Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Jornalismo

Tarefas de rotina para ministros de Dilma

Tarefas de rotina para ministros de Dilma

Mercadante e Cardozo têm mais o que fazer do que ser espírito santo de orelha da “chefona”

Os ministros da Educação, Aloizio Mercadante, e da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, têm abandonado seus expedientes rotineiros para exercerem os cargos informais de espírito santo de orelha e papagaio de pirata de sua chefe, a presidente Dilma Rousseff. Nessa condição têm produzido sesquipedais ideias de jerico, tais como o golpinho sujo da Constituinte exclusiva para uma reforma política que ninguém pediu e da qual só os políticos, particularmente os petistas, se beneficiariam; e a empulhação do plebiscito prévio com igual objetivo. O máximo que conseguiram até agora foi a adesão da oposição, incompetente e alienada, que aceita a embromação de um referendo.

Melhor seria para os dois, para o governo a que servem, para a presidente a que obedecem e, sobretudo, para a sociedade, que paga com sacrifício seus salários com impostos escorchantes, que eles se dedicassem à rotina comezinha de suas funções públicas. O economista Mercadante, que se recusa a usar o sobrenome do pai, o general Oliva, serviçal da ditadura militar que assolou o País por 21 anos, de 1964 a 1985, faria um bem enorme às gerações futuras de brasileiros se resolvesse uma equação perversa que as condena à ignorância e a perder a competição na guerra planetária pelo conhecimento.

De acordo com levantamento feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), composta pelos 34 países mais ricos do mundo, o Brasil investe em educação pública 5,8% do produto interno bruto (PIB), praticamente o mesmo que Estados Unidos, Espanha e Coreia do Sul. Mas ocupa o 53.º lugar no ranking do desempenho escolar, conforme o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), exame que avalia habilidades em leitura, matemática e ciências, aplicado pela própria OCDE. Ou seja, embora mais recursos para o setor sejam bem-vindos, estes não são imprescindíveis para melhorar a educação. Para tanto urge aprimorar a gestão, e isso o ministro pode fazer já.

Não será um trabalho fácil. Mas não é uma tarefa impossível. Como difíceis, mas também possíveis, são algumas das missões de que seu colega no primeiro escalão do governo federal petista, o causídico Cardozo, não dá conta. Pode-se dar-lhe o benefício da compreensão das dificuldades que a Polícia Federal (PF), sua subordinada hierárquica, deve enfrentar para ter de desvendar crimes de toda natureza, particularmente os de colarinho branco. Mas tampouco se pode omitir o fato de que a instituição às vezes tem um desempenho exemplar em casos muito mais difíceis do que em outros, na aparência, bem mais simples, mas cuja solução tem sido adiada para as calendas.

Um exemplo desse paradoxo é o escabroso caso da compra pela Petrobrás de uma refinaria que pertencia à empresa Astra Oil em Pasadena, no Texas (EUA). Os belgas a adquiriram por US$ 42,5 milhões em 2005. Em 2006 a empresa, presidida por um ex-funcionário da estatal brasileira, vendeu metade do controle acionário dela à Petrobrás por US$ 360 milhões. O convívio entre os sócios foi perturbado pela necessidade de aporte de US$ 1,5 bilhão para a pequena refinaria, com capacidade para ínfimos 150 mil barris/dia, poder refinar o petróleo pesado extraído de poços brasileiros. Os belgas processaram a sócia e esta encerrou a questão na Justiça americana desembolsando mais US$ 839 milhões para assumir o controle total da refinaria. Ou seja, a Astra Oil embolsou, ao todo, US$ 1,199 bilhão: US$ 1,154 bilhão e quase 30 vezes mais que os US$ 42,5 milhões pagos por ela oito anos antes. O Ministério Público Federal no Estado do Rio resolveu investigar essa óbvia fraude e talvez a PF, sob as ordens do dr. Cardozo, desse uma extraordinária contribuição à Pátria se, ao cabo de uma investigação rigorosa, descobrisse quem recebeu a bilionária (em dólares) “comissão”.

Outra tarefa rotineira a ser desincumbida pelo causídico Cardozo, se trocar as funções de Richelieu do Planalto por mais assiduidade no expediente no Ministério da Justiça, seria cobrar da PF a apuração rigorosa e imparcial das acusações feitas contra Rosemary Noronha na Operação Porto Seguro, que a própria PF encetou em novembro de 2012. Na ocasião, a PF informou ter flagrado as práticas de advocacia administrativa e tráfico de influência em altos escalões do governo federal. Entre os protagonistas do caso teve destaque a figura de Rosemary, dada como amiga muito íntima do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e flagrada interferindo pessoalmente na nomeação de quadrilheiros em cargos importantes da burocracia da União, inclusive uma direção da Agência Nacional de Águas. A então chefe de gabinete do escritório da Presidência da República em São Paulo, nomeada por Lula e mantida no cargo por Dilma a pedido do padrinho e antecessor, é acusada, entre outros malfeitos, de ter ajudado o ex-senador Gilberto Miranda a obter licenças para usar duas ilhas no litoral paulista. Essa ajuda teria sido recompensada com um cruzeiro (R$ 2.500), uma Mitsubishi Pajero TR4 (R$ 55 mil), uma cirurgia no ouvido (R$ 7.500) e móveis para a filha (R$ 5 mil).

Segundo a Veja, o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, homem de confiança de Lula, teria tentado atrapalhar a investigação que a presidente mandou a chefe da Casa Civil, Gleisi Hofmann, fazer a respeito de Rosemary. Carvalho tentou se explicar no Senado. Mas a PF teria de investigar por que oligarcas da republiqueta petista foram prestimosos e atenderam aos pedidos de uma secretária de luxo.

A PF poderia ainda investigar denúncia da Folha de S.Paulo de ter a Caixa Econômica Federal liberado sem licença Bolsa Família na véspera da onda de boatos que causou corrida a agências da instituição, pela qual dignitários do governo e do PT, entre eles Dilma, acusaram adversários. É ou não é?

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 17 de julho de 2013)

Ratinho e José Nêumanne Pinto falam dos protestos

Ratinho e José Nêumanne Pinto falam dos protestos

Programa do Ratinho de quinta-feira 20 de junho de 2013, à noite. Assista ao programa completo.
 
 
 
 
 
 
 
Parte 1

Parte 2

Parte 3

Vaia e vandalismo contra a péssima gestão pública

Vaia e vandalismo contra a péssima gestão pública

Maior risco para reeleição de Dilma é a moeda derreter e a economia desabar

Nunca, desde sempre, a expressão “óbvio ululante”, cunhada por Nelson Rodrigues, foi tão exata quanto neste sábado, quando a presidente Dilma Rousseff foi vaiada pela torcida presente à estreia da seleção brasileira na Copa das Confederações, na “arena” Mané Garrincha, em Brasília. “Qualquer político que fosse anunciado no estádio receberia vaias”, concluiu, em raro rasgo de lucidez, o líder do Partido dos Trabalhadores (PT) na Câmara dos Deputados, José Guimarães (CE), irmão do ex-guerrilheiro, ex-presidente nacional petista e réu condenado por corrupção e formação de quadrilha no processo do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal (STF), José Genoino. E na ocupação da Avenida Rio Branco, no Rio, anteontem, à noite – imagem de grande impacto e significação.

De fato, torcedor de futebol não tem muita paciência com político que dá uma de papagaio de pirata em estádio, tentando tirar sua casquinha da paixão dele por seus ídolos, seja de clube, seja especialmente da seleção. O cidadão pode até fazer parte da Pátria “em” chuteiras (assim batizada por Nelson) – e não “de” chuteiras, como parodia equivocadamente oportunista anúncio oficial veiculado em rádio e TV durante a Copa da Fifa, disputada no Brasil. Mas nunca perdoa demagogia barata feita para tirar proveito de sua paixão, principalmente depois de suar em bicas para pagar o ingresso caro do jogo.

De qualquer maneira, não deixa de ser tentador relacionar os apupos à queda de oito pontos porcentuais na popularidade e de sete na intenção de votos da chefe do governo, favorita para a reeleição em 2014. Os índices apurados ainda lhe garantem a vitória no primeiro turno, mas a tendência de queda não deve estar sendo comemorada no Palácio do Planalto. E mais tentador ainda é situar as vaias de Brasília no panorama de ocupação das ruas de 12 metrópoles brasileiras pela manifestação de insatisfação generalizada da multidão, que teve os canais de debate político interditados nesta democracia unívoca do PT e seus aliados.

Sem causa aparente pela qual lutar, mas trazendo às ruas uma pauta de queixas que os governantes e opositores fingem ouvir, mas para as quais ambos os lados do sistema político fechado e impermeável aos interesses da cidadania fazem ouvidos de mercador, os manifestantes reclamam de praticamente tudo, com razão e justiça. No Twitter, o autor de novelas da Globo Aguinaldo Silva estranhou que as pessoas saiam às ruas para reclamar de um reajuste de menos da metade da inflação do período depois de conquistarem poder de compra para adquirir bens de consumo de valor bem superior, por exemplo, aos 20 centavos a mais nas passagens dos coletivos na capital paulista.

É. Pode ser. Mas, em primeiro lugar, convém levar em conta a observação feita pelo aclamado marqueteiro Duda Mendonça, um dos réus absolvidos do mensalão, em entrevista à Folha de S.Paulo de domingo. “As pessoas se habituam com as conquistas. Na hora que sentem que qualquer coisa mexeu, esquecem um pouco tudo de bom que ganharam. Querem mais”, disse ele, prevendo risco na disputa de um segundo turno no ano que vem, particularmente se o adversário for o ainda aliado Eduardo Campos, governador de Pernambuco e dono do Partido Socialista Brasileiro (PSB).

Esse é um lado a considerar, mas há outro ainda mais grave. E os aliados com que a presidente mais conta para ficar no posto máximo percebem muito bem isso. Depois das vaias no Mané Garrincha, o contestado, mas poderoso, líder da bancada da segunda legenda na coalizão governamental, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), na Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (RJ), acertou na mosca ao constatar: “Estamos tendo um movimento de reação à inflação. O que o governo tem de fazer é trabalhar para combatê-la”. O risco é a moeda derreter e a economia desabar.

Qualquer um sabe que a sorte de Dilma na sucessão depende da mesma receita que reelegeu seu patrono, Luiz Inácio Lula da Silva, e garantiu a própria ascensão ao topo do pódio sem nunca ter disputado cargo algum antes. A análise de Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central (BC), na entrevista das páginas amarelas da Veja, aponta com lucidez nessa direção. “Estamos presos na armadilha do crescimento baixo”, diagnosticou. E identificou o nó górdio na corda que precisa ser decepado para libertar o brasileiro da prisão: “A inflação está em alta. Há um aumento generalizado. Os reajustes no setor de serviços mantêm-se acima de 8% ao ano. É um quadro grave”.

Dilma e seu ministro Guido Mantega na certa darão atenção ao alerta de Duda Mendonça, mas dificilmente levarão a sério o do professor da Universidade de São Paulo (USP) e o do aliado fluminense prevendo dificuldades na economia por culpa da inflação. Poderiam atentar mais para o instinto de sobrevivência de Cunha e saber que Pastore não fala muito e só avisa quando tem certeza.

A presidente faria bem se contivesse o oportunismo de subordinados que buscam levar vantagem eleiçoeira dos acontecimentos inculpando adversários sem sequer saberem de que se trata. A cúpula federal nada sabe, como reconheceu o ministro Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, pois, desde que Fernando Collor extinguiu o Serviço Nacional de Informações (SNI), não dispõe de uma inteligência digna do nome para acompanhar movimentos sociais. Mas salta aos olhos que, mesmo sendo o transporte público muito ruim, a rebeldia popular manifesta o medo da volta da inflação e a indignação contra a péssima gestão de um Estado ineficaz, estroina, insensível e corrupto. Querer tornar Geraldo Alckmin alvo preferencial para derrotá-lo na próxima eleição é insensato, pois também estão em jogo a ambição de Dilma Rousseff e a carreira de Fernando Haddad. É esperar para conferir.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 19 de junho de 2013.

É terrorismo eleitoral, sim!

É terrorismo eleitoral, sim!

Caixa erra na gestão e oposição purgará nas urnas pecha de “inimiga do Bolsa Família”

O tumulto nas agências da Caixa Econômica Federal (CEF) no fim de semana de 18 e 19 de maio, provocado por um boato do fim do Bolsa Família, carro-chefe dos programas sociais do governo federal, ainda não foi devidamente esclarecido. Mas já produziu efeitos indeléveis em seus protagonistas e na turma de Pilatos. O cônsul romano, como se sabe, entrou no Credo de gaiato e, 21 séculos depois da paixão e morte do Cristo, paga o pato por Sua dor suprema e, em consequência, pela remissão dos pecados do mundo. Os primeiros são a cúpula do Executivo. Os demais, a oposição, que, com ou sem culpa no cartório, é que terminará sendo prejudicada.

Assim que se tornou de conhecimento público a corrida dos beneficiários da esmola do governo, a ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria do Rosário Nunes, sacou do saldo dos “suspeitos de costume”, aos quais se referiu o capitão francês Louis Renault na cena final do filme Casablanca. A existência de “bodes expiatórios” remonta à Bíblia e tem sido repetida e estimulada ao longo de séculos de guerra e luta política. Em 1897, a Okhrana, polícia secreta do czar Nicolau II, forjou o Protocolo dos Sábios de Sião, falso plano de tomada do poder mundial pelos judeus e documento que inspirou a perseguição aos hebreus no Império russo e na União Soviética e se alastrou pelo mundo inteiro. O lastro histórico da atribuição de um delito ao adversário inocente, tornando-o culpado sem necessidade de julgamento, tem antecedentes clássicos como o incêndio do Reichstag (Congresso alemão na República de Weimar), em 1933. A atribuição do atentado aos comunistas foi crucial para Hitler fundar a ditadura nazista.

Nossa História registra o Plano Cohen, atribuído pelo governo Vargas aos comunistas para tomarem o poder e usado para justificar o Estado Novo; e a Carta Brandi, prova falsa de articulação golpista de João Goulart, ministro do Trabalho no governo democrático de Vargas, com Juan Domingo Perón.

Os comunistas na clandestinidade no Estado Novo ou na ditadura militar de 1964 esperavam a polícia bater à porta de suas casas com uma maletinha arrumada com objetos de uso cotidiano, como barbeador, escova de dentes, pasta e pijama, conforme Graciliano Ramos registrou no clássico da literatura brasileira Memórias do Cárcere. Hoje, os “suspeitos de costume” sob a regência da poderosa aliança governista PT-PMDB e outros respondem pelo nome genérico de oposição. E foi a eles que a ministra acusou no Twitter, sem prova alguma e nem sequer ter conhecimento do que, de fato, poderia ter provocado o tumulto, de autoria de uma atitude “conspiratória” de natureza eleitoral.

Em vez de repreender a subordinada apressadinha, que entrara no Credo como o fizera antes Pilatos, a presidente Dilma Rousseff subiu ao palco para assumir, se não a autoria, pelo menos a natureza delituosa da causa da invasão das agências da CEF para o saque do benefício. De olho na reeleição ano que vem, a chefe do governo partiu do pressuposto que aprendeu com o padrinho Lula de que o que é bom para sua vitória no primeiro turno é necessariamente bom para o Brasil. E avalizou sem medo de ser feliz atitude similar a alguns delitos impunes e bem-sucedidos de seu Partido dos Trabalhadores (PT) no passado.

Em 2010, uma máquina bem azeitada de “blogueiros progressistas” e discursos afiados em reuniões partidárias, comícios e na propaganda no rádio e na televisão espalharam o boato de que o adversário de Dilma Rousseff na eleição presidencial, o tucano José Serra, acabaria com o Bolsa Família. É impossível aquilatar que efeito o boato possa ter tido na vitória da candidata petista. Mas sabe-se que algo semelhante fora feito quatro anos antes: a mentira de que Geraldo Alckmin privatizaria a Petrobrás levou o tucano a vestir uma camiseta em homenagem à estatal.

O falso dossiê dos “aloprados” (assim batizados por Lula em pessoa) contra Serra não evitou sua vitória na eleição estadual paulista de 2006, mas seus autores continuam impávidos e impunes sete anos depois. E o insucesso não altera o fato histórico de que a prática contumaz reafirma a fé dos praticantes no velho dogma stalinista de que os fins sempre justificam os meios e de que, como diziam os mineiros do velho PSD, não importa o fato, mas a versão. E dependendo de como a versão é repetida, ela pode até se impor de vez.

Assim se comportaram os protagonistas do lamentável episódio do boato do fim do Bolsa Família. Como bom militante petista, o ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, mandou a Polícia Federal (PF), sob suas ordens, não investigar a verdade, apurar os fatos, identificar e processar os culpados. Mas favorecer a versão oficial. Ele chegou a tratar a repartição pública sob suas ordens como se fosse não um órgão do Estado a serviço do cidadão, mas uma espécie de agência de risco, lidando com hipóteses. Vide a versão da central de telemarketing suspeita, mas nunca devidamente identificada com provas de sua eventual ação deletéria.

Oito dias depois dos fatos, o presidente da CEF, Jorge Hereda, contou uma história confusa, segundo a qual técnicos subalternos da instituição mandaram pagar o auxílio de uma vez, e não de forma escalonada, como é rotineiro, para sanar uma duplicação de cartões de recebimento de 900 mil mutuários. Isso não tem pé nem cabeça, mas o Planalto emitiu nota oficial garantindo-o no posto, apesar da série de lambanças de sua gestão: a duplicação dos cartões, a decisão estapafúrdia de pagar tudo de uma vez e a insistência em atribuir a outrem as próprias falhas.

Embora tenha tido o cuidado de não delatar culpados na oposição, Dilma se tornou cúmplice do “terrorismo eleitoral” definido com conhecimento de causa pelo presidente do PT, Rui Falcão. E a oposição purgará nas urnas a pecha de “inimiga do Bolsa Família”.

(Publicado na página 2 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 5 de junho de 2013)

SBT – Rui Mesquita em Comentários de José Nêumanne

SBT – Rui Mesquita em Comentários de José Nêumanne

“A morte de Ruy Mesquita é uma baixa na luta pela manutenção das instituições em nossa democracia, na qual o governo é unívoco, a oposição não funciona e a imprensa assume, sozinha,  a defesa da cidadania.” José Nêumanne Pinto

O jornalista Ruy Mesquita, diretor do jornal O Estado de S. Paulo, morreu nesta terça-feira (21/05), aos 88 anos.

 

Presente entre os familiares, José Nêumanne, amigo do ilustre jornalista, deu também seu depoimento sobre Ruy Mesquita, durante entrevistas para o jornalismo do SBT .O corpo do jornalista Ruy Mesquita, diretor de “O Estado de S. Paulo”, foi sepultado na tarde de quarta-feira (22) no Cemitério da Consolação, na Zona Oeste de São Paulo. Mesquita morreu na noite de terça-feira (21).

 

Ouça também o comentário de José Nêumanne para a Rádio Jovem Pan. Clique aqui!

 

 

Tucano não aprende a cuspir no ‘burrai’

Tucano não aprende  a cuspir no ‘burrai’

Aécio não vai ganhar se se limitar a reabilitar legado de Fernando Henrique e imitar Lula

O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), fundado a partir de uma dissidência paulista do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), foi embalado num berço socialista light, intelectualizado e grã-fino do “partido-ônibus” (em que sempre tem lugar para mais um) que comandou a resistência de dissidentes civis à ditadura militar. É, por isso, um mostrengo disforme, com uma cabeça imensa e pequenos pés de barro, incapazes de suportar a egolatria da cúpula. Diz-se, com razão, que tem caciques demais e índios de menos. Chefões destacam-se circunstancialmente: Fernando Henrique na Presidência da República, José Serra no repeteco de disputas eleitorais nacionais, estaduais e municipais em São Paulo.

Agora chegou a vez de Aécio Neves, presidente nacional, ex-governador bem-sucedido administrativa e eleitoralmente num Estado importante da Federação, Minas Gerais, senador e pule de dez para tentar tirar da chefia do governo a presidente petista, Dilma Rousseff. A seu favor conta com boa reputação como gestor em Minas, as vitórias sucessivas para o governo de seu Estado e a aliança bem-sucedida no comando da prefeitura da capital, Belo Horizonte, com um aliado eventual que pode virar adversário na mesma disputa: o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, senhor de baraço e cutelo do Partido Socialista Brasileiro (PSB), herdado do avô, Miguel Arraes.

Mas contra ele pesa sua inexpressiva atuação no Senado em dois anos e meio, em que muito pouco fez ou disse – de prático mesmo, absolutamente nada E há óbices maiores para realizar sua ambição. O partido que preside nunca foi nem está unido na luta por esse objetivo. O aliado Democratas (DEM) desmilinguiu, espremido pela ambição de um antigo militante de peso, o ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, que levou para o Partido Social Democrata (PSD), que fundou, um número relevante de antigos correligionários dispostos a beijar a mão de Dilma.

Aécio assumiu o lugar a que não conseguiu chegar há quatro anos, quando perdeu a indicação para o ex-governador paulista José Serra. Seu avô, Tancredo Neves, ensinou que ninguém tem condições de disputar a Presidência se não unir o Estado de origem – e isso ele fez. Mas o mesmo não se pode dizer do PSDB. Aécio chegou prometendo resgatar o legado de Fernando Henrique, o único presidente que o partido teve e que ganhou as duas disputas de que participou no primeiro turno. Isso nunca foi levado em conta. Nem o fato de o tucano ter promovido a maior revolução social da História, com o Plano Real, que pôs fim à inflação e levou proteína à mesa da massa dos trabalhadores.

Isso de nada adiantou para a sonhada permanência do PSDB no poder. Fernando Henrique cruzou os braços na campanha de 2002, deixando Lula esmigalhar o sonho do tucano José Serra. Este, por sua vez, fez uma campanha como se o tal legado, que agora Aécio quer restaurar, fosse algo de que se envergonhar. Quatro anos depois, Lula reelegeu-se contra o atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que chegou a vestir uma camiseta da Petrobrás para garantir que era mentiroso o boato de que privatizaria a maior estatal brasileira. Com isso passou ao eleitorado a mensagem de que a cúpula tucana tinha a privatização de Fernando Henrique na conta de titica. Na disputa contra Dilma, em 2010, Serra continuou cuspindo e pisando no melhor que o partido fizera.

Após 12 anos, tentar reabilitar a estabilidade, a austeridade fiscal e a privatização pode ser tarde demais. Até a estabilidade da moeda, uma conquista da Nação, e não de governo algum, parece ser um dado do passado distante, sob a ameaça da volta da inflação sem prejudicar os artífices desse prenúncio de desastre. Além disso, é inútil: o passado não elegerá Aécio. E ele não fala do futuro, que de fato interessa ao eleitor.

De tanto perder para Lula, o PSDB resolveu reagir a esse destino, que parece manifesto, imitando o que o maior adversário faz. Alckmin sugeriu que Aécio repita as caravanas da cidadania do petista-mor como estratégia eleitoral. A intenção é maravilhosa: há muito tempo os tucanos precisam mesmo de um banho de povo. A prática pode não ser, contudo, eficaz. Não basta visitar alguém para conhecê-lo bem. Como dizia um sábio conterrâneo de Tancredo e Aécio, o coronel Francisco Cambraia de Campos, Chichico Cambraia, de Oliveira, o bom político se conhece na cuspida no “burrai”. Ou seja, tem de entrar na casa do eleitor, sentar-se à beira do fogo, tomar um café demorado até esfriar e cuspir no borralho. Quanto mais cusparadas, melhor! Não basta o candidato se fazer conhecer. Ele tem de conhecer o eleitor.

Luiz Inácio Lula da Silva voltou de suas caravanas conhecido e conhecedor do Brasil. Elas lhe permitiram aprender com suas derrotas seguidas, uma para Fernando Collor e duas para Fernando Henrique. Os tucanos não têm demonstrado a mesma capacidade. Talvez fosse menos difícil convencer o adversário-mor a disputar a Presidência pelo PSDB do que tirar proveito das estratégias contra ele próprio e sua afilhada.

Ora, direis, isso é impossível! E é. Mas quem garante ser mais possível convencer o cacique José Serra a se empenhar para valer na campanha de Aécio, que nada fez por ele na disputa contra Dilma? Os sinais de má vontade que Serra tem dado de público deverão repetir-se na campanha. Pois o paulista atribui em parte sua derrota ao desinteresse do mineiro em 2010. Não deixa de ter razão. Mas não tirará proveito dela, pois seu futuro depende do êxito do outro. E se a economia não derreter, Dilma se reelegerá com facilidade, restando aos tucanos parodiar o mantra dos metalúrgicos do ABC, liderados por Lula, nos anos 70 e 80. Eles diziam: “O povo unido jamais será vencido”. E os tucanos entoarão: “O PSDB desunido será sempre vencido”.

(Publicado na p. A2 do Estado de S. Paulo da quata-feira 22 de maio de 2013)

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