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No Blog do Nêumanne: Alhos com bugalhos

No Blog do Nêumanne: Alhos com bugalhos

Governo e Justiça usam argumentos absurdos na luta para impor seu poder sobre o outro

A insana luta entre os Poder Executivo e Judiciário em torno da posse da deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ) no Ministério do Trabalho justamente nos dez meses que restam a Temer para debelar o máximo que puder a crise do desemprego, ainda renitente, é insana, injustificável e burra. Da mesma forma que completamente disparatadas têm sido as tentativas dos juízes federais de justificar a decisão imoral, apesar da alegação de sua legalidade, de manter o auxílio-moradia.

A indicação da sra. Brasil para o primeiro escalão começa de forma absurda, continua de modo incoerente e parece não ter fim, sem que se possa definir se é filme de terror ou cena de sugestão pornográfica. Comecemos pelo começo, para evitar previsões impossíveis de serem feitas. Tudo começa com Temer tentando indicar o deputado federal maranhense Pedro Fernandes (PTB-MA) para o posto. O preferido da bancada foi vetado por Sarney porque abandonou as hostes do bigodudo para nomear um filho secretário do inimigo do clã Flávio Dino, atual governador. Temer é um presidente tão mal informado que o ex-presidente e correligionário teria contado a “novidade” de que o filho do ex-futuro ministro exibe na parede do escritório foto de Dilma Rousseff.

O segundo ato de comédia-bufa virou um filme de gângsteres quando o ex-presidiário Roberto Jefferson, dono do PTB, fundado por Getúlio Vargas, aceitou com emoção a lembrança do presidente de uma eventual nomeação da filha Cristiane Brasil. Aí, o roteiro rumou para a luta de classes quando a preferida (de quem, afinal, ninguém sabe, ninguém viu) foi condenada por violar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), excrescência populista da ditadura do Estado Novo. Logo esta, que resistiu à democracia superliberal de 1946, à intervenção militar de 1964, à Nova República (que Sarney herdou do getulista Tancredo Neves) e à Constituição “cidadã” do dr. Ulysses, que data de 1988.

A paródia política da Viúva Porcina da novela Roque Santeiro, de Dias Gomes, proibida pela censura na ditadura e liberada para exibição na democracia atual, deu todas as razões possíveis e imagináveis às intervenções de juízes de primeira e segunda instâncias no direito defendido pelo presidente de nomear o ministro que lhe aprouver. De fato, a intervenção da Justiça é estapafúrdia e justifica os argumentos governistas de que se trata de uma intromissão indevida do Judiciário no Executivo. Mas a teimosia de Temer em manter a herdeira do delator do mensalão parece mais suicida, do ponto de vista político, do que “sincericida”. Não seria o caso de agradecer aos juízes pela chance de se livrar das trapalhadas da sra. Brasil? Decerto, não é racional que as absolva.

A filhota do advogado que se consagrou no programa O povo na TV do SBT no Rio insiste em se dizer processada, quando ela foicondenada pela Justiça do Trabalho. No mínimo, ela mente e, embora não chegue a ser um delito grave, certamente não é uma das virtudes teologais que a população exige de um ministro de Estado. Ela usou o refrão até quando teve a insânia de divulgar em redes sociais um vídeo em que aparece ao lado de quatro descamisados, no qual misturou desconhecimento do vernáculo com impropriedade jurídica, produzindo este primor de patacoada ao se defender das acusações a que responde na Justiça: “Não sei quem passa na cabeça dessas pessoas que entram na Justiça contra mim” (sic). O deslize gramatical não consegue esconder a pretensão da deputada, que transmite ao distinto público a própria versão do foro de prerrogativa de função: a imunidade total perante a lei.

Talvez por ter sido o único brasileiro que tenha conseguido entender o que a moça quis dizer, seu colega na Câmara Carlos Marun encarnou seu lado de valentão de circo na defesa da ex-futura colega de Ministério, concentrando sua atenção apenas no desempenho cafajeste de mandar um recado desafiando a lei. em trajes de banho, o que não era bem o caso. O próprio pai, que atacou os “moralistas” que não aceitaram a intervenção dos descamisados da sra. Brasil no debate político nacional, substituindo o “eia sus” de antanho pelo “vai, ministra!”, puxou-lhe a orelhinha pela constatação evidente de que não se trata de negócios públicos al mare. Tendo-a introduzido na discussão da reforma de Previdência, para cuja vitória foi nomeado secretário de governo, Marun considerou o à-vontade dos participantes do vídeo em questão adequado, pois, segundo o próprio, nem ele mesmo, um ilustre varão do Pantanal, frequenta praia de terno.

Nessa dita ocasião, o encarregado de pacificar as forças políticas para o bem do País e salvação dos cofres públicos misturou os alhos da lancha usada como tribuna com os bugalhos do auxílio-moradia dos juízes. “Dois auxílios-moradia para quem vive em casa própria é moral?”, perguntou, referindo-se ao fato de o casal Simone e Marcelo Bretas receber duas vezes o auxílio-moradia, embora conviva sob um único teto.

A verdade pela metade foi logo apropriada pela turma do lema “eleição sem Lula é fraude”. A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, não perdeu a oportunosa ensancha de tentar desqualificar a condenação de Lula por Sergio Moro porque foi exarada por um juiz federal que, como informou a Folha de S.Paulo, recebe o mesmo auxílio-moradia de Bretas, embora disponha de um apartamento próprio na sede da comarca que dirige, em Curitiba. A meia-verdade é que auxílio-moradia é lícito, não é crime, mas privilégio, o que não é ético e é feio. Corrupção é crime e Lula, o ídolo de Glesi, é criminoso com papel passado na primeira instância e repassado na segunda, por três a zero, um fato consumado que não terá mais como ser corrigido no futuro.

Os juízes Bretas e Moro defenderam-se, mas não se livraram do constrangimento. Bretas ironizou a própria opção pelo direito de requerer um privilégio que custa caro à Nação (R$ 800 milhões por ano, conforme reportagem do Estado no último fim de semana) só porque a lei o permite. Esse é um truísmo salvador, mas pior fez Moro, e duas vezes. Na primeira, disse o seguinte ao Globo: “O auxílio-moradia é pago indistintamente a todos os magistrados e, embora discutível, compensa a falta de reajuste dos vencimentos desde 1 de janeiro de 2015 e que, pela lei, deveriam ser anualmente reajustados”. A que lei ele se refere? Faltou registrar. Não se espera de um juiz que julgue algo ilegal sem citar os termos exatos da lei que ele acha que está sendo violada. Por que, em vez de recorrer a um penduricalho como se fosse um drible da vaca na ordenação jurídica das remunerações funcionais do serviço público, ele não recorreu aos tribunais de praxe, como qualquer zemané? Aliás, há muito tempo vozes indignadas contra os privilégios da alta casta funcional federal denunciam esse truque de carta escondida na manga de complementar vencimentos com auxílios de todos os gêneros. E ele acabou de confessar. Moro não contrariou o STF, pois o ministro Fux de fato decretou que esses dribles podem ser classificados na categoria de gols. Isso não  evita o fato de ele achar normal seu privilégio abusivo, negado ao cidadão vitimado por um déficit habitacional brutal e, não tendo casa para morar, obrigado a bancar o aluguel do funcionário que dispõe de imóvel próprio, recorrendo ao truque mandrake para ter no holerite um total acima do limite constitucional.

Moro também vacilou ao não dissuadir a mulher de disparar contra a impresa – que trata seu marido a pão-de-ló e o fez herói nacional – no Instagram, em que respondeu à notícia da Folha de S.Paulo de que o casal tem apartamento próprio na sede da comarca da qual ele é titular: “Imprensa… para o bem e para o mal. Separam o joio do trigo e publicam o joio”. O barbarismo aproxima seu post da frase de Cristiane, que adicionou um eme ao “que” e este, virando “quem”, perdeu o nexo. Rosângela execrou a imprensa, sujeito singular, e pôs o verbo no plural (o mesmo eme a mais): “separam” em vez de “separa” e “publicam”,  de “publica”. Barbarismos à parte, a frase não é dela, mas de outro mal agradecido, o brilhante advogado, orador e político democrata americano Adlai Stevenson II, que foi governador de Illinois e duas vezes derrotado por Eisenhower em seguidas disputas eleitorais para presidente. Chumbo grosso queima e fulgura no disparo, mas repetido torna-se duro e opaco.

Essa mistura de alhos com bugalhos na vida pública nacional em nada engrandece seus estrategistas, apenas lhes expõem os defeitos.

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, na segunda-feira 5 de fevereiro de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/alhos-com-bugalhos/

 

No Aliás do Estadão: O rendez-vous do sórdido com o sublime

No Aliás do Estadão: O rendez-vous do sórdido com o sublime

Poesia Completa é um livro à altura do fino ofício de Alberto da Cunha Melo

O volume de mil páginas provoca o primeiro impacto: como pode o pernambucano de Jaboatão dos Guararapes Alberto da Cunha Melo ter sido um poeta tão produtivo e copioso nos 65 anos em que viveu? Impacto ainda maior terá o leitor, habituado ou não à arte do romano Horácio (seu ícone e cânone), ao percorrer cada uma delas e nada encontrar que considere jaça. Há ainda, no caso desta Poesia Completa, a inserção do gesto criador, do labor exaustivo do autor, permitindo o acesso a poemas inacabados, esboços ou exercícios poéticos, alguns intocados há décadas: belos diamantes brutos, ainda não lapidados.

poesia completaA poesia publicada em vida do autor foi louvada por críticos respeitáveis. Destaco dentre eles o poeta e professor paraibano Hildeberto Barbosa Filho, que parafraseou Johannes Pfeiffer em Introdução à Poesia: “devido à sua verdade, esta poesia é necessária; devido à sua beleza, é beatificante!” Alberto foi sociólogo e jornalista competente e pontual, mas revelava que essas atividades apenas lhe serviam como fonte de sobrevivência e, algumas vezes, de leitmotiv de seus poemas. Uno e indivisível, é poeta, e a terceira pessoa do singular rege o verbo no presente do indicativo, porque sua poesia atravessa o tempo e ganha uma dimensão que, apesar de todas as honras e gratificações em vida, ainda carece de maior reconhecimento a seu mérito.

A primeira vez que vi falarem dele foi em entrevista de Bruno Tolentino nas páginas amarelas da Veja. O implacável avaliador lançou-o às alturas de maior nome da poética nacional desde João Cabral de Melo Neto. A fé em Bruno me levou a adquirir os livros de Alberto, todos editados no Recife, berço de Cabral e Bandeira, sem penetração no Sudeste. O faro fino do editor Pedro Paulo de Sena Madureira, meu sócio na Girafa Editora, permitiu que a obra imensa e singular circulasse nas metrópoles a bordo de uma edição caprichada e magnífica de O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos. Os adjetivos usados descendem, mais do que do entusiasmo deste autor, da concessão do prêmio para o melhor livro de poesia dado pela Academia Brasileira de Letras em 2007. Debilitado, o poeta não foi à Casa de Machado de Assis recebê-lo e me honrou, como editor, pedindo para representá-lo.

Alberto da Cunha Melo, no lançamento do livro "O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos". Recife: A Girafa, 2006.

Alberto da Cunha Melo, no lançamento do livro “O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos”. Recife: Girafa Editora, 2006.

Certa vez, Astier Basílio, precoce candidato a Arthur Rimbaud de Campina Grande (na comparação feita por Alberto e glosada por outro pernambucano, Jomard Muniz de Britto, que indagou quem seria, então, o Paul Verlaine da Borborema), pôs-me nas mãos um exemplar da edição artesanal de 200 exemplares numerados de Yacala, à beira do balcão do Café Aurora, na Praça da Bandeira, em Campina. Exórdio, o primeiro dos 140 poemas reunidos, sacudiu minha alma como um vagalhão na tempestade: “Levamos fogo, não esponjas, / ao trono sujo de excremento, / disputando o mesmo vazio / de uma estrela no firmamento; // jarros negros e estrelas, tudo / é uma busca de conteúdo; // ou somos renúncia ou cobiça, / atravessando esses planaltos / feitos de cinza movediça; // mas todos estamos em casa, / como os voos dentro das asas”.

Manuscrito da segunda versão do "Exórdio", do livro "Yacala"/ Alberto da Cunha Melo exibe uma matriz de chumbo do seu livro "Yacala". Recife, Gráfica Olinda, 1999.

Manuscrito da segunda versão do “Exórdio” do livro “Yacala”/ Alberto da Cunha Melo exibe uma matriz de chumbo do seu livro “Yacala”. Recife, Gráfica Olinda, 1999.

A emoção desse rendez-vous do sórdido com o sublime se repetiu ao reunir-me a um grupo de atentos e devotos espectadores que lotaram o auditório da Livraria da Vila no lançamento paulistano da obra magna. Entre os presentes, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, professora de literatura, mulher, viúva, a mais completa e mais autorizada crítica (o que permitiu ao poeta conviver com a própria exegeta e permitirá ao estudioso acompanhar neste livro seu processo de criação); Martim Vasques da Cunha, herdeiro de Tolentino, autor do texto da orelha e timoneiro do projeto; e, last but not least, Carlos Andreazza, o bravo editor que trouxe a lume o monumento.

Lançamento do "Poesia completa". São Paulo, 19 de dezembro de 2017: Auditório/ José Nêumanne, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, Maria do Carmo Ducco / Carlos Andreazza, Cláudia, Isabel Moliterno, Dionísius Amêndola, Rafael Tahan e Martim Vasques da Cunha.

Lançamento do “Poesia completa”. São Paulo, 19 de dezembro de 2017: Auditório/ José Nêumanne, Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, Maria do Carmo Ducco / Carlos Andreazza, Cláudia, Isabel Moliterno, Dionísius Amêndola, Rafael Tahan e Martim Vasques da Cunha.

Melhor não teria a dizer sobre o livro que não seja o simples reconhecimento de que está à altura da obra que abriga pela fé, pela autenticidade, pela força, pela verdade, pela beleza e pelo compromisso ético com o que há de mais puro, cru e autêntico na arte maior. O cartapácio é o altar digno da obra que merece o mais alto posto no panteão da poesia em língua de Camões e Vieira.

José Nêumanne

  • Jornalista, poeta, escritor e autor de Solos do Silêncio

Resenha publicada no Aliás, neste domingo, 28 de janeiro de 2017.

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No Estadão desta quarta-feira: O vendedor de greves

No Estadão desta quarta-feira: O vendedor de greves

Esforço para livrar Lula da lei prejudica mais a democracia do que mentiras que ele diz

Sábado, o País ficou sabendo que o presidente Temer não se intromete em assuntos do Judiciário, mas resolveu meter sua colher imprópria no julgamento de Lula, hoje, no Tribunal Federal Regional da 4.ª Região (TRF-4), em Porto Alegre. À pergunta formulada em entrevista exclusiva pelos repórteres da Folha de S.Paulo Gustavo Uribe e Marcos Augusto Gonçalves sobre como vê o julgamento e se seria melhor que o réu concorresse nas eleições este ano, o presidente respondeu: “Não posso dizer uma coisa que está sob apreciação no TRF. Agora, acho que se o Lula participar, será uma coisa democrática, o povo vai dizer se quer ou não. Convenhamos, se fosse derrotado politicamente, é melhor do que ser derrotado (na Justiça) porque foi vitimizado. A vitimização não é boa para o país e para um ex-presidente”. Pois, segundo Temer, caso Lula seja impedido de se candidatar, isso vai “agitar o meio político”. Ora!

Não é o caso de aqui citar devotos, correligionários e parasitas oportunistas que sonham se coligar com Lula no pleito. Mas, sim, destacar figurões do governo e da oposição – Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin, João Doria, Beto Richa, Ronaldo Caiado, Rodrigo Maia, Raul Jungmann – e vários interessados que dispararam esse mesmo truísmo absurdo e suspeito. No Estado de Direito, vigente no Brasil, não há a hipótese de candidatos escolherem que adversários preferem para a disputa. Ou há?

Eles deveriam é atentar para o pronunciamento de um eventual beneficiário da condenação do ex-líder metalúrgico hoje, o ex-governador do Ceará Ciro Gomes, presidenciável do PDT. Ciro disse que torce pela absolvição de Lula, mas se negou a crer que haja uma conspiração política no Poder Judiciário contra o petista. Em rara prova de lucidez, o ex-ministro do próprio disse que imaginar um complô “ofende a inteligência média do País”. E ainda advertiu que “a consequência inevitável desta constatação teria desdobramentos tão graves que a um democrata e republicano só restaria a insurgência revolucionária”. É isso aí!

Contrariando sua vocação de trânsfuga contumaz, ele é fiel ao juramento de cumprir e defender as leis do País, feito quando assumiu o governo do Ceará, em 1991. Ao contrário, o presidente e alguns citados, ainda vigente o juramento, cometem delito de lesa-pátria, rasgam a Constituição e posam de generosos e benevolentes. Segundo meu avô, de esmola grande cego desconfia. Não é o caso desses que se fingem de cegos para se dar bem no futuro, caso tenham de se submeter ao Estado de Direito, no qual todos têm de seguir a lei.

Quem canoniza o réu investe no falso conceito de que voto substitui Justiça e cancela penas, como pregava Antônio Carlos Magalhães à época do mensalão. E deu no que deu!

Nisso, aliás, todos eles têm no condenado a nove anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro a mais completa síntese de campeões da patranha, celebrados nas figuras de João Grilo e Chicó na obra-prima da comédia popular brasileira O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Basta lembrar que todos manifestam temer uma convulsão social com a eventual confirmação da condenação do Pedro Malasartes dos palanques e palácios. Afinal, ele seria o mais popular líder político do Brasil em todos os tempos. É mesmo? Por que, então, Lula não viaja em aviões de carreira como os mortais comuns e só comparece a eventos controlados pela militância cega por devoção e paixão?

Lula ascendeu entre heróis n<CW-10>acionais como líder das greves de metalúrgicos do ABC paulista em plena ditadura militar, da qual foi vítima. Na verdade, como está explicado no meu livro O que Sei de Lula (Topbooks, 2011), ele teve no general Golbery do Couto e Silva seu propulsor no início da carreira de dirigente. O criador do Serviço Nacional de Informações usou sua liderança carismática para impedir que Brizola empolgasse os movimentos sindicais e solapasse o regime.

Emílio Odebrecht, pai de Marcelo, citado nas delações de 77 executivos de sua empresa e de quem Lula é o “Amigo” da tal lista, contou ao depor na delação premiada a procuradores federais da Lava Jato, a mais bem-sucedida operação policial e judicial da História, que Lula impediu greves em empresas suas, tendo recebido dinheiro para fazê-lo.

Foi nesse ínterim que Lula virou santo popular, por ter sido preso e processado após a intervenção no sindicato que presidiu nos anos 70 e 80. Mas sua passagem pela carceragem do Dops paulista à época da ditadura foi mais confortável que a de outros companheiros de cela, conforme testemunho do delegado Romeu Tuma Jr., secretário nacional de Justiça no primeiro governo Lula e filho do policial homônimo, em Assassinato de Reputações (Topbooks, 2013). Tuma informa que o falso mártir foi agente de informações do pai, a quem informava sobre o movimento. Se Odebrecht e Tuma não mentiram, em vez de vítima, o seis vezes réu de hoje foi, de fato, o que os colegas sindicalistas chamariam, à época, de “traíra” dos trabalhadores e “dedo-duro” dos militantes de esquerda, que sempre o endeusaram. Ninguém, até agora, desmentiu na Justiça os depoimentos aqui citados.

Em périplos pelo País, Lula conta lorotas que mais se acomodariam em narrativas das aventuras de grandes mentirosos do folclore. Como no caso recente em que algum intelectualoide do auditório do teatro Oi Leblon, núcleo de rebeldia juvenil na ditadura sob o nome de Casa Grande, lhe soprou que o assassino de Antônio Conselheiro foi ancestral do presidente do TFF-4, em que hoje está sendo julgado. De fato, o tio-trisavô de Thompson Flores era coronel, não general, e morreu três meses antes do beato de Canudos.

Essa foi apenas uma piada mentirosa e sem graça. Mais graves são as patranhas misericordiosas de pretensos adversários, como Temer, que põem as instituições em risco para tornar um mentiroso serial acima da lei e fora da democracia.

José Nêumanne

Jornalista, poeta e escritor

(Pulicado na Pag2A do Estado de S. Paulo da quarta-feira 24 de janeiro de 2018)

Nesta quarta-feira no Estadão: A comédia bufa com a sra. Brasil

Nesta quarta-feira no Estadão: A comédia bufa com a sra. Brasil

Ministra que despreza a lei faz governo cair… por enquanto, na galhofa geral brasileira

Os policiais do Rio Grande do Norte não receberam seus vencimentos de dezembro nem o equivalente ao 13.º salário. Por isso pararam de trabalhar, comprometendo gravemente a segurança pública do Estado. Alegam também não ter condições de entrar em ação porque a frota está sucatada e os equipamentos à sua disposição não lhes permitem enfrentar o cotidiano arriscado e violento em condições condizentes. Não são, como se vê, só pretextos.

A desembargadora Judite Nunes considerou o aquartelamento dos policiais militares e a paralisação dos civis indícios de greve dos agentes estaduais de segurança e isso não é permitido por lei. Mas os policiais não voltaram a patrulhar as ruas e as delegacias continuaram sem funcionar. O desembargador Cláudio Santos, do Tribunal de Justiça, então, determinou que o comandante da Polícia Militar e o secretário de Segurança Pública prendessem os amotinados. Estes se reuniram, algemaram-se a si próprios, num gesto de rebeldia e desafio, mas não foram, e ainda não estão, presos. A solução encontrada foi mandar tropas federais para o Estado sem polícia. Até quando? Quem garante o quê nessa situação? A quem o cidadão desarmado e à mercê de bandidos armados até os dentes na rua deve apelar? Ao papa argentino? Ao bei de Túnis? À Virgem Maria? Ou a Iemanjá, a rainha do mar?

O impasse do Rio Grande do Norte não foi isolado, nem único, nem singular. Os servidores do outro Rio Grande, o do Sul, tomam dinheiro emprestado em bancos para sustentar a família, já que o disponível nos cofres do Estado não lhes supre as necessidades. É o caso de outra Unidade da Federação com nome de Rio, o de Janeiro. Sem recursos para pagar suas contas, funcionários fluminenses reúnem-se nas ruas, gritam palavras de ordem, armam barricadas e queimam pneus. Em vão! Em Aparecida de Goiânia, as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e Comando Vermelho (CV), do Rio, degolam, trucidam e incineram os oponentes ao lado.

Sete dos nove governadores do Nordeste atribuem a situação terminal de seus presídios à inerte insensibilidade do governo federal. O ministro da Justiça, Torquato Jardim, recebe as críticas sem humildade, com quatro pedras na mão. Nessa pendência ninguém tem razão. Os Estados, entes federativos responsáveis pela segurança dos cidadãos, desperdiçam quase tudo o que arrecadam em salários, penduricalhos e outros privilégios do corpo funcional inchado e disforme, cujo dispêndio é desproporcional à capacidade do erário. A União, que deveria mais propriamente ser chamada de Desunião, ocupa-se em distribuir emendas orçamentárias para manter prerrogativas, como o foro privilegiado.

Como não há mais bei em Túnis e os prelados católicos já não dispõem de patrimônio para alimentar e vestir os servidores flagelados, os governadores rebelados apelam ao que lhes parece disponível: o Judiciário. Pediram audiência à presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e, como parece não ter mais a fazer, Cármen Lúcia os recebe. A exemplo dos cavaleiros gaúchos do célebre poema do folgazão pernambucano Ascenso Ferreira, “para quê? Para nada!”. Na reunião, a procuradora de origem só pode usar belas frases inúteis e vazias de sempre. De nada servem. E os chefes dos Executivos estaduais entram e saem de mãos abanando.

Na presidência do STF, Cármen Lúcia interpreta as fadas dos contos infantis e tem valia similar à delas. Em 2017, também presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ela visitou presídios do País, mas passou ao largo de Aparecida de Goiânia, pois o governador de Goiás, Marconi Perillo, achou que seria impróprio. Agora ele mudou de opinião, mas repetiu-se o forfait: não tinha o que fazer lá. Em 2014, e há dois meses, ela encarregou subordinados de fazerem relatórios sobre a prisão. Nada mudou e veio o réveillon do horror.

Seria o caso de, em reuniões como essa, ou quando dispara ordens para que preparem relatórios que só repetem os anteriores e nada produzem de efetivo, dona Cármen e seus dez pares da távola-ferradura se darem as mãos e entoarem em coro, fazendo eco a Roger Moreira e ao Ultraje a Rigor: “Inútel, a gente somos inútel”. Mas, não: enquanto o governador Perillo faltava ao expediente e se escondia da crise pulando as sete ondinhas para Iemanjá numa praia de Pernambuco, Cármen, no plantão do último recesso, antes de passar coroa e cetro para Dias Toffoli, não podia ter perdido essa chance para proferir mais uma frase de efeito. Ela já disse: “Cala a boca nunca mais”. E mais: “O cinismo venceu a esperança e agora o escárnio venceu o cinismo”. Não seria esta a hora de o inócuo derrotar o escárnio? É o que parece!

Hoje nossos presídios são puxadinhos dos palácios. Serviçais de Geddel Vieira Lima, residente na Papuda, em Brasília, cuidam de seus interesses na Secretaria de Governo, sob Carlos Marun, capanga de Eduardo Cunha, que mora numa cela, em Curitiba. A ministra a ser encarregada da reforma trabalhista foi indicada por papai, o ex-presidiário Roberto Jefferson, delator, réu confesso do mensalão, indultado por Dilma e perdoado pelo STF, sempre apto a soltar, nunca disposto a prender. A filhota, condenada por violar as leis trabalhistas, paga acordo com outro “ex-escravo” dispondo da conta bancária de uma assessora, da mesma forma que Job Brandão, ex-empregado da famiglia Vieira Lima, “doava” 80% dos vencimentos às contas dos chefões. A débil gestão Temer caiu… por enquanto na galhofa geral. E se prepara para não reformar a Previdência, mesmo com a ficha-sujíssima sra. Brasil na equipe.

Sendo Cármen Lúcia inapta e inepta para decepar o nó górdio que pretende desatar, e à falta de beis e bispos, a plateia pagante do show só exige que se investiguem todos os suspeitos e se prendam todos os culpados, sob pena de este sr. Brasil velho não ter mais cura.

José Nêumanne

*Jornalista, poeta e escritor

No Blog do Nêumanne: O que Lula não foi nem é, e o que podia ter sido

No Blog do Nêumanne: O que Lula não foi nem é,  e o que podia ter sido

Ainda há quem aposte no sonho populista, apesar de ter virado um pesadelo

O primeiro slogan de Lula e de seu Partido dos Trabalhadores (PT) – “contra tudo isso que está aí” – a negação de tudo o quanto o líder e o partido fizeram. E a afirmação exata do que querem aqueles que agora o apoiam, na esperança de que, de volta ao governo do qual saiu com imensa popularidade, ele faça, afinal, o que não fez.

Seria uma simplificação muito grande – e, portanto, inaceitável –   querer dizer agora que tudo o que aqueles que apostaram no líder sindical como dirigente de um partido político só exigiam dele que “não roubasse e não deixasse roubar”. Isso sempre foi repetido por seu lugar-tenente José Dirceu de Oliveira, mas é sentença de lavra de outro aliado dos velhos tempos das “Diretas-já”, Ulysses Guimarães, o timoneiro do MDB, agora de volta à sigla original MDB. Pode-se ainda argumentar que o antigo pessedista que se tornou multipresidente de partido de oposição e do Congresso Constituinte, além de ter ocupado outros cargos de poder e honra não sobreviveu à transformação daquele grupo de políticos civis resistentes à ditadura tecnocrático-militar de 1964, que se radicalizou em brutalidade em 1968, num grupo que o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot definiu como sendo o “quadrilhão do PMDB”. Este perdeu o pê e a honra nestes dias. Mas a verdade histórica é que o combate à corrupção era uma plataforma importante no ideário da esquerda, que carregou o metalúrgico vindo do Agreste nos ombros e combateu à sua sombra. E se o historiador honesto terá de reconhecer que o dr. Ulysses foi traído pelos larápios de sua legenda, o mais correto a dizer de Lula é que ele foi o supremo traidor.

Na ditadura Lula respondeu por greve e agora na democracia por roubo Foto Reginaldo Manente/Estadão

Na ditadura Lula respondeu por greve e agora na democracia por roubo Foto Reginaldo Manente/Estadão

A corrupção não foi inventada por Lula e seus companheiros de lutas no sindicalismo, no partido e na administração pública. Qualquer adversário dele que emitir esse juízo falseará ridiculamente a verdade histórica, que começou a ser contada na Bahia, nos primórdios da colônia, por Gregório de Matos, o Boca do Inferno. A malversação do erário não é também uma jabuticaba, uma especiaria brasileira, uma espécie de doença tropical. Ela é praticada desde priscas eras. Pois o foi no Império Romano, como dia destes lembrou o inefável Moreira Franco, genro dos genros e sogro torto, em momento de Conselheiro Acácio oriundo do Piauí. E hoje suja os negócios republicanos nas ditaduras e nas democracias, nos tristes trópicos e nos continentes temperados, como uma espécie de epidemia maligna que transforma a ambição em delito e o delito em hábito.

A corrupção não é o único dos males da política. Mas também não pode ser tratada como um detalhe de somenos, como o fez o ilustre, mas atarantado, linguística americano Noham Chomski em entrevista a este Estado. “Isso foi particularmente verdadeiro no caso do Brasil, que durante o governo Lula se tornou um dos países mais respeitados do mundo, por bons motivos. Também houve falhas graves, entre elas a falta de diversificação da economia e a extrema corrupção, que persistiu de anos anteriores. Não há razão para que tais falhas não possam ser superadas”, disse o ilustre intelectual, de 89 anos, respondendo às perguntas por e-mail.

Infelizmente a entrevista por e-mail impõe certos limites que tornam o contato pessoal indispensável em casos de reportagens de perguntas e respostas. Esses limites impediram que os colegas que o abordaram questionassem que bons motivos teriam sido esses que teriam tornado o Brasil um dos países mais respeitados do mundo entre 2002 e 2016, considerando não apenas os dois mandatos do ex-operário, mas também o mandato e meio de sua sucessora, por ele ungida. Ainda que se dê ao respeitável filósofo estrangeiro o benefício do silêncio em relação a esses “bons motivos”, não se pode considerar desprezível o erro da corrupção em grau extremo, que ele mesmo definiu como “falha grave”. Mais importante do que importunar o mestre sobre os bons motivos do prestígio do Brasil no exterior é aduzir que esse prestígio está sendo contestado agora exatamente pelo escândalo que abalou a imagem do país.

No mesmo dia, em outro jornal, O Globo, foi possível conhecer um episódio histórico protagonizado pelo herói obreiro do mestre da língua e do pensamento na academia, em testemunho valioso de um político profissional, não um intelectual, mas um perito na arte negocial de comprar e vender votos, o ex-deputado federal Pedro Corrêa. Ex-presidente nacional do PP (Partido dito Progressista, imagine só) explicou outro ponto sobre o qual o mestre não pontificou ao afirmar que a desobediência ao quarto mandamento do decálogo mosaico “persistiu de anos anteriores”.

Pois é. Da varanda do apartamento onde cumpre sua dupla pena de condenado pelos dois processos mais escabrosos da história da República brasileira – o mensalão e o petrolão – o político experiente fixou nos últimos 30 anos – e não apenas nos 13 e meio do mandarinato lulodilmista, com extensão pela atual gestão herdada por Temer – as práticas malignas de comprar apoio de dirigentes partidários em troca de sua interferência na gestão daquilo que os antigos latinos chamavam de “coisa pública”.

Talvez o dr. Chomski pudesse regozijar-se do título da reportagem na página 4, a principal da política do jornal, referindo-se ao período anterior. Este abrangeu a ditadura militar, a chamada Nova República, que seria de Tancredo e terminou sendo de Sarney, o notório governo Collor, a curta transição por Itamar e os oito anos sob o tucano de alta plumagem Fernando Henrique Cardoso, colega de magistério do dr. Chomski.

A frase destacada pelo editor do texto da reportagem, contudo, não teria o mesmo efeito analgésico sobre a alma do bem-intencionado especialista em línguas e filosofia. Pois Corrêa não fez circunlóquios ao se referir àquele que Chomski instalou, ao lado do cineasta grego Costa Gavras e do compositor carioca Chico Buarque, no altar-mor do panteão dos deuses políticos do socialismo populista contemporâneo. “Lula”, contou Corrêa, “dizia que não ia dar em nada, porque todos esses crimes (do mensalão) estavam prescritos. Quem fazia muita restrição a isso era Valdemar (Costa Neto). Ele falava: ‘se prepare que vamos ser presos’. Eu dizia: ‘Mas o homem (Lula) não está falando que vai resolver isso?’”

As entrevistas de Chomski e Corrêa são importantes, mas em nada alteram a ordem natural das coisas da política brasileira em geral e, em particular, da questão relevante da eventual confirmação da condenação de Lula na segunda instância, que pode afastá-lo da disputa presidencial de outubro próximo. Ou até mesmo levá-lo aos presídios pelos quais passaram Corrêa e Dirceu e ao Arquipélago Lava Jato, que hoje tira do convívio social Geddel Vieira Lima e Eduardo Cunha – todos beneficiários da roubalheira instalada pelo PT, seus aliados do MDB e até, quem diria, seus figadais adversários do PSDB.

O dr. Chomski deixa uma porta aberta para aqueles que sonharam com o desmanche da corrupção de antanho, que também mereceu uma definição antológica do ex-deputado pernambucano: “Não sou nenhum santo, sou um político da minha geração, que fazia eleição com dinheiro, acertando compras de votos com os prefeitos e com os vereadores”.

O caso é que não é o fato de a roubalheira ser uma prática política antiga que justifica a volta de quem prometeu lutar “contra tudo isso que está aí” e fez o oposto. Nada disso: a legislação penal não dispensa o cumprimento de pena pelo delito da repetição, mas, sim, o exige pela mera prática do delito. Ao contrário do que imagina o dr. Chomski, o Brasil da Petrobrás instrumentalizada pelos ladrões de PT, PMDB, PSDB e outras siglas viciadas em descumprir o “não roubarás” não merece respeito dentro de suas fronteiras nem fora e até mesmo longe delas.

Esse respeito só será reconquistado se a Justiça cumprir seu papel no Estado de Direito punindo o ídolo que ele, Chico e Gavras adoram pelos crimes que ele eventualmente tenha cometido. E só por eles. Se a Justiça ceder caminho à piedade em nome da demagogia, o Brasil terá de se envergonhar dela mais ainda do que já se envergonha hoje de seus políticos ladrões, sejam quais forem. Apostar novamente na ilusão populista será um ato de traição coletiva à Pátria, que merece mais respeito e proteção.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 8 de janeiro de 2018)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/o-que-lula-nao-foi-nem-e-e-o-que-podia-ter-sido/

No Blog do Nêumanne: O repórter e a mestra no céu

No Blog do Nêumanne: O repórter e a mestra no céu

Louzeiro e Nelly, duas estrelas que agora brilham no infinito

Os anos passam e os amigos vão. Com 2017 chegando ao fim, as páginas dos jornais escasseiam e os moderníssimos computadores os substituem na tarefa dura de nos comunicar a perda dos melhores amigos. Assim soube que José Louzeiro teve morte suave: em pleno sono sem tempo de despertar (reveiller, em francês, daí o nome da maior festa da virada do ano). Dos jornais em que trabalhou O Globo e a Folha de S.Paulo registraram sua passagem por suas redações. Nos blogs hospedados no primeiro tomei conhecimento do mistério que ronda a morte de Nelly Novaes Coelho, que não teve direito a velório, não foi sepultada, incinerada, homenageada nem decente e adequadamente chorada.

Conheci Louzeiro nos anos 70 na reportagem local da Folha, chefiada por JB Lemos e editada por Jaime Negreiros. Vinha do Globo pelas mãos de Esdras Passaes, importado para dar vida e cor à editoria de polícia do jornal. Louzeiro já adentrara os 40, ou seja na era dos “enta”, enquanto eu mal estreara os 20. Era um caboclo maranhense que, de alguma forma, me lembrava o velho Graça, Graciliano Ramos, que, como ele, trabalhara no Correio da Manhã, um dos muitos diários de luta e fama fechados ao longo de nossas vidas. Era modesto, destemido e arguto, apurava as reportagens com rigor e tratava nos textos a língua materna com desvelo sem foguetórios, sem firulas em sua elegância simples e lhana.

JOSE6 - RJ - 09/02/2013 - JOSE LOUZEIRO/ENTREVISTA - CADERNO 2 OE - Entrevista com o escritor e jornalista, José Louzeiro, em sua residência, no centro do Rio de Janeiro. Foto: MARCOS DE PAULA/ESTADÃO

JOSE – RJ – 09/02/2013 – JOSE LOUZEIRO/ENTREVISTA – CADERNO 2 OE – Entrevista com o escritor e jornalista, José Louzeiro, em sua residência, no centro do Rio de Janeiro. Foto: MARCOS DE PAULA/ESTADÃO

Como eu, Louzeiro era repórter da Folha em 1974 quando lançou o romance-reportagem Aracelli, Meu Amor, sobre o brutal assassinato de uma menina capixaba de oito anos. Em suas investigações o repórter, que então trabalhava no Globo, apontou como suspeita do crime bárbaro gentinha da fina flor da alta burguesia de Vitória, capital do Espírito Santo. O livro obteve grande sucesso e foi censurado, como era hábito na época da ditadura tecnocrático-militar então reinante, a pedido dos suspeitos, de uma gentinha sem qualificação alguma.

Em 1976, veio a lume outro romance seu de literatura-reportagem, Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia, no qual Louzeiro deu voz a um bandido egresso da classe média carioca que se dispôs a revelar, antes de ser executado com um golpe na carótida por um companheiro de cela, Mário Pedro da Silva, detalhes da corrupção policial na antiga Cidade Maravilhosa, até então pouco conhecidos do grande público, que acompanhava peripécias de malandros oriundos de famílias paupérrimas da periferia carioca. Louro, de olhos azuis, modos elegantes e roupas finas, Lúcio Flávio Vilar Lírio ofereceu-se pelo telefone ao então repórter policial tido como diferenciado na imprensa que havia celebrizado jornalistas mais fiéis aos relatos da polícia: Amado Ribeiro e Otávio Pena Branca.

Hector Babenco, por quem eu fora convidado para a sessão privada de lançamento de sua fita O Rei da Noite, com Paulo José, tornou-se, então parceiro de Louzeiro, co-autor do roteiro do filme baseado no romance, protagonizado por Reginaldo Farias. A obra tornou famosa a máxima de Lúcio Flávio que Louzeiro imprimiu: “Policia é policia, bandido e bandido; não se misturam, como água e óleo”. Em novembro de 2015, oito anos depois de produzida, a obra entrou na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. E uma parceria ainda maior entre o repórter e o diretor de cinema ainda estava para ser produzida, desta vez a partir de uma reportagem mais pungente e atual, feita para a Folha..

O maranhense passado pelo Rio pôs uma pacata cidade perdida no interior de Minas Gerais na pauta dos movimentos de defesa de direitos humanos no mundo inteiro atentos à truculência da ditadura militar no Brasil, que hoje é tratada como Paraíso perdido por um bando de ignorantes da História do próprio país. O escândalo mundial ocorreu em 19 de outubro de 1974, quando 97 menores de idade, supostamente infratores, foram transportados por policiais da sede do Departamento Estadual de Investigações Criminais de São Paulo (DEIC), às margens da Rodovia Fernão Dias, nas proximidades de Camanducaia, onde foram jogados de uma ribanceira, após uma sessão de espancamento. O caso foi denunciado pela imprensa e chocou a opinião pública brasileira, tornando-se um dos maiores escândalos de violação de direitos humanos da História do país. Louzeiro escreveu, antes, uma série de reportagens para a Folha em cima do fato. Depois, ao estilo do new journalism de Truman Capote em In Cold Blood/A Sangue Frio, escola pela qual eu andava entusiasmado à época e à qual ele já se filiara nos dois romances citados, escreveu um clássico do romance-reportagem na literatura nacional, Infância dos Mortos.

Em 1980, o livro serviu de argumento para o roteiro que Hector Babenco escreveu e transformou em Pixote, a Lei do mais Fraco, um dos maiores clássicos cinematográficos nacionaisde todos os tempos, desta vez não apenas figurando na lista da Abraccine, mas também entre os dez melhores do ano por vários críticos internacionais. Após disputa por pagamento de direitos autorais a parceria entre Louzeiro e Babenco foi extinta. Mas o repórter que conheci em São Paulo já havia deixado de vez o jornalismo e voltado para a cidade do Rio de Janeiro, onde sempre quis morar. Nunca perdemos o contato, mas as diferentes azáfamas profissionais nos tiraram um da vista do outro. Simples, exigente consigo próprio, pesquisador implacável e escritor rigoroso, Zé escreveu roteiros para telenovelas da Rede Manchete de Televisão: foram ao ar Qorpo Santo e Guerra Sem Fim, mas O Marajá, baseado na saga de Fernando Collor de Mello, o dito “carcará sanguinolento”, foi interditada pela velha inimiga do autor: a censura.

Desde o sucesso dos filmes com Babenco, Louzeiro deixou a reportagem, um passo que ele me anunciou muito antes de dá-lo. Costumava citar uma frase de Ernest Hemingway – “um escritor deve sempre passar por uma redação de jornal, mas nunca ficar nela” -, o que ele fez e me aconselhou a imitar, mas nunca tive coragem (ou talento talvez) para segui-lo. Para sobreviver escreveu dez roteiros cinematográficos, entre os quais O Homem da Capa Preta, sobre Tenório Cavalcanti, personagem da política e do crime, portanto precursor de nossos homens públicos marginais contemporâneos e figura que ele conheceu muito bem como repórter de polícia, e não de política. Dirigida em 1986 por Sérgio Rezende e protagonizada por um astro de televisão, o cearense José Wilker, a obra também tem a chancela de qualidade do mestre do romance-reportagem.

Zé Louzeiro foi surpreendido quando dormia pela glicemia no sangue que o perseguiu a vida inteira. Mas felizmente não caiu no oblívio em que de certa forma tinha ficado nos últimos anos da vida.

O mesmo não se pode dizer de outra figura de importância capital na literatura brasileira. Coincidência notável é que o melhor elogio fúnebre sobre o escritor maranhense foi escrito pelo escritor, jornalista e promotor cultural mineiro Afonso Borges. E o criador do mais bem-sucedido sarau literário do Brasil, o Sempre um Papo, em Belo Horizonte, redigiu um necrológio curto em seu blog hospedado no Globo da professora de literatura brasileira da Universidade de São Paulo (USP), Nelly Novaes Coelho, que é, ao mesmo tempo, um romance-à-chave de mistério e terror.

Nelly Novaes Coelho

Nelly Novaes Coelho

Ele revelou o secreto desaparecimento recente da grande mestra, sua internação num lar de idosos, sua interdição pela justiça e, enfim, uma morte que só foi revelada um mês depois por sua cuidadora.

Nunca me esquecerei da honra que tive quando esta querida amiga leu um poema de minha lavra no lançamento da coletânea Solos do Silêncio na FNAC de Pinheiros, em 1996. A cinco anos de completar 100, a sobrinha da grande pianista Guiomar Novaes merecia hoje, no mínimo, exéquias solenes. Registre-se aqui o que Borges escreveu:

“Depois de uma intercorrência clínica, há três anos, ela (Nelly) foi interditada, judicialmente, e internada em uma clínica de repouso. Amigos que tentaram visitá-la no asilo deram de cara com um aviso proibindo. Aos jornalistas, buscando entrevistas, a resposta negativa, associada a motivos de saúde. Curiosamente, um deles encontrou-a um dia no banco, onde travou um longo e saudável papo, no qual a lucidez foi a referência. Mesmo assim, envolto em mistério, seu paradeiro ficou assim, sem ninguém saber ao certo. Só boatos de brigas de família.

“Neste meio tempo, há cerca de um ano, um amigo vai visitar o Sebo do Messias e ali encontra vários livros dedicados a ela à venda. Encontra, inclusive, dois livros do próprio, com dedicatória. Compra alguns. Confere com o dono, que confirma que comprou toda a sua biblioteca. Tenho aversão a familiares que vendem os livros do autor. Leiam o artigo Mora na Biblioteca do Escritor o Segredo de Sua Obra.

“Agora, um mês depois, uma cuidadora do asilo vaza a informação da sua morte. Repito: um mês depois! Nenhum comunicado, nada de velório, de homenagem, do enterro, nada. Não se sabe nem onde foi enterrada, ou cremada, nada.

“Onde estará Nelly Novaes Coelho? Onde? E qual o motivo? Por que isso, assim? Saberemos, algum dia?”

Apresentação18

Deus se apiade das almas libertas desta vida de Louzeiro e Nelly. Ficam suas obras eternas na reportagem, na literatura, no ensino e na crítica. São agora duas estrelas brilhando no céu de 2018.

José Nêumanne

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne no domingo 30 de dezembro de 2017)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique no link abaixo:

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