Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Jornalismo

Nêumanne entrevista Roberto Romano (17)

Nêumanne entrevista Roberto Romano (17)

O negro João Alberto Silveira Freitas, morto por um segurança e um PM de folga em Porto Alegre, prova que o civil Pedro Aleixo, vice de Costa e Silva na ditadura militar, estava certo quando previu que a violência autorizada pelo AI-5, recentemente louvado pelo filho 03 de Bolsonaro, Eduardo, chegaria ao guarda da esquina, disse o filósofo Roberto Romano. No vídeo desta semana da série Nêumanne Entrevista no YouTube, o professor aposentado de Filosofia e Ética da Unicamp disse ainda que até podemos esperar uma solução democrática para a crise em que o País está mergulhado, mas não dá para prognosticá-la para breve, por culpa da má qualidade dos controladores dos três Poderes da República. No fim da entrevista, ele indicou um livro para leitura neste momento: Consideraciones políticas sobre los golpes de Estado, de Gabriel Naudé, que foi secretário de Richelileu. Direto ao assunto. Inté. E só a verdade nos salvará.

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No Blog do Nêumanne: A força da velha política de hábito

No Blog do Nêumanne: A força da velha política de hábito

José Nêumanne

Do naufrágio de Bolsonaro e Lula nas eleições emergiram seculares e ancestrais oligarquias remoçadas e o aumento do custo do ansiolítico do Centrão de sempre na governabilidade dos espertos

Como em todo evento político brasileiro, o primeiro turno do pleito municipal trouxe motivos de sobra para a necessidade cada vez maior do combate à pós-verdade pelo esclarecimento criterioso de fatos e fakes.

FATO – É possível sempre argumentar que eleições restritas aos municípios não definem resultados posteriores da federal e das estaduais de dois anos depois. O exemplo mais recente desse aforismo pode ser encontrado na comparação entre 2016 e 2018. Há quatro anos o Partido dos Trabalhadores (PT) foi sepultado numa avalanche de votos de repulsa às gestões corruptas de petistas e asseclas pelo mensalão e pelo petrolão. No ano seguinte, a fênix barbuda, Luiz Inácio Lula da Silva, impôs seu poste Fernando Haddad no segundo turno, para tornar inevitável a vitória da direita de reses e robôs e impor o domínio do mau militar sobre civis inocentes. A apuração de agora impôs vexame maior ao maior líder da esquerda, transferindo a banda sinistra da disputa tradicional do segundo turno em São Paulo para o PSOL de Guilherme Boulos e Luíza Erundina, uma das primeiras vítimas da truculência sindical do chefão da organização criminosa. A maior vítima da dicotomia Covas x Boulos agora é o próprio patriarca, que desembarcou do inutilizado “Lula livre” para o atualizado “Xô, Lula”. A situação favorece o presidente Jair Bolsonaro, que fará o possível e o improvável para fazer do PT adversário preferencial em eventual segundo turno da eleição presidencial de 2022. Ou seja, agora é bolsalulismo ou ninguém. Ou melhor, ou nada.

FAKE –Bandeiras ridículas da direita indigesta da fraude eleitoral nas urnas venezuelanas, que levou seu “mito” que mente a denunciar sem provas fraude na disputa por ele vencida, o supremo do grotesco, e do voto impresso como condição de correção deverão ser guardadas no quarto de despejo da retórica. A tentativa mal-sucedida de blogueiros acusados de usarem fake news em inquérito adormecido em mesas do ministro Alexandre de Moraes e do Supremo Tribunal Federal (STF) – como Bernardo Küster  e Oswaldo Eustáquio – é prova cabal de que a direita minoritária é a maior suspeita de tentar fraudar essas eleições. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro do STF Luís Roberto Barroso, garantiu em entrevista exclusiva publicada extraordinariamente na série Nêumanne Entrevista, no YouTube, levada às redes domingo 15, dia da eleição, teve nela o maior aval. Da mesma forma, isso ocorreu com outra afirmação no mesmo vídeo de que disparos de WhatsApp e ações de reses e robôs do gabinete do ódio foram reduzidos em parceria com as redes sociais à insignificância na apuração da Justiça Eleitoral.

FATO – O aval da realidade à lisura dos resultados eleitorais neste pleito não isenta, contudo, a Justiça Eleitoral de seu pecado capital: ela continua inócua na repressão ao crime na eleição. Permitir que Jair Bolsonaro fizesse – como fez – campanha eleitoral em lives gravadas em palácio é um acinte que merece reproche a todos: do criminoso confesso, do juiz omisso e da oposição leniente. Não vale o argumento de que o eleitor lhe puxou a orelha na hora de votar. Dos 59 beneficiários do delito impune, só 9 foram eleitos. Dos 13 candidatos a prefeito de Bolsonaro, 2 foram eleitos, 2 passaram para o segundo turno e um terço permanece na disputa. No Estado de Direito, eleitor escolhe, não pune. Punição é assunto de polícia, Ministério Público e Poder Judiciário, que falharam gravemente no caso. O capitão de milícias jogou todas as suas fichas na votação do filho 02, Carlos, comandante do gabinete do ódio no Planalto, para a Câmara do Rio, base eleitoral e sede territorial da famiglia. Num eleitorado maior e mais exposto à mídia do sobrenome, ele teve 70 mil votos, 36 mil (34%) a menos do que em 2016, quando se contaram 106 mil. Perdeu o primeiro lugar para Tarcísio Motta, do PSOL, com 86.243. E conviverá com uma bancada de 7 “comunistas”, um a mais do que a meia dúzia de quatro anos atrás. Para completar o mal-estar, terá de esperar a próxima passagem do elevador do Palácio Tiradentes quando a viúva de Marielle Franco, Mônica Benício, eleita com 22.99 sufrágios, ocupar um lugar nele.

FAKE – Ressalvando a minoria lúcida, analistas profissionais, amadores ou interessados no resultado das urnas pisaram no tomate ao atribuírem à derrota do “bolsalulismo” o ímpeto nostálgico da experiência administrativa e da velha política e a renovação nos quadros dirigentes do Estado. Mas não houve renovação, estes foram apenas remoçados. João Campos e Marília Arraes, que disputam o segundo turno no Recife, não são apenas netos de Miguel Arraes, ícone da esquerda pré-golpe militar. São herdeiros da mais antiga oligarquia brasileira desde o Império, os Alencar do Cariri cearense. Bruno Covas é neto de Mário Covas, patriarca do PSDB. O fato de as linhagens da nobreza política terem chegado à segunda geração está longe de representar novos ares limpos e arejados no pedaço. Isso também vale para o caso da primeira capital do Brasil, São Salvador da Bahia, na qual o prefeito, neto e xará do cacique Antônio Carlos Magalhães, elegeu no primeiro turno Bruno Reis, que assumirá o bastão na passagem de poder no carlismo baiano.

FATO – Bruno Reis faz parte dos prefeitos que já garantiram seu lugar no poder municipal ao lado de dois correligionários do DEM de Rodrigo e César Maia, este também ungido pelo voto no domingo em que se celebraram 131 anos da insana República. Reforçando a força do Centrão para a barganha com Bolsonaro, Rafael Greca, de Curitiba, e Gean Loureiro, de Florianópolis. O custo da indiferença a 48 processos de impeachment na gaveta de Rodrigo Maia, o Botafogo do propinoduto da Odebrecht, certamente subirá mais do que o dólar norte-americano sob Joe Biden. Quem viver verá crescerem o “Xô, Lula” e o “Vai trabalhar, presidente”, título do editorial do Estadão de segunda-feira, 16, cuja leitura será a cada dia mais recomendável para ele e os brasileiros em geral.

*Jornalista, poeta e escritor

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Nêumanne Entrevista Luís Roberto Barroso (16)

Nêumanne Entrevista Luís Roberto Barroso (16)

Barroso garante eleições sem fraudes

O presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, garantiu que as eleições municipais do domingo 15 de novembro não serão manchadas por fraudes, seja na coleta do voto nas urnas eletrônicas, seja em suas apurações. O ministro do STF também prometeu um índice ínfimo de fake news, mercê da mudança de atitude das redes sociais, que, para evitar o desgaste de sua credibilidade, passaram a ajudar a Justiça Eleitoral no combate aos disparos de whatsapp e do uso de robôs. Em vídeo extraordinário da série Nêumanne Entrevista, ele manifestou ainda sua expectativa de que a vitória do democrata Joe Biden sobre o presidente republicano Donald Trump se confirmará sem que a tentativa do derrotado de judicializar a apuração venha a ter êxito. Direto ao assunto. Inté. E só a verdade nos salvará. 

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Nêumanne Entrevista Roberto Abdenur (15)

Nêumanne Entrevista Roberto Abdenur (15)

Abdenur prevê dias difíceis para Biden

O ex-embaixador do Brasil nos EUA e na China, Roberto Abdenur, não acredita que o presidente Donald Trump consiga êxito algum em sua tentativa de ganhar a eleição norte-americana na Justiça. Mas prevê grandes dificuldades para o próximo chefe do Executivo na grande potência militar do mundo para conseguir unir os cidadãos em seu governo, pois o derrotado teve mais de 71 milhões de eleitores, que, a seu ver, serão fiéis ao perdedor e a sua narrativa de fraude eleitoral e de contestação da visão multilateral e tolerante do vencedor. No vídeo Nêumanne Entrevista Roberto Abdenur, este também lamentou a postura agressiva do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em relação àos democratas nos EUA e à China, pois o País terá de lidar com ambos. Direto ao assunto. Inté. E só a verdade nos salvará. 

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Artigo na página 2 do Estadão: De volta à boa e velha democracia

Artigo na página 2 do Estadão: De volta à boa e  velha democracia

Derrota de Trump propicia o retorno às

origens do governo para todos, não para alguns

Na terça-feira 3, o candidato da oposição democrata, o ex-vice-presidente Joe Biden, foi escolhido pelo longevo sistema da representação federativa dos Estados coloniais da Inglaterra para suceder ao republicano Donald Trump. Só quatro dias depois a maior potência política e militar do Ocidente comunicou o fato ao mundo. E o derrotado não recuou de sua postura de denunciar o “roubo” dos vencedores, sem narrar um fato que fosse para apoiar seu “jus sperniandi’, expressão jocosa do juridiquês para o direito de espernear.

Nos quatro anos em que deu expediente no Salão Oval da Casa Branca, o presidente fez o que pôde para impor as ideias de uma direita truculenta e inculta que mantém vivas velhas crendices de obscurantismo, negacionismo, terraplanismo, criacionismo, armamentismo, ignorantismo e anti-imunização. O governo do povo, pelo povo e para o povo, que inspirou os pais fundadores na Revolução Americana, no século 18, e desde então em voga em muitos países – entre os quais o nosso, com interrupções no Estado Novo e sob o golpe militar de 1964 –, depende da Justiça.

Desde sábado, 7 de novembro, ao informar que a apuração lhe dava acesso ao poder na segunda economia do mundo, o vice de Barack Obama esclareceu que a batalha que acabava de vencer tinha o condão de ressuscitar um princípio dos ancestrais. Biden ressaltou o fato de que, embora tenha sido escolhido por mais da metade dos representantes dos Estados da única Federação merecedora dessa definição no mundo, governará para todos os cidadãos norte-americanos. Aí estão incluídos os mais de 70 milhões que sufragaram o atual presidente. Aparentemente esse é um princípio indiscutível, mas não é bem assim. O bilionário eleito em 2016 exerceu o poder em benefício de seus prosélitos, que apressadamente têm seu ideário definido como “ideologia”. Produto político da reação à entrada em cena da nova potência governada pelo Partido Comunista Chinês numa mixagem de capitalismo selvagem com escravidão social e política, o empreendedor imobiliário de sucesso na vida privada armazenou num quarto de despejo bandeiras tradicionais da política ianque, tais como o multilateralismo, o combate à degradação natural e a generosa entrada de estrangeiros no mercado de trabalho mais ambicionado do mundo.

Dos países ao sul do Rio Grande, o que mais tem oscilado na relação com a potência do norte é o nosso. Exemplo mais óbvio disso foi dado por Getúlio Vargas no Estado Novo, quando flertou explicitamente com o nazi-fascismo, mas, ao fim e ao cabo, entrou na guerra mundial contra Hitler e Mussolini. E ainda cedeu aos aliados uma posição geográfica invejável no extremo nordeste de sua conformação continental, onde os norte-americanos instalaram uma base aérea em troca da Companhia Siderúrgica Nacional.

A volta da ditadura após a democracia liberal de 1946, com o golpe de 1964, resultou na sentença mais sabuja da relação de mendicância estabelecida: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, disse Juracy Magalhães, embaixador do Brasil em Washington no primeiro governo militar. Só que, antes de cair a ditadura, o chanceler Azeredo da Silveira, sob o presidente Ernesto Geisel, chefiou uma diplomacia de não alinhamento ainda em plena guerra fria, em reação às objeções ianques ao acordo nuclear com a Alemanha para a construção de uma usina em Angra.

Nunca antes na História das duas nações a relação entre a maior potência e o nosso país, aonde o futuro nunca chega, houve, contudo, subserviência similar à estabelecida entre o Brasil de Bolsonaro e os Estados Unidos de Trump. O laço forte entre os dois é precisamente a comunhão do fanfarrão do norte com o charlatão dos nossos tristes trópicos. Eleito dois anos depois do ídolo, Jair Bolsonaro abandonou provisoriamente seu ideário de baixíssimo clero na Câmara dos Deputados – corporativista, patrimonialista e de simpatia por gestores estatizantes, como o venezuelano Hugo Chávez e o patrício Lula da Silva – por uma narrativa oposta. Na eleição surfou nas ondas do combate à corrupção da Operação Lava Jato de Sergio Moro, por ele nomeado ministro da Justiça, e da privatização, representada pelo ainda ministro da Economia, Paulo Guedes.

No entanto, a derrota de Trump acaba de surpreender seu discípulo latino, tendo doado o governo para o qual foi eleito legitimamente a suspeitos, acusados e condenados por corrupção de um grupo sem princípios e com interesses chamado inadequadamente de Centrão. Tendo defenestrado Moro da Esplanada, renunciou explicitamente à obrigação constitucional de governar para todos para atender a trumpistas olavistas, agora nocauteados pelo malogro do canastrão do pescoço rubro. E, principalmente, para livrar os filhos políticos de velhos hábitos em geral e, em especial, o senador sonso Flávio, seu primogênito, dos rigores da lei. Conforme disse na reunião de 22 de abril, quando admitiu que não permitiria que a polícia os alcançasse. É a famiglia acima de tudo que o afasta do presidente eleito dos Estados Unidos, que reconhece o primado de todos sobre alguns.

*Jornalista, poeta e escritor

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No Blog do Nêumanne: E se Juracy e Jair estiverem certos?

No Blog do Nêumanne: E se Juracy e Jair estiverem certos?

José Nêumanne

Seis redes de emissoras da TV comercial do EUA fizeram bem ao interromper fala de Trump na Casa Branca acusando eleição que perdia de ter sido “roubada” sem se referir a fato nenhum?

Na sexta-feira, 6 de novembro de 2020, correspondentes de meios de comunicação e seus públicos foram mantidos em suspense à espera de um pronunciamento do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cuja derrota no pleito de terça-feira, 3, parecia a cada segundo mais próxima de ser anunciada. O republicano assomou ao púlpito do qual faz seus pronunciamentos e respondeu a perguntas em entrevistas coletivas, na sala de imprensa da Casa Branca, dando início a um exaustivo e cansativo destampatório, acusando o sistema eleitoral da democracia fundada em 1776 de ter sido fraudado em prejuízo de suas pretensões à reeleição para o cargo político mais importante do mundo. Perdeu tempo quem esperou que ao longo de uma teoria conspiratória surrealista — incluindo o autor destas linhas — surgisse alguma bala de prata, um argumento fatal que desmentisse o otimismo dos adversários. Em vão.

Espectadores de seis redes de televisão comercial em seu país, porém, foram poupados ou não puderam seguir até o fim aquela narrativa absurda, mais apropriada na obra teatral do surrealista romeno Eugène Ionesco. Elas tomaram uma atitude radical, inesperada e arriscada de suspender a transmissão da fábula autoindulgente do potentado vencido. Não era esperado, nem seria comum, que canais de televisão tivessem o topete de suspender uma transmissão ao vivo no momento em que era enunciado o primeiro de episódios sem nomes, endereços e evidências da fala oficial à qual o orador tem o privilégio ao menos até 20 de janeiro de 2021. Todos deram como único motivo o fato de que o principal mandatário da mais importante democracia mundial simplesmente não aprendeu a perder. Esse é, pelo menos na convicção dos executivos dos canais e dos noticiários, motivo suficiente para negar a seus telespectadores o rosário que tem repetido o ocupante do Salão Oval da Casa Branca desde que percebeu que sairia do jogo assim que os votos fossem conhecidos.

A decisão desses profissionais foi, além de inédita, ousada. Pois chegava de forma muito arriscada à margem de um dos direitos mais elementares da democracia instaurada naquele país há 244 anos na convenção que fundou os Estados Unidos da América, em Filadélfia, na Pensilvânia. A direita armamentista mundial, que tem no republicano no poder em Washington seu ícone, agarrou-se, desde então, a alguns conceitos que nunca defendeu, e agora com ardor mais do que inusitado. Ou seja, o máximo palavrão com que nenhum liberal sequer suporta conviver: a censura à expressão e opinião. Estabeleceu-se incontinenti o maior conflito na história da democracia contemporânea: entre liberdade e verdade, seus princípios basilares, nem sempre coincidentes.

A essa dicotomia acrescente-se, nestes tempos de libertinagem das redes sociais na cibernética, o conceito elástico e amoral da pós-verdade: a primeira condição para uma argumentação civilizada dos limites da liberdade que não aceita o direito de mentir, deixando de fora o cinismo. É possível até negar a concessionários de serviços de interesse público como emissoras de televisão o poder de cortar, sem nenhuma delegação popular,  a transmissão que agora, quando parece definida a apuração dos votos dando vitória ao oponente, conta com a adesão de 70 milhões de eleitores norte-americanos que sufragaram o presidente. As redes sociais, que tateiam em busca de um ponto intermediário, têm alertado nos EUA que as declarações de Trump são, no mínimo, duvidosas. A decisão das emissoras ­– que, particularmente, não confundo com censura — poderá ser submetida à Justiça por qualquer cidadão que se sinta prejudicado por ela.

“A democracia às vezes é confusa, então às vezes requer um pouco de paciência”, disse Joe Biden em Wilmington, Delaware, onde vive, quando ainda não tinha certeza da vitória. Naquele momento, ainda era noticiada certa confusão na eleição presidencial, com manifestantes dos dois lados nas ruas e ações judiciais pedindo a paralisação da contagem. Convém esclarecer que a democracia dos pais fundadores, que sempre tentamos copiar, mas nunca conseguimos, é genuína e continua hígida e a salvo de eventuais tentativas de prepotência, de um lado ou de outro.

Seja qual for o resultado a que se chegue sobre essa confusão, fica patente que Donald Trump tem usado o fato de morar na Casa Branca para usá-la como palanque e seu discurso se configura como absurdo por denunciar fraudes sem provas, e apenas em Estados onde perdeu para Joe Biden. Ou onde perdeu terreno no final da apuração em progressão.

É justo esclarecer que, por mais confusos resultados pareça permitir, e apesar de o sistema eleitoral norte-americano não dispor de Justiça Eleitoral nacional, mas estadual, é constrangedor ver o presidente, no exercício de suas funções, questionar a lisura de apurações eleitorais quatro anos após ter vencido numa. É um mau exemplo, vindo de um país que tem a pretensão de servir de modelo democrático para o mundo. Essa atitude representa um sério problema para o funcionamento do sistema eleitoral no futuro, pelas incertezas que desperta, embora não chegue a ameaçar a democracia nem a credibilidade do país no planeta. Como denotam manifestações de aplauso de vários estadistas, incluídos aliados do vencido.

A interrupção da fala de Trump é um momento histórico na ação dos modernos meios de comunicação. Se Juracy Magalhães, autor da sentença “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, e Jair Bolsonaro, que adota aquele país como guia universal dos bons costumes cívicos, estiverem certos, seria talvez provável imitá-los por aqui. Ou não?

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 9 de outubro de 2020)

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