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No Blog do Nêumanne: Política sem pudor

No Blog do Nêumanne: Política sem pudor

Lançado à fama pela fantasia incompleta de Lilian Ramos num carnaval com Itamar, Valdemar dedica-se hoje à pornografia nos bastidores, em nome de uma sociedade de suspeitos e condenados chamada Centrão

Em fevereiro de 1994, o então presidente Itamar Franco foi fotografado por todos os repórteres fotográficos profissionais e amadores,paparazzi e que tais que cobriam o carnaval no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, na capital mundial do samba, São Sebastião (vade retro) do Rio de Janeiro. Sua mão direita foi flagrada enlaçada com a esquerda da modelo Lilian Ramos e com a direita mandava beijinhos. O inusitado é que as fotografias daquela ingênua alegria momesca só puderam ser publicadas com a tarja preta da censura. Pois a moça não dispunha de traje íntimo, por mais sumário que fosse, para esconder as partes pudendas. Providenciado pelo prestimoso deputado paulista Valdemar Costa Neto, então desconhecido, o vexame da bela ao lado sem tapa-sexo, habitualmente usado por figurantes nuas de escolas de samba que ali desfilavam, foi atenuado pelo fato de, à época, Itamar ser solteiro.

Itamar Franco nascera em alto-mar, navegando no Atlântico da Bahia para Minas e foi ali que fincou resistência e raízes políticas em Juiz de Fora, cidade onde, por acaso – e a deusa Clio, da História e do tempo (cronos), é pródiga nessas gracinhas –, nasceu Valdemar Costa Filho, pai do pareceiro presidencial. O Filho, que era pai, foi três vezes prefeito de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, onde se tornou chefe de clã, e secretário de Abastecimento numa gestão municipal de Paulo Maluf em São Paulo. Sem ter de purgar pecados pelo episódio do vexame fotografado, pois Itamar entregara a Presidência ao ex-ministro Fernando Henrique e ainda governaria Minas Gerais, derrotando o tucano Eduardo Azeredo, embora este tenha apelado no pleito aos serviços do mesmo Marcos Valério que urdiu o “mensalão”, Costa Neto pôde continuar sua carreira de alcoviteiro em nível mais elevado e lucrativo após trocar a passarela pelo palanque.

Pois em fevereiro de 2002, com a nudez revelada da amiga do insigne parlamentar completando a maioridade de 18 aninhos, o ás da imagem fixa no noticiário de O Estado de S. Paulo, Dida Sampaio, flagrou um cochicho amigável, e então absolutamente insuspeito, entre um ainda inimigo público de dr. Paulo e o filho de seu lugar-tenente em Mogi, dr. Valdemar Costa Filho. Dida tornou então, público sem querer, com o talento profético dos poetas da imagem, um teretetê de pé de orelha entre o então presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), José Dirceu, e o referido dito-cujo Valdemar Costa Neto, sempre tido e havido como Boy, seja pelo aspecto juvenil, seja pela presteza de entregador de pacotes.

Ali foi clicado o instante prévio do encontro a portas fechadas, portanto, distante da curiosidade do repórter fotográfico, em que a dupla do malufista de Mogi e o organizador do congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) que terminou nas celas de Fleury e Tuma firmou um pacto diabólico. No panorama descortinado da ponte daquele ano de 2002 se destacava o casório político em que Lula, o enfant terrible do PT, encomendava o terno de sua futura posse como presidente da República aos alfaiates de plantão na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), em plena Avenida Paulista, canteiro da mais fina-flor da burguesia nacional. Ao encontro o Boy não levava uma bela dama negligenciando parte relevante do vestuário mais pessoal. Mas, sim, a noiva que tornaria o tosco ferramenteiro candidato imbatível a ornar o próprio tórax com a faixa auriverde do poder republicano. Afastado do malufismo paterno, Neto era da bancada do Partido Liberal (PL), hoje da República (PR), sendo que nunca foi liberal nem será republicano. Com tal aliança o sindicalista feroz ganharia a confiança e as graças da cornucópia eleitoral que se autodenomina mercado. Dirceu e Valdemar foram indicados para escolher a almofada na qual se depositariam os aros dourados a serem levados à dupla a ser lançada: Lula e José Alencar, com quem nos reencontraremos no final deste texto, preclaro leitor.

Antes disso, retomemos o fio da meada. O cochicho fotografado e publicado, aparentemente um flagrante pitoresco das pouco confiáveis coligações que apoiam pretendentes ao poder da República, simbolizava outro tipo de conúbio: a mobilidade entre esquerda, direita e centro no aparelhamento descarado das agências reguladoras, que o tucano sociólogo havia inventado sem ajuda daqueles novos sócios – os sindicalistas do ABC com os empresários bem-sucedidos e evangélicos habituados à multiplicação de óbolos e sufrágios. Lula, após a Carta aos Brasileiros, por obra e mercê de Antônio Palocci, encontrava em Alencar o aval pessoal do dito PIB, para sossegar os outros sócios. E também o representante da palavra do dízimo. É claro que isso provocaria, e provocou, a ira sagrada dos bispos católicos que tinham abrigado os metalúrgicos na matriz de São Bernardo no momento de paixão, fé e amargura da greve na ditadura. Mas o operário braçal despia ali o macacão sujo de graxa do irado João Ferrador, ícone do grevista bravo no jornal dos metalúrgicos. E nada havia do lado de fora que os bispos da Santa Madre tivessem a abençoar.

O tucano da cátedra havia criado agências reguladoras para evitarem que o poder econômico de grandes empresas concessionárias, anabolizado com os serviços a serem prestados pela hierarquia partidária, comprada a peso de propina, esmagasse a economia popular, esfolando o cidadão, eleitor e contribuinte. Era programa a ser acompanhado por Lula e Fernando Henrique, mas à época em que o líder operário emergente apoiava o assessor sociológico do dr. Ulysses Guimarães para o Senado, ao qual chegaria pela via da suplência. E dali para o poder e a glória.

Na vida real, o cochicho de 2002 apitou o começo do jogo do PT com os novos pareceiros com os quais comporia o chamado “mensalão”. O resultado chegou aos nossos dias e ultrapassou os portais do “golpismo” de Temer: dos 40 diretores das oito agências principais, 35 são apadrinhados por partidos, segundo reportou O Globo em editorial na semana passada. Nestes 16 anos, onde estava o Banco Central, que não coibiu nem puniu  a lavagem de dinheiro investigada na Lava Jato?

Só para ilustrar, um grãozinho de areia nesse deserto de corrupção: as empresas de Alberto Youssef mantiveram contas em bancos por períodos superiores a três anos. Onde estava a fiscalização do Banco Central? Corretoras de valores e bancos não estão também sujeitos às normativas relacionadas à lavagem de dinheiro. Recentemente, este Estado noticiou que a Receita Federal encontrou indícios que apontam para a responsabilidade de instituições financeiras em crimes investigados na Lava Jato. Para o fisco, os bancos não foram “diligentes” na adoção de políticas, procedimentos e controles internos.  Não foram mesmo!

E o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que é subordinado ao Ministério da Fazenda? Bilhões de reais em cédulas circularam por aí em malas, cuecas, meias, etc. Qual a origem desse dinheiro? Como pode o Coaf não ter desconfiado de nada?

E a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que deixou passar uma manada de elefantes e nada viu ou fez? Petrobrás, Eletrobrás, JBS,  Braskem, por exemplo, são empresas abertas sob a fiscalização da CVM. E onde estava a Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc), vinculada ao Ministério da Fazenda para fiscalizar os fundos de pensão, que não fiscalizou os fundos de pensão estatais que  causaram prejuízos de R$ 8 bilhões a seus associados? Em fevereiro passado, a 34 anos do carnaval de Lilian Ramos e 16 do cochicho fotografado, este jornal informou que o Ministério Público investiga se a CVM e a Previc falharam ao não conseguirem impedir o rombo de R$ 5,6 bilhões no fundo de pensão dos Correios, o Postalis. Segundo o procurador federal Ivan Cláudio Marx, a Previc e a CVM foram envolvidas no esquema e possibilitaram  que o crime prosperasse.

Calma. Não termina aí. Tem mais. Em 2010, o então presidente Lula pediu ao Tribunal de Contas da União (TCU), pelos jornais, vista grossa em obras da Copa. Está claro que houve nessas agências uma contaminação generalizada do aparelhamento do Estado. Mas vamos combinar: essa incompetência foi deliberada!!! Elas foram instigadas a nada fiscalizar!

Valdemar Costa Neto, sempre Boy, apoia Alckmin para presidente. Seu vice favorito é Josué Gomes da Silva, filho de José Alencar, duas vezes vice de Lula. Ou seja: está tudo como dantes no “cartel” de Abrantes…

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda 30 de julho de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/politica-sem-pudor/

Comentário no Jornal Eldorado: “Cale-se” por Lula?

Comentário no Jornal Eldorado: “Cale-se” por Lula?

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, fez muitíssimo bem ao pedir à Justiça o ressarcimento do uso de dinheiro público em fundos partidários e eleitorais por candidatos que não podem ser votados e também que esclareça, de uma vez por todas, as condições de elegibilidade de candidatos condenados em segunda instância, como é o caso de Lula, que, aliás, promulgou a Lei da Ficha Limpa, de iniciativa popular e aprovada pelo Congresso. Esclarecer se um eleitor pode ou não votar num político para qualquer cargo é direito do cidadão e dever de um Poder Judiciário que, de acordo com a presidente do STF, Cármen Lúcia, nunca pode ser desafiado e sempre tem sido criticado quando acerta.

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – 107.3 FM – na segunda-feira 30 de julho de 2018, às 7h30m)

Para ouvir, clique no play abaixo:

Ou clique no link abaixo e, em seguida, no play:

https://soundcloud.com/jose-neumanne-pinto/neumanne-300718-direto-ao-assunto-1

Para ouvir Cálice com Chico e Gil no Lula Livre, clique no link abaixo:

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/video-no-festival-lula-livre-chico-e-gilberto-gil-cantam-afasta-de-mim-este-calice/

Para ouvir no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/cale-se-por-lula/

Abaixo, os assuntos do comentário da segunda-feira 30 de julho de 2018

SONORA Chico e Gil Cálice

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/video-no-festival-lula-livre-chico-e-gilberto-gil-cantam-afasta-de-mim-este-calice/

1 – Há alguma chance real de a procuradora-geral da República Raquel Dodge conseguir o ressarcimento aos cofres públicos de valores usados pelos partidos do Fundo Eleitoral e do Fundo de Campanha para financiar  candidaturas de políticos de ficha suja?

2 – A presidente do Supremo Tribunal Federal, quando estava no exercício da Presidência da República, devido à ausência do titular, Michel Temer, que foi à reunião do G 20 na África do Sul, pontificou que o Judiciário é mais cobrado quando ele acerta. Até que ponto ela tem razão?

3 – A seu ver, o desabafo de Cármen Lúcia tem algo a ver com a denúncia feita pela revista virtual Crusoé do site O Antagonista, que revelou na capa de sua edição semanal uma mesada de 100 mil reais suspeita paga a seu colega Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, pela própria mulher?

4 – Que alerta fez o ex-ministro do Trabalho e ex-presidente do Tribunal Superior do Trabalho Almir Pazianotto Pinto em seu artigo na página 2 do Estadão de sábado passado, 28 de julho?

5 – A manchete do Estadão de ontem registra que “indefinição eleitoral paralisa negócios e trava economia”. Você espera para quando a definição das eleições gerais, particularmente no que diz respeito à disputa pela Presidência da República, e até que ponto pode chegar essa paralisia?

6 – O caderno de Metrópole do Estadão de anteontem “manchetou” a constatação de uma das mais trágicas conseqüências do colapso de saúde pública no Brasil: “Mortalidade infantil cresce em 1 de cada 3 cidades paulistas”. A volta de doenças que há muito tempo estavam afastadas de nosso cotidiano, como sarampo, poliomielite e outras, seria o sinal de que o Brasil está dando marcha à ré até em pontos tão cruciais quanto o são estes?

7 – A prisão pela polícia cearense de suspeitos pela autoria de atentados contra ônibus e prédios públicos na capital e em outras cidades nos últimos dias da semana passada, podem, afinal, tranqüilizar a população do Estado, em geral, e de Fortaleza, em particular, como uma espécie de prenúncio de, enfim, a paz e o sossego público?

8 – Qual é a conexão que existe entre a censura do tempo da ditadura e o atual clima político no Brasil que tornou possível o festival Lula Livre nos Arcos da Lapa no Rio e a nova execução do clássico Cálice nas vozes de Chico Buarque e Gilberto Gil no sábado?

No Blog do Nêumanne: O Congresso é dos marajás

No Blog do Nêumanne: O Congresso é dos marajás

Com um quarto dos deputados e o presidente da República servidores, lobby dos marajás do serviço público manda no Congresso, impede as reformas e escraviza os pobres brasileiros, incluídos barnabés

Quando o presidente da Constituinte, da Câmara e do partido no governo, o então PMDB e hoje MDB, Ulysses Guimarães, batizou a Constituição de “cidadã”, o velho timoneiro não se referia à cidadania em geral. Mas a brasileiros de primeira classe, detentores de privilégios no Estado estroina dos marajás. Desde sua promulgação pelo Congresso, que não fora eleito para produzir uma Carta Magna na qual todos os brasileiros fossem iguais perante a lei, o documento, aguardado à época da ditadura militar como se pudesse vir a ser a panaceia universal dos problemas nacionais, dividiu a Nação em duas bandas. De um lado, os que podem tudo e, do outro, os que sobrevivem do que podem, quase sempre pouco, muitas vezes nada.

Esta realidade, paradisíaca para os mandatários dos Poderes Executivo e Legislativo e os potentados apadrinhados do Judiciário, vem ao longo do tempo restaurando a escravidão, desta vez multirracial. Nela o Brasil real sustenta o outro, um país oficial insensível, corrupto e impune, à custa de sangue, suor e lágrimas. Tudo isso acaba de ser revelado numa crua e muito corajosa iniciativa do jornalismo brasileiro: a série Eleições 2018. Os donos do Congresso, do Estadão/Broadcast, iniciada com a reportagem intitulada, na manchete de primeira página deste jornal de domingo 22 de julho de 2018, Servidores têm maior e mais poderosa bancada na Câmara. Essa casta, e não a massa dos funcionários antigamente chamados de “barnabés”, que pertencem à banda espoliada, acaba de enterrar as votações das reformas propostas pelo governo, em particular a da Previdência, e de patrocinar o assalto de R$ 100 bilhões das pautas-bombas no Congresso.

Segundo reportaram Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, da sucursal de Brasília, “a bancada do funcionalismo público na Câmara age sem alarde, mas é considerada atualmente o lobby mais poderoso do País”. Seu poder é inusitado: “dos 513 deputados, 132 são servidores – um em cada quatro”. E não servem: servem-se!

Já na primeira página o leitor deste jornal foi informado de que esse lobby voraz e implacável está longe de obedecer a qualquer proporcionalidade do conjunto da sociedade: ele “representa 11,5 milhões de pessoas, ou 5,5% da população”, revela a reportagem. E em nome do amplo espectro ideológico da política, “do PT ao PSDB, passando por PSOL e DEM”, dinamitou, além da reforma da Previdência, as tentativas de salvar as contas públicas de sua sanha com a reestruturação das carreiras, que limitaria o salário inicial da maioria das corporações que o mantêm. Une políticos e burocratas suspeitos de grossa corrupção e juízes que a combatem, mas não abrem mão de auxílio-moradia e outros absurdos.

Ninguém tem peito para enfrentá-lo. Um exemplo claro disso percorre o noticiário político desde sempre e particularmente nestes dias em que se disputam eleições gerais, principalmente a que levará ao trono presidencial o novo ungido do povo e é vendida como a solução final do voto legítimo.

Assim como a esdrúxula, enxundiosa e monstruosa Constituição de 1988, que consagrou a nova nobreza, espera-se que dela surja alguém que evite a dilapidação do erário com uma varinha de condão que elimine a necessidade urgente de rolar até a eternidade uma dívida que se torna impagável. Há uma miríade de pretendentes ao cargo de mago da Corte. Mas nenhum deles ergueu um dedo para recriminar os agentes dessa enfermidade institucional de gravidade mortal que aumentou as despesas do Orçamento sem apontar a fórmula mágica para pagá-las.

Lula, favorito nas pesquisas, está preso e é inelegível, mas nenhum “supremo” magistrado do império do faz de conta bate o martelo para pôr fim à farsa de sua pretensão. Bolsonaro, o deus ex machina dos nostálgicos da ditadura militar, faltou às sessões da derrama fiscal alegando que tinha mais o que fazer em palanques.

O tucano Alckmin mandou às favas não apenas os escrúpulos, como dizia o coronel Passarinho, corneteiro da fanfarra armada, mas o discurso com que seu partido disputou a última eleição presidencial, fingindo combater a corrupção enquanto se lambuzava no melado jogado pelos adversários aos cães. Em troca de pratos de lentilhas, a serem servidos no horário nada gratuito no rádio e na TV, trocou alianças com condenados do mensalão, Valdemar Costa Neto e Roberto Jefferson, e suspeitos do petrolão, Kassab, Paulinho da Força e o time de Temer, o presidente mais impopular da História. É o mal lavado compartilhando o cocho dos sujos.

Entre os expulsos da comilança, Marina esgueira-se nas sombras, pretendendo ser lembrada assim que for esquecida. Meirelles, favorito de Lula do PT e queridinho do mercado, parece disputar votos na Tailândia, escondido numa caverna. E Ciro, o coronel de Pindamonhangaba e do Ceará, investe contra o “baronato”, insulto a que os verdadeiros barões do Estado podre apelam para confundir e, com isso, assumir o que ainda restar de migalhas do queijo em decomposição.

O deputado Rogério Rosso (PSD-DF), dos poucos porta-vozes assumidos da bancada dos mandarins de estatais e autarquias, disse que “talvez o governo a tenha subestimado”. Temer, que, aliás, é funcionário público e nessa condição goza das benesses da aposentadoria de luxo paga pelos pobretões e desempregados, entre outras vítimas, inventou uma intervenção militar na Segurança do Rio apenas para não herdar o ônus desse desengano.

Nada podemos fazer nós outros, que pagamos as contas dos furtos da Petrobrás, da merenda escolar e da máfia dos vampiros e o mico de não escaparmos de ver o maganão petista José Dirceu, torso nu ao sol, sem algemas nem tornozeleiras, numa praia baiana, mercê de ex-serviçal que ainda lhe serve na cúpula da Justiça (?). Dormimos indignados e acordamos omissos, definiu, sem felicidade nenhuma, o político Eduardo Jorge. E o que mais?

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. 2A do Estado de S. Paulo da quarta-feira 25 de julho de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/o-congresso-e-dos-marajas/

No Estadão desta quarta-feira: O baronato das castas que a Nação sustenta

No Estadão desta quarta-feira: O baronato das castas que a Nação sustenta

Marajás do serviço público vivem à tripa-forra, sustentados pelo povo escravizado

Quando o presidente da Constituinte, da Câmara e do partido no governo, o então PMDB e hoje MDB, Ulysses Guimarães, batizou a Constituição de “cidadã”, o velho timoneiro não se referia à cidadania em geral. Mas a brasileiros de primeira classe, detentores de privilégios no Estado estroina dos marajás. Desde sua promulgação pelo Congresso, que não fora eleito para produzir uma Carta Magna na qual todos os brasileiros fossem iguais perante a lei, o documento, aguardado à época da ditadura militar como se pudesse vir a ser a panaceia universal dos problemas nacionais, dividiu a Nação em duas bandas. De um lado, os que podem tudo e, do outro, os que sobrevivem do que podem, quase sempre pouco, muitas vezes nada.

Esta realidade, paradisíaca para os mandatários dos Poderes Executivo e Legislativo e os potentados apadrinhados do Judiciário, vem ao longo do tempo restaurando a escravidão, desta vez multirracial. Nela o Brasil real sustenta o outro, um país oficial insensível, corrupto e impune, à custa de sangue, suor e lágrimas. Tudo isso acaba de ser revelado numa crua e muito corajosa iniciativa do jornalismo brasileiro: a série Eleições 2018. Os donos do Congresso, do Estadão/Broadcast, iniciada com a reportagem intitulada, na manchete de primeira página deste jornal de domingo 22 de julho de 2018, Servidores têm maior e mais poderosa bancada na Câmara. Essa casta, e não a massa dos funcionários antigamente chamados de “barnabés”, que pertencem à banda espoliada, acaba de enterrar as votações das reformas propostas pelo governo, em particular a da Previdência, e de patrocinar o assalto de R$ 100 bilhões das pautas-bombas no Congresso.

Segundo reportaram Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, da sucursal de Brasília, “a bancada do funcionalismo público na Câmara age sem alarde, mas é considerada atualmente o lobby mais poderoso do País”. Seu poder é inusitado: “dos 513 deputados, 132 são servidores – um em cada quatro”. E não servem: servem-se!

Já na primeira página o leitor deste jornal foi informado de que esse lobby voraz e implacável está longe de obedecer a qualquer proporcionalidade do conjunto da sociedade: ele “representa 11,5 milhões de pessoas, ou 5,5% da população”, revela a reportagem. E em nome do amplo espectro ideológico da política, “do PT ao PSDB, passando por PSOL e DEM”, dinamitou, além da reforma da Previdência, as tentativas de salvar as contas públicas de sua sanha com a reestruturação das carreiras, que limitaria o salário inicial da maioria das corporações que o mantêm. Une políticos e burocratas suspeitos de grossa corrupção e juízes que a combatem, mas não abrem mão de auxílio-moradia e outros absurdos.

Ninguém tem peito para enfrentá-lo. Um exemplo claro disso percorre o noticiário político desde sempre e particularmente nestes dias em que se disputam eleições gerais, principalmente a que levará ao trono presidencial o novo ungido do povo e é vendida como a solução final do voto legítimo.

Assim como a esdrúxula, enxundiosa e monstruosa Constituição de 1988, que consagrou a nova nobreza, espera-se que dela surja alguém que evite a dilapidação do erário com uma varinha de condão que elimine a necessidade urgente de rolar até a eternidade uma dívida que se torna impagável. Há uma miríade de pretendentes ao cargo de mago da Corte. Mas nenhum deles ergueu um dedo para recriminar os agentes dessa enfermidade institucional de gravidade mortal que aumentou as despesas do Orçamento sem apontar a fórmula mágica para pagá-las.

Lula, favorito nas pesquisas, está preso e é inelegível, mas nenhum “supremo” magistrado do império do faz de conta bate o martelo para pôr fim à farsa de sua pretensão. Bolsonaro, o deus ex machina dos nostálgicos da ditadura militar, faltou às sessões da derrama fiscal alegando que tinha mais o que fazer em palanques.

O tucano Alckmin mandou às favas não apenas os escrúpulos, como dizia o coronel Passarinho, corneteiro da fanfarra armada, mas o discurso com que seu partido disputou a última eleição presidencial, fingindo combater a corrupção enquanto se lambuzava no melado jogado pelos adversários aos cães. Em troca de pratos de lentilhas, a serem servidos no horário nada gratuito no rádio e na TV, trocou alianças com condenados do mensalão, Valdemar Costa Neto e Roberto Jefferson, e suspeitos do petrolão, Kassab, Paulinho da Força e o time de Temer, o presidente mais impopular da História. É o mal lavado compartilhando o cocho dos sujos.

Entre os expulsos da comilança, Marina esgueira-se nas sombras, pretendendo ser lembrada assim que for esquecida. Meirelles, favorito de Lula do PT e queridinho do mercado, parece disputar votos na Tailândia, escondido numa caverna. E Ciro, o coronel de Pindamonhangaba e do Ceará, investe contra o “baronato”, insulto a que os verdadeiros barões do Estado podre apelam para confundir e, com isso, assumir o que ainda restar de migalhas do queijo em decomposição.

O deputado Rogério Rosso (PSD-DF), dos poucos porta-vozes assumidos da bancada dos mandarins de estatais e autarquias, disse que “talvez o governo a tenha subestimado”. Temer, que, aliás, é funcionário público e nessa condição goza das benesses da aposentadoria de luxo paga pelos pobretões e desempregados, entre outras vítimas, inventou uma intervenção militar na Segurança do Rio apenas para não herdar o ônus desse desengano.

Nada podemos fazer nós outros, que pagamos as contas dos furtos da Petrobrás, da merenda escolar e da máfia dos vampiros e o mico de não escaparmos de ver o maganão petista José Dirceu, torso nu ao sol, sem algemas nem tornozeleiras, numa praia baiana, mercê de ex-serviçal que ainda lhe serve na cúpula da Justiça (?). Dormimos indignados e acordamos omissos, definiu, sem felicidade nenhuma, o político Eduardo Jorge. E o que mais?

José Nêumanne Pinto

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. 2A do Estado de S. Paulo da quarta-feira 25 de julho de 2018)

No Blog do Nêumanne: Mãos e pés sujos de lama

No Blog do Nêumanne: Mãos e pés sujos de lama

Para tomar tempo em rádio e TV de seus adversários na eleição, Alckmin assumiu podres de corrupção, que não são só dele nem de outros tucanos, mas de aliados condenados no mensalão e acusados pela Lava Jato

As eleições, daqui a três meses, batem a cada dia que passa recordes de originalidade e baixo nível, que já eram extremos, das anteriores.

Conforme as pesquisas, o primeiro lugar no primeiro turno é ocupado por um preso que cumpre pena de 12 anos e 1 mês por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, decretada em primeira instância e confirmada por unanimidade na segunda. Ou seja, pela Lei da Ficha Limpa, de iniciativa popular, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo próprio condenado, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva – se os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário reconhecerem o primado do povo – é inelegível. Para que ele concorra, sua defesa, ativa na produção de recursos e chicanas em geral, teria de convencer o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF) a rasgarem a lei. E porão em dúvida as boas intenções de todos quantos a aprovaram e a firmaram, com bravatas retóricas e fanfarras ideológicas, que, então, pareceriam estelionato eleitoral da pior categoria.

Seria impossível? A História o nega. Há uma guerra suja na cúpula do Judiciário em torno da jurisprudência de 2016 que autoriza mandar um condenado começar a cumprir pena, enquanto lhe é garantido o direito de recorrer até o trânsito em julgado, do qual fala o artigo 5.º, parágrafo único, da Constituição federal (que não se refere à prisão ou liberdade, mas à culpabilidade, ou seja, negação da inocência). Arre, égua! Esses tribunais já passaram o texto constitucional a limpo a serviço dos chefes de facções partidárias que os tornaram “supremos” (leia-se acima do bem e do mal).

Ricardo Lewandowski, quando presidia o STF e, por isso, também a sessão do Congresso que depôs Dilma Rousseff da Presidência,em 2016, rasurou uma linha do artigo 52 só para permitir que a petista escapasse da punição de passar oito anos sem exercer cargos públicos. Seria injusto, segundo o jurisconsulto de São Bernardo do Campo, que madama não pudesse mais, coitadinha, ser “merendeira de escola”. Recentemente, um colega do rasurador, Dias Toffoli, mandou soltar o próprio ex-chefinho José Dirceu, condenado a mais de 30 anos de cadeia, tornando letra morta a jurisprudência acima citada e cuspindo no plenário ao qual comparece todos os dias úteis de seu ofício, tratando todos de Excelência e por todos sendo tratado com iguais pompa e circunstância. Ou seja, pode ser até difícil, mas impossível não é, se for considerada a ética duvidosa de quem nem sempre tem reputação ilibada e os notórios conhecimentos jurídicos exigidos. Toffoli, reprovado em dois concursos para juiz, será em breve presidente do órgão que se julga acima de todos e de tudo, aí incluída a lei.

Mas digamos que Rosa Weber no TSE e seu colega advogado João Otávio de Noronha no STJ em setembro cumpram seu dever e Toffoli resolva seguir os passos da companheira ao lado dele no plenário, não permitindo mais uma esquisitice em sua biografia. E, dessa forma, Lula, ainda que venha a ser libertado pelo antigo subordinado, não possa mesmo candidatar-se. Sobrariam, então, os que estão ali logo abaixo nas pesquisas.

Será que o capitão que promete enquadrar os “coronéis” (assim mesmo com aspas, pois Jair Bolsonaro não é besta de desafiar os antigos superiores de farda) e manterá o primeiro lugar na campanha, mesmo com os pífios sete segundos ao seu dispor no horário eleitoral nada gratuito, menos até do que os do famoso dr. Enéas? Para isso terá de contar com o apoio denodado da bancada da bala, que não dispõe de tempo no tal horário pago pelo bolso surrado do contribuinte. Será por isso que tem imitado revólveres com dedos que, nus, não disparam projéteis, mas têm uma enorme carga simbólica? Se não tivessem, por que ele repete tanto o gesto? Mas não é bom reclamar aqui, pois ele já definiu qualquer comentário racional contra o ato de matar com uma palavra pouco gentil: “frescura”.

O candidato dos nostálgicos de golpes passados chegou à convenção nacional, domingo, sem tempo nem vice para chamar de seus. A advogada Janaína Paschoal, uma das signatárias do impeachment de Dilma Rousseff, parece uma pareceira promissora, mas fez um discurso louco de tal lucidez que enfureceu os fanáticos da chapa, que se assume mais à direita de todas. Ela advertiu apenas que não se ganha eleição sem apoio nem se governa sem aliança. Só não dará para chamá-la de Conselheiro Acácio porque a personagem de Eça e a professora da USP são de gêneros diferentes. Certo é que, com ou sem o discurso rebelde da quase vice, e quase não, do capitão dos revólveres de dedos em mãos infantis, ele não conseguiu o apoio de nenhum outro partido, nem sequer os de um “centrinho” qualquer.

Foi esse também o caso de Ciro Gomes, o “coronel” a quem os adeptos de Jair se referem quando ameaçam com o capitão deles. Entre tapas e beijos, o cearense de Pindamonhangaba (no vale paulista do Paraíba do Sul) tentou seduzir os “golpistas” com o canto da sereia da preferência de um dígito só do pretendente tucano à Presidência, Geraldo Alckmin, nascido na mesma cidade. Deu em nada e Ciro terminou a semana passada criticando duramente o “baronato” e fazendo acenos à esquerda, como registrou o noticiário. Mas, espere aí, o coronelzinho dos Gomes de Sobral já não é de esquerda? Ou só estaria acenando para o espelho da própria pia?

Alckmin foi recebido com marchas e dobrados pelo dito “Centrão”, grupo que se insinua nas decisões do Congresso desde que ajudou os tucanos de alta plumagem José Serra e Mário Covas, além de Ulysses Guimarães e Nelson Jobim, a redigirem a Constituição. Aliás, Jobim foi presidente da Constituinte e, como o coleguinha Lewandowski, mexeu no texto final da Carga Magna sem passar por anterior aprovação do plenário.

O anestesista paulista começou a semana passada com a perspectiva de ter de pagar algumas dívidas na Justiça, que podiam abalar suas pretensões a subir a rampa do Planalto,. Todas são relativas a suspeitas em torno de um tal de Santo, codinome no popinoduto da Odebrecht. E terminou-a definitivamente endividado com os dirigentes partidários mais sujos da História recente de uma República que nunca se destacou pela alvura da imagem. Entre seus novos aliados os únicos que não podem ser chamados de suspeitos de corrupção são Valdemar Costa Neto, dono do PR, e Roberto Jefferson, proprietário do PTB. Pois eles foram condenados, apenados, mas depois, indultados pela então presidente petista Dilma, mereceram o pródigo perdão da bondosa supremacia dos ministros do STF, que se habituaram a soltar quem os juízes de baixo prendem. Outros sócios desse clube sobre o qual se projeta o foco das lanternas dos guardas-noturnos são Gilberto Kassab, suserano do PSD, e Paulo Pereira, o Paulinho mandachuva da Força Sindical e do partido Solidariedade (afff!).

Jefferson e Paulinho já deram uma ideia a Alckmin de que deve preparar-se para pagar a dívida com eles abrindo mão, se não da honra, pelo menos da coerência. O PTB do delator do mensalão em Pernambuco  mandou dizer que está comprometido com outro. E não será o único: outras legendas fiéis ao presidiário mais célebre do Brasil no Nordeste certamente também terão más notícias a lhe mandar. E o magnata do sindicalismo, cuja vida à tripa-forra depende da cobrança forçada de um dia de trabalho de cada trabalhador, sindicalizado ou não, convenceu-o a desistir de apoiar a reforma trabalhista para evitar que verbas públicas mínguem ainda mais.

Não nos cabe omitir que o “Centrão” se comprometeu com Temer a aprovar a reforma da Previdência e terminou abrindo para o presidente a porta de saída da intervenção militar na segurança do Rio, prevista no dispositivo constitucional que proíbe reformas quando algum Estado esteja sob intervenção federal. A turma de Marun, Jovair e Rosso tem recebido cargos a mancheias para aliados, apaniguados e parentes em troca de derrotas frequentes do governo federal no Legislativo. Entre as quais a mais óbvia é o recorde de impopularidade do pródigo gestor federal.

Mas com mãos e pés sujos de lama Alckmin ainda se nega, em público, a juntar os trapinhos com o MDB do pessoal do palácio, com a desculpa de que não se junta com gatunos. Com os condenados e suspeitos, dos quais tirou o tempo de rádio e TV que deixou de ser dado a Bolsonaro, Ciro, Marina e outros, ao seu lado será impossível, para a recente esperança ressuscitada do mercado, convencer o distinto públicode que vai dar força à Lava Jato e pôr seus alvos nas prisões do Paraná. Conta outra, cara!

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 23 de julho de 2018)

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https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/maos-e-pes-sujos-de-lama/

No Blog: Nêumanne entrevista Arthur Antunes Coimbra, Zico

No Blog: Nêumanne entrevista  Arthur Antunes Coimbra, Zico

Americanos não ganham mais porque imitam europeus, diz Zico

 

Zico estranha que as seleções sul-americanas não vençam mais Copas do Mundo, de vez que os melhores jogadores dos maiores clubes europeus nascem em nosso subcontinente

 

“Temos perdido um pouco da identidade do nosso futebol sul-americano, do drible, do um contra um, da magia, da técnica, da qualidade, e estamos jogando somente o plano tático, no estilo europeu. O jogador sul-americano está indo muito cedo para a Europa e, em vez de treinar a individualidade, evoluir o lado de jogador, ele está mais preocupado com a questão técnica e tática.” Esse diagnóstico é feito por Zico, o maior ídolo da história do clube mais popular do Brasil, o Flamengo, o verdadeiro fundador do futebol no Japão, onde passou 15 anos e atuou como jogador no Kashima Antlers, além de ter sido técnico da seleção nacional e dirigente. Preparando-se para voltar ao Japão em agosto e assumir um cargo na direção do mesmo clube que o projetou no Oriente, ele jura amor eterno à sua cidade, o Rio de Janeiro, assegurando que nunca se vai mudar definitivamente de lá, por mais difícil que seja viver na antiga “cidade maravilhosa”.

Experiência internacional como jogador, técnico, auxiliar e dirigente autoriza análise de Zico sobre Copa de 2018. Foto: Karim Jaafar/Al-Watan, Doha/AFP

Experiência internacional como jogador, técnico, auxiliar e dirigente autoriza análise de Zico sobre Copa de 2018. Foto: Karim Jaafar/Al-Watan, Doha/AFP

Filho de pais portugueses, irmão mais novo de uma família de craques, na qual se destacou Edu, que também foi jogador e técnico, aos 65 anos Arthur Antunes Coimbra, o “galinho de Quintino”, como é conhecido pela torcida do Flamengo, com o qual se tornou campeão mundial de clubes em 1981, não se surpreende com a supremacia atual do futebol europeu. Ex-jogador de um time médio da Itália, a Udinese, Zico é de uma geração que se formou no próprio país, ao contrário de Lionel Messi, que nasceu na Argentina, mas vive na Espanha desde a infância, e de Vinicius Júnior, a última grande revelação de seu clube de coração e que acaba de se apresentar ao Real Madrid, desde que completou a maioridade. Comentarista de televisão do Esporte Interativo, ao lado de craques do passado como Rivelino e Leão, e também de um canal de YouTube, no qual interage com jovens, que não o viram jogar, o craque também reclama que “não se pode confundir democracia com bagunça e, infelizmente no Brasil estamos confundido democracia com bagunça, desordem”.

N – Quando o lateral direito inglês Trippier abriu o placar nas quartas de final contra a Croácia, que sensação o senhor viveu: saudade daquelas tardes de domingo no Maracanã nos anos 70 e 80; nostalgia da época em que o futebol mundial em geral e o brasileiro em particular tinham um elenco muito maior de batedores de faltas, entre os quais o senhor mesmo; ou uma queixa dos novos esquemas dos treinadores de ponta que privilegiam outras jogadas de bola parada, como as faltas longe da área e os escanteios, conforme ficou comprovado nesta Copa da Rússia?

– Não sou nada nostálgico, não fico pensando no que passou. Admiro o futebol atual. Em função do futebol jogado hoje, com fortes marcações e táticas de jogo, acho que os times deveriam ter sempre bons batedores de bola parada, porque isso resolve o jogo e o Brasil, a meu ver, está pecando muito nisso. Há bastante tempo não fazemos gol de falta e só temos praticamente o Neymar, que cobra bem faltas. Então, vejo com bons olhos uma falta bem cobrada daquela maneira pelo lateral da Inglaterra. Assim como faz o Cristiano Ronaldo. A bola parada depende muito do talento do cobrador, mas exige dele muito treino. Deus dá o dom de bater na bola, mas é preciso aprimorar isso. O batedor tem de se aplicar, tem de separar um tempo, principalmente depois dos treinos, para praticar bastante e poder ter um índice de aproveitamento maior.

Zico contra Maradona em jogo de setembro de 1981 entre o Flamengo e o Boca Júniors. Foto: Carlos Chicarino/AE

Zico contra Maradona em jogo de setembro de 1981 entre o Flamengo e o Boca Júniors. Foto: Carlos Chicarino/AE

N – O que a seleção da Bélgica tem de semelhante e de diferente de outras “gerações de ouro” que não ganharam Copas, como as da Argentina nos anos 40, quando não foi jogado o Mundial, do Brasil nas Copas de 1950 e 1982, da Hungria em 1954 e da Holanda em 1974 e 1978? Como representante da geração de 1982, de alguma forma o senhor sentiu algum tipo de afinidade com os flamengos da Europa, que este ano nem chegaram à final?

Z – A Copa do Mundo é um torneio diferente de um campeonato, em que dificilmente times com a qualidade da Bélgica desta Copa, de nossas seleções de 1986 e 1982, ou da Hungria de 1954 perderiam. A diferença é que na Copa do Mundo é mata-mata: quem joga mal um dia é eliminado. Então, admiro bastante o futebol desses times. Nesta Copa do Mundo me chamou a atenção o futebol da Croácia e da Bélgica. Não importa se ganharam ou não. Mesmo que fique para a história quem ganhou, é melhor se for possível ganhar jogando bem, como aconteceu conosco em 1970 e em 2002, com a Espanha em 2010 e  com a Alemanha em 2014. Jogar bem, ter um jogo ofensivo de jogadas bacanas, isso é bom futebol. Mas não quer dizer que sempre vá funcionar na Copa do Mundo, em que os jogos das oitavas de final em diante são eliminatórios.

Zico comemora seu gol pelo Brasil contra seu companheiro de Flamengo Fillol, goleiro da Argentina, na Copa da Espanha. Foto: Arquivo AE

Zico comemora seu gol pelo Brasil contra seu companheiro de Flamengo Fillol, goleiro da Argentina, na Copa da Espanha. Foto: Arquivo AE

N – O senhor pertenceu à última geração dos craques que se identificavam com as torcidas dos clubes onde surgiram e se consagraram. Hoje os grandes jogadores são nômades da bola, que percorrem a Terra e não guardam fidelidade com nenhum clube, até nem com o país. Em que essa nova realidade de globetrotters altera a relação entre o ídolo e a camisa?

Z – Não existe mais nem o ídolo só de um clube nem a identificação da seleção com os torcedores de clubes. Existe, sim, a torcida brasileira em Copas do Mundo. Mas não tenho dúvida de que, sem ídolos de seus clubes, os torcedores não são fiéis a uma seleção nem motivados: se a seleção ganhar, ganhou; se não ganhar, tudo bem. Os torcedores não ficam tão chateados. Se a seleção brasileira fosse formada, digamos, por cinco craques do Flamengo, três do Corinthians, quatro do Vasco, dois do Botafogo… Não é o caso de agora, pois o grupo é formado por jogadores de clubes estrangeiros, com os quais as torcidas nacionais não se identificam. Por isso não existe discussão da Copa do Mundo no dia seguinte ao dia em que o Brasil foi ou for eliminado.

N – Além de sua ligação com o Flamengo, o senhor tem também uma história de protagonismo no futebol japonês, onde encerrou sua carreira de jogador e atuou como treinador da seleção. O senhor sentiu alguma frustração ao ver o Japão e o Brasil serem eliminados pelo mesmo adversário, a Bélgica, e com a mesma jogada: um escanteio a favor e um contra-ataque fulminante que podia ser parado com uma falta tática, mas não o foi?

Z – Primeiramente, não sou favorável à falta tática. Ao contrário, sou totalmente contra. Na falta tática, quando o jogador para uma jogada sem a bola, deverá ser expulso imediatamente. Em vez de procurar a bola, o jogador vai parar a jogada. Isso não deveria ser estimulado, pois acontece que a bola é o essencial do jogo. A falta, para mim, é legítima quando se disputa uma bola e o adversário chega primeiro; sou totalmente contra o jogador já ir com a intenção de fazer a falta tática. É um absurdo. Quanto à derrota do Japão e do Brasil para a Bélgica, o mérito é do time belga. A derrota do Japão, tudo bem, pois os japoneses ainda são inexperientes e sofreram um contra-ataque no fim do jogo. O biotipo do japonês expõe o time a gols de cabeça quando enfrenta seleções mais altas. Eu mesmo sofri muito com isso lá no Japão. Mas o Brasil foi muito infantil naquele gol e na cobrança do escanteio. O time já tinha vivido a mesma situação contra a Suíça, em que havia sete brasileiros e um da Suíça sozinho fugiu da marcação para fazer o gol. Isso, a meu ver, é um erro para o futebol brasileiro, para esses jogadores todos que têm esse know-how, essa experiência. Um completo absurdo.

N – Como ex-jogador, ex-técnico, ex-dirigente e agora comentarista de televisão, o senhor viu alguma coisa na Copa da Rússia que possa considerar novidade tática a predominar doravante?

– Não, nenhuma. E lamento que a final não tenha sido Croácia x Bélgica, pelo bem do futebol, porque normalmente vence a Copa o time que fez prevalecer aquele futebol de 11 atrás. Por exemplo, estavam dizendo que o Girou não faria gol na Copa. Mas, claro, ele não pode fazer gol, pois o cara estava marcando no meio-campo; da linha da intermediária até chegar lá no gol, ele não aguentava mais mesmo. O mesmo aconteceu com o Gabriel Jesus. São 11 atrás da linha da bola, o cara vai lá e não chega ao gol. A única evolução que vi no futebol foi o árbitro de vídeo. Em grandes competições, isso pode evitar injustiças que já aconteceram em outras Copas: gols com a mão, bola que entrou,  essas coisas todas que não gosto de ver no futebol. Afinal, alguém trabalha quatro anos, luta para se classificar e, de repente, é eliminado numa jogada ilegal.

N – O futebol hoje é um negócio bilionário do ramo do entretenimento, mais do que uma modalidade esportiva. A seu ver, é isso que está tirando o continente americano da liderança das competições, o que começou com a predominância europeia nos mundiais de clubes, um dos quais o senhor conquistou pelo Flamengo em 1981, e agora se consagra de vez com a América fora dos jogos finais da Copa de 2018?

Z – É, mas não deveria ser, porque os jogados sul-americanos são os mais caros e estão nos melhores times do futebol europeu. Estão todos lá no Barcelona, no Real Madrid, no Bayern, nos times principais da Europa: na Espanha, na França, na Inglaterra. O que pode ser uma das razões é termos perdido um pouco da identidade do nosso futebol sul-americano, do drible, do um contra um, da magia, da técnica, da qualidade, e estamos jogando somente o plano tático, no estilo europeu. O jogador sul-americano está indo muito cedo para a Europa e, em vez de treinar a individualidade, evoluir o lado de jogador, ele está mais preocupado com a questão técnica e tática.

Zico foi campeão mundial de clubes pelo Flamengo de Raul, Leandro, Mozer, Marinho e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Foto: Carlos Chicarino/AE

Zico foi campeão mundial de clubes pelo Flamengo de Raul, Leandro, Mozer, Marinho e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Foto: Carlos Chicarino/AE

N – Os projetos bem-sucedidos da Alemanha em 2014 e da França, Inglaterra e Bélgica neste Mundial passam pelo envolvimento dos clubes, enquanto na América em geral e no Brasil em particular os clubes são os primos pobres e oprimidos de confederações milionárias. É possível resgatar as conquistas do passado sem mudar radicalmente essa realidade?

Z – É duro ter um futebol comandado por um cara que está preso, um que está banido, um que está foragido, um que foi eleito às escuras e um que está no comando sem se saber o que ele fez no futebol. Então, é lógico que não há autoridade para reunir um time e refletir a importância do futebol para a federação, para o País. Os clubes são coniventes com essa situação em que, como célula mater do futebol, estão sendo jogados às traças, aceitando uma administração que não lhes traz nenhum benefício e os obriga a vender os jogadores da base o mais rápido possível.

N – As entidades que dirigem o futebol no Brasil e na América do Sul e a própria Fifa não resistem a investigações sérias e competentes de corrupção. Sua retirada do ambiente do futebol tem algo que ver com isso? Essa triste realidade influi, na sua opinião, no afastamento de nossos clubes e da seleção do protagonismo nos torneios internacionais disputados hoje?

Z – Não me retirei do futebol. Eu continuo no futebol. Não estou treinando nenhum time nem dirigindo clube algum, mas tenho uma atividade intensa na internet e no canal de televisão Esporte Interativo. Não creio que essa realidade que você descreve influa, mas acho que ela, de fato, diminui o crédito. O problema é que esses investimentos não foram feitos nos clubes e em grandes campeonatos. O melhor campeonato do mundo, a Champions League, da Inglaterra, que é a grande referência, demonstra a importância dos investimentos, mas esse espírito não está presente na Libertadores e isso atrapalha o desenvolvimento do futebol sul-americano. Ainda temos aqui os resquícios do ganhar na marra, de modo ilícito, no jeitinho, enquanto lá fora os caras estão organizados, jogando um futebol limpo e realmente de melhor qualidade.

Zico e Sócrates, que jogaram juntos no Flamengo, atuaram pela seleção brasileira na Copa de 1986, no México. Foto Arquivo/AE

Zico e Sócrates, que jogaram juntos no Flamengo, atuaram pela seleção brasileira na Copa de 1986, no México. Foto Arquivo/AE

N – O Brasil vive talvez o pior momento da sua História, com uma crise ética, econômica, financeira, institucional e política sem precedentes. Mas o senhor não dá sinais de que pretenda deixar o País definitivamente, como muitas pessoas na sua condição já o fizeram. Neste ambiente de desemprego, descrédito e até desespero, o senhor enxerga alguma luz num ano de eleições gerais, que pelo menos confirmam nossa opção pela democracia?

Z – Acho que não se pode confundir, e acabamos confundindo, democracia com bagunça, desordem. Estamos desrespeitando o lema da nossa bandeira, “ordem e progresso”. Pedimos tanto a democracia, só que virou bagunça. A disciplina inteligente nunca imperou no nosso país, com os nossos deveres e as nossas obrigações. Estamos em desvantagem, porque acreditamos em certas pessoas ultimamente e elas acabaram nos decepcionando. Mas não podemos desistir, temos sempre de tentar trabalhar sem o pensamento de votar em troca de um benefício individual. Não. Vamos fazer uma limpeza, para não nos enganarmos mais e não termos de pagar um preço tão alto como nos últimos anos.

 

Com Sandra, namorada da adolescência em Quintino, mulher e mãe de seus filhos, acompanha Zico no carnaval de 2018. Foto: Marcos Arcoverde/Estadão Conteúdo

Com Sandra, namorada da adolescência em Quintino, mulher e mãe de seus filhos, acompanha Zico no carnaval de 2018. Foto: Marcos Arcoverde/Estadão Conteúdo

N – Quando o senhor anda hoje pelas ruas do Rio encara uma realidade muito diferente da que viveu nos seus tempos no subúrbio de Quintino e mesmo nos anos de glória de sua carreira de ídolo do clube de maior torcida da cidade e do País. Como carioca, como o senhor convive com a tragédia de sua cidade, que foi maravilhosa e hoje está longe de poder ser considerada sequer um lugar aprazível para viver e criar a família?

Z – Amo muito esta cidade. Então, procuro, dentro da minha área, dar o meu melhor. O momento realmente é difícil, mas temos de ser otimistas e acreditar que isso pode mudar, para que a gente possa ter um Rio para os nossos netos mais agradável, mais tranquilo, menos violento, menos propineiro, menos vergonhoso para nós. Em algumas áreas temos coisas importantes e, em outras, decepcionantes. Não vou me mudar do Rio por nada, vivo muito bem aqui com o fruto do meu trabalho, do meu suor, do meu esforço. E vou tentando, nos limites do que posso fazer, ajudar o meu Estado.

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/americanos-nao-ganham-mais-porque-so-imitam-europeus-diz-zico/

Ouça a entrevista com Zico. Clique no link abaixo:
https://soundcloud.com/jose-neumanne-pinto/zico

 

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