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No Blog do Nêumanne: Suprema platitude federal

No Blog do Nêumanne: Suprema platitude federal

Como não se conseguem entender entre eles mesmos, ministros do STF tecem loas acacianas à democracia, mas um deles confessa que só não ama o povo para não ter de imitar Hitler

Atualíssima é a frase urdida pelo gênio político do pessedista maranhense Vitorino Freire nos idos sob a égide da Constituição mais liberal que o Brasil teve, a de 1946: “É tão grave a crise que vaca não reconhece bezerro”. A de hoje é pior: ficou difícil até distinguir vaca de bezerro, tão confuso se tornou o cenário institucional brasileiro. O presidente Michel Temer mandou as fantasias reformistas para as calendas que as prorroguem ou para os infernos que as carreguem. Fê-lo porque o Congresso também assumiu o Poder Executivo para livrar o chefe deste de duas incômodas investigações pedidas pelo amaldiçoado ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot, não reconduzido ao posto, para se afastar do céu seco do Planalto a sombra de sua espada de Dâmocles enferrujada.

Na recente revolta dos carreteiros, o País parou, os preços de gás de cozinha e da gasolina subiram a bel-prazer dos transportadores de cargas, que bloquearam as rodovias e provocaram pane seca e desabastecimento geral de gêneros alimentícios de primeira necessidade. As batatas sumiram até da mesa dos vencedores, contrariando a lei da tribo imaginada por Machado de Assis, o gênio do Cosme Velho. Após ter mandado as Forças Armadas prenderem os rebelados do asfalto e não ter sido obedecido, decretado prisões que a Polícia Federal (PF) fingiu que não tinha de cumprir e lavrado multas que só serão cobradas quando o País construir o trem bala de submetralhadoras roubadas de quartel ou contrabandeadas por traficantes, o chefe do governo instituiu a “polipartilha” do poder, na qual caminhoneiros mandam, o Congresso ouve porque tem juízo, o Executivo obedece porque não pode mais e o Judiciário cala ou emite platitudes aos borbotões por meras vaidade e insensatez. Antes, falava-se em democracia, governo do povo, e agora chegamos à “dialogocracia” repetida, na qual o ex-futuro chefe e futuro ex-chefe na mesma pessoa fixa uma tabela de frete, anunciada como a mais nova “lei do antimercado” negociada, até que esta seja renegada pelos mais antigos mandamentos do mercado de pulgas da reinante insensatez ruminante.

Os pronunciamentos de brinquedo de papel machê foram economizados ou repetidos de acordo com a conveniência. Durante a crise na estrada, o dra. Cármen Lúcia, chefe suprema da Corte em que a Justiça não tem dois pesos e duas medidas, mas 11 passos e 11 retrocessos, em que os maus são abençoados e as pestes são distribuídas, fechou-se em copas, paus, ouros e espadas. No meio da refrega, fez-se ler em entrevista na qual falou sobre generalidades, mas nada disse nem lhe foi perguntado sobre a crise em que os consumidores de diesel ascenderam à aristocracia.

Mas seria injusto afirmar que, findas as batalhas após as quais os feridos foram meticulosamente espetados em ponta de baionetas, ela não se manteve silente e ausente. “A construção permanente do Brasil é nossa e é democrática e comprometida com a ética. Não há escolha de caminho: a democracia é o único caminho legítimo. Cumprimos nosso dever com a República Federativa do Brasil. Há de se ter serenidade, mas também rigor com o cumprimento e o respeito aos direitos, especialmente os fundamentais”, afirmou Cármen, na abertura de uma sessão do STF, que lhe cabe presidir até entregar, em setembro, o bastão ao atual vice, Dias Toffoli. No meio da balbúrdia generalizada de um plenário que não se entende nem sobre a duração do intervalo para o cafezinho, Cármen garantiu que essa algaravia promoverá a “aliança de cidadãos”, que se engalfinham nas redes sociais sobre a condução dos negócios da República, a necessidade de a atriz mulata ser retinta para interpretar a sambista negra e as decisões disparatadas de árbitros sobre as regras “claras” do ludopédio.

“Há de se ter seriedade e também manter a esperança. Há de se cuidar dos direitos e também garantir os serviços e o incansável combate à corrupção. Não vivemos de quimeras, embora lutemos por sonhos”, disse madame presidente na qualidade de Acácia dos Acácios naquela mesma ocasião. Dias depois, contrataria espaço e transporte exclusivo para ela e seus dez colegas evitarem o povo rebelde e barulhento no acesso comum aos aviões de carreira. Não é sui generis o conceito de igualdade dela?

No sábado, 9 de junho, palestrando em Londrina, no norte do Paraná, Estado onde o juiz de primeiro grau Sérgio Moro reina porque pune, o relator da Operação Lava Jato caprichou na paródia do bom mocismo galopante dando ao “óbvio ululante” de que falava o gênio do teatro e da crônica esportiva Nélson Rodrigues a majestade do nariz de cadáver de suas grã-finas favoritas. Ao participar do 2.º Congresso Internacional de Ciência Jurídica, o ministro do STF Edson Fachin obtemperou: “Parlamentares erram e por isso devem responder. Mas o Parlamento é essencial à vida democrática. Juízes também erram e por isso o Estado deve responder, mas o Judiciário é essencial à vida democrática. No Estado, administração também cometem erros desde o funcionário mais humilde ao mais gabaritado da Nação. E quem erra deve responder”. Fachin deu continuidade à manifestação deixando claro que considera fundamental a manutenção da administração pública como aparelho do Estado democrático. E também ponderou: “É fazendo as instituições funcionarem que o Brasil vai dar um futuro ao seu passado, como escreveram as professoras Heloisa Starling e Lilia Schwarcz, esta última em uma obra importante sobre a história recente do País” (Brasil, uma Biografia). Talvez fosse o caso de ele empregar definição mais clara e também mais escorreita a que recorreu Jânio Quadros quando questionaram sua predileção pela ingestão alcoólica: “Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia!”

 Essa simplicidade cômica do ex-presidente não compareceu ao texto Contra notícia falsa, mais jornalismo, da lavra do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), também ministro do STF Luiz Fux, publicado neste Estado (na página 6 da edição de Política do domingo, 10 de junho), à guisa de introduzir sua eventual participação no Fórum Estadão sobre Fake News, ao qual terminaria faltando. Segundo o doutor, “o jornalismo de qualidade pode incomodar, mas sua existência, deve ser garantida”. No mais lídimo estilo Cármen Lúcia e Fachin, Fux completou seu rosário de lugares comuns com um que ao menos nos consola. Assim ele concluiu o texto publicado: o TSE “defende os profissionais que lutam para promover participação ativa dos cidadãos no processo democrático e repele qualquer tentativa de silenciá-lo”. Ufa, aleluia!

O mesmo não se pode dizer de seu inimigo cordial, o famigerado Gilmar Mendes, que o antecedeu na cadeira do TSE. Vários corpos à frente na corrida pela coroa de impopular-mor da República contra Temer, do qual é conviva no Jaburu, Sua Excelência capricha em atitudes antipáticas em pronunciamentos e votos no Supremo. Recusa-se a se considerar impedido e concede habeas corpus a mancheias a parentes da mulher, Giomar, e clientes da banca de advocacia da qual ela é sócia. E sempre que pode, citando ou sendo citado pelos “coleguíssimos” Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli, desanca policiais, procuradores ou juízes federais de primeira instância pelo fato de combaterem a corrupção com denodo, atribiuindo-lhes garras e ganas absolutistas.

Em entrevista a Mário Vitor Rodrigues, que circula neste Portal do Estadão de domingo, o ministro que se diz “O Supremo” desfiou uma série de argumentos contra a simpatia do povo e a favor da impopularidade como único instrumento viável de justiça. Por falta de espaço, resumo todos em seis frases: “É preciso sempre advertir que se os tribunais decidem em consonância com a opinião pública eles colocam em risco os direitos e garantias constitucionais. Hitler dizia que os tribunais nazistas traduziam o espírito do povo… e foi o que foi. Eu cumpro esse papel com bastante tranquilidade e sei que estou honrando a minha missão institucional. Eu hoje disse a você que não me preocupo em fazer grandes obras, mas em evitar que se cometam catástrofes”. Quem quiser conhecer a íntegra de seus argumentos sobre a gênese nazista do populismo clique no link:

https://brasil.estadao.com.br/blogs/mario-vitor-rodrigues/entrevista-gilmar-mendes/

Em resumo, no Brasil, se não é cega, a Justiça é muito míope e só consegue enxergar o que mais apraz a quem dela se serve.

  • Jornalista, poeta e escritor

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/suprema-platitude-federal/

Podcast Estadão Notícias: A verdade sobre a intervenção

Podcast Estadão Notícias: A verdade sobre a intervenção

A carta do delegado Brenno Carnavale, que hoje trabalha na Divisão de Inteligência da Polícia Civil fluminense, à vereadora Marielle Franco, executada em 13 de março sem que ninguém saiba até hoje quem mandou matá-la e quem a assassinou, é o documento mais preciso e mais completo sobre o enorme malogro da intervenção militar na segurança do Rio de Janeiro. Seu texto pungente e duro descreve a falta de condições materiais e humanas dos órgãos encarregados de investigações criminais na segunda maior cidade do Brasil, que não conseguem desvendar os assassínios comuns e numerosos de pessoas anônimas e pobres na periferia e agora também não têm capacidade de identificar os autores de um crime que mancha o Brasil no mundo. Este é meu comentário no Estadão Notícias, no ar no Portal do Estadão desde 6 horas da quinta-feira 7 de junho de 2018.

Para ouvir clique no link abaixo:

http://brasil.estadao.com.br/blogs/estadao-podcasts/estadao-noticias-geracao-que-poderia-ajudar-pais-a-crescer-esta-sendo-dizimada-diz-especialista/

Para ouvir no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/a-verdade-sobre-a-intervencao/

No Blog: Nêumanne entrevista Juca de Oliveira

No Blog: Nêumanne entrevista Juca de Oliveira

Falta de rumo resume tragédia brasileira hoje, diz Juca de Oliveira

 

“Estamos sitiados 24 horas por dia”, lamenta o ator, autor e diretor de sucesso no teatro, na televisão e no cinema em depoimento pungente e antenado

À pergunta que lhe foi feita sobre qual tema sugeriria a Shakespeare, de quem interpretou recentemente O Rei Lear, para escrever uma tragédia no Brasil atual, o ator, autor e diretor de teatro, cinema e televisão Juca de Oliveira não hesitou em escolher a falta de rumo, preterindo desespero, desesperança e descrédito. Ex-estudante de Direito nas Arcadas, ele definiu o vilão Natanael, que encarnou na telenovela O Outro Lado do Paraíso, como um “anjo de candura”, comparado com juristas famosos que ganham fortunas para garantir a impunidade de delinquentes de colarinho-branco nesta crise atual, que lhe parece a mais grave que já viu na vida.
José de Oliveira Santos, o Juca de Oliveira, nasceu em 1935 em São Roque, na Grande São Paulo. Saiu da Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco, para ingressar na celebrada Escola de Arte Dramática. No Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) participou de encenações antológicas como A Semente, de Gianfrancesco Guarnieri. No Teatro de Arena fez Eles Não Usam Black-tie, do mesmo Guarnieri. Na TV Tupi protagonizou a pioneira telenovela Nino, o Italianinho, tornando-se muito popular. No teatro brilhou em 60 peças, entre as quais comédias de grande público, como Caixa 2 e Meno Male, de sua autoria. No cinema participou do elenco de clássicos como O Caso dos Irmãos Naves. , de Luiz Sérgio Person. Ocupa a cadeira n.º 8 da Academia Paulista de Letras. É casado com Maria Luiza (Zu) de Oliveira, com quem tem uma filha, Isabela.

Nêumanne entrevista Juca de Oliveira

Juca de Oliveira diante da bilheteria, segundo ele garantia da liberdade do artista de teatro. Foto: SAO PAULO SP 05/04/2018

Juca de Oliveira diante da bilheteria, segundo ele garantia da liberdade do artista de teatro. Foto: SAO PAULO SP 05/04/2018

N – A caminhada da sociedade brasileira atual, que parece sadomasoquista ou até suicida para alguns comentaristas, inclusive este escriba que lhe pergunta, tendo em vista o apoio popular a uma chantagem da qual ela própria foi vítima e agora paga o alto custo de seu resgate, não faz lembrar o suicídio e imolação dos filhos de Jasão por Medéia, na tragédia grega de Eurípedes, citada por João Emanuel Carneiro em Avenida Brasil, telenovela na qual o senhor interpretou o vilão Santiago, e, antes disso, adaptada por Chico Buarque e nosso saudoso amigo Paulinho Pontes em Gota d’Água?

JdeO – Tenho 83 anos e jamais vivi um momento político-social-econômico tão tenso, quase beirando a tragédia, como você bem lembra ao se referir à Medéia, de Eurípides. Mas mesmo no destino trágico de Medéia, que traída por Jasão resolve vingar-se matando a rival, o pai e os próprios filhos, há o germe positivo da liberação da mulher de sua eterna submissão. É uma restiazinha de esperança que afasta por algumas horas a insônia desencadeada por essa caminhada suicida e sadomasoquista – como tão bem você definiu. Porque (torço pra ser verdade) a crise gera o nascimento de novas lideranças, a solução dos problemas e a evolução da sociedade.

N – Que lições o senhor acha que nosso Brasil aprendeu e quais não parece sequer ter percebido, ao permitir que aconteça algo como a pane seca e a crise de abastecimento destes últimos dias?

J – A gênese da pane seca e da crise do desabastecimento está na maior estupidez cometida pelo ser humano: a desativação das ferrovias no Brasil, um país continental, que, por razões óbvias, deveria escoar a sua enorme produção agropecuária por linhas férreas. Segundo meu cunhado Julião Capitão, alto funcionário da Sorocabana, já falecido, o transporte por ferrovia, em alguns casos, chega a ser 100 vezes mais barato que por rodovia! Tudo começou no governo Juscelino, com a opção política pelo chamado modal rodoviário, uma decisão absolutamente equivocada, na contramão do correto desenvolvimento de países continentais. A aprovação de projetos industriais para a fabricação de caminhões e automóveis em território brasileiro, como se sabe, só foi possível com a condição de que desativássemos as ferrovias para evitar a concorrência. Fui testemunha dessa tragédia quando gravamos na Amazônia a maravilhosa minissérie Mad Maria, do Benedito Ruy Barbosa, direção de Ricardo Waddington, sobre a desativação da Madeira-Mamoré, que nos levaria de Porto Velho a Guajará-Mirim, divisa com a Bolívia. Fomos para gravar uma história sobre uma tragédia histórica e acabamos vivenciando a tragédia. Trabalharam conosco uns 400 figurantes de Rondônia, de Abunã e outros vilarejos à margem da ferrovia desativada. Eram ribeirinhos dos afluentes e igarapés do Madeira e Mamoré, ex-fazendeiros do sul, ex-garimpeiros, camponeses, todos ligados visceralmente à história da ferrovia. Durante dois meses falamos diariamente com esses companheiros, apaixonadamente dedicados à gravação das cenas da minissérie, todas muito difíceis. Por que esse empenho e dedicação tão fora do comum entre figurantes? Porque – e aí estava a tragédia – eles não participavam de uma obra de ficção. Eles efetivamente acreditavam que reconstruíam com os atores a ferrovia à qual a vida deles continuava acorrentada mais de cem anos depois. A impressão que me deu era de que eles resgatavam de sobre os dormentes os 6 mil mortos, amigos e parentes, pais, avós, bisavós, que ali haviam perdido a vida de forma heroica e ao mesmo tempo inútil. Arrancaram os trilhos, desmontaram as locomotivas – raras obras-primas de engenharia – e venderam tudo por quilo a um negociante paulista, num ato de suprema ofensa a milhares de homens que deram sua vida em prol do “progresso e do avanço tecnológico”…

Arquivo 29/07/1969 - Variedades JT - Juca de Oliveira. Foto Divulgação

Arquivo 29/07/1969 – Variedades JT – Juca de Oliveira. Foto Divulgação

N – Seu último desempenho no teatro foi o monólogo do O Rei Lear, de William Shakespeare, adaptado pelo poeta Geraldinho Carneiro e dirigido por Elias Andreato. Se um dia o autor lhe aparecesse em sonho e lhe pedisse que sugerisse um tema para uma tragédia póstuma nestes tristes trópicos, o senhor indicaria desespero, desesperança, descrédito ou falta de rumo?

J – A querida e saudosa Bárbara Heliodora, nossa maior especialista em Shakespeare, cunhou uma das mais brilhantes sínteses sobre o significado universal do teatro: “O Teatro é o documentário da História”. Quando li a frase tive um insight: ao ler ou ver uma peça acabamos conhecendo a realidade do país de origem do dramaturgo que a escreveu. Pode ser Romeu e Julieta, de Shakespeare, ou Eles Não Usam Black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri. Por meio delas teremos um documentário de um pedaço da história da Inglaterra e do Brasil. Portanto, se ele me solicitasse essa sugestão hoje (quem sou eu para sugerir algo ao maior dramaturgo da História?), eu diria: senhor Shakespeare, sou seu maior fã, eu o conheço razoavelmente e sei que, independentemente do que eu opinar como tema, o senhor escreverá sobre a nossa atual FALTA DE RUMO…

N – Na televisão o senhor fez muitos papéis marcantes e eu tomo a liberdade de citar como tema o de João Gibão, em Saramandaia, de Dias Gomes, Ícaro envergonhado de suas asas e que por isso as esconde sob o gibão de couro. O que no Brasil evita que, diante do quadro cada vez mais trágico, o senhor tire o gibão e voe de vez em asas de avião para um lugar menos inóspito no mundo? Ou esse Xangri-Lá, na verdade, não existe?

J – Viajei razoavelmente para o exterior, como todo caipira, sempre com o objetivo de conhecer melhor as pessoas, ver as cidades, os museus, as catedrais, os palácios e, principalmente, o teatro desses países que visitei. Mas jamais tive vontade nem interesse em ir embora daqui. Adoro o Brasil, mesmo no auge de suas sucessivas crises. Sou caipira do interior, de São Roque, adoro São Roque, vivi parte da minha vida numa fazenda em Itapira, adoro Itapira, adoro a natureza, os animais, a floresta, os bichos, o florescer, o outono, a queda das folhas, o inverno, a queda dos frutos e o vingar das suas sementes. Pra dar uma ideia, na minha peça A Flor do Meu Bem Querer (modéstia à parte, um grande sucesso) uma das personagens, o Nhô Roque, genialmente feito pelo Genésio de Barros, fala com o futuro marido da sua neta, o Jacinto, que está partindo para uma viagem à Europa. Essa fala de Nhô Roque dá a ideia de por que, pra mim, o Xangri-lá é por aqui mesmo…
“Nhô Roque: Não, Jacinto, num vai pa Oropa, bobo, vai pa Itapira! Ni Itapira tudo mundo gosta docê! Sua tia Larina faiz paçoca de carne seca pocê, paçoca que ocê gosta! Fazê o que na Oropa? Lá ninguém conhece ocê, nem a língua queles fala ocê entende! Vai pa Itapira, bobo!”

Juca de Oliveira contracenando com Vida Alves, atriz que fez história no início da televisão no Brasil. Foto: Divulgação

Juca de Oliveira contracenando com Vida Alves, atriz que fez história no início da televisão no Brasil. Foto: Divulgação

N – Recentemente o senhor contracenou com Sérgio Guizé, que interpretou João Gibão no remake de Saramandaia e foi o protagonista de O Outro Lado do Paraíso, telenovela de Walcyr Carrasco, na qual o senhor interpretou um dos maiores de todos os muitos vilões da história, o superadvogado Natanael. O senhor percebe, no atual cenário político brasileiro, um jurista em quem identifique alguma coisa cuja atuação lembre aquela ficção, que fez imenso sucesso de público?

J – Vários juristas. Fico curioso com o comportamento profissional de famosos advogados criminalistas cujos clientes lhes pagam honorários de até R$ 8 milhões. Natanael, o vilão, meu personagem em O Outro Lado do Paraíso, estaria entre eles, claro, se intuísse que a advocacia criminalista se tornaria tão rentável no futuro do País. E eles se multiplicaram! Antes da Lava Jato eram cerca de 40 as grandes bancas de criminalistas, concentradas em São Paulo e no Rio. Hoje esse número dobrou. O novo mercado foi esticado para Brasília e Curitiba, claro, e com o aprofundamento das investigações da Lava Jato ele emprega aproximadamente 1.200 advogados. Que crimes teriam cometido seus clientes para tão altos honorários? As acusações variam entre pagamento de propinas, evasão de divisas, caixa 2 para partidos políticos, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, crimes financeiros, corrupção, enfim. Mas, ora, se os crimes são roubos, assaltos aos cofres públicos, desfalques, os honorários dos advogados não deveriam ser devolvidos para ressarcimento da sociedade? Estudei Direito na São Francisco com os saudosíssimos Miguel Reale e Gofredo da Silva Teles, entre outros mestres inesquecíveis. Não cheguei a me formar por ter optado pela Escola de Arte Dramática, mas estudei o suficiente para saber que a maioria dos profissionais que atuam na Lava Jato seria reprovada por esses e outros mestres das Arcadas. Agora mesmo os doleiros Juca Bala e Claudio de Souza não acabam de denunciar um grande advogado por exigir propina para não denunciar clientes? O meu Natanael é um anjo de candura diante dessa turma.

N – Do alto de seus 83 anos de idade, nascido no Brasil sob os efeitos da Revolução dos Tenentes de 1930, o senhor testemunhou o putsch do Estado Novo de Getúlio em 1937, a redemocratização de 1946, o suicídio do mesmo Vargas em 1954, a renúncia de Jânio em 1961, o golpe da “redentora” de 1964, o recrudescimento da ditadura em 1968, a morte de Tancredo Neves em 1985, os impeachments de Collor em 1992 e de Dilma em 2016 e os protestos dos movimentos anárquicos de rua em 2013. A seu ver, o momento atual é tão, mais ou menos grave e importante do que esses aqui lembrados?

J – Este momento me parece o mais grave de todos. Não apenas para nós, brasileiros. O mundo está ameaçado. Veja, há uma queda geral da produtividade mundial, na qual estamos envolvidos. Também uma precária utilização das novas tecnologias nos sistemas de produção e o envelhecimento crescente da população, com a consequente diminuição na faixa dos economicamente ativos. O aumento do endividamento do País faz com que recursos que seriam usados em investimentos sejam destinados a pagar dívidas. Estamos também enfrentando mudanças climáticas, o que provoca o aquecimento global, os desastres naturais, a escassez de água e a sua contaminação no mar e em quase todos os nossos rios. No momento não estamos conseguindo sequer conter a disseminação dos agrotóxicos até mesmo nos produtos hortifrutigranjeiros.

Juca de Oliveira ensaiando, em 1972, Um Edifício Chamado 200, de seu amigo Paulo Pontes, com direção de José Renato. Foto: Arquivo/AE

Juca de Oliveira ensaiando, em 1972, Um Edifício Chamado 200, de seu amigo Paulo Pontes, com direção de José Renato. Foto: Arquivo/AE

N – O senhor foi um dos protagonistas, com Raul Cortez, do clássico do cinema novo O Caso dos Irmãos Naves, de Luiz Sérgio Person. O senhor acha que um erro judiciário tão grave como aquele e, sobretudo, a truculência do policial interpretado por Anselmo Duarte ainda ocorrem em nossos tempos? O enredo do filme não lembra episódios contemporâneos, como o massacre do Carandiru e a execução de Marielle Franco e Anderson Gomes?

J – Sim, lembra. A violência continua. Se compararmos com o erro judiciário do filme do Person, as coisas pioraram muito. O índice de assassinatos, o aumento escancarado da violência, o contrabando crescente de armas altamente sofisticadas. O domínio dos traficantes sobre várias comunidades. A impossibilidade do livre trânsito do cidadão, do trabalhador. Já não podemos sair à noite. Perdemos o direito de andar livremente. Somos reféns permanentes.

Em 2007, Juca de Oliveira falou em audiência pública para debater regras para classificação indicativa da TV no Ministério da Justiça. Foto: Ed Ferreira/AE

Em 2007, Juca de Oliveira falou em audiência pública para debater regras para classificação indicativa da TV no Ministério da Justiça. Foto: Ed Ferreira/AE

N – Leitor voraz e atento, autor, ator e espectador de teatro, cinema e televisão, ouvinte de música, qual a sua opinião sobre o atual panorama da produção da cultura nacional? Estamos nos melhores ou nos piores momentos de sua história? E quais são as perspectivas para o futuro?

J – A cultura nacional vive hoje um dos piores momentos da sua história. Mas prefiro me fixar no péssimo momento do nosso teatro. Depois de quase 60 anos como profissional de teatro concluí que o maior responsável pelo fenômeno é a Lei Rouanet, embora os objetivos culturais da sua criação tenham sido louváveis. Não se deve dar dinheiro ao artista. O Estado deve criar condições para o desenvolvimento cultural do País, mas não dar dinheiro ao artista. O ator e a atriz ganham o seu dinheiro com a sua arte. Quanto mais próximos da perfeição chegarem, maiores serão o sucesso e a recompensa do seu público. Ele ou ela sente a recompensa quando confere o dinheiro da bilheteria em longas temporadas de até dois, três, quatro anos em cartaz. E sempre nos orgulhamos dessa independência. Porque é a independência econômica que nos garante a independência ideológica para o livre exercício da nossa arte através dos séculos. O teatro é uma atividade, uma profissão movida pela paixão. Quando alguém dá dinheiro ao ator, mata a paixão com que ele se atira à realização dos seus sonhos e projetos e o acorrenta. Se há o dinheiro da lei, não foi a paixão, não foi o resultado do seu trabalho que lhe deu o salário, que agora – isso é trágico – não vem mais da bilheteria. Nosso querido e genial Antonio Fagundes, que não faz espetáculos pela Lei Rouanet e fica anos em cartaz com suas produções, disse em recente entrevista: “Se o ator vive só de patrocínio, a bilheteria não interessa mais… Não perceberam que o teatro está morrendo”. É sabido que Shakespeare escrevia com os dois olhos na caixa registradora e foi um excepcional empresário, lotando teatros de 2 mil lugares, cinco dias por semana. Se em Stratford houvesse a Lei Rouanet, ele não teria escrito nem uma das suas 38 peças e o mundo seria infinitamente mais ignorante. Os dramaturgos em todo o mundo ganham um percentual de 10% do que arrecada a bilheteria. Como depois da Rouanet o resultado da bilheteria se tornou quase zero, espetáculos dois dias por semana, às vezes apenas um, temporadas ridiculamente curtas, não há mais estímulo para o surgimento de novos autores de teatro, os que menos ganham na era da Rouanet. E o mais incompreensível: é um fenômeno brasileiro. A Argentina, para citar um vizinho mais pobre, tem um teatro excepcional, uma verdadeira Broadway bombando seis dias por semana, com 400 peças em cartaz.

Juca de Oliveira em cena com Bibi Ferreira em comédia da autoria dele, Às Favas com os Escrúpulos. Foto: Antonio Milena/AE

Juca de Oliveira em cena com Bibi Ferreira em comédia da autoria dele, Às Favas com os Escrúpulos. Foto: Antonio Milena/AE

N – O que mais o incomoda e o que mais o senhor celebra em nosso cotidiano de agora?
J – A insegurança nas ruas é o que mais incomoda em nosso cotidiano agora. Eu caminho todos os dias. Tenho 83, velho que não anda desanda… Há pouco tempo, quando eu ia sair pra caminhar, minha mulher me advertia: “Olha, não fale no celular andando pela calçada que eles te levam o celular! Passam de bicicleta e vupt!”. Alguns dias depois, quando estou de saída, ela novamente: “Olha, acho melhor não levar o celular porque agora eles descobrem o celular no bolso, fingem um esbarrão e te tomam”. Bom, deixei o celular em casa e saí andando. Esta semana vem ela de novo: “Juca, acho melhor você não andar mais porque agora estão fazendo arrastão tipo ‘perdeu, mano, passa tudo’!” O negócio vai ficando difícil! Ainda bem que tenho minha mulher, que me adverte: “Olha, é mais seguro você parar o carro, no farol, atrás do carro do meio. Eles estão preferindo assaltar os carros das beiradas”… É horrível. No passado, quando acabava o espetáculo no Arena ou no TBC, todo o santo dia, lá pelas 11 da noite, trocávamos a roupa no camarim e íamos andando para o inesquecível restaurante Gigetto, ponto de encontro de todos os atores e atrizes de São Paulo e do Rio quando em excursão por aqui… Acabado o jantar, lá pelas 2, 3 horas da madrugada, em grupinhos, íamos em direção ao prédio do Estadão, comprávamos o jornal do dia seguinte com os carregadores na oficina e rumávamos para o Jeca, esquina da São João com Ipiranga, sempre andando, e lá ficávamos até as 4 da manhã bebericando um cafezinho e discutindo as notícias do jornal. … E aí voltávamos pra casa, a maioria andando… Acabou, estamos sitiados 24 horas por dia. E o que eu mais celebro é um drinque com minha mulher, minha filha, os amigos queridos e jogar conversa fora. E também os encontros com meus queridos confrades e confreiras, às quintas feiras, na Academia Paulista de Letras.

N – O que foi feito hoje dos sonhos e ilusões de seus tempos de galã de Nino, o Italianinho, de Geraldo Vietri e Walther Negrão, na Tupi, cujos últimos capítulos acompanhei ao chegar a São Paulo, em 1970?

J – Estou com 83 anos. Continuo com meus sonhos. Sonhando muito e trabalhando muito. Estou escrevendo mais uma peça de teatro e aguardando o chamado da Globo para mais um trabalho na televisão. Cheguei mais ou menos ao meio da peça, ainda tenho bastante trabalho pela frente. Terminada a peça, farei uma leitura para alguns colegas, leitura para qual você já está convidado, voltarei para o computador para reescrever até que uma das próximas leituras me satisfaça. Como nós, de teatro, sabemos, escrever é reescrever… Bom, adorei bater esse papo com você. Até.

N – Inté.

Nêumanne entrevista Juca de Oliveira. 8a. edição da Série 10 Perguntas.

Nêumanne entrevista Juca de Oliveira. 8a. edição da Série 10 Perguntas

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No Blog do Nêumanne: Audálio, o audaz sereno

No Blog do Nêumanne: Audálio, o audaz sereno

Conheci Audálio Dantas quando eu tinha 9 anos e li suas reportagens na revista O Cruzeiro sobre Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo, um dos maiores sucessos do mercado livreiro e desde então só o admirei

Audálio Dantas foi meu primeiro herói no jornalismo. Em 1960, eu tinha nove anos e meu pai, caminhoneiro, sempre trazia exemplares de O Cruzeiro com reportagens que encantavam meus olhos já míopes retratando o mundo distante e misterioso do Sul Maravilha. Nestas revistas, entre O Amigo da Onça, de Péricles, e a Última Página, de Rachel de Queiroz, deparei-me com a saga de uma mineira moradora na imensa São Paulo ignota, em cujo barraco na favela do Canindé, movido de argúcia e sem pieguice, um repórter atento, sensível e de estilo elegante descobriu anotações de um diário, depois editado em livro e transformado num dos maiores êxitos do mercado brasileiro em todos os tempos,Quarto de Despejo. Era Audálio.

Só tive o prazer de conhecê-lo e a sorte de conviver com ele muito tempo depois, quando acompanhei sua eleição para a presidência do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo numa disputa histórica em que um grupo independente de profissionais de imprensa afastou da direção do órgão uma diretoria que não resistia a pressões vindas do alto da torre dos carros de combate da ditadura militar. Era um tempo de repressão braba e logo meu herói de infância se materializou numa figura admirável para um iniciante no mesmo ofício. Então em plena flor dos 24 anos de idade, em 1975.

Para conquistar minha devoção, ele não se vestiu de super herói nem de mártir da revolução socialista contra a brutal repressão da guerra suja do regime duro contra a guerrilha armada do extremo oposto, que não lutava para instalar uma democracia no Brasil, mas, sim, para substituir a tirania de direita por outra, de sinal invertido. Audálio sempre foi esquerdista, mas também um democrata capaz de respeitar e admirar quem não comungasse de suas ideias, desde que nele descortinasse talento e simpatia bastantes para desfrutar de sua prosa macia e de sua postura firme como garimpeiro de fatos em letras e mestre no ofício.

Naquela quadra, ele enfrentou uma dura batalha. Vladimir Herzog, nosso colega, dirigia o Departamento de Jornalismo da TV Cultura de São Paulo quando foi levado para uma delegacia de policia onde funcionava o  DOI-Codi, órgão clandestino que executava a política de tortura e execuções dos comandantes militares no poder. E ali foi assassinado. Vlado, como era conhecida a vítima, não militava na guerrilha, mas simpatizava com o Partido Comunista, que se posicionava contra a luta armada. E foi levado ao martírio como bucha de canhão numa guerra intestina entre oficiais graduados pelo poder federal. Um grupo de generais da linha dura, chefiados por Sílvio Frota, ministro do Exército do presidente Ernesto Geisel, encontrou na militância de esquerda dos subordinados do chefe deles um pretexto para solapar o plano de abertura do grupo palaciano, cujo principal ideólogo era o chefe da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva. O alvo do sequestro e tortura, que terminou em morte, era José Mindlin, bibliófilo e industrial milionário, então secretário de Cultura do Estado, et pour cause, responsável pela nomeação do jornalista para o posto de comando. Com isso, Geisel não conseguiria, como pretendia, fazer do então governador de São Paulo, o civil Paulo Egydio Martins, seu sucessor. E, de fato, não conseguiu. Numa sessão de torturas, Vlado morreu e logo seus algozes fizeram circular a falsa notícia de que se havia enforcado. Foi a gota d’água para o cálice de fel transbordar e a resistência à ditadura organizou-se em torno de três chefes religiosos: o arcebispo católico, dom Paulo Evaristo, cardeal Arns, o rabino Henry Sobel e o reverendo James Wright, realizaram um culto ecumênico pela alma do morto na Sé, em pleno centro de São Paulo de Piratininga. O rabino autorizou que Vlado fosse sepultado no território comum dos filhos de Judá, e não no reservado para os suicidas, claro desafio à versão mal costurada do regime opressor. Como presidente do sindicato dos colegas do mártir, Audálio foi, ao mesmo tempo, audaz e sereno, sem se deixar tomar por repentes de ira nem por sintomas de covardia. O resto é história: a sociedade percebeu que o governo, que combatia os inimigos armados, também perseguia os arautos da liberdade, e lentamente corroeu as entranhas do regime, que ruiu.

Desses tempos para cá, dois outros pontos costuraram nossa relação pessoal. Ambos somos cidadãos de Campina Grande, na Paraíba. Eu nasci em Uiraúna, no alto sertão, e, desde a infância, amo a Rainha da Borborema como se, mais que madrasta acolhedora, ela fosse minha segunda mãe. Audálio veio à luz em Tanque d’Arca (Alagoas), pequena como minha cidade natal. Sua conexão com minha terra adotiva foi estabelecida por um amigo de infância dele, Joaquim Manuel Barbosa, enfermeiro celebrado, marido de Maria, figura popular na cidade, e pai de políticos atuantes no Estado.

Em 2011, publiquei um perfil nada lisonjeiro do político mais popular da História do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, que nunca admirei, O que sei de Lula (Topbooks, Rio). Embora não tenhamos conversado sobre isso, sei também que Audálio, que nos deixou para sempre na tardinha fria, depois de um dia de sol morno, de 30 de maio, continua tendo nosso personagem comum como um herói do povo, do qual ele, Audálio, sempre foi rebento fiel e devoto. Certo é que os melhores e mais ternos momentos de meu livro sobre seu tema foram copiados de uma das obras literárias mais comoventes, de tanta beleza que contém, que li na vida inteira, O menino Lula, escrita por Audálio, meu herói de ofício desde minha própria meninez.

Na bagagem que Audálio leva para cruzar o rio na canoa de Caronte carrega de mim uma lágrima, um lamento, um aceno e um sorriso triste deste que ainda encontra humor nas presepadas de que se lembra, mas ele nunca mais repetirá.

Jornalista, poeta e escritor

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Nesta quarta-feira no Estadão: No Brasil do quem pode grita mais e chora menos

Nesta quarta-feira no Estadão: No Brasil do quem pode  grita mais e chora menos

Direita bárbara e esquerda cínica tentam usar o caos para acabar com Estado de Direito

Caminhoneiros autônomos, transportadoras de cargas e empresas que possuem frotas movidas a diesel sequestraram o Brasil, recorrendo apenas a bloqueios rodoviários para impedir a distribuição de combustíveis e alimentos . E o débil e inerme desgoverno lhes doará R$ 13,5 bilhões em sete meses, sacados dos impotentes cidadãos. Mas esse não é o preço mais alto a ser cobrado da Nação pelas carretas paralisadas: há um golpe em pleno curso por ditaduras acalentadas por bandos irresponsáveis da direita bárbara e da esquerda cínica. A primeira exige intervenção militar e a segunda, Lula livre e presidente de novo. Quem vai ganhar? Melhor não apostar. O prezado leitor certamente perderá, no mínimo, o valor da aposta.

O apressadinho de cotovelos apoiados na janela da frente de casa pode até imaginar: “A culpa é do Temer, então, que ele se dane”. É mesmo? Vamos aos fatos. O autor destas linhas tem 67 anos de idade e é do tempo do trem de ferro e das eclusas permitindo a navegação de balsas e barcaças pelas inúmeras bacias hidrográficas brasileiras. Tinha 4 anos quando o mineiro Juscelino Kubitschek, descendente de checos e telegrafista de origem profissional, apostou todas as nossas fichas no modal rodoviário. Desde que o simpático pé de valsa de Diamantina deixou o governo, há 57 anos, as ferrovias enferrujaram-se, o transporte hidroviário é um sonho distante e as rodovias são um imenso buraco com bordas asfaltadas, à exceção das privatizadas a custo de pedágio.

Durante a ditadura militar, que cassou os direitos políticos de Juscelino, Jânio e Jango, o general Ernesto Geisel teve a oportunidade de aprender, com a crise da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep), que a opção do inventor dos “50 anos em 5” tinha sido uma roubada. Mas nem os catalogados no Almanaque do Exército nem os civis da Nova República ou eleitos pelo povo, tucanos e petistas, recuperaram trilhos e vias navegáveis. Alguns preferiram encher os bolsos, saqueando todas as “burras” da República.

Os cobradores da fragilidade do desgoverno abúlico, incompetente e inconsequente de Temer apontam-no como o responsável pelo caos. As ratazanas que roeram os cofres da viúva sob desmandos de Lula e Dilma, do PT, sejam os da esquerda populista ou os da velha cleptocracia herdeira dos coronéis da Guarda Nacional do Império convocados à rapina, votaram no constitucionalista de Tietê vice da tatibitate Dilma Rousseff, que nasceu em Minas e se criou nos pampas de Getúlio e Brizola. Em 2014 o “mercado” financeiro sufragou Aécio Neves, ora acusado de ter cobrado propina para se fingir de oposição, e com o impeachment de Dilma, em 2016, afagou as mãos de Temer, em que antes escarrava.

A posse do legítimo sucessor da rainha da quebra do decoro vernacular permitiu o paradoxo a que a Nação se submete há dois anos: sem forças para “estancar a sangria”, meta que o presidente do MDB, Romero Jucá, esperava atingir assim que Temer pusesse as mãos no leme da embarcação à deriva, o grupo no poder não consegue usá-lo como teria de fazê-lo.

E não há como. O “quadrilhão do PMDB”, ainda com P, de que foi acusado o grupo ora no poder pelo ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot, caiu na rede da devassa da maior roubalheira da História. Metade dos acusados e investigados está na cadeia e em simulacros para os quais é enviado quem goza das graças dos mui generosos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello: Eduardo Cunha, Henriquinho Alves, Rodrigo Loures e Geddel Vieira Lima, o petiz chorão de mãinha Marluce.

A outra metade, o trio desesperança Temer, Eliseu e Moreira, ficou no palácio e no poder por cumplicidade da Câmara dos Deputados e mercê da farta distribuição de merendas orçamentárias a suspeitos do Centrão. E da debilitação do que só se chama de governo por falta de nome adequado.

O desempenho do desgoverno foi muito abaixo de medíocre no caso. O chefe da Agência Brasileira de Inteligência (???), general Sérgio Etchegoyen, nada informou sobre a encrenca a vir. No quarto dia o presidente entregou carros que não rodam por falta de gasolina e comemorou a noite da indústria, paralisada por não dispor de combustível. O ministro de Minas e Energia, Moreira Franco, sumiu e ressurgiu falando grosso. E Padilha fez um acordo com líderes que nem os caminhoneiros reconhecem.

No sétimo dia, o chefe do Executivo mentiu. Disse que o governo negociou “desde o início”. De quê? Gabou-se dos “sacrifícios” do cidadão, como se fossem do governo, que não anunciou corte de gastos ou privilégios de partidos e políticos, mas, sim, privilégios para transportadoras e autônomos. Buzinas e sons de panelas vazias evitaram que fosse ouvido. Ninguém perdeu: a redução de 46 centavos no preço do diesel não chega às bombas, segundo disse o presidente do Sincopetro, José Gouveia, em entrevista à Rádio Eldorado.

Temer tinha ameaçado, antes, usar a força, mas exibiu um revólver de brinquedo. O ministro da Defesa, general Silva e Luna, apelou para o bom senso dos chantagistas. O Comando Militar do Sul usou um tom de entregador de flores, não de garante da lei. O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, pôs a Polícia Federal à caça dos mandantes do locaute, mas o que disse, pelo visto, não assustou ninguém.

Com o Legislativo agindo como clube privado de parlamentares, e não um Poder que representa o povo, como de hábito, e o STF embuçado na retórica vazia da presidente Cármen Lúcia, as vivandeiras de quartéis, de que falava Castelo Branco em 1964, ressurgiram munidas de bandeiras e besteiras. Ao lado delas rosnaram “valentinhos” de esquerda, caso do preso mais famoso do Brasil, Lula, que se manifesta pela voz sem eco do líder do partido na Câmara, José Guimarães.

No país do quem pode grita mais e chora menos, estamos no mato acuados pela matilha.

José Nêumanne

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Página 2 do Estado de S. Paulo quarta-feira 30 de maio de 2018)

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No Blog: Nêumanne entrevista Roberto Rodrigues

No Blog: Nêumanne entrevista Roberto Rodrigues

Cansaço com incompetência

Caos no abastecimento foi reação não refletida de estado de coisas insuportável

José Nêumanne Pinto

Para Roberto Rodrigues, paralisação de caminhoneiros manifestou sensação de “falta” de tudo – educação, saúde, transporte, segurança, emprego e oportunidades

O sucesso e a força do bloqueio dos caminhoneiros autônomos, ao que parece com apoio de transportadoras de cargas, devem-se ao cansaço da sociedade de tudo o quanto esta vem sendo informada sobre recorrentes problemas do Estado brasileiro. Esta é a opinião de um dos mais respeitados especialistas no Brasil em cooperativismo e agronegócio, o professor da USP e da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Roberto Rodrigues, que foi secretário da Agricultura do Estado de São Paulo no governo Fleury e ministro da Agricultura no primeiro mandato de Lula. Em sua opinião, a situação chegou ao estágio que atingiu por erros do governo Temer, “que deveria ter tomado providências antecipadas, eventualmente até as mesmas que tomou depois de pressionado, o que deu a impressão a todo mundo de falta de firmeza, falta de autoridade e falta de rumo”.

Roberto Rodrigues é engenheiro agrônomo e agricultor, presidiu várias entidades ligadas ao setor rural, como a Organização das Cooperativas Brasileiras, a Sociedade Rural Brasileira, a Associação Brasileira do Agronegócio, a Academia Brasileira da Agropecuária daSNA, a Aliança Internacional das Cooperativas, o Conselho Consultivo da Unica e a Trading Eximcoop,  entre outras. Foi secretário da Agricultura do Estado de São Paulo (1993-94) e ministro da Agricultura, Pecuária a Abastecimento do Brasil entre 2003 e 2006. Foi professor do Departamento de Economia Rural da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp – Jaboticabal. Autor de nove livros e coautor de vários outros, atualmente é coordenador do Centro de Agronegócios da Escola de Economia de São Paulo da FGV, embaixador Especial da FAO para as Cooperativas, presidente da EsalqShow e titular da Cátedra do Agronegócio da USP. Também participa de diversos conselhos de instituições, academias e empresas e preside o Lide Agronegócios.

A seguir, Nêumanne entrevista Roberto Rodrigues

Roberto Rodrigues na plantação de soja, símbolo do sucesso do agronegócio, nossa galinha dos ovos de ouro. Foto: Acervo pessoal

Roberto Rodrigues na plantação de soja, símbolo do sucesso do agronegócio, nossa galinha dos ovos de ouro. Foto: Acervo pessoal

Por que hoje em dia os caminhoneiros autônomos e as transportadoras de cargas, juntos, têm um poder de barganha e de chantagem com a sociedade e perante o governo como nenhum outro estamento social jamais teve na História?

RR– A sociedade em geral está cansada de tudo o que tem sido veiculado quanto aos recorrentes problemas envolvendo o Estado brasileiro. A frustração com a retomada da economia, prevista para os primeiros meses deste ano, a completa incerteza quanto ao resultado das eleições de outubro, a incompetência/impotência dos Executivos, a posição eleiçoeira do Legislativo, a postura teatral do Judiciário, o noticiário recorrente sobre corrupção de todo lado, o sentimento de “falta” de tudo (educação, saúde, transporte, segurança, emprego, oportunidades), enfim, o cenário é tão ruim que a paralisação ocorrida nos últimos dias foi uma espécie de “desaguadouro” desse cansaço, por mais justa que seja a reivindicação dos caminhoneiros, especialmente os autônomos. Ninguém quer saber das consequências da falta de transporte quanto ao abastecimento de gêneros, de quem vai pagar o custo de qualquer acordo, dos pesados prejuízos que vários setores da economia estão sofrendo. Foi uma reação não refletida a um estado de coisas realmente insuportável. Daí o poder potencializado dos agentes de transporte. É claro que eles têm mesmo um poder natural expressivo, oriundo da estrutura nacional de transportes baseada em rodovias. Mas a crise de liderança alimentou isso.

N – Se o senhor fizesse parte da equipe ministerial, como já fez antes, teria sido surpreendido por um movimento das dimensões deste último, que comprometeu o abastecimento de combustível e prejudicou hospitais, farmácias, açougues e supermercados, tornando inviáveis até as feiras livres?

RR– Bem, conforme amplamente noticiado, o governo foi avisado mais de uma vez sobre uma eventual manifestação dessa natureza. Portanto, não houve surpresa. Não se sabe se o governo não acreditou nos sinais dados, se menosprezou as lideranças em função da dispersão e multiplicidade delas ou se simplesmente, por incompetência pura, não conseguiu se antecipar ao processo deflagrado. Qualquer que seja a alternativa ­- ou até se foi uma soma das três – deveria ter tomado providências antecipadas, eventualmente até as mesmas que tomou depois de pressionado, o que deu a impressão a todo mundo de falta de firmeza, falta de autoridade e falta de rumo. E as diferentes ações empreendidas após o acordo inicial – que aparentemente não foi um acordo geral – mostram essa insegurança sobre como se comportar numa crise de consequências muito sérias para a população inteira.

Roberto Rodrigues acha que a crise de liderança, que atinge o Estado e o setor privado no Brasil, engrossou os bloqueios. Foto: Acervo pessoal

Roberto Rodrigues acha que a crise de liderança, que atinge o Estado e o setor privado no Brasil, engrossou os bloqueios. Foto: Acervo pessoal

N – Como professor, executivo e ex-agente do Estado, o senhor se surpreendeu com o desconhecimento demonstrado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) na informação ao presidente da República tanto do descontentamento generalizado da população com a política de preços de combustíveis quanto das agruras sofridas pelos transportadores de produtos de importância estratégica capital para a sobrevivência e a tranquilidade da sociedade? E o que diz do congelamento dos preços de diesel, voltando às priscas eras dos “fiscais do Sarney”?

RR– Penso que organismos de avaliação e informação como a Abin devem estar sobrecarregados com os mais amplos  e diversos sinais de descontentamento que a população vem dando de forma aleatória. O apoio total que a sociedade dá à Operação Lava Jato e ao Juiz Sergio Moro é prova disso. Estamos todos infelizes com o estado de coisas e não vemos horizontes mais suaves, até porque a sociedade civil também está sem lideranças com projetos claros e equilibrados de desenvolvimento. Nesse contexto, o congelamento dos preços do diesel não faz muita diferença para a opinião pública. Não pensamos na questão maior, estrutural, da tributação sobre os combustíveis e a energia, ou até do reajuste diário de preços, dadas a volatilidade do câmbio e dos preços internacionais do petróleo. Talvez fosse mais adequado reajustar os preços semanalmente ou até quinzenalmente do que diariamente.

N – Como o senhor, como homem dos setores produtivos cooperativista e agropecuário, mas também com experiências relevantes no Estado, tendo chegado a ministro da Agricultura no governo Lula, explica e encara o excesso de representantes e a escassez de representatividade de órgãos tidos como porta-vozes dos caminhoneiros, com os quais o governo equivocadamente negocia? Na quinta-feira 24 de maio, por exemplo, os ministros de Temer fizeram um acordo com 10 de 11 representantes de federações e confederações para na madrugada seguinte a trégua negociada afundar simplesmente pelo fato de que quem está na estrada não os conhece nem reconhece. Que tal?

RR– O tema da representatividade classista é também recorrente e se repete em muitos outros setores socioeconômicos, não apenas no caso em tela. Acredito que essa pluralidade de “representantes” seja ainda um rescaldo do modelo de desenvolvimento que o Brasil escolheu, muito dependente do governo. Ao longo da História, cansamos de assistir a empresários recorrendo aos organismos federais de arbitragem de preços em busca de suas margens e lucros, sem a menor ligação com o mercado real. E iam sendo criadas instituições de representação deste ou daquele setor à medida que pessoas tinham acesso a este ao àquele organismo ou presidente de organismo, sem considerar o interesse legítimo de todos os representados. Acresce levar em conta o tamanho do nosso país, as diferenças regionais enormes quanto a demandas e problemas, o que realmente dificulta a unidade de representação. Mas isso é agravado por vaidades, disputas por poder, ambições ou interesses menos republicanos de pessoas não qualificadas.
l inédito na História foi a óbvia facilidade com que punhados de militantes estrategicamente espalhados em vários pontos do território nacional interromperam o tráfego nas rodovias. Não há mais como escapar desse monopólio do modal rodoviário, tornado crucial do governo Juscelino para cá, pela dificuldade de construir ferrovias e hidrovias que aliviem a concentração nas estradas?

RR– Esse é outro assunto debatido há décadas e todo mundo sabe que nosso modal é mais caro e inibidor de nossa competitividade. No agronegócio é exponencial, uma vez que nos últimos 40 anos a atividade rural, que era costeira, foi para o Centro-Oeste e o Norte-Nordeste, mas com ela não foram a infraestrutura e a logística. Não foram feitos investimentos em ferrovias e hidrovias, nem mesmo em armazenagem e portos, reduzindo nossa condição competitiva. Hoje existem vários estudos e projetos sérios que apontam quais obras seriam essenciais e prioritárias. Mas o Estado perdeu capacidade de investir, de modo que tais projetos só poderão sair do papel por meio de parcerias público-privadas. E estas, por sua vez, só se concretizarão se houver confiança no governo, se houver previsibilidade quanto a resultados, se houver segurança jurídica. Em outras palavras, somente com tais condições será possível melhorar nossa infraestrutura, mas mesmo assim vai demorar um tempo precioso.

N – À época em que o senhor ocupou cargos importantes no serviço público, as chamadas redes sociais não tinham essa importância que têm hoje na mobilização social. No entanto, como professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o senhor se mantém a par dessa nova realidade. Que saída vê para surpresas provocadas por movimentos de protesto na sociedade a cujas informações o Estado não tem acesso com o uso de WhatsApp e outros veículos cibernéticos?

RR– Esse problema não é brasileiro, é mundial. A Primavera Árabe foi marcante exemplo disso, com quedas de governos totalitários, sem lideranças específicas. Eleições recentes em grandes países tiveram a marca das redes sociais e até o Brexit foi por elas influenciado. Parece claro que tal influência crescerá no mundo todo, conclamando as populações a tomarem posição sobre questões de interesse geral, ajudando a eleger ou derrubar governos. Mas também parece que o que há por trás disso é a crescente demanda que os cidadãos de qualquer país têm de participar da governança de tudo: das empresas, das instituições, dos governos. E as redes sociais dão uma boa sensação dessa participação. Portanto, se os governos não se aparelharem para acompanhar o que se passa nelas, perderão o contato com uma realidade que pode trazer exigências e mudanças surpreendentes.

Roberto Rodrigues posou para o retrato com o pai e o filho bebê, hoje com 50 anos. Foto: Acervo pessoal

Roberto Rodrigues posou para o retrato com o pai e o filho bebê, hoje com 50 anos. Foto: Acervo pessoal

N – De uns anos para cá, o Brasil tem sobrevivido a crises econômicas terríveis graças ao agronegócio, que tem sido nosso esteio produtivo, uma verdadeira galinha dos ovos de ouro. A tecnologia do agronegócio brasileiro é respeitada no mundo desenvolvido e, de certa forma, tem compensado os problemas naturais do setor, como, por exemplo, a dependência da meteorologia. Como o agronegócio, que tem vencido enchentes e secas, sobreviverá ao estado cada vez mais deplorável da malha rodoviária nacional, principalmente fora do Sudeste, e em grande medida das deficiências do armazenamento e dos terminais portuários?

RR – De fato, como já foi dito, essa situação perturba a nossa competitividade atual e inibe maiores investimentos no agronegócio, sobretudo na promissora fronteira agrícola. Mais ainda: hoje é consenso que segurança alimentar global é sinônimo de paz. Não haverá paz onde houver fome. E estudos levados a efeito pela OCDE e pela FAO e agora aceitos até pelo Departamento de Agricultura dos EUA dão conta de que para haver segurança alimentar global será preciso aumentar em 20% a oferta de alimentos em dez anos. Mas para que isso se verifique o Brasil deverá aumentar a sua oferta internacional em 40%, o dobro do que o mundo precisa crescer. Isso porque temos uma tecnologia tropical sustentável respeitada, como você disse, porque temos terra para crescer e temos gente jovem e competente em todos os elos das cadeias produtivas. Mas isso não é suficiente: precisamos de uma estratégia articulada de longo prazo, em que a logística é tão importante quanto uma política de renda compatível com as que têm nossos competidores, com crédito rural moderno e flexível, com seguro agrícola decente, com preços de garantia realistas, com assistência técnica adequada ao pequeno produtor, com acordos comerciais bilaterais com grandes países consumidores de alimentos para garantir mercados, conquistar outros e agregar valor às commodities agrícolas, com estímulos à inovação  tecnológica, com modernização de leis obsoletas, e assim por diante. Há um longo caminho a percorrer, sem trocadilho.

Roberto Rodrigues planta uma árvore, símbolo de seu ofício e paixão de toda a sua vida. Foto: Acervo pessoal

Roberto Rodrigues planta uma árvore, símbolo de seu ofício e paixão de toda a sua vida. Foto: Acervo pessoal

N – Outro gargalo importante do transporte de safras para esses terminais portuários é o combustível, principalmente o diesel, também componente de custo no agronegócio por conta das máquinas agrícolas. Até que ponto a política de preços que está salvando a Petrobrás, nossa maior estatal, da bancarrota tem prejudicado a atividade agropecuária? Ou será a absurda carga tributária, tanto da Cide e do PIS/Pasep, federais, quanto do ICMS, estadual, ainda mais prejudicial?

RR– A Petrobrás está no caminho certo, sobretudo se não se submeter a pressões governamentais, como no governo passado, que quase destruiu a empresa e o setor sucroenergético ao tentar controlar a inflação com a estagnação dos preços dos combustíveis. Talvez, como já disse, os reajustes de combustíveis devessem ser feitos com maior intervalo de tempo do que diariamente. Mas não há dúvida de que a carga tributária precisa ser revista. E, diga-se de passagem, não apenas nesse setor. É  por demais sabido que temos uma dos maiores tributações do mundo e isso é insuportável para qualquer economia que se pretenda sustentável. Aliás, o governo de São Paulo deu um exemplo sobre como isso funciona há alguns anos, ao reduzir o ICMS sobre o etanol de 24% para 12%: o preço caiu para os consumidores e a arrecadação cresceu para o Estado.

Roberto Rodrigues com os oito netos reunidos. Foto: Acervo pessoal

Roberto Rodrigues com os oito netos reunidos. Foto: Acervo pessoal

N – O firme combate à corrupção no setor público, revelando irregularidades cabeludas na relação entre empresas privadas e o Estado, já atingiu a nossa pecuária, descobrindo pontos vulneráveis na sanidade animal, que antes era considerada acima de qualquer suspeita e, desde a Operação Carne Fraca, passou a não o ser. Até que ponto essas interdições de carnes brasileiras no mercado comprador têm comprometido o bom desempenho comercial de nossa pecuária? E até que ponto essas fragilidades podem solapar o desempenho salvador do agronegócio em nossa balança comercial?

RR– Eis uma questão delicada, que passa por uma revisão dos mecanismos de defesa agropecuária. Embora tenhamos um sistema bom, é possível melhorá-lo muito, e tanto o governo quanto o setor privado estão mergulhados no assunto. O episódio Carne Fraca foi ruim para a imagem do setor cárnico, com a redução parcial e temporária de exportações, sobretudo de carne bovina. Mas os efeitos da Operação Trapaça foram piores, porque afetaram duramente as exportações de todas as carnes, com ênfase para a de frangos, em que o Brasil é o maior exportador mundial, e muitas fábricas foram proibidas de exportar para a Europa, com reflexos negativos em outros países. É claro que muitos países que suspenderam as importações o fizeram para defender seus produtores, que, em condições normais, não são competitivos conosco: temos preços melhores e boa qualidade de carnes. Mas isso não justifica nossos defeitos, por mínimos que sejam: numa concorrência global acirrada como a que vivemos hoje, não podemos apresentar defeitos, porque estes se transformam no argumento para o concorrente nos barrar.

 Roberto com a Fazenda Santa Isabel ao fundo. Foto: Acervo pessoal

Roberto com a Fazenda Santa Isabel ao fundo. Foto: Acervo pessoal

N – O governo Temer cedeu em praticamente tudo aos manifestantes nas estradas e, em consequência, também ao agronegócio, às transportadoras de cargas, às grandes empresas com frotas e até aos proprietários de veículos urbanos, alguns importados, movidos a diesel. Como vai conseguir resistir a outras demandas sociais desse gênero, inclusive dos próprios caminhoneiros, com os quais negociou apenas uma trégua, que, afinal, nem cumprida foi pelo vencedor, que, como na fábula de Brás Cubas, levou todas as batatas?

RR– Não me parece que o governo tenha atendido ao agronegócio no curto prazo: o setor está em plena safra de grãos, de cana-de-açúcar, de laranja e de café. Claro que as barreiras inibiram o transporte desses produtos em muitas regiões, trazendo prejuízos elevados. Muito mais grave é o problema enfrentado por produtores rurais e por suas cooperativas e indústrias do setor de carnes de frangos e suínos: a ração não chega às granjas, os frangos morrem de fome ou entram na tragédia do  canibalismo, os custos explodem, e mesmo que houvesse ração os animais prontos para abate não podem sair das granjas, as fábricas são obrigadas a parar e as galinhas, que não sabem nada da greve, continuam botando ovos – os futuros frangos – que são eliminados aos milhões. Uma situação dramática, que demorará meses para ser retomada a pleno vapor. Claro que, no longo prazo, se o preço do diesel cair com a redução dos tributos, haverá ganhos para o agro, dada a influência desse combustível em todas as atividades de máquinas e colhedeiras no campo, além do transporte de insumos e produtos. Mas por ora os prejuízos são bem maiores que as economias. Agora, se o governo vai resistir a outras pressões que provavelmente virão, só o futuro dirá.

Nota: Normalmente as entrevistas da série Dez perguntas para… são publicadas às quintas-feiras, mas esta está sendo editada com dois dias de antecedência por causa da premência e da gravidade do tema.

Nêumanne entrevista Roberto Rodrigues. 7a. edição da série 10 PERGUNTAS.

Nêumanne entrevista Roberto Rodrigues. 7a. edição da série 10 PERGUNTAS.

(Publicado no Blog do Nêumanne na terça-feira 29 de maio de 2018)

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