Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Jornalismo

No Estadão desta quarta-feira: Bolsonaro é legítimo, mas não é monarca absoluto

No Estadão desta quarta-feira: Bolsonaro é legítimo, mas não é monarca absoluto

Meios de comunicação tradicionais

perderam o poder que tiveram,

mas não têm substitutos

Jair Messias Bolsonaro ganhou, sem dúvida nenhuma, a eleição presidencial em dois turnos em outubro do ano passado. Obteve 57,7 milhões de sufrágios, mais de 10 milhões a mais do que o adversário de esquerda, Lula, representado por seu boneco de ventríloquo, Fernando Haddad. E não é pouco. Entre a divulgação do resultado final e a posse os derrotados ainda tentaram descaracterizar a legitimidade de sua vitória, alegando que ele não conseguiu os sufrágios de mais da metade dos eleitores aptos, pois 89,4 milhões não o escolheram: 47 milhões preferiram o derrotado, 31,3 milhões abstiveram-se, 2,4 milhões ficaram em branco e 8,6 milhões anularam o voto. O argumento é estúpido sob qualquer ponto de vista, pois o slogan “ele não!” não é previsto no ordenamento constitucional de nossa democracia. O voto no Brasil nunca é negativo, mas sempre afirmativo.

No entanto, no momento em que não está com algum dos filhos, principalmente o zero dois, Carlos, o presidente constitucional e legítimo do Brasil precisa refletir um pouco sobre os números do primeiro parágrafo deste texto para adicionar a seu estilo de governar um mínimo de lógica aristotélica. Ninguém aqui quer tirar o mérito do triunfo de um candidato que desafiou todos os lugares-comuns de qualquer pleito eleitoral para qualquer cargo. Afinal, ele não participou de nenhum debate nos veículos de comunicação de massa, gastou uma quantia ínfima, se comparada com as fortunas dilapidadas pelos disputantes, e ainda foi esfaqueado brutal e covardemente num evento público, o que praticamente o impediu de fazer campanha. Todos os méritos ao vencedor!

Mas isso não o torna monarca absoluto para exercer o poder sob a mira da família onipresente e de militantes que se sentem seus donos. Os votos deles foram essenciais, mas não os únicos. Para sê-lo, a vitória teria ocorrido no primeiro turno. Já então tivera apoio de antipetistas inconformados com a eventual permanência da rapina da esquerda nas gestões anteriores, confirmando essa decisão na rodada final.

Ao dar ao economista Paulo Guedes, na Fazenda, e ao ex-juiz Sergio Moro, na Justiça, “carta branca” – que depois rasgaria ao interferir na negociação da reforma da Previdência e ao “desconvidar” Ilona Szabó da suplência de uma comissão sem poder –, o candidato tornou-se o ai-jesus do chamado “mercado” e de quem temia o desmanche do combate à corrupção. A trajetória do ex-parlamentar revela a guinada nas convicções do antigo crítico da necessidade de equilibrar as contas públicas reduzindo o rombo das despesas com inativos ao adotar o ideário liberal do auxiliar que chamou de “posto Ipiranga”. A desautorização do “indemissível” foi um ritornello a esse passado de fundamentalista devoto.

O presidente ainda tem três anos e dez meses para confirmar sua fidelidade aos acenos que fez ao liberalismo econômico e ao combate ao crime dentro das normas legais vigentes. Só que para tanto deveria cumprir sem tergiversar a promessa que fez no discurso de posse, e repetiu outras vezes, de seguir princípios fundamentais do Estado de Direito, que chefia: o de governar para todos, pois todos são iguais perante a lei – quem votou nele e quem não o escolheu na urna.

Há exemplos históricos de quem seguiu esses conceitos. Seu colega de armas Eurico Gaspar Dutra, ex-chefe militar na ditadura do Estado Novo, orgulhava-se de ter às mãos o “livrinho”, ao qual era tão leal quanto o era aos princípios de sua esposa, dona Santinha. Afinal, ele não interferiu no pacto do PSD, que o elegeu, com a UDN, que ele derrotou na eleição, na votação da Constituição mais liberal da História.

No governo seguinte, Getúlio Vargas, cuja ditadura do Estado Novo ruiu após entrevista do udenista José Américo de Almeida a Carlos Lacerda, do Correio da Manhã, nomeou o paraibano seu ministro de Viações e Obras Públicas, refazendo a aliança antiga de 20 anos na Revolução de 1930.

A “resistência” da esquerda, sob a égide do PT, não tem postura comparável à da UDN de 70 anos atrás e não se exige que o governo atual, escolhido sob a égide do abandono das práticas ilícitas da quadrilha que esvaziou os cofres da República e levou o País à maior crise econômica, política e moral da História, reedite a velha prática.

Mas partir do pressuposto de que as redes sociais devam governar para substituir o que seus usuários, muitos deles à sombra do anonimato e de avatares substituindo fotografias, chamam de mídia lixo com insultos impublicáveis, não encontra amparo na mesma Constituição que legitima o chefe da Nação. Lula, cercado de extremistas que, armados, foram derrotados na guerra suja contra o regime militar, tentou usar suas falanges para destruir os meios burgueses de comunicação e malogrou. Na Vila Euclides, no auge de seu poder sindical, fazia as massas de grevistas ecoarem “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. Hoje, 39 anos depois, ele está preso por corrupção, os sindicatos perderam a força e a emissora, com todos os seus defeitos, ainda é líder de audiência.

Desde aqueles anos 80, os veículos de imprensa e difusão pelo rádio ou pela televisão perderam muito do poder que tinham no fim do século 20, mas há algo que não pode ser deixado de lado no meio dessa crise. Talvez o presidente, notório admirador da democracia americana, devesse atentar para a observação judiciosa do historiador Timothy Snyder, professor de uma das mais respeitáveis instituições da cultura do Tio Sam, a Universidade Yale, em entrevista a Daniel Haiddar, publicada no Estado do domingo 3 de março (pág. A8).

Disse o autor de Road to Unfreedom (A Caminho da Negação da Liberdade): “Qualquer oportunidade que tenhamos de reverter tendências, como desigualdade, corrupção ou aquecimento global, depende do trabalho de seres humanos reais para descobrir coisas e escrever sobre o que eles investigaram. Não há substituto para o jornalismo. A internet não substitui isso”. É isso mesmo.

José Nêumanne Pinto – Jornalista, poeta e escritor

No Blog do Nêumanne: O bloco dos sujos

No Blog do Nêumanne: O bloco dos sujos

O leque aberto com Lava Jato e operações contra a corrupção pode revelar omissões premiadas, câmbio negro do silêncio de delatores e mercado persa de nomeações no Judiciário, que demandam Lava Toga e Lava Beca

A confissão do ex-governador do Estado do Rio Sérgio Cabral Filho está fazendo o Poder Judiciário, até agora intocado nas célebres operações de combate à corrupção (Lava Jato, Greenfield, Cadeia Velha e tantas outras, que ganharam fama e prestígio após muitos anos de impunidade garantida) perder o sono.

Nos últimos dois anos os meios de comunicação têm publicado que Cabral dispõe de uma lista de 97 nomes de juízes, desembargadores, ministros de tribunais superiores e membros do Ministério Público. O emedebista, que foi aliado in pectore dos petistas Lula da Silva e DilmaRousseff, mas apoiou Aécio Neves, do PSDB, na eleição de 2014, foi levado a concluir que terá de delatar, depois de ter adotado várias estratégias que não tiveram o condão de aliviar sua barra, como se diz na gíria carioca. Um empecilho previsível, contudo, impediu que ele sequer começasse a negociar com o Ministério Público Federal (MPF) ou, em última instância, como fez o ex-maioral petista Antônio Palocci, com a Polícia Federal (PF). Sem alternativa, numa evidente movimentação para obter redução de pena a partir de um acordo de delação premiada, ele promoveu uma ciranda, cirandinha de advogados pulando de banca em banca, malogrando sempre pela ineficácia dos métodos empregados: enfrentamento do juiz da causa, Marcelo Bretas, hoje quase tão famoso e respeitado no Brasil quanto o de Curitiba, atualmente ministro da Justiça, Sergio Moro, e negativa peremptória de afirmações de cúmplices que fazem delação premiada. Ao contrário do que ocorreu com alguns desses companheiros de condenação, caso do ex-chefe de sua Casa Civil Régis Fichtner, seu então secretário da Saúde Sérgio Côrtes e empresários como Jacob Barata, vulgo “o rei dos ônibus”, beneficiados pelo espírito benemérito do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes ou pela  proteção familiar do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Marco Aurélio Bellize, promovido por mercê de sua interferência, Cabral foi somando anos de pena em suas condenações sem que ninguém nas altas Cortes do Judiciário se apiedasse de suas agruras. Não conseguiu, porém, tirar do bolso do colete o curinga que lhe restava do baralho, ou seja, delatar a turma do Batman, que se ausentou das listas da Odebrecht, da OAS e de outros fornecedores de seu bilionário propinoduto. O problema é que o que lhe convinha prejudicava os interesses profissionais e pecuniários dos causídicos que contratou. Estes, sensatamente, temiam que suas bancas viessem a ser perseguidas, renegadas e esvaziadas pelos alvos que ameaçava atingir: os magnatas das mais elevadas Cortes. Foi aí que jogou o orgulho na latrina da cela e partiu para a opção viável: a “humildade” de contar toda a verdade, delatar sem prêmio. E, aí, surgiu sua terceira face: o chefão arrogante e impiedoso virou o réu confesso “viciado em dinheiro”, em busca de piedade e compreensão dos procuradores que antes desprezava e do juiz que já tentara enfrentar. como se ainda ocupasse o gabinete mais poderoso do Palácio Guanabara. O autor destas linhas, com seu testemunho de leitor fiel e atento, vem acompanhando e comentando a estratégia de Cabral, que é diminuir seu tempo na prisão, condenado a quase 200 anos, e também proteger a sua “riqueza”, a ex-primeira dama Adriana Ancelmo, condenada a 18 anos.

A recente prisão de seu braço direito, negociador de todos os achaques, o chefe da Casa Civil de seus governos, Regis Fitchner, acelerou esse movimento. Seu ex-primeiro-ministro, como agora ele definiu, tinha sido preso em 2017 e, naquela ocasião, ameaçou contar coisas do Judiciário que nem o diabo sabia. Não teve tempo de fazê-lo, pois rapidamente foi solto, graças ao desembargador Espírito Santo. Amém.

Agora, Regis Fichtner foi preso novamente e Cabral está abrindo a boca, “sentindo-sealiviado”. O “aliviado” Cabral acusou Regis Fichtner de ser o coordenador dos esquemas de pagamento de propinas, operacionalizando o disfarce de caixa 2. O agora “arrependido” e loquaz ex-governador confirmou entregas de propinas no Palácio Guanabara e por meio do escritório de advocacia de Fichtner, com o emprego de honorários superfaturados. Quem pode garantir que esse caso tenha sido o único? Ora, pelo visto, a Lava Jato ainda tem salas que precisam ser abertas.

Vamos a elas:

1) As omissões premiadas

A confissão de Sérgio Cabral de superfaturamento em obras da Odebrecht no Rio não constou da delação dos 78 executivos da companhia. Nenhum dos solícitos súditos dos empreiteiros “teutobaianos” contou que a empreiteira pagou propinas para transformar o velho Estádio Mário Filho, o maior do mundo, o templo do maracanazo de 1950, em Arena Maracanã, palco das finais da Copa do Mundo da Fifa em 2014 e da primeira medalha de ouro olímpica da seleção nacional na final do futebol da Olimpíada do Rio, de cuja escolha Cabral participou como governador, na companhia de alguns “sócios”, como o famoso “rei Arthur”.  Lembra-se? E agora?

Esse caso não é único no capítulo a que me tenho referido frequentemente, seja neste espaço semanal no Blog do Nêumanne, seja no Estadão Notícias, no comentário matutino da Rádio Eldorado (FM 107.3) e no canal com meus vídeos no YouTube. O assunto também tem sido tratado fora do território fluminense e da roubalheira do MDB, aliado do PT de Lula e Dilma. Recente reportagem da Folha de S.Paulo revelou as estranhezas que acontecem em delações/omissões premiadas. Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, ex-diretor da Dersa, do ninho tucano, estava pronto para delatar. Aí, Aloysio Nunes Ferreira arrumou para ele um novo advogado, Roberto Santoro, que “funcionou como salvador da pátria” ao conseguir um habeas corpus deGilmar Mendes, soltar Paulo Preto e abortar sua delação premiada. Dia destes, a Polícia Federal(PF) pôs os olhos em e-mails de uma filha do dito cujo lamentando o favor que terminou desfavorecendo o favorecido. Em idêntica busca e apreensão recente foi revelado o diário do engenheiro referindo-se a um “anjo protetor Gi” na mesma linha em que o ministro Gilmar era citado.

A desconfiança da filha de que Paulo Preto deveria ter seguido a trilha da delação confirmou-se com a prisão do pai, agora condenado a 27 anos por fraude em licitações e formação de cartel de empreiteiras para a construção do trecho sul do Rodoanel,  a primeira condenação da Lava Jato de São Paulo. Qual será agora a estratégia de Roberto Santoro, o “salvador da pátria”? Santoro é figurinha conhecida no meio jurídico, pois faz dupla com o advogado Frederick Wassef, que,segundo o colunista do Globo Lauro Jardim, “opera nas sombras”. A dupla está trabalhando também para o clã Bolsonaro. Não deixaremos de acompanhar suas façanhas.

O primeiro caso de omissões premiadas, que não diz respeito nem a Cabral nem ao tucanato emplumado, mas “desempoderado”, está indo a julgamento. O relator da Operação Lava Jato no STF, ministro Edson Fachin, vai pôr no plenário a votação sobre a validade ou não da delação dos quatro executivos do Grupo J&F, tendo em vista que houve “omissão de fatos criminosos” pelos delatores. Se o plenário do STF julgar que houve omissões, as benesses recebidas pelos irmãos Joesley e Wesley irão por água abaixo por um bom motivo. Quando o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot, protagonista da excelente reportagem de José Fuchs, no Estado(Economia, B4) de domingo, Os privilegiados da Previdência, por receber R$ 37,3 mil de aposentadoria, usou Joesley para gravar a confissão do ex-presidente emedebista Michel Temer (que lhe disse “tem que manter isso aí, viu?”), o marchante de Anápolis ganhou o prêmio de anistiapara penas que somariam 200 anos de cadeia, conforme revelou o repórter do Estado Marcelo Godoy. Tudo por ter contado que administrava contas de Lula e Dilma no exterior, das quais nunca apresentou uma provinha sequer.

2) O câmbio negro das omissões premiadas por meio de pagamento a advogados

Há que apurar quem paga os advogados dos envolvidos na Lava Jato, no caso de Palocci: os novos-ricos Adriano Bretas e Tracy Reinaldet. Palocci não pode ser, pois o ex-ministro da Fazenda de Lula e ex-chefe da Casa Civil de Dilma tem seus recursos bloqueados, assim como outros envolvidos na mesma e célebre operação. O site O Antagonista informou também que executivos da empreiteira OAS foram acusados de combinar delações favoráveis à empresa e, em contrapartida, receberam polpudas remunerações. Grave! Não pode cair na vala comum do esquecimento.

3) O uso de bancas de advocacia como instrumento de lavagem de dinheiro, que é caso do escritório de Regis Fichtner, de acordo com o que já se sabe, também pelo depoimento de seu ex-chefe e sócio Cabral.

4) O mercado persa de nomeações, as  incestuosas relações entre advogados e juízes, que foi confirmado pelo mesmo Sérgio Cabral, que confessou que ele e Regis Fichtner indicaram vários ministros para as Cortes superiores. Aqui não pode valer aquela velha saída petelulista da “falta de provas” nem dispensar a investigação pelo mesmo motivo pelo qual a chapa Dilma-Temer foi absolvida no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob presidência do onipresente Gilmar Mendes e o olhar curioso, arguto e probo do ministro relator, Herman Benjamin, ou seja, o “excesso de provas”.

Ainda sobre esse mercado persa de nomeações, em sua proposta de delação premiada Palocci narrou que Márcio Thomaz Bastos prometeu ao ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Asfor Rocha uma vaga no STF em contrapartida à anulação da Operação Castelo de Areia. A vaga não saiu, mas a referida operação foi anulada no STJ, onde Asfor se aposentou, passando a fazer parte da casta de privilegiados da Previdência, tal qual Janot. Isso sem falar que todos nós sabemos, pois ficou público, que o próprio Lula colocou Márcio Thomaz Bastos para advogar para a Camargo Corrêa, livrando a empresa, os empreiteiros e os políticos e arquivando a Castelo de Areia, o trailer da Lava Jato. Não têm faltado evidências de que este escriba não está vendo pelo em ovo.

Casos escabrosos acontecem mesmo. Para ilustrar, Eurico Teles, o atual presidente da Oi, que os novos acionistas querem substituir, foi denunciado pelo Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul, em 2014, e réu em 2017, por formação de quadrilha, estelionato, patrocínio infiel e lavagem de dinheiro.  O esquema, segundo a PF, consistia em subornar um escritório de advocacia que defendia 13 mil clientes em ações contra a Oi, em troca de encerramento dos processos judiciais. Ou seja, Eurico e a Oi compravam o defensor de seus clientes insatisfeitos. O fim dessa história é público e notório. A Oi faliu devendo R$ 65 bilhões aos credores, principalmente o contribuinte brasileiro.

Para encerrar, vamos aproveitar o que resta do tríduo do Rei Momo e festejar, pois o Brasil tem tudo para ser, de fato, passado a limpo. Que desfilem todas as alas deste bloco sujo Perdidos do Brasil. Vêm aí a Lava Toga e a Lava Beca. Aleluia, amém, nós todos!

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 4 de março de 2019)

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Nêumanne entrevista Fernando Coelho – 2019 (7ª)

Nêumanne entrevista Fernando Coelho – 2019 (7ª)

Brasil se especializou no crime

de matar rios, diz poeta

 

Para jornalista Fernando Coelho, deputados e senadores, “cavalheiros da desonra”, não representam cidadão, que não respeita Justiça, que não prendeu o presidente do Flamengo

Fernando Coelho, poeta e jornalista baiano, lamenta que “as centenas de mortos não representamnada para a papelada que se junta para justificativas e negativas” no Brasil de hoje. Na edição desta semana da série Nêumanne entrevista, ele interrompeu a redação de seus textos de sucesso nas redes sociais para fazer um desabafo definindo a tragédia que protagonizamos e assistimos. Ele acha que “o Brasil morreu nestes tempos. Não adianta o ministro da Educação, que virou um bedel nacional, mandar filmar crianças cantando o Hino Nacional e gritando por Deus.” E acrescentou: o helicóptero em que Boechat morreu “tem o perfil do País atual, uma montagem de vários pedaços de filosofias, ideologias, interesses políticos, tudo no elo das finanças, do interesse financeiro. E o povo, que paga a conta inocentemente, ainda imagina que o Estado trabalha. O Estado não trabalha, não gera renda, nós, o zé-povinho, é que pagamos. E estamos morrendo nas Upas, nas filas, desabando nas lotéricas, nos caixas do BB e da CEF, dois gigantescos bancos públicos, que nos tratam como mendigos e tinham obrigação moral com a população. Tenho medo.”

Fernando na Praia de Itapuã mantendo viva a chama de seu amor pelo litoral da Bahia, fonte de inspiração dele e de Caymmi. Foto: Afonso Ferreira

FFernando tem 12 livros publicados, 11 de poemas e Salvador-Guia de Cheiros, Caminhos e Mistérios, roteiro da cidade da capital da Bahia, prefaciado por Jorge Amado

O jornalista, poeta e escritor Fernando Coelho tem 12 livros publicados, 11 de poemas e Salvador-Guia de Cheiros, Caminhos e Mistérios, roteiro da cidade da capital da Bahia, prefaciado por Jorge Amado, 4 edições esgotadas há 25 anos. Chefiou a reportagem do jornalismo na Rede Globo de Televisão durante anos, dirigiu o Departamento de Esportes e chefiou a redação do Jornalismo da TV Cultura, foi repórter especial da Rádio Globo, criou e dirigiu o programa Terra Brasilisna Rede Banderiantes. Foi ainda assessor de iImprensa da Global Editora. Implantou e dirigiu as duas primeiras televisões legislativas do Brasil na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e na Câmara de Vereadores de São Paulo. E também diretor de Comunicação Social e Marketing da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Exerceu o cargo de Diretor de Comunicação e Promoção do Instituto do Patrimônio Histórico e Arquitetônico Nacional (Iphan, do ministério da Cultura), além de diretor de Comunicação Social e Marketing da Secretaria de Estado do Meio Ambiente de São Paulo. Em 2008, recebeu a Medalha da Imigração, do Itamaraty, por sua obraAgenda Manabu Mabe. A editora Aquariana publicou a Coleção Poeta Fernando Coelho, com três títulos.

Fernando na Praia de Itapuã mantendo viva a chama de seu amor pelo litoral da Bahia, fonte de inspiração dele e de Caymmi. Foto: Afonso Ferreira

Fernando na Praia de Itapuã mantendo viva a chama de seu amor pelo litoral da Bahia, fonte de inspiração dele e de Caymmi. Foto: Afonso Ferreira

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No Blog do Nêumanne: Maduro apodrece, mas não cai tão cedo

No Blog do Nêumanne: Maduro apodrece, mas não cai tão cedo

Militares, tráfico de drogas e armas, terrorismo, cubanos, milicianos e cúmplices ativos, como Putin, Xi Jinping e esquerda, ou passivos, como papa e ONU, retardam queda iminente do ditador

A Venezuela tem uma longa história de revoluções ditas “liberais”, golpes de Estado e tiranos longevos. O século 19 foi marcado pela independência da Coroa espanhola, sob o comando de Simón de Bolívar, venerado herói nacional que patrocinou movimentos similares em outros países sul-americanos, é usado em efígie do meio circulante, o bolívar e agora boliviano, e na denominação do populismo ora vigente por lá. Já o século 20 foi uma sequência de pronunciamentos militares com interregnos democráticos. O general Juan Vicente Gómez derrubou o presidente constitucional Cipriano Castro, assumiu o poder em 1908 e mandou numa tirania brutal até a morte, em 1935. Dez anos depois, o civil tido como social-democrata Rómulo Betancourt e o militar Pérez Jiménez derrubaram o presidente Isaías Medina Angarita. Em 1948, a farsa da tal “Revolução de Outubro”, que nada tinha de revolucionária, foi derrubada pelo golpe militar que impediu a posse do presidente reeleito pelo voto, Rómulo Gallegos, intelectual e romancista de renome. Pérez Jiménez, que fazia parte da junta militar que governava o país, declarou-se vencedor de eleições fraudadas e iniciou uma ditadura, que durou de 1952 a 1958.

Durante o curto período democrático após a queda de Jiménez, que fugiu a bordo do avião presidencialLa Vaca Sagrada para a República Dominicana, no Mar do Caribe, a Venezuela viveu numa sequência de quinquênios de presidentes eleitos nas urnas com alternância de poder entre a AD (Ação Democrática), inspirada na social-democracia europeia, e o Copei (Comitê de Organização Político Eleitoral Independente), na verdade uma legenda democrata cristã, também conhecida como “partido verde”. Passaram pelo Palácio de Miraflores os adecos Rómulo Betancourt, Carlos Andrés Pérez (duas vezes) e Octavio Lepage e os copeianosRaúl Leoni, Rafael Caldera (duas vezes), Luís Herrera Campins e Jaime Luchinski.

A então mui aprazível Caracas, plantada num vale, recebeu, durante esse breve hiato democrático, exilados dos regimes militares vigentes na América hispânica, caso dos civis que fugiram da ditadura chilenade Augusto Pinochet. Os EUA compravam praticamente toda a produção de petróleo da Venezuela e a relação entre os dois países era tão estreita que se costumava dizer que, quando o ocupante da Casa Branca se resfriava, o venezuelano espirrava. À época, o petróleo atingia preços altíssimos e nossos vizinhos do norte passaram por um período de fartura e pleno emprego. Pérez fez dessa dependência seu slogan, prometendosembrar el crudo (semear o óleo cru).

Nesse panorama, com a economia brasileira assolada pelo choque dos produtores de petróleo, o então presidente Ernesto Geisel assinou, em 1975, o acordo nuclear com a Alemanha, produzindo muito desconforto diplomático entre o Itamaraty de Azeredo da Silveira e o Departamento de Estado americano na gestão do democrata da Geórgia Jimmy Carter. Os ianques não aceitavam a compra de reatores nucleares alemães, instalados em Angra dos Reis, pelos brasileiros, alinhados a eles desde 1964.

Àquela ocasião, o Jornal do Brasil publicou entrevista que fiz com Carlos Andrés Pérez, que tinha veleidades de esquerda (a ponto de passar a ocupar assento na Internacional, cujo representante brasileiro era o “socialista moreno” Leonel Brizola), em que apoiou o acordo teuto-brasileiro de forma explícita. Em 1976 o venezuelano visitou o Brasil e o Itamaraty registrou a virada surpreendente do país dele em relação à querela diplomática com o “irmão do norte”, declarando, ao assinar acordos bilaterais com o governo Geisel: “O Brasil é a nação sul-americana fundamental e chave na ação integradora da região”.

Passei, então, a visitar a Venezuela amiúde e percebi que era patente a tensão existente entre a elite americanófila e endinheirada do luxuoso bairro de Country Club, em Caracas, e a massa aglomerada na impressionante favela plantada nos morros que ladeavam a estrada que separa o aeroporto de Maiquetía da capital, não muito próxima. Essa tensão se manifestara na insurreição militar contra Betancourt em Carúpano (El Carupanazo), em 1962, ano também da revolta na base naval de Puerto Cabello (El Porteñazo). Em 1992, Pérez, que dera uma guinada à direita na segunda gestão, enfrentou um golpe militar, liderado por quatro tenentes-coronéis do Exército, entre eles Hugo Chávez. Presos, estes seriam soltos dois anos depois pelo sucessor de Pérez, o citado Caldera, desta vez não mais democrata cristão, mas líder de um punhado de partidos da esquerda radical. Durante muito tempo, mesmo em plena democracia, a Venezuela convivia, de um lado, com a sombra fascistoide dos edifícios de um centro administrativo construído por Jiménez e, de outro, pelo mais longevo guerrilheiro cubanófilo da América do Sul, Douglas Bravo.

Em 2002, eleito presidente pelas populações pobres das favelas de Caracas e do interior do País, o mesmo Chávez chegou a ser preso, foi libertado e conduzido a Miraflores, o mesmo palácio onde entrevistei Pérez. Foi a deixa para o oficial se perpetuar no poder até a morte, em Havana, sendo substituído por Nicolás Maduro, que segue no mando, enfrentando bloqueio dos americanos, agora com ameaças de intervenção do presidente Donald Trump. Dos velhos tempos de Chávez, só conta agora com o apoio próximo do boliviano Evo Morales, a simpatia constrangida de López Obrador, no México, e Tabaré Vázquez, no Uruguai, o apoio explícito do russo Vladimir Putin, do chinês Xi Jingping e do turco Recep Erdogan e a omissão do papa Francisco.

Outros aliados de antes, os companheiros Lula e Dilma no vizinho Brasil, Néstor e Cristina Kirchner, na Argentina, e Michelle Bachelet, no Chile, foram esmagados nas urnas por adversários nada simpáticos ao bolivarianismo: Jair Bolsonaro, Mauricio Macri e Sebastián Piñera. Aos quais agora se acrescentam o vizinho colombiano Iván Duque e o paraguaio Mario Benítez, reunidos no Grupo de Lima em busca de uma solução para apear Maduro do poder.

A esquerda infantiloide do Primeiro Mundo e dentre antigos aliados americanos ignora todas as suas sandices. O remanescente do Pink Floyd Roger Waters rompeu com o americano Bernie Sanders, enquanto Maduro dançava salsa no palanque e carnavalizava os mortos dos confrontos nas fronteiras da Colômbia e doBrasil, na tentativa frustrada de introduzir ajuda humanitária com alimentos e remédios na Venezuela. Testemunha entusiástica da segunda posse de Maduro, Gleisi Hoffmann o apoia cegamente, pouco ligando paraos fatos.

No entanto, Maduro ainda conta com o apoio dos 3 mil oficiais-generais das Forças Armadas, subornados pelos lucros do câmbio negro resultante da miséria econômica a que o chavismo reduziu as riquezas obtidas com o petróleo nos tempos de altas. As deserções anunciadas do lado de cá da fronteira são em número tão ridículo que encontraram seu símbolo na caminhonete de feirante que não conseguiu levar víveres aos famintos desesperados de Santa Elena de Uiarén, do lado venezuelano.

Oposicionistas realistas que resistem em Caracas calculam que por lá haja ainda 22 mil cubanos enviados pelos Castros, Fidel e Raúl, e Díaz-Canel. Teme-se que tenham cruzado a fronteira colombiana 20 mil membros das Farc e do ELN colombiano, hoje instalados nos ermos andinos de Mérida, Trujillo e Barinas. Paira também sobre as torres de extração do crudo em Maracaibo a ameaça sinistra dos traficantes de armas e drogas, crimes dos quais o segundo homem do regime, Diosdado Cabello, é acusado pelos americanos. Suspeita-se que haja um número incerto de terroristas do grupo Hezbolah na Ilha de Margarita, local de veraneio da burguesia empobrecida nos velhos tempos. Há quem diga que alguns foram vistos perambulando pelos ermos llanos do Oriente, um dos destinos turísticos preferidos do país pela qualidade das praias, pelas “cidades  interessantes e pela simpatia de sua gente”, como proclamam os cartazes das agências de viagem de Caracas.

O Brasil faz bem em pisar em ovos, embora o Itamaraty se tenha manifestado rispidamente contra a reação de Maduro à iniciativa internacional do fim de semana. No discurso de triunfo, o tirano proclamou-se “más duro”. Ele apodreceu, sim, mas ainda é duro na queda.

José Nêumanne

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda 25 de fevereiro de 2019)

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Nêumanne entrevista Leo Chaves – 2019 (6ª)

Nêumanne entrevista Leo Chaves – 2019 (6ª)

Para Leo Chaves,

“açoite do conformismo assassina a Nação”

 

O cantor, compositor e escritor constata que

“o chão do Brasil chora lama, enquanto brasileiros se afogam nela”, 

e não há salvador da Pátria com cidadãos de braços cruzados

Tendo contemplado inúmeras vezes, ao viajar de Abre Campo para Belo Horizonte na infância, o casario de Mariana, na região histórica de Minas Gerais, e mesmo não tendo visitado a cidade depois do arrombamento da barragem da Samarco nas proximidades, há três anos, Leo Chaves se emociona e o relaciona “a um déficit na eficiência, competência e qualificação”. Na entrevista desta semana no Blog do Nêumanne, o autor do best-seller No Colo dos Anjos conclui, em tom de lamento: “Quando se vive no Brasil, não se espera nada senão uma escada rolante com episódios trágicos, desastres e aquilo que não se espera? Desumanizamo-nos com o avanço da humanidade. Não somente eu, mas qualquer outro brasileiro acostumado a lidar com situações parecidas espera o próximo episódio, exatamente com os mesmos trejeitos e características, ou piores.” O cantor, que fez dupla de muito sucesso na música popular com o irmão Victor e é jurado no The Four Brasil, reality show da Rede Record, enxerga o que tem acontecido como resultado de “presunção do ser humano se autodesafiar! Cheira a um desafio a Deus”. Ele não acredita “numa mudança de profissionais que há anos vivem chafurdados neste contexto”. Mas completa: “Podemos, sim, metamorfosear na formação de novos cidadãos, com base em alta performance, eficiência, versatilidade, entrega coerente e comportamento ativo. Uma nova geração, muito mais preparada, para um novo Brasil. Essa mudança começa numa tomada de consciência social”.

Foto clipe1 - Desde a infância, Leo está acostumado a subir e descer as montanhas ricas em minérios e contemplar as belas paisagens com que cruza no caminho. Foto: Leo Crosara

Foto clipe1 – Desde a infância, Leo está acostumado a subir e descer as montanhas ricas em minérios e contemplar as belas paisagens com que cruza no caminho. Foto: Leo Crosara

Mineiro nascido em Ponte Nova e criado em Abre Campo, Leo Chaves é compositor, cantor, arranjador e produtor, reconhecido como um dos principais artistas nacionais há mais de uma década, quando, ao lado do irmão Victor, sua voz conquistou fãs por todo o País. Além de músico, é empresário do agronegócio, cria gado Senepol na Fazenda Paraíso. É presidente fundador eexecutivo do Instituto Hortense, que tem como objetivo desenvolver habilidades socioemocionais em crianças e adolescentes de instituições públicas e ONGs. Atualmente, o trabalho impacta mais de 35 mil pessoas. É escritor e palestrante há três anos,tendo apresentado mais de 50 palestras nos últimos 12 meses. Como ser uma marca, e não apenas representar uma, e como se desenvolver e se reinventar ultrapassando os próprios limites são alguns dos tópicos abordados. É também embaixador do programa Jovem Aprendiz, sendo porta-voz de jovens entre 14 e 24 anos que têm o direito de ser contratados por médias e grandes empresas. Leo Chaves é ainda certificado em programação neurolinguística pela Sociedade Brasileira de Neurolinguística e nos últimos anos tem se aprofundado nos estudos de inteligência emocional, gestão da emoção, filosofia, educação familiar e escolar, coach e pedagogia. Seu primeiro livro, No Colo dos Anjos, em menos de três meses se tornou umbest-seller, ocupando o primeiro lugar na lista dos mais vendidos da revista Veja e do site PublishNews. Atualmente é um dos jurados do The Four Brasil, novo reality show exibido pela Rede Record.

Nêumanne entrevista Leo Chaves

 

Nêumanne – Quantas vezes o senhor já esteve na região histórica de seu Estado de Minas Gerais, tendo passado por Mariana? Qual era seu sentimento durante essas visitas àqueles casarios cheios de histórias pra contar?

Leo Chaves – Já dizia o poeta Guimarães Rosa: “Minas é uma montanha, montanhas, o espaço erguido, a constante emergência, a verticalidade esconsa, o esforço estático; a suspensa região – que se escala”. A região de Mariana e Ouro Preto traz o retrato.

Desde minha infância essa  região era rota entre a cidade onde fui criado, Abre Campo, e Belo Horizonte. Sempre a vista dos casarios de Mariana à direita na estrada chamava atenção. O que havia por trás daquilo tudo. Olhava, pensava, interrogava, mas admirava.

Quanta história, de vidas e daquele chão.

Em paralelo a suas atividades como músico e escritor, Leo é um palestrante muito requisitado. Foto: Acervo pessoal

Em paralelo a suas atividades como músico e escritor, Leo é um palestrante muito requisitado. Foto: Acervo pessoal

Tive a oportunidade de estudar durante três anos em Cachoeira do Campo e com frequência ia a Mariana nos dias de folga. Uma cidade com arquitetura diferenciada, história invejada e admirada pelo mundo.

Durante essas viagens, desde sempre a imaginação viajava nas alturas que hoje retratam lamúrias! No entanto, ao me colocar no lugar das pessoas, imagino as histórias, as famílias, o quanto se caminhou para construir as cidades históricas de Mariana e Ouro Preto. Quantos capítulos guardados por trás dos casarios e dos morros.

Imagino quanto aquela cidade, aqueles morros foram importantes para o próprio crescimento do Estado e do País. Sabemos que os primeiros passos de Minas foram dados ali. Se hoje há grandes empresas que exploram minério, isso se deve muito aos antepassados que ali viveram e construíram aquela região. Desconstruídas por algo que se esconde.

Ficava imaginando se, com o crescimento da população e o avanço da tecnologia, poderíamos ter um uma geração que convivesse com  o equilíbrio entre sociedade, economia e meio ambiente, harmonia desesperançada que não encontramos nos dias atuais.

É amargo ver as Gerais estão ignotas.

Como diria o poeta, Minas, são muitas. Porém poucos são aqueles que conhecem as mil faces das Gerais.

Leo fez dupla com o irmão Victor em gravações de muito sucesso nas paradas e uma pauta lotada de shows. Foto: Priscilla Tessa

Leo fez dupla com o irmão Victor em gravações de muito sucesso nas paradas e uma pauta lotada de shows. Foto: Priscilla Tessa

N – O senhor foi a Mariana depois do arrombamento da represa do Fundão, da Vale (Samarco), testemunhou o assassinato do Rio Doce e o desamparo das famílias que viviam às suas margens? Qual seu sentimento na ocasião?

N – Não tive o desgosto de visitar a região na época do desastre, mas acompanhei pelos noticiários com profundo dissabor e pesar ao me colocar no lugar daquelas pessoas. Algumas perderam familiares, amigos. E muitas outras, seu sustento, pois pescavam e plantavam na região. Passaram a ter outras histórias pra contar.

Essas famílias perderam seu norte e ficaram à deriva de quem os desnorteou. Fico imaginando crianças e adolescentes diante de um discurso dos pais de não terem  mais os recursos financeiros para atender às suas necessidades. Sonhos despejados morro abaixo. Escolas que foram destruídas, casas varridas pela própria sujeira e uma infinidade de afetos  levados pela lama.

Imagino eu que, quando uma empresa de grande porte anuncia sua ida para determinada região, possivelmente há empolgação, comemoração, elogios, perspectiva de ganhos e dias melhores… A sociedade se aglomera com pensamentos otimistas, de esperança,  economia crescendo, setor industrial se desenvolvendo  e melhorias de condições humanas pra todos.

Realmente, a importância do setor da exploração de minério era de 80% no que diz respeito à economia. Ao mesmo tempo, com o rompimento da barragem, os mesmos elogios e as aclamadas frases de esperança e perspectivas se transformaram em lágrimas, protestos, gritos sem ressonância, angústia e revolta.

Diante de um mesmo ângulo, ou seja, uma empresa que desperta esperança, otimismo numa sociedade, paradoxalmente,desencadeia pânico. Então, a pergunta que fica é: o que entra nesse meio? Na minha visão, não é o fato intrínseco de uma empresa se instalar ou não na região para a extração de minério. Isso não determina  um  problema, é, sim, o como fazer, como administrar. Penso eu que o grande problema, como tudo neste país, está  relacionado  a um déficit na eficiência, competência e qualificação.

As consequências não podem ser outras.

O descrédito acometido pelos ocorridos é intenso.

Leo, em palestra: “É amargo ver as Gerais tão ignotas. Como diria o poeta, Minas, são muitas. Porém poucos conhecem as mil faces das Gerais.” Foto: Acervo pessoal

Leo, em palestra: “É amargo ver as Gerais tão ignotas. Como diria o poeta, Minas, são muitas. Porém poucos conhecem as mil faces das Gerais.” Foto: Acervo pessoal

A Samarco está construindo uma nova comunidade para as famílias, a cerca de 10 km de Bento Rodrigues. Mas muitas preferem voltar às casas antigas. Mesmo em péssimas condições de abrigo e em estado de alarme. Viveram lá por uma vida, construíram sonhos, elas se sentem pertencentes àquele lugar. Dá pra imaginar o tamanho do ressentimento, do trauma que éprovocado numa família, numa geração, todo o prejuízo causado? É uma perda que vai muito além do material. E me impressiona a ideia de que daqui a pouco estará tudo normal, sem mudanças, à espera da próxima.

Precisamos ir à fonte. Alguém sabe o que causa tamanhas consequências desastrosas, ou criminosamente?

N – Passou alguma vez por sua cabeça o medo de que aquele desastre pudesse acontecer de novo, de forma muito semelhante e com resultados tão catastróficos como o primeiro?

L – Quando se vive no Brasil, não se espera nada senão uma escada rolante com episódios trágicos , desastres e aquilo que não se espera? Desumanizamo-nos com o avanço da humanidade. Não somente eu, mas qualquer outro brasileiro acostumado a lidar com situações parecidas espera o próximo episódio, exatamente com os mesmos trejeitos e características, ou piores.

Apesar do sucesso e da agenda lotada, Leo sempre fez questão de cultivar as raízes de mineiro do campo em contato com a terra e os animais – Foto: César Dutra

Apesar do sucesso e da agenda lotada, Leo sempre fez questão de cultivar as raízes de mineiro do campo em contato com a terra e os animais – Foto: César Dutra

Quando temos uma ideologia de gestão medíocre que reina na esfera  da mão de obra e da liderança social e profissional, é provável que tenhamos sempre os mesmos resultados repetidas vezes. Não temos uma maioria com comportamento proativo diante de imprevistos ou problemas. Há uma mentalidade passiva em massa. É como se fôssemos todos reféns de toda uma sociedade que sucumbe e observa. O açoite do conformismo assassina uma nação.

Geralmente não se tem as causas que levaram ao acontecimento, por falta de controle e diligência. Nos times profissionais não se vê conexão coletiva. Falta  uma atitude corretiva ou de realinhamento diante de situações adversas ou imprevistos, observa-se apenas.

De onde vem essa mentalidade medíocre? O passar na média, a síndrome do mas, tem de fazer, mas… Na minha visão, essa mentalidade nasce  do nosso modelo educacional, que deveria estimular, motivar e criar oportunidades para a esfera docente, mas a deixa como ultima da fila neste país. Parece que nos últimos anos regredimos nesse terreno. Não treinamos jovens para uma direção ascendente. Claro que a formação começa na infância e aí não há um contexto favorável. O que é esperar dos jovens que, sabe-se lá como, frequentam escolas, quando não se tem acesso a um conceito de ensino eficaz, quando não se conhece, apenas comparece, e a escassez de oportunidades reina?

Não acredito numa mudança de profissionais que há anos vivem chafurdados nesse contexto. Podemos, sim, metamorfosear  na formação de novos cidadãos, com base em alta performance, eficiência, versatilidade, entrega coerente e comportamento ativo. Uma nova geração, muito mais preparada, para um novo Brasil.

Essa mudança começa numa tomada de consciência social.

Não acredito num salvador da Pátria com cidadãos de braços cruzados.

N – O senhor chegou a conhecer o Rio Doce, com esse nome poético, quando era líquido e piscoso, e testemunhou sua transformação num curso de dejetos assassinos?

L – Assisti a alguns vídeos de peixes morrendo, arrancou-me lágrimas. Eu me lembro de uma foto do meu pai com um dourado enorme, nos anos 80, pescado no Rio Doce. A lama com dejetos rejeitos, salgou o Rio Doce.

É triste presenciar o abandono de um celeiro de riquezas naturais.

Passei há poucos dias na Zona da Mata, devo admitir, parece que foi largada às traças. Não me conformo com tanto desleixo e descaso. Estamos mal representados, não há líderes à altura das Gerais. Nivelaram por baixo as altas montanhas mineiras. É tempo de agir?

“Não temos uma maioria com comportamento proativo diante de imprevistos ou problemas. Há uma mentalidade passiva em massa”, diz Leo. Foto: César Dutra

“Não temos uma maioria com comportamento proativo diante de imprevistos ou problemas. Há uma mentalidade passiva em massa”, diz Leo. Foto: César Dutra

N – Qual seu sentimento ao tomar conhecimento de que a empresa responsável por aquela barbaridade escolheria para administrar a barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, exatamente o mesmo funcionário sob cuja gestão se deu a desgraça em Mariana, em 2015?

L – Sob o ângulo da gestão de uma empresa desse porte, responsabilidades se dividem mediante uma hierarquia com influência direta no acontecido, que deve ser levada em conta.

O que me remete a um déficit enorme coletivo, do qual o País se mantém refém, atribuído à mão de obra desqualificada. A questão está associada a uma mentalidade medíocre, alimentada  por um paradigma que reina e predomina!

Assim mesmo, tá  bão, o jeitinho brasileiro continua rompendo muita coisa ladeira abaixo.

A solução para tal tendência decrescente é formar uma nova geração, com capacitação minuciosa, buscando mais recursos e ferramentas na base dos profissionais. Alicerces que não se rompem, preenchidos com conteúdo moral e princípios humanitários.

Sem plantarmos essas sementes na educação, continuaremos tapando buracos que frequentemente reaparecerão!

N – Como o senhor descreve sua reação emocional à notícia de que a Vale mantinha perto de Brumadinho uma represa de rejeitos a montante do restaurante e de prédios administrativos da própria empresa, cujos ocupantes ou visitantes foram massacrados pelo mar de lama que agora desce o Paraopeba rumo a Três Marias, uma represa que chegou a ser símbolo de uma era conhecida no Brasil como os “anos dourados”?

L – O chão do  Brasil chora lama, enquanto brasileiros se afogam nela. A lama da ganância cega parece ser o motor propulsor. Incompetência se alia a um contexto já não muito favorável. Meus arrepios incrédulos diante do que os olhos viam padeciam na angústia. Tamanha presunção do ser humano se autodesafiar! Cheira a um desafio a Deus, à existência da  falta de cuidado humano e isenção do senso de responsabilidade! Fica a interrogação: ainda dá pra acreditar no ser humano? Num mundo que treme por tantos absurdos, individualmente há tremuras internas de ponta a ponta, torneadas  por indignação e revolta com tanta indolência social! “Lamantável”.

N – Qual a sua expectativa, como brasileiro, quanto à chegada da lama do Córrego do Feijão ao Rio São Francisco, que a Nação inteira consagra e celebra como o “rio da unidade nacional”? Seria algo similar a constatar que nós só nos unimos pela lama mortal dos dejetos minerais?

L – Verdade seja dita, não formamos profissionais com base em raciocínio preventivo. Robotizados, sem produzir autonomia e independência. Tentar clarear quando tudo já escureceu, quando não há mais visão. É  o choro quando se puxou o gatilho na tentativa de ressuscitar. É necessária uma conduta diferente da sociedade. Muitas vezes imparcial e conivente com um contexto educacional regressivo!

Penso ser necessário investir num brasileiro que pense não somente no que fazer, mas especialmente no como fazer. A sociedade precisa gritar alto para que se tenham recursos coerentes voltados para a educação! Quantidade não é qualidade.

N – O senhor já deve ter ouvido falar que Deus é brasileiro porque reuniu neste quase continente na América do Sul uma costa magnífica e paisagens imunes a terremotos, tsunamis e vulcões. No entanto, o senhor não acha que seria o caso de o Criador se declarar apátrida depois da destruição inominável do Museu Nacional do Rio, desses acidentes nada naturais de Minas e do incêndio do alojamento dos garotos do Flamengo?

L – Se, por acaso, Deus se vestiu da natureza, o ser humano o despiu rudemente e de forma sagaz. Possivelmente, aqui Ele não mais se adornaria com tanta mancha e lama!

Um país rico, mas sujo e emporcalhado. Desperdício! É de causar vergonha, sim, e pra qualquer um, certamente.

Poderíamos ser agentes transformadores, mas figuramos como destruidores. Há uma conduta fadigada e indolente, importuna no convívio entre o ocupante e o ocupado. Comportamento raso que afunda, alarmante, o País.

Podemos sonhar ou imaginar uma escola que finda na consciência de seus discentes, o amor e respeito pelo chão que pisa? Fica a pergunta.

Para Leo, “falta uma atitude corretiva ou de realinhamento diante de situações adversas ou imprevistos, observa-se apenas”. Foto: Leo Crosara

Para Leo, “falta uma atitude corretiva ou de realinhamento diante de situações adversas ou imprevistos, observa-se apenas”. Foto: Leo Crosara

N – O poeta Carlos Drummond de Andrade, mineiro como o senhor, mas de Itabira, deixou versos imortais sobre o destino de dor de “oitenta por cento de ferro nas almas”. A última estrofe do poema Confidência do Itabirano descreve as causas dessa dor: “Tive ouro, tive gado, tive fazendas./ Hoje sou funcionário público./ Itabira é apenas uma fotografia na parede./ Mas como dói!”. O senhor diria que hoje, depois de tudo o que aconteceu perto de Itabira, em Mariana e Brumadinho, torna este poema mais perto de lá e também de nós?

L – Sem dúvida, os antigos já calculavam as gotas que sobrariam, e estamos nesse caminho. Gotas inclusive de uma sociedade que parece não saber qual direção seguir.

Urgência ainda nos cabe. Mais tarde, não mais!

Cabe também honra aos ditos: ser mineiro.

Ser mineiro é não dizer o que faz, nem o que vai fazer.

Mas, e os laudos mascarados na poeira da corrupção?

É passar por bobo e ser inteligente. Mas veem-se apenas o discurso do saber e a prática da bobeira.

É vender queijos e possuir bancos. Continuamos vendendo queijos, mas estamos fantasiados, toldados de lama.

Só arrisca quando tem certeza,

não troca um pássaro na mão por dois voando.

A certeza que se arriscou pelo corvo da ganância.

É fingir que não sabe aquilo que sabe. Aí, sim, exatamente isso, concordo!

“Assim mesmo, tá bão, o jeitinho brasileiro continua rompendo muita coisa ladeira abaixo”, desabafa Leo Chaves. Foto: César Dutra

“Assim mesmo, tá bão, o jeitinho brasileiro continua rompendo muita coisa ladeira abaixo”, desabafa Leo Chaves. Foto: César Dutra

N – Sem o Rio Paraopeba, escapou das proximidades de Brumadinho o Inhotim, um dos maiores espaços naturais abertos com exposição de objetos de arte do mundo. Será esse um sinal de Deus de que só a arte nos salvará da barbárie e da miséria malcheirosa da ganância, da conivência e da acomodação, que destroem todo o sentido de civilização?

L –  É o que ainda resta, além da pouca esperança.

Chegamos ao fundo, para podermos levantar.

Mãos à obra, brasileiro!

Links

Para ouvir Victor & e Leo e Paula Fernandes em Meu em Você clique no play abaixo

Leo cantava O Bailar das estrelas para os três filhos no berço – clique aqui.

Para ver entrevista de Leo ao YouTube sobre The Four Brasil, que estrela na Rede Record clique aqui.

Para ver entrevista de Leo a Camille Reis no YouTube clique aqui.

Artigo no Estadão desta quarta-feira: Disparando em sombras nas próprias trincheiras

Artigo no Estadão desta quarta-feira: Disparando em sombras nas próprias trincheiras

Bolsonaro irá para panteão de heróis

se extinguir fundos políticos e ‘rachuncho’

Jair Messias Bolsonaro foi eleito pela maioria dos votos válidos da eleição de outubro para evitar que políticos suspeitos, processados, acusados e condenados pela Operação Lava Jato interrompessem o bem-sucedido combate à corrupção, realizado por uma nova geração de policiais, procuradores e juízes federais probos e competentes. Estava ainda em sua agenda prioritária interromper a queda brutal da economia brasileira, empreendida pela gestão ruinosa e corrupta do Partido dos Trabalhadores (PT), seus aliados, especialmente o Movimento Democrático Brasileiro, (MDB) e, por incrível que pareça, adversários, caso do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que garantiam a manutenção do esquema a troco de propina.

A nomeação de Paulo Guedes, que levou uma equipe de economistas liberais para o Ministério da Fazenda, tem até agora correspondido, ao menos em termos de perspectivas, às esperanças de uma cidadania violentamente empobrecida pelo arrombamento dos cofres do erário. E mantida em cárcere privado pelas organizações do crime organizado. Não à toa a Bolsa de Valores tem traduzido a confirmação das esperanças em pregões repetidas vezes em alta. E a transferência dos líderes do Primeiro Comando da Capital (PCC) de presídios paulistas para federais de segurança máxima nutre a esperança generalizada de que a violência seja, de fato, combatida pelo Ministério da Justiça sob o ex-juiz Sergio Moro. Embora ambas as promessas dependam de aprovação de mandatários do Poder Legislativo, o comportamento estúpido e pueril da esquerda [ITALIC]soit-disant[/ITALIC] “resistente”, tornada refém de um criminoso condenado e encarcerado, não dificultará muito seu cumprimento.

Mas restam dois obstáculos. Um é o comportamento corporativista da cúpula do Judiciário. Outro, a mistura de arrogância, ignorância e falta de compreensão do núcleo do Planalto, incluído o presidente, incapaz de entender que deve governar para todos, e não apenas para a feroz militância que vocifera em redes sociais.

A “resistência”, que se nega a ser oposição ao não reconhecer a possibilidade de alternância do poder no Estado de Direito, sabota a atual gestão, como se o cidadão a quem pede voto não dependesse do sucesso do governo para sair do buraco em que os mandachuvas dela o atiraram, sob pena de afundar na miséria. Do lado oposto, em vez de se concentrar em prioridades de difícil execução, como as já citadas, o presidente e sua grei atuam como se continuassem em campanha, disparando em sombras que veem nas próprias trincheiras. O caso Bebianno é exemplar: guindado do anonimato a posto central da negociação política do governo, foi jogado no esgoto do opróbrio por mexericos do âmbito filial.

O caso seria apenas sórdido e grotesco se não tivesse dado oportunidade para pôr fim, de uma vez, a um golpe imundo de políticos que os atuais locatários do poder chamam de “velhos”. Os Fundos Partidário e de Financiamento de Campanha partem do pressuposto de que, se empresas não podem mais doar para eleger ninguém, a solução é bater a carteira do eleitor com a autorização legal para disputar pleitos em que quase R$ 1 trilhão é subtraído dos cofres públicos.

Trata-se, é claro, de corrupção “legalizada”. Mas não fica nisso: foi descoberto que a legenda usada pelo capitão para se eleger distribuiu fortunas a candidatos, especialmente mulheres, incapazes de ser sufragados por uma mera centena de eleitores. No caso, além do furto direto, mas aparentemente impessoal, há o indireto. Investigação bem feita, e o ministro da Justiça, Sergio Moro, determinou uma, poderá descobrir uma apropriação de “ajuda” ao patrimônio dos dirigentes do Partido Social Liberal (PSL). O presidente à época era Bebianno. E o atual, Luciano Bivar, quando era cartola do Sport do Recife, contou ter pago pela convocação de seus craques para a seleção nacional. Nada de novo no front!

Mas também nada que não pudesse ser resolvido com a demissão do dirigente, publicada no [ITALIC]Diário Oficial[/ITALIC], assim que o assunto se tornou público. Sem necessidade da humilhação, que faz parte do jogo do poder nos corredores palacianos, pelos quais desfilava o pecuarista Bumlai nos tempos de Lula do PT e hoje circulam Carlos Bolsonaro, o 02, e seu agente, Leonardo Rodrigues de Jesus, o Léo Índio. Este, conforme reportagem do [BOLD]Estado[/BOLD], foi 58 vezes ao Planalto em 45 dias, nos quais Jair Bolsonaro despachou por 16. Frequentador assíduo do gabinete ocupado por Bebianno, o tal primo dos filhos do presidente, embora sem função oficial, participou do encontro para tratar do socorro a Brumadinho e de reuniões fechadas na Secretaria de Comunicação (Secom) a respeito da reforma da Previdência. Por sinal, Bebianno foi tido como peça importante das negociações com o Congresso. Mera lorota! Ninguém com gabinete próximo ao do presidente é insubstituível.

Outro Nantes Bolsonaro protagonizou caso capaz de motivar uma tarefa difícil da “nova política” para sanear dejetos da “velha”. Relatório do Conselho de Controle da Atividades Financeiras (Coaf) detectou movimentação atípica nas contas dos deputados estaduais fluminenses, entre estes o petista André Ceciliano, presidente da Assembleia do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) com apoio do governador Wilson Witzel, e o agora senador Flávio Bolsonaro. A notícia levantou o véu de uma das práticas mais calhordas da “velha política”: o achaque por vereadores, deputados estaduais e federais, senadores e prefeitos a servidores humildes que eles nomeiam para que lhes devolvam a parte do leão de seus vencimentos, de cerca de R$ 10 mil mensais. O assunto foi abordado pelo parlamentar mais lúcido do Brasil contemporâneo, a deputada estadual paulista Janaina Paschoal, do PSL.

Se liderar a extinção dos fundos trilionários de partidos e desse “rachuncho”, Bolsonaro entrará para a História no panteão dos heróis do povo.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. A2 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 20 de fevereiro de 2019)

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