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No Blog do Nêumanne: O repórter e a mestra no céu

No Blog do Nêumanne: O repórter e a mestra no céu

Louzeiro e Nelly, duas estrelas que agora brilham no infinito

Os anos passam e os amigos vão. Com 2017 chegando ao fim, as páginas dos jornais escasseiam e os moderníssimos computadores os substituem na tarefa dura de nos comunicar a perda dos melhores amigos. Assim soube que José Louzeiro teve morte suave: em pleno sono sem tempo de despertar (reveiller, em francês, daí o nome da maior festa da virada do ano). Dos jornais em que trabalhou O Globo e a Folha de S.Paulo registraram sua passagem por suas redações. Nos blogs hospedados no primeiro tomei conhecimento do mistério que ronda a morte de Nelly Novaes Coelho, que não teve direito a velório, não foi sepultada, incinerada, homenageada nem decente e adequadamente chorada.

Conheci Louzeiro nos anos 70 na reportagem local da Folha, chefiada por JB Lemos e editada por Jaime Negreiros. Vinha do Globo pelas mãos de Esdras Passaes, importado para dar vida e cor à editoria de polícia do jornal. Louzeiro já adentrara os 40, ou seja na era dos “enta”, enquanto eu mal estreara os 20. Era um caboclo maranhense que, de alguma forma, me lembrava o velho Graça, Graciliano Ramos, que, como ele, trabalhara no Correio da Manhã, um dos muitos diários de luta e fama fechados ao longo de nossas vidas. Era modesto, destemido e arguto, apurava as reportagens com rigor e tratava nos textos a língua materna com desvelo sem foguetórios, sem firulas em sua elegância simples e lhana.

JOSE6 - RJ - 09/02/2013 - JOSE LOUZEIRO/ENTREVISTA - CADERNO 2 OE - Entrevista com o escritor e jornalista, José Louzeiro, em sua residência, no centro do Rio de Janeiro. Foto: MARCOS DE PAULA/ESTADÃO

JOSE – RJ – 09/02/2013 – JOSE LOUZEIRO/ENTREVISTA – CADERNO 2 OE – Entrevista com o escritor e jornalista, José Louzeiro, em sua residência, no centro do Rio de Janeiro. Foto: MARCOS DE PAULA/ESTADÃO

Como eu, Louzeiro era repórter da Folha em 1974 quando lançou o romance-reportagem Aracelli, Meu Amor, sobre o brutal assassinato de uma menina capixaba de oito anos. Em suas investigações o repórter, que então trabalhava no Globo, apontou como suspeita do crime bárbaro gentinha da fina flor da alta burguesia de Vitória, capital do Espírito Santo. O livro obteve grande sucesso e foi censurado, como era hábito na época da ditadura tecnocrático-militar então reinante, a pedido dos suspeitos, de uma gentinha sem qualificação alguma.

Em 1976, veio a lume outro romance seu de literatura-reportagem, Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia, no qual Louzeiro deu voz a um bandido egresso da classe média carioca que se dispôs a revelar, antes de ser executado com um golpe na carótida por um companheiro de cela, Mário Pedro da Silva, detalhes da corrupção policial na antiga Cidade Maravilhosa, até então pouco conhecidos do grande público, que acompanhava peripécias de malandros oriundos de famílias paupérrimas da periferia carioca. Louro, de olhos azuis, modos elegantes e roupas finas, Lúcio Flávio Vilar Lírio ofereceu-se pelo telefone ao então repórter policial tido como diferenciado na imprensa que havia celebrizado jornalistas mais fiéis aos relatos da polícia: Amado Ribeiro e Otávio Pena Branca.

Hector Babenco, por quem eu fora convidado para a sessão privada de lançamento de sua fita O Rei da Noite, com Paulo José, tornou-se, então parceiro de Louzeiro, co-autor do roteiro do filme baseado no romance, protagonizado por Reginaldo Farias. A obra tornou famosa a máxima de Lúcio Flávio que Louzeiro imprimiu: “Policia é policia, bandido e bandido; não se misturam, como água e óleo”. Em novembro de 2015, oito anos depois de produzida, a obra entrou na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. E uma parceria ainda maior entre o repórter e o diretor de cinema ainda estava para ser produzida, desta vez a partir de uma reportagem mais pungente e atual, feita para a Folha..

O maranhense passado pelo Rio pôs uma pacata cidade perdida no interior de Minas Gerais na pauta dos movimentos de defesa de direitos humanos no mundo inteiro atentos à truculência da ditadura militar no Brasil, que hoje é tratada como Paraíso perdido por um bando de ignorantes da História do próprio país. O escândalo mundial ocorreu em 19 de outubro de 1974, quando 97 menores de idade, supostamente infratores, foram transportados por policiais da sede do Departamento Estadual de Investigações Criminais de São Paulo (DEIC), às margens da Rodovia Fernão Dias, nas proximidades de Camanducaia, onde foram jogados de uma ribanceira, após uma sessão de espancamento. O caso foi denunciado pela imprensa e chocou a opinião pública brasileira, tornando-se um dos maiores escândalos de violação de direitos humanos da História do país. Louzeiro escreveu, antes, uma série de reportagens para a Folha em cima do fato. Depois, ao estilo do new journalism de Truman Capote em In Cold Blood/A Sangue Frio, escola pela qual eu andava entusiasmado à época e à qual ele já se filiara nos dois romances citados, escreveu um clássico do romance-reportagem na literatura nacional, Infância dos Mortos.

Em 1980, o livro serviu de argumento para o roteiro que Hector Babenco escreveu e transformou em Pixote, a Lei do mais Fraco, um dos maiores clássicos cinematográficos nacionaisde todos os tempos, desta vez não apenas figurando na lista da Abraccine, mas também entre os dez melhores do ano por vários críticos internacionais. Após disputa por pagamento de direitos autorais a parceria entre Louzeiro e Babenco foi extinta. Mas o repórter que conheci em São Paulo já havia deixado de vez o jornalismo e voltado para a cidade do Rio de Janeiro, onde sempre quis morar. Nunca perdemos o contato, mas as diferentes azáfamas profissionais nos tiraram um da vista do outro. Simples, exigente consigo próprio, pesquisador implacável e escritor rigoroso, Zé escreveu roteiros para telenovelas da Rede Manchete de Televisão: foram ao ar Qorpo Santo e Guerra Sem Fim, mas O Marajá, baseado na saga de Fernando Collor de Mello, o dito “carcará sanguinolento”, foi interditada pela velha inimiga do autor: a censura.

Desde o sucesso dos filmes com Babenco, Louzeiro deixou a reportagem, um passo que ele me anunciou muito antes de dá-lo. Costumava citar uma frase de Ernest Hemingway – “um escritor deve sempre passar por uma redação de jornal, mas nunca ficar nela” -, o que ele fez e me aconselhou a imitar, mas nunca tive coragem (ou talento talvez) para segui-lo. Para sobreviver escreveu dez roteiros cinematográficos, entre os quais O Homem da Capa Preta, sobre Tenório Cavalcanti, personagem da política e do crime, portanto precursor de nossos homens públicos marginais contemporâneos e figura que ele conheceu muito bem como repórter de polícia, e não de política. Dirigida em 1986 por Sérgio Rezende e protagonizada por um astro de televisão, o cearense José Wilker, a obra também tem a chancela de qualidade do mestre do romance-reportagem.

Zé Louzeiro foi surpreendido quando dormia pela glicemia no sangue que o perseguiu a vida inteira. Mas felizmente não caiu no oblívio em que de certa forma tinha ficado nos últimos anos da vida.

O mesmo não se pode dizer de outra figura de importância capital na literatura brasileira. Coincidência notável é que o melhor elogio fúnebre sobre o escritor maranhense foi escrito pelo escritor, jornalista e promotor cultural mineiro Afonso Borges. E o criador do mais bem-sucedido sarau literário do Brasil, o Sempre um Papo, em Belo Horizonte, redigiu um necrológio curto em seu blog hospedado no Globo da professora de literatura brasileira da Universidade de São Paulo (USP), Nelly Novaes Coelho, que é, ao mesmo tempo, um romance-à-chave de mistério e terror.

Nelly Novaes Coelho

Nelly Novaes Coelho

Ele revelou o secreto desaparecimento recente da grande mestra, sua internação num lar de idosos, sua interdição pela justiça e, enfim, uma morte que só foi revelada um mês depois por sua cuidadora.

Nunca me esquecerei da honra que tive quando esta querida amiga leu um poema de minha lavra no lançamento da coletânea Solos do Silêncio na FNAC de Pinheiros, em 1996. A cinco anos de completar 100, a sobrinha da grande pianista Guiomar Novaes merecia hoje, no mínimo, exéquias solenes. Registre-se aqui o que Borges escreveu:

“Depois de uma intercorrência clínica, há três anos, ela (Nelly) foi interditada, judicialmente, e internada em uma clínica de repouso. Amigos que tentaram visitá-la no asilo deram de cara com um aviso proibindo. Aos jornalistas, buscando entrevistas, a resposta negativa, associada a motivos de saúde. Curiosamente, um deles encontrou-a um dia no banco, onde travou um longo e saudável papo, no qual a lucidez foi a referência. Mesmo assim, envolto em mistério, seu paradeiro ficou assim, sem ninguém saber ao certo. Só boatos de brigas de família.

“Neste meio tempo, há cerca de um ano, um amigo vai visitar o Sebo do Messias e ali encontra vários livros dedicados a ela à venda. Encontra, inclusive, dois livros do próprio, com dedicatória. Compra alguns. Confere com o dono, que confirma que comprou toda a sua biblioteca. Tenho aversão a familiares que vendem os livros do autor. Leiam o artigo Mora na Biblioteca do Escritor o Segredo de Sua Obra.

“Agora, um mês depois, uma cuidadora do asilo vaza a informação da sua morte. Repito: um mês depois! Nenhum comunicado, nada de velório, de homenagem, do enterro, nada. Não se sabe nem onde foi enterrada, ou cremada, nada.

“Onde estará Nelly Novaes Coelho? Onde? E qual o motivo? Por que isso, assim? Saberemos, algum dia?”

Apresentação18

Deus se apiade das almas libertas desta vida de Louzeiro e Nelly. Ficam suas obras eternas na reportagem, na literatura, no ensino e na crítica. São agora duas estrelas brilhando no céu de 2018.

José Nêumanne

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne no domingo 30 de dezembro de 2017)

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No Blog do Nêumanne: No ano passado eu morri…

No Blog do Nêumanne: No ano passado eu morri…

O ano novo chega com cara de velho com cicatrizes, rugas e marcas de 2017

O ano passado terminou sob – ou, como prefere o novo diretor da Polícia Federal (PF), Fernando “por qué no te callas” Segóvia, sobre –  a égide da luta surda entre os poderosos mandatários de plantão e os impotentes cidadãos em nome dos quais aqueles exercem o poder máximo num possível Estado de Direito. Esta luta sem quartel pelo comando do “cartel de Abrantes”, paródia da expressão popular dos tempos em que patentes militares eram sinais de respeito, prestígio e, sobretudo, poder, é tão encarniçada que o máximo que se pode desejar em cartões bem intencionados de boas-festas resume-se num verso genial do repentista paraibano Zé Limeira, dito “o poeta do absurdo”: “No ano passado eu morri, mas neste ano eu não morro”. Se tudo der certo para a cidadania, o que é muito difícil, ele será uma grande Páscoa. Mas, se entre a votação da reforma da Previdência e a posse do presidente eleito pelo povo os desaforados aforados continuarem com a faca e o queijo em mãos, será uma quaresma sem carnaval para compensar.

O marco zero (como ponto de partida e nota de desempenho) da realidade áspera que está sendo imposta à Nação foram as duas votações na Câmara que dispensaram o presidente da República de ser investigado por participação – e possível mando – no “quadrilhão do MDB”, a pedido do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot. Mantido no cargo pela metade mais um dos companheiros de antanho na Câmara mais do que nunca “baixa”, o constitucionalista de Tietê Michel Temer conseguiu até dobrar de popularidade das profundezas dos 3% para ainda inaceitáveis, mas bem melhores, 6%. Impopularidade à parte, Sua Excelência começa o ano útil de 2018 em 19 de fevereiro, quando sua mitigada reforma da Previdência será submetida a votação mais difícil na Câmara, de vez que não é mais necessária apenas a aprovação de um terço de seus antigamente nobres pares e hoje ignaros “parças”, mas três quintos dos plenários do Congresso para aprovar seu (e nosso) primeiro grande objetivo no ano.

Para conseguir o intento, e com isso evitar transferir o abacaxi azedo e podre para o sucessor eleito, o vice de Dilma guindado ao poder pelas peraltices contábeis dela enfrenta a má vontade generalizada de uma população cuja desconfiança se transforma em votos num Congresso desmoralizado, mas com poder para decidir se o País continuará à míngua para pagar os privilégios dos articuladíssimos marajás dos Três Poderes, assegurados por cabos eleitorais, assessores e, em muitos casos, donos das impressões digitais do dinheiro vivo que contam propinas em contas no exterior, caixas de joias e até em apartamentos (ou aparelhos, como nos tempos de Dilma guerrilheira) vazios de gente e povoados por cédulas.

No ano em que alguns de nós morreram de verdade, mas muitos morremos apenas um pouco, os donos do poder da República fizeram o possível para manter o cetro e conter o martelo impiedoso de alguns juízes que resolveram romper o ciclo no qual só eram presos pobres, pretos e prostitutas. Com proxenetas e contadores fazendo delações premiadas, o ano das mortes aos pedaços terminou com a volta à casa de dois símbolos da propinocracia reinante. Para sua mansão em São Paulo regressou o pai severo e empreiteiro-mor do País, Marcelo Odebrecht, cumprindo pena de tornozeleira no calcanhar de Aquiles. O mandachuva das obras superfaturadas pode dizer como um malandro qualquer ao subir o morro de onde saiu: “Já paguei minha dívida com a sociedade”.

O seio da família na Zona Sul carioca é o destino do ex-diretor de marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, libertado graças à boa vontade que os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) têm com militantes de sua fé ideológica e com clientes abonados de colegas que frequentam a promiscuidade de convescotes do poder no Planalto Central do País. O egresso do inferno presidiário de volta ao lar, doce lar cruzou os portões da Papuda com dinheiro no banco e, no bolso, a carteirinha do Partido dos Trabalhadores, que para o STF o distingue de meros mortais. Ela garantiu a Dilma o direito de sonhar ser merendeira de escola. E ele foi o elo vivo entre a militância e os fundos do bicentenário banco público número um de Pindorama, dito do Brasil. Pizzolato passeou pelo Código Penal com desenvoltura: corrupção passiva, lavagem de dinheiro, obstrução da justiça, falsidade ideológica e fuga para o exterior. Condenado a 12 anos e 7 meses de prisão, ficou dois foragido na Itália, esperou um pela extradição e mais dois e meio na Papuda. Um quarto de pena cumprido com bom comportamento na caderneta de detento bastou para mobilizar a benemerência do ministro Barroso, que lhe concedeu liberdade provisória.

Do mensalão agora só resta preso Marcos Valério, chamado de operador por Roberto Jefferson, o delator, que, também indultado, nesta virada de ano negocia com o presidente da República a mudança do titular do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), criado por Getúlio, perdido por Brizola e refundado por Carlos Lupi, no Ministério do Trabalho. Outro condenado naquelas eras, Valdemar Costa Neto, Boy, também desfruta sua liberdade negociando ministérios com Temer à sombra do Jaburu. Pizzolato, o petista libertado, agora quer gozar benefícios de um indulto, que a Nação chama de insulto e duas damas, Raquel Dodge e Cármen Lúcia, consideraram inconstitucional por tornar o crime compensação das agruras que o peso do poder impõe aos martirizados políticos nacionais.

O indulto, que alguns desaforados impenitentes apelidaram de insulto, trocando uma consoante e mofando da generosidade do chefe do Executivo, aliás, deu o que falar no Natal, em que o presidente disputou o título de Papai Noel do século, afastando competidores menos votados.

O pórtico do ano dito novo foi atravessado por uma semana de lambanças patrocinadas pela comemorada habilidade genial do constitucionalista de Tietê. A primeira foi nomear para a Secretaria de Governo, leia-se negociação com o Congresso, a começar pela emenda constitucional da reforma da Previdência, um político apropriado para estes tempos de “sou grande, sou bruto, sai da frente, senão atropelo”. Se o deputado de primeira legislatura Carlos Marun tivesse um brasão, este seria o dístico adequado. Em seu estilo de valentão do Cerrado, disse aos nove governadores do Nordeste que quem quiser financiamento de banco público tem de forçar a bancada do Estado a aprovar a reforma da Previdência. Sinceridade ou sincericídio? Franqueza ou estupidez?

Como se vê, o novo estafeta do presidente no reino das cumbucas não é propriamente uma figura hamletiana. Ele não tem dúvidas nem meias palavras. Com Marun, ou dá ou desce. A fama de Temer não era esta até ganhar as fatídicas votações em que sepultou a carreira de arqueiro de flechas de bambu de Janot. Mas estes são outros tempos. Agora, com o poder que emana de representantes que o povo elegeu e por eles tem sido desprezado, Temer ousou e não esperava ser desafiado.

O chefe do governo teve de engolir o insulto que disparou antes do aniversário do galileu porque não contou com a astúcia de duas damas, depois de ler uma carta de sete governadores que se sentiram agredidos pelo pitbull que mantém amarrado à porta de seu gabinete. E talvez perceba que gorou seu projeto de perdoar as multas dos criminosos de colarinho branco em nome da miséria dos pobres que cumprem penas a que não foram condenados ou que já foram cumpridas, no dizer de seu ministro da Justiça, Torquato, que está mais pra capoeira do que pra Jardim.

Circula nas redes sociais post (perdão pelo anglicismo inevitável) do portal O Antagonista atribuindo ao chefe dos Assuntos Jurídicos da Casa Civil, Gustavo do Vale Rocha, a autoria secreta do passo em falso. O moço foi, como se sabe, indicado para o prestigiado posto pelo presidiário Eduardo Cunha, com endereço certo e sabido numa certa cela em Curitiba, e goza de prestígio junto ao chefão geral. Mas isso não basta para incriminá-lo à falta de provas, claro. De toda maneira, contudo, sua simples presença num gabinete no Planalto é uma espécie de impressão digital do Caranguejo da Odebrecht, a quem também, não se pode esquecer, Marun sempre serviu com denodo de congregado mariano. Amém.

É, amigos, mesmo para quem tenha morrido em 2017, não vai ser fácil sobreviver em 2018 à sombra de tantas cicatrizes, rugas e marcas do ano passado. Haja pimenteira.

José Nêumanne Pinto

Jornalista, poeta, escritor.

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 1.º de janeiro de 2018)

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No Blog do Nêumanne: No fim destes últimos anos

No Blog do Nêumanne: No fim destes últimos anos

Com Odebrecht e Adriana em casa e Maluf se entregando à polícia, finda uma era

Definitivamente, é uma lástima irreparável que Eugène Ionesco e Franz Kafka tenham morrido. Eles deveriam ter sobrevivido para terem a oportunosa ensancha de testemunhar que o que era absurdo no seu banal século 20 virou literatura infantil no Brasil do século 21. No fim destes últimos anos aconteceram coisas que os autores de A Cantora Careca e O Processo não foram capazes de imaginar em seus delírios de ficção mais improváveis. Antes de o peru morrer de véspera, como de hábito, a 12 dias do término deste inesperado, mas nunca insuperável ano da desgraça de 2017, o Brasil testemunhou a última instância da Justiça mandar a Polícia Federal (PF) prender o ex-governador paulista Paulo Maluf e isso não ser feito porque ele se entregou antes à mesma repartição. E também mandar soltar a ex-primeira-dama do Rio Adriana Ancelmo no dia em que a primeira instância a condenou a mais nove anos de reclusão. Com mil e seiscentos diabos! – diria meu avô materno, Francisco Ferreira da Silva, que pode ter sido parente de Lampião, já que tinha os mesmos sobrenomes do capitão Virgolino.

Não se apresse em achar que, ao contrário do que está escrito no parágrafo anterior, estes últimos anos não findaram em 19 de dezembro de 2017 por terem sido poucos os absurdos que foram descritos. Antes espere um pouco. Enquanto o dr. Paulo se entregava à PF, esse órgão do Estado entregou o condenado Marcelo Odebrecht, da fina-flor da altíssima burguesia nacional, aos confortos de uma mansão no Morumbi para cumprir o resto de sua pena de delator premiado, agora aos cuidados amorosos da mulher e das filhas, as quais não perdoaria serem dedos duros, embora tenha apontado os dez à mão a sócios e beneficiários do maior escândalo de corrupção da História. E essa também foi a data em que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Gilmar Mendes, não deixou pedra sobre pedra dos processos que resultaram em prisões de réus confessos em celas que antes só eram ocupadas por pretos, pobres e prostitutas pelo crime inafiançável de não produzirem inquéritos policiais e investigações judiciais à altura de seus rigorosos códigos de conduta.

E teve ele, por isso, de ouvir dura, embora calma reprimenda de um colega de Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, que contou ter visto na televisão o ex-assessor do presidente da República Rodrigo da Rocha Loures, usado por um delinquente como código secreto para ter acesso aos aposentos presidenciais no Jaburu, correndo com uma mala de dinheiro à saída da Pizzaria Camelo, mais uma no reino das piadas prontas. E lido as copiosas confissões premiadas dos bandidos juramentados Alberto Yousseff e Lúcio Funaro, membros da nova confraria da religião do momento: a dos transformadores de propinas em doações legais e “expectativas de direito” em bancos no exterior. Sabe-se lá por que mistérios, não revelados nem a Freud no divã, este ministro omitiu os R$ 51 milhões em dinheiro vivo guardados no closet da mãe (não a menininha do Gantois de Amado e Caymmi) de Geddel, outro ex-assessor de Temer (mas que coincidência!), e Lúcio Vieira Lima, da bancada fiel ao governo do dito cujo presidente (mas que coincidência!).

O mundo gira, a Lusitana roda e a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) presidida pelo senador Ataídes Oliveira, militante de um partido chamado da Social-Democracia Brasileira e soit-disant de oposição, produziu uma pérola em que os meliantes flagrados seriam perdoados e os agentes que os flagraram responderiam por sua supina impropriedade. Ora, direis, o relatório, da lavra do “gigante” (no dizer de Temer, mas que coincidência!) Carlos Marun, previa tudo isso, sim, mas ainda não era tempo de inovações tão radicais e, aí, foi atenuado. Tudo indica que, mesmo reescrito, o documento será destinado ao lixo e ao oblívio. E daí? Chegou a ser noticiado na véspera da posse de seu autor ser empossado na Secretaria de Governo de Temer (mas que coincidência!), com bênçãos e louvações do chefe testemunhadas pelos bajuladores de sempre e comemoradas na cela de Curitiba pelo ex-presidente da Câmara e ex-deputado Eduardo Cunha, que emprestou seu valet de chambre (criado de quarto) favorito ao poderoso chefão de todos eles, Michel Temer (mas que coincidência!). Marun, não se esqueçam, terá muito tempo ao longo de 2018 para embrulhar de novo o mimo para troiano que preparou às vésperas das festas do fim deste ano, que não mais fazem parte destes últimos anos que terminaram 12 dias antes do réveillon. Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá. E o Irajá, como sabemos, nem fica tão longe assim.

Há quem espere 2018 como o ano da redenção do cidadão, agora aliviado daquelas tais conduções coercitivas que juízes, procuradores e federais reservavam para os amigos do dr. Mendes, que as proibiu liminarmente a fim de lhes garantir o direito constitucional de ir e vir. Que importa se os cidadãos comuns, que pagam impostos e cumprem as leis do País, não podem circular por onde quiserem – seja porque há lugares perigosos e outros controlados pelo crime organizado propriamente dito?

Os esperançosos confiam que a eleição direta do presidente devolverá o poder à sociedade, usurpada por aqueles que se consideram seus representantes oficiais no tal do Estado de Direito. Ledo e Ivo engano! As opções na disputa presidencial se limitam aos ungidos pelos chefões dos mesmos partidos que decidiram que os caciques de sempre terão dinheiro e legenda, aos quais o acesso dos novatos e noviços será negado por çábia decisão preventiva, tomada no apagar das luzes deste ano de Maruns e Darcísios, com efeitos irremediáveis para outubro e novembro que evêm.

Nunca será demasiado agregar a este alerta outro ainda mais inquietante: o presidente a ser ungido pelo voto popular não se verá livre da ação do Legislativo apenas pelo fato de ter sido eleito pelo voto popular. Foi a tentativa de escapar dele que levou Jânio Quadros a renunciar em 1961. Foi a negativa de Collor, o primeiro presidente eleito depois de finda a treva do regime tecnocrático-militar de 1964/68, que o levou a pegar o boné e puxar o conversível, por decisão congressual. Essa prerrogativa foi que impôs a desastrada Dilma voltar à condição de aspirante a merendeira de escola pública. E o substituto dela, Temer (mas que coincidência!), dançar o xote miudinho seis meses antes do São João para impedir que as contas públicas nunca mais fechem, esmagadas pelo déficit previdenciário.

Duas novidades relevantes assomaram ao cenário na longa noite que foi o derradeiro dia destes anos recentes. A esperança do centro pagão, Geraldo Alckmin, do PSDB (ele mesmo!), vai passar o ano inteiro explicando como é que caiu naquela história de tudo está como dantes no “cartel” de Abrantes, repetindo a ladainha de que ele (leia-se o Estado de São Paulo) foi vítima dos “encartelados”. Será sempre um estorvo a superar e não faltará quem, como Chico Buarque, lembre que a falta de documentos comprobatórios em nada o absolve, já que não foram improváveis recibos de aluguel não pago suficientes para inocentar Lula. E aqui está o próprio para voltar a ser o vilão favorito que o mercado teme, mas bajula, quando não tem mais jeito, para assombrar. O Estado publicou na primeira página de sua edição de quarta-feira 20 de dezembro: Imagem de Lula melhora, diz pesquisa. E cito a chamada: “A aprovação do ex-presidente Lula chega a 45%, mas ele ainda é desaprovado por 54% dos entrevistados, segundo o Barômetro Político Estadão/Ipsos”. Hã, hã! Ei, espere aí: sabia que a desaprovação dos queridinhos do chamado centro-direita é muito maior? Pois é. Jair Bolsonaro, com 62% e o dito picolé de chuchu, com 72%. E agora, José? Agora não é nada nesta situação de farinha pouca, meu pirão primeiro. Serão 12 longos meses de Lula chorando pitangas na campanha antecipada que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a partir de fevereiro, “sobre” (apud Fernando “por qué no te callas” Segóvia) a égide de Luiz Fux, não vai reprimir mesmo. Quem aceita apostar? E mais: já pensou na banda de música da esquerda tocando a fanfarra do cartel das empreiteiras cada vez aumenta mais?

Agora em dezembro, quando o peru condenado será executado sem conhecer o seu destino, a Pátria amada, idolatrada, salve, salve, talvez não tenha muito a festejar no ano em que já estarão encerrados estes últimos anos, que, felizmente, não serão os anos finais da vida de muitos de nós.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, da segunda-feira 25 de dezembro de 2017)

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Resenha no Aliás, do Estadão: O mártir que morreu três vezes

Resenha no Aliás, do Estadão: O mártir que morreu três vezes

Livro relata a saga de Che Guevara, morto em Cuba, Congo e Bolívia

A paixão assemelha-se a um farol sobre um penhasco cuja iluminação provém de fogo vindo do mais imo do núcleo da Terra. No mar revolto o náufrago pode encontrar nele o rumo da pedra que evite seu afogamento ou, se olhar fixo em sua direção, perder a rota e afundar no pélago. Foi com esse pensamento entre luminoso e tétrico que dei por finda a leitura de As Três Mortes de Che Guevara, de Flávio Tavares.

Final. Corpo do guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara exposto publicamente em 10 de outubro de 1967, em Vallegrande, na Bolívia

Final. Corpo do guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara exposto publicamente em 10 de outubro de 1967, em Vallegrande, na Bolívia

Só a biografia do autor já recomenda vivamente a leitura. Tavares é um jornalista competente e provado nas batalhas da reportagem cotidiana. Pousou em território mexicano por circunstâncias fortuitas: militante da esquerda armada, sob a égide do socialismo moreno do caudilho Leonel Brizola, também ele gaúcho, foi preso, condenado e torturado nas masmorras da ditadura militar até ter seu nome contemplado entre os guerrilheiros trocados pela vida do embaixador americano Charles Elbrick,  sequestrado por um grupo de românticos aventureiros da Dissidência do Partido Comunista Brasileiro na Guanabara, com a ajuda e as armas da Aliança Libertadora Nacional (ALN). Embarcou apátrida para Cuba e de lá foi para o México, onde iniciou carreira bem-sucedida de correspondente internacional do jornal Excelsior, fixando-se depois em Buenos Aires, de onde também produziu reportagens como correspondente deste Estado. De sua experiência nos porões da ditadura brasileira extraiu uma obra-prima da literatura da saga guerrilheira, Memórias do Esquecimento, cujo primoroso estilo foi chamado de “Notas de Subterrâneo, de Dostoievski, na América do Sul”, pelo argentino Ernesto Sábato, de inconteste autoridade em matéria de prosa. E não se trata de um elogio descabido.

Com esse cabedal, o autor escreveu Meus 13 dias com Che Guevara, deixando claro desde então que, se Brizola era seu chefe, seu herói era o argentino que conhecera numa reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA) em Montevidéu, em 1961. Ao conhecimento e ao currículo o autor acresceu uma ideia-mãe genial, ao propor o relato das três mortes do mártir-mor da esquerda nos anos 60. A primeira ocorrera em Havana, quando o velho amigo e companheiro de Sierra Maestra Fidel Castro se viu obrigado a se livrar dele para não criar mais problemas com o patrão soviético, que Che havia preterido em prol do inimigo chinês. A segunda se deu no Congo, uma aventura suicida e surrealista em busca de um ideal perdido no continente africano. A terceira, e definitiva, teve lugar num ermo perdido dos Andes bolivianos, onde foi executado. Desde então, sua imagem passou a ser confundida com a do Cristo morto, quadro de Mantegna exposto na Pinacoteca de Brera, em Milão, repetido na imagem da máscara mortuária do guerrilheiro abatido na selva sul-americana.

Alusão. ‘Lamentação sobre o Cristo Morto’ (1475-78), de Mantegna. PINACOTECA DE BRERA/MILÃO

Alusão. ‘Lamentação sobre o Cristo Morto’ (1475-78), de Mantegna. PINACOTECA DE BRERA/MILÃO

Ao longo da narrativa o fogo da paixão de Tavares alumiou o naufrágio de Che Guevara relatado num estilo literário irretocável. Mesmo um leitor afeito à descrição do mártir como um assassino serial bruto e implacável, que Guevara também foi, não se pode queixar em minuto algum da narrativa em que o romantismo da fé se mistura  com a decepção do devoto com a teimosia de “fé cega, faca amolada” do protagonista. Este recusou conselhos sábios de guerrilheiros africanos e nunca pareceu perturbar-se com as evidências de que o velho companheiro Fidel Castro o condenaria à morte para se livrar do estorvo vivo. E, ato contínuo, aproveitar-se de sua transformação em ícone eterno de uma revolução que trocara o romantismo pela boçalidade, investindo na hagiografia de um companheiro sacrificado pela causa comum.

Foto de arquivo. Estadão.

Foto de arquivo. Estadão.

O capítulo sobre o Congo poderia servir de roteiro para um filme de aventuras à feição de Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, talvez mais atraente do que a produção sobre a viagem de motocicleta do herói quando jovem. A estupidez inimaginável de nunca ter percebido que caíra numa armadilha quando, tendo aprendido quéchua, foi abandonado numa remota região boliviana em que se falava guarani poderia servir de inspiração a Jorge Semprún, autor do romance A Segunda Morte de Ramón Mercader, em cujo título Tavares se inspirou.

As Três Mortes de Che Guevara provoca uma leitura apaixonante por tudo o que há de verdade e emoção na vida de um líder que alcançou o poder por caminhos improváveis e encontrou a morte pela obstinação cega e inconsequente de um espírito aventureiro, rebelde e autocomplacente.

José Nêumanne Pinto

  • Jornalista, poeta e escritor

Print da página do Aliás, do Estadão.

Resenha publicada  no caderno Aliás no Estadão, em 12 de novembro de 2017.

Sinfac Sp: Palestra de José Nêumanne Pinto

Sinfac Sp: Palestra de José Nêumanne Pinto

 

 

Palestra em Piracicaba: Pinga, bola e moda de viola

Palestra em Piracicaba: Pinga, bola e moda de viola

Para suportar as doenças institucionais do Brasil só com uma boa pinga produzida pelo centro acadêmico de excelência de nossa agro-indústria.

A tentativa apressada e desesperada da Câmara dos Deputados de aprovar e passar para o Senado Federal a batata quente de uma reforma constitucional alterando os sistemas eleitoral e de governo e garantindo financiamento para suas campanhas bilionárias é uma forma de usurpação do poder popular. Apesar da pressão exercida pela sociedade, que já compreendeu o alcance do golpe que está sendo aplicado neste momento por meios cínicos e escusos, o que, pelo menos até agora, impediu que o plenário da Câmara aprovasse com três quintos (308) do total dos votos, essa ignomínia, o que está sendo feito inspira-se obviamente na tática bolivariana que transformou a vizinha Venezuela numa ditadura.

De início, os desprezíveis deputados tentaram repetir até o sistema eleitoral que levou o país avassalado por Hugo Chávez e Nicolás Maduro à situação atual: a tal da lista fechada. Quando o Brasil ainda vergava sob a falta de liberdade na ditadura militar, a Venezuela era governada por um Estado de Direito, mas de aparências. O voto era administrado por elites excludentes, corruptas e submetidas ao poderio do maior comprador de seu único produto de exportação: todo o petróleo para os Estados Unidos. A ditadura partidária exercida pela AD social-democrata e pelo Copei socialista cristão terminou ruindo sobre seus pés de barro e permitindo a escalada da ditadura esquerdista apoiada pelas forças armadas e pelos mais pobres, que se sentiam injustamente excluídos dos benefícios do regime.

A agonia do Estado patrimonialista brasileiro, em palestra para a Acipi Foto: Moreno/Acipi

A agonia do Estado patrimonialista brasileiro, em palestra para a Acipi Foto: Moreno/Acipi

Os parlamentares brasileiros não conseguiram impor o sistema de lista fechada, que funciona bem em países parlamentaristas, como a Alemanha, mas se mostra nefasto em nações de instituições frágeis como a nossa. No entanto, a lista foi imediatamente substituída pelo “distritão”, com o qual os hierarcas partidários pretendem manter-se eternamente no poder por um truque de mera aparência democrática. Isso foi desmascarado por brasileiros democratas e decentes e a proposta tem sido modificada de acordo com as possibilidades de sua aprovação. O mesmo acontece com a ideia absurda de um fundo de nome bonito de sustentação da democracia, mas que serviria apenas para manter o esquema de corrupção que contaminou a última eleição presidencial, seja na campanha dos vencedores governistas, seja na da falsa oposição comprada a peso de propinas.

Palestra no auditório da Universidade Metodista de Piracicaba em 12/08;2017. Foto:Marcelo GermanoAcipi

Palestra no auditório da Universidade Metodista de Piracicaba em 12/08/2017. Foto:Marcelo GermanoAcipi

Tive a oportunidade de denunciar esse esquema escabroso de furto do voto popular numa palestra no tradicional Congresso Empresarial, que a Associação Comercial e Industrial de Piracicaba, no interior paulista, tem realizado nos últimos 20 anos, com muito sucesso. Usei a oportunidade para recorrer a uma metáfora apropriada: a luta verdadeira hoje se trava entre as forças empreendedoras de cidades como a que visitei esta semana e os parasitas sanguessugas de Brasília, que só cuidam de depauperar a seiva da produção econômica e da liberdade política para enriquecer por meios ilícitos. Isso funciona desde o século 19, nos estertores do Segundo Império, como foi descrito pelo gênio de Machado de Assis numa crônica para jornal em que definiu o embate entre o País oficial e o Brasil real. E hoje também retrata ao desmanche do Estado patrimonial brasileiro em estágio agônico, provocado pela ambição desmedida e pelo desprezo pela moral e pelos bons costumes de elites cínicas, viciadas e corrompidas.

O público, no imenso auditório da Universidade Metodista de Piracicaba, foi composto por mais de 600 empresários, estudantes, professores, intelectuais e militantes políticos. No prazo reservado às perguntas e respostas, pude sentir o pulso da opinião pública no interior de São Paulo. Na capital da cultura caipira paulista, aprendi que o brasileiro mais impopular atualmente é o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Gilmar Mendes, também ministro do Supremo Tribunal Federal. Mendes chega a ser menos popular do que Michel Temer, o presidente mais impopular da História. E do que Aécio Neves, que hoje simboliza a frustração do cidadão brasileiro em relação a uma oposição pela qual este pretendia ser representado, mas que terminou traindo a Nação por papel moeda em profusão em mochilas. Na ocasião foi presenteado com uma camisa do tradicional time de futebol do 15 de Piracicaba e uma garrafa da cachaça especial produzida num dos maiores centros de excelência acadêmica, em torno do qual se formou a tradição da agroindústria produtiva e vanguardista do Brasil de hoje, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – Esalq. Para aguentar o Brasil hoje, só com uma boa pinga das margens do Rio Piracicaba, celebrado nas modas de viola.

Do mesmo Congresso Empresarial também participaram o historiador da Unicamp Leandro Karnal, colunista do jornal O Estado de S. Paulo, e o comentarista de economia Ricardo Sardenberg, do sistema Globo de rádio e televisão.

*Jornalista, poeta e escritor

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