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Jornalismo

No Blog: Nêumanne entrevista José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni

No Blog: Nêumanne entrevista José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni

No Brasil estamos “trancados e sem saída”, diz Boni

Para ex-diretor da Globo, corrupção, políticos que não largam o poder e falta de governabilidade são problemas para os quais nenhum candidato à eleição aponta soluções

“Os três maiores problemas do Brasil são a corrupção, a eleição repetitiva dos mesmos políticos e a falta de governabilidade”, disse José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni, criador, com Walter Clark e Joe Wallach, da maior revolução estética na comunicação de massas no Brasil: o padrão Globo de qualidade. Nesta entrevista, ele expressou a voz da maioria da população brasileira, que conta com a Operação Lava Jato e novas leis contra a roubalheira, causa da maior crise moral, política, social e econômico-financeira da História. “Dependemos da renovação dos nossos representantes, mas não vejo na lista dos partidos uma quantidade significativa de candidatos novos”, afirmou. Ele também pregou a reforma política para resolver o impasse da governabilidade, lamentando que, para as eleições gerais do fim do ano, “nenhum projeto sólido e confiável foi apresentado por qualquer candidato”. E mais: “pelo que ouço nas ruas, a população está descrente e sem motivação para votar. Parece estar adivinhando que vamos continuar trancados e sem saída.”

 Comparado com os outros países, o Brasil parece um faz de conta e só sobrevive porque é grande demais, acha Boni. Foto: Acervo pessoal

Comparado com os outros países, o Brasil parece um faz de conta e só sobrevive porque é grande demais, acha Boni. Foto: Acervo pessoal

Boni nasceu em Osasco (Grande São Paulo) em 1935, filho do dentista Orlando de Oliveira, que tocava cavaquinho no regional de Armandinho, e da jornalista, psicóloga e escritora Kina de Oliveira, que lançou um blog aos 94 anos de idade, enquanto escrevia livros, às vezes simultâneos. Sobrinho de Hermínio, do conjunto vocal Quatro Ases e um Curinga, frequentou desde garoto os bastidores das emissoras de rádio. Aprendeu a escrever com Dias Gomes e Manuel da Nóbrega. Trabalhou na produção das pioneiras TVs Tupi, Paulista e Excelsior de São Paulo, na agência de publicidade Lintas e na Lynx Filmes, entre outras. Levado pelo americano Joe Walach, na companhia de Walter Clark, com quem trabalhava na TV Rio, introduziu na TV Globo o conceito de grade na programação, até hoje usado, e fundou a rede nacional de TV, inaugurada com o Jornal Nacional, eterno campeão de audiência do telejornalismo. Atualmente é dono da TV Vanguarda, afiliada da Globo em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo.

Boni com a mãe, dona Kina, que escreveu livros, alguns simultâneos, enquanto viveu e criou um blog aos 94 anos. Foto: Acervo pessoal No Brasil estamos “trancados e sem saída”, diz Boni

Boni com a mãe, dona Kina, que escreveu livros, alguns simultâneos, enquanto viveu e criou um blog aos 94 anos. Foto: Acervo pessoal
No Brasil estamos “trancados e sem saída”, diz Boni

A seguir, Nêumanne entrevista Boni

Nêumanne – Durante certo tempo, a Globo, depois de ter adotado o padrão de qualidade da programação que o senhor exigia, teve um monopólio de audiência inédito na história da televisão brasileira e inigualável no resto do mundo. O que esse reinado tem que ver com tal padrão?

Boni– A conquista de um padrão de qualidade foi um trabalho de equipe. O americano Joe Wallach havia sido chamado para recuperar as finanças da falida Globo e pesquisou o mercado brasileiro de profissionais de televisão e nos convidou, a mim e ao Walter Clark, para operar a Globo. A emissora do Rio de Janeiro ocupava o quarto lugar de audiência. A TV Paulista amargava o quinto lugar em São Paulo. O mercado publicitário aplicava pouca verba em televisão, uma vez que em 1967 não existiam mais que 3 milhões de aparelhos de TV em todo o Brasil. Nos Estados Unidos a televisão havia nascido a partir da poderosa indústria do cinema. Aqui não havia produção e os talentos disponíveis eram raros.  Parecia impossível sobreviver num mercado tão fraco com concorrentes, na época, muito fortes. Entendemos que não seria suficiente mudar a Globo, e sim que havia necessidades de renovar a televisão brasileira, seu conteúdo, sua gestão e sua comercialização. Com uma equipe de especialistas executamos um projeto amplo e não abrimos mão de uma execução perfeita e com aprimoramento contínuo. Prometemos à Globo que em cinco anos chegaríamos à liderança, mas em apenas três atingimos esse objetivo.

N – Padrão de qualidade não é certamente o forte da administração pública brasileira e até mesmo da gestão em nosso setor privado. Como empresário bem-sucedido em seu ramo de comunicação eletrônica, o senhor se disporia a explicar por que um país que conheceu um sucesso tão avassalador como foi o da Globo só tem piorado em seu desempenho negocial?

B – Pode parecer que as diferenças entre a atividade pública e a atividade privada impeçam uma comparação. Mas, no fundo, são a mesma coisa. Os pilares que sustentam uma administração eficiente são: seriedade, competência, coragem e determinação. Seriedade e competência são fundamentais para a elaboração de um projeto amplo e consequente. Sem projeto não há empresa nem haverá nação.  Um projeto compreende metas definidas e prazo para atingi-las, e prioridades determinadas com coragem e determinação na execução, de forma a evitar desvios de percurso. No caso do Brasil eu acredito que a ênfase estaria nas prioridades. Não dá para tentar resolver tudo de uma vez, repartindo verbas para contentar a todos. Uma noite, em Brasília, o diretor da Globo Toninho Drummond me convidou para jantar com Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, exatamente quando se elaborava a Constituição de 1988. Perguntei ao dr. Ulysses se o trabalho estava indo bem. Ele me respondeu, literalmente: “O Brasil é o país da demanda. Todos querem puxar a brasa para sua sardinha.  Chegar a um acordo é um desespero.”

 Boni com Walter Clark e Roberto Marinho, artífices de sucesso prometido para 5 anos e realizado em 3. Foto: Acervo pessoal

Boni com Walter Clark e Roberto Marinho, artífices de sucesso prometido para 5 anos e realizado em 3. Foto: Acervo pessoal

N – De uns tempos para cá, as emissoras abertas têm sofrido uma concorrência comercial cerrada dos canais por assinatura e outras modalidades possíveis com a cibernética. Tal como a imprensa e a radiofonia, a televisão comum tem seus dias contados no futuro ou o senhor acredita que há como se adaptar e sobreviver?

B – Imprensa é um mundo em extinção. Depende de papel e transporte para entrega. Vai ter de migrar completamente para a internet. Fazem parte de outro mundo a radiofonia, a  televisão aberta ou por assinatura e a internet. Todas essas plataformas são de um mesmo mundo. São apenas distribuidoras de conteúdo e são complementares entre si.  O que vai determinar quando e como o usuário estará utilizando esse grupo de veículos será o conteúdo.  Com a avalanche e a rapidez das alterações tecnológicas é impossível prever o futuro. Mas uma única coisa é certa: os grandes produtores de conteúdo sobreviverão.

N – O monopólio de audiência produziu riqueza e muito poder para o grupo da família Marinho e seus principais executivos, além de ter distribuído celebridade instantânea a seus funcionários no jornalismo e no entretenimento, influindo muito na produção da cultura. O que a literatura, o teatro, o cinema, a música popular e as artes plásticas  ganharam e perderam com essa influência?

B –  Alberto Madia, presidente da Academia Brasileira de Marketing, autor dos livros mais vendidos sobre o assunto, Prêmio Jabuti de 2006, costuma dizer: “A Globo revolucionou a estética brasileira”. Eu tenho certeza que a Globo deu uma contribuição sem precedentes para o entretenimento, informação, educação e cultura. A literatura ganhou espaço na televisão. Só no meu tempo foram adaptadas e exibidas 282 obras de autores brasileiros e internacionais.  A produção da Globo influiu na linguagem, na moda, no grafismo e até na propaganda. A Globo, de forma permanente, faz uma intensa cobertura sobre artes plásticas, exposições e eventos dessa natureza.  O Telecurso ensinou o governo a produzir teledidática e formou milhões de alunos.  O teatro  recebe uma promoção diária e rotineira. No cinema tem coproduzido os melhores filmes da atualidade. Inúmeros talentos surgiram nos festivais da Globo e hoje os compositores e cantores brasileiros estão presentes em toda linha de programação. O Jornal Nacional foi o primeiro traço de união entre os brasileiros e a notícia.  As sucursais da Globo por meio dos satélites ligam o Brasil ao mundo.

Carnavalesco assumido, Boni foi tema da Beija-Flor de Nilópolis no desfile de 2013. Foto: Acervo pessoal

Carnavalesco assumido, Boni foi tema da Beija-Flor de Nilópolis no desfile de 2013. Foto: Acervo pessoal

N – Esse longo reinado, porém, também produziu, mais do que fastio, certa implicância com o poderio da Vênus Platinada. Lembro-me de que os metalúrgicos liderados por Lula nas greves do ABC já tinham uma palavra de ordem que a agredia: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. Hoje internautas se manifestam com fúria, a ponto de terem criado o neologismo “globolixo”. A que ponto podem chegar essas grosserias, que às vezes produzem até agressões físicas contra jornalistas a trabalho ou invasões de imóveis da empresa?

B– Ninguém chuta um cão morto. Hostilidades e protestos contra quem está em evidência são comuns. O Brizola aproveitou-se dessa oportunidade e tentou jogar seus eleitores contra a Globo. O PT aproveitou-se também e entrou nessa onda. A Globo, ela mesma reconhece que cometeu erros no passado, mas hoje é um exemplo de isenção, mantendo neutralidade e equidistância entre todas as correntes políticas. Devidamente comunicado e de forma transparente, qualquer veículo pode assumir uma posição política. Foi brilhante e é, até hoje, amplamente aplaudida a atuação do Estadão contra a ditadura Vargas. A tomada de posição de um veículo é um direito, quase um dever. Quanto à internet, todos nós partimos do princípio de que cada um é livre para dizer o que quiser. É bonito, mas perigoso. Sou contra a censura, mas a favor da responsabilidade. É importante limpar a “WEB” e responsabilizar quem cometer abusos. A Europa deu início a esse processo. Todos os países vão ter de encontrar caminhos.

N – Um dos negócios muito atingidos pelo reinado das diversas empresas de comunicação de massas foi o futebol. Em que a transmissão dos jogos em canais específicos todos os dias da semana mudou a indústria do ludopédio e até o comportamento das torcidas?

B – Gostei do ludopédio. Quer dizer que estamos na CML, a Copa do Mundo do Ludopédio? Pois a gente está vendo a força do futebol. É uma atração importante para a televisão. Eu, pessoalmente, sou contra a exibição semanal de futebol no horário nobre. Muitos jogos são desinteressantes e derrubam a audiência da emissora. Acho que deveriam ficar restritos aos fins de semana, em horários diurnos. O pior é que os jogos são feitos para atender à programação de televisão e os horários tardios vão acabar esvaziando os estádios. Estamos tomando um porre de futebol, não somente na TV, mas com excesso de campeonatos em todo o mundo e a acelerada contratações de jogadores. O torcedor comum já não sabe nem o nome de quem joga no próprio time.

Boni com Senna, campeão de automobilismo, cuja carreira foi acompanhada pelas coberturas da Globo. Foto: Acervo pessoal

Boni com Senna, campeão de automobilismo, cuja carreira foi acompanhada pelas coberturas da Globo. Foto: Acervo pessoal

N – O maior negócio do esporte televisado é a Copa do Mundo da Fifa. Como fanático telespectador de futebol, sinto certa indiferença minha e da torcida em geral em relação ao destino da seleção brasileira, embora em nada se tenha alterado, mas, sim, talvez até exacerbado, a paixão “clubística”. O senhor se arriscaria a dar um palpite sobre as causas desse fenômeno? 

B – O fenômeno é político, e não futebolístico. Está todo mundo preocupado com outra coisa: emprego, segurança, saúde e com o futuro em geral. Ninguém se liga nem nas eleições nem no futebol. Há também a lembrança da Copa de 2014. Como diria o Washington Olivetto, o primeiro 7 a 1 a gente nunca esquece. O frustrante empate com a Suíça na estreia da seleção também foi um balde de água fria. Vamos ver o que acontecerá quando o Brasil estiver caminhando melhor.

Boni com Joe Wallach, o americano que o levou com Walter Clark para mudar a TV nestes trópicos. Foto: Acervo pessoal

Boni com Joe Wallach, o americano que o levou com Walter Clark para mudar a TV nestes trópicos. Foto: Acervo pessoal

N – Além de seu ofício, o senhor envolveu-se muito também com os desfiles de escolas de samba no carnaval do Rio de Janeiro. Quais serão, a seu ver, as principais modificações que esse negócio poderá absorver para se manter ou até prosperar como “maior espetáculo da Terra”, principalmente na crise de segurança e violência do Rio?

B –  Temos no Rio um prefeito que, por natureza de sua religião, não é um entusiasta do carnaval. Mas o carnaval dá dinheiro e rende para a prefeitura. Além de ser a maior atividade turística do País, é um expressivo movimento da cultura popular brasileira.  Deveria haver mais investimento no carnaval, mas o que houve foi corte de verbas. Acho que com esse corte a qualidade caiu muito. Por outro lado, se não houver mudanças no Sambódromo, que foi construído há mais de 30 anos, os desfiles das escolas de samba vão continuar sofrendo desgaste e a festa vai acabar se transformando, simplesmente, em “carnaval de rua”. Quanto à violência, ela tem se mostrado pouco ativa no carnaval. Está todo mundo envolvido no evento, mas são os sambistas verdadeiros que descem para o asfalto. E é bom lembrar um samba do Wilson das Neves que diz: “O dia em que morro descer e não for carnaval, vai ser o juízo final”.

N – O senhor tem vivido a maior parte de seu tempo dividido entre o Brasil e o exterior, principalmente os Estados Unidos. Que impressões e lições o senhor obteve dessa experiência múltipla? Por que, ainda assim, o senhor não desistiu do Brasil?

B – Viajo bastante, não só para países desenvolvidos, mas para onde também a gente encontra fome e miséria. Países e cidades têm problemas. Mas todos se empenham em encontrar soluções. O Brasil, diante deles, parece um país do faz de conta. Governos, Congresso, instituições se parecem com os equivalentes em países de primeira linha, mas a realidade do nosso país é praticamente deixada de lado. O Brasil sobrevive porque é grande demais. Vou ficando por aqui. Sou um sonhador por natureza e teimoso por deformação profissional. Quem sabe se a gente vai…? Mas suspeito que só iremos mesmo por acaso e sorte.

 Boni, em 1998, na sacada de seu apartamento nos Jardins em São Paulo. Foto: Mônica Zarattini/AE

Boni, em 1998, na sacada de seu apartamento nos Jardins em São Paulo. Foto: Mônica Zarattini/AE

N – Como executivo importante de comunicação, o senhor conviveu com os chefões da política e da administração no Brasil. Depois da Lava Jato, combatendo a corrupção, e da falência do populismo assistencialista, que saqueou os cofres da República e produziu a maior crise da História, que saídas o senhor vê para o Brasil neste ano em que um governo desastrado dissemina a desesperança e nenhum dos candidatos à eleição presidencial tem a apresentar algo sólido e confiável à população?

B – O Brasil não tem um grande problema. Tem vários problemas enormes. Eu apontaria três como os mais importantes: a corrupção, a eleição repetitiva dos mesmos políticos e a falta de governabilidade. O combate à corrupção precisa da continuidade da Lava Jato e de  novas leis. Dependemos da renovação dos nossos representantes, mas não vejo na lista dos partidos uma quantidade significativa de candidatos novos.  E a governabilidade? Está aí um dos grandes problemas do Brasil. Entre outras reformas, a reforma política tem de ser discutida com urgência  para que o País possa libertar-se e progredir na velocidade exigida. E a eleição presidencial? Sua observação está corretíssima. Nenhum projeto sólido e confiável foi apresentado por qualquer candidato. Pelo que ouço nas ruas, a população está descrente e sem motivação para votar. Parece estar adivinhando que vamos continuar trancados e sem saída.

Leia também no Blog do Nêumanne no Estadão. Clique no link abaixo.
https://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne/no-brasil-estamos-trancados-e-sem-saida-diz-boni/

 

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Copa do Estadão: ‘Lorotites’

Copa do Estadão: ‘Lorotites’

O que ganha Copa não é saliva, mas, sim, talento, esforço e sorte

Na seleção brasileira jogam  Marcelo e Casemiro, que atuam no Real Madrid da Espanha, que acaba de ganhar a Liga dos Campeões da Europa; Neymar Jr., campeão francês pelo PSG; Gabriel Jesus, campeão da Primeira Liga britânica pelo Manchester City; e Roberto Firmino, vice-campeão da mesma Liga dos Campeões pelo Liverpool, da Inglaterra. O time treinado por Tite, que foi campeão mundial de clubes pelo Corinthians, fez uma eliminatória brilhante em primeiro lugar. Mas nada disso garante a taça.

O time empatou com a Suíça na estreia e isso não quer dizer que não possa ganhar o torneio na Rússia. Para tanto terá de mostrar mais talento, esforço e sorte. O golaço de Phelippe Coutinho resultou de seu engenho individual, não da construção do grupo. O empate da Suíça, de um jogo de sete erros. Thiago Silva e Marcelo se enrolaram com a bola na entrada da área e a perderam para os suíços: dois. O lateral esquerdo pegou uma sobra, perdeu a segunda chance de chutar para longe e teve de ceder lateral perto da linha de fundo: três. Shaqiri dominou e cruzou, a bola bateu em Miranda e saiu pela linha de fundo: quatro. O craque do time bateu o córner, a bola encobriu Casemiro na primeira trave e chegou à cabeça do zagueiro Zuker, que havia saído da esquerda para a direita passando por sete brasileiros em fila dupla, nenhum dos quais fez um movimento para lhe impedir o passeio, com facilidade que Nélson Rodrigues compararia com chupar um Chicabon; e Miranda, tido no Brasil como um dos melhores zagueiros do mundo, deu as costas ao adversário, depois de medir a distância entre os dois com os braços voltados para trás sem olhar a bola: cinco. Alisson não saiu para evitar o cabeceio na pequena área e seus defensores alegam que goleiro não sai da linha de gol em marcação por zona: seis. Ao saltar, o zagueiro suíço empurrou de leve Miranda, que ficou de pé. O árbitro mexicano César Ramos não marcou a falta e a arbitragem de vídeo não alertou para o empurrão: sete.

Para ganhar a Copa, cracaço Neymar precisa esquecer o cabelo e cuidar da cabeça

Para ganhar a Copa, cracaço Neymar precisa esquecer o cabelo e cuidar da cabeça

No jogo dos sete erros, o Brasil entrou com seis e a Fifa, ao escolher um árbitro despreparado, com o sétimo. Ou seja, o pentacampeão mundialo não tem força política na entidade que organiza o torneio, porque a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) não tem moral. Seu ex-presidente Marco Polo Del Nero não viajava para fora do País temendo ser preso por corrupção. O presidente, coronel Antônio Carlos Nunes, comprometido a votar nos EUA, México e Canadá para sediarem a Copa de 2016, fez parte da minoria que sufragou o Marrocos, pensando que o voto seria secreto.

Tudo ainda pode acontecer, até mesmo nada. Se o Brasil for campeão, ninguém se surpreenderá. Mas Tite precisa esclarecer por que proibiu Miranda de cair para não simular, mas não recriminou Gabriel Jesus pela encenação inconvincente para cavar um pênalti, atirando-se ao solo na direção oposta ao puxão do zagueiro.

E Neymar Jr. terá de escolher entre ser campeão do mundo e malabarista de circo.

*José Nêumanne. Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. G4/G5 do Estado de S. Paulo quarta-feira 20 de junho de 2018)

No Estadão desta quarta-feira: País sequestrado por um condenado preso

No Estadão desta quarta-feira: País sequestrado por um condenado preso

Lula lidera pesquisas porque escolheu sucessores ineptos e desmoralizou oposição

Os resultados da última pesquisa Datafolha, publicada domingo pela Folha de S.Paulo, não podem ser considerados definitivos para prenunciar a apuração da eleição de daqui a quatro meses porque representam um retrato atual, como sempre, nunca uma profecia exata. E também porque revelam agora uma decisão que muitos cidadãos ainda estão por tomar. Configuram, contudo, e ao que parece de forma cristalizada, tendências que dificilmente mudarão, pois refletem uma situação antiga, crônica, lógica e irrefutável.

Os 30% de preferência pelo soit-disant presidenciável do Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva, impressionam por dois motivos. Antes de tudo, porque ele foi condenado em segunda instância pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, em Porto Alegre, a 12 anos e 1 mês por corrupção e lavagem de dinheiro. E é inelegível. Em segundo lugar, por cumprir pena em Curitiba e, portanto, não ser disponível para participar de comícios, carreatas e até, conforme presume quem tem bom senso, gravar pronunciamentos para a propaganda nada gratuita no rádio e na televisão. O comportamento inusitado da Justiça, permitindo-lhe um dia a dia não vivido por outro preso comum – e ele é apenas mais um –, pode pôr em questão a segunda afirmativa. Mas, por enquanto, prever a continuação dessa anomalia, vencidos os prazos legais para o registro de candidaturas, não é realista.

A fidelidade de quase um terço do eleitorado brasileiro ao carisma do mais popular líder político e mais famoso presidiário do País, a esta altura do campeonato, confirma uma evidência e nega uma lenda urbana. O primeiro lugar no ranking atesta que a emoção é decisiva no ato de digitar o número do pretendente na máquina de votar. E o petista é, disparado, o único dos que se apresentaram à liça a despertar a paixão do cidadão, seja por afeto, seja por repulsa. Mas também, por paradoxal que pareça, o voto em quaisquer nível social e escolaridade é decidido pelo estômago e pelo bolso.

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, perdeste o senso”, resmungará o leitor aflito, citando o repetido verso de Olavo Bilac. Afinal, além de condenado, Lula responde na Justiça a mais seis processos criminais, que, juntos, o desmascaram na chefia de uma organização criminosa que levou a Petrobrás à falência, quebrou as contas públicas, esfolou a economia a ponto de gerar 24 milhões de desempregados e desiludidos, conforme o confiável IBGE, e indicou os dois presidentes mais desastrados e, por isso mesmo, mais impopulares da História: a companheira petista Dilma Rousseff e o cúmplice Michel Temer, do PMDB. Sem Temer, Dilma não teria sido eleita. Sem os votos do PT, Temer não seria presidente.

É aí que entra neste raciocínio a negação de que o brasileiro não tem memória, uma lenda antiga e frágil. Os apressadinhos, que, conforme ensinava vovó, comem cru ou sapecado, arguirão que, ao desprezarem os dados da realidade que fazem de Lula um réprobo, e não os quindins de iaiá, os brasileiros que vegetam abaixo da linha da pobreza não têm memória mesmo e ponto final. Alto lá! História é uma coisa, memória é outra. A História é objetiva, relata fatos indesmentíveis, questiona mitos aparentemente indestrutíveis. A memória é subjetiva. Cada um tem a sua. A lembrança dos fatos ao redor é sempre imprecisa e traiçoeira. A recordação dos benefícios pessoais é permanente. Os que asseguram que votarão em Lula têm a memória gostosa dos tempos de ouro do crédito fácil e do acesso à proteína barata sobre a mesa da família.

A História revela que a inflação acabou, o poder de compra da moeda permitiu o acesso das famílias pobres ao consumo inatingível, por obra e graça do Plano Real, do câmbio flutuante e da Lei de Responsabilidade Fiscal, sob a égide do tucano Fernando Henrique. Mas a memória ressuscita o crédito farto e fácil e é isso que segura Lula no topo das pesquisas.

Detratores de institutos de opinião poderão até constatar que os índices recentes não se confirmarão. Mas dificilmente as tendências serão desmentidas. A principal delas é a novidade que ameaça surgir do panorama visto da pinguela sobre a fossa: a disseminação generalizada de que político nenhum presta mesmo e, então, o melhor é escolher um entre tantos condenados que no passado mais recente lhes “encheram o bucho”, como se diz em meu Nordeste de origem, região tida como baluarte lulista. Sabe o “rouba, mas faz”? Pois…

Em 2013, a população foi à rua protestar contra tudo e no ano seguinte reelegeu Dilma e Temer, dois precipícios para a tragédia. Em 2016 o eleitor surrou o PT porque a Lava Jato levou o partido aos tribunais e às prisões. Presos em Curitiba estão todos os chefões petistas: o próprio Lula, Zé Dirceu e Palocci. E, pior de tudo, três ex-tesoureiros – Delúbio, Vaccari e Paulo Ferreira – tiveram o mesmo destino. Há quem lembre diante desse fato que a organização criminosa, vulgo quadrilha, se afigura na forma da lei com a reunião de mais de quatro membros. Ou seja…

Em 2014 o PSDB fez de Aécio Neves a esperança anti-PT para pelo menos metade da sociedade, que não cai na lábia do profeta de Vila Euclides. O neto de Tancredo Neves, ilusão da Nova República abatida pela septicemia, contudo, protagonizou a maior frustração política da nossa História. Denunciado por um suspeito de ter enriquecido pelo compadrio de Lula e asseclas, gravado anunciando a morte do primo, caso este o delatasse, o mineiro poderia ter passado em branco pela inutilidade que protagonizou em seu mandato de senador pelo Estado mais habilidoso do Brasil. Mas fez muito pior, ao mostrar que seu adversário-mor comprou até a oposição fajuta em que ele mandava.

Lula nem precisará candidatar-se para encarnar o paradoxo deste país surreal, que mantém sob sequestro em sua cela de preso comum: beneficia-se por ter escolhido sucessores que quebraram o Brasil e pagou à oposição para anulá-la.

*José Nêumanne – Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na página 2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 13 de junho de 2018)

No Blog: Nêumanne entrevista Juca de Oliveira

No Blog: Nêumanne entrevista Juca de Oliveira

Falta de rumo resume tragédia brasileira hoje, diz Juca de Oliveira

 

“Estamos sitiados 24 horas por dia”, lamenta o ator, autor e diretor de sucesso no teatro, na televisão e no cinema em depoimento pungente e antenado

À pergunta que lhe foi feita sobre qual tema sugeriria a Shakespeare, de quem interpretou recentemente O Rei Lear, para escrever uma tragédia no Brasil atual, o ator, autor e diretor de teatro, cinema e televisão Juca de Oliveira não hesitou em escolher a falta de rumo, preterindo desespero, desesperança e descrédito. Ex-estudante de Direito nas Arcadas, ele definiu o vilão Natanael, que encarnou na telenovela O Outro Lado do Paraíso, como um “anjo de candura”, comparado com juristas famosos que ganham fortunas para garantir a impunidade de delinquentes de colarinho-branco nesta crise atual, que lhe parece a mais grave que já viu na vida.
José de Oliveira Santos, o Juca de Oliveira, nasceu em 1935 em São Roque, na Grande São Paulo. Saiu da Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco, para ingressar na celebrada Escola de Arte Dramática. No Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) participou de encenações antológicas como A Semente, de Gianfrancesco Guarnieri. No Teatro de Arena fez Eles Não Usam Black-tie, do mesmo Guarnieri. Na TV Tupi protagonizou a pioneira telenovela Nino, o Italianinho, tornando-se muito popular. No teatro brilhou em 60 peças, entre as quais comédias de grande público, como Caixa 2 e Meno Male, de sua autoria. No cinema participou do elenco de clássicos como O Caso dos Irmãos Naves. , de Luiz Sérgio Person. Ocupa a cadeira n.º 8 da Academia Paulista de Letras. É casado com Maria Luiza (Zu) de Oliveira, com quem tem uma filha, Isabela.

Nêumanne entrevista Juca de Oliveira

Juca de Oliveira diante da bilheteria, segundo ele garantia da liberdade do artista de teatro. Foto: SAO PAULO SP 05/04/2018

Juca de Oliveira diante da bilheteria, segundo ele garantia da liberdade do artista de teatro. Foto: SAO PAULO SP 05/04/2018

N – A caminhada da sociedade brasileira atual, que parece sadomasoquista ou até suicida para alguns comentaristas, inclusive este escriba que lhe pergunta, tendo em vista o apoio popular a uma chantagem da qual ela própria foi vítima e agora paga o alto custo de seu resgate, não faz lembrar o suicídio e imolação dos filhos de Jasão por Medéia, na tragédia grega de Eurípedes, citada por João Emanuel Carneiro em Avenida Brasil, telenovela na qual o senhor interpretou o vilão Santiago, e, antes disso, adaptada por Chico Buarque e nosso saudoso amigo Paulinho Pontes em Gota d’Água?

JdeO – Tenho 83 anos e jamais vivi um momento político-social-econômico tão tenso, quase beirando a tragédia, como você bem lembra ao se referir à Medéia, de Eurípides. Mas mesmo no destino trágico de Medéia, que traída por Jasão resolve vingar-se matando a rival, o pai e os próprios filhos, há o germe positivo da liberação da mulher de sua eterna submissão. É uma restiazinha de esperança que afasta por algumas horas a insônia desencadeada por essa caminhada suicida e sadomasoquista – como tão bem você definiu. Porque (torço pra ser verdade) a crise gera o nascimento de novas lideranças, a solução dos problemas e a evolução da sociedade.

N – Que lições o senhor acha que nosso Brasil aprendeu e quais não parece sequer ter percebido, ao permitir que aconteça algo como a pane seca e a crise de abastecimento destes últimos dias?

J – A gênese da pane seca e da crise do desabastecimento está na maior estupidez cometida pelo ser humano: a desativação das ferrovias no Brasil, um país continental, que, por razões óbvias, deveria escoar a sua enorme produção agropecuária por linhas férreas. Segundo meu cunhado Julião Capitão, alto funcionário da Sorocabana, já falecido, o transporte por ferrovia, em alguns casos, chega a ser 100 vezes mais barato que por rodovia! Tudo começou no governo Juscelino, com a opção política pelo chamado modal rodoviário, uma decisão absolutamente equivocada, na contramão do correto desenvolvimento de países continentais. A aprovação de projetos industriais para a fabricação de caminhões e automóveis em território brasileiro, como se sabe, só foi possível com a condição de que desativássemos as ferrovias para evitar a concorrência. Fui testemunha dessa tragédia quando gravamos na Amazônia a maravilhosa minissérie Mad Maria, do Benedito Ruy Barbosa, direção de Ricardo Waddington, sobre a desativação da Madeira-Mamoré, que nos levaria de Porto Velho a Guajará-Mirim, divisa com a Bolívia. Fomos para gravar uma história sobre uma tragédia histórica e acabamos vivenciando a tragédia. Trabalharam conosco uns 400 figurantes de Rondônia, de Abunã e outros vilarejos à margem da ferrovia desativada. Eram ribeirinhos dos afluentes e igarapés do Madeira e Mamoré, ex-fazendeiros do sul, ex-garimpeiros, camponeses, todos ligados visceralmente à história da ferrovia. Durante dois meses falamos diariamente com esses companheiros, apaixonadamente dedicados à gravação das cenas da minissérie, todas muito difíceis. Por que esse empenho e dedicação tão fora do comum entre figurantes? Porque – e aí estava a tragédia – eles não participavam de uma obra de ficção. Eles efetivamente acreditavam que reconstruíam com os atores a ferrovia à qual a vida deles continuava acorrentada mais de cem anos depois. A impressão que me deu era de que eles resgatavam de sobre os dormentes os 6 mil mortos, amigos e parentes, pais, avós, bisavós, que ali haviam perdido a vida de forma heroica e ao mesmo tempo inútil. Arrancaram os trilhos, desmontaram as locomotivas – raras obras-primas de engenharia – e venderam tudo por quilo a um negociante paulista, num ato de suprema ofensa a milhares de homens que deram sua vida em prol do “progresso e do avanço tecnológico”…

Arquivo 29/07/1969 - Variedades JT - Juca de Oliveira. Foto Divulgação

Arquivo 29/07/1969 – Variedades JT – Juca de Oliveira. Foto Divulgação

N – Seu último desempenho no teatro foi o monólogo do O Rei Lear, de William Shakespeare, adaptado pelo poeta Geraldinho Carneiro e dirigido por Elias Andreato. Se um dia o autor lhe aparecesse em sonho e lhe pedisse que sugerisse um tema para uma tragédia póstuma nestes tristes trópicos, o senhor indicaria desespero, desesperança, descrédito ou falta de rumo?

J – A querida e saudosa Bárbara Heliodora, nossa maior especialista em Shakespeare, cunhou uma das mais brilhantes sínteses sobre o significado universal do teatro: “O Teatro é o documentário da História”. Quando li a frase tive um insight: ao ler ou ver uma peça acabamos conhecendo a realidade do país de origem do dramaturgo que a escreveu. Pode ser Romeu e Julieta, de Shakespeare, ou Eles Não Usam Black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri. Por meio delas teremos um documentário de um pedaço da história da Inglaterra e do Brasil. Portanto, se ele me solicitasse essa sugestão hoje (quem sou eu para sugerir algo ao maior dramaturgo da História?), eu diria: senhor Shakespeare, sou seu maior fã, eu o conheço razoavelmente e sei que, independentemente do que eu opinar como tema, o senhor escreverá sobre a nossa atual FALTA DE RUMO…

N – Na televisão o senhor fez muitos papéis marcantes e eu tomo a liberdade de citar como tema o de João Gibão, em Saramandaia, de Dias Gomes, Ícaro envergonhado de suas asas e que por isso as esconde sob o gibão de couro. O que no Brasil evita que, diante do quadro cada vez mais trágico, o senhor tire o gibão e voe de vez em asas de avião para um lugar menos inóspito no mundo? Ou esse Xangri-Lá, na verdade, não existe?

J – Viajei razoavelmente para o exterior, como todo caipira, sempre com o objetivo de conhecer melhor as pessoas, ver as cidades, os museus, as catedrais, os palácios e, principalmente, o teatro desses países que visitei. Mas jamais tive vontade nem interesse em ir embora daqui. Adoro o Brasil, mesmo no auge de suas sucessivas crises. Sou caipira do interior, de São Roque, adoro São Roque, vivi parte da minha vida numa fazenda em Itapira, adoro Itapira, adoro a natureza, os animais, a floresta, os bichos, o florescer, o outono, a queda das folhas, o inverno, a queda dos frutos e o vingar das suas sementes. Pra dar uma ideia, na minha peça A Flor do Meu Bem Querer (modéstia à parte, um grande sucesso) uma das personagens, o Nhô Roque, genialmente feito pelo Genésio de Barros, fala com o futuro marido da sua neta, o Jacinto, que está partindo para uma viagem à Europa. Essa fala de Nhô Roque dá a ideia de por que, pra mim, o Xangri-lá é por aqui mesmo…
“Nhô Roque: Não, Jacinto, num vai pa Oropa, bobo, vai pa Itapira! Ni Itapira tudo mundo gosta docê! Sua tia Larina faiz paçoca de carne seca pocê, paçoca que ocê gosta! Fazê o que na Oropa? Lá ninguém conhece ocê, nem a língua queles fala ocê entende! Vai pa Itapira, bobo!”

Juca de Oliveira contracenando com Vida Alves, atriz que fez história no início da televisão no Brasil. Foto: Divulgação

Juca de Oliveira contracenando com Vida Alves, atriz que fez história no início da televisão no Brasil. Foto: Divulgação

N – Recentemente o senhor contracenou com Sérgio Guizé, que interpretou João Gibão no remake de Saramandaia e foi o protagonista de O Outro Lado do Paraíso, telenovela de Walcyr Carrasco, na qual o senhor interpretou um dos maiores de todos os muitos vilões da história, o superadvogado Natanael. O senhor percebe, no atual cenário político brasileiro, um jurista em quem identifique alguma coisa cuja atuação lembre aquela ficção, que fez imenso sucesso de público?

J – Vários juristas. Fico curioso com o comportamento profissional de famosos advogados criminalistas cujos clientes lhes pagam honorários de até R$ 8 milhões. Natanael, o vilão, meu personagem em O Outro Lado do Paraíso, estaria entre eles, claro, se intuísse que a advocacia criminalista se tornaria tão rentável no futuro do País. E eles se multiplicaram! Antes da Lava Jato eram cerca de 40 as grandes bancas de criminalistas, concentradas em São Paulo e no Rio. Hoje esse número dobrou. O novo mercado foi esticado para Brasília e Curitiba, claro, e com o aprofundamento das investigações da Lava Jato ele emprega aproximadamente 1.200 advogados. Que crimes teriam cometido seus clientes para tão altos honorários? As acusações variam entre pagamento de propinas, evasão de divisas, caixa 2 para partidos políticos, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, crimes financeiros, corrupção, enfim. Mas, ora, se os crimes são roubos, assaltos aos cofres públicos, desfalques, os honorários dos advogados não deveriam ser devolvidos para ressarcimento da sociedade? Estudei Direito na São Francisco com os saudosíssimos Miguel Reale e Gofredo da Silva Teles, entre outros mestres inesquecíveis. Não cheguei a me formar por ter optado pela Escola de Arte Dramática, mas estudei o suficiente para saber que a maioria dos profissionais que atuam na Lava Jato seria reprovada por esses e outros mestres das Arcadas. Agora mesmo os doleiros Juca Bala e Claudio de Souza não acabam de denunciar um grande advogado por exigir propina para não denunciar clientes? O meu Natanael é um anjo de candura diante dessa turma.

N – Do alto de seus 83 anos de idade, nascido no Brasil sob os efeitos da Revolução dos Tenentes de 1930, o senhor testemunhou o putsch do Estado Novo de Getúlio em 1937, a redemocratização de 1946, o suicídio do mesmo Vargas em 1954, a renúncia de Jânio em 1961, o golpe da “redentora” de 1964, o recrudescimento da ditadura em 1968, a morte de Tancredo Neves em 1985, os impeachments de Collor em 1992 e de Dilma em 2016 e os protestos dos movimentos anárquicos de rua em 2013. A seu ver, o momento atual é tão, mais ou menos grave e importante do que esses aqui lembrados?

J – Este momento me parece o mais grave de todos. Não apenas para nós, brasileiros. O mundo está ameaçado. Veja, há uma queda geral da produtividade mundial, na qual estamos envolvidos. Também uma precária utilização das novas tecnologias nos sistemas de produção e o envelhecimento crescente da população, com a consequente diminuição na faixa dos economicamente ativos. O aumento do endividamento do País faz com que recursos que seriam usados em investimentos sejam destinados a pagar dívidas. Estamos também enfrentando mudanças climáticas, o que provoca o aquecimento global, os desastres naturais, a escassez de água e a sua contaminação no mar e em quase todos os nossos rios. No momento não estamos conseguindo sequer conter a disseminação dos agrotóxicos até mesmo nos produtos hortifrutigranjeiros.

Juca de Oliveira ensaiando, em 1972, Um Edifício Chamado 200, de seu amigo Paulo Pontes, com direção de José Renato. Foto: Arquivo/AE

Juca de Oliveira ensaiando, em 1972, Um Edifício Chamado 200, de seu amigo Paulo Pontes, com direção de José Renato. Foto: Arquivo/AE

N – O senhor foi um dos protagonistas, com Raul Cortez, do clássico do cinema novo O Caso dos Irmãos Naves, de Luiz Sérgio Person. O senhor acha que um erro judiciário tão grave como aquele e, sobretudo, a truculência do policial interpretado por Anselmo Duarte ainda ocorrem em nossos tempos? O enredo do filme não lembra episódios contemporâneos, como o massacre do Carandiru e a execução de Marielle Franco e Anderson Gomes?

J – Sim, lembra. A violência continua. Se compararmos com o erro judiciário do filme do Person, as coisas pioraram muito. O índice de assassinatos, o aumento escancarado da violência, o contrabando crescente de armas altamente sofisticadas. O domínio dos traficantes sobre várias comunidades. A impossibilidade do livre trânsito do cidadão, do trabalhador. Já não podemos sair à noite. Perdemos o direito de andar livremente. Somos reféns permanentes.

Em 2007, Juca de Oliveira falou em audiência pública para debater regras para classificação indicativa da TV no Ministério da Justiça. Foto: Ed Ferreira/AE

Em 2007, Juca de Oliveira falou em audiência pública para debater regras para classificação indicativa da TV no Ministério da Justiça. Foto: Ed Ferreira/AE

N – Leitor voraz e atento, autor, ator e espectador de teatro, cinema e televisão, ouvinte de música, qual a sua opinião sobre o atual panorama da produção da cultura nacional? Estamos nos melhores ou nos piores momentos de sua história? E quais são as perspectivas para o futuro?

J – A cultura nacional vive hoje um dos piores momentos da sua história. Mas prefiro me fixar no péssimo momento do nosso teatro. Depois de quase 60 anos como profissional de teatro concluí que o maior responsável pelo fenômeno é a Lei Rouanet, embora os objetivos culturais da sua criação tenham sido louváveis. Não se deve dar dinheiro ao artista. O Estado deve criar condições para o desenvolvimento cultural do País, mas não dar dinheiro ao artista. O ator e a atriz ganham o seu dinheiro com a sua arte. Quanto mais próximos da perfeição chegarem, maiores serão o sucesso e a recompensa do seu público. Ele ou ela sente a recompensa quando confere o dinheiro da bilheteria em longas temporadas de até dois, três, quatro anos em cartaz. E sempre nos orgulhamos dessa independência. Porque é a independência econômica que nos garante a independência ideológica para o livre exercício da nossa arte através dos séculos. O teatro é uma atividade, uma profissão movida pela paixão. Quando alguém dá dinheiro ao ator, mata a paixão com que ele se atira à realização dos seus sonhos e projetos e o acorrenta. Se há o dinheiro da lei, não foi a paixão, não foi o resultado do seu trabalho que lhe deu o salário, que agora – isso é trágico – não vem mais da bilheteria. Nosso querido e genial Antonio Fagundes, que não faz espetáculos pela Lei Rouanet e fica anos em cartaz com suas produções, disse em recente entrevista: “Se o ator vive só de patrocínio, a bilheteria não interessa mais… Não perceberam que o teatro está morrendo”. É sabido que Shakespeare escrevia com os dois olhos na caixa registradora e foi um excepcional empresário, lotando teatros de 2 mil lugares, cinco dias por semana. Se em Stratford houvesse a Lei Rouanet, ele não teria escrito nem uma das suas 38 peças e o mundo seria infinitamente mais ignorante. Os dramaturgos em todo o mundo ganham um percentual de 10% do que arrecada a bilheteria. Como depois da Rouanet o resultado da bilheteria se tornou quase zero, espetáculos dois dias por semana, às vezes apenas um, temporadas ridiculamente curtas, não há mais estímulo para o surgimento de novos autores de teatro, os que menos ganham na era da Rouanet. E o mais incompreensível: é um fenômeno brasileiro. A Argentina, para citar um vizinho mais pobre, tem um teatro excepcional, uma verdadeira Broadway bombando seis dias por semana, com 400 peças em cartaz.

Juca de Oliveira em cena com Bibi Ferreira em comédia da autoria dele, Às Favas com os Escrúpulos. Foto: Antonio Milena/AE

Juca de Oliveira em cena com Bibi Ferreira em comédia da autoria dele, Às Favas com os Escrúpulos. Foto: Antonio Milena/AE

N – O que mais o incomoda e o que mais o senhor celebra em nosso cotidiano de agora?
J – A insegurança nas ruas é o que mais incomoda em nosso cotidiano agora. Eu caminho todos os dias. Tenho 83, velho que não anda desanda… Há pouco tempo, quando eu ia sair pra caminhar, minha mulher me advertia: “Olha, não fale no celular andando pela calçada que eles te levam o celular! Passam de bicicleta e vupt!”. Alguns dias depois, quando estou de saída, ela novamente: “Olha, acho melhor não levar o celular porque agora eles descobrem o celular no bolso, fingem um esbarrão e te tomam”. Bom, deixei o celular em casa e saí andando. Esta semana vem ela de novo: “Juca, acho melhor você não andar mais porque agora estão fazendo arrastão tipo ‘perdeu, mano, passa tudo’!” O negócio vai ficando difícil! Ainda bem que tenho minha mulher, que me adverte: “Olha, é mais seguro você parar o carro, no farol, atrás do carro do meio. Eles estão preferindo assaltar os carros das beiradas”… É horrível. No passado, quando acabava o espetáculo no Arena ou no TBC, todo o santo dia, lá pelas 11 da noite, trocávamos a roupa no camarim e íamos andando para o inesquecível restaurante Gigetto, ponto de encontro de todos os atores e atrizes de São Paulo e do Rio quando em excursão por aqui… Acabado o jantar, lá pelas 2, 3 horas da madrugada, em grupinhos, íamos em direção ao prédio do Estadão, comprávamos o jornal do dia seguinte com os carregadores na oficina e rumávamos para o Jeca, esquina da São João com Ipiranga, sempre andando, e lá ficávamos até as 4 da manhã bebericando um cafezinho e discutindo as notícias do jornal. … E aí voltávamos pra casa, a maioria andando… Acabou, estamos sitiados 24 horas por dia. E o que eu mais celebro é um drinque com minha mulher, minha filha, os amigos queridos e jogar conversa fora. E também os encontros com meus queridos confrades e confreiras, às quintas feiras, na Academia Paulista de Letras.

N – O que foi feito hoje dos sonhos e ilusões de seus tempos de galã de Nino, o Italianinho, de Geraldo Vietri e Walther Negrão, na Tupi, cujos últimos capítulos acompanhei ao chegar a São Paulo, em 1970?

J – Estou com 83 anos. Continuo com meus sonhos. Sonhando muito e trabalhando muito. Estou escrevendo mais uma peça de teatro e aguardando o chamado da Globo para mais um trabalho na televisão. Cheguei mais ou menos ao meio da peça, ainda tenho bastante trabalho pela frente. Terminada a peça, farei uma leitura para alguns colegas, leitura para qual você já está convidado, voltarei para o computador para reescrever até que uma das próximas leituras me satisfaça. Como nós, de teatro, sabemos, escrever é reescrever… Bom, adorei bater esse papo com você. Até.

N – Inté.

Nêumanne entrevista Juca de Oliveira. 8a. edição da Série 10 Perguntas.

Nêumanne entrevista Juca de Oliveira. 8a. edição da Série 10 Perguntas

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No Blog do Nêumanne: Privatizar a Petrobrás já!

No Blog do Nêumanne: Privatizar a Petrobrás já!

Com  a petroleira recuperada pela gestão de Parente, a elite política dirigente de esquerda, Centrão e direita se apronta para promover nova rapina total em seus cofres

Quem leu a reportagem de Consuelo Dieguez, na revista PiauíO Petróleo depois da festa, em setembro de 2012, foi devidamente informado de que a política de óleo e gás do país era, à época, uma zorra total, uma enorme bagunça. E tudo levava a crer que boa coisa não sairia de qualquer investigação minimamente bem feita da intimidade de nossa maior estatal, a Petrobrás. Aparentemente a partir de um relato do militante baiano Haroldo Lima, do PCdoB, comunista da linha albanesa, revoltado com sua demissão da presidência da Agência Nacional do Petróleo (ANP), a repórter ouviu a empresa, os órgãos oficiais do setor e o mercado privado para traçar um quadro terrível do caos em que resultou a política populista e incompetente de Lula, que, segundo Lima, mandava sem ser questionado no Conselho de Administração da Petrobrás por intermédio de três pessoas com direito a voto no colegiado: a própria fonte, Dilma Rousseff, que era chefe da Casa Civil, e Sérgio Gabrielli, então presidente da estatal.

O texto de Consuelo Dieguez nunca mereceu a leitura atenta que deveria ter provocado principalmente em setores que têm responsabilidade de decisão na vida nacional. O Poder Legislativo passou ao largo. O Judiciário, preocupado apenas com a elegância das togas de seus membros e do estilo nem sempre escorreito dos jurisconsultos, não prestou a mínima atenção. Do Executivo nada se podia esperar, pois, afinal, um dos principais alvos da verrina do velho comunista, Dilma Rousseff, presidiria o País por mais quatro anos, após reeleita dois anos depois. A Associação dos Engenheiros da Petrobrás e os sindicatos dos petroleiros – com mãos e pés atados pela inércia provocada pela cegueira ideológica – jamais abandonariam sua adesão traidora aos novos exploradores que espoliavam o patrimônio público, que tanto pretendem defender do capitalismo neoliberal, também passaram ao largo do tema. No que foram imitados por órgãos da sociedade, como o chamado mercado, a oportunista Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e, por que não dizer, os meios de comunicação – todos com vistas, ouvidos e corações voltados para temas mais óbvios e menos árduos. Inútil será reclamar das múmias paralíticas dos tribunais de contas, do Conselho de Valores Mobiliários e dos órgãos fiscalizadores do governo, tais como o Banco Central, a Receita Federal, as agências criadas para evitar que o alfanje dos Poderes da República e a musculatura esmagadora das grandes empresas capitalistas que apertam o pescoço do cidadão, exposto às intempéries e aos humores de seus opressores. Fez-se sobre o assunto, que se provaria ainda mais grave do que até os mais atentos tinham dificuldade de perceber, um silêncio que ajudou a estimular a incompetência e a desonestidade de gestores estatais no mando do butim.

O que desvendou a rapina exercida pelo controle dos sócios do poder – PT, PMDB, PP, PRB, PTB, PDT, PCdoB, PSD e outros inúmeros satélites desses planetas – foi a conjunção de fatores estranhos ao mundo da subpolítica, que terminaram por solapar as bases podres do esquema. O FBI americano foi um dos atores indiretos da revelação da tragédia cabocla. Ao investigar a sofisticada engenharia financeira da Al Qaeda, grupo terrorista que demoliu em ataques aéreos o World Trade Center, em Nova York, a polícia federal americana deparou-se com a descoberta de que a corrupção, até então negligenciada, provocava mais prejuízos do que o crime organizado do tráfico de drogas e armas. Essa conclusão e o resultado da investigação da Operação Mãos Limpas, na Itália, levaram as autoridades mundiais a assinarem acordos de colaboração mútua no combate à malversação dos cofres estatais nas democracias ocidentais. O Brasil incluído. Sob Fernando Henrique, Lula e Dilma, foram aprovadas leis fundamentais para o combate aos delitos de colarinho-branco. Destacam-se o avanço fundamental da delação premiada, instituto sem o qual é praticamente impossível algemar mãos que contam dinheiro e a sofisticação cada vez mais refinada da investigação da lavagem de capitais, necessária para devassar delitos mui engenhosamente mascarados.

No Brasil, o avanço no combate a esses crimes nas altas cúpulas republicanas foi favorecido com a perda de controle da Polícia Federal (PF) pelas autoridades às quais são subordinadas. À época dos governos federais tucanos, grupos de agentes ligados a Paulo Lacerda trabalharam em parceria com procuradores federais como Luiz Francisco de Souza, vulgo Torquemada, e Guilherme Shelb, em acusações de maracutaias de adversários. Outros agentes, remanescentes da gestão do delegado Romeu Tuma ou ligados aos tucanos, caso de Marcelo Itagiba, que ascendeu à Câmara dos Deputados, denunciaram “vacilos” de oponentes, como Roseana Sarney, no Maranhão, e até Lula, na Presidência da República.

Sem conexões no mundo político, uma geração de hoje quarentões na PF, no Ministério Público Federal e na Justiça Federal, com independência garantida por conquistas corporativas inscritas na Constituição de 1988, preparou-se para investigar o que antes não era possível fazer. Foi nesse cenário que, em março de 2014, o inquérito iniciado num posto de gasolina em Brasília, usado como ponta final do sistema de doleiros encarregados de lavar o dinheiro dos gatunos da subpolítica, caiu nas mãos de um juiz federal paranaense, que, por coincidência, voltava de uma assessoria à ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), para o comando da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba – Sergio Moro. As delações premiadas de doleiros e ex-dirigentes da Petrobrás guiaram as lupas dos agentes da lei para os altos escalões do empresariado e da gestão pública.

O “petrolão”, esboçado no texto premonitório de Consuelo Dieguez, levou a inéditas prisões de empreiteiros (entre os quais o maior de todos, Marcelo Odebrecht) e de políticos de uma aliança multipartidária, que incluiu corruptos da ditadura (Paulo Maluf) e a direção do Partido dos Trabalhadores. No momento em que este texto é escrito, cumprem pena em celas o ex-presidente Lula, os ex-ministros Zé Dirceu e Palocci e quatro ex-tesoureiros petistas, entre eles o da época do “mensalão”, Delúbio Soares.

Quando ainda tinha o P de partido no nome, o MDB do constitucionalista de Tietê (SP), Michel Temer, adquiriu um bom lote de ações dessa empresa criminosa. No entanto, o desastre completo da gestão de Dilma Rousseff, fruto das descomunais ignorância e falta de compostura de seu criador, Lula, levou à solução constitucional da posse do ex-vice, que, na composição do governo provisório, teve de assumir o compromisso de evitar o completo naufrágio do Brasil no poço de lama com a reconstrução do patrimônio, do poder de barganha e do crédito da estatal que tinha perdido no saque dos desgovernos anteriores quase tudo. Para cumprir a tarefa foi convocado o mesmo executivo que tinha administrado os apagões elétricos do segundo governo tucano de Fernando Henrique. Pedro Parente cumpriu a tarefa até que, neste ano eleitoral, a política de preços da empresa, inevitável no resgate da dívida absurda e da desconfiança generalizada no País e no mundo, tomou dele a chave do cofre.

A saída de Parente da presidência da Petrobrás foi mais uma prova dada pelo governo Temer, depois do pedido de demissão de Maria Sílvia Bastos da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), de que no Brasil não há alternativa à privatização. A Petrobrás quase quebrou e na hora H o contribuinte suou sangue para salvá-la da bancarrota. Mas no primeiro choque de realidade, novamente com as burras cheias, a empresa voltará inevitavelmente a atrair a cobiça dos políticos gatunos de sempre, que voltarão a saqueá-la com volúpia até o próximo escândalo, de cujo rescaldo terá de sair nova salvação a custo de sangue, suor e lágrimas do contribuinte, que, ele mesmo, não se cansa de ser roubado até o último centavo. Pois a grande maioria rejeita privatizá-la. A opção é uma só: privatização já ou corrupção para sempre.

  • José Nêumanne. Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 4 de junho de 2018)

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No Blog do Nêumanne: Audálio, o audaz sereno

No Blog do Nêumanne: Audálio, o audaz sereno

Conheci Audálio Dantas quando eu tinha 9 anos e li suas reportagens na revista O Cruzeiro sobre Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo, um dos maiores sucessos do mercado livreiro e desde então só o admirei

Audálio Dantas foi meu primeiro herói no jornalismo. Em 1960, eu tinha nove anos e meu pai, caminhoneiro, sempre trazia exemplares de O Cruzeiro com reportagens que encantavam meus olhos já míopes retratando o mundo distante e misterioso do Sul Maravilha. Nestas revistas, entre O Amigo da Onça, de Péricles, e a Última Página, de Rachel de Queiroz, deparei-me com a saga de uma mineira moradora na imensa São Paulo ignota, em cujo barraco na favela do Canindé, movido de argúcia e sem pieguice, um repórter atento, sensível e de estilo elegante descobriu anotações de um diário, depois editado em livro e transformado num dos maiores êxitos do mercado brasileiro em todos os tempos,Quarto de Despejo. Era Audálio.

Só tive o prazer de conhecê-lo e a sorte de conviver com ele muito tempo depois, quando acompanhei sua eleição para a presidência do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo numa disputa histórica em que um grupo independente de profissionais de imprensa afastou da direção do órgão uma diretoria que não resistia a pressões vindas do alto da torre dos carros de combate da ditadura militar. Era um tempo de repressão braba e logo meu herói de infância se materializou numa figura admirável para um iniciante no mesmo ofício. Então em plena flor dos 24 anos de idade, em 1975.

Para conquistar minha devoção, ele não se vestiu de super herói nem de mártir da revolução socialista contra a brutal repressão da guerra suja do regime duro contra a guerrilha armada do extremo oposto, que não lutava para instalar uma democracia no Brasil, mas, sim, para substituir a tirania de direita por outra, de sinal invertido. Audálio sempre foi esquerdista, mas também um democrata capaz de respeitar e admirar quem não comungasse de suas ideias, desde que nele descortinasse talento e simpatia bastantes para desfrutar de sua prosa macia e de sua postura firme como garimpeiro de fatos em letras e mestre no ofício.

Naquela quadra, ele enfrentou uma dura batalha. Vladimir Herzog, nosso colega, dirigia o Departamento de Jornalismo da TV Cultura de São Paulo quando foi levado para uma delegacia de policia onde funcionava o  DOI-Codi, órgão clandestino que executava a política de tortura e execuções dos comandantes militares no poder. E ali foi assassinado. Vlado, como era conhecida a vítima, não militava na guerrilha, mas simpatizava com o Partido Comunista, que se posicionava contra a luta armada. E foi levado ao martírio como bucha de canhão numa guerra intestina entre oficiais graduados pelo poder federal. Um grupo de generais da linha dura, chefiados por Sílvio Frota, ministro do Exército do presidente Ernesto Geisel, encontrou na militância de esquerda dos subordinados do chefe deles um pretexto para solapar o plano de abertura do grupo palaciano, cujo principal ideólogo era o chefe da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva. O alvo do sequestro e tortura, que terminou em morte, era José Mindlin, bibliófilo e industrial milionário, então secretário de Cultura do Estado, et pour cause, responsável pela nomeação do jornalista para o posto de comando. Com isso, Geisel não conseguiria, como pretendia, fazer do então governador de São Paulo, o civil Paulo Egydio Martins, seu sucessor. E, de fato, não conseguiu. Numa sessão de torturas, Vlado morreu e logo seus algozes fizeram circular a falsa notícia de que se havia enforcado. Foi a gota d’água para o cálice de fel transbordar e a resistência à ditadura organizou-se em torno de três chefes religiosos: o arcebispo católico, dom Paulo Evaristo, cardeal Arns, o rabino Henry Sobel e o reverendo James Wright, realizaram um culto ecumênico pela alma do morto na Sé, em pleno centro de São Paulo de Piratininga. O rabino autorizou que Vlado fosse sepultado no território comum dos filhos de Judá, e não no reservado para os suicidas, claro desafio à versão mal costurada do regime opressor. Como presidente do sindicato dos colegas do mártir, Audálio foi, ao mesmo tempo, audaz e sereno, sem se deixar tomar por repentes de ira nem por sintomas de covardia. O resto é história: a sociedade percebeu que o governo, que combatia os inimigos armados, também perseguia os arautos da liberdade, e lentamente corroeu as entranhas do regime, que ruiu.

Desses tempos para cá, dois outros pontos costuraram nossa relação pessoal. Ambos somos cidadãos de Campina Grande, na Paraíba. Eu nasci em Uiraúna, no alto sertão, e, desde a infância, amo a Rainha da Borborema como se, mais que madrasta acolhedora, ela fosse minha segunda mãe. Audálio veio à luz em Tanque d’Arca (Alagoas), pequena como minha cidade natal. Sua conexão com minha terra adotiva foi estabelecida por um amigo de infância dele, Joaquim Manuel Barbosa, enfermeiro celebrado, marido de Maria, figura popular na cidade, e pai de políticos atuantes no Estado.

Em 2011, publiquei um perfil nada lisonjeiro do político mais popular da História do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, que nunca admirei, O que sei de Lula (Topbooks, Rio). Embora não tenhamos conversado sobre isso, sei também que Audálio, que nos deixou para sempre na tardinha fria, depois de um dia de sol morno, de 30 de maio, continua tendo nosso personagem comum como um herói do povo, do qual ele, Audálio, sempre foi rebento fiel e devoto. Certo é que os melhores e mais ternos momentos de meu livro sobre seu tema foram copiados de uma das obras literárias mais comoventes, de tanta beleza que contém, que li na vida inteira, O menino Lula, escrita por Audálio, meu herói de ofício desde minha própria meninez.

Na bagagem que Audálio leva para cruzar o rio na canoa de Caronte carrega de mim uma lágrima, um lamento, um aceno e um sorriso triste deste que ainda encontra humor nas presepadas de que se lembra, mas ele nunca mais repetirá.

Jornalista, poeta e escritor

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