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No Blog: Nêumanne entrevista Arthur Antunes Coimbra, Zico

No Blog: Nêumanne entrevista  Arthur Antunes Coimbra, Zico

Americanos não ganham mais porque imitam europeus, diz Zico

 

Zico estranha que as seleções sul-americanas não vençam mais Copas do Mundo, de vez que os melhores jogadores dos maiores clubes europeus nascem em nosso subcontinente

 

“Temos perdido um pouco da identidade do nosso futebol sul-americano, do drible, do um contra um, da magia, da técnica, da qualidade, e estamos jogando somente o plano tático, no estilo europeu. O jogador sul-americano está indo muito cedo para a Europa e, em vez de treinar a individualidade, evoluir o lado de jogador, ele está mais preocupado com a questão técnica e tática.” Esse diagnóstico é feito por Zico, o maior ídolo da história do clube mais popular do Brasil, o Flamengo, o verdadeiro fundador do futebol no Japão, onde passou 15 anos e atuou como jogador no Kashima Antlers, além de ter sido técnico da seleção nacional e dirigente. Preparando-se para voltar ao Japão em agosto e assumir um cargo na direção do mesmo clube que o projetou no Oriente, ele jura amor eterno à sua cidade, o Rio de Janeiro, assegurando que nunca se vai mudar definitivamente de lá, por mais difícil que seja viver na antiga “cidade maravilhosa”.

Experiência internacional como jogador, técnico, auxiliar e dirigente autoriza análise de Zico sobre Copa de 2018. Foto: Karim Jaafar/Al-Watan, Doha/AFP

Experiência internacional como jogador, técnico, auxiliar e dirigente autoriza análise de Zico sobre Copa de 2018. Foto: Karim Jaafar/Al-Watan, Doha/AFP

Filho de pais portugueses, irmão mais novo de uma família de craques, na qual se destacou Edu, que também foi jogador e técnico, aos 65 anos Arthur Antunes Coimbra, o “galinho de Quintino”, como é conhecido pela torcida do Flamengo, com o qual se tornou campeão mundial de clubes em 1981, não se surpreende com a supremacia atual do futebol europeu. Ex-jogador de um time médio da Itália, a Udinese, Zico é de uma geração que se formou no próprio país, ao contrário de Lionel Messi, que nasceu na Argentina, mas vive na Espanha desde a infância, e de Vinicius Júnior, a última grande revelação de seu clube de coração e que acaba de se apresentar ao Real Madrid, desde que completou a maioridade. Comentarista de televisão do Esporte Interativo, ao lado de craques do passado como Rivelino e Leão, e também de um canal de YouTube, no qual interage com jovens, que não o viram jogar, o craque também reclama que “não se pode confundir democracia com bagunça e, infelizmente no Brasil estamos confundido democracia com bagunça, desordem”.

N – Quando o lateral direito inglês Trippier abriu o placar nas quartas de final contra a Croácia, que sensação o senhor viveu: saudade daquelas tardes de domingo no Maracanã nos anos 70 e 80; nostalgia da época em que o futebol mundial em geral e o brasileiro em particular tinham um elenco muito maior de batedores de faltas, entre os quais o senhor mesmo; ou uma queixa dos novos esquemas dos treinadores de ponta que privilegiam outras jogadas de bola parada, como as faltas longe da área e os escanteios, conforme ficou comprovado nesta Copa da Rússia?

– Não sou nada nostálgico, não fico pensando no que passou. Admiro o futebol atual. Em função do futebol jogado hoje, com fortes marcações e táticas de jogo, acho que os times deveriam ter sempre bons batedores de bola parada, porque isso resolve o jogo e o Brasil, a meu ver, está pecando muito nisso. Há bastante tempo não fazemos gol de falta e só temos praticamente o Neymar, que cobra bem faltas. Então, vejo com bons olhos uma falta bem cobrada daquela maneira pelo lateral da Inglaterra. Assim como faz o Cristiano Ronaldo. A bola parada depende muito do talento do cobrador, mas exige dele muito treino. Deus dá o dom de bater na bola, mas é preciso aprimorar isso. O batedor tem de se aplicar, tem de separar um tempo, principalmente depois dos treinos, para praticar bastante e poder ter um índice de aproveitamento maior.

Zico contra Maradona em jogo de setembro de 1981 entre o Flamengo e o Boca Júniors. Foto: Carlos Chicarino/AE

Zico contra Maradona em jogo de setembro de 1981 entre o Flamengo e o Boca Júniors. Foto: Carlos Chicarino/AE

N – O que a seleção da Bélgica tem de semelhante e de diferente de outras “gerações de ouro” que não ganharam Copas, como as da Argentina nos anos 40, quando não foi jogado o Mundial, do Brasil nas Copas de 1950 e 1982, da Hungria em 1954 e da Holanda em 1974 e 1978? Como representante da geração de 1982, de alguma forma o senhor sentiu algum tipo de afinidade com os flamengos da Europa, que este ano nem chegaram à final?

Z – A Copa do Mundo é um torneio diferente de um campeonato, em que dificilmente times com a qualidade da Bélgica desta Copa, de nossas seleções de 1986 e 1982, ou da Hungria de 1954 perderiam. A diferença é que na Copa do Mundo é mata-mata: quem joga mal um dia é eliminado. Então, admiro bastante o futebol desses times. Nesta Copa do Mundo me chamou a atenção o futebol da Croácia e da Bélgica. Não importa se ganharam ou não. Mesmo que fique para a história quem ganhou, é melhor se for possível ganhar jogando bem, como aconteceu conosco em 1970 e em 2002, com a Espanha em 2010 e  com a Alemanha em 2014. Jogar bem, ter um jogo ofensivo de jogadas bacanas, isso é bom futebol. Mas não quer dizer que sempre vá funcionar na Copa do Mundo, em que os jogos das oitavas de final em diante são eliminatórios.

Zico comemora seu gol pelo Brasil contra seu companheiro de Flamengo Fillol, goleiro da Argentina, na Copa da Espanha. Foto: Arquivo AE

Zico comemora seu gol pelo Brasil contra seu companheiro de Flamengo Fillol, goleiro da Argentina, na Copa da Espanha. Foto: Arquivo AE

N – O senhor pertenceu à última geração dos craques que se identificavam com as torcidas dos clubes onde surgiram e se consagraram. Hoje os grandes jogadores são nômades da bola, que percorrem a Terra e não guardam fidelidade com nenhum clube, até nem com o país. Em que essa nova realidade de globetrotters altera a relação entre o ídolo e a camisa?

Z – Não existe mais nem o ídolo só de um clube nem a identificação da seleção com os torcedores de clubes. Existe, sim, a torcida brasileira em Copas do Mundo. Mas não tenho dúvida de que, sem ídolos de seus clubes, os torcedores não são fiéis a uma seleção nem motivados: se a seleção ganhar, ganhou; se não ganhar, tudo bem. Os torcedores não ficam tão chateados. Se a seleção brasileira fosse formada, digamos, por cinco craques do Flamengo, três do Corinthians, quatro do Vasco, dois do Botafogo… Não é o caso de agora, pois o grupo é formado por jogadores de clubes estrangeiros, com os quais as torcidas nacionais não se identificam. Por isso não existe discussão da Copa do Mundo no dia seguinte ao dia em que o Brasil foi ou for eliminado.

N – Além de sua ligação com o Flamengo, o senhor tem também uma história de protagonismo no futebol japonês, onde encerrou sua carreira de jogador e atuou como treinador da seleção. O senhor sentiu alguma frustração ao ver o Japão e o Brasil serem eliminados pelo mesmo adversário, a Bélgica, e com a mesma jogada: um escanteio a favor e um contra-ataque fulminante que podia ser parado com uma falta tática, mas não o foi?

Z – Primeiramente, não sou favorável à falta tática. Ao contrário, sou totalmente contra. Na falta tática, quando o jogador para uma jogada sem a bola, deverá ser expulso imediatamente. Em vez de procurar a bola, o jogador vai parar a jogada. Isso não deveria ser estimulado, pois acontece que a bola é o essencial do jogo. A falta, para mim, é legítima quando se disputa uma bola e o adversário chega primeiro; sou totalmente contra o jogador já ir com a intenção de fazer a falta tática. É um absurdo. Quanto à derrota do Japão e do Brasil para a Bélgica, o mérito é do time belga. A derrota do Japão, tudo bem, pois os japoneses ainda são inexperientes e sofreram um contra-ataque no fim do jogo. O biotipo do japonês expõe o time a gols de cabeça quando enfrenta seleções mais altas. Eu mesmo sofri muito com isso lá no Japão. Mas o Brasil foi muito infantil naquele gol e na cobrança do escanteio. O time já tinha vivido a mesma situação contra a Suíça, em que havia sete brasileiros e um da Suíça sozinho fugiu da marcação para fazer o gol. Isso, a meu ver, é um erro para o futebol brasileiro, para esses jogadores todos que têm esse know-how, essa experiência. Um completo absurdo.

N – Como ex-jogador, ex-técnico, ex-dirigente e agora comentarista de televisão, o senhor viu alguma coisa na Copa da Rússia que possa considerar novidade tática a predominar doravante?

– Não, nenhuma. E lamento que a final não tenha sido Croácia x Bélgica, pelo bem do futebol, porque normalmente vence a Copa o time que fez prevalecer aquele futebol de 11 atrás. Por exemplo, estavam dizendo que o Girou não faria gol na Copa. Mas, claro, ele não pode fazer gol, pois o cara estava marcando no meio-campo; da linha da intermediária até chegar lá no gol, ele não aguentava mais mesmo. O mesmo aconteceu com o Gabriel Jesus. São 11 atrás da linha da bola, o cara vai lá e não chega ao gol. A única evolução que vi no futebol foi o árbitro de vídeo. Em grandes competições, isso pode evitar injustiças que já aconteceram em outras Copas: gols com a mão, bola que entrou,  essas coisas todas que não gosto de ver no futebol. Afinal, alguém trabalha quatro anos, luta para se classificar e, de repente, é eliminado numa jogada ilegal.

N – O futebol hoje é um negócio bilionário do ramo do entretenimento, mais do que uma modalidade esportiva. A seu ver, é isso que está tirando o continente americano da liderança das competições, o que começou com a predominância europeia nos mundiais de clubes, um dos quais o senhor conquistou pelo Flamengo em 1981, e agora se consagra de vez com a América fora dos jogos finais da Copa de 2018?

Z – É, mas não deveria ser, porque os jogados sul-americanos são os mais caros e estão nos melhores times do futebol europeu. Estão todos lá no Barcelona, no Real Madrid, no Bayern, nos times principais da Europa: na Espanha, na França, na Inglaterra. O que pode ser uma das razões é termos perdido um pouco da identidade do nosso futebol sul-americano, do drible, do um contra um, da magia, da técnica, da qualidade, e estamos jogando somente o plano tático, no estilo europeu. O jogador sul-americano está indo muito cedo para a Europa e, em vez de treinar a individualidade, evoluir o lado de jogador, ele está mais preocupado com a questão técnica e tática.

Zico foi campeão mundial de clubes pelo Flamengo de Raul, Leandro, Mozer, Marinho e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Foto: Carlos Chicarino/AE

Zico foi campeão mundial de clubes pelo Flamengo de Raul, Leandro, Mozer, Marinho e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Foto: Carlos Chicarino/AE

N – Os projetos bem-sucedidos da Alemanha em 2014 e da França, Inglaterra e Bélgica neste Mundial passam pelo envolvimento dos clubes, enquanto na América em geral e no Brasil em particular os clubes são os primos pobres e oprimidos de confederações milionárias. É possível resgatar as conquistas do passado sem mudar radicalmente essa realidade?

Z – É duro ter um futebol comandado por um cara que está preso, um que está banido, um que está foragido, um que foi eleito às escuras e um que está no comando sem se saber o que ele fez no futebol. Então, é lógico que não há autoridade para reunir um time e refletir a importância do futebol para a federação, para o País. Os clubes são coniventes com essa situação em que, como célula mater do futebol, estão sendo jogados às traças, aceitando uma administração que não lhes traz nenhum benefício e os obriga a vender os jogadores da base o mais rápido possível.

N – As entidades que dirigem o futebol no Brasil e na América do Sul e a própria Fifa não resistem a investigações sérias e competentes de corrupção. Sua retirada do ambiente do futebol tem algo que ver com isso? Essa triste realidade influi, na sua opinião, no afastamento de nossos clubes e da seleção do protagonismo nos torneios internacionais disputados hoje?

Z – Não me retirei do futebol. Eu continuo no futebol. Não estou treinando nenhum time nem dirigindo clube algum, mas tenho uma atividade intensa na internet e no canal de televisão Esporte Interativo. Não creio que essa realidade que você descreve influa, mas acho que ela, de fato, diminui o crédito. O problema é que esses investimentos não foram feitos nos clubes e em grandes campeonatos. O melhor campeonato do mundo, a Champions League, da Inglaterra, que é a grande referência, demonstra a importância dos investimentos, mas esse espírito não está presente na Libertadores e isso atrapalha o desenvolvimento do futebol sul-americano. Ainda temos aqui os resquícios do ganhar na marra, de modo ilícito, no jeitinho, enquanto lá fora os caras estão organizados, jogando um futebol limpo e realmente de melhor qualidade.

Zico e Sócrates, que jogaram juntos no Flamengo, atuaram pela seleção brasileira na Copa de 1986, no México. Foto Arquivo/AE

Zico e Sócrates, que jogaram juntos no Flamengo, atuaram pela seleção brasileira na Copa de 1986, no México. Foto Arquivo/AE

N – O Brasil vive talvez o pior momento da sua História, com uma crise ética, econômica, financeira, institucional e política sem precedentes. Mas o senhor não dá sinais de que pretenda deixar o País definitivamente, como muitas pessoas na sua condição já o fizeram. Neste ambiente de desemprego, descrédito e até desespero, o senhor enxerga alguma luz num ano de eleições gerais, que pelo menos confirmam nossa opção pela democracia?

Z – Acho que não se pode confundir, e acabamos confundindo, democracia com bagunça, desordem. Estamos desrespeitando o lema da nossa bandeira, “ordem e progresso”. Pedimos tanto a democracia, só que virou bagunça. A disciplina inteligente nunca imperou no nosso país, com os nossos deveres e as nossas obrigações. Estamos em desvantagem, porque acreditamos em certas pessoas ultimamente e elas acabaram nos decepcionando. Mas não podemos desistir, temos sempre de tentar trabalhar sem o pensamento de votar em troca de um benefício individual. Não. Vamos fazer uma limpeza, para não nos enganarmos mais e não termos de pagar um preço tão alto como nos últimos anos.

 

Com Sandra, namorada da adolescência em Quintino, mulher e mãe de seus filhos, acompanha Zico no carnaval de 2018. Foto: Marcos Arcoverde/Estadão Conteúdo

Com Sandra, namorada da adolescência em Quintino, mulher e mãe de seus filhos, acompanha Zico no carnaval de 2018. Foto: Marcos Arcoverde/Estadão Conteúdo

N – Quando o senhor anda hoje pelas ruas do Rio encara uma realidade muito diferente da que viveu nos seus tempos no subúrbio de Quintino e mesmo nos anos de glória de sua carreira de ídolo do clube de maior torcida da cidade e do País. Como carioca, como o senhor convive com a tragédia de sua cidade, que foi maravilhosa e hoje está longe de poder ser considerada sequer um lugar aprazível para viver e criar a família?

Z – Amo muito esta cidade. Então, procuro, dentro da minha área, dar o meu melhor. O momento realmente é difícil, mas temos de ser otimistas e acreditar que isso pode mudar, para que a gente possa ter um Rio para os nossos netos mais agradável, mais tranquilo, menos violento, menos propineiro, menos vergonhoso para nós. Em algumas áreas temos coisas importantes e, em outras, decepcionantes. Não vou me mudar do Rio por nada, vivo muito bem aqui com o fruto do meu trabalho, do meu suor, do meu esforço. E vou tentando, nos limites do que posso fazer, ajudar o meu Estado.

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/americanos-nao-ganham-mais-porque-so-imitam-europeus-diz-zico/

Ouça a entrevista com Zico. Clique no link abaixo:
https://soundcloud.com/jose-neumanne-pinto/zico

 

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No Blog: Nêumanne entrevista Elena Landau

No Blog: Nêumanne entrevista Elena Landau

Para Elena Landau, como instituições não funcionam, é hora de refundar o Estado, convencendo pessoas a desistirem de milagreiros e soluções fáceis e erradas

“O Estado brasileiro não precisa apenas ser reformado, mas refundado”, pontua a economista e advogada tucana carioca Elena Landau, entrevistada do Blog do Nêumanne esta semana. Decepcionada com o desempenho da seleção brasileira na Copa da Rússia, a botafoguense e defensora de Neymar Jr. não é pessimista quanto à continuação da discussão da pauta reformista, apesar da desistência da reforma da Previdência. Temerosa pelo futuro da economia, da democracia, do filho e do neto, ela constata que “as instituições não estão funcionando. Governo fraco, Congresso apenas tentando sobreviver, STF rachado, dando péssimo exemplo”. Tudo a leva a crer que “veremos de novo anos perdidos e um encontro com o destino populista autoritário. Na América Latina temos o exemplo do Chile, mas parece que o Brasil escolheu ser Bolívia… ou Venezuela.” Neste ano eleitoral, porém, enxerga uma luz no fim do túnel: “A luz que falta é as pessoas pararem de buscar milagreiros e soluções – supostamente — fáceis”.

Para Elena, as pessoas precisam ser convencidas a deixarem de esperar milagreiros e soluções fáceis

Para Elena, as pessoas precisam ser convencidas a deixarem de esperar milagreiros e soluções fáceis

Elena Landau é economista e advogada formada em ambos os cursos pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde também recebeu o título de mestre em Economia. Foi professora do Departamento de Economia da PUC-RJ e da Faculdade de Direito da FGV-RJ, assessora econômica da presidência do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), diretora do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e consultora e diretora jurídica da Associação Brasileira das Concessionárias de Energia Elétrica (ABCE). Foi ainda conselheira da Vale, da Cemig e da AES e presidente do Conselho da Eletrobrás. Organizadora e autora dos Tomos I e II do livro Regulação Jurídica do Setor Elétrico, autora de diversos artigos nas áreas do Direito e da Economia, com destaque para os temas da privatização, energia elétrica e organização do futebol no Brasil. Atualmente é sócia do escritório de advocacia Sérgio Bermudes, membro do Conselho Consultivo da Comgás e presidente do Conselho Acadêmico do Livres. Escreve um artigo quinzenal no Caderno de Economia do jornal O Estado de S. Paulo.

Elena em palestra na New York University

Elena em palestra na New York University

A seguir, Nêumanne entrevista Elena Landau:

Nêumanne – No início da Copa, enquanto no paredão das redes sociais se atirava em nosso único supercraque, Neymar Jr., mesmo caído, a senhora foi uma rara voz nos meios de comunicação a defendê-lo, numa atitude, mais que generosa lúcida, de vez que importavam duas conquistas: a Copa e o título de melhor jogador do mundo para um brasileiro. A reversão dessas expectativas a surpreendeu, decepcionou ou frustrou? A senhora, como muitos outros, exigia do jogador que se submetesse humilde e democraticamente a perguntas de repórteres na zona mista do estádio em Kazan, em vez de se recusar a isso?

Elena – Fiquei muito impressionada com o que fizeram nas mídias e redes sociais com Neymar. Chocou-me ainda mais o bullying dos próprios brasileiros. A quem interessa isso, a não ser aos próprios adversários? Não sei se foi complexo de vira-lata, incômodo com o sucesso dele, inveja mesmo. Mas foi um assédio virtual inaceitável. Ele é um jogador excepcional. Veio de uma lesão grave e se dedicou à recuperação para a Copa. Foi caçado em campo no primeiro jogo, o juiz não coibiu a deslealdade. Ele se defendeu do jeito que pôde.  Exagera? Quem nunca catimbou em campo? Qual seleção não fez isso? Um falso moralismo sufocando e ignorando o talento. Só quem perdeu foi a seleção brasileira. Mas, ainda assim, ele foi de longe o melhor jogador da equipe, todas as estatísticas mostram isso. Melhor jogador da Copa não virá porque fomos eliminados. Mas seria uma competição difícil: Modric, Griezmann, Hazard. Mbappé, tantos nomes incríveis. Esta Copa mostrou grandes jogadores. Continuo achando nosso elenco o melhor. Não acho que tenhamos jogado mal contra a Bélgica, mas não era nosso dia. A mídia arrasou com Neymar porque ele deveria dar entrevistas num dia tão difícil para ele? Para cobrarem dele os absurdos que falaram dele ao longo dos jogos? Ou para pedirem desculpas? Teve jornalista dizendo que ele precisava de tratamento psiquiátrico. O que vimos em todos os jogos foram jogadores emocionados, vários choraram. E por que só Neymar errou ao chorar? Para a imprensa, o choro dos outros era diferente. As faltas nos outros eram faltas de verdade, as nele, não. Nem depois de um pisão desleal que ele recebeu o agressor levou cartão. Vimos simulações patéticas da seleção inglesa e foram exatamente Cantona e Lineker que liderarem as críticas ao Neymar. Não sei o que faria no lugar dele.

 

Elena discorda dos críticos do desempenho de Neymar na Copa da Rússia

Elena discorda dos críticos do desempenho de Neymar na Copa da Rússia

N – A senhora acha que a conquista, que não houve, da taça produziria um efeito positivo que superaria a própria festa da vitória, mexendo no ânimo dos cidadãos humilhados pelo desemprego em massa, angustiados com a falta de perspectivas pessoais e coletivas e indignados com o comportamento dos figurões do Estado brasileiro na gestão pública?

E – Nunca misturei política, economia e futebol na vida. Não vou começar agora. Foi assim no regime militar quando o tri foi comemorado, apesar da ditadura. A Copa está dando um show. Torcidas, globalização, jogos incríveis. Nem a nossa economia nem a crise política receberiam impacto nenhum do hexa. Claro que serve para memes e piadas. Campeões em 1994 e 2002, com FHC, derrota de 7 a 1 com Dilma. E mesmo com o maior vexame da história da nossa seleção Dilma foi reeleita.

Com Newton Santos e Didi, do Botafogo, este melhor jogador de nossa primeira Copa, em 1958

Com Newton Santos e Didi, do Botafogo, este melhor jogador de nossa primeira Copa, em 1958

N – A senhora, como muitos patrícios de boa vontade, esperava que a boa escolha da equipe econômica pelo substituto da presidente deposta, que, sem dúvida, foi alvissareira, seria capaz de por si só afastar de vez o fantasma assustador da crise, que ainda paira sobre nós?

E – Nunca confiei muito no MDB. O fisiologismo lá faz parte do DNA. Acho que nunca votei no partido. Mas a equipe econômica fez e faz diferença. Este governo interrompeu a recessão profunda herdada de Dilma. A expectativa de retomada de crescimento e emprego não se consolidou, mas estamos muitas vezes melhor que antes. Fui contra o impeachment e continua achando um erro, não pelos argumentos de golpe, porque não foi, mas porque interrompemos uma curva de aprendizado do eleitor, que ainda não entendeu que o lulopetismo é receita certa para fracasso econômico e nada além do velho populismo latino-americano. Muitas reformas avançaram, como TLP, a trabalhista, outras mudanças micro, a discussão sobre Previdência, alterações na governança das estatais. E a equipe não se resume aos seus ex-ministros, pois ambos saíram e a equipe, com Guardia e Esteves, continua sendo uma ilha de sanidade no sanatório geral.

N – A contaminação pelo micróbio da corrupção, que tornou o presidente Michel Temer refém da quadrilha do partido que presidia e lidera, adiou para quando o necessário esforço de reconstrução do Estado brasileiro, a partir de providências irreversíveis como, só para falar de uma, a reforma da Previdência?

E – Se o áudio do Joesley tivesse sido divulgado uns dias depois, a reforma da Previdência teria passado no Congresso. Acho que Temer deveria ter usado seu cacife político para votá-la antes ou junto com a PEC do teto. Depois perdeu a credibilidade e agora só pensa na própria sobrevivência. É refém do Congresso, que decide a pauta conforme os próprios interesses, em geral elevando gastos, e do Judiciário. A crise institucional é evidente. Mas não acho que tudo se tenha perdido, a importância da reforma da Previdência está posta, a intolerância com privilégios também. Outros temas virão: estabilidade do funcionalismo, melhor gestão das políticas públicas, privatização.  O Estado brasileiro não precisa apenas ser reformado, mas refundado.

N – Os efeitos benéficos do limite dos gastos públicos e da reforma trabalhista, o que se salvou, mas ainda assim corre riscos, do esforço da equipe econômica para tirar o Brasil do buraco, ainda têm condições de ser mantidos e tornar possível a retomada das reformas que faltam? Aliás, quais são, a seu ver, as prioritárias?

E – Este ano estamos só cuidando de sobreviver. Estou acompanhando a privatização das distribuidoras da Eletrobrás. Espero que o futuro presidente ponha as reformas para andar. Infelizmente, quem está liderando as pesquisas fala de reformas só no conceito, não nos detalhes, e assim não vejo como vão criar ajuste fiscal. Tanto Ciro como Bolsonaro, se mantiverem o que estão falando até agora, vão piorar a crise fiscal, porque têm visão errado sobre Previdência e a forma de cumprir o teto. As reformas prioritárias, para mim, são as do Estado (gestão, funcionalismo e privatização) e o choque na educação.

N – Fala-se muito em crise de falta de legitimidade de Michel Temer e, por isso mesmo, espera-se, talvez de forma exagerada, que o presidente que vier a ser eleito em outubro, portanto, daqui a três meses. Mas terá ele, ou não, autoridade e força política para impor um programa reformista, mesmo que a renovação do Congresso não nos livre da sabotagem das medidas necessárias pelos políticos privilegiados e suspeitos de corrupção?

E – Ele não terá opção. Ou faz as reformas ou vamos para inflação ou controle de dívida, novo nome para calote. Não há milagre fora das reformas. Previdência, abertura comercial, simplificação e transparência tributária, desonerações, melhoria da gestão pública… E todo presidente começa seu mandato com credibilidade. Tem de ter experiência política e veia democrática para fazer as reformas. Na base do grito, como querem alguns, não passa nada.

N – Até agora não se revelou na campanha presidencial nenhum candidato que tenha assumido, como deveria, o papel de condutor da opinião pública para livrar a sociedade brasileira da marcha do rebanho de ovelhas rumo ao abismo inevitável. A senhora confia que ainda possa aparecer alguém que empolgue os mais de 40% dos eleitores sem candidato consultados pelos institutos de opinião com o discurso de “sangue, suor e lágrimas” de Churchill, que levou o mundo à vitória contra o Eixo nazi-fascista?

E – Não vejo. O melhores nomes, começando pelo meu favorito, Alckmin, não têm esse perfil. Nem Marina. Ao que parece, ninguém quer sangue nem lágrimas, muito menos suor, na construção de solução duradoura. Os líderes na pesquisa são os que estão propondo soluções fáceis, e erradas.

N – Em sua estreia na coluna quinzenal no caderno de Economia do Estadão, a senhora escreveu um artigo sereno, mas demolidor, contra a atitude do ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski, que agiu como líder do sindicato dos privilegiados que levam o País à bancarrota, argumentando com dados jurídicos de grande precisão. O que fazer para levar a cúpula do Poder Judiciário a servir ao cidadão nas lutas contra a corrupção e as benesses dos mandriões do serviço público, e não a funcionar como roleta-russa para a sociedade, como o fez até agora?

E – As instituições não estão funcionando. Governo fraco, Congresso apenas tentando sobreviver, STF rachado, dando péssimo exemplo. Ativismo jurídico, seja para que lado for, é o primeiro dos vícios recentes a serem consertados. O número exagerado de decisões monocráticas dificulta que se firme jurisprudência. Votos vencidos são usados para justificar decisões, ignorando-se posição do colegiado. Um individualismo excessivo, e não um tribunal. Além de bate-boca na frente das câmeras. Tudo isso contaminou instâncias inferiores, como se viu nessa escandalosa manobra recente do habeas corpus pedido no plantão do TRF-4. Difícil será a população entender por que não se aplica o que diz a Lei da Ficha Limpa de forma clara. Por que há fichas-sujas governando com base em liminares? Por que 78 recursos não são suficientes para se esgotar uma questão? Espero que um governo eleito, de perfil democrático, é obvio, consiga liderar um processo de fortalecimento institucional, como fez FHC.

O lado viajante de Elena em Petra, a cidade de pedra na Jordânia

O lado viajante de Elena em Petra, a cidade de pedra na Jordânia

N – A senhora teme pelo destino da economia ou pelo futuro da democracia no caso de vitória da direita neomilitarista truculenta ou da demagogia populista e larápia, que apresentam candidatos que têm mais preferência dos votos nas pesquisas até agora conhecidas?

E – Temo por tudo, economia, democracia, pelo futuro do meu filho, do meu neto. Veremos de novo anos perdidos e um encontro com o destino populista autoritário. Na América Latina temos o exemplo do Chile, mas com essas opções que você cita parece que escolheu ser Bolívia… ou Venezuela.

N – A seu ver, pode surgir ainda este ano uma luz que ilumine e guie no fim do túnel, mas que não seja sarça ardente nem farol do trem descarrilado que se precipita rumo ao abismo?

E – Estou muito pessimista. Os candidatos estão aí. Na minha opinião, o melhor deles é Alckmin. Tem experiência, sabe negociar com parlamentares, é ótimo administrador, tem o melhor resultado na segurança pública do País. O dele é o melhor assessor econômico de todos. E é um democrata. A luz que falta é as pessoas pararem de buscar milagreiros e soluções – supostamente – fáceis.

 

Nêumanne entrevista Elena Landau. 13ª. Edição da Série 10 Perguntas. http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne

Nêumanne entrevista Elena Landau. 13ª. Edição da Série 10 Perguntas. http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne

No Blog: Nêumanne entrevista Afonsinho

No Blog: Nêumanne entrevista Afonsinho

Ícone do passe livre, Afonsinho prega mais força para os clubes

Para “prezado amigo” de Gil, supremacia do futebol brasileiro depende hoje de fortalecimento dos times e de opções de educação e profissões para talentos

Com a autoridade de quem simbolizou o movimento que libertou os craques de futebol da escravidão do passe, que os prendia aos clubes, Afonso Celso Garcia Reis, o meia Afonsinho, do Botafogo do Rio dos tempos de Nilton Santos, Garrincha e Didi, acha que esta é a hora de valorizar esses clubes. Em entrevista ao Blog do Nêumanne, o personagem de Gilberto Gil, invocado no samba Meio de Campo — “Prezado amigo Afonsinho, eu continuo aqui mesmo, aperfeiçoando o imperfeito” –, enxerga no eventual fortalecimento deles o necessário contrapeso para os “empresários”. Estes, segundo o craque, “hoje grupos fortíssimos, intermediários, ganham o protagonismo, porque a ‘cartolagem’ usa o clube como balcão de feira, o torcedor (suporter) é apenas consumidor, não tem peso político, apenas pode fazer arruaça e violência quando o time perde”. Para ele, “as arenas e a multiplicação exagerada de canais de esporte são consequências dessa explosão financeira descontrolada pela sociedade.”

Afonsinho nasceu em São Paulo em 1947. Meia-armador de estilo elegante, foi descoberto no XV de Novembro de Jaú em 1962 e tornou-se conhecido nacionalmente como jogador do Botafogo do Rio, que o contratou em 1965, tendo sido várias vezes campeão e capitão na conquista da Taça Brasil de 1968. Em 1970, no auge de sua forma, foi emprestado para um time de subúrbio, o Olaria, à época treinado pelo supercraque Jair da Rosa Pinto, como punição por ter-se recusado a aparar os cabelos compridos e a barba. Voltou ao alvinegro da Rua General Severiano, mas encostado, e então ficou nacionalmente conhecido por sua luta contra o sistema escravagista de trabalho dos jogadores presos aos clubes nos quais jogavam pelo passe. Foi o primeiro jogador profissional a ganhar passe livre, em decisão do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), em 1971. Somente 27 anos depois, em 1998, a Lei n.º 9615 deu liberdade ao jogador para trabalhar onde quiser, no Brasil. Afonsinho jogou ainda nos times de Fluminense, Flamengo, Vasco, Santos (com Pelé), América de Minas e Madureira. E foi tema da canção Meio de Campo, de Gilberto Gil, dos filmes Passe Livre, de Osvaldo Caldeira, e Barba, Cabelo & Bigode, de Paulo Branco (com seus amigos Paulo Cézar Lima e Nei Conceição), e dos livros Prezado Amigo Afonsinho, de Kleber Mazziero de Souza, e Afonsinho e Edmundo – A Rebeldia no Futebol Brasileiro, de José Paulo Florenzano. Mora em Paquetá com a mulher, Regina, e é médico aposentado da saúde pública.

Nêumanne entrevista Afonsinho

Após deixar o futebol, Afonsinho trabalhou como médico na saúde pública na Ilha de Paquetá, onde, aposentado, hoje mora. Foto (2001): Otavio Magalhães/AE

Após deixar o futebol, Afonsinho trabalhou como médico na saúde pública na Ilha de Paquetá, onde, aposentado, hoje mora. Foto (2001): Otavio Magalhães/AE

Nêumanne – O senhor tornou-se conhecido no Brasil inteiro por sua luta pelo passe livre dos jogadores de futebol, numa época em que a carreira do futebolista se assemelhava ao trabalho escravo. De lá para cá, a Lei Pelé e a Lei Zico mudaram radicalmente esse panorama. A seu ver, essas leis modificaram as relações de trabalho entre clubes e craques para melhor?

Afonsinho – As leis que vigoram no esporte, atualmente chamadas de modo geral de Lei Pelé, mudaram muito pouco para o esporte em geral, sabemos que no Congresso Nacional existem as ditas bancadas do boi, da bala e da bola e o quanto todas são daninhas para a vida no Brasil. As proposições dos projetos do Pelé, Zico e várias outros que os precederam e lhes sucederam vão sendo “depenadas” à medida que passam pelas Casas Legislativas, de modo semelhante a outras de interesse popular. Cada ministro que entra anuncia para breve um Plano Brasileiro de Esportes, mas como é o patinho feio da política vai servindo apenas de moeda de troca. Em relação aos jogadores, mesmo assim mudaram, e muito, para melhor, embora de forma desequilibrada com setores correlatos que se mantêm amarrados (federações, etc.)

N – As novas legislações a que me referi puseram fim à época em que os ídolos dos clubes conquistavam a paixão das torcidas ao longo de muitas temporadas. Dida e Zico no Flamengo, Ademir de Menezes e Roberto Dinamite no Vasco, Garrincha e Quarentinha no seu Botafogo, Castilho e Carlos Alberto no Fluminense, Luisinho e Baltazar no Corinthians, Dudu e Ademir da Guia no Palmeiras, Pelé e Coutinho no Santos. São vários os exemplos. A constante mudança de camisas permitida pelas novas regras do mercado do futebol interferiu na devoção de seus ídolos pelas torcidas?

A – Mudou, sim, e para pior, a ligação dos torcedores com seus “ídolos”, de modo coerente com o funcionamento da sociedade brasileira, seguindo o exemplo clássico da abolição da escravatura negra. Quando o “passe” foi extinto na Europa, depois do processo Bosman, jogador belga que teve situação semelhante à minha algum tempo depois, foi imediatamente substituído pela “multa contratual”. Os clubes passaram a fazer contratos de cinco ou seis anos, de modo a proteger os investimentos feitos nas transferências entre eles. Os jogadores tornaram-se profissionais de fato, garantidos por contratos mais longos e tudo seguiu em frente. No Brasil, ainda hoje, vivemos na “falsa malandragem” de contratos curtos, até de seis meses ou menos (não sendo cumpridos), e vemos divulgados de boca cheia campeonatos de séries A,B,C,D (de profissionais?).

Os clubes que constituem a base larga de sustentação da grandeza do esporte brasileiro vão morrendo à míngua, sem calendário e com custos elevados. Os jogadores “formados” saem logo cedo dos clubes, não firmam uma identidade com os torcedores; fica rompido o elo mais forte que sustenta a paixão simbolizada pelas cores do seu clube; por sua vez, o torcedor é sempre o que move o esporte; independentemente de sistema político e econômico, o clube deve ser sempre a parte mais valorizada.

Afonsinho chegou a atuar no Santos ao lado de Pelé (na foto contra o Palmeiras no Pacaembu, em 1972) . Foto: Domício Pinheiro/JT

Afonsinho chegou a atuar no Santos ao lado de Pelé (na foto contra o Palmeiras no Pacaembu, em 1972) . Foto: Domício Pinheiro/JT

N – De certa forma, sua luta nos anos 60 e 70 do século passado foi visionária, porque de lá para cá o futebol deixou de ser romântico para se tornar o maior espetáculo da Terra, pela frequência dos espetáculos (os jogos e a variedade dos campeonatos) e pelas imensas audiências das transmissões pela televisão, o veículo mais importante de entretenimento e informação de nossa época. Como o senhor acompanhou e encara essa mudança?

A – Tenho pensado muito nesse fato de o futebol se ter tornado um dos grandes negócios da sociedade atual e a Copa praticamente parar o mundo por um mês a cada quatro anos. De cara vem o lado favorável, um fôlego na rigidez da vida cotidiana, um carnaval fora de época. A TV, responsável por essa explosão, está na cabeça do fenômeno, que vem sendo seguido por outros meios de comunicação (mídia) e outros formatos. Vamos ver como vai ficar daqui pra frente. Vejo as mudanças como o processo natural de evolução e, como sempre, o que pega é a distribuição de tudo o que isso produz.

N – A transformação do esporte em geral – e do futebol em particular – em imbatível campeão de audiência gera fortunas tanto para os executivos do negócio quanto para os intermediários (os empresários dos jogadores, hoje os verdadeiros donos de seus passes) e, é claro, as estrelas do show. O senhor sente saudade dos velhos tempos dos estádios ou uma pontinha de inveja dos milionários da bola nesta era das arenas e dos canais de esporte?

A – A todo momento sou instigado pelas pessoas com o raciocínio de não estar metido na Babel em que se transformou a atividade esportiva destes nossos dias. Não me impressiono nem um pouco: minha geração ganhou mais do que as que a antecederam, mesmo as de 58 e 62, que foram as melhores, no meu entendimento, saíram da derrota de 1950, foram bicampeãs e ainda produziram a geração de 1970, da qual fiz parte. Depois disso, foram 24 anos de jejum do período ditatorial. Insisto em dizer que o “clube” deve sempre ser a parte mais valorizada e os “empresários”, hoje grupos fortíssimos, são intermediários, ganham o protagonismo, porque a “cartolagem” usa o clube como balcão de feira, o torcedor (suporter) é apenas consumidor, não tem peso político, apenas pode fazer arruaça e violência quando o time perde. As arenas e a multiplicação exagerada de canais de esporte são consequências dessa explosão financeira descontrolada pela sociedade. Sinto muitas saudades da camaradagem entre os amigos, com os quais não posso conviver por diferentes razões e que são o tesouro maior que amealhei como esportista profissional: ter me tornado amigo do Zizinho, Didi e Nilton Santos, apenas como exemplo para não cometer injustiças com tantos parceiros queridos, é minha fortuna.

Médico aposentado da saúde pública, Afonsinho mora na ilha de Paquetá e guarda fichas dele no SNI. Foto (de 2014): Marcos de Paula/Estadão

Médico aposentado da saúde pública, Afonsinho mora na ilha de Paquetá e guarda fichas dele no SNI. Foto (de 2014): Marcos de Paula/Estadão

N – Desde os tempos do amadorismo marrom, a gestão do futebol já não era um exemplo de honestidade, limpeza e ética. Hoje, mais ainda, com os volumes de dinheiro em jogo, a corrupção é um componente importante em clubes, federações e confederações. Isso se reflete na organização dos torneios esportivos, eivados de suspeitas. Exemplo agora são as investigações policiais na Fifa, na CBF e em outras entidades. Esse aspecto o preocupa? O senhor tem alguma sugestão para combater esse mal?

A – O sistema Fifa tem natureza medieval, estruturada no esquema liga, federação, confederação de poder legado a familiares ou próximos, que apenas se adapta quando é molestado, como agora, nessas crises da CBF e do sistema como um todo. Consegue ser pré-capitalista, é muito atraso.

N – A circulação de fortunas, incomparável com o que acontecia antes, promove também uma distorção de natureza econômica, com os países de economia forte impondo suas regras aos mais pobres. A ida precoce de Vinicius Jr., do Flamengo, Rodrygo, do Santos, e Paulinho, do Vasco, para a Europa, e hoje também para o Oriente próximo e distante, é o exemplo extremo da exportação de craques. Hoje, na condição de ex-jogador e torcedor, o senhor lamenta a abissal diferença entre os campeonatos do Primeiro Mundo e os nossos, com nossos clubes fracos e as seleções ainda fortes?

A – Justamente isso, a contradição aviltante destes nossos dias, ao mesmo tempo que a pessoa com um celular à mão pode resolver tudo o que for necessário para assistir amanhã à final da Copa em Moscou, vemos o horror das correntes migratórias. Os jovens saem dos clubes sem dar sua contribuição ao futebol brasileiro. Exemplo disso foi a transferência oficial de um clube de empresário, como foi o caso do zagueiro Thiago Silva, que foi capitão num dos jogos da seleção brasileira na Copa da Rússia: ele saiu do Fluminense para o PSG da França, mas o vínculo era da Tombense. Pior ainda que, ao se fazerem as contas, os jogadores estão fatiados entre “investidores” e  o clube fica de mãos abanando. Penso que, em pouco tempo, deve haver alguma alteração. Como, por exemplo, o jogador que estiver vinculado a uma determinada federação por algum tempo (de três a cinco anos, talvez) poderá jogar pelo respectivo país automaticamente. Messi é o exemplo mais gritante: um dia é o melhor do mundo. no dia seguinte não joga nada (???!!!). Absurdo!

Com cabelos e barbas longas, Afonsinho foi símbolo da rebeldia no futebol brasileiro dos anos 60 em diante. Foto: Arquivo/AE

Com cabelos e barbas longas, Afonsinho foi símbolo da rebeldia no futebol brasileiro dos anos 60 em diante. Foto: Arquivo/AE

N – Em plena Copa do Mundo na Rússia, com o Brasil vivendo a pior crise moral, social, política e econômica da História, nos vemos diante daquelas velhas reclamações contra o fanatismo pela seleção, visto como alienação política, apontada como a maior culpada pela degradante situação de nosso povo e pela amoralidade explícita de nossa elite política dirigente. Mas essas queixas têm razão de ser?

A – Definitivamente. o esporte não é o ópio do povo. A política é a razão que está ao fundo de tudo, mas é apenas um momento da vida em sociedade. E de que a elite brasileira é perversa estamos tendo mais uma demonstração inequívoca…

N – O que o senhor viu até agora na Copa que está sendo jogada na Rússia é suficiente para animá-lo em relação à melhora da qualidade do jogo, à limpeza na condução administrativa do negócio do futebol e às perspectivas dos jovens craques que ainda se formam nos campos de pelada do Brasil?

A – Infelizmente, não! Mesmo quando a Copa já tiver 64 participantes, como se anuncia, ainda é muito pequeno o número de jovens que passam pelo funil estreito. Como sugestão, penso que deveria haver um equilíbrio entre o que se exige dos jovens, o que o esporte toma de seu tempo e o que os clubes oferecem de garantia para seu futuro. O caso é o seguinte: em qualquer rincão do País os clubes veem e ouvem na TV e no rádio que houve treino em tempo integral, musculação, regeneração e não sei o que mais, que outra atividade, e procuram fazer a mesma coisa, ocupando sem contrapartida o tempo de formação profissional e humana do jovem. E o que fará depois, se ele não se tornar jogador profissional e tiver outras obrigações, familiares, por exemplo?

N – Como médico, o senhor tem a oportunidade rara entre os membros da classe média do Brasil de conviver com as carências absurdas e desumanas em que vive nossa população mais pobre. O que mais o comove e o indigna em seu contato permanente com a realidade dura de seus clientes?

A – Aposentei-me recentemente como médico de Saúde da Família, estando bem próximo do dia a dia das situações mais agudas da maioria da população brasileira, apenas uma confirmação de que a questão é política, de injustiça social profunda.

N – Cresce no Brasil uma sensação geral de impotência, desconfiança, falta de credibilidade e até desespero em relação a nossas perspectivas, agora que estamos a quatro meses de eleições gerais. Quais são as suas expectativas quanto ao pleito e também à capacidade da sociedade de virar o jogo e melhorar nossas condições de vida?

A – As eleições, se houver, serão apenas mais um momento na dinâmica da população relegada à luta pela sobrevivência, calejada, outra vez diante do sufoco obrigada a seguir procurando a saída. Um abraço!

(Publicada no Blog do Nêumanne na quarta-feira 4 de julho de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Politica, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/icone-do-passe-livre-afonsinho-prega-mais-forca-para-os-clubes/

Nêumanne entrevista Afonso Celso Garcia Reis, Afonsinho. 12ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista Afonso Celso Garcia Reis, Afonsinho. 12ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

No Blog: Nêumanne entrevista Aninha Franco

No Blog: Nêumanne entrevista Aninha Franco

Solitária opositora de ACM e do PT, Aninha Franco, agitadora cultural em Salvador, vê luz no fim do túnel na sociedade “indignada, assustada, espoliada”

“Somos ex-colônia há pouco tempo, pois considero o Império um prolongamento colonial. Há 130 anos, humanos escravizados percorriam essas ruas do Pelourinho onde o Olodum percussiona e a República resiste ao populismo. Nossas Repúblicas Velha, Nova, Novíssima ainda não fizeram nada para humanizar esse passado”, dispara a poeta, dramaturga e, sobretudo, agitadora cultural que administra um espaço de prosa, poesia e gastronomia, a República Af, no Pelourinho, centro de sua cidade natal, Salvador, capital da Bahia de todos os santos. Militante petista à época do mando de Antônio Carlos Magalhães, hoje ela é pólo da oposição ao PT do novo patriarca, Jaques Wagner, o Jaquinho, favorito na disputa pelo Senado em outubro. No meio do atual conflito entre mortadelas e coxinhas, ela afirma, sem titubear: “Por experiência, devo dizer que ACM foi um opositor muito mais gentil que Jaques Wagner”. E quem quiser que negue.

Aninha Franco, nascida em 1951 em Salvador, naBahia, é leitora voraz e exigente, escritora de publicações homeopáticas. Hedonista. Assentadora de espaços culturais muito frequentados, o Bleff e o Espaço Bleff nos anos 1980, o Theatro XVIII nos Anos 1990 e 2000, a República Af nos anos 2010. Poeta até os anos 1990, historiadora cultural quando necessário, dramaturga sempre que necessário. Colunista, gourmet e bibliófila sempre. Atualmente, acompanha a edição de Anotações sobre o Fim doSéculo na Cidade da Baía, projeto que ganhou a Bolsa Vitae em 2004, com publicação prevista para este ano. E organiza os 14 mil títulos da República, sua cozinha e sua sala de degustações (Sala Ita) “para receber pessoas de bom gosto.”

Nêumanne entrevista Aninha Franco

Em sua República Af, em pleno Pelourinho, Aninha atua em política, poesia, teatro e cultura, especialmente a afro. Foto: Acervo pessoal

Em sua República Af, em pleno Pelourinho, Aninha atua em política, poesia, teatro e cultura, especialmente a afro. Foto: Acervo pessoal

JNP – Nós dois somos da geração em que a produção de arte e cultura era irmã gêmea da liberdade, da criatividade e também da irreverência e da rebeldia. O que está acontecendo no Brasil, que, nestes últimos anos, os artistas, pendurados em verbas do Ministério da Captura passaram a se submeter a partidos e políticos, numa devoção mais religiosa do que leiga?

AF – Sobreviver de arte sempre foi difícil no Brasil, país que surgiu de um entreposto colonial pra enriquecer a Europa. Durante séculos os artistas foram invisíveis e não serviam pra nada. Depois que a televisão lhes deu visibilidade, eles passaram a ser capturados pelo capital/governos do PSDB por meio das leis de incentivo, adaptadas em 2002 aos interesses lulopetistas de controle de pensamento e propaganda. O edital, por exemplo, que era uma ferramenta de incentivo aos jovens talentos até 2002, foi transformado em bolsa de controle artístico. Na Bahia, as comissões que selecionam produções servem ao lulopetismo e os artistas premiados, também. Os espectadores, que não são bobos, se recolheram em casa. A produção cultural baiana está assim neste momento.

N – A senhora virou uma espécie de bastião isolado da contestação na Bahia, que sempre foi um Estado inconformista, desde os tempos de Gregório de Matos, o Boca do Inferno, até o comunista Jorge Amado, o gênio iconoclasta Glauber Rocha e os tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil. O que mudou em seu Estado para que esse inconformismo virasse uma procissão de mendigos de verbas cantando loas ao chefão de ocasião e pedindo esmolas a el-rey?

A – A Bahia foi colonizada pelos jesuítas, a serviço do Vaticano. Os jesuítas controlaram sua educação e modelaram sua mentalidade de 1549 a 1759. Viver do Estado é uma prática enraizada na Bahia desde a colônia. E como viver do Estado e fazer oposição ao governo, na Bahia, são antônimos perfeitos, a oposição por aqui é sempre temporária. Faz-se oposição, mas não é nada sério.

Eu sempre estive na oposição. Fiz oposição a ACM, quase sozinha, da juventude à maturidade. O poder de ACM foi longo. Trabalhei para eleger o PT na Bahia, mas quando ele venceu me mudei pra oposição. Por experiência, devo dizer que ACM foi um opositor muito mais gentil que Jaques Wagner. Nos primeiros momentos do governo Wagner, em 2007, eu tive a impressão de que estava sob a gestão de Médici que nós sabemos como foi. Os lulopetistas subalternos são raivosos, ressentidos, e quando chegaram aos seus pequenos poderes acharam – ainda acham – que eram donos do Estado, com tudo o que havia dentro dele.

Aninha recebendo o Prêmio Remington de Poesia das mãos do presidente Austregésilo de Athayde na Academia Brasileira de Letras, em 1976. Foto: Acervo pessoal

Aninha recebendo o Prêmio Remington de Poesia das mãos do presidente Austregésilo de Athayde na Academia Brasileira de Letras, em 1976. Foto: Acervo pessoal

N – Nós dois somos de um tempo em que pessoas que discordavam umas das outras se respeitavam, pois mais do que a defesa desenfreada de convicções, que sempre termina em xingamentos grosseiros, quando não em desforço físico, valiam o fogo e a luz que surgem dos debates. O que, a seu ver, motivou essa transformação, que faz tanto mal à vida social e à necessidade de união para sairmos da encrenca em que nos metemos?

A – A existência de pensamento impõe esse respeito de que você fala. Somos de uma geração educada pela escola laica/pública para pensar, escola que sobreviveu pouco tempo. Quando os jesuítas, que detiveram o monopólio da educação brasileira até meados do século 18, foram expulsos, deixaram a lacuna enorme da educação da colônia, que depois de cem anos de República não foi preenchida. Mas parece que entre os anos 1930 e 1970 houve um projeto bom de educação laica/pública. Eu tive isso que a ditadura desmontou nos anos 1970. E que nenhum político fala em remontar. Por isso o Brasil está esse gigante “pela própria natureza”, à deriva, achando que Lula ou Bolsonaro estão aptos para governá-lo.

N – A Bahia já foi o território de Juraci Magalhães, tenente de 1930, e de Antônio Carlos Magalhães, o ACM, Toninho Malvadeza ou Toninho Ternura, dependendo das circunstâncias, e hoje é território impenetrável do PT, em que Lula é deus, Jaquinho Wagner, seu profeta e Rui Costa, o balançador de turíbulo. A senhora diria que esses coronéis de direita e esquerda seriam azeite de dendê da mesma garrafa?

A – O dendê oligarca de ACM e o dendê aparentemente novo dos sindicalistas têm o mesmo ranço populista. ACM controlou a Bahia durante toda a sua vida adulta. Elegia-se senador e despachava como governador porque ele havia elegido o governador. ACM foi o inventor dos postes que Lula copiou. Controlava os três Poderes com uma habilidade que espantaria Montesquieu. Mas com esse poder exercido por tanto tempo, ele esqueceu de um detalhe importantíssimo: esqueceu que era mortal e estava aqui de passagem, como todos nós. Quando saiu da vida política baiana pela porta da morte, deixou uma massa pronta e deseducada para a política populista dos sindicalistas, que têm entre seus objetivos apagar a memória de ACM do Estado. Estamos neste momento de Bahia.

Homenagem do ator (Cinema Novo) e artista plástico Sante Scaldaferri a Aninha Franco e ao Theatro XVIII. Foto: Acervo pessoal

Homenagem do ator (Cinema Novo) e artista plástico Sante Scaldaferri a Aninha Franco e ao Theatro XVIII. Foto: Acervo pessoal

N – Do Pelourinho, onde fica sediada sua República, a senhora costuma andar para áreas longínquas do imenso território nacional. Quais seriam, segundo suas impressões de viagens, as principais causas da crise moral, política, econômica, financeira, espiritual e social que está levando nosso Brasil velho de Cabrália a virar frege e beleléu?

A – Somos ex-colônia há pouco tempo, pois considero o Império um prolongamento colonial. Há 130 anos, humanos escravizados percorriam essas ruas do Pelourinho onde o Olodum percussiona e a República resiste ao populismo. Nossas Repúblicas Velha, Nova, Novíssima ainda não fizeram nada para humanizar esse passado. E o presente continua perverso com qualquer brasileiro que não seja político. A capacidade de pensar, no Brasil, que sempre foi combatida com ferocidade, com esquartejamentos e torturas, hoje é combatida institucionalmente, com educação de péssima qualidade. Li em Hannah Arendt dos anos 1970 que, possivelmente, 6% de humanos pensavam no planeta e, portanto, eram racionais. Temo conhecer a porcentagem dos que pensam no Brasil de hoje. Mas a irracionalidade brasileira está exposta. E é mortal.

N – Por que a senhora nunca se engajou na palavra de ordem de muitos de seus companheiros de velhos tempos que pregavam o fim da corrupção e hoje querem o juiz Sergio Moro fora e o condenado Lula livre?

A – Eu sou anarquista desde que li Bakunin, quase adolescente. Nunca fui comunista ou socialista. A Polícia Federal invadiu minha casa em 1971 e me levou para o Dops por causa de um cordel que eu escrevi, A História de um Militante nas Unhas de Um Militar, e dei de presente ao meu namorado do PCB, contando como ele entregaria todo mundo quando fosse preso. Ele foi preso e me entregou. Eu estava com 19 anos, mas já sabia que o comunismo tinha um componente (im)previsível: a espécie humana.

Nos anos 1970, Aninha circulava na moto Rocinante, companheira a caminho do Forum (advogou) e das praias de Salvador. Foto: Acervo pessoal

Nos anos 1970, Aninha circulava na moto Rocinante, companheira a caminho do Forum (advogou) e das praias de Salvador. Foto: Acervo pessoal

 N – O que a senhora considera mais daninho para a moral, os bons costumes e os lhanos negócios republicanos: a roubalheira encampada pelo PT e seus cúmplices ou a comodista aceitação da propina pelo PSDB fingindo que era oposição para se dar bem na vida?

A – Os dois. PT e PSDB são iguais. A turma da Segunda Turma (Gilmar, Tofolli e Lewandowsky), nomeada por FHC e Lula para o STF, é a expressão precisa de como o PT e o PSDB são semelhantes e agem da mesma maneira.  Os dois fazem a mesma coisa com regras cerimoniais próprias. Por exemplo, um político do PSDB jamais chamaria sua propina de “pixuleco”. Aécio chamou seu acerto financeiro com Joesley de “empréstimo”. Mas, no final, os maços de dinheiro são a mesma coisa.

N – O que a senhora espera que aconteça na Bahia de Todos os Santos e no Brasil de todos os demônios para que, se não se ufane, como o conde Afonso Celso, ou não se orgulhe, como os patrícios que ainda choram quando ouvem o Hino Nacional nos pódios olímpicos, pelo menos não tenha mais motivos para se envergonhar e até se enojar de nossa Pátria?

A – Eu não tenho a mínima ideia do que acontecerá com a Bahia nos próximos anos. A era oligárquica de ACM acabou. E foi substituída por uma oligarquia sindicalista que tem ACM como modelo. Os sindicalistas repetem todos os defeitos de ACM, mas como são limitados intelectualmente não conseguem repetir suas virtudes. O Estado sindicalista perdeu todas as conquistas dos anos 1990 em cultura e turismo, sob o comando de ACM. E não consegue avançar em nenhuma área. Temos algumas das cidades mais violentas do Brasil, nós que há 30 anos éramos conhecidos por nossa cordialidade. Alguns dos 417 municípios do Estado não produzem nada e sobrevivem de Bolsas Família. E não percebo projetos para alterar isso, infelizmente.

Aninha com a comerciante Socorro, vizinha da biblioteca e da mesa de refeições de sua República Af, no Pelourinho. Foto: Acervo pessoal

Aninha com a comerciante Socorro, vizinha da biblioteca e da mesa de refeições de sua República Af, no Pelourinho. Foto: Acervo pessoal

N – Que critérios a senhora usará para escolher um candidato em quem votar nas próximas eleições de outubro, se é que pode haver algum?

A – Se nenhum dos candidatos me convencer de que pode alterar esse modelo horrível que nos governa desde sempre, votarei em alguém com nenhuma possibilidade de vencer. Já elegi o PT. Não quero ser cúmplice, mais uma vez, da deriva do Brasil.

N – Sua experiência de lutas política e cultural lhe permite enxergar uma luz no fim do túnel ou o farol do trem descarrilado, quando o resultado das contestadas urnas eletrônicas indicar um começo de reconstrução das ruínas da crise total ou a caminhada cega do rebanho de ovelhas?

A – Não vejo nada que possa ser considerado recomeço nos políticos e nas políticas brasileiras neste momento. Mas percebo uma sociedade no fim do túnel, indignada, assustada, espoliada. E nela tem luz.

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/brasil-e-perverso-com-quem-nao-e-politico-diz-ativista-cultural-baiana/

Nêumanne entrevista Aninha Franco. 11ª. Edição da Série 10 Perguntas. http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne

Nêumanne entrevista Aninha Franco. 11ª. Edição da Série 10 Perguntas. http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne

No Blog: Nêumanne entrevista José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni

No Blog: Nêumanne entrevista José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni

No Brasil estamos “trancados e sem saída”, diz Boni

Para ex-diretor da Globo, corrupção, políticos que não largam o poder e falta de governabilidade são problemas para os quais nenhum candidato à eleição aponta soluções

“Os três maiores problemas do Brasil são a corrupção, a eleição repetitiva dos mesmos políticos e a falta de governabilidade”, disse José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni, criador, com Walter Clark e Joe Wallach, da maior revolução estética na comunicação de massas no Brasil: o padrão Globo de qualidade. Nesta entrevista, ele expressou a voz da maioria da população brasileira, que conta com a Operação Lava Jato e novas leis contra a roubalheira, causa da maior crise moral, política, social e econômico-financeira da História. “Dependemos da renovação dos nossos representantes, mas não vejo na lista dos partidos uma quantidade significativa de candidatos novos”, afirmou. Ele também pregou a reforma política para resolver o impasse da governabilidade, lamentando que, para as eleições gerais do fim do ano, “nenhum projeto sólido e confiável foi apresentado por qualquer candidato”. E mais: “pelo que ouço nas ruas, a população está descrente e sem motivação para votar. Parece estar adivinhando que vamos continuar trancados e sem saída.”

 Comparado com os outros países, o Brasil parece um faz de conta e só sobrevive porque é grande demais, acha Boni. Foto: Acervo pessoal

Comparado com os outros países, o Brasil parece um faz de conta e só sobrevive porque é grande demais, acha Boni. Foto: Acervo pessoal

Boni nasceu em Osasco (Grande São Paulo) em 1935, filho do dentista Orlando de Oliveira, que tocava cavaquinho no regional de Armandinho, e da jornalista, psicóloga e escritora Kina de Oliveira, que lançou um blog aos 94 anos de idade, enquanto escrevia livros, às vezes simultâneos. Sobrinho de Hermínio, do conjunto vocal Quatro Ases e um Curinga, frequentou desde garoto os bastidores das emissoras de rádio. Aprendeu a escrever com Dias Gomes e Manuel da Nóbrega. Trabalhou na produção das pioneiras TVs Tupi, Paulista e Excelsior de São Paulo, na agência de publicidade Lintas e na Lynx Filmes, entre outras. Levado pelo americano Joe Walach, na companhia de Walter Clark, com quem trabalhava na TV Rio, introduziu na TV Globo o conceito de grade na programação, até hoje usado, e fundou a rede nacional de TV, inaugurada com o Jornal Nacional, eterno campeão de audiência do telejornalismo. Atualmente é dono da TV Vanguarda, afiliada da Globo em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo.

Boni com a mãe, dona Kina, que escreveu livros, alguns simultâneos, enquanto viveu e criou um blog aos 94 anos. Foto: Acervo pessoal No Brasil estamos “trancados e sem saída”, diz Boni

Boni com a mãe, dona Kina, que escreveu livros, alguns simultâneos, enquanto viveu e criou um blog aos 94 anos. Foto: Acervo pessoal
No Brasil estamos “trancados e sem saída”, diz Boni

A seguir, Nêumanne entrevista Boni

Nêumanne – Durante certo tempo, a Globo, depois de ter adotado o padrão de qualidade da programação que o senhor exigia, teve um monopólio de audiência inédito na história da televisão brasileira e inigualável no resto do mundo. O que esse reinado tem que ver com tal padrão?

Boni– A conquista de um padrão de qualidade foi um trabalho de equipe. O americano Joe Wallach havia sido chamado para recuperar as finanças da falida Globo e pesquisou o mercado brasileiro de profissionais de televisão e nos convidou, a mim e ao Walter Clark, para operar a Globo. A emissora do Rio de Janeiro ocupava o quarto lugar de audiência. A TV Paulista amargava o quinto lugar em São Paulo. O mercado publicitário aplicava pouca verba em televisão, uma vez que em 1967 não existiam mais que 3 milhões de aparelhos de TV em todo o Brasil. Nos Estados Unidos a televisão havia nascido a partir da poderosa indústria do cinema. Aqui não havia produção e os talentos disponíveis eram raros.  Parecia impossível sobreviver num mercado tão fraco com concorrentes, na época, muito fortes. Entendemos que não seria suficiente mudar a Globo, e sim que havia necessidades de renovar a televisão brasileira, seu conteúdo, sua gestão e sua comercialização. Com uma equipe de especialistas executamos um projeto amplo e não abrimos mão de uma execução perfeita e com aprimoramento contínuo. Prometemos à Globo que em cinco anos chegaríamos à liderança, mas em apenas três atingimos esse objetivo.

N – Padrão de qualidade não é certamente o forte da administração pública brasileira e até mesmo da gestão em nosso setor privado. Como empresário bem-sucedido em seu ramo de comunicação eletrônica, o senhor se disporia a explicar por que um país que conheceu um sucesso tão avassalador como foi o da Globo só tem piorado em seu desempenho negocial?

B – Pode parecer que as diferenças entre a atividade pública e a atividade privada impeçam uma comparação. Mas, no fundo, são a mesma coisa. Os pilares que sustentam uma administração eficiente são: seriedade, competência, coragem e determinação. Seriedade e competência são fundamentais para a elaboração de um projeto amplo e consequente. Sem projeto não há empresa nem haverá nação.  Um projeto compreende metas definidas e prazo para atingi-las, e prioridades determinadas com coragem e determinação na execução, de forma a evitar desvios de percurso. No caso do Brasil eu acredito que a ênfase estaria nas prioridades. Não dá para tentar resolver tudo de uma vez, repartindo verbas para contentar a todos. Uma noite, em Brasília, o diretor da Globo Toninho Drummond me convidou para jantar com Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, exatamente quando se elaborava a Constituição de 1988. Perguntei ao dr. Ulysses se o trabalho estava indo bem. Ele me respondeu, literalmente: “O Brasil é o país da demanda. Todos querem puxar a brasa para sua sardinha.  Chegar a um acordo é um desespero.”

 Boni com Walter Clark e Roberto Marinho, artífices de sucesso prometido para 5 anos e realizado em 3. Foto: Acervo pessoal

Boni com Walter Clark e Roberto Marinho, artífices de sucesso prometido para 5 anos e realizado em 3. Foto: Acervo pessoal

N – De uns tempos para cá, as emissoras abertas têm sofrido uma concorrência comercial cerrada dos canais por assinatura e outras modalidades possíveis com a cibernética. Tal como a imprensa e a radiofonia, a televisão comum tem seus dias contados no futuro ou o senhor acredita que há como se adaptar e sobreviver?

B – Imprensa é um mundo em extinção. Depende de papel e transporte para entrega. Vai ter de migrar completamente para a internet. Fazem parte de outro mundo a radiofonia, a  televisão aberta ou por assinatura e a internet. Todas essas plataformas são de um mesmo mundo. São apenas distribuidoras de conteúdo e são complementares entre si.  O que vai determinar quando e como o usuário estará utilizando esse grupo de veículos será o conteúdo.  Com a avalanche e a rapidez das alterações tecnológicas é impossível prever o futuro. Mas uma única coisa é certa: os grandes produtores de conteúdo sobreviverão.

N – O monopólio de audiência produziu riqueza e muito poder para o grupo da família Marinho e seus principais executivos, além de ter distribuído celebridade instantânea a seus funcionários no jornalismo e no entretenimento, influindo muito na produção da cultura. O que a literatura, o teatro, o cinema, a música popular e as artes plásticas  ganharam e perderam com essa influência?

B –  Alberto Madia, presidente da Academia Brasileira de Marketing, autor dos livros mais vendidos sobre o assunto, Prêmio Jabuti de 2006, costuma dizer: “A Globo revolucionou a estética brasileira”. Eu tenho certeza que a Globo deu uma contribuição sem precedentes para o entretenimento, informação, educação e cultura. A literatura ganhou espaço na televisão. Só no meu tempo foram adaptadas e exibidas 282 obras de autores brasileiros e internacionais.  A produção da Globo influiu na linguagem, na moda, no grafismo e até na propaganda. A Globo, de forma permanente, faz uma intensa cobertura sobre artes plásticas, exposições e eventos dessa natureza.  O Telecurso ensinou o governo a produzir teledidática e formou milhões de alunos.  O teatro  recebe uma promoção diária e rotineira. No cinema tem coproduzido os melhores filmes da atualidade. Inúmeros talentos surgiram nos festivais da Globo e hoje os compositores e cantores brasileiros estão presentes em toda linha de programação. O Jornal Nacional foi o primeiro traço de união entre os brasileiros e a notícia.  As sucursais da Globo por meio dos satélites ligam o Brasil ao mundo.

Carnavalesco assumido, Boni foi tema da Beija-Flor de Nilópolis no desfile de 2013. Foto: Acervo pessoal

Carnavalesco assumido, Boni foi tema da Beija-Flor de Nilópolis no desfile de 2013. Foto: Acervo pessoal

N – Esse longo reinado, porém, também produziu, mais do que fastio, certa implicância com o poderio da Vênus Platinada. Lembro-me de que os metalúrgicos liderados por Lula nas greves do ABC já tinham uma palavra de ordem que a agredia: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. Hoje internautas se manifestam com fúria, a ponto de terem criado o neologismo “globolixo”. A que ponto podem chegar essas grosserias, que às vezes produzem até agressões físicas contra jornalistas a trabalho ou invasões de imóveis da empresa?

B– Ninguém chuta um cão morto. Hostilidades e protestos contra quem está em evidência são comuns. O Brizola aproveitou-se dessa oportunidade e tentou jogar seus eleitores contra a Globo. O PT aproveitou-se também e entrou nessa onda. A Globo, ela mesma reconhece que cometeu erros no passado, mas hoje é um exemplo de isenção, mantendo neutralidade e equidistância entre todas as correntes políticas. Devidamente comunicado e de forma transparente, qualquer veículo pode assumir uma posição política. Foi brilhante e é, até hoje, amplamente aplaudida a atuação do Estadão contra a ditadura Vargas. A tomada de posição de um veículo é um direito, quase um dever. Quanto à internet, todos nós partimos do princípio de que cada um é livre para dizer o que quiser. É bonito, mas perigoso. Sou contra a censura, mas a favor da responsabilidade. É importante limpar a “WEB” e responsabilizar quem cometer abusos. A Europa deu início a esse processo. Todos os países vão ter de encontrar caminhos.

N – Um dos negócios muito atingidos pelo reinado das diversas empresas de comunicação de massas foi o futebol. Em que a transmissão dos jogos em canais específicos todos os dias da semana mudou a indústria do ludopédio e até o comportamento das torcidas?

B – Gostei do ludopédio. Quer dizer que estamos na CML, a Copa do Mundo do Ludopédio? Pois a gente está vendo a força do futebol. É uma atração importante para a televisão. Eu, pessoalmente, sou contra a exibição semanal de futebol no horário nobre. Muitos jogos são desinteressantes e derrubam a audiência da emissora. Acho que deveriam ficar restritos aos fins de semana, em horários diurnos. O pior é que os jogos são feitos para atender à programação de televisão e os horários tardios vão acabar esvaziando os estádios. Estamos tomando um porre de futebol, não somente na TV, mas com excesso de campeonatos em todo o mundo e a acelerada contratações de jogadores. O torcedor comum já não sabe nem o nome de quem joga no próprio time.

Boni com Senna, campeão de automobilismo, cuja carreira foi acompanhada pelas coberturas da Globo. Foto: Acervo pessoal

Boni com Senna, campeão de automobilismo, cuja carreira foi acompanhada pelas coberturas da Globo. Foto: Acervo pessoal

N – O maior negócio do esporte televisado é a Copa do Mundo da Fifa. Como fanático telespectador de futebol, sinto certa indiferença minha e da torcida em geral em relação ao destino da seleção brasileira, embora em nada se tenha alterado, mas, sim, talvez até exacerbado, a paixão “clubística”. O senhor se arriscaria a dar um palpite sobre as causas desse fenômeno? 

B – O fenômeno é político, e não futebolístico. Está todo mundo preocupado com outra coisa: emprego, segurança, saúde e com o futuro em geral. Ninguém se liga nem nas eleições nem no futebol. Há também a lembrança da Copa de 2014. Como diria o Washington Olivetto, o primeiro 7 a 1 a gente nunca esquece. O frustrante empate com a Suíça na estreia da seleção também foi um balde de água fria. Vamos ver o que acontecerá quando o Brasil estiver caminhando melhor.

Boni com Joe Wallach, o americano que o levou com Walter Clark para mudar a TV nestes trópicos. Foto: Acervo pessoal

Boni com Joe Wallach, o americano que o levou com Walter Clark para mudar a TV nestes trópicos. Foto: Acervo pessoal

N – Além de seu ofício, o senhor envolveu-se muito também com os desfiles de escolas de samba no carnaval do Rio de Janeiro. Quais serão, a seu ver, as principais modificações que esse negócio poderá absorver para se manter ou até prosperar como “maior espetáculo da Terra”, principalmente na crise de segurança e violência do Rio?

B –  Temos no Rio um prefeito que, por natureza de sua religião, não é um entusiasta do carnaval. Mas o carnaval dá dinheiro e rende para a prefeitura. Além de ser a maior atividade turística do País, é um expressivo movimento da cultura popular brasileira.  Deveria haver mais investimento no carnaval, mas o que houve foi corte de verbas. Acho que com esse corte a qualidade caiu muito. Por outro lado, se não houver mudanças no Sambódromo, que foi construído há mais de 30 anos, os desfiles das escolas de samba vão continuar sofrendo desgaste e a festa vai acabar se transformando, simplesmente, em “carnaval de rua”. Quanto à violência, ela tem se mostrado pouco ativa no carnaval. Está todo mundo envolvido no evento, mas são os sambistas verdadeiros que descem para o asfalto. E é bom lembrar um samba do Wilson das Neves que diz: “O dia em que morro descer e não for carnaval, vai ser o juízo final”.

N – O senhor tem vivido a maior parte de seu tempo dividido entre o Brasil e o exterior, principalmente os Estados Unidos. Que impressões e lições o senhor obteve dessa experiência múltipla? Por que, ainda assim, o senhor não desistiu do Brasil?

B – Viajo bastante, não só para países desenvolvidos, mas para onde também a gente encontra fome e miséria. Países e cidades têm problemas. Mas todos se empenham em encontrar soluções. O Brasil, diante deles, parece um país do faz de conta. Governos, Congresso, instituições se parecem com os equivalentes em países de primeira linha, mas a realidade do nosso país é praticamente deixada de lado. O Brasil sobrevive porque é grande demais. Vou ficando por aqui. Sou um sonhador por natureza e teimoso por deformação profissional. Quem sabe se a gente vai…? Mas suspeito que só iremos mesmo por acaso e sorte.

 Boni, em 1998, na sacada de seu apartamento nos Jardins em São Paulo. Foto: Mônica Zarattini/AE

Boni, em 1998, na sacada de seu apartamento nos Jardins em São Paulo. Foto: Mônica Zarattini/AE

N – Como executivo importante de comunicação, o senhor conviveu com os chefões da política e da administração no Brasil. Depois da Lava Jato, combatendo a corrupção, e da falência do populismo assistencialista, que saqueou os cofres da República e produziu a maior crise da História, que saídas o senhor vê para o Brasil neste ano em que um governo desastrado dissemina a desesperança e nenhum dos candidatos à eleição presidencial tem a apresentar algo sólido e confiável à população?

B – O Brasil não tem um grande problema. Tem vários problemas enormes. Eu apontaria três como os mais importantes: a corrupção, a eleição repetitiva dos mesmos políticos e a falta de governabilidade. O combate à corrupção precisa da continuidade da Lava Jato e de  novas leis. Dependemos da renovação dos nossos representantes, mas não vejo na lista dos partidos uma quantidade significativa de candidatos novos.  E a governabilidade? Está aí um dos grandes problemas do Brasil. Entre outras reformas, a reforma política tem de ser discutida com urgência  para que o País possa libertar-se e progredir na velocidade exigida. E a eleição presidencial? Sua observação está corretíssima. Nenhum projeto sólido e confiável foi apresentado por qualquer candidato. Pelo que ouço nas ruas, a população está descrente e sem motivação para votar. Parece estar adivinhando que vamos continuar trancados e sem saída.

Leia também no Blog do Nêumanne no Estadão. Clique no link abaixo.
https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/no-brasil-estamos-trancados-e-sem-saida-diz-boni/

 

entrevista10

No Blog: Nêumanne entrevista Edmar Lisboa Bacha

No Blog: Nêumanne entrevista Edmar Lisboa Bacha

Remédio para crise: voto consciente em outubro,

receita criador da Belíndia

Contra saudosos da ditadura e devotos do “gasto é vida” de Dilma, Bacha lamenta acefalia do atual governo e espera com ansiedade resultado das urnas em outubro

“Voto consciente em outubro deste ano.” Com essa frase curta, escorreita e lógica o economista Edmar Bacha, um dos autores do Plano Real, a maior revolução social da História do Brasil, resume a chave para a economia brasileira sobreviver à crise atual e voltar a crescer. O presidente Michel Temer teve, segundo ele, o juízo de montar “uma equipe econômica da melhor qualidade (que) opera com relativa autonomia, dentro dos estreitos limites da atual conjuntura”. Bacha acha que isso só “não funcionou porque o presidente perdeu todo o seu capital político com a revelação de suas tratativas pouco republicanas na calada na noite com o empresário Joesley Batista … A partir daí o governo teve de se dedicar a barrar o impeachment, incapaz de desenvolver uma agenda econômica positiva”.

Edmar Lisboa Bacha nasceu em Lambari, MG. Casado com Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti, reside no Rio de Janeiro desde 1979. Formou-se em economia pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, em 1963. É um dos primeiros economistas brasileiros com doutorado no exterior, pela Universidade de Yale, em 1968. Em 1974, durante a ditadura militar, publicou uma fábula sobre o reino de Belíndia, junção de Bélgica com Índia, que se tornou desde então uma recorrente imagem do Brasil. Integrou a equipe econômica que dominou a hiperinflação, com o Plano Real. Foi também presidente do BNDES e do IBGE e professor em diversas universidades brasileiras e americanas. Foi consultor sênior do Banco Itaú BBA e presidente da Associação Nacional de Bancos de Investimento (Anbid, atual Anbima). Autor de 12 livros, é organizador de outros 18 sobre temas econômicos, políticos e sociais do Brasil, da América Latina e internacionais. Seu último livro autoral é Belíndia 2.0: Fábulas e Ensaios sobre o País dos Contrastes  (Civilização Brasileira, 2012). O último livro que organizou é A Crise Fiscal e Monetária Brasileira (Civilização Brasileira, 2016). Ambos foram agraciados com o Prêmio Jabuti. Publicou também cerca de 200 artigos em periódicos especializados, cerca de 100 artigos em órgãos da imprensa e concedeu cerca de 250 entrevistas a jornais e revistas brasileiros e internacionais. É sócio fundador e diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças no Rio de Janeiro, e membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Ciências.

Para Bacha, Temer montou equipe econômica de maior qualidade, mas perdeu capital político lutando contra impeachment Foto: Tasso Marcelo/AE

Para Bacha, Temer montou equipe econômica de maior qualidade, mas perdeu capital político lutando contra impeachment Foto: Tasso Marcelo/AE

A seguir Nêumanne entrevista Edmar Bacha:

JNP – O senhor cunhou uma metáfora perfeita para o Brasil: a Belíndia, parte Bélgica, parte Índia. Essa definição continua valendo em nossos tempos? O que mudou basicamente de lá para cá?

EB – O Rei de Belíndia é uma fábula que publiquei no jornal Opinião em agosto de 1974, no auge da ditadura militar. Era uma crítica aos efeitos negativos sobre a distribuição de renda da política econômica daqueles tempos

De lá para cá, houve avanços. O principal avanço foi o fim da ditadura militar e o retorno da democracia. Depois, o fim da hiperinflação e a instituição do tripé da política econômica: superávit primário nas contas públicas, câmbio flutuante e política de metas de inflação. E então, políticas buscando uma melhor distribuição de renda, como a valorização do salário mínimo e o Bolsa Família.

Em compensação, houve atrasos. A economia antes crescia a taxas elevadas, mas entrou num regime de semiestagnação a partir de 1980. Ficamos presos na armadilha da renda média. Além disso, apesar de arremedos de abertura e de privatização nos anos 1990, continuamos sendo uma das economias mais fechadas do mundo e com um alto grau de intervenção estatal na economia. Daí Mário Henrique Simonsen, a propósito dos exageros da Constituição de 1988, ter proposto para o País a alcunha de Banglabânia, um país que associava a pobreza de Bangladesh  ao fechamento econômico da Albânia.

Outro atraso é que os impostos aumentaram muito (de 25% para 35% do PIB), mas os serviços públicos continuaram miseráveis. Razão por que Delfim Neto propôs chamar o país de Ingana: impostos da Inglaterra, serviços públicos de Gana.

Infelizmente, agora tem mais, com o desvendamento da corrupção endêmica do sistema político-empresarial e da violência sem controle nas ruas. Viramos uma Rusmala, com níveis de corrupção da Rússia e a violência da Guatemala.

N – O senhor é um dos artífices do que eu, particularmente, considero a maior revolução social da História do Brasil: o Plano Real. O que reuniu e inspirou aquela equipe escolhida por Fernando Henrique Cardoso? O que permitiu o sucesso imediato e até inesperado no Brasil daquele ovo de Colombo?

 B – É uma longa história, que começa no final da década de 1970 com a constituição do mestrado em Economia da PUC-Rio. Ali se reuniu um grupo excepcional de jovens economistas, todos com doutorado no exterior e preocupados com as grandes questões econômicas do Brasil de então, especialmente a hiperinflação. Diversas formulações novas daí resultaram, tanto de interpretação do fenômeno hiperinflacionário como de formas de combatê-lo.

O Plano Cruzado foi uma primeira tentativa de estabilização de que alguns desses economistas participamos. Éramos muito jovens e jejunos em questões de política, enfrentando nossa primeira experiência de administração pública e sem poder efetivo de decisão. Não deu certo.

Passaram-se muitos anos e outros planos frustrados de estabilização. Deles ficaram mais lições sobre o que não fazer.

A ida de Fernando Henrique Cardoso (de quem muitos de nós éramos amigos de longa data) para o Ministério da Fazenda, em 1993, com amplos poderes para executar um novo plano de estabilização, deu-nos uma segunda oportunidade de aplicar não só nossas hipóteses teóricas, mas também os conhecimentos que adquirimos com os insucessos anteriores. Dessa vez funcionou.

Em 1994, Bacha com equipe do Plano Real, que chegou ao sucesso como resultado do aprendizado de várias tentativas e erros. Foto: Acervo pessoal

Em 1994, Bacha com equipe do Plano Real, que chegou ao sucesso como resultado do aprendizado de várias tentativas e erros. Foto: Acervo pessoal

N – Que circunstâncias políticas, econômicas, financeiras e até históricas impediram que aquela estrutura tão sólida montada sobre moeda estável, inflação controlada, liberdade cambial e austeridade fiscal sobrevivesse ao segundo governo Fernando Henrique e afundasse no populismo amoral do segundo governo Lula, depois do sopro da brisa da Carta aos Brasileiros, da autoria de Antônio Palocci, hoje preso, condenado na Justiça por corrupção e lavagem de dinheiro?

B – Os economistas temos uma expressão – o efeito voracidade – para caracterizar o impacto político negativo de uma bonança de recursos naturais em países com instituições fracas. Também há outra expressão que é pertinente: a maldição dos recursos naturais, creio que inventada para tentar explicar como a Venezuela, tão rica de petróleo, se tornou a desgraça que hoje é.

No período de 2003 a 2008, na frase do economista americano Kenneth Rogoff, o mundo experimentou  “o mais longo, o mais forte e o mais amplamente disseminado ciclo de expansão da época moderna”. O Brasil foi particularmente beneficiado por essa bonança: alta dos preços de nossas exportações, entrada maciça de capitais estrangeiros, descoberta do pré-sal. A consequência foi que, parodiando a frase já histórica da semana passada do ex-governador Sérgio Cabral, Lula não soube se conter diante de tanto poder. Até que foi parado pela Lava Jato.

N – Algum dos pilares da política de estabilidade e controle fiscal sobreviveu ao segundo governo Lula e aos dois mandatos de Dilma Rousseff? Quais foram? E que causas permitiram que isso ocorresse?

B – Tentar derrubar esses pilares, bem que Dilma tentou, com a tal de “nova matriz macroeconômica”, apenas um novo nome para o velho populismo econômico. Mas quando a inflação subiu ficou claro, até mesmo para o PT, que isso os levaria a um desastre eleitoral. Esse foi outro legado do Plano Real: mostrar que a estabilização vence eleições e que a inflação derrota aqueles que estão no poder.  Tentaram dar uma guinada de 90 graus com a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, mas logo ficou claro que uma andorinha só não faz verão. Deu no que deu.

Em 2009, Bacha com Fernando Henrique em lançamento do livro do ex-chefe, colega acadêmico e amigo de longa data. Foto: Paulo Giandalia/AE

Em 2009, Bacha com Fernando Henrique em lançamento do livro do ex-chefe, colega acadêmico e amigo de longa data. Foto: Paulo Giandalia/AE

N – O senhor esperava ou se surpreendeu com os ataques feitos ao edifício da força-tarefa do Plano Real pela conjunção de doenças antigas da ordem econômica no Brasil: gastos desenfreados do Estado estroina, uso político das estatais, em especial a política de preços da Petrobrás, crescimento exponencial da burocracia do Estado e uso abusivo do orçamento público, sobre o qual Tancredo Neves já advertia, na pré-história do sucesso do primado do respeito ao valor da moeda, com seu “é proibido gastar”?

B – O período de consolidação do Plano Real incluiu a aprovação da Lei da Responsabilidade Fiscal e a instituição do tripé da política econômica já mencionado. Na Carta aos Brasileiros Lula se comprometeu a seguir essas regras e, de fato, o fez no início de seu primeiro mandato. Sobrevieram a crise do mensalão e a queda de Palocci. Internacionalmente, com a ascensão da China e o auge das commodities o País passou a desfrutar um céu de brigadeiro. Foi nessas circunstâncias que se deu a guinada de Lula da responsabilidade fiscal para o social-desenvolvimentismo, de uma forma então bem expressa pela então chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff: “Gasto é vida”.

Enquanto durou a bonança externa, parecia tudo bem. Mas o cenário internacional se agravou a partir da crise financeira de 2008-2009. Manteve-se, não obstante, o curso da mesma política, com a adição de controles de preços e do câmbio. Quando houve uma tentativa de ajuste, a partir da reeleição de Dilma, era tarde demais: a consequência foi a mais longa e a segunda mais profunda recessão econômica de nossa História.

Bacha com a mulher, Maria Laura, e o filho Carlos comemorando o Jabuti de 2013 pelo livro O Rei de Belíndia. Foto: Acervo pessoal

Bacha com a mulher, Maria Laura, e o filho Carlos comemorando o Jabuti de 2013 pelo livro O Rei de Belíndia. Foto: Acervo pessoal

N – Até que ponto a roubalheira desencadeada pela volúpia do PT em se lambuzar do mel que nunca havia provado, auxiliado por cúmplices da velhíssima política patrimonialista e pela tibieza da oposição da soit-disant social-democracia do PSDB, corroeu a solidez do edifício do tripé moeda forte, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante? O senhor diria que o mal da corrupção institucionalizada já afastou para um horizonte muito mais longínquo sonhos que voltaram a ser nutridos depois do sucesso do Real?

B – Estranhamente, mesmo um Executivo impopular como o atual, comprometido pela Lava Jato e sobrevivendo na base do toma cá, dá lá, com um Congresso corrompido, tem consciência da importância política de procurar manter íntegro o tripé da política econômica. Uma equipe econômica da melhor qualidade opera com relativa autonomia, dentro dos estreitos limites da atual conjuntura. É um bom sinal para o futuro. O que preocupa é a situação fiscal, que se agravou sobremaneira e cujo enfrentamento exige medidas duras, particularmente no que se refere à reforma da Previdência. Não é para este governo. Vamos ver o que acontece a partir das eleições de outubro.

N – Para deter os efeitos letais do populismo que levou aos 24 milhões de desempregados e desiludidos, Temer, ao substituir Dilma depois do impeachment, tentou uma fórmula mágica da convivência da histórica política da rapina do MDB de sempre com o neoliberalismo do time dos sonhos da economia liderado por Meirelles, Mansueto, Goldfajn, Parente e outros. O senhor diria que não funcionou porque são água e óleo e não se misturam ou pela ligação atávica do presidente com seus antigos aliados?

B – Não funcionou porque o presidente perdeu todo seu capital político com a revelação de suas tratativas pouco republicanas na calada na noite com o empresário Joesley Batista, no Palácio Jaburu, em março de 2017. A partir daí o governo teve de se dedicar a barrar o impeachment, incapaz de desenvolver uma agenda econômica positiva.

N – O sonho (eu diria até delírio) eleitoral de Meirelles, ao sair do governo para disputar a eleição, ajudou a aprofundar a perda de autoridade do governo central depois do lamentável episódio do movimento dos transportadores, que me parece ter desmontado qualquer tentativa de salvar algo daquilo que Temer chamava de seu legado?

B – Parece-me que Eduardo Guardia está mais do que capacitado para dar conta do recado no Ministério da Fazenda, contando com a ajuda de Ilan Goldfajn na presidência do Banco Central. O problema não é esse. É, por um lado, a acefalia política do atual governo. Por outro, a incerteza sobre o que as urnas nos reservam em outubro deste ano.

Em 2017, Bacha entra na Academia Brasileira de Letras para tomar posse na cadeira 40, cujo patrono é o Visconde do Rio Branco . Foto: Guito Moreto/O Globo

Em 2017, Bacha entra na Academia Brasileira de Letras para tomar posse na cadeira 40, cujo patrono é o Visconde do Rio Branco . Foto: Guito Moreto/O Globo

N – Que conselhos sua experiência profissional e sua sensibilidade acadêmica teriam a dar ao País para evitar que aquilo que antes se pensava ser a luz no fim do túnel seja apenas o farol de um trem descarrilado?

B – Voto consciente em outubro deste ano.

N – Espera-se que o resultado da eleição de outubro/novembro resolva de vez a tragédia da Previdência falida, das contas públicas destrambelhadas e de um país afundado na tragédia da violência, da ineficácia da educação, da perda de sentido das palavras saúde e pública pronunciadas em conjunto de candidatos a presidente sem projeto, de um Congresso suspeito e de uma Justiça dividida entre o combate à corrupção na primeira instância e tribunais que se põem a serviço das elites corrompidas desde sempre. Que saídas o senhor vê para esse impasse?

B – Não creio que tecnicamente haja grandes dúvidas. Há consciência da gravidade do desequilíbrio das contas públicas e dos remédios amargos que precisam ser aplicados para deter a expansão da dívida pública sem sacrifício da política social. Há também razoável consenso técnico de que somente recuperaremos a capacidade de crescer com amplas reformas: tributária, educacional e de abertura ao comércio internacional. Nada disso vai acontecer sem lideranças políticas esclarecidas. E estas só podem sair das urnas. Tomara que saiam.

(Publicada no Blog do Nêumanne quarta-feira 13 de junho de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/remedio-para-crise-voto-consciente-em-outubro-receita-criador-da-belindia/

Nêumanne entrevista Edmar Lisboa Bacha: 9a. entrevista da Série 10 Perguntas.

Nêumanne entrevista Edmar Lisboa Bacha: 9a. entrevista da Série 10 Perguntas.

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