Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Destaques

Coluna semanal para o site Rice: De volta ao buraco sem luz

Coluna semanal para o site Rice: De volta ao buraco sem luz

 

 

Segue abaixo artigo semanal que a Ric Comunicação põe à disposição de todas as publicações impressas do Brasil.

 

 

 

 O Grupo Ric de Comunicação põe à disposição de emissoras de rádio e jornais impressos ou em edição virtual três podcasts de três minutos cada e um artigo por semana. Interessados em publicar este material original deve entrar em contato com mash.leonardo@gruporic.com.br

 

De volta ao buraco sem luz

José Nêumanne

Adiamento da demissão de Mandetta do Ministério da Saúde é mais uma batalha da barbárie contra a civilização do “mito” da militância  terraplanista, criacionista e figadal inimiga da ciência

Li O Mito da Caverna, de Platão, nos meus distantes 14 anos, nas horas obrigatórias de leitura na biblioteca do Instituto Redentorista Santos Anjos, em Campina Grande. Tenho uma frustração e uma inveja nessa leitura de pré-adolescência. Frustração por não ter me dedicado mais ao estudo de grego antigo para ler o texto magnífico no original. Inveja do ortopedista pediátrico Luiz Henrique Mandetta, que se orgulha de havê-lo lido 20 vezes. Como me disse certa vez Jorge Luís Borges, ler é uma atividade fútil. Útil é reler os bons textos. E estes são tão poucos…

Revelando um espírito refinado que não imaginava num profissional de medicina, normalmente mais dedicado à atualização de seus conhecimentos científicos do que à filosofia antiga ou mesmo à literatura, o ainda atual ministro da Saúde, sabe Deus até quando, aproveitou bem cada vez que abordou o gênio ateniense quando o usou à hora certa e na data exata. Citou o clássico da filosofia na entrevista coletiva em que contou ao País que esvaziara as gavetas do gabinete ministerial ao saber que seria demitido na segunda, à tarde, e, depois, voltara a enchê-las depois da desistência do chefe de pô-lo para fora do cargo público.

A meio século de haver folheado as páginas de papel bíblia nos ermos de Bodocongó, e com a memória prejudicada por velhice, diabetes e ameaça de coronavírus à porta, ainda me lembro do impacto daquela leitura única em todos os sentidos da palavra. A tragédia do homem primitivo que rompeu as cadeias das trevas do buraco em cujas bordas só via sombras, para conhecer o Sol, tinha o condão de transformar em fábula ancestral a rotina burocrática de uma atividade rasteira como é a política, atingindo a sordidez no momento por ele vivido. Séculos depois de concebida, a saga do descobridor da luz solar, que ilumina e higieniza, morto por seus antigos companheiros de redução a imagens caprichosas de chama e sombra, repetiu o embate milenar entre civilização humana e barbárie pré-histórica.

Ao sair do encontro com o carrasco após este desistir de lhe decepar a cabeça no cadafalso, o quase ex-ministro fez mentalmente a 21.ª leitura da obra platônica e se vingou, sem que o outro sequer sonhasse com  isso, com a suprema humilhação de torná-lo protagonista de um conto terrível e que ainda assim jamais entenderá a dimensão da luta entre conhecimento e ignorância. O presidente da República é um homem simplório. Saiu do Exército, que diz venerar, sem fazer um curso de estado-maior, num acordo de cavalheiros em que nenhuma das partes agiu como cavalheira. Numa solução típica de instituições fechadas em copas e galões, a Força expeliu-o do convívio dos camaradas de armas na patente de capitão para evitar que fora da caserna se conhecesse o delito do oficial acusado de terrorismo. Na reserva a decisão foi fundamental na formação do caráter do que não foi expulso. Seu herói militar não é Churchill, ex-lorde do almirantado que ganhou a 2.ª Guerra Mundial, nem De Gaulle, general francês que comandou a resistência de seu país, a França, ao abrigo de um aliado que foi ao longo da História o maior inimigo, a pérfida Albion. Mas um reles torturador da guerra suja em que as “gloriosas” Forças Armadas se meteram num banho de sangue de inimigos sem nenhuma chance de vencê-las.  O indesejado fez carreira como sindicalista fardado e parlamentar do mais baixo clero com pretensão a reverter na democracia, que surgiu dos escombros do gigante de pés de barro da ditadura militar, a má fama com justiça conquistada nos anos de chumbo. Sua homenagem ao réprobo dos porões da Rua Tutoia, coronel Brilhante Ustra, ao votar na sessão de julgamento do impeachment da inimiga acusada pelos que os convidaram a retirar-se dos quartéis no processo de expulsão, Dilma Rousseff, pela mesma falta, terrorismo.

A demissão que não houve resultou de um episódio rastaquera de ciúme vulgar. O ainda ministro da Saúde gravou um depoimento numa live – meio de comunicação favorito do capitão reformado por indisciplina -, protagonizada por ídolos da música sertaneja, entre os quais a dupla Jorge e Mateus. Era só disso que precisava o chefe para decidir livrar-se da ambição desmedida ao estrelato do subordinado. Convenhamos que nem chega perto de um delito como o terrorismo, nem de um deslize como a indisciplina. O inesperado desfecho, com a recondução do ministro à pasta, provocado pelo histérico temor do chefe de uma perspectiva de impeachment por crime de responsabilidade, após a intervenção de generais, parlamentares e ministros do STF, trouxe, contudo, à luz, quando já anoitecia no segundo dia da Semana Santa, a revelação de algo muito mais grave do que o ato.

Tendo jurado fidelidade à lei e à ordem em janeiro de 2019, Jair tem atuado como o Messias do retorno ao escuro cavernoso, com as labaredas desenhando nas pedras do buraco uma súcia que não fora exposta ao Sol: um bando dedicado à desmoralização do conhecimento acumulado e à consagração de um passado          que, zumbi, surgiu das cinzas da fogueira em que Giordano Bruno foi imolado. Bolsonaro lidera quem acredita na Terra plana em plena era das viagens espaciais, que a revelaram redonda, e imóvel, amaldiçoando o eppur si muove de Galileu Galilei. Como seu diabinho profano de orelha, André Mendonça, nega a evolução das espécies de Charles Darwin. Prefere a superstição à ciência. E, embora tenha virado caixeiro-viajante da cloroquina por mero oportunismo de marketing político genocida, considera a descoberta de Alexander Fleming instrumento de doença, não certeza de imunidade a bacilos e vírus. É isso!

Jornalista, poeta e escritoa coluna do Grupo Ric Mais)

Para ler na coluna do grupo Ric Mais clique aqui. 

 

 
 

DIRETO AO ASSUNTO NA REDE

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

Clique nestes links:

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

 

 

 

Entrevista de Nêumanne a Felipe Moura Brasil: “Bolsonaro traiu os antipetistas”

Entrevista de Nêumanne a Felipe Moura Brasil: “Bolsonaro traiu os antipetistas”

 

O Antagonista
https://www.youtube.com/watch?v=L0xwgF8ixhI
Entrevista de Nêumanne a Felipe Moura Brasil

DIRETO AO ASSUNTO NA REDE

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

Clique nestes links:

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

 

 

 

 

Coluna semanal para o site Rice: Bolsonaro, a imprensa e o coronavírus

Coluna semanal para o site Rice: Bolsonaro, a imprensa e o coronavírus

 
 

ATENÇÃO

 

 

Segue abaixo artigo semanal que a Ric Comunicação põe à disposição de todas as publicações impressas do Brasil.

 

 

O Grupo Ric de Comunicação põe à disposição de emissoras de rádio e jornais impressos ou em edição virtual três podcasts de três minutos cada e um artigo por semana. Interessados em publicar este material original deve entrar em contato com mash.leonardo@gruporic.com.br

 

 

José Nêumanne

Com seu auxiliar Heleno infectado, presidente ainda se recusa a aceitar a gravidade da pandemia, regozija-se por ter confraternizado com militantes à frente do Palácio e não fez o que devia

 

Em entrevista coletiva em que todos usavam máscaras quando ouviam e nunca quando falavam e sem manter a distância de mais de dois metros recomendada como prudente para não contrair nem transmitir a covid-19, o presidente Jair Bolsonaro não fez o que lhe cabe. E parece não ter entendido a gravidade da pandemia, embora tenha sinalizado, ufa, que não está fritando seu excelente ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, deputado escolhido para o cargo – graças a Deus – por ele próprio e por recomendáveis critérios técnicos. Neste momento, o que a parte do País que ainda tem juízo e quer sobreviver espera é que ele, no mínimo, faça um apelo para que quem puder fique em casa e mantenha o mínimo possível de contatos pessoais. Já é um avanço notável, mas ficou faltando algo fundamental, que diferencia um estadista de um político qualquer.

Durante muito tempo Sua Excelência menosprezou o risco representado pela contaminação do novo coronavírus. Viajou para a Flórida num momento em que o mundo inteiro já tinha conhecimento da situação dramática na China, onde o vírus foi inoculado pela primeira vez, e na Itália, de onde a moléstia se alastrou pelo mundo. O mais importante chefe de Estado do mundo, Donald Trump, também incorreu no mesmo engano e cometeu o terrível erro de receber a comitiva dele. O fato de 18 membros terem constatada a contaminação até a noite desta quarta-feira 18 de março de 2020 já fala por si só da imprudência de ambos. No entanto, ainda na entrevista coletiva que convocou na companhia de vários ministros envolvidos com o combate ao alastramento do mal, ele errou gravemente ao insistir em condenar o que considera “histeria”, mostrando que não percebeu a dimensão do que acontece agora no mundo inteiro.

Bolsonaro perdeu também na entrevista a oportunidade que lhe foi dada de pedir desculpas à Nação pela irresponsabilidade de cumprimentar com tapinhas nas mãos manifestantes do ato convocado para apoiá-lo e criticar os corretamente odiados chefões partidários e maganões do Judiciário. Disse que só o fez porque o teste a que se submeteu no Hospital das Forças Armadas, de presença do novo coronavírus, deu negativo. Pena nenhum repórter tê-lo questionado, como deveria fazê-lo, sobre que tipo de sensibilidade, premonição ou informação ele tem de que nenhuma daquelas 272 pessoas que ele tocou ao longo de 58 minutos à frente da rampa de descida do Palácio do Planalto poderia haver-lhe transmitido o terrível micro-organismo malsão. Será que nenhum ocupante dos outros gabinetes instalados naquele prédio é capaz de saber e lhe comunicar que a saúde de um chefe de governo é bem público e ele deve zelar por isso?

Essa entrevista pode ser comparada com outra, na Casa Branca, na véspera, mais ou menos na mesma hora. Nesta Donald Trump, com ar compungido no rosto sem máscara, como convém a um executivo com seu poder, disse: “Temos de lutar contra esse inimigo invisível. Acho que é desconhecido, mas o estamos conhecendo muito melhor”. Mike Spence, o vice, pediu aos americanos que adotem as ações recomendadas pelos infectologistas, nos próximos 15 dias. Talvez por nunca haver entendido que ele foi eleito, sim, mas com um substituto eventual que deve ser respeitado e convidado  como o americano, o capitão nem convocou o outro componente da chapa vencedora, o general Hamilton Mourão. Entre outros presentes ao reconhecimento do erro que o chefe do governo mais poderoso do mundo cometera ao não levar a sério a guerra bacteriológica, o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, disse algo que o brasileiro ainda não aceitou: “A atual situação é pior do que o 11 de Setembro para o setor aéreo”. Referia-se ao atentado terrorista de Osama bin Laden às torres gêmeas. Não faltaram outros exemplos similares no mundo. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, adotou medidas para evitar a disseminação da covid-19, entre as quais a possibilidade de usar tecnologia de ponta para detectar doentes em locais de aglomeração.

Em vez disso, “seu” Jair preferiu renovar seus ataques à imprensa, misturando a atividade com fake news, apesar de não respeitar a verdade em vários momentos. Disse, entre outros insultos, que os meios de comunicação não trataram com o mesmo rigor presidentes que enfrentaram situação semelhante. A imprensa combateu a ditadura militar e não deu paz a nenhum político corrupto, do direitista Paulo Maluf aos esquerdistas sob o comando de Lula. Aliás, nunca houve momento tão grave no Brasil, a não ser em 1919, quando o presidente eleito Rodrigues Alves morreu de gripe espanhola sem ter tomado posse, sendo substituído por um vice louco, Delfim Moreira, até que Epitácio Pessoa o sucedeu. A forma irresponsável como ele tratou a própria saúde talvez não chegue a esse desfecho, e felizmente é notório que Mourão tem saúde mental de sobra.

Tudo o que se espera dele é que lidere o combate à covid-19 usando quaisquer aliados disponíveis, incluindo os meios de comunicação.

*Jornalista, poeta e escritor

Para ler no site da Ric clique aqui.

 

 

DIRETO AO ASSUNTO NA REDE

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

Clique nestes links:

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

 

No Blog do Nêumanne: A guerra de todos e a arenga de Bolsonaro

No Blog do Nêumanne: A guerra de todos e a arenga de Bolsonaro

José Nêumanne

Todo o planeta se mobiliza para enfrentar o coronavírus, inimigo invisível e feroz, mas o presidente dá prioridade a sua arenga particular com governadores que só o combaterão em 2022

Atordoada com a quarentena a que está condenada agora para reduzir a velocidade do contágio da pandemia da covid-19, a população brasileira acordou para esta semana, na segunda-feira, com a notícia de uma facada fatal nos mais desvalidos, enquanto os marajás do serviço público continuam à la fresca. O governo Bolsonaro encaminhou ao Congresso Nacional medida provisória autorizando empresas a dispensarem por quatro meses seus funcionários, os mandarem para casa e não pagarem seus salários. Mas, depois da reação indignada no Twitter, ele usou o mesmo instrumento para informar ter revogado a suspensão dos salários. Não falou, porém, em como obrigar empregador a recontratar dispensados.

Antes de se refazer do choque do absurdo, o cidadão identificou-se, no sentido metafórico, com a tragédia vivenciada por Gregor Samsa, protagonista do romance Metamorfose, de Franz Kafka (ou kafta, como prefere o ministro da Educação do governo federal, Abraham Weintraub), logo após ter percebido que se tornara um inseto do tamanho de um ser humano . O que aconteceu na manhã de sol outonal foi que o pagador de impostos, o eleitor, que, em maioria, pôs no comando máximo do País o responsável por essa transformação de gente em barata, não foi informado de que a dita, mas não respeitada, União não aproveitou a oportunidade do combate ao vírus para suspender, nem mesmo temporariamente, privilégios de soit-disant servidores públicos, de fato se-servidores do público. Os marajás, que recebem salários altíssimos, muito longe do alcance do alfanje de el-rey milionário de votos, recebem todo mês, com ou sem vírus, “auxílios” de toda ordem: paletó, serviço odontológico, empurradores de cadeiras, moradia, etc.

Desembargadores, que ganham R$ 38 mil por mês, recebem mensalmente uma média de mais de que quatro vezes essa quantia, já absurda em si. Ainda assim, há procurador federal reclamando desse privilégio, insuficiente para que ele viva mais à tripa forra do que já vive. Políticos acumulam aposentadorias, não importando em que partido militem ou que cargo  ocupem na máquina pública. Os ex-presidentes Dilma e Lula vivem rotina de milionários e viajam para o exterior, onde repetidamente falam mal do País que os sustenta, quantas vezes quiserem. Os signatários do ato que desemprega em pílulas amargas pertencem todos à casta dos sempre servidos.

Em última análise, a omissão é uma autoajuda. Afinal, seja qual for o destino que lhe reservarem as urnas em 2022, ideia fixa no momento do chefe de Jorge Oliveira, que autorizou a ida de quatro assessores pagos pelo distinto público para acompanhar o petista em seu périplo europeu, o presidente e o secretário-geral da Presidência gozarão, no mínimo, de uma aposentadoria de barões, com reforma da Previdência e tudo. O ex-capitão nunca teve de dar um prego numa barra de sabão, como se diz no sertão de onde fui vindo, a vida inteira. Foi sempre um se-servidor do público, primeiro nos quartéis, depois no Poder Legislativo e agora no Executivo. Com sua aposentadoria poderá até ser generoso, doando parte do saldo a amigos de velhos tempos, como Fabrício Queiroz, repassando-lhe o soldo de oficial reformado e onerando os gastos públicos com sua retirada conjunta das atividades parlamentares e presidenciais. O ex-major da PM nem sequer precisará ser promovido ao mais alto salário do se-serviço da República, como pretende seu protetor, o comandante-chefe das Forças Armadas, das quais teve os serviços propriamente ditos dispensados. Mesmo que a vaga que lhe é reservada no Supremo Tribunal após a aposentadoria de Marco Aurélio Mello no ano que vem, seja dada a outro apaniguado, a reforma na caserna bastará para garantir o vinho francês de cada refeição.

Nesse mister de mais uma vez apertar o pescoço do trabalhador de baixa renda, baixa instrução e baixa expectativa de vida e garantir o bem-bom de seus colegas de acepipes e convescotes do distante Planalto Central do País, para onde os remeteu Juscelino Kubitschek à sombra das marmotas arquitetônicas de Oscar Niemeyer, foi o melhor a apresentar como saída sem incomodar seus irmãos de opa. Algumas vezes cheguei a comentar, mas apenas de leve, e agora o faço com vigor, que o bem-sucedido chicaguiano Paulo Guedes tem um currículo acadêmico e de mercado, seja lá o que for isso, mas é sempre generoso com o patronato. E  fala mal dos marajás, mas nunca corta seus excessos. Os conceitos liberais de Milton Friedman inspiraram a ideia de só obrigar os patrões contemplados a fornecerem cursos online a candidatos a famintos que terão de vender o almoço que não comerão para comprar terminais de computadores fabricados por alguns dos amiguinhos da equipe econômica.

Os nobres egressos dos ventos gélidos do lago de Illinois copiaram o modelo da nobiliarquia monárquica absolutista na época dos Luíses da França. Os cursos online do dr. Guedes lembram uma das anedotas mais saborosas (desculpe o leitor o duplo sentido) da História da humanidade. Consta que, diante da multidão faminta clamando por pão nos jardins de Versalhes, maravilha da botânica fechada à visitação pública nestes anos duros de covid-19, a rainha Maria Antonieta perguntou, não se sabe se em francês do marido ou alemão dos ancestrais: “Se falta pão, por que não lhes servimos brioches?”. Mas a pueril e ingênua ignorância de madame chega a ser uma lembrança injusta se comparada com cursos online para desgraçados cujo suor sempre pagou a mais cara e sofisticada pâtisserie da mesa dos se-servidores servidos.

O presidente da XP Investimentos, Guilherme Benchimol, disse que vê um risco de crescimento do desemprego para mais de 40 milhões de brasileiros em decorrência da pandemia da covid-19. “É um número assustador”, disse no domingo 22 em live com outros empresários. Duvida este autor que a MP de Guedes-Bolsonaro tivesse inspirado a conta do financista. Então, é o caso de imaginar que o atual número de desocupados da mão de obra nacional por obra e desgraça do saque generalizado do erário pela canalha do Partido dos Trabalhadores (PT), seus fiéis aliados e falsos oposicionistas (leia-se tucanos) será quintuplicado pela desfaçatez de um governo eleito para pôr fim ao despautério petista e de congêneres.

O presidente eleito por antipetistas e crédulos que imaginaram que ele manteria incólume o combate à corrupção ainda acredita que em 2022, quando as urnas forem abertas, os brasileiros de bem o sufragarão e afundarão os governadores que ousaram fazer o mínimo para evitar a aceleração do contágio do coronavírus no oblívio total. Do alto do palanque imaginário das falas do trono e das mensagens em redes sociais, Sua Insolência esbravejou na TV Record, de seu divulgador Edir Macedo: “Brevemente o povo saberá que foi enganado por esses governadores e por grande parte da mídia nessa questão do coronavírus. Espero que não venham me culpar lá na frente pela quantidade de milhões e milhões de desempregados na minha pessoa”. Alto lá, capitão! Não seja tão otimista. Mesmo que a culpa não fosse também sua, e só da praga chinesa, sua reeleição correrá rico na tempestade de outubro daqui a dois anos e meio.

E se o renomado e respeitado cirurgião Miguel Srugi, da Universidade de São Paulo, tiver razão ao prever que pobres morrerão nas portas dos hospitais pelo contágio do vírus de Wuhan, a estatística tétrica poderá ser sacada de sua conta eleitoral. É uma ilusão sua imaginar que conseguirá convencer alguém mais do que seus devotos, tão fiéis quanto os de seu inimigo e sustentáculo Lula (pelo sinal oposto). Ou que ocorrerá a outrem, com juízo ou não, atribuir a tragédia ao horoscopista da Virgínia, de quem certamente tem usado argumentos para contrariar seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Numa transmissão ele afirmou que não há nenhum caso confirmado de morte por coronavírus no mundo – uma mentira sesquipedal – e que a pandemia, em sua opinião, seria “a mais vasta manipulação de opinião pública que já aconteceu na história humana”.

Caramba, quanta insânia! A questão é saber quem é mais insano: quem profere a blasfêmia ou quem a usa numa arenga particular contra adversários de uma eleição a ser disputada em dois anos e meio a pretexto de negar uma guerra declarada pela humanidade inteira. E ainda deixar de fora do sacrifício a horda de sanguessugas que sempre assola o País.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado segunda-feira 23 de março de 2020 no Blog do Nêumanne)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique aqui.

 

 

DIRETO AO ASSUNTO NA REDE

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

Clique nestes links:

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

 

Nesta quarta-feira no Estadão: Coronavírus, a marcha da insensatez

Nesta quarta-feira no Estadão: Coronavírus, a marcha da insensatez

José Nêumanne

Apoio de Bolsonaro a si mesmo é mais perigoso que tentativa de Collor de evitar impeachment

O apoio do presidente Jair Bolsonaro a si mesmo nas manifestações de rua de domingo 15 de março poderia ser apenas, por si só, ridículo. Mesmo sendo legítimo. E aqui não me refiro a golpe, autogolpe ou simulacro de golpe. Faltam-lhe apoio e base. Em primeiro lugar, porque nada se configura no horizonte que represente ameaça nesse sentido. Desse ponto de vista, os atos seriam inócuos mesmo que tivessem superado em adesão as manifestações de 2013, que foram espetaculares, mas não impediram a reeleição de Dilma Rousseff, codinome de Lula, do PT, na reeleição de 2014. Em segundo lugar, porque o povo, do qual emana todo o poder, exercido em seu nome, tem direito de apoiar e criticar quem quer que seja em qualquer ocasião ou circunstância. E qualquer cidadão brasileiro – o presidente não seria exceção à regra – pode convocar a cidadania a apoiar ou criticar mandatários.

No princípio Bolsonaro limitou-se a compartilhar num grupo de WhatsApp aviso de convocação dos atos. O mundo desabou sobre sua cabeça, dando-lhe razão num argumento: os políticos, de quaisquer partidos e Poderes, têm medo de povo. E não apenas por causa do capitão reformado nem de seu governo. Aliás, os Fundos Partidário e eleitoral e as emendas parlamentares para governadores e prefeitos correligionários de chefões partidários usarem sem fiscalização para financiar eleições municipais em outubro e novembro nunca mereceram oposição cerrada da cúpula do Executivo. Esta tem sido repetidamente cúmplice dessas iniciativas. Onyx Lorenzoni, bolsonarista de primeira hora e ex-chefe da Casa Civil do governo, fez parte da ampla aliança, que incluiu o PCdoB, velho e leal aliado do PT, na eleição de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara. E continua no primeiro escalão como ministro da Cidadania. A pasta é poderosa e administra recursos milionários. Ele ainda lançou outro correligionário do DEM, Davi Alcolumbre, a presidente do Senado, derrotando o emedebista Renan Calheiros em eleição fraudada, na qual 81 senadores votaram e 82 votos foram computados. O líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho, atua como líder do Senado no governo. E pelo menos em teoria o povo se reuniria contra isso.
Portanto, nada há a obstar sequer à convocação explícita do presidente para os atos, da qual depois recuou após constatar o crescimento exponencial de inoculados pelo coronavírus no avião que o levou a um encontro extemporâneo com o presidente dos EUA, Donald Trump, e em aviões de carreira que levavam outros membros do grupo.

O que o torna ridículo é comparecer a atos para apoiar a si mesmo. Nisso lembrou antecedente que poderia ter evitado: o de Fernando Collor convocando o povo para sair de verde-amarelo às ruas e impedir seu impeachment. O povo manifestou-se a favor do oposto, acorrendo às vias públicas vestindo luto, numa clara declaração contra. Não foi o caso desta vez, mas o chefe do governo poderia ter evitado a fria de confraternizar com manifestantes participando de um apoio a si mesmo. Nada disso, contudo, é relevante como o aspecto sanitário lesivo ao povo e a Deus, que ele disse serem os únicos objetos de seu gesto. Por acaso ele não terá jurado lealdade à Constituição? O povo é a primeira vítima de uma eventual catástrofe sanitária a ser produzida pela conjunção perversa da escassa higiene dos chineses governados por uma ditadura comunista, do populismo estúpido da esquerda italiana e da precariedade da saúde pública brasileira. Ninguém precisa ser teólogo para duvidar do princípio universal de quaisquer religiões monoteístas segundo o qual Deus é sempre vida. Isso quer dizer que, em qualquer circunstância, viver, para o cidadão, é um direito acima do de opinar.

Indo ao encontro dos manifestantes à porta do palácio, e ainda levando de testemunha o presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra Torres, um reles bajulador que teve a audácia de argumentar que tinha ido a palácio para tratar de assuntos particulares, Bolsonaro comprova mais uma vez que governa para seus devotos. E não para todos os brasileiros, como deveria ser. Esse é um grave pecado cívico.

A primeira epígrafe que me ocorreu para este artigo foi o título do célebre tratado histórico sobre guerras escrito por Barbara Tuchman: A Marcha da Insensatez. Mas Aninha Franco me lembrou do último parágrafo de A Peste, de Albert Camus, que aqui cabe como uma luva para encerrar: “Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e nas roupas, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz”. Quem quiser que ignore a profecia do Prêmio Nobel de 1957 e espere chegar sua vez.

*Jornalista, poeta e escritor

Para ler no Portal do Estadão clique aqui.

DIRETO AO ASSUNTO NA REDE

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

Clique nestes links:

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

 

No Blog do Nêumanne: O Brasil está entregue aos bacilos

No Blog do Nêumanne: O Brasil está entregue aos bacilos

José Nêumanne

Bolsonaro, deputados, senadores, governadores e prefeitos encaram previsão de mortandade por coronavírus no inverno como algo que pode ser evitado com lorotas, piadas e demagogia barata

Dia destes Isabel leu para mim artigo de Leonardo Coutinho, colunista da Gazeta do Povo, de Curitiba, residente em Washington, DC, que, sinceramente, me estarreceu. Ao correr da leitura conheci fatos estarrecedores. Segundo ele, em 2 de fevereiro, quando já era conhecido no mundo inteiro, o coronavírus, egresso de morcegos e cobras vendidos em mercados para serem cozinhados na região de Wuhan, na China, o prefeito de Florença, Dario Nardella, lançou uma campanha sob o tema “abrace um chinês” contra “o preconceito, a exclusão e o terrorismo psicológico”. Ele e outros políticos esquerdistas, contou Coutinho, espalharam peste similar: a notícia falsa de que o vírus não era contagioso. Ainda de acordo com a mesma fonte, o governador do Lácio, Nicola Zinganetti, que posou sorridente com Lula, comunicou que estava feliz por ter sido inoculado por poder contribuir para socializar a doença respiratória e criar imunidade. Imbecis da esquerda ainda vendem suas fake news com desfaçatez.

Mais de um mês e meio depois, o secretário da Saúde da Lombardia, na mesma Itália, disse que não há mais vagas em suas UTIs. Vindo de lá, o primeiro contaminado pelo coronavírus no Brasil foi localizado e isolado. A médica Ester Sabino, pesquisadora do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP, liderou o grupo de cientistas brasileiros que sequenciou o vírus em 48 horas após a confirmação do primeiro caso brasileiro. Esse é um feito magnífico, que merece o reconhecimento de todos nós pelo pioneirismo. Recentemente, essa mesma cientista disse ao UOL acreditar que o pico no Brasil do novo coronavírus ocorrerá entre abril e maio, ou seja, no começo do inverno quando as doenças respiratórias atingem seu ápice, exigindo esforço concentrado nos prontos-socorros e ambulatórios brasileiros. O governador de São Paulo, João Doria Junior, que certamente foi informado do fato pelo infectologista David Uip, que chefia no Estado o combate ao que já virou pandemia por decisão da Organização Mundial de Saúde, nem sequer cumprimentou a especialista, que mora na mesma cidade que ele. Se tivesse mostrado um mínimo de curiosidade, poderia ter tomado a providência sensata de não comparecer à festa de 1.200 pessoas que comemoraram a estreia da rede de televisão americana CNN no Brasil. Perdeu a boa oportunidade de cancelar o ágape, ao tomar conhecimento do problema por cujo combate é o principal responsável no Estado, mas não desperdiçou a oportunosa ensancha de alfinetar o presidente da República por negligência mais grave.

Não faltou razão a Dória. Afinal, o único político sensato do Brasil, Janaina Paschoal, deputada pelo PSL que chegou à Assembleia Legislativa de São Paulo com 2 milhões de votos, classificou de indefensável a atitude de Bolsonaro, que chegou a cogitar de seu nome para formar chapa com ela para a eleição presidencial. Quando o noticiário sobre a epidemia mundial começou a ocupar espaço e tempo nos meios de comunicação, o capitão desdenhou dos efeitos maléficos do vírus importado da China.

Na semana passada, enquanto Doria, Rodrigo Maia, David Alcolumbre e outros maiorais da República da insensatez festejavam a chegada da CNN, Bolsonaro encontrava-se com Donald Trump na Flórida. Na volta foi constatado que seu secretário especial de Comunicação, Fábio Wajngarten, tinha contraído o bacilo. Na noite desta segunda-feira 17 de março tinha sido notificado o 13.º caso de contaminação na comitiva. Donald Trump, que se encontrou com o maiorial brasileiro, disse que não foi contaminado. O primeiro exame de Bolsonaro também o declarou imune, embora falte um teste para garantir o diagnóstico. Seu anfitrião em Miami, o prefeito Francis Suárez, foi diagnosticado como contaminado.

Cercado por essas evidências, Sua Excelência voltou ao País e fez sua live das tardes de quinta-feira ao lado do ministro da Saúde, o deputado Luiz Henrique Mandetta, que tem sido elogiado por especialistas por sua atuação no comando da reação federal brasileira ao micro-organismo egresso da China. Portando máscara cirúrgica, a exemplo do subordinado ao lado, o chefe do governo recomendou a seus seguidores nas redes sociais que não comparecessem às manifestações marcadas para domingo 15 por causa do risco de contaminação. Seu apelo contradisse compartilhamento no WhatsApp de um anúncio dos atos. Depois de ser criticado forte e injustamente por políticos e magistrados que, segundo ele, com razão, “têm medo de povo”, contudo, voltaria a conclamar os seguidores a apoiá-lo na árdua luta pela governança contra a velha política.

No domingo, à frente do Palácio do Planalto, “teve contato direto com ao menos 272 pessoas em cerca de 58 minutos de interação com apoiadores na frente do Palácio do Planalto”, conforme registrou o Estado em análise feita a partir de vídeo publicado em sua página no  Facebook. Segundo essa análise, ele manuseou no minimo 128 celulares, trocou uns quatro objetos com a plateia, entre eles um boné, que pôs na cabeça, e cumprimentou 140 pessoas. Conforme revelou o vídeo, “parte dos cumprimentos, nos primeiros 50 minutos do vídeo, é de ‘soquinhos’ nas mãos das pessoas ou mesmo apertos de mãos. Nos cinco minutos finais de interação, o presidente alcançou pelo menos 80 apoiadores correndo com a mão estendida e cumprimentando várias pessoas na sequência”. Infectologistas e até aliados próximos do presidente reprovaram sua atitude.

O presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra, completou a infeliz iniciativa sendo fotografado ao lado do chefe. Agências são instituições criadas para evitar abuso econômico de empresas ou do Estado em processos de privatização. Seus dirigentes não são subordinados do presidente, mas o citado comportou-se como vassalo, súdito. Sua presença deu à cena uma lamentável característica de farsa após a explicação dada por Barra. O responsável pela vigilância da saúde pública e privada no Brasil disse que fora ao encontro de Bolsonaro para uma conversa privada no palácio de despachos num domingo livre. O pretexto do encontro particular é pior do que feira ruim ou saco furado, que minha avó chamava de desculpa de cego.

Foi também lamentável a tentativa de mais uma vez contrariar o que ele próprio já havia afirmado e negado antes, ao dizer ao apresentador de televisão José Luiz Datena, da Band, em entrevista exclusiva, que nunca havia conclamado ninguém para ir às ruas. O vaivém de confirma e nega não pega bem num presidente da República de qualquer republiqueta. No entanto, nada se compara à evidência de que o chefe do Executivo ainda não tem a noção completa de dois deveres de seu cargo. O primeiro é o de preservar a confiabilidade e a credibilidade emanada de seu posto máximo. O segundo, o de contrariar diretrizes de sua condição de último chefe no combate a quaisquer males que ameacem seu povo.

Ainda no domingo Bolsonaro disse que só deve lealdade ao povo e a Deus. Convém lembrar-lhe que jurou cumprir a Constituição e as leis da República quando assumiu o mais alto posto da administração federal e da política pública no Brasil. Quanto ao povo, em cujo nome exerce legitimamente o poder por delegação de “cada cidadão, um voto”, deve preservar, com o que estiver ao seu alcance, sua saúde e seu bem-estar. Quanto a Deus, qualquer crente sabe que é fonte de vida e esta está acima da política e até mesmo da democracia.

Hoje o Brasil precisa de um estadista que governe para todos, e não apenas para prosélitos. Seu dever agora seria aconselhar os cidadãos a ficarem em casa, evitarem contato físico com outras pessoas até passar o período de velocidade da contaminação, que é este, segundo o reitor da Universidade de Campinas (Unicamp), Marcelo Knobel. Sábio conselho. Se for o caso, pode até usar força para evitar aglomerações. Da mesma forma que o dever dos políticos atacados nas manifestações de domingo é aprovar sem delongas os R$ 5 bilhões pedidos por Mandetta. E empregar Fundos Partidário e eleitoral para salvar vidas ameaçadas pela covid-19. E se Doria quer enfrentá-lo na eleição presidencial de 2020, que adote medidas empregadas em Itália, Espanha, França, Chile, etc. O Brasil e o Estado de São Paulo precisam de autoridades com hombridade, que não se apoiem em macheza, mas, sim, em capacidade de persuasão, sensibilidade e força para tomar decisões certas e urgentes.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Artigo publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 16 de março de 2020)

Para ler no Blog do Nêumanne, Politica, Estadão, clique aqui. 

DIRETO AO ASSUNTO NA REDE

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

Clique nestes links:

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

 

 

Página 3 de 3312345...1015202530...»
Criação de sites em recife Q.I Genial