venceslau e Paula Reverbel narraram outro golpe de engana-trouxa, aplicado pelos chefões das organizações partidárias criminosas sobre a cidadania. Combatentes da corrupção no Brasil, como o professor de Direito Modesto Carvalhosa, da USP, introduziram no noticiário dos meios de comunicação a palavra inglesa compliance. Como aqueles termos catalogados pelo saudoso amigo Sérgio Corrêa da Costa na obra de filologia que compartilhou sua coleta, feita com paciência chinesa, Palavras sem Fronteiras, ela foi adotada sem cerimônia para nossa flor do Lácio. Chegou a virar sinônimo de “vacina ética”, definem os colegas. Apresentado pelos partidos como tal para evitar danos decorrentes da repercussão da Operação Lava Jato, o compliance até hoje não saiu do papel nas legendas que prometeram criar mecanismos de transparência e cumprimento de normas similares aos adotados por grandes empresas.

Segundo a dupla, “todas as siglas terão de correr contra o relógio caso o Congresso aprove um projeto de autoria do senador Antônio Anastasia (PSDB-MG) que obriga partidos políticos a cumprirem uma série de normas para aumentar a transparência e evitar atos de corrupção. O PLS 429/2017, que altera a Lei dos Partidos Políticos (Lei 9.096, de 1995) para submeter seus representantes a programas de compliance, já foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado e desde 16 de janeiro está pronto para ser votado em plenário”.

Outro colega de redação, Ricardo Galhardo, narrou na edição dominical do Estado a saga do advogado carioca Pedro Trengrouse, que “ofereceu serviços particulares de seu sócio, o economista Edson Américo, no valor de US$ 1,5 milhão (R$ 6,4 milhões), enquanto era assessor técnico não remunerado do Ministério da Economia para assuntos relacionados a jogos e apostas. Entre os serviços oferecidos estão ‘atividades de relações públicas’ no Brasil para empresas que atuam com apostas online.” Neste caso o cinismo é de parte a parte. O protagonista do episódio, Trengrouse, negou a Galhardo que tenha havido conflito de interesses. Imagine se tivesse havido! E o secretário de Avaliação, Planejamento, Energia e Loteria da Secretaria Especial da Fazenda do Ministério da Economia, Alexandre Manoel, seu padrinho no governo, disse ao jornal que ele não teve “vínculo jurídico” oficial. Imagine se tivesse! O que terá a dizer o chefe de todos, Paulo Guedes, a esse respeito?

Para completar a semana do cinismo no uso do erário, os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Rodrigo Maia, ambos do DEM do ministro Onyx Lorenzoni, deixaram caducar no domingo 16 de fevereiro a medida provisória, assinada pelo presidente Jair Bolsonaro em setembro de 2019, dando poderes ao Ministério da Educação (MEC) para emitir carteirinhas de estudante digitais gratuitas, as tais IDs Estudantis. A MP não foi votada pelo Congresso no prazo fatal de 120 dias e perdeu a validade no domingo 16. O MEC informou na sexta-feira 14 que, mesmo com a MP caducando, os 325 mil documentos emitidos via aplicativo até a tarde de domingo poderão ser utilizados enquanto a matrícula do aluno em uma instituição de ensino estiver ativa. A União Nacional dos Estudantes (UNE), no entanto, questiona a validade. Antes dessa MP, somente as entidades estudantis, como a própria UNE, podiam emitir o documento, a um custo unitário médio de R$ 35. A determinação foi criada com a Lei da Meia Entrada, aprovada em 2013 e regulamentada em 2015.

O monopólio das carteiras de estudantes garante o sustento milionário de partidos de extrema esquerda, como o PCdoB, em que milita Marianna Dias, presidente da UNE. Um dos mais ativos cabos eleitorais da candidatura de Rodrigo Maia à presidência da Câmara por duas vezes foi o deputado do PCdoB Orlando Silva, aquele que comprava tapiocas com dinheiro público. Agora esse parlamentar, frequentador do propinoduto da Odebrecht na Lava Jato, faz campanha para rasgar a Constituição e os regimentos da Câmara e do Senado e reconduzir Maia e Alcolumbre à presidência das Casas, o que não é permitido no meio da legislatura. E essa corja de golpista ainda se acha protetora dos estudantes pobres.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 17 de janeiro de 2020)

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