Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

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Nêumanne Entrevista Boris Casoy

Nêumanne Entrevista Boris Casoy

Boris: “ninguém governa sem o Centrão”

Para o jornalista Boris Casoy, qualquer presidente brasileiro eleito pelo povo no Estado de Direito terá de governar com o grupo dominante de políticos, conhecido como Centrão, em que “nem todos são corruptos”. O ex-diretor de redação da Folha de S. Paulo e ex-âncora dos telejornais de SBT, Record e RedeTV disse na edição desta semana da série Nêumanne Entrevista, quem sufragou Jair Bolsonaro presidente da República sabia perfeitamente quem ele era, a não ser por algumas promessas que não cumpriu. Boris lembrou que os populistas de esquerda roubaram “pra burro” e o atual chefe do Executivo conquistou a maioria do eleitorado, que não suportava mais esse quadro de coisas. O entrevistado contou ainda como surgiu seu popular refrão “isso é uma vergonha”, que usa no canal que agora assina no YouTube. Direto ao assunto. Inté. E só a verdade nos salvará.

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Artigo no Estadão desta quarta-feira: A ignorância racista de Bolsonaro e Mourão

Artigo no Estadão desta quarta-feira: A ignorância racista de  Bolsonaro e Mourão

José Nêumanne

Ao negarem legado racista da escravidão,

presidente e vice se revelam seus arautos

Na quinta-feira 19, os brancos Giovane Gaspar da Silva, de 24 anos, policial militar temporário e, segundo a Polícia Federal, sem registro nacional para atuar como segurança, e Magno Braz Borges, ambos funcionários da Vector Segurança, mataram o soldador negro João Alberto Silveira Freitas. O massacre no estacionamento de uma loja do Carrefour em Porto Alegre provocou protestos a partir do dia seguinte, feriado da Consciência Negra em vários municípios brasileiros, incluindo São Paulo.

O presidente Jair Bolsonaro e seu vice, Hamilton Mourão, ambos da reserva do Exército, execraram esses protestos. “No Brasil não existe racismo”, pontificou o general. O capitão foi além ao comentar o fato, sem citar o nome da vítima, em suas redes sociais e em discurso em reunião virtual do G-20, afirmando que o Brasil é um país miscigenado e “foi a essência desse povo que conquistou a simpatia do mundo.” Disse ainda: “Contudo há quem queira destruí-la e colocar em seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre raças, sempre mascarados de ‘luta por igualdade’ ou ‘justiça social’. Tudo em busca de poder”. E mais: “Aqueles que instigam o povo à discórdia, fabricando e promovendo conflitos, atentam não somente contra a Nação, mas contra nossa própria História. Quem prega isso está no lugar errado, seu lugar é no lixo”.

Aprendi no curso primário do Grupo Escolar Jovelina Gomes, em Uiraúna (PB), que a escravidão dos indígenas foi meio dominante de produção agrícola e extração mineral na colônia, usado por colonizadores brancos desde a descoberta até o século 18, quando o marquês de Pombal o extinguiu. Os bandeirantes paulistas, grandes heróis da conquista dos territórios aquém da imensa costa, recorreram à prática nos séculos 16 a 18: Fernão Dias e Raposo Tavares são cultuados em nomes de escolas. O crudelíssimo Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, conhecido pela crueldade na captura dos nativos, é cultuado da mesma forma.

Proibidos pela coroa portuguesa de escravizar índios, os brasileiros entraram num dos capítulos mais infames da História da humanidade: o tráfico de escravos importados da África. Em compensação, aqui existiu um dos movimentos políticos de maior nobreza: o abolicionismo. Negros, como José do Patrocínio, e brancos, como Joaquim Nabuco, edificaram o que de mais nobre o gênero humano produziu no meio de tantos réprobos, como o mulato Chachá, riquíssimo mercador de escravos nascido na Bahia e morador durante a maior parte de sua vida em Angola, onde se aproveitava dos costumes das tribos locais para viver à tripa forra, como descreveu com brilho o poeta Alberto da Costa e Silva.

Nas noites de breu do sertão, ouvi na récita de cor de minha mãe, Mundica Ferreira Pinto, os versos inspirados de outro baiano, Castro Alves, narrando o horror desse comércio em seu poema antológico Navio Negreiro: “E existe um povo que a bandeira empresta/ Pr’a cobrir tanta infâmia e cobardia!…/ E deixa-a transformar-se nessa festa/ Em manto impuro de bacante fria!…/ Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,/ Que impudente na gávea tripudia?!/ …Silêncio!… Musa! chora, chora tanto/ Que o pavilhão se lave no teu pranto…// Auriverde pendão de minha terra,/ Que a brisa do Brasil beija e balança,/ Estandarte que a luz do sol encerra,/ E as promessas divinas da esperança…/ Tu, que da liberdade após a guerra,/ Foste hasteado dos heróis na lança,/ Antes te houvessem roto na batalha,/ Que servires a um povo de mortalha!…”. E Freitas seria massacrado na data dedicada a essa bandeira.

Joaquim Nabuco, vulgo Quincas, o Belo, político e diplomata abolicionista, marcaria sua passagem como autor da obra-prima literária Um Estadista do Império e condenou de forma implacável o modo irresponsável como a princesa regente Isabel aboliu a escravatura. Os negros forros saíram de senzalas humilhantes para o degredo do desemprego, da mendicância, da discriminação e da miséria como regra. Isso, é claro, não impediu a genialidade de afrodescendentes, como o maior dos escritores brasileiros, Machado de Assis, parceiro de Nabuco na criação da Academia Brasileira de Letras, Lima Barreto e Cruz e Souza, entre tantos outros. Também tinham origem na África tribal escravagista o engenheiro André Rebouças e o maior esportista brasileiro de todos os tempos, simplesmente Pelé.

Jair Bolsonaro, descendente de colonos italianos, não tem autoridade política nem pessoal para insultar, como o fez, brasileiros sensíveis que sabem que o legado histórico da escravidão negra assombra a realidade brasileira ainda hoje. Nada, portanto, o autoriza a considerar “lixo” o patrício que condene o abominável massacre de Porto Alegre como resultado dele. Ao eliminar o nome da vítima de sua manifestação execrável, ele deu força à expressão Homem Invisível, da lavra do norte-americano Ralph Ellison, como a mais completa definição de racistas que se escondem como “daltônicos”, entre os quais ele e seu vice-presidente, orgulhosos da própria ignorância e executantes de uma política que ignora a História para reproduzir suas infâmias.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estadão da quarta-feira 25 de novembro de 2020)

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No Blog do Nêumanne: Brasil e Amapá ao deus-dará

No Blog do Nêumanne: Brasil e Amapá ao deus-dará

José Nêumanne

Bolsonaro e Alcolumbre foram a Macapá em missão oficial inaugurar um gerador a Diesel e pedir votos para o irmão do beneficiário da fraude da eleição da Mesa do Senado, e o apagão continua

Em 3 de novembro, choveu forte no Amapá, e um incêndio na transmissora privada de eletricidade para a rede paralisou o fornecimento do Estado em cujo território corre o rio Oiapoque, no extremo norte do mapa do Brasil. No sábado 21, 17 dias depois, o presidente Jair Bolsonaro deu o ar de sua desgraça, inaugurou um gerador a Diesel, prometeu não cobrar a conta da luz que não foi entregue e pediu votos para José Samuel, irmão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, escolhido para o posto na Mesa em eleição fraudulenta com 81 eleitores e 82 votos. Pobre Amapá nas trevas, miniatura do Brasil, em cujo mapa no  extremo oposto fica o rio Chuí, durante o maior apagão de gestão da História.

Enquanto no Estado sem força, o povo sofre sem água nem urna e não se decidiu quem é o responsável pelo inferno de calor, treva e seca. E não faltam suspeitos. O primeiro deles é a privatização. A responsável pela transmissão de energia no estado do Amapá, desde 2008, é a Linhas de Macapá Transmissora de Energia, que até o ano passado pertencia à empresa espanhola Isolux, que venceu o leilão de privatização da Linhas de Macapá Transmissão de Energia em 2008, mas a transferiu no ano passado à Gemini Energia. A transmissão passou a depender de concessões de transmissão de empresas privadas, que não prestam o melhor serviço do mundo. O Valor Econômico informou que documentos do Ministério de Minas e Energia e do Operador Nacional do Sistema (ONS) atestam que a subestação atingida opera há mais de dois anos no limite de sua capacidade.

Da discussão em torno da privatização, quimera do liberal Paulo Guedes, que mantém o emprego, mas abandonou as convicções, a responsabilidade pelo caos é transferida para a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). É ocioso lembrar que as agências que, em teoria, fiscalizam as empresas para as quais foram repassadas subsidiárias das antigas estatais, sempre foram dirigidas por paus-mandados dos governantes federais de plantão. O caso mais angustiante, mas não o único, é o da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), dirigida pelo contra-almirante Antônio Barra Torres, negacionista e bajulador do presidente Bolsonaro. André Peppitone foi nomeado para a presidência da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em agosto de 2018 pelo ex-presidente Michel Temer. O diretor do ONS,  Luiz Eduardo Barata Ferreira, é petista, foi nomeado por Dilma Rousseff e reconduzido por Temer. Peppitone e Barata foram afastados dos cargos pelo juiz federal João Bosco Costa Soares Batista como óbvios culpados. E as diretorias foram mantidas por decisão do 1.ª Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF 1).

A mera leitura do parágrafo anterior permitirá ao leitor ter uma ideia do saco de gatos que mantém o povo de Macapá no inferno de Dante Alighieri na vida real. Aneel e ONS mantêm relações estreitas com o Ministério das Minas e Energia. O ministro é o contra-almirante Bento Albuquerque que, ao contrário de seu chefe imediato, o capitão Jair Messias, viajou para o Estado em pane duas vezes antes da terceira, agora em companhia do próprio no sábado passado. Dois dias antes, respondeu, meio irritado, a um repórter que ele já tinha cumprido seu dever ao mandar publicar no Diário Oficial instruções para a retomada da normalidade. Em seguida, outra chuva provocou mais um apagão. Que lambança, hein?

Na sexta-feira, 20, o presidente Bolsonaro recebeu no Palácio do Planalto o corregedor-geral do Tribunal de Justiça do Rio (TJ/RJ), desembargador Bernardo Garcez. Este fugiu da imprensa escondendo-se atrás de uma pilastra, onde, imaginou, não seria visto. Como lembrou O Antagonista, Garcez integra o órgão especial que julgará denúncia do MP/RJ contra o senador sonso Flávio Bolsonaro, primogênito do capitão.

No sábado, 21, após ter acompanhado o fiasco de candidatos por ele apoiados, de forma criminosa, em lives gravadas em próprios públicos, o chefe do governo foi a Macapá a convite do presidente do Senado e do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre. Este perdeu, em 2014, a eleição para o governo do Amapá e conquistou, em 2018, vaga para o Senado, cuja presidência ocupou em fevereiro de 2019 em eleição fraudada, na qual de um total de 81 senadores 82 “votaram”.

Na viagem-relâmpago dos dois presidentes de Poderes, Bolsonaro e Alcolumbre, foi inaugurado, pasme a Nação, um gerador a óleo Diesel, que não encerrou o calvário do rodízio de eletricidade. Pois a providência que o contra-almirante Bento, também protagonista do ridículo atroz, mandou publicar dela não deu cabo. O povo do Amapá, que garantiu a sobrevida de José Sarney na política, quando o ex-presidente foi enxotado do Estado em que reinava, o Maranhão natal, na certa não terá muito a se orgulhar do fato de ter fornecido a tragédia pronta para definir o país inteiro. Como faz com  fúria contra a imunização da covid-19, o chefe do Executivo fez propaganda do irmão do comparsa do Centrão, que preside o Legislativo, sem a menor cerimônia. E este não se fez de rogado ao produzir a pérola que não é besta de jogar aos porcos: “o maior prejudicado com o apagão é meu irmão”. Outra rima que não é solução. Essa versão nortista das irmãs Cajazeiras da telenovela O Bem Amado, de Dias Gomes, inspira Bolsonaro a usar sem medo de ser feliz a retórica de Odorico Paraguaçu, de Sucupira.

Em homeagem à “banana, menina, tem vitamina, engorda e faz crescer”, esta não é a republiqueta de bananas, mas, sim, o principado das trevas, sob um príncipe que dispensa o cérebro para governar com o fígado azedo. O coitado do Amapá continua ao deus-dará, produzindo mais uma mísera rima, que não é solução de nada. E o Brasil todo idem ibidem.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, segunda-feira 23 de novembro de 2020)

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Nêumanne Entrevista Benedito Ruy Barbosa

Nêumanne Entrevista Benedito Ruy Barbosa

Autor revela bastidores de Pantanal

Benedito Rui Barbosa, que escreveu Pantanal, exibida na TV Manchete e reprisada a preço de banana pelo SBT, contou em edição extraordinária da série Nêumanne Entrevista por que, não sendo mais contratado da Vênus Platinada, aceitou escrever remake para a Globo quando a natureza daquele belo e devastado pelo fogo bioma do Brasil for restaurado pela ação natural das chuvas. Contou ainda que tinha planos para fazer uma novela sobre a Amazônia, tema de interesse mundial no planeta inteiro, mas desistiu pela impossibilidade de montar uma infra-estrutura similar à já existemte no Mato Grosso do Sul para voltar ao tema da ficção que correu o mundo contando a saga de Juma Marruá, Zé Leôncio e do Véio do Rio. Na entrevista exclusiva tevelou detalhes de uma novela que nunca escreveu, a de como um jornalista filho de dono de jornal no interior de São Paulo, ganhou o mundo nas telas da TV. Direto ao assunto. Inté. E só a verdade nos salvará. 

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Nêumanne entrevista Roberto Romano

Nêumanne entrevista Roberto Romano

O negro João Alberto Silveira Freitas, morto por um segurança e um PM de folga em Porto Alegre, prova que o civil Pedro Aleixo, vice de Costa e Silva na ditadura militar, estava certo quando previu que a violência autorizada pelo AI-5, recentemente louvado pelo filho 03 de Bolsonaro, Eduardo, chegaria ao guarda da esquina, disse o filósofo Roberto Romano. No vídeo desta semana da série Nêumanne Entrevista no YouTube, o professor aposentado de Filosofia e Ética da Unicamp disse ainda que até podemos esperar uma solução democrática para a crise em que o País está mergulhado, mas não dá para prognosticá-la para breve, por culpa da má qualidade dos controladores dos três Poderes da República. No fim da entrevista, ele indicou um livro para leitura neste momento: Consideraciones políticas sobre los golpes de Estado, de Gabriel Naudé, que foi secretário de Richelileu. Direto ao assunto. Inté. E só a verdade nos salvará.

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No Blog do Nêumanne: A força da velha política de hábito

No Blog do Nêumanne: A força da velha política de hábito

José Nêumanne

Do naufrágio de Bolsonaro e Lula nas eleições emergiram seculares e ancestrais oligarquias remoçadas e o aumento do custo do ansiolítico do Centrão de sempre na governabilidade dos espertos

Como em todo evento político brasileiro, o primeiro turno do pleito municipal trouxe motivos de sobra para a necessidade cada vez maior do combate à pós-verdade pelo esclarecimento criterioso de fatos e fakes.

FATO – É possível sempre argumentar que eleições restritas aos municípios não definem resultados posteriores da federal e das estaduais de dois anos depois. O exemplo mais recente desse aforismo pode ser encontrado na comparação entre 2016 e 2018. Há quatro anos o Partido dos Trabalhadores (PT) foi sepultado numa avalanche de votos de repulsa às gestões corruptas de petistas e asseclas pelo mensalão e pelo petrolão. No ano seguinte, a fênix barbuda, Luiz Inácio Lula da Silva, impôs seu poste Fernando Haddad no segundo turno, para tornar inevitável a vitória da direita de reses e robôs e impor o domínio do mau militar sobre civis inocentes. A apuração de agora impôs vexame maior ao maior líder da esquerda, transferindo a banda sinistra da disputa tradicional do segundo turno em São Paulo para o PSOL de Guilherme Boulos e Luíza Erundina, uma das primeiras vítimas da truculência sindical do chefão da organização criminosa. A maior vítima da dicotomia Covas x Boulos agora é o próprio patriarca, que desembarcou do inutilizado “Lula livre” para o atualizado “Xô, Lula”. A situação favorece o presidente Jair Bolsonaro, que fará o possível e o improvável para fazer do PT adversário preferencial em eventual segundo turno da eleição presidencial de 2022. Ou seja, agora é bolsalulismo ou ninguém. Ou melhor, ou nada.

FAKE –Bandeiras ridículas da direita indigesta da fraude eleitoral nas urnas venezuelanas, que levou seu “mito” que mente a denunciar sem provas fraude na disputa por ele vencida, o supremo do grotesco, e do voto impresso como condição de correção deverão ser guardadas no quarto de despejo da retórica. A tentativa mal-sucedida de blogueiros acusados de usarem fake news em inquérito adormecido em mesas do ministro Alexandre de Moraes e do Supremo Tribunal Federal (STF) – como Bernardo Küster  e Oswaldo Eustáquio – é prova cabal de que a direita minoritária é a maior suspeita de tentar fraudar essas eleições. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro do STF Luís Roberto Barroso, garantiu em entrevista exclusiva publicada extraordinariamente na série Nêumanne Entrevista, no YouTube, levada às redes domingo 15, dia da eleição, teve nela o maior aval. Da mesma forma, isso ocorreu com outra afirmação no mesmo vídeo de que disparos de WhatsApp e ações de reses e robôs do gabinete do ódio foram reduzidos em parceria com as redes sociais à insignificância na apuração da Justiça Eleitoral.

FATO – O aval da realidade à lisura dos resultados eleitorais neste pleito não isenta, contudo, a Justiça Eleitoral de seu pecado capital: ela continua inócua na repressão ao crime na eleição. Permitir que Jair Bolsonaro fizesse – como fez – campanha eleitoral em lives gravadas em palácio é um acinte que merece reproche a todos: do criminoso confesso, do juiz omisso e da oposição leniente. Não vale o argumento de que o eleitor lhe puxou a orelha na hora de votar. Dos 59 beneficiários do delito impune, só 9 foram eleitos. Dos 13 candidatos a prefeito de Bolsonaro, 2 foram eleitos, 2 passaram para o segundo turno e um terço permanece na disputa. No Estado de Direito, eleitor escolhe, não pune. Punição é assunto de polícia, Ministério Público e Poder Judiciário, que falharam gravemente no caso. O capitão de milícias jogou todas as suas fichas na votação do filho 02, Carlos, comandante do gabinete do ódio no Planalto, para a Câmara do Rio, base eleitoral e sede territorial da famiglia. Num eleitorado maior e mais exposto à mídia do sobrenome, ele teve 70 mil votos, 36 mil (34%) a menos do que em 2016, quando se contaram 106 mil. Perdeu o primeiro lugar para Tarcísio Motta, do PSOL, com 86.243. E conviverá com uma bancada de 7 “comunistas”, um a mais do que a meia dúzia de quatro anos atrás. Para completar o mal-estar, terá de esperar a próxima passagem do elevador do Palácio Tiradentes quando a viúva de Marielle Franco, Mônica Benício, eleita com 22.99 sufrágios, ocupar um lugar nele.

FAKE – Ressalvando a minoria lúcida, analistas profissionais, amadores ou interessados no resultado das urnas pisaram no tomate ao atribuírem à derrota do “bolsalulismo” o ímpeto nostálgico da experiência administrativa e da velha política e a renovação nos quadros dirigentes do Estado. Mas não houve renovação, estes foram apenas remoçados. João Campos e Marília Arraes, que disputam o segundo turno no Recife, não são apenas netos de Miguel Arraes, ícone da esquerda pré-golpe militar. São herdeiros da mais antiga oligarquia brasileira desde o Império, os Alencar do Cariri cearense. Bruno Covas é neto de Mário Covas, patriarca do PSDB. O fato de as linhagens da nobreza política terem chegado à segunda geração está longe de representar novos ares limpos e arejados no pedaço. Isso também vale para o caso da primeira capital do Brasil, São Salvador da Bahia, na qual o prefeito, neto e xará do cacique Antônio Carlos Magalhães, elegeu no primeiro turno Bruno Reis, que assumirá o bastão na passagem de poder no carlismo baiano.

FATO – Bruno Reis faz parte dos prefeitos que já garantiram seu lugar no poder municipal ao lado de dois correligionários do DEM de Rodrigo e César Maia, este também ungido pelo voto no domingo em que se celebraram 131 anos da insana República. Reforçando a força do Centrão para a barganha com Bolsonaro, Rafael Greca, de Curitiba, e Gean Loureiro, de Florianópolis. O custo da indiferença a 48 processos de impeachment na gaveta de Rodrigo Maia, o Botafogo do propinoduto da Odebrecht, certamente subirá mais do que o dólar norte-americano sob Joe Biden. Quem viver verá crescerem o “Xô, Lula” e o “Vai trabalhar, presidente”, título do editorial do Estadão de segunda-feira, 16, cuja leitura será a cada dia mais recomendável para ele e os brasileiros em geral.

*Jornalista, poeta e escritor

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