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No Blog: Nêumanne entrevista Guzzo

No Blog: Nêumanne entrevista Guzzo

Reajuste para STF é assalto ao povo

à beira da estrada, diz Guzzo

Colunista de Veja e Exame acha, como Bolsonaro, que Constituição distribui direitos demais e chama isso de “palhaçada”, pois boa parte não é usufruída pelos cidadãos

Para o jornalista J. R. Guzzo, o reajuste reivindicado pelos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e aprovado pelo Senado “é uma coisa de submundo, uma expressão de tudo o que existe de pior nesse Brasilvelho, subdesenvolvido, concentrador de renda, corrompido até o fundo da alma, trapaceiro, parasita, que faz a nossa desgraça de todos os dias. Bolsonaro estaria começando muito mal, realmente, se não tivesse falado nada. Os 58 milhões de votos que recebeu foram contra isso, não a favor”. O colunista da revista Veja,protagonista da semana da série Nêumanne entrevista neste blog, concordou com a frase polêmica do presidente eleito de que neste país há direitos demais e empregos de menos. Conforme Guzzo, “isso já foi dito por um monte de gente boa, um monte de vezes, e reflete exatamente a palhaçada hipócrita dos nossos 10 milhões de leis, ou sabe lá Deus quantas. Criam direitos para tudo o que se possa imaginar, quase sempre pagoscom dinheiro do contribuinte – dinheiro que na maioria das vezes simplesmente não existe na vida real. Boa parte deles não pode ser desfrutada pelos beneficiários. Outra parte é pura safadeza para encher o bolso da casta mais alta do serviço público. Todos partem de uma base viciada: a ideia de que o poder público tem a capacidade de criar benefícios materiais assinando um pedaço de papel. Não funciona assim”.

Guzzo acha "palhaçada" direitos dados pela Constituição e milhões de leis, não usufruídos por boa parte dos cidadãos. Foto: Felipe Cotrim/Editora Abril

Guzzo acha “palhaçada” direitos dados pela Constituição e milhões de leis, não usufruídos por boa parte dos cidadãos. Foto: Felipe Cotrim/Editora Abril

O paulistano José Roberto Guzzo é jornalista e atua com assiduidade em redes sociais, fazendo muito sucesso com seus posts no Twitter. Começou a carreira de comandante de redações em 1964, como subsecretário da edição paulista do jornal Última Hora, de Samuel Wainer. Foi para a Editora Abril em 1968, tendo feito parte da equipe original da revista Veja, ajudando a criar o estilo de texto nela adotado. Dirigiu a redação dos anos de 1976 a 1991, parte dos quais também dirigindo a revista de economia Exame. Em agosto desse ano, passou a revezar com Roberto Pompeu de Toledo a última página da Veja. Em 2014, quando se tornou membro do Conselho Editorial da Abril, ao qual não mais pertence, apresentou na Veja.com um programa veiculado na TVeja. Atualmente é colunista nas revistas Veja e Exame.

Dez perguntas para o jornalista J. R. Guzzo

Nêumanne – O presidente eleito, Jair Bolsonaro, está sendo acusado por muitos coleguinhas nossos por, na visão deles, estar criando problemas e transtornos demais para a transição do governo moribundo de Michel Temer para a futura gestão dele, escolhido por mais de 56 milhões de eleitores. Qual é sua opinião sobre esse quiproquó? Quem tem razão?

Guzzo – Acho que ninguém tem razão, ou deixa de ter razão, porque não há quiproquó nenhum. O que há é um presidente eleito se comportando como um presidente eleito. Alguma coisa ele precisa já ir fazendo, pois daqui a pouco mais de um mês vai chefiar o governo. Como você diz, a gestão Temer já está tirando as medidas para lhe fazerem o caixão, não dá para esperar até o enterro e só então começar o trabalho. Todos esses problemas gravíssimos que os jornalistas levam ao noticiário têm a seguinte relevância: zero.

Ricardo Fisher, Victor Civita e J. R. Guzzo em 1982 no auge do prestígio da Veja e da Abril. Foto: Paulo Salomão/Editora Abril

Ricardo Fisher, Victor Civita e J. R. Guzzo em 1982 no auge do prestígio da Veja e da Abril. Foto: Paulo Salomão/Editora Abril

N – Entre as frases ditas por Bolsonaro em suas aparições nas redes sociais, que se tornaram uma marca de sua campanha, está uma, que é indesmentível, mas considerada polêmica pela intelligentsia e parte da diligente companheirada dos meios de comunicação. Ela pode ser resumida num lema: “O Brasil tem direitos demais e empregos de menos”. O senhor concorda com o presidente eleito ou com seus críticos,nesse particular?

  1. G.  Eu concordo inteiramente. O novo presidente está apenas apresentando um fato. Isso já foi dito por um monte de gente boa, um monte de vezes, e reflete exatamente a palhaçada hipócrita dos nossos 10 milhões de leis, ou sabe lá Deus quantas. Criam direitos para tudo o que se possa imaginar, quase sempre pagoscomdinheiro do contribuinte – dinheiro que na maioria das vezes simplesmente não existe na vida real. Boa parte deles não pode ser desfrutada pelos beneficiários. Outra parte é pura safadeza para encher o bolso da casta mais alta do serviço público. Todos partem de uma base viciada: a ideia de que o poder público tem a capacidade de criar benefícios materiais assinando um pedaço de papel. Não funciona assim.

N – Na mesma ocasião, o autor da frase se sentiu constrangido a assegurar que cumprirá todos os deveres que constam da Constituição de 1988, o que seria escusado dizer, de vez que terá de jurá-lo na posse e já tem afirmado. O senhor acha que ele agiu corretamente ao explicitá-lo mais uma vez ou que, a esta altura, já seria até dispensável?

G – Acho que fez muito bem. Vai fazer o quê? O homem é acusado todo dia de ser um ditador à espera do dia da posse. Se não ficar falando que vai, sim, respeitar a Constituição, vão dizer que ele não tem compromisso com o Estado de Direito. Então ele fala o óbvio, pois se não falar o óbvio vai ser cobrado. Outro presidente não precisaria dizer nada disso. Bolsonaro precisa.

José Roberto Guzzo – 1972: Guzzo: boa parte dos direitos não é gozada por cidadãos e outra "é safadeza para encher o bolso da casta do serviço público". Foto: João Bittar/Editora Abril

José Roberto Guzzo – 1972: Guzzo: boa parte dos direitos não é gozada por cidadãos e outra “é safadeza para encher o bolso da casta do serviço público”. Foto: João Bittar/Editora Abril

N – Em sua primeira visita a Brasília, o deputado e capitão que ganhou a eleição participou de uma solenidade comemorativa dos 30 anos da Constituição, que Ulysses Guimarães, líder da resistência civil à ditadura militar, chamava de “cidadã”. Ali ouviu muitas juras hipócritas e muitas loas à Carta Magna. O senhor acha que, como dizem os comentaristas esportivos, a Constituição está realmente com “essa bola toda”?

G – Na minha opinião,  essa Constituição não está com bola nenhuma. Ela tem de ser respeitada porque está em vigor e não existe outra. Também acho que o novo governo vai cumprir tudo o que está escrito lá, ou aprovar no Congresso reformas que mudem o seu texto. Mas muito pouca gente de carne e osso estaria disposta a dar sequer uma volta no quarteirão em sua defesa.

N – Seja qual for a opinião que o senhor ou eu tenhamos sobre a Constituição, ela terá de ser cumprida, pois, afinal, o primeiro dever de qualquer governante é se enquadrar na moldura jurídica que ela constitui. O senhor acredita que o eleito terá condições de cumprir o que prometeu e se espera dele, sob a égide do documento produzido pelos congressistas, e não por uma Assembleia Constituinte exclusiva, como, acho, deveria ter sido?

G – Acho que dá para fazer muita coisa do que Bolsonaro prometeu ou anunciou na campanha eleitoral por meio de reformas na Constituição. A maioria do eleitorado acaba de dizer,  justamente, que quer essas mudanças – foi para isso que elegeu o homem. Seria bom, a propósito, prestar atenção à possibilidade de que as redes sociais não se tenham desmanchado no dia 28 de outubro. Podem continuar em ação durante o próximo governo, e podem levar sua voz ao Congresso. Já fizeram isso na Lei da Ficha Limpa.  

José Roberto Guzzo – 1985: Para Guzzo, "a Constituição não está com bola nenhuma. Tem de ser respeitada porque está em vigor e não existe outra." Foto: Jorge Rozemberg/Editora Abril

José Roberto Guzzo – 1985: Para Guzzo, “a Constituição não está com bola nenhuma. Tem de ser respeitada porque está em vigor e não existe outra.” Foto: Jorge Rozemberg/Editora Abril

N – Na ida a Brasília, o presidente eleito cumpriu mais um dever ao apelar para o Senado não aprovar o reajuste exigido e, o que é pior, negociado com os senadores, amentando os subsídios dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal, com prejuízo, calculado por baixo, de R$ 4 bilhões para um Tesouro Nacional depauperado e numa crise econômica que convive com 14 milhões de trabalhadores desempregados?

G – Sim, cumpriu o seu dever. Na verdade, não poderia ter optado por não dizer nada. Se ficasse calado, seria um cúmplice, ao menos por omissão, desse assalto de beira de estrada contra a população brasileira. O aumento é uma coisa de submundo, uma expressão de tudo o que existe de pior nesse Brasil velho, subdesenvolvido, concentrador de renda, corrompido até o fundo da alma, trapaceiro, parasita, que faz a nossa desgraça de todos os dias. Bolsonaro estaria começando muito mal, realmente, se não tivesse falado nada. Os 58 milhões de votos que recebeu foram contra isso, não a favor.

Guzzo com Augusto Nunes, seu subordinado na revista e parceiro de bancada na TVeja. Foto: Raphaele Palaro/Editora Abril

Guzzo com Augusto Nunes, seu subordinado na revista e parceiro de bancada na TVeja. Foto: Raphaele Palaro/Editora Abril

N – Seja qual for a opinião que o senhor ou eu tenhamos sobre a Constituição, ela terá de ser cumprida, pois, afinal, o primeiro dever de qualquer governante é se enquadrar na moldura jurídica que ela constitui. O senhor acredita que o eleito terá condições de cumprir o que prometeu e se espera dele sob a égide do documento produzido pelos congressistas, e não por uma Assembleia Constituinte exclusiva, como, acho, deveria ter sido?

G – Acho que dá para fazer muita coisa do que Bolsonaro prometeu ou anunciou na campanha eleitoral através de reformas na Constituição. A maioria do eleitorado acaba de dizer,  justamente, que quer essas mudanças — foi para isso que elegeu o homem. Seria bom, a propósito, prestar atenção à possibilidade de que as redes sociais não tenham se desmanchado no dia 28 de outubro. Podem continuar em ação durante o próximo governo, e podem levar sua voz ao Congresso. Já fizeram isso na Lei da Ficha Limpa.

José Roberto Guzzo – 2007. Para Guzzo"seria bom prestar atenção à possibilidade de que as redes sociais não tenham se desmanchado em 28 de outubro". Foto: Leandro Fonseca/Editora Abril

José Roberto Guzzo – 2007. Para Guzzo”seria bom prestar atenção à possibilidade de que as redes sociais não tenham se desmanchado em 28 de outubro”. Foto: Leandro Fonseca/Editora Abril

N – No dia seguinte à aprovação pelo Senado do reajuste para os “supremos”, o mesmo Senado aprovou uma medida provisória encaminhada pelo presidente Michel Temer entregando de mão beijada benessesàs montadoras de automóveis, que vêm recebendo tais prebendas desde o governo Juscelino e, principalmente, nos três mandatos e meio dos petistas Lula e Dilma, até 2030, sem aprovação do presidente eleito nem conhecimento dos dois próximos a serem eleitos depois de cumprido o mandato deste até a data-limite da renúncia fiscal. O que, a seu ver, provocou isso: generosidade, cumplicidade ou mera falta de pudor?

G – Generosidade não é, obviamente. Um Congresso e um resto de governo que estarão enterrados no dia 1.ºde janeiro de 2019 não deveriam, pura e simplesmente, ter o direito de fazer isso. Não estão criando problemas para “o governo Bolsonaro”, como diz a imprensa. Estão criando problemas, isso sim, para o pobre diabo que vai pagar por cada centavo disso tudo nos próximos anos.  É desse jeito que o Brasil vem sendo governado há décadas – com a mentalidade, os métodos e as ações de governantes que ganham a vida por meio do crime.

N – Depois do episódio, Bolsonaro desmarcou os encontros marcados com o presidente do Senado, Eunício Oliveira, responsável pelas despesas do contribuinte nas duas votações, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que anunciou que pretende colaborar com o novo governo. O senhor acha que a atitude do deputado e capitão foi intempestiva ou adequada?

  1. G. Falar o quê,com esses caras?  Você falaria, sabendo quem eles são e o que eles fazem? Nada, absolutamente nada, que for contra o mínimo interesse deles será levado adiante. Pura perda de tempo.
"O Brasil é governado há décadas com mentalidade, métodos e ações de políticos que ganham a vida no crime", diz Guzzo. Foto: Felipe Cotrim/Editora Abril

“O Brasil é governado há décadas com mentalidade, métodos e ações de políticos que ganham a vida no crime”, diz Guzzo. Foto: Felipe Cotrim/Editora Abril

N – Flávio Bolsonaro, filho do presidente eleito e feito senador pelo Estado do Rio de Janeiro em 7 de outubro passado, já anunciou que admite conversar com o emedebista Renan Calheiros, que se reelegeu e apoiou o filho governador reeleito, Renan Filho, em Alagoas. Este é um aceno de boa vontade natural do ganhador ou um gesto arriscado?

– Bolsonaro foi eleito para governar o Brasil, não a Suécia. Tem de lidar com o que existe aí. Renan é Brasil – ele e mais um monte de gente. Fazer o quê? Não dá para o  presidente transformar o Palácio do Planalto num convento beneditino, onde só poderão entrar os justos, os puros e os patriotas. A única coisa que dá para fazer com essa gente é conseguir abater ao máximo o seu custo. É a velha história: dar uma canseira  para eles deixarem o mais barato possível.

N – O senhor quer, confia e conta com a possibilidade de Jair Bolsonaro desmontar as bombas de efeito prolongado deixadas pelas gestões anteriores do PT e do MDB, em seu mandato de quatro anos, já que anunciou o fim da reeleição? E por falar nisso, o que acha da proposta dele nesse sentido?

G – Acredito que consiga desmontar umas coisas, outras não. Já estaria de bom tamanho se pudesse desarmar metade das bombas, pois em geral não se desarma nenhuma. Quanto à ideia de Bolsonaro não procurar a  re-eleição:  acho uma excelente notícia para o Brasil e para ele próprio.  FHC, Lula e Dilma, formosos democratas antifascistas, colocaram seus governos, e o erário, a serviço permanente da própria reeleição. O militar autoritário, totalitário, defensor das ditaduras, etc., é o primeiro a adotar uma atitude diferente. Se ficar mesmo nessa posição, vai dar um belo cala-boca na oposição, nos intelectuais, nos artistas de novela e no New York Times. Vai ser um presidente mais forte do que os seus três antecessores. Vai dever menos ao Congresso. Vai estar menos vulnerável a pressões para fazer o mal e mais estimulado para fazer o certo.

Vídeos

Para ver Guzzo em ação na TVeja sobre Dilma clique aqui.

Guzzo no Painel WW sobre STF com William Waack. Clique aqui.

Guzzo no Painel ww com William Waack sobre Bolsonaro. Para ver, clique no play abaixo.

Guzzo no Painel ww com William Waack sobre Bolsonaro

https://www.youtube.com/watch?v=BEdg2STsImw

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique aqui.

Nêumanne entrevista J. R. Guzzo 31ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista J. R. Guzzo. 31ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

No Blog: Nêumanne entrevista Deonísio da Silva

No Blog: Nêumanne entrevista Deonísio da Silva

Conversa clara e prosa justa

com Deonísio da Silva

 

Professor, escritor e colunista sobre origem das palavras na revista Caras, Deonísio celebra invasão dos currais e libertação de eleitores de votos de cabresto

O escritor catarinense Deonísio da Silva, ganhador do prêmio Casa das Américas com o romance Avante, Soldados: Para Trás, comemora a eleição na qual “o Brasil enfim se politizou por meio de um recurso inesperado, o recurso digital. Ninguém o previu com as vestes democráticas com que irrompeu este novo recurso, que tornou possível invadir os currais e libertar aqueles que votavam pelo cabresto”. Para ele, isso era necessário e urgente, porque “nossa elite política perdeu a visão de nação, seus representantes pensam apenas em si mesmos e formaram dinastias familiares para os saques ao erário”. Por causa disso, o acadêmico diz, brincando, que depende das autoridades educacionais um câmpus universitário não se tornar “câmpus de concentração”, protagoniza o Nêumanne entrevista da semana no blog, em que constata: “O Brasil se mediocriza sem parar”. E dispara um petardo contra a primazia da ideologia de gênero no lugar da seleção pela excelência dos candidatos ao ensino superior. “Os autores de certas perguntas no Enem incorrem num equívoco de raiz: querem enganar os trouxas com artimanhas pueris. Citam Guimarães Rosa e Graciliano Ramos para poder enfiar excertos de obras e de autores fora da casinha. Os alunos nem foram ensinados a consultar um dicionário, mas são obrigados a conhecer certos verbetes de Aurélia, a Dicionária da Língua Afiada, de expressões gueis. Os culpados não são os autores desse curioso minidicionário. São aqueles que usam o  Estado – isto é, o dinheiro dos impostos: quanto custa cada Enem? – para impor a indefesos um conteúdo confuso, um norte desbussolado. Assim, prejudicam a todos, incluindo as autoridades às quais servem e pelas quais foram designadas”.

Deonísio: "a prosa política, em seu sentido mais sólido, a participação nos destinos da pólis, está na ordem do dia e vai reordenar o Brasil". Foto: Acervo pessoal

Deonísio: “a prosa política, em seu sentido mais sólido, a participação nos destinos da pólis, está na ordem do dia e vai reordenar o Brasil”. Foto: Acervo pessoal

O catarinense Deonísio da Silva é professor federal aposentado  e professor titular visitante da Universidade Estácio de Sá, onde atualmente dirige o Instituto da Palavra. Integrante da bancada brasileira na Academia das Ciências de Lisboa e respeitado escritor, por sua independência intelectual, é doutor em Letras pela USP e mestre em Letras pela UFRGS, mas não destaca esses títulos, e sim o que aprendeu no ensino médio em colégios de padres. “Obter um doutorado na USP não é para quem quer, é para quem pode, mas passar num exame de Latim do cônego Germano Peters ou confessar-se com o padre espiritual, investigando a própria alma, ou uma vez ao ano com o bispo diocesano dom Anselmo Pietrulla, era só para quem fosse antes orientado por Wilson Volpato e evitasse os escrúpulos”, diz ele, em sua habitual prosa bem humorada, um pouco antes de responder às perguntas que seguem, lembrando um de seus melhores amigos daqueles verdes anos, hoje setentão como ele. Deonísio é autor de 35 livros, entre os quais romances como Goethe e Barrabás, Lotte e Zweig (sobre o famoso suicídio tratado por ele como duplo assassinato, já publicado na Itália, com capa da artista plástica Arlinda Volpato), Teresa DÁvila (premiado pela Biblioteca Nacional e a ser levado ao teatro pela segunda vez por Carlos Vereza) e A Cidade dos Padres. Mas a referência solar de seus romances é Avante, Soldados: Para Trás (1992), no Brasil em 10.ª edição, já publicado em Cuba, Itália e Portugal, depois de receber o Prêmio Internacional Casa de las Américas, em júri integrado por José Saramago. Na mídia, faz um trabalho muito relevante em Etimologia, tal como se vê no livro De Onde Vêm as Palavras, reunião de suas colunas nas revistas Caras. Mantém colunas semanais também no http://portal.estacio.br/instituto-da-palavra, na Veja online, no blog de Augusto Nunes e na Rádio Bandnews Rio., com Ricardo Boechat.

A seguir, Nêumanne entrevista Deonísio da Silva

1 – Em abril, o senhor fez uma palestra sobre o julgamento de Zé Bebelo num seminário a respeito de Guimarães Rosa e Machado de Assis, abrindo o ano cultural da Academia Brasileira de Letras. O que o fez escrever que, neste ano em que se comemoram o cinquentenário do lançamento da obra-prima Grande Sertão: Veredas, do primeiro, e os 80 anos da primeira edição de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, os organizadores do Enem os tenham citado “por esperteza: para justificar a presença dos dispensáveis e até dos que escrevem mal” ou originalmente em outra língua, como Eduardo Galeano, que, convenhamos, não é um grande autor nem no restrito panorama da literatura uruguaia, como escreveu no Facebook?

Você me permite uma longa resposta? (José Nêumanne Pinto: fale quanto quiser, eu também sei que algumas coisas muito importantes não podem ser ditas em poucas palavras.) Pois é, às vezes tenho vontade de postar inteirinho no Facebook o Sermão do Bom Ladrão, do padre Vieira, especialmente para aqueles que, elevados a reis, acompanham ao cárcere os bandidos com os quais negociaram. Quando assumi a Vice-Reitoria da Universidade Estácio de Sá, no Rio, onde estou desde que me tornei professor federal aposentado, em 2003, disse na primeira reunião com a equipe que meu binômio era: conversa clara e trato justo. Abri a palestra proferida na Casa de Machado de Assis com este lema, citando a seguir, obviamente, belos trechos de Guimarães Rosa, como esta fala de Zé Bebelo, ao ser advertido por Joca Ramiro de que está em julgamento: “Toda hora eu estou em julgamento”. Você falou lá também, assim como outros romancistas, como José Carlos Gentili – aliás, autor de um premiado livro em que rastreia nas Ordenações Afonsinas o primeiro hífen da língua portuguesa – e Benito Barreto, autor de grandiosos romances sobre a Inconfidência Mineira. No final de minha palestra, o Merval Pereira veio me cumprimentar e disse: “Tomara que o Lula não conduza o julgamento como o Zé Bebelo”, E rimos juntos. Você deve lembrar-se de que, réu, Zé Bebelo conduz o próprio julgamento. Lula tentou fazer o mesmo, mas encontrou pela frente não um homem misericordioso como Joca Ramiro, e sim um juiz implacável como Sergio Moro, que deve seguir o lema latino tão em voga em São Paulo “non ducor duco” (conduzo, não sou conduzido). Hoje, já realizado o julgamento, continuo achando Lula parecido com o personagem de Rosa, que também diz dele: “Zé-Bebelo quis ser político, mas teve e não teve sorte: raposa que demorou”. Já de Graciliano Ramos, considero que seu grande romance não é Vidas Secas, é São Bernardo. Quem cita muito Vidas Secas em geral não leu outros. No Brasil existe o costume de citar sem ler. Você pode ver que os erros de citações são sempre os mesmos ou muito semelhantes. Não me refiro apenas ao ipsis litteris, mas a citações confusas no contexto e sem pés nem cabeça, como álibi para a enxurrada de textos desconexos e fora de lugar e de propósito, como fez o Enem. No caso do trabalho intelectual, entendo que nossa arma é a dos saberes de nosso ofício. É falsa a humildade de igualar-se àqueles que fizeram outra coisa na vida ou tratar igual quem é desigual na profissão: se meus pares em Letras são esses que pontificam sobre tudo, especialmente nas redes sociais, eu estou perdendo o meu tempo há 50 anos, pois estudo, pesquiso e ensino português e suas literaturas há meio século. Se romances de minha autoria como Avante, Soldados: Para Trás, Teresa D’Ávila e Goethe e Barrabás estão no mesmo nível dos livros daqueles autores que não representam de jeito nenhum a nossa literatura, mas estão sempre nas bibliografias oficiais ou oficialescas, nas feiras de livros e em outras delegações, eu estarei contrariando minha sábia avó, que dizia que quem muito se abaixa mostra o bumbum. É justo você ter orgulho dos pontos altos de sua carreira, assim como é saudável assumir seu madalenismo e arrepender-se das más escolhas que você fez na vida.  Isso talvez possa explicar a exagerada admiração dos autores da prova do Enem pelo autor uruguaio. É coisa de quem olha a literatura do mundo inteiro por uma pequena fresta. Mas esta pequena restrição não pode ser creditada a Eduardo Galeano, que, aliás, deve muito ao exílio vivido na Espanha, de onde seu nome foi divulgado mundo afora. A censura, ato execrável, predatório e inútil, às vezes consagra medíocres, no sentido etimológico de palavra, isto é, de qualidade abaixo da média, que é o caso do best-seller em causa. Ele vende menos pela relevância de sua obra e mais por agradar a nichos eficientes de produção de leitores em determinada direção ideológica. Esses nichos têm pontífices que conhecem poucos autores de qualidade e são incapazes de reconhecer talento em escritores dos quais discordem. Por isso se tornam medíocres também, formam medíocres, etc. Em suma, o Brasil se mediocriza sem parar.

Deonísio integra bancada brasileira na Academia de Ciências de Lisboa e dirige o Instituto da Palavra da Universidade Estácio de Sá. Foto: Acervo pessoal

Deonísio integra bancada brasileira na Academia de Ciências de Lisboa e dirige o Instituto da Palavra da Universidade Estácio de Sá. Foto: Acervo pessoal

2 – O que no referido exame o levou a escrever, no mesmo post, que “quem fez as perguntas do Enem na área de letras precisa reciclar-se” e, mais, “quem desconhece o dialeto secreto de gueis e travestis não pode entrar na universidade?”

Não sei quem faz os exames do Enem. Entro em brigas de foice no escuro em defesa da independência intelectual e docente desde que saiba onde estão o interruptor e a porta de saída, como um dia ouvi do escritor Marcos Rey. Mas os autores de certas perguntas no Enem incorrem num equívoco de raiz: querem enganar os trouxas com artimanhas pueris. Citam Guimarães Rosa e Graciliano Ramos para enfiar excertos de obras e de autores que estão fora da casinha. E há mais o seguinte: os alunos nem foram ensinados a consultar um dicionário, mas são obrigados a conhecer certos verbetes de Aurélia, a Dicionária da Língua Afiada, de expressões gueis. Os culpados não são os autores desse curioso minidicionário. São aqueles que usam o Estado – isto é, o dinheiro dos impostos: quanto custa cada Enem? – para impor a indefesos um conteúdo confuso, um norte desbussolado. Assim, prejudicam a todos, incluindo as autoridades às quais servem e pelas quais foram designadas. Seus asseclas passaram a defender a pergunta, e não apenas nas redes sociais, mas em todos os lugares onde pontificam, não para esclarecer, mas para dar como correta uma pergunta fora de propósito. Há reprovação em massa nas redações do Enem. Quer dizer, o ensino médio não ensinou os alunos sequer a escrever um texto curto. Aliás, nem a ler direito, pois a maioria tropeça no léxico e na interpretação. Mas ensinou-lhes dialeto, uma questão controversa até nos estudos avançados sobre línguas. Isto é conversa mole para boi da cara preta cochilar e assustar quem tem medo de careta. E de resto ainda não é obrigatório conhecer as palavras-chave do mundo guei para entrar para a universidade. Na universidade, um dos requisitos é dominar um conjunto de saberes que permitam ao usuário acompanhar um curso superior. Nas universidades francesas, o francês; nas italianas, o italiano. Etc. Quais são as gírias do mundo guei nessas línguas? É preciso conhecê-las para estudar lá? Para maior clareza, imaginemos o seguinte: e se o curso fosse ministrado numa língua estrangeira? Pois o português está se tornando isso para nossos alunos escreventes e legentes, uma língua estrangeira. E, em alguns casos, morta. Outro dia lamentei em congresso onde fiz pequena intervenção o desaparecimento acelerado, não mais paulatino, do mais-que-perfeito. Na saída, um professor me disse: “Não quis dizer em público para não ofender o senhor, mas o mais-que-perfeito não é mais necessário”. Veja você, já se considera ofensa a simples discordância.  Repliquei na hora: é mesmo? E como faremos com os versos de Camões “mais servira se não fora para tão longo amor tão curta a vida” e “na quarta parte nova os campos ara e se mais mundo houvera lá chegara”? Tome um prova de Português, qualquer prova: você vê trechos de autores clássicos, tais como Castro Alves, Cecília Meireles, Machado ou José Lins do Rego, servindo de base a uma questão? Predominam recortes da mídia, em geral pobres de estilo e, sobretudo, indicadores de que quem os selecionou só leu aquilo ali, mesmo, aquele é o nível dos examinadores, não apenas dos examinandos.

Deonísio, catarinense, e a mulher, a gaúcha Michele, nos jardins da Embaixada Brasileira em Lisboa, para onde viajam amiúde. Foto: Acervo pessoal

Deonísio, catarinense, e a mulher, a gaúcha Michele, nos jardins da Embaixada Brasileira em Lisboa, para onde viajam amiúde. Foto: Acervo pessoal

3 – Quem lhe faz estas perguntas teve uma formação no ensino médio em escola religiosa e num colégio público e testemunha que, há meio século, as escolas desse grau de ensino eram muito melhores do que as de elite, frequentadas pelos filhos, na faixa dos 40 anos, e ainda mais dos netos agora. Até que ponto o senhor, que é da geração que estudou latim, grego e, sobretudo, o português canônico, abandonado pela linha populista de esquerda do “povo é que manda na língua”, abona esta constatação?

Minha formação básica se deu nos bons tempos da escola pública e em seminários de padres. Depois do primário, onde pontificavam as célebres e bem preparadas professoras normalistas, meus mestres foram padres. Meus professores da graduação em Letras na Unijuí também eram ex-padres ou ex-seminaristas em sua maioria. Sou doutor em Letras pela USP e mestre em Letras pela UFRGS.  Chutatis chutandis, essas prestigiosas instituições, em algumas disciplinas, nem sempre alcançavam os saberes ministrados em seminários e em outros colégios mantidos pela Igreja, por ordens religiosas ou por igrejas confessionais,  ou em escolas como o Colégio Pedro II, no Rio; o Júlio de Castilhos, em Porto Alegre; ou o Colégio Estadual de Curitiba. E poucos mais.  Quer dizer, tivemos uma qualidade de ensino reservada aos filhos da elite e duramente conquistada por nós, depois de “honesto estudo com longa experiência misturados”, como diz aquele poeta que, de tão popular, é até nome de bife no Brasil, o bife à Camões. E este “a” tem crase porque é à moda de Camões. O pessoal que faz o Enem dá mais valor a outros, assim como, na prática, continuam a maltratar Machado de Assis, ao desprezá-lo, depois que ele virou o jogo e passou de negro, pobre, órfão, epiléptico e gago a maior escritor do Brasil por esforço próprio e contra todas essas conhecidas adversidades. Epocais. Um bom ensino médio é mais decisivo para a vida do que graduação e pós-graduação. O embaixador Jerônimo Moscardo, ministro da Cultura do governo Itamar Franco, estudou no Pedro II e me disse que o salário dos professores era o mesmo dos ministros do STF. Um bom ensino começa com professores bem remunerados. Você acha que alguma vez alguma ordem religiosa considerou um problema a previdência dos frades ou dos padres professores? Estava no pacote, era normal. Então, eles podiam exercer o ofício docente despreocupados com a sobrevivência, ao contrário do que acontece hoje com os professores.

4 – Já que o assunto foi tratado, é inevitável pedir-lhe uma análise crítica sobre os efeitos deletérios da massificação do ensino superior sob a gestão de Jarbas Passarinho no Ministério da Educação e Cultura (MEC) dos governos militares e da didática da demagogia adotada nos governos petistas, da qual o candidato substituto do PT à Presidência na última eleição, Fernando Haddad, tanto se orgulhou na campanha, apesar da constatação do Índice de Desenvolvimento Humano da tão badalada Organização das Nações Unidas de que justamente o setor educacional se manteve estagnado?

A massificação do ensino não é um mal em si, nem chega a ser nociva. Dou-lhe um exemplo concreto e facilmente verificável: o professor que ministra aula, hoje, pelo Ensino à Distância, não pode chegar atrasado. E a pontualidade de professores e alunos, vale dizer, a disciplina, é essencial ao ensino e à aprendizagem. Na gestão de Passarinho, vários cursos superiores foram ministrados de modo intensivo e nas férias, com a mesma carga dos cursos diários. Até com as mesmas ementas. Como se sabe, o ano letivo tem no Brasil, em média, um terço dos dias do ano. Pode ser ministrado em quatro meses integrais, portanto. Então, sempre dependerá da qualidade do ensino ministrado, a começar por seleção de professores pela competência e de boas condições para exercer a docência, e não pela escolha de apaniguados para a direção das instituições de ensino superior. O coronel Jarbas Passarinho e o general Rubem Ludwig fizeram boas gestões no ensino à frente do MEC. Não se pode negar, porém, que o Brasil desaba nas classificações internacionais de avaliação. Na campanha, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad fez más escolhas de orientação, recebeu apoios e recomendações que lhe tiraram milhões de votos, segundo minha modesta opinião, mas acho que ele e o ministro Tarso Genro tiveram bons momentos como gestores à frente do MEC. Infelizmente, serviram a dois apedeutas, um dos quais sempre se orgulhou de não estudar. Mas de um profissional da qualificação de Fernando Haddad esperamos naturalmente mais do que bons momentos, esperamos visão estratégica e mudanças concretas. Para isso não pode nomear para postos-chave por indicação ideológica. Às vezes, seu melhor aliado é seu crítico. E seu pior parceiro é quem diz sempre amém.

5 – Em seu romance Goethe e Barrabás, talvez sua maior obra de ficção, lançada em 2008, o senhor contou a história do famoso bandoleiro bíblico iluminado pelo genial poeta de Fausto, aprendendo que Satanás não negocia com mulheres porque elas, na visão diabólica, vendem a alma, mas não a entregam. Antes que os apressadinhos o confundam com algum machista empedernido, o senhor não acha que convém esclarecer que, de fato, o texto revela em profundidade a baixeza da elite brasileira, responsável pela caminhada que nosso país, principalmente neste momento histórico, faz rumo ao inferno de Dante?

Esse romance conta uma história que poderia ser factual. De todo modo, é verdadeira: por más escolhas que fazemos na vida, caímos em tentações que nos destroem ou nos salvam. Como discernir? Não apenas no plano individual. Eu recebi depoimentos sinceros de leitoras que disseram: “Eu sou a Salomé”. Outras disseram: “Que pena que eu não tive a coragem de fazer a escolha de Salomé”. Leitores disseram: “Eu queria ser Barrabás, daí, sim, eu seria livre e viveria com mais gosto”. No romance eu lido com os dois Barrabás, o bíblico e o personagem Bar, seu apelido. E dei o nome de Salomé porque um homem perde a cabeça por ela, como no episódio bíblico. Quanto a Goethe, aprecio demais as reflexões sobre esse negócio de vender a alma ao diabo. O agraciado queixa-se a Satanás: por mais que gaste, não gasta todo o dinheiro obtido com a venda da alma. E Satanás sugere: “Já experimentou a caridade?”. Inseri esse capítulo porque nos governos do ciclo petista eu achava espantoso que se orgulhassem de aumentar o número de atendidos por bolsas disso e daquilo. Era um dos sinais do fracasso que se avizinhava. Um benefício necessário e provisório foi colocado como programa permanente. É como orgulhar-se sempre de um remendo, não da roupa nova, um problema do cidadão resolvido pelo governante. No Brasil a tentação totalitária é muito forte. A educação não está inculcada em nossa alma. A prisão e o medo estão. A expressão teje preso não é apenas uma brincadeira, ela revela a nossa alma. Nós não acreditamos na tarefa de educar, nós acreditamos na de punir, de preferência com a perda da liberdade. Há outro bom exemplo no trânsito: o objetivo é arrecadar, não é melhorar o trânsito. Acompanhei muito de perto a educação de minha filha e percebia o espanto que sobrevinha quando a coleguinha era posta de castigo pelos pais porque tinha transgredido alguma norma. Sabe o que era ficar de castigo? Estudar! Os pais, provavelmente sem querer, davam a ideia de que estudar é um castigo. O Brasil vem fazendo más escolhas há muito tempo. A elite que imagina estar ainda na casa-grande é um caso de polícia. A segurança tem problemas? A casa ou mansão vira uma fortaleza, com guarita, muros altos e guardas particulares. Há violência no trânsito? A solução passa a ser comprar carros blindados. O sistema de saúde não funciona? Surgem planos caríssimos, que só a elite pode pagar. O ensino público vai mal? Eles pagam para seus filhos estudarem em escolas de elevado padrão, sobretudo no exterior. A elite brasileira não pensa mais no Brasil. Mas houve um tempo em que pensou, proclamou a independência política, programou a República, organizou o Exército para se defender dos inimigos externos. O étimo remoto de elite é o mesmo de recolher, escolher e ler, e até os finais do século 12 significava apenas escolhida. Uma escolha supõe o melhor, não é mesmo? Mas no Brasil, as elites – prefiro o plural – têm complexas formações. Nossa elite econômica, por exemplo, tem saqueadores, ladrões e outros malfeitores nas árvores genealógicas. Nossa elite política perdeu a visão de nação, seus representantes pensam apenas em si mesmos e formaram dinastias familiares para os saques ao erário.

Deonísio, abraçado por Pedro Thompson, professor da Universidade Estácio de Sá, da qual é titular aposentado. Foto: Acervo pessoal

“Deonísio, professor titular visitante da Universidade Estácio de Sá, abraçado por Pedro Thompson, presidente da Casa”.

 6 – Em outra obra em que sua verve mordaz se manifesta, Os Guerreiros do Campo, lançada em 2000, o senhor se refere de forma muito irreverente aos ditos movimentos sociais de trabalhadores sem terra e sem teto, que, nestes 18 anos, têm sido tratados com muita condescendência, ao mesmo tempo que vêm perdendo relevância, embora ainda protagonizem os sonhos revolucionários da esquerda Rouanet. Sem cair na folclorização do mortadela contra coxinha, que papel o senhor lhes atribui neste momento histórico crucial, em que a intervenção do chamado “exército do Stédile” ameaça menos do que uma pipa ao vento?

Quando escrevi Os Guerreiros do Campos, os sem-terra, liderados por Stédile e seus red caps, ocupavam no Brasil um território maior do que a Dinamarca. Mas isso diz pouco: um empresário paranaense tinha no Pará uma fazenda maior do que a Bélgica. Visitei os acampamentos para escrever o romance, num deles me encontrei com a moça que tinha posado para a Playboy – na época eu escrevia para essa revista, fazia perfis, fiz o de Maguila, do Samelo, etc., e publiquei ali alguns contos. Sempre fui a favor da reforma agrária, principalmente depois de ler o melhor livro de Graciliano Ramos, São Bernardo, em que o latifúndio mostra suas devastações também na alma do proprietário. E não fui a favor como é a favor a personagem tão amorosa do romance, a fazendeira Camila, que diz: “Desde que não comece por minha fazendas”. Ela vive um complicado amor com Gregório, um professor que a faz mudar muito. Mas é raro um petista ter humor, já percebeu isso? Frei Betto me disse que eu ia ganhar a Margarida de Prata, um troféu da CNBB para bons livros. Mas daí foram ler o romance e a abertura traz uma cena insólita: São Pedro está fazendo o cadastramento das almas dos sem-terra que chegam assassinados ao céu, eu me baseara em várias chacinas, e o príncipe dos apóstolos pergunta algo assim: por que os brasileiros não morrem como os suíços, que chegam aqui arrumadinhos? Acharam que eu estava debochando da religião. Justo eu, católico de formação, que rezo todos os dias, vivo a clamar que falta uma editoria de religião na mídia e leio as encíclicas papais no original? Quanto ao sem-terra, hoje, não sei mais o que lhe dizer, a não ser revelar uma antiga perplexidade: sem verba do governo eles não sobrevivem. Tornaram-se profissionais, servem a outros interesses, como todos sabem, mas esse é um pequeno problema perto das safadezas bancárias praticadas todos os dias em nome da independência do Banco Central. Olhe as taxas de juros, não apenas dos bancos, mas sobretudo dos cartões de crédito populares. Que vergonha para nossas autoridades monetárias permitirem e autorizarem algo assim! Perto disso, os sem-terra são moscas no açucareiro.

Deonísio no estúdio onde apresenta seu programa Sem Papas na Língua no estúdio da BandFM no Rio. Foto: Acervo pessoal

Deonísio no estúdio onde apresenta seu programa Sem Papas na Língua no estúdio da BandFM no Rio. Foto: Acervo pessoal

7 – Por falar em ameaça, está sendo noticiado, com relevância que, na realidade, não deveria ter, o alerta feito pela ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia de que há uma perigosa onda conservadora no mundo e, particularmente, entre nós. Como perigo não combina com conservação, para o bem geral da Nação, que remédio o senhor ministraria a esses magistrados que falam tantas batatadas: um bom dicionário na cabeceira ou uma dose de Rivotril antes de falar em solenidades públicas?

Tornou-se um meme nas redes sociais a tua célebre ponderação ao ministro Marco Aurélio Mello, do STF. Aliás, antigamente sabíamos a seleção brasileira de cor e nenhum nome de ministro do STF. Hoje sabemos a escalação completa do STF, até de quem joga mais à esquerda, mais à direita ou mais ao centro, e ignoramos a seleção brasileira. Não deveria, mas vou dizer: discrepo, por norma, das opiniões da ministra Cármen Lúcia. A cada vez que ela emite uma de suas platitudes, eu penso num trecho de Sêneca: fallaces sunt rerum species et hominum spes fallunt. Está na obra De Beneficiis, que a ministra ou quem a nomeou deveria ler ou ao menos consultar, pois há boas traduções. Mas quem a nomeou não lê nada. Acho que não soa pernóstico citar um clássico latino por dois motivos: a amizade tinha valor absoluto na Roma antiga. E essas frases já foram pronunciadas em latim pela bela Scarlet Johansson no filme Iron Man 2. Sua tradução aproximada é: “As aparências enganam e traem a esperança dos homens”. Lembro que para os antigos gregos a esperança era um dos males do mundo, porque podia enganá-los sobre o futuro. Aliás, era um jarro, não uma caixa, termo adaptado para designar o objeto oval que Pandora abriu, soltando todos os males do mundo, menos a esperança. O antigo nome virou palavrão, como se sabe.

Deonísio, em congraçamento ecumênico com ex-ministros de Temer, Calero, e de Dilma, Martins, e ex-secretário de Alckmin, Chalita. Foto: Acervo pessoal

Deonísio, em congraçamento ecumênico com ex-ministros de Temer, Calero, e de Dilma, Martins, e ex-secretário de Alckmin, Chalita. Foto: Acervo pessoal

8 – Ainda dentro desta luta com as palavras, que, para o poeta Drummond, é a mais vã, este apaixonado por vocabulários, gramáticas e que tais, que o interroga, tem a ousadia de lhe apresentar um problema de hermenêutica. Há anos o Supremo Tribunal Federal se divide entre garantistas e punitivistas em torno do artigo 5.º, inciso VLII, da Constituição federal, que expressamente proíbe considerar culpado cidadão cujo processo não tenha transitado em julgado. Em que dicionário ou tratado de sinonímia é autorizada a substituição de considerado culpado por ser preso, como pretendem os rigorosos garantistas? E será que transitado em julgado, na verdade, ultrapassaria as calendas gregas?

Em nenhum dicionário. Só se for um compêndio deles mesmos. O mundo jurídico não tem essa proclamada precisão. Sentença tem o mesmo étimo do verbo sentir. Não é inteiramente objetiva. Cada juiz julga como sente o problema. Parece que às vezes há outras influências, mas isso pode ser fofoca, esse recurso de modéstia (a pessoa não fala de si), de solidariedade (a pessoa está preocupada com a vida alheia) e de delicadeza (fala pelas costas porque pela frente poderia magoar o interlocutor). Mas todos sabem que alguns ministros do STF adoram navegar na maionese, como se diz em linguagem científica (risos). Outros, menos delicados de trato, às vezes nos dão a ideia de que gostariam, como o mais vulgo dos vulgos, de resolver no braço, insinuando os benefícios do pugilato, e às vezes nos fazem imaginar que poderá advir dos conflitos uma antiga solução, o duelo. Mas eu confesso que sempre gosto de assistir às sessões: pelas palavras, pelos gestos, por caras e bocas. E não aprecio o que considero exagerada verborragia contra alguns deles. Se certas decisões do STF merecem providências, sou de parecer que deveriam ser tomadas no ambiente civilizado das leis. Eles não são deuses, homens é que são. E por isso falham também. Quanto às calendas gregas, os gregos não tinham calendas, mas tinham calendário. O STF deveria ter o seu também. Talvez eles tenham, além de dialeto e idioleto, um cronoleto, um tempo que valha só para eles.

9 – Seu ofício de professor universitário, escritor e etimologista à disposição dos meios de comunicação já lhe permite decidir se hoje o português falado no País real e escrito no Brasil oficial, distinção feita em crônica clássica de Machado de Assis, ainda seria a “última flor do Lácio inculta”, mas não necessariamente tão “bela”, como a descreveu o poeta Olavo Bilac?

Pois é, os modernistas odiavam Bilac porque não escreviam tão bem quanto ele, e porque ele tinha criado o serviço militar e o livro didático. O português das ruas a cada dia fica mais rico, mas eu temo que a falta de leitura dos clássicos e de outros bons autores da língua maculem deliciosas expressões e tendam a baixar o nível. O povo é bom, a escola ainda não, ou não é mais, para os mais pessimistas. Mas há bons indicadores de que a qualidade do ensino do português venha a ser retomada e seja enfim interrompido esse processo de usar incultos como referência. Sabe que a etimologia de clássico é muito curiosa: clássico é aquilo que você precisa para uma viagem. Começou a designar o que era necessário levar numa embarcação, depois numa frota. Temos de portar de novo os clássicos. E há novos clássicos na praça.

Do Sermão do Bom Ladrão, de Vieira, Deonísio cita os "reis, que acompanham ao inferno ou ao cárcere bandidos com os quais negociaram" (Foto: Acervo pessoal)

Do Sermão do Bom Ladrão, de Vieira, Deonísio cita os “reis, que acompanham ao inferno ou ao cárcere bandidos com os quais negociaram” (Foto: Acervo pessoal)

10 – Como cidadão, que trabalha entre jovens, no pleno calor da batalha ideológica travada no Brasil em termos candentes, levada a extremos na última eleição, como o senhor acha que essa súbita paixão nacional pela política, substituindo até o fanatismo pelo esporte bretão que consagrou Terto, nos meios de comunicação e nas “ágoras” do boteco, desviará o Brasil do abismo ou, ao contrário, guiará o povo à desgraceira geral?

Prezado José Nêumanne Pinto, antes de responder à última pergunta, permita-me agradecer-lhe este espaço: Jesus curou dez leprosos e apenas um voltou para agradecer. Gosto muito das lições dessa parábola: a taxa de agradecimento para Deus é de apenas 10%. Para nós, saiba que é muito menor. Pessoas como você, o Augusto Nunes, o Luiz Fernando Emediato, o Aluizio Maranhão e poucas mais sempre deram comovente atenção ao que escrevo. A minha participação na mídia não é bem vista por alguns colegas. No antigo câmpus de concentração onde eu ensinava, certo dia uma professora me fulminou à queima-roupa: “Bonito, hein, um professor e escritor escrevendo na Caras, não tem vergonha, não?”. No susto, eu só tive espírito (de porco) para perguntar: “Como é que a senhora soube?”. Quanto às conversas das ágoras do boteco, que venham mais ágoras e mais eclésias (originalmente, eram assim chamadas as assembleias dos cidadãos), não apenas as comunidades eclesiais de base a cuja formação dediquei três anos de minha vida em tempo integral, numa experiência sofrida e bonita de convivência com pessoas das mais diversas características. Morávamos todos juntos num prédio que tinha sido convento, estudávamos uma semana em tempo integral e passávamos três semanas no meio rural formando esses grupos. A equipe era composta por homens e mulheres que eram brasileiros, alemães, belgas, austríacos, holandeses. Para mim valeu, em certo sentido, muito mais do que os cursos universitários que fiz. Foi uma experiência singular. Sou esperançoso e acho que o Brasil enfim se politizou por meio de um recurso inesperado, o recurso digital. Ninguém previu, com as vestes democráticas com que irrompeu , esse novo recurso, que tornou possível invadir os currais  eleitorais e libertar aqueles que votavam pelo cabresto. Tal como na antiga Grécia, berço da democracia, a prosa política, em seu sentido mais sólido, o da participação nos destinos da “pólis”, está na ordem do dia e vai reordenar o Brasil. E que a pátria deixe de ser ordenhada pelos velho costume de mamar nas tetas do governo, que já deixou torta a boca de alguns poucos.

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/conversa-clara-e-prosa-justa-com-deonisio-da-silva/

Legendas

Foto deonaestácio: Deonísio: “a prosa política, em seu sentido mais sólido, a participação nos destinos da pólis, está na ordem do dia e vai reordenar o Brasil”. Foto: Acervo pessoal

Foto deonacademia:  Deonísio integra bancada brasileira na Academia de Ciências de Lisboa e dirige o Instituto da Palavra da Universidade Estácio de Sá. Foto: Acervo pessoal

Foto: Deon&mi Deonísio, catarinense, e a mulher, a gaúcha Michele, nos jardins da Embaixada Brasileira em Lisboa, para onde viajam amiúde. Foto: Acervo pessoal

Foto: deonpedro Deonísio, abraçado por Pedro Thompson, professor da Universidade Estácio de Sá, da qual é titular aposentado. Foto: Acervo pessoal

Foto deonaband: Deonísio no estúdio onde apresenta seu programa Sem Papas na Língua no estúdio da BandFM no Rio. Foto: Acervo pessoal

Foto deoncalero Deonísio, em congraçamento ecumênico com ex-ministros de Temer, Calero, e de Dilma, Martins, e ex-secretário de Alckmin, Chalita. Foto: Acervo pessoal

Fotodeonmicro Do Sermão do Bom Ladrão, de Vieira, Deonísio cita os “reis, que acompanham ao inferno ou ao cárcere bandidos com os quais negociaram” (Foto: Acervo pessoal)

Links

Para ouvir Deonísio e Boechat no Sem Papas na Língua na Band clique aqui

Para ouvir entrevista de Deonísio a Prisco Paraíso no SBT de Florianópolis clique no play abaixo:

Para ouvir entrevista a Augusto Nunes na Jovem Pan clique aqui:

Para ver vídeo que alunos da FACHA fizeram sobre a obra de Deonísio clique aqui  

Nêumanne entrevista: Deonísio da Silva. 30ª edição da série DEZ PERGUNTAS.

Nêumanne entrevista: Deonísio da Silva. 30ª edição da série DEZ PERGUNTAS.

 

Palestra do Nêumanne no Enacon/Secovi: Nem Jesus nas calças…

Palestra do Nêumanne no Enacon/Secovi: Nem Jesus nas calças…

Nem Jesus Cristo conseguiria realizar completamente a missão de tirar o Brasil do atoleiro, que a maioria dos eleitores atribuiu ao deputado Jair Bolsonaro, apesar de ele também se chamar Messias e de ter colocado Deus não apenas em suas orações e até no slogan da campanha presidencial, tão complexa e ingente ela é. A grande esperança é que o Senhor ajude seu súdito fiel a desmontar a máquina de moer corpos, corações, mentes e almas montada pela elite política dirigente, que tem conduzido historicamente os destinos da Nação com uma mão no bolso do contribuinte para lhe furtar todas as economias conseguidas com o suor do trabalho e a outra no próprio bolso para evitar ser pilhado surrupiando. Esta foi, em resumo, a conclusão da palestra que o jornalista José Nêumanne Pinto fez na manhã da quarta-feira 7 de novembro de 2018 no Encontro Nacional das Administradoras de Condomínios (Enacon) no auditório da sede do Secovi (Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis e dos Condomínios Residenciais e Comerciais), em São Paulo.

 

S. Paulo, 7 de novembro de 2018. Palestra do Nêumanne: Panorama político e econômico. Enacon. DEBATE: Na foto, à esquerda o presidente do Secovi, Huberto Gebara.

S. Paulo, 7 de novembro de 2018. Palestra do Nêumanne: Panorama político e econômico. Enacon. DEBATE: Na foto, à esquerda o presidente do Secovi, Huberto Gebara.

 

S. Paulo, 7 de novembro de 2018. Auditório da palestra do Nêumanne: Panorama político e econômico. Enacon.

S. Paulo, 7 de novembro de 2018. Auditório da palestra do Nêumanne: Panorama político e econômico. Enacon.

S. Paulo, 7 de novembro de 2018. Palestra do Nêumanne: Panorama político e econômico. Enacon.

S. Paulo, 7 de novembro de 2018. Palestra do Nêumanne: Panorama político e econômico. Enacon/Secovi SP.

No Blog: Nêumanne entrevista Fernando L. Schüler

No Blog: Nêumanne entrevista Fernando L. Schüler

Para professor, Moro será fiador

para Bolsonaro andar na linha

Cientista político Fernando L. Schüler, do Insper, acha que todos saem ganhando com a decisão de Bolsonaro de nomear Moro ministro da Justiça e este aceitar

“Moro funciona como um fiador a mais da ordem constitucional e da sociedade de direitos. Agora teremos uma experiência diferente. É preciso estar vigilante, manter o espírito crítico, mas é preciso tolerar o grupo que pensa diferente. É simples assim. Quem não entender isso não compreende como funciona uma democracia”, diz o professor gaúcho de Ciências Políticas Fernando L. Schüler, da Cátedra Insper Palavra Aberta. Protagonista desta semana da série Nêumanne Entrevista neste blog, ele argumentou ainda contra a opinião dos que temem surtos autoritários do presidente eleito, Jair Bolsonaro, por causa da retórica de direita dele: “Nossas instituições são sólidas e não há sinal de que os militares queiram se afastar de seu papel constitucional. Qualquer líder político, hoje em dia, no Brasil, precisa andar na linha. É o que fará Bolsonaro”.

Foto Schüler2: Sobre gestão Bolsonaro, Schüler previu: "penso que será um governo instável, com previsíveis tensões com o Congresso, mas dentro da normalidade democrática." Foto: Acervo pessoal

Sobre gestão Bolsonaro, Schüler previu: “penso que será um governo instável, com previsíveis tensões com o Congresso, mas dentro da normalidade democrática.” Foto: Acervo pessoal

Gaúcho de Porto Alegre, Fernando L. Schüler é cientista político e professor do Insper. Tem doutorado em Filosofia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com pós-doutorado pela Universidade Columbia. É titular da Cátedra Insper Palavra Aberta, voltada para a reflexão sobre a liberdade de expressão e de imprensa. Foi diretor da Fundação Iberê Camargo e tambémdo Ibmec (no Rio de Janeiro) e é colunista da Band News e da Rádio e TV Bandeirantes.

Nêumanne entrevista Fernando Schüller

Nêumanne -Agora que o juiz Sergio Moro aceitou ser ministro da Justiça no futuro governo de Jair Bolsonaro, o senhor acha que o combate à corrupção ganhou novo alento, depois da longa batalha contra os suspeitos encastelados nos três Poderes da República até estes nossos dias?

Fernando Schüller – Sérgio Moro sempre deixou claro que a pauta de combate à corrupção demandava decisões que cabiam ao sistema político tomar. Pautas que iam muito além da capacidade de ação do Poder Judiciário. Ele agora terá essa oportunidade. O desafio que ele tem pela frente é enorme. Sua pasta tratará do tema do combate à corrupção, da transparência e de toda a temática da segurança pública e do combate ao crime organizado. Tudo isso numa época de polarização política e de uma nova elite política com pouca experiência de governo. De qualquer modo, acho que ele tomou uma grande decisão. É um homem corajoso, que aceita os riscos próprios do mundo da política. E é um patrimônio brasileiro, no contexto internacional, que funcionará como um enorme ativo para o governo Bolsonaro. Por fim, funciona como um fiador a mais da ordem constitucional e da sociedade de direitos. Todos saem ganhando com essa decisão.

Foto Schüllercelsomary: Schüler com Mary e Celso Lafer: "É preciso estar vigilante, manter o espírito crítico, mas é preciso tolerar o grupo que pensa diferente". Foto: Acervo Pessoal

Schüler com Mary e Celso Lafer: “É preciso estar vigilante, manter o espírito crítico, mas é preciso tolerar o grupo que pensa diferente”. Foto: Acervo Pessoal

N – Em 1960 o ex-governador e ex-prefeito de São Paulo Jânio Quadros se apresentou à disputa presidencial como candidato de um partido pequeno, o PTN, usando a vassoura como símbolo e prometendo varrer a bandalheira num jingle que ficou famoso. Depois, conseguiu o apoio da UDN, uma legenda gigante, ganhou a eleição presidencial, arengou com o Congresso e renunciou. O senhor vê alguma semelhança entre o caso dele e o de Jair Bolsonaro nesta eleição? Que lições o presidente eleito de hoje pode tirar desse episódio e dessa personagem da História do Brasil?

S – Jânio era uma figura instável e com traços de megalomania. Bolsonaro é um político pragmático, muito mais metódico e previsível do que a imagem que se criou dele ao longo do tempo. A democracia do ciclo 1945/64 era também muito diferente do que temos hoje, no Brasil. Foi a época do chamado golpismo democrático, à esquerda e à direita. O Brasil de hoje é muito diferente. Nossas instituições são sólidas e não há sinal de que os militares queiram se afastar de seu papel constitucional. Qualquer líder político, hoje em dia, no Brasil, precisa andar na linha. É o que fará Bolsonaro.

N – Caso mais recente de presidente que não foi lançado por partidos tradicionais foi o do carioca que governou Alagoas Fernando Collor de Mello, eleito em 1989. Ele se candidatou pelo minúsculo PRN, foi um fenômeno de popularidade espantoso, derrotou os maiores próceres da época de forma inesperada, nas urnas, com a promessa de acabar com os marajás do serviço público. Mas, acusado de corrupção, foi deposto num rumoroso processo de impeachment. O que Bolsonaro pode fazer, na sua opinião, para evitar enfrentar idêntico destino?

S – Penso que valia a pena para Bolsonaro estudar o governo Collor, para não cometer os mesmos erros.  O primeiro deles é a aposta difusa na ideia da política como espetáculo. É muito tentador, na era da internet, achar que a lógica da campanha possa funcionar no governo. Collor, ainda antes da explosão digital, ensaiou um tipo de populismo eletrônico, que desmoronou quando surgiram as denúncias que todos conhecemos. A segunda lição é a de que para governar é preciso ter uma agenda realista de mudanças e uma base sólida no Congresso. É preciso governar com as instituições, ter rumo. A comunicação direta com as pessoas funciona como um complemento, nada muito além disso. Haveria ainda uma terceira lição: o cuidado rigoroso com a questão ética. Isso não se refere apenas ao problema da corrupção, mas à obediência a regras de ética pública. Vivemos na era da transparência quase total. Governos devem seguir regras de compliance. O presidente Temer enfrentou conhecidos problemas nessa área. Bolsonaro precisa disciplinar isso logo de saída.

Foto Schülerjô: Schüler dando entrevista a Jô Soares na Rede Globo: "A elite política sempre subestimou Bolsonaro". Foto: Acervo pessoal

Schüler dando entrevista a Jô Soares na Rede Globo: “A elite política sempre subestimou Bolsonaro”. Foto: Acervo pessoal

N – Noves fora seu segundo prenome, Messias, em que o candidato do PSL, que citou 14 vezes o santo nome de Deus em seu discurso de comemoração do triunfo eleitoral, se insere na tradição de sebastianismo da política brasileira, de Antônio Conselheiro a Luiz Inácio Lula da Silva?

S – A religião cumpriu um papel-chave nestas eleições. Bolsonaro obteve ampla vantagem entre o público evangélico. Pesquisa recente mostrou que, se tomássemos apenas os municípios brasileiros com menos de 6% de população evangélica pentecostal, Haddad venceria com ampla margem de votos. Há uma ampla parcela da população brasileira que se identifica com valores cristãos tradicionais, não apenas os evangélicos, e se identificou genericamente como a agenda conservadora de Bolsonaro. Vamos ser claros: o Brasil nunca teve uma candidatura majoritária competitiva de traço conservador. Não havia diferença cultural significativa entre Dilma e Aécio, Serra ou Lula. Dito isto, é possível dizer que Bolsonaro expressa um tipo de neopopulismo eletrônico, embalado por um conservadorismo popular muito comum, hoje em dia, nas grandes democracias. É o conservadorismo do homem comum, que ganhou voz com as redes sociais.

Foto Schülermãe: Schüler com sua mãe, dona Ivone: "Vivemos na era da transparência quase total. Governos devem seguir regras". Foto: Acervo pessoal

Schüler com sua mãe, dona Ivone: “Vivemos na era da transparência quase total. Governos devem seguir regras”. Foto: Acervo pessoal

N – Nas manifestações de rua de 2013, que estão na base do incômodo da classe média com a chamada “velha política”, o presidente eleito de hoje se inseria num grupo minoritário e meio folclórico dos que clamavam por uma nova intervenção militar. Em que momento ele partiu para um voo solo fora dessa gaiola? Ou será que ele ainda é um nostálgico da velha tradição golpista, abandonada recentemente, das Forças Armadas?

S – Este é um dos traços mais característicos das grandes democracias: seu metabolismo moderador. O PT foi, nos anos 80, um partido socialista e estridente. Não havia documento oficial do partido que não falasse em construção do socialismo e coisas assim. Depois foi incorporado pela democracia. Pela lógica da moderação, da busca do eleitor mediano, da negociação com os partidos e as instituições. Bolsonaro passou e continua passando por esse processo, nos últimos anos. O fato de ele ter sido um deputado outsider foi um dos seus maiores trunfos. Ele se desconectou do sistema político, mas passou a viajar pelo País e conversar com as pessoas comuns. Foi aonde a maioria dos políticos não vai. No começo, com uma retórica estridente. Agora, como a retórica moderada de quem enfrenta o mundo real da política, a necessidade de formar base, aprovar o que é possível no Congresso, e não simplesmente o desejável, segundo seu ponto de vista.

Para Schüler, Bolsonaro "expressou o conservadorismo do homem comum, que ganhou voz com as redes sociais". Foto: Acervo pessoal

Para Schüler, Bolsonaro “expressou o conservadorismo do homem comum, que ganhou voz com as redes sociais”. Foto: Acervo pessoal

N – O que fez Jair Bolsonaro, que, ao votar a favor no impeachment de Dilma, homenageou o odiado torturador coronel Brilhante Ustra, conquistar mentes e corações de cidadãos brasileiros de saco cheio com a roubalheira arrogante do PT e o cinismo empedernido da aristocracia da apodrecida máquina política profissional em nosso país?

S – Uma pesquisa do Datafolha recente mostrou que as Forças Armadas são a instituição com maior prestígio do País. A memória do regime militar é ambígua e distante, no Brasil. Nosso rigor ético é seletivo. A esquerda passou os últimos 30 anos elogiando ditaduras que praticaram largamente a tortura. De minha parte, acho que elogios a torturadores são inaceitáveis. Mas,definitivamente, não é o que pensa a maioria, à esquerda e à direita. O elogio a Brilhante Ustra, bem como outras frases grosseiras de Bolsonaro terminaram por simbolizar uma atitude de desprezo pelo sistema político tradicional e os hábitos políticos brasileiros. Reforçou sua imagem de outsider e de candidato antissistema.

N – O que, a seu ver, descredenciou todos os candidatos ao posto favorito de anti-Lula no processo eleitoral, principalmente pretendentes ao pódio como Ciro Gomes, Geraldo Alckmin, Marina Silva, Álvaro Dias e Henrique Meirelles, só para citar os mais conhecidos, além do apolítico-padrão João Amoêdo, sobrando o lugar praticamente de mão beijada para o candidato do insignificante PSL?

S – Esta foi a eleição das guerras culturais. A pauta que estava na cabeça dos eleitores era mais de natureza moral, cultural e mesmo religiosa do que ligada à política econômica, PPPs, reforma política, reforma tributária, privatizações, etc. Os candidatos do centro ficaram falando sozinhos. Bolsonaro não falou nada muito objetivo sobre economia ou políticas públicas. Mas falou do kit gay, da ideologia de gênero, da sexualização precoce de crianças, da crítica aos direitos humanos e do reforço de poder às polícias para combater o crime. Seus detratores dizem tudo isso não passar de um punhado de frases de efeito. Acho que eles estão errados. A elite política sempre subestimou Bolsonaro. É óbvio que ele é um tipo de pouco refinamento e com quase nenhum conhecimento de economia e alta gestão pública. Mas suas frases de efeito continham exatamente a mensagem que as pessoas desejavam escutar. Candidatos se elegem numa democracia exatamente assim: estabelecem parâmetros de conduta e valores. Detalhamento de políticas públicas vem depois.

"Bolsonaro não é a causa, mas o resultado de um País que já vem polarizado há mais de duas décadas", disse Schüler

“Bolsonaro não é a causa, mas o resultado de um País que já vem polarizado há mais de duas décadas”, disse Schüler

N – Quais são, a seu ver, as possibilidades concretas de se repetir e se cristalizar esse fenômeno eleitoral, que levou não apenas seu líder à Presidência da República, mas também tornou possível o fato decompletos desconhecidos ganharem eleições estaduais nos maiores colégios eleitorais do País e se obrar o milagre da multiplicação das vagas na Câmara, com seu partido saindo de uma cadeira hoje para 52 na próxima legislatura?

S – Há muitas explicações para isso. Há o conservadorismo de costumes, há o sentimento antipetista e antilulista, há a crise ética e política do País. Mas o ponto que me parece crucial é a história recente de um País dividido. Bolsonaro não é a causa, mas o resultado de um País que já vem polarizado há mais de duas décadas. Nos anos 90 foi o “fora FHC”; nos anos Lula foi o “nunca antes neste país”, nos anos recentes, foi a teoria do “golpe” e o “primeiramente, fora Temer”. A sociedade foi, gradativamente, organizando sua reação. Os movimentos de rua, os think tanks, os intelectuais não alinhados, as redes no mundo digital, os youtubers e ativistas conversadores e liberais. A esquerda perdeu sua hegemonia cultural. Na mesma medida em que as instituições perderam espaço, na política, para o meio digital. Bolsonaro é um resultado desse processo, até agora fundamentalmente como um fenômeno eleitoral.

N – Que abalos sísmicos poderão ser produzidos pelo desempenho de uma campanha de R$ 1,2 milhão, 800 vezes mais pobre que a de Dilma Rousseff em 2014, sem tempo no horário obrigatório da TV e sem campanha na rua após um atentado que por pouco não lhe tirou a vida, levando o protagonista desse fenômeno a mudar os padrões da baixa política, que tanto incomodam o cidadão brasileiro aqui, na planície?

S – Em primeiro lugar, trouxe para o centro da política brasileira aqueles que estavam à margem. Essa é uma das mágicas da democracia. É claro que a turma que comandava o jogo, historicamente, não gosta. De minha parte, discordo de muita coisa colocada ali genericamente como “agenda conservadora”. Mas o que isso importa? Devo gostar da democracia apenas se as minhas posições saírem vencedoras? A esquerda esteve no poder por mais de 13 anos. Ok, foi importante para o País. Agora sabemos o que é um governo do PT. A social-democracia esteve no poder com Fernando Henrique. Agora teremos uma experiência diferente. É preciso estar vigilante, manter o espírito crítico, mas é preciso tolerar o grupo que pensa diferente. É simples assim. Quem não entender isso não compreende como funciona uma democracia. 

N – Diante dos desafios gigantescos na questão da governabilidade numpaís com 30 partidos representados no Congresso e das contas públicas em estado falimentar, o senhor se posiciona como cético ou esperançoso quanto ao governo Bolsonaro e ao futuro do Brasil?

S – Tenho uma visão bastante direta sobre esse assunto: se Bolsonaro quiser fazer um governo para a História, deve enviar ao Congresso, ainda no primeiro semestre de 2019, um projeto de reforma do sistema político. Algo que inclua a migração para o voto distrital misto, o voto facultativo, a proporcionalidade na Câmara, o fim do financiamento público de campanhas, etc. Minha visão é que a sociedade lhe deu um mandato para fazer isso. Para propor isso ao Congresso. Talvez isso possa ser objeto de uma consulta plebiscitária, como fizemos com o sistema de governo, em 1993, e depois com o tema do desarmamento. A Nova Zelândia mudou seu sistema eleitoral, dessa maneira, com grande sucesso. Não sei se isso está na cabeça de Bolsonaro e sua equipe, mas é isso que deveria ser feito. No mais, penso que será um governo instável, com previsíveis tensões com o Congresso, mas dentro da normalidade democrática.

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Nêumanne entrevista Fernando L. Schüler. 29ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista Fernando L. Schüler. 29ª EDIÇÃO DA SÉRIE 10 PERGUNTAS

 

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No Blog: Nêumanne entrevista Joice Hasselmann

No Blog: Nêumanne entrevista Joice Hasselmann

Joice diz que PT se mostrou uma quadrilha, não um partido

 

Para deputada  federal mais votada da História do Brasil, STF tem dívida eterna com povo brasileiro, que não suporta mais sustentar privilégios da casta do funcionalismo público

 

Nêumanne entrevista

 

A mais votada deputada federal na História do Brasil, Joice Hasselmann (PSL-SP) não tem papas na língua quando o assunto é PT: “Eles mentiam durante a campanha, mentiam na imprensa, mentiam para o mercado, mentiam para o povo e faziam negócios usando o governo como um inesgotável balcão. Defendi ininterruptamente a extinção do PT, que se mostrou uma quadrilha, e não um partido”. Protagonista da série Nêumanne Entrevista no blog, ela também rasga todas as sedas para Sergio Moro, que biografou, e policiais e procuradores federais sob a égide dele: “A Lava Jato tirou as escaras dos olhos do povo e provou que ninguém, nem mesmo o presidente de um país, está acima da lei”. Aécio Neves, que será seu colega na Câmara, recebeu dela diagnóstico duro: “Ninguém decente e com autoridade moral sai de uma campanha presidencial com 50 milhões de votos, assiste às aves de rapina voltarem ao poder e resolve ‘tirar férias’ a partir daí. Aquela postura do Aécio me parecia muito mais que fraqueza, preguiça, frouxidão. Quando ele apareceu sujo com a mesma lama em que o PT chafurdava, tudo fez sentido”. Prometeu ajudar na Câmara dos Deputados o projeto reformista de Bolsonaro, caso ele passe pelo teste definitivo das urnas. Segundo ela, “o povo não aguenta mais esse engessamento, esse monte de mentiras, essa ostentação cafona dentro da política”.

Para Joice, "sem a Lava Jato nosso país permaneceria nas mãos da quadrilha petista." Foto: Acervo pessoal

Para Joice, “sem a Lava Jato nosso país permaneceria nas mãos da quadrilha petista.” Foto: Acervo pessoal

Eleita deputada federal pelo PSL de São Paulo com 1 milhão e 78 mil votos, Joice Hasselmann é a mulher mais votada da história da Câmara. É e promete continuar sendo jornalista, colunista de política e economia, ativista contra a corrupção e escritora. Foi eleita em 2017 e em 2018 a principal influenciadora do Brasil na web,levando o Prêmio Influenciadores Digitais. Também  considerada pelo instituto ePoliticScholl (ePS) uma das personalidades mais influentes e notórias do País nas áreas de política e economia. Hoje tem o mais jovem e maior canal de política nacional e o único do mundo no YouTube feito por mulher e dedicado ao tema política. Tem também uma página no Facebook com mais de 1 milhão e 700 mil curtidas e com alcance de até 23 milhões de pessoas por semana. Seu canal no YouTube dispõe de mais de 1 milhão de inscritos e mais de meio milhão no Instagram. Foi âncora de Os Pingos nos Is, na Jovem Pan, depois de ter idealizado e sido âncora daTVeja, a primeira TV com grade fixa na internet, criada nas eleições de 2014. Também comandou veículos como CBN, Bandnews FM Curitiba, e as áreas políticas do SBT Paraná e Record Paraná. É autora da biografia de Sergio Moro, de Delatores, lançado em 2017, e outro livro sobre Ascensão e Queda da Esquerda na América Latina, para uma editora americana. Recebeu 12 prêmios de jornalismo, entre eles um da ONU, em 2011, batizado de Parceiros da Paz e Sustentabilidade.

 

Nêumanne entrevista Joice Hasselman

Nêumanne – Que lições a senhora aprendeu depois de ter acompanhado, como a grande maioria dos cidadãos brasileiros, as sessões históricas do julgamento da Ação Penal 470, o famigerado mensalão, e de ter assistido à tranquila reeleição posterior do chefão Luiz Inácio Lula da Silva, isentado da devassa pela militância do aparentemente rigoroso presidente do Supremo Tribunal Federal à época, ministro Joaquim Barbosa?

Joice – Algumas lições foram aprendidas a duras penas por todos nós, brasileiros. A primeira delas é que o Supremo Tribunal Federal, sob o comando de Joaquim Barbosa, fechou os olhos para a ação da quadrilha que tomava de assalto o País. As sessões foram bonitas, pomposas, com muitos salamaleques, mas na prática Lula saiu ileso, o grupo político mais próximo dele pegou cadeia leve ­- quase um puxão de orelhas perto da gravidade do crime de compra de votos no Congresso – e a pena pesada ficou para o grupo do Marcos Valério. Ora, como o chefe do esquema saiu impune? Nessa ocasião o STF poderia ter mudado a história do Brasil, mas optou por “pegar leve” com a parte política do esquema. O STF, indiretamente, deu de  “presente” ao País opetrolão e a reeleição de Lula. E depois disso o STF gostou da brincadeira de afrouxar a mão para bandido de alto coturno. O STF deve muito à sociedade brasileira. Foi pela mãos do Supremo que Zé Dirceu ganhou a liberdade, que bandidagem da grossa saiu pela porta da frente da cadeia debochando da lei e do povo, que Dilma, mesmo cassada, pôde disputar a eleição. O STF tem uma dívida eterna com o povo brasileiro. 

Joice acha que "o povo não aguenta mais esse engessamento, esse monte de mentiras, essa ostentação cafona dentro da política". Foto: Acervo pessoal

Joice acha que “o povo não aguenta mais esse engessamento, esse monte de mentiras, essa ostentação cafona dentro da política”. Foto: Acervo pessoal

N – Como a senhora se sentiu após ter participado, como milhões de brasileiros de classe média, das manifestações contra os péssimos serviços de nosso Estado estroina e voraz, ao ter de engolir a seco as promessas de pactos vazios de significado da então presidente Dilma Rousseff e a permanência do Partido dos Trabalhadores no poder? 

J – Eu me senti agredida, senti a democracia ameaçada e ao mesmo tempo me senti de pés e mãos amarrados,pois tudo estava acontecendo nas barbas da Justiça. Dilma Rousseff e a tropa toda do PT protagonizaram uma espécie de seriado hollywoodiano em que vendiam ao povo uma sequência de mentiras sem fim com superprodução. Eles mentiam durante a campanha, mentiam na imprensa, mentiam para o mercado, mentiam para o povo e faziam negócios usando o governo como um inesgotável balcão. Defendi ininterruptamente a extinção do PT, que se mostrou uma quadrilha, e não um partido. Durante a campanha eleitoral, assumi a posição de defender a ideia de que se Dilma fosse eleita seria cassada, tamanhos o estelionato eleitoral e os crimes que estavam acontecendo dentro da campanha e do governo. Minha indignação pulsava nas veias. 

Joice conta que recebeu vários convites para disputar cargos políticos e foi convencida de vez por Bolsonaro. Foto: Acervo pessoal

Joice conta que recebeu vários convites para disputar cargos políticos e foi convencida de vez por Bolsonaro. Foto: Acervo pessoal

N – Depois da catarse de 2013, veio o banho de água gelada da reeleição de Dilma Rousseff em 2014. Como a senhora se sentiu à época e como reage hoje, após ter tomado conhecimento de que o Tribunal Superior Eleitoral absolveu a chapa vencedora por “excesso de provas”, como dizia o relator vencido, Herman Benjamin, e de Antônio Palocci ter revelado que foram torrados R$ 600 milhões de dinheiro público naquela campanha?

J – Eu me senti roubada, literalmente roubada. Assistir à Dilma, o poste, sendo arrastada de novo para o poder foi desesperador. Eu sabia que a reeleição de Dilma Roussef seria o sepultamento de parte do nosso futuro. Eu nunca escondi o desprezo pela política que essa gente fazia. Quando saiu o resultado, e Dilma foi reeleita, pensei seriamente em sair do País, como muitos brasileiros. Naquela época eu já temia que nosso país se tornasse uma grande Venezuela. Mas, mesmo com as adversidades, fiquei e fui para a luta fazendo oposição ao PT, oposição de fato, porque o PSDB – irmão engomadinho do PT – nem oposição soube fazer. A partir dali intensifiquei meu trabalho como colunista de política, em especial na internet, com o foco de enfrentar a quadrilha petista e me tornei ativista declarada contra a corrupção.  

Logo depois da eleição, fiz um vídeo na TVeja, onde eu trabalhava, e expressei parte da minha indignação com aquele momento da política brasileira. O vídeo, batizado de Lula e Dilma, a dupla que roubou o futuro da Nação, rendeu milhões de visualizações, minha demissão e um processo movido pelo ex-presidente Lula contra mim, que, diga-se de passagem, eu ganhei. Apesar de toda a confusão, pressões e ameaças que sofri, eu faria tudo de novo, pois cada palavra que eu disse foi confirmada pouco tempo depois. Já a absolvição da chapa por “excesso” de provas só mostrou que os nossos tribunais que julgam os poderosos, em geral, seguem o exemplo do STF. Todos preferem fingir que não enxergam, mesmo quando figuras como Palocci desenham o caminho do crime.

 

Joice promete trabalhar na Câmara pela completa reformulação da educação e pelo fim do financiamento partidário. Foto: Acervo pessoal

Joice promete trabalhar na Câmara pela completa reformulação da educação e pelo fim do financiamento partidário. Foto: Acervo pessoal

N – A que conclusões a senhora chegou a respeito destes quatro anos de  atividade da Operação Lava Jato e do trabalho honesto e competente de policiais, procuradores e do juiz Sergio Moro, que, aliás, a senhora biografou, e da batalha permanente que os jovens profissionais da Polícia, do Ministério Público e da Justiça Federais tiveram de travar com a mentalidade tolerante dos ministros do Supremo TribunalFederal?

J – Sem dúvida, sem a Lava Jato nosso país permaneceria nas mãos da quadrilha petista. Nunca houve um trabalho como esse liderado por Sergio Moro no Brasil. Nunca houve uma força-tarefa que realmente enfrentasse os bandidos com mandato, os empresários mais poderosos e ricos do País. Mexer com a mais alta casta da bandidagem de colarinho branco era quase que um tabu, até mesmo no meio do Poder Judiciário. Não fossem a força, a coragem e o trabalho brilhante da turma da Lava Jato, Dilma Rousseff não teria caído, Lula teria sido nomeado ministro-chefe da Casa Civil e hoje seria presidente da República. A Lava Jato tirou as escaras dos olhos do povo e provou que ninguém, nem mesmo o presidente de um país, está acima da lei. 

N – Qual foi sua reação ao descobrir, graças à citada Operação Lava Jato e outras congêneres, que o senador tucano mineiro Aécio Neves, que saiu da eleição presidencial de 2014 como esperança de alternativa à arrogância e rapina do Partido dos Trabalhadores, na verdade comia no mesmo cocho das propinas das empreiteiras e outros prestadores privados de serviços públicos para fazer uma oposição de fancaria?

J – Foi de decepção. Pura decepção, porém não de surpresa absoluta. Quando Aécio Neves aliviou a mão demais e não assumiu o papel de oposição ferrenha ao PT, quando afrouxou sua atuação dentro do PSDB e no Senado, eu desconfiei que alguma coisa estava errada. Ninguém decente e com autoridade moral sai de uma campanha presidencial com 50 milhões de votos, assiste às aves de rapina voltarem ao poder e resolve “tirar férias” a partir daí. Aquela postura do Aécio me parecia muito mais que fraqueza, preguiça, frouxidão. Quando ele apareceu sujo com a mesma lama em que o PT chafurdava, tudo fez sentido.

Joice e o juiz Sérgio Mouro.

Joice diz que “nunca houve um trabalho como esse liderado por Sergio Moro”, de quem ela escreveu a biografia. Foto (no lançamento): Acervo pessoal

6 – Em que exato momento de sua carreira profissional a senhora desistiu de ser uma voz da dissidência da corrente politicamente correta nos meios de comunicação para ser política profissional e por que motivos a senhora empreendeu essa travessia dificultosa e complicada? 

J – Na verdade, não desisti (risos). Vamos por partes. Sobre comunicação. Vou continuar sendo uma voz da dissidência nessa turma do politicamente correto das redações. Não deixo de ser jornalista, nem de dar toda aatenção às notícias em minhas redes sociais. 

Quando à política, vamos lá.  Nos meses que antecederam a eleição eu fui procurada por vários partidos com convites para concorrer aos mais diversos cargos. Teve de tudo. Convite para ser candidata ao Senado,governo, Câmara, vice-presidente e um partido chegou a me sondar para disputar a Presidência da República. Os convites chegavam, mas nada me convencia, afinal, é uma guinada, um cavalo de pau na minha vida. Até que Jair Bolsonaro me fez mais do que um convite. Ele me intimou, até publicamente, e me chamou para, nas palavras dele, “assumir minha responsabilidade com o povo brasileiro e sair da zona de conforto”. Eu já conhecia Bolsonaro havia alguns anos e nutríamos uma relação de respeito e admiração. Depois desse convite eu fiquei bastante incomodada porque, de fato, se só os maus optarem pela política, tudo fica na mesma. Foram dois meses de muito sofrimento para mim. Fiquei muito dividida. Eu queria ajudar meu país, mas não tinha certeza se o melhor caminho era continuar na comunicação ou aceitar o convite de Bolsonaro. Junte a isso o fato de todos da minha família terem se posicionado contra minha ida para a política. Foi muito difícil. Às vezes, sozinha em casa, eu tinha crises de choro, pedia a Deus uma resposta, um caminho. Eu sofria porque eu queria ajudar o Brasil, mas não queria entrar para a política, e ao mesmo tempo eu sabia que o povo precisava de nomes limpos, de gente de coragem e que o Bolsonaro também precisaria de um braço forte no Congresso. No meio dessa minha crise de “vai ou não vai”, tive algumas conversas com Bolsonaro e houve um dia em que ele, com olhos marejados, depois de ser carregado por uma multidão, me disse: “Se eu tiver um Congresso forte, eu mudo este país”. Aí não teve jeito. Eu não tinha o direito de fugir dessa responsabilidade. Depois da decisão tomada, o passo mais difícil foi convencer a família. Mas deu tudo certo e hoje estou aqui num namoro intenso com o povo brasileiro. 

N – Em que momento e por que motivos a senhora aderiu à caminhada do capitão reformado e deputado federal Jair Bolsonaro, num momento em que ele ainda era um político já longevo e do baixo clero do Congresso? O que a senhora detectou de promissor nele? 

J – De fato, eu me posicionei ao lado do Bolsonaro quando ele ainda podia andar tranquilamente nas ruas, quando ele ainda não era esse “pop star”da política. Ele já tinha em mente que poderia ser candidato a presidente, mas nem os partidos acreditavam nele. Teve de buscar outras legendas, teve de quase construir um partido praticamente do zero. 

Há quatro anos eu tive a chance de conhecer mais de perto o Bolsonaro. Assim como boa parte da mídia, eu tinha uma visão equivocada sobre ele. Bastou uma conversa pessoalmente para eu enxergar que por trás daquele homem com posições fortes havia um coração bom, honesto, e uma espinha ereta que não se dobra. A partir dali eu comecei a expor minha simpatia pela postura moral do Bolsonaro e na época do impeachment da Dilma estivemos juntos em alguns momentos na luta contra a corrupção. Também comecei a dar espaço para ele nos veículos em que eu tinha voz para mostrar o Bolsonaro de verdade. Isso me rendeu muitas críticas dentro do meio jornalístico. Ninguém queria “se expor”. Fui a primeira pessoa pública a de fato ficar ao lado dele. E a história mostra que fiz o certo. Bolsonaro será um grande presidente, podem apostar. Detectei isso nele há quatro anos. 

Joice promete trabalhar na Câmara pela completa reformulação da educação e pelo fim do financiamento partidário. Foto: Acervo pessoal

Joice promete trabalhar na Câmara pela completa reformulação da educação e pelo fim do financiamento partidário. Foto: Acervo pessoal

N – Desde que resolveu candidatar-se a uma vaga na Câmara dos Deputados a senhora sempre manifestou sua confiança de ter uma votação muito acima da média, garantindo a eleição num partido que, em circunstâncias normais de temperatura e pressão, exigiria um quociente eleitoral altíssimo para ocupação da cadeira. Em que se baseava?

Na vontade do povo de mudança. Apesar de não entender de política partidária como os “profissionais da área”, eu entendo de gente. Entendo o sentimento das pessoas. Havia uma onda de fora pra dentro de pessoas que queriam que eu fosse candidata. Nos eventos de que eu participava Brasil afora, era recebida sempre por centenas e até milhares de pessoas e eu via esperança no olhar dessa gente. Quando decidi ser candidata, esse movimento ficou ainda mais intenso. Essa onda que vimos em São Paulo aconteceu em outros lugares do País, tanto que fiz campanha pelo Bolsonaro em outros Estados, como Paraná, Minas e alguns do Nordeste. Mas nunca imaginei que seria uma eleição fácil. Muito menos que eu faria mais de 1 milhão de votos. Isso é inimaginável!!! Foi uma surpresa para todos. No dia da eleição fiquei com medo de não conseguir os 30 mil votos necessários para não ser cortada pela cláusula de barreira. Quando vi que com 20% da urnas apuradas eu já tinha feito minha cadeira, achei que o site do TSE estava com problema. E quando passou de 1 milhão foram só lágrimas escorrendo pelo meu rosto. E olha que meu sobrenome é Hasselmann, hein! Brinquei com Bolsonaro que se meu sobrenome fosse o mesmo dele eu teria feito 3 milhões (risos). 

N – Esta campanha feriu de morte velhos conceitos de política profissional arraigados no cenário brasileiro. Cito especificamente o custo exagerado (absurdo até) das campanhas, o horário eleitoral nos meios eletrônicos de comunicação de massas, o debate de candidatos, o Fundo Partidário com dinheiro público, o foro de prerrogativa de função e a barganha que transforma o Congresso Nacional num mercado de pulgas. A seu ver, essas serão conquistas que remanescerão ou sumirão sob o ataque sempre corrosivo das organizações criminosas que controlam os cordéis da atividade política no Brasil?

– Essas conquistas na mudança do jeito de fazer política no Brasil precisam permanecer. Não dá para abrir mão de tudo isso. Veja, eu e Bolsonaro mostramos matematicamente que as campanhas milionárias, que os acordões para conseguir tempo de TV, que o balcão de negócios podem ser aposentados. Tanto minha campanha como a dele foram totalmente com base em redes sociais. São os votos mais baratos da História. As pessoas fizeram campanha de graça. Acho que esse jeitão novo de fazer política veio para ficar. O povo não aguenta mais esse engessamento, esse monte de mentiras, essa ostentação cafona dentro da política. 

Joice garante que trabalhará para "desburocratizar o País, reduzir a máquina pública e promover uma onda de privatizações responsáveis". Foto: Acervo pessoal

Joice garante que trabalhará para “desburocratizar o País, reduzir a máquina pública e promover uma onda de privatizações responsáveis”. Foto: Acervo pessoal

 N – O que a senhora espera fazer de útil em seu mandato, a ponto de se orgulhar disso daqui a quatro anos, para considerar, por fim, que cumpriu o que pretendia fazer como deputada federal?

J – Pretendo ser o braço forte do Bolsonaro dentro na Câmara para ajudá-lo a fazer as reformas de que o Brasil precisa, a desburocratizar o País, reduzir a máquina pública e promover uma onda de privatizações responsáveis. Junte a isso dois temas que me são muito caros e estão entre as minhas bandeiras: combate à corrupção e corte de privilégios nos três Poderes. Vou trabalhar para aprovar o mais rápido possível as Novas Medidas Contra a Corrupção e a transformação de corrupção em crime hediondo. Com o Legislativo renovado creio que conseguimos passar o projeto com menos resistência. Em relação aos privilégios, o Brasil não aguenta mais a lista infindável de “extras” que a alta casta do funcionalismo público, deputados, senadores, ministros do Executivo e STF têm. No caso de Congresso e Judiciário, têm até as “férias de inverno e de verão”. Isso é uma excrescência. Vou propor projeto pra acabar com essa brincadeira. Também trabalharei pela privatização dos presídios, pelo fim do auxílio-reclusão pago com dinheiro público e pela reformulação total da educação. Temos muito trabalho pela frente.

Acesse os vídeos que ilustram esta entrevista: 

Joice Hasselmann 1 – Veja. Clique aqui. 

Joice Hasselman 2 – Veja. Clique aqui.

Joice Hasselman 3 – Veja. Clique no play abaixo.

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique aqui.

 

Nêumanne entrevista Joice Hasselmann. 28ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista Joice Hasselmann. 28ª edição da SÉRIE
10 PERGUNTAS

 

No blog: Nêumanne entrevista Janaína Paschoal

No blog: Nêumanne entrevista Janaína Paschoal

Janaína prega extinção do fundo partidário e candidaturas avulsas

Para a deputada mais votada na História do Brasil, esta eleição, de que foi protagonista, não derrubou apenas o PT, mas também todos quantos acreditaram que podiam tudo

A professora de Direito Penal da Universidade de São Paulo (USP) Janaína Paschoal entende que uma reforma política de verdade se apoia em dois pilares: o fim do financiamento de campanhas com dinheiro público e a permissão de candidaturas independentes. De acordo com a lente da Faculdade de Direito da USP, que ajudou os colegas Hélio Bicudo e Miguel Reale Júnior no projeto de impeachment de Dilma Rousseff, “não foi só o PT que caiu” na eleição que a consagrou. “Caíram muitos daqueles que acreditavam que podiam tudo. Aqueles que se julgavam deuses. O povo está mostrando que só há um Deus. Os que conseguiram se manter, espero, aprenderão a respeitar quem dá a palavra final”, disse na edição desta semana da série Nêumanne Entrevista neste blog. Ela lembrou que Michel Temer “assumiu porque Dilma o convidou a compor a chapa com ela. Simples assim”. E ponderou: “Mesmo com todos os problemas surgidos, digo com tranquilidade que faria tudo de novo. Acredito, verdadeiramente, que o impeachment foi a melhor coisa que aconteceu ao nosso país. Ali se iniciou a cultura da responsabilização de quem precisa ser responsabilizado”. Tendo recusado ser vice do candidato favorito à eleição presidencial, Janaína observou: “Bolsonaro tem muito apoio popular, penso que poderá valer-se disso para fazer as reformas necessárias. O grande cuidado que ele precisa tomar é ter sempre em mente que ele está sendo eleito por uma pluralidade e para essa pluralidade deve governar – brancos, negros, pobres, ricos, homossexuais, heterossexuais, mulheres, homens, até as crianças dizem votar nele”.

Em 31 de agosto de 2016, Janaína beija a bandeira após o impeachment de Dilma passar por 61 a 20 no Senado: Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Em 31 de agosto de 2016, Janaína beija a bandeira após o impeachment de Dilma passar por 61 a 20 no Senado: Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Janaína Conceição Paschoal, nascida em São Paulo em 25 de junho de 1974, é advogada e professora da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Largo de São Francisco, na qual obteve o grau de doutora em Direito Penal em 2002, sob orientação de Miguel Reale Júnior, tendo defendido a tese “Constituição, Criminalização e Direito Penal Mínimo”, e se especializado em pesquisa do Direito Penal Econômico. Tornou-se nacionalmente conhecida como uma das autoras do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, juntamente com seu orientador e outro colega das Arcadas, o promotor Hélio Bicudo, fundador do PT, tendo participado ativamente na tramitação do processo na Câmara dos Deputados e no Senado. Na eleição de 2018, ela obteve mais de 2 milhões de votos para a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, a maior votação de deputado, seja federal ou estadual, da História do Brasil, superando  Eduardo, filho de Jair Bolsonaro, que foi na mesma eleição o deputado federal mais votado da história. O total de seus votos também superou os números obtidos por 10 dos 13 governadores eleitos no primeiro turno, entre eles Paulo Câmara, de Pernambuco, com 1.918.219 votos, e oito dos 13 candidatos à Presidência da República: Cabo Daciolo (Patriota), Henrique Meirelles (MDB), Marina Silva (Rede), Álvaro Dias (Podemos), Guilherme Boulos (PSOL), Vera Lúcia (PSTU), Eymael (DC) e João Goulart Filho (PPL).

Nêumanne entrevista Janaína Paschoal

Nêumanne – Depois de todo o tempo que passou desde a sua atuação no impeachment de Dilma Rousseff, a senhora já conseguiu digerir a violação da Constituição pela conspiração dos senadores Renan Calheiros e Kátia Abreu, com a cumplicidade do então presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Ricardo Lewandowski, para permitir que, ao arrepio do artigo 52, a ex-presidente pudesse desempenhar um cargo público?

Janaína – Eu não posso afirmar que tenha havido algum tipo de acordo a ensejar o tal fatiamento do julgamento. O que posso dizer é que, se houve, eu não fiz parte do suposto ajuste. Penso que um evento histórico de tamanha magnitude precisa ser analisado sob o olhar do momento em que ocorreu e sob o olhar atual. Pensando pela perspectiva do momento, digo, sem constrangimentos, que eu fiz o que me competia, pedi o afastamento da presidente do cargo, bem como a perda de seus direitos políticos, como prevê a Constituição federal. Obtive parte do que pedi, justamente a parte principal, que foi o afastamento. Naquela oportunidade, fiquei imensamente aliviada. Como advogada, eu me senti vitoriosa. Eu cheguei a ouvir parlamentares dizerem que se não fosse o fatiamento votariam a favor da presidente. Então, para mim, o que importava era tirá-la do poder, afastando todos os perigos que assombravam o nosso país. Por isso fiquei muito contrariada quando partidos e movimentos apresentaram recurso solicitando a anulação do julgamento, pois não havia como anular uma parte sem comprometer o todo. Avaliando a situação, agora, penso que foi muito bom os fatos terem ocorrido como ocorreram. A ex-presidente criou o discurso fictício do golpe, vociferou pelo mundo todo que haveria de ser julgada pelas urnas. Pois bem, no dia 7 de outubro ela foi julgada pelas urnas e, mais uma vez, perdeu. Graças ao fatiamento, o povo pôde mostrar que o impeachment foi mesmo um processo que expressou o desejo da esmagadora maioria da nossa sociedade.

Para Janaína, "promover um processo de impeachment não é algo feliz, por mais justo e necessário que ele seja." Foto: Weslei Marcelino/Reuters

Para Janaína, “promover um processo de impeachment não é algo feliz, por mais justo e necessário que ele seja.” Foto: Weslei Marcelino/Reuters

 N – O desempenho do principal beneficiário do impeachment, que resultou de seu trabalho em parceria com seus colegas Hélio Bicudo e Miguel Reale Júnior, Michel Temer, que era vice de Dilma e a substituiu, surpreendeu-a, frustrou-a ou a senhora é indiferente ao que aconteceu?

J – Quem votou no presidente Michel Temer foram os petistas. Os mesmos petistas que, repentinamente, passaram a entoar o “Fora Temer”. Antes, durante e depois do processo de impeachment, eu jamais tive qualquer contato com o presidente Temer. Pelas regras constitucionais, em caso de impeachment deve assumir o vice-presidente. Ele assumiu porque Dilma o convidou a compor a chapa com ela. Simples assim. Mesmo com todos os problemas surgidos, digo com tranquilidade que faria tudo de novo. Acredito, verdadeiramente, que o impeachment foi a melhor coisa que aconteceu ao nosso país. Ali se iniciou a cultura da responsabilização de quem precisa ser responsabilizado.

N – Lembro-me de que a senhora chegou a se emocionar ao longo do processo de impeachment de Dilma. Qual foi agora seu sentimento ao receber a notícia da derrota da presidente que a senhora ajudou a derrubar numa eleição para ocupar duas cadeiras no Senado e com os institutos dando-a como líder nas pesquisas de intenção de votos?

J – Poucas pessoas entenderam meus momentos de emoção. Promover um processo de impeachment não é algo feliz, por mais justo e necessário que ele seja. Qualquer pessoa que ama o seu país torce pelo sucesso e pela correção de seus líderes. Por outro lado, se a oposição tivesse feito seu trabalho, eu não precisaria ter passado por tudo o que passei. Não foi nada fácil enfrentar tantos obstáculos. O resultado das urnas relativamente à ex-presidente Dilma, bem como a outros nomes tradicionais do PT e mesmo de partidos aliados, a meu ver, mostrou o amadurecimento do povo brasileiro, que é inteligente, sensível e merece ser respeitado. Quando as pesquisas indicavam que os nomes de sempre sairiam vencedores, o povo mostrou que está tomando consciência de seu enorme poder. Foi um bom sinal. Espero que os eleitos tenham dimensão de sua responsabilidade.

Janaína em 2017, em ato de apoio à Lava Jato, pelo fim do "foro privilegiado" e contra o sistema de voto em lista fechada. Foto: Marcelo Arbex/Estado

Janaína em 2017, em ato de apoio à Lava Jato, pelo fim do “foro privilegiado” e contra o sistema de voto em lista fechada. Foto: Marcelo Arbex/Estado

N – A senhora acredita que possa haver alguma relação entre a citada derrota de Dilma Rousseff e o prestígio popular que levou a senhora, até então uma anônima professora da Faculdade de Direito da USP, ao recorde histórico de 2 milhões de votos para um deputado estadual, em qualquer unidade da Federação, no Brasil?

J – Certamente a votação histórica que recebi e a derrota da ex-presidente e outros nomes tradicionais da política estão diretamente relacionadas ao processo de impeachment. Não tenho dúvidas disso. Em todas as cidades visitadas, eu ouvi agradecimentos pelo trabalho no processo. Por outro lado, diante das pesquisas, cidadãos mineiros telefonavam pedindo ajuda para seu Estado não levar Dilma Rousseff novamente ao poder. Os fatos estão umbilicalmente relacionados.

N – Antes de se candidatar a deputada estadual, a senhora chegou a ser cogitada para ser vice na chapa do candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro, mas isso terminou não acontecendo. O que a impediu de seguir aquele outro caminho?

J – Conheci o presidenciável no dia da Convenção do PSL, no Rio de Janeiro, quando fiz um discurso polêmico, muito embora tenha dito o que acredito precisava mesmo ser dito. Entre aquele dia e a decisão final houve outros encontros, telefonemas e trocas de mensagens. Meu contato com ele foi muito bom. Trata-se de uma pessoa educada e que sabe ouvir. Neste momento da minha vida, eu não teria condições de me mudar de vez para Brasília. Fiz propostas intermediárias, mas a equipe dele entendia que uma mudança total seria necessária. Em nossas conversas, ele também se mostrou muito incomodado com as ameaças que vinha recebendo. Eu senti que ele estava preocupado comigo. Infelizmente, os temores dele tinham razão de ser, haja vista o grave atentado sofrido. Em nosso último diálogo antes de eu anunciar que não seria candidata à Vice-Presidência, chegamos a falar da importância de ter o general Mourão como vice. Foi uma decisão amadurecida pelas duas partes.

N – Quando se toma conhecimento do impressionante total de votos que a senhora recebeu, que superou, por exemplo, o recorde do próprio filho do candidato hoje favorito à Presidência da República, Eduardo Bolsonaro, a primeira pergunta que vem à mente é por que a senhora não disputou uma cadeira na Câmara dos Deputados, em vez de uma vaga na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo?

J – Pelo mesmo motivo que me impediu de concorrer à Vice-Presidência. Neste momento da minha vida, não posso me mudar para Brasília. Eu não conseguiria ser uma deputada federal pela metade. Nem uma senadora. Na condição de deputada estadual posso seguir falando o que entendo seja preciso falar pelo País, sem abandonar minha família, que ainda precisa muito de mim. Tenho a certeza de que ajudarei muito o Brasil, a partir de São Paulo. Se ajudei sem cargo, que dirá com cargo! (rs)

Janaína chegou a ser cotada para se candidatar vice na chapa de Bolsonaro, do PSL, mas recusou. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Janaína chegou a ser cotada para se candidatar vice na chapa de Bolsonaro, do PSL, mas recusou. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

N – O que, a seu ver, provocou as férias forçadas de muitos figurões da velha política, antes praticamente insubstituíveis em seus postos com prerrogativa de foro, e uma súbita inovação nas eleições proporcionais federais e estaduais de 8 de outubro?

J – A manifestações de 2013, 2015, 2016, somadas ao processo de impeachment e à Operação Lava Jato, mostraram à população que nós podemos mais. Que não precisamos nos curvar aos poderosos de sempre. É nítido que não foi só o PT que caiu. Caíram muitos daqueles que acreditavam que podiam tudo. Aqueles que se julgavam deuses. O povo está mostrando que só há um Deus. Os que conseguiram se manter, espero, aprenderão a respeitar quem dá a palavra final.

8 – A renovação da Câmara – 52% – foi a maior em 20 anos, mas, por outro lado, mesmo assim a maior bancada é do PT e ainda é bastante numerosa a participação dos partidos que formaram o tal Centrão, que protagonizou a fisiologia durante o governo Temer. Como será possível ao futuro presidente obter, nesse ambiente, um mínimo de governabilidade?

Espero que o novo presidente seja Jair Bolsonaro. O PSL terá uma bancada forte e mesmo parlamentares de outros partidos sabem bem o que sofremos para chegar até aqui. Creio que as reformas necessárias para o desenvolvimento do País terão apoio. Se não tiverem, caberá ao presidente governar com o povo, sobretudo quando exigências inadequadas forem feitas. Se alguém exigir mensalinho, mensalão, cargo, para votar o que é importante e bom para a população, o presidente precisará vir a público e entregar quem pediu e o que pediu. Pode parecer exagerado, mas não vejo outro caminho. Bolsonaro tem muito apoio popular, penso que poderá valer-se disso para fazer as reformas necessárias. O grande cuidado que ele precisa tomar é ter sempre em mente que ele está sendo eleito por uma pluralidade e para essa pluralidade deve governar – brancos, negros, pobres, ricos, homossexuais, heterossexuais, mulheres, homens, até as crianças dizem votar nele. É muito bonito ver esse carinho. Eu peço a Deus que ele consiga atender parte dessas muitas expectativas. Espero também que as pessoas estejam cientes de que não será fácil e que o País tem um caminho árduo pela frente. O importante, agora, é mudar o rumo, ou pôr o País no rumo.

N – Que modificações profundas na estrutura apodrecida da velha política brasileira serão provocadas pelo processo inusitado da campanha da qual a senhora saiu como protagonista?

J – A minha eleição e a de Bolsonaro, que espero ocorra no próximo dia 28, são provas de que é possível fazer uma campanha sem muito dinheiro. Não sei qual a opinião dele, mas eu defendo acabar com fundo eleitoral e com fundo partidário. Acabar totalmente. Assim, só vai para a política quem realmente tem o desejo de servir. Deixará de ser vantajoso ser dono de partido. Também sou uma defensora convicta da possibilidade de um cidadão concorrer sem se filiar a qualquer sigla partidária, mormente quando se trata de cargo majoritário. Fala-se muito em reforma política, mas essas duas medidas seriam revolucionárias.

Derrota de Dilma em Minas "mostrou o amadurecimento do povo, que é inteligente, sensível e merece ser respeitado", diz Janaína. Foto: Dida Sampaio/Estado

Derrota de Dilma em Minas “mostrou o amadurecimento do povo, que é inteligente, sensível e merece ser respeitado”, diz Janaína. Foto: Dida Sampaio/Estado

N – Que papel a senhora pretende desempenhar em sua atuação na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo?

J – Tantos quantos forem possíveis. Legislar, fiscalizar, ajudar a formar redes, fomentar o debate mediante audiências públicas, ser um veículo de conciliação… Estou muito animada para trabalhar e honrar cada um dos vários votos de confiança que recebi.

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Nêumanne entrevista Janaína Paschoal: 27ª EDIÇÃO DA SÉRIE 10 PERGUNTAS .

Nêumanne entrevista Janaína Paschoal: 27ª EDIÇÃO DA SÉRIE 10 PERGUNTAS

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