Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

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No Estadão: STF apenas suspendeu o golpe sujo no Congresso

No Estadão: STF apenas suspendeu o  golpe sujo no Congresso

José Nêumanne

Aliviada, Nação deve temer outros

que virão como conchavo da cúpula dos três Poderes

A apertada vitória – por 6 a 5 e 7  a 4 – da democracia, garantida pela Constituição, que desautorizou a reeleição dos presidentes do Senado e do Congresso, David Alcolumbre, e da Câmara, Rodrigo Maia, deve ser recebida com alívio. Mas não pode ser comemorada como definitiva. Não apenas pela margem, mas principalmente por circunstâncias e motivações do placar vitorioso.

Critica-se muito, e com toda a razão, a votação virtual, quase nunca virtuosa, de turmas e plenário do Supremo Tribunal Federal (STF). No caso, contudo, não é de todo improvável que o resultado fosse o inverso, ou talvez com um pouco mais de folga, se ela tivesse sido presencial. Os repórteres responsáveis pela cobertura do Judiciário não se enganaram quando previram a aprovação do relatório de Gilmar Mendes, que abriu larga margem na quinta-feira e só foi revertido no domingo à noite, no fechamento (ainda provisório) da questão. Protegida pelo anonimato de fonte, a posição  de ministros que votaram a favor da questão apresentada pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), sob a égide do delator do mensalão, Roberto Jefferson, não a assumiram, mas expressaram, em confiança, explicitamente.

Talvez numa sessão presencial esses ministros não tivessem mudado sua opção por mais um abandono de seu dever funcional de manter a letra da Carta Magna com a intenção de impor uma nova derrota humilhante ao presidente da República, Jair Bolsonaro, que só queria o impedimento da reeleição do filho de César Maia. A péssima repercussão desse lance de xadrez, contudo, os fez perceber que o motivo real do golpe poderia ser, de fato, seus membros não se arriscarem à abertura de processos de impeachment por algum deputado que ocupasse o lugar do atual presidente, que já deu provas de não estar disposto a abrir o processo contra o chefe do Executivo, e também contra alguns deles.

A reação à virada de mesa com o tabuleiro junto, da forma como foi feita, serviu para lhes mostrar que votar a favor do atropelamento da ordem constitucional vigente terminaria por dar mais força ao relator Gilmar. E reduzir o poder institucional do presidente neste biênio, Luiz Fux. A quem, aliás, restou decidir, em voto de Minerva. Ainda que tais conjeturas não passem de conversa de “perus” (que rondam rodadas de pôquer sem mexer nas cartas nem apostar), a votação à distância, tal como feita, permitiu pôr em questão algumas conclusões apressadas a respeito do comportamento nada ético dos componentes atuais do pretório que nada tem de excelso.

Alguns ingênuos incautos que acreditam em duendes na floresta e desconhecem a sabedoria popular, que reconhece que de boas intenções os cemitérios são lotados, reproduzem a baboseira de que a natureza vitalícia do posto supremo reduz a gratidão dos afilhados pela própria escolha por seus padrinhos. Com pressa natural em marinheiros de primeira viagem, o noviço da grei, Kassio Nunes Marques, fez tudo o que o patrono, Jair Bolsonaro, mandou e o padrinho, Gilmar Mendes, abençoou: retirar Maia do páreo e nele manter o fiel Alcolumbre. A vitaliciedade não garante a lealdade, mas interesses comuns inspiram obediência de afilhados. Toffoli, Ricardo Lewandowski e Alexandre de Moraes seguiram o relator com a desfaçatez própria de quem se sabe inalcançável pela cobrança cidadã.

Gilmar não se tornou adversário impenitente do combate à corrupção por zelo pela Constituição, mas por amor à própria gula. Toffoli é o principal avalista da aliança sórdida de Bolsonaro, seu amigo recente, e Lula, seu paraninfo desde sempre, de lhes garantir condições para disputarem segundo turno, conveniente, quiçá indispensável, para ambos, em 2022. Chegou a votar contra a própria decisão monocrática que interrompeu por seis meses as investigações de crimes financeiros contra o erário para evitar que Flávio Bolsonaro e Gilmar fossem investigados. Lewandowski associou-se a Kátia Abreu para permitir a Dilma Rousseff disputar (e perder feio) eleição para o Senado em Minas. Moraes nunca se desculpou por ter decretado censura vexatória à revista Crusoé para acudir o então presidente do STF, que lhe deu plenos poderes para investigar, julgar, condenar e punir a ousadia de publicar um documento de fé pública.

O decano Marco Aurélio Mello abriu a dissidência óbvia em favor do pedido do PTB e da letra constitucional, não por amor à plebe difusa e, para ele, ignara, que desprezou ao soltar o traficante André do Rap e ratificar seu voto na oportunidade de mudá-lo. Rosa Weber apegou-se à literalidade da regra, assim como antes dera voto decisivo para negar a possibilidade de prender condenado em segunda instância. Na presidência do STF, Cármen Lúcia permitiu a Renan Calheiros cuspir na decisão da Corte de desalojá-lo da linha sucessória presidencial.

Em 12 de julho, Bolsonaro terá mais uma chance de nomear um ministro do Supremo para chamar de seu. E este poderá dar o voto decisivo em eventual embate a se tornar necessário para enfrentar o acordão dos três Poderes pela impunidade dos compadritos desta republiqueta do conchavo.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na página A 2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 9 de dezembro de 2020)

Para ler no Portal do Estadão clique aqui. 

No Blog do Nêumanne: Gestão Bolsonaro despreza a vida

No Blog do Nêumanne: Gestão Bolsonaro despreza a vida

José Nêumanne

Presidente é, no mínimo, leniente com violência criminosa ao abolir rastreamento de armas compradas no comércio e liberar velocidade assassina em vias a pretexto de combater ‘indústria de multas’

Em 30 de julho passado, o Estadão publicou reportagem no noticiário policial intitulada Botucatu vive madrugada de terror com assaltos a agências bancárias, explosões e tiroteios. José Maria Tomazela, correspondente no interior paulista, informou: “Um suspeito foi morto e dois policiais ficaram feridos durante ataques de uma quadrilha com 40 integrantes; ação criminosa teve início por volta das 23h30 de quarta-feira, 29”.  Foram roubados R$ 2 milhões. Na terça-feira 1.º de dezembro, 30 homens fortemente armados puseram Criciúma (SC) em pânico, de madrugada, imobilizaram a Polícia Militar (PM), que não prendeu nenhum membro da quadrilha, apenas quatro cidadãos comuns que recolheram dinheiro no asfalto. Na madrugada seguinte, ocorreu em Cametá (PA) fato idêntico em todos os detalhes, menos dois: a quadrilha arrombou um cofre sem dinheiro e deixou um refém morto, na fuga.

Isso tudo é uma vergonha. Vergonha ainda maior porque não são  episódios isolados nem fortuitos. Há tempos organizações criminosas se aproveitam de deficiências de segurança de cidades interioranas, usando a estratégia que ficou conhecida como “novo cangaço”. É uma forma de glamourizar folclorizando iniciativas criminosas brutais com as quais buscam compensar a queda dos lucros provocada pela pandemia da covid-19. Seja como for, ninguém tem ouvido mais a cantilena de autoelogio do presidente Jair Bolsonaro e de seus comparsas sobre a “brava e eficiente” atuação do ministro da Justiça, André Mendonça. Segundo ele, superando o que diz ter sido fiasco do antecessor, o ex-juiz da Lava Jato Sergio Moro. Que o capitão usou como trunfo para conquistar votos contra a corrupção na eleição presidencial em que emergiu do baixíssimo clero no Congresso Nacional para o posto com o poder maior nesta insana república de trevas.

A expressão “novo cangaço” é usada, como lembrou o jornalista Artur Dapieve no programa Estúdio i, da GloboNews, como eufemismo. Folhetos de cordel, filmes de aventuras, incluído um premiado em Cannes, O Cangaceiro, de Lima Barreto, análises marxistas de “especialistas”, como Rui Facó (Cangaceiros e Fanáticos), canções de domínio e sucesso públicos e outros produtos de consumo de massa já se tinham encarregado de amenizar a brutalidade absurda dos cabras de Jesuíno Brilhante, Lampião e Corisco, tornando-a saga de aventuras e até de  heroísmo. Algo similar ao que é feito agora com o carinhoso diminutivo “rachadinha” para tornar o crime de que é acusado o primogênito do presidente, Flávio, mais palatável do que contratação de servidores fantasmas, peculato, ou seja, desvio de dinheiro público para proveito privado, extorsão, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

As invasões noticiadas e outras têm contado com a facilidade de as Polícias Militares não as combaterem como deveriam, o que, às vezes, não fazem por lhes faltarem homens e armas. Estas, modernas e pesadas, usadas nos assaltos, são geralmente furtadas dessas forças e também do Exército, o que ressalta a ineficiência de sua guarda para que se limite à defesa da sociedade. O silêncio das autoridades públicas que comandam as PMs e também do governo federal, que as trata como milícias populares armadas, é criminoso. Além de incentivar o uso de armas de fogo, seja imitando revólveres com os dedos, seja obstruindo os instrumentos de controle do comércio legal de armas de fogo no País. Em abril passado, a procuradora Raquel Branquinho afirmou, em ofício encaminhado ao Ministério Público Federal, que o presidente Jair Bolsonaro tinha violado a Constituição ao determinar ao Exército a revogação de portarias que facilitavam o rastreamento de armas e munição.

Em reação a tais portarias, publicadas pelo Exército em 17 de abril no Diário Oficial da União (DOU), o presidente escreveu em rede social que determinara a revogação das providências tomadas pela autoridade regular para rastrear armas adquiridas legalmente. Para a procuradora, há elementos que apontam a interferência de Bolsonaro em atos exclusivos do Exército. Na opinião dela, o episódio representa uma situação extremamente grave e tem o potencial de agravar a crise de segurança pública no País. Pela lei, ela informou, compete ao Comando Logístico do Exército Brasileiro fiscalizar produtos controlados, como armas e munições. O general Eugênio Pacelli, à época em que dirigia a Fiscalização de Produtos Controlados (DFPC) do Exército e determinou a adoção das normas por ela citadas, escreveu carta de despedida a colegas defendendo-as. Exonerado, havia ido para a reserva, conforme o DOU de 25 de março.

O deputado do baixíssimo clero que discursou na tribuna da Câmara em homenagem a Adriano da Nóbrega, quando este foi condenado e preso por homicídio e era suspeito de comandar a milícia de Rio das Pedras, nunca deixou de louvar o uso de revólveres e fuzis para “justiçamento”.

Da mesma forma, a queda de um ônibus irregular, dirigido por um motorista sem habilitação, em João Monlevade (MG), revela outra constante no discurso político e na ação do capitão de Artilharia, que admitiu ser seu ofício matar. Convém lembrar ainda a colisão de caminhão com ônibus, com 42 vítimas na manhã de 25 de novembro, no quilômetro 172 da Rodovia Alfredo de Oliveira Carvalho, em Taguaí, perto de Avaré (SP).

A proibição de rastreamento de armas legais e a redução da punição de motoristas infratores que provocam acidentes trágicos por abuso de velocidade em vias públicas ou rodovias, no mínimo, não recomendam Jair Bolsonaro como gestor público e justificam seu afastamento do cargo.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 7 de dezembro de 2020)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/gestao-bolsonaro-despreza-a-vida/

 

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Artigo no Estadão desta quarta-feira: A ignorância racista de Bolsonaro e Mourão

Artigo no Estadão desta quarta-feira: A ignorância racista de  Bolsonaro e Mourão

José Nêumanne

Ao negarem legado racista da escravidão,

presidente e vice se revelam seus arautos

Na quinta-feira 19, os brancos Giovane Gaspar da Silva, de 24 anos, policial militar temporário e, segundo a Polícia Federal, sem registro nacional para atuar como segurança, e Magno Braz Borges, ambos funcionários da Vector Segurança, mataram o soldador negro João Alberto Silveira Freitas. O massacre no estacionamento de uma loja do Carrefour em Porto Alegre provocou protestos a partir do dia seguinte, feriado da Consciência Negra em vários municípios brasileiros, incluindo São Paulo.

O presidente Jair Bolsonaro e seu vice, Hamilton Mourão, ambos da reserva do Exército, execraram esses protestos. “No Brasil não existe racismo”, pontificou o general. O capitão foi além ao comentar o fato, sem citar o nome da vítima, em suas redes sociais e em discurso em reunião virtual do G-20, afirmando que o Brasil é um país miscigenado e “foi a essência desse povo que conquistou a simpatia do mundo.” Disse ainda: “Contudo há quem queira destruí-la e colocar em seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre raças, sempre mascarados de ‘luta por igualdade’ ou ‘justiça social’. Tudo em busca de poder”. E mais: “Aqueles que instigam o povo à discórdia, fabricando e promovendo conflitos, atentam não somente contra a Nação, mas contra nossa própria História. Quem prega isso está no lugar errado, seu lugar é no lixo”.

Aprendi no curso primário do Grupo Escolar Jovelina Gomes, em Uiraúna (PB), que a escravidão dos indígenas foi meio dominante de produção agrícola e extração mineral na colônia, usado por colonizadores brancos desde a descoberta até o século 18, quando o marquês de Pombal o extinguiu. Os bandeirantes paulistas, grandes heróis da conquista dos territórios aquém da imensa costa, recorreram à prática nos séculos 16 a 18: Fernão Dias e Raposo Tavares são cultuados em nomes de escolas. O crudelíssimo Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, conhecido pela crueldade na captura dos nativos, é cultuado da mesma forma.

Proibidos pela coroa portuguesa de escravizar índios, os brasileiros entraram num dos capítulos mais infames da História da humanidade: o tráfico de escravos importados da África. Em compensação, aqui existiu um dos movimentos políticos de maior nobreza: o abolicionismo. Negros, como José do Patrocínio, e brancos, como Joaquim Nabuco, edificaram o que de mais nobre o gênero humano produziu no meio de tantos réprobos, como o mulato Chachá, riquíssimo mercador de escravos nascido na Bahia e morador durante a maior parte de sua vida em Angola, onde se aproveitava dos costumes das tribos locais para viver à tripa forra, como descreveu com brilho o poeta Alberto da Costa e Silva.

Nas noites de breu do sertão, ouvi na récita de cor de minha mãe, Mundica Ferreira Pinto, os versos inspirados de outro baiano, Castro Alves, narrando o horror desse comércio em seu poema antológico Navio Negreiro: “E existe um povo que a bandeira empresta/ Pr’a cobrir tanta infâmia e cobardia!…/ E deixa-a transformar-se nessa festa/ Em manto impuro de bacante fria!…/ Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,/ Que impudente na gávea tripudia?!/ …Silêncio!… Musa! chora, chora tanto/ Que o pavilhão se lave no teu pranto…// Auriverde pendão de minha terra,/ Que a brisa do Brasil beija e balança,/ Estandarte que a luz do sol encerra,/ E as promessas divinas da esperança…/ Tu, que da liberdade após a guerra,/ Foste hasteado dos heróis na lança,/ Antes te houvessem roto na batalha,/ Que servires a um povo de mortalha!…”. E Freitas seria massacrado na data dedicada a essa bandeira.

Joaquim Nabuco, vulgo Quincas, o Belo, político e diplomata abolicionista, marcaria sua passagem como autor da obra-prima literária Um Estadista do Império e condenou de forma implacável o modo irresponsável como a princesa regente Isabel aboliu a escravatura. Os negros forros saíram de senzalas humilhantes para o degredo do desemprego, da mendicância, da discriminação e da miséria como regra. Isso, é claro, não impediu a genialidade de afrodescendentes, como o maior dos escritores brasileiros, Machado de Assis, parceiro de Nabuco na criação da Academia Brasileira de Letras, Lima Barreto e Cruz e Souza, entre tantos outros. Também tinham origem na África tribal escravagista o engenheiro André Rebouças e o maior esportista brasileiro de todos os tempos, simplesmente Pelé.

Jair Bolsonaro, descendente de colonos italianos, não tem autoridade política nem pessoal para insultar, como o fez, brasileiros sensíveis que sabem que o legado histórico da escravidão negra assombra a realidade brasileira ainda hoje. Nada, portanto, o autoriza a considerar “lixo” o patrício que condene o abominável massacre de Porto Alegre como resultado dele. Ao eliminar o nome da vítima de sua manifestação execrável, ele deu força à expressão Homem Invisível, da lavra do norte-americano Ralph Ellison, como a mais completa definição de racistas que se escondem como “daltônicos”, entre os quais ele e seu vice-presidente, orgulhosos da própria ignorância e executantes de uma política que ignora a História para reproduzir suas infâmias.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estadão da quarta-feira 25 de novembro de 2020)

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No Blog do Nêumanne: Brasil e Amapá ao deus-dará

No Blog do Nêumanne: Brasil e Amapá ao deus-dará

José Nêumanne

Bolsonaro e Alcolumbre foram a Macapá em missão oficial inaugurar um gerador a Diesel e pedir votos para o irmão do beneficiário da fraude da eleição da Mesa do Senado, e o apagão continua

Em 3 de novembro, choveu forte no Amapá, e um incêndio na transmissora privada de eletricidade para a rede paralisou o fornecimento do Estado em cujo território corre o rio Oiapoque, no extremo norte do mapa do Brasil. No sábado 21, 17 dias depois, o presidente Jair Bolsonaro deu o ar de sua desgraça, inaugurou um gerador a Diesel, prometeu não cobrar a conta da luz que não foi entregue e pediu votos para José Samuel, irmão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, escolhido para o posto na Mesa em eleição fraudulenta com 81 eleitores e 82 votos. Pobre Amapá nas trevas, miniatura do Brasil, em cujo mapa no  extremo oposto fica o rio Chuí, durante o maior apagão de gestão da História.

Enquanto no Estado sem força, o povo sofre sem água nem urna e não se decidiu quem é o responsável pelo inferno de calor, treva e seca. E não faltam suspeitos. O primeiro deles é a privatização. A responsável pela transmissão de energia no estado do Amapá, desde 2008, é a Linhas de Macapá Transmissora de Energia, que até o ano passado pertencia à empresa espanhola Isolux, que venceu o leilão de privatização da Linhas de Macapá Transmissão de Energia em 2008, mas a transferiu no ano passado à Gemini Energia. A transmissão passou a depender de concessões de transmissão de empresas privadas, que não prestam o melhor serviço do mundo. O Valor Econômico informou que documentos do Ministério de Minas e Energia e do Operador Nacional do Sistema (ONS) atestam que a subestação atingida opera há mais de dois anos no limite de sua capacidade.

Da discussão em torno da privatização, quimera do liberal Paulo Guedes, que mantém o emprego, mas abandonou as convicções, a responsabilidade pelo caos é transferida para a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). É ocioso lembrar que as agências que, em teoria, fiscalizam as empresas para as quais foram repassadas subsidiárias das antigas estatais, sempre foram dirigidas por paus-mandados dos governantes federais de plantão. O caso mais angustiante, mas não o único, é o da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), dirigida pelo contra-almirante Antônio Barra Torres, negacionista e bajulador do presidente Bolsonaro. André Peppitone foi nomeado para a presidência da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em agosto de 2018 pelo ex-presidente Michel Temer. O diretor do ONS,  Luiz Eduardo Barata Ferreira, é petista, foi nomeado por Dilma Rousseff e reconduzido por Temer. Peppitone e Barata foram afastados dos cargos pelo juiz federal João Bosco Costa Soares Batista como óbvios culpados. E as diretorias foram mantidas por decisão do 1.ª Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF 1).

A mera leitura do parágrafo anterior permitirá ao leitor ter uma ideia do saco de gatos que mantém o povo de Macapá no inferno de Dante Alighieri na vida real. Aneel e ONS mantêm relações estreitas com o Ministério das Minas e Energia. O ministro é o contra-almirante Bento Albuquerque que, ao contrário de seu chefe imediato, o capitão Jair Messias, viajou para o Estado em pane duas vezes antes da terceira, agora em companhia do próprio no sábado passado. Dois dias antes, respondeu, meio irritado, a um repórter que ele já tinha cumprido seu dever ao mandar publicar no Diário Oficial instruções para a retomada da normalidade. Em seguida, outra chuva provocou mais um apagão. Que lambança, hein?

Na sexta-feira, 20, o presidente Bolsonaro recebeu no Palácio do Planalto o corregedor-geral do Tribunal de Justiça do Rio (TJ/RJ), desembargador Bernardo Garcez. Este fugiu da imprensa escondendo-se atrás de uma pilastra, onde, imaginou, não seria visto. Como lembrou O Antagonista, Garcez integra o órgão especial que julgará denúncia do MP/RJ contra o senador sonso Flávio Bolsonaro, primogênito do capitão.

No sábado, 21, após ter acompanhado o fiasco de candidatos por ele apoiados, de forma criminosa, em lives gravadas em próprios públicos, o chefe do governo foi a Macapá a convite do presidente do Senado e do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre. Este perdeu, em 2014, a eleição para o governo do Amapá e conquistou, em 2018, vaga para o Senado, cuja presidência ocupou em fevereiro de 2019 em eleição fraudada, na qual de um total de 81 senadores 82 “votaram”.

Na viagem-relâmpago dos dois presidentes de Poderes, Bolsonaro e Alcolumbre, foi inaugurado, pasme a Nação, um gerador a óleo Diesel, que não encerrou o calvário do rodízio de eletricidade. Pois a providência que o contra-almirante Bento, também protagonista do ridículo atroz, mandou publicar dela não deu cabo. O povo do Amapá, que garantiu a sobrevida de José Sarney na política, quando o ex-presidente foi enxotado do Estado em que reinava, o Maranhão natal, na certa não terá muito a se orgulhar do fato de ter fornecido a tragédia pronta para definir o país inteiro. Como faz com  fúria contra a imunização da covid-19, o chefe do Executivo fez propaganda do irmão do comparsa do Centrão, que preside o Legislativo, sem a menor cerimônia. E este não se fez de rogado ao produzir a pérola que não é besta de jogar aos porcos: “o maior prejudicado com o apagão é meu irmão”. Outra rima que não é solução. Essa versão nortista das irmãs Cajazeiras da telenovela O Bem Amado, de Dias Gomes, inspira Bolsonaro a usar sem medo de ser feliz a retórica de Odorico Paraguaçu, de Sucupira.

Em homeagem à “banana, menina, tem vitamina, engorda e faz crescer”, esta não é a republiqueta de bananas, mas, sim, o principado das trevas, sob um príncipe que dispensa o cérebro para governar com o fígado azedo. O coitado do Amapá continua ao deus-dará, produzindo mais uma mísera rima, que não é solução de nada. E o Brasil todo idem ibidem.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, segunda-feira 23 de novembro de 2020)

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Comentário no Jornal Eldorado: Noção de comércio de Bolsonaro é grotesca

Comentário no Jornal Eldorado: Noção de comércio de Bolsonaro é grotesca

O presidente Jair Bolsonaro voltou a afirmar em reunião virtual da cúpula do Brics que revelará “nos próximos dias” a lista dos países que compram madeira ilegal da Amazônia, O presidente disse que o País sofre com “injustificáveis ataques” em relação à região amazônica e ressaltou que algumas nações que criticam o Brasil também importam madeira brasileira ilegalmente da Amazônia. “Revelaremos nos próximos dias os nomes dos países que importam essa madeira ilegal nossa através da imensidão que é a região amazônica”, declarou em sua participação no encontro do com governantes de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. “Porque daí sim estaremos mostrando que estes países, alguns deles que muitos nos criticam, em parte têm responsabilidade nessa questão”, emendou. Sua noção de comércio é grotesca.

Para ouvir comentário clique no play abaixo:

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Assuntos para comentário da quarta-feira 18 de novembro de 2020:

1 – Haisem – No Brics, Bolsonaro diz que países compram madeira ilegal do Brasil – Diz a manchete da edição impressa do Estadão de hoje. Você acha que ainda dá para se assustar com a os vexames internacionais que o presidente da República dá em eventos internacionais em plena pandemia

2 – Carolina – Flávio desviou 6 milhões de reais em ‘rachadinha’, diz MP – É título de chamada no alto da primeira página do jornal hoje. O que há de mais impressionante e relevante no noticiário sobre os crimes pelos quais o primogênito do presidente Jair Bolsonaro foi denunciado no Ministério Público do Rio de Janeiro

3 – Haisem – Apagão atinge todo o Estado do Amapá pela segunda vez – Este é o título de mais uma chamada no alto da primeira página do Estadão hoje. O que há, a seu ver, de mais assustador no descalabro de gestão que ocorre no extremo norte do Brasil

4 – Carolina – Brasil registra média móvel de 557 mortes; total passa de 166 mil – Este é título de chamada de capa do Portal do Estadão. Você se surpreende com a perspectiva cada vez mais real da segunda onda da covid-19 nesta chegada do verão

 

 

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