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No Blog do Nêumanne: Mãos e pés sujos de lama

No Blog do Nêumanne: Mãos e pés sujos de lama

Para tomar tempo em rádio e TV de seus adversários na eleição, Alckmin assumiu podres de corrupção, que não são só dele nem de outros tucanos, mas de aliados condenados no mensalão e acusados pela Lava Jato

As eleições, daqui a três meses, batem a cada dia que passa recordes de originalidade e baixo nível, que já eram extremos, das anteriores.

Conforme as pesquisas, o primeiro lugar no primeiro turno é ocupado por um preso que cumpre pena de 12 anos e 1 mês por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, decretada em primeira instância e confirmada por unanimidade na segunda. Ou seja, pela Lei da Ficha Limpa, de iniciativa popular, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo próprio condenado, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva – se os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário reconhecerem o primado do povo – é inelegível. Para que ele concorra, sua defesa, ativa na produção de recursos e chicanas em geral, teria de convencer o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF) a rasgarem a lei. E porão em dúvida as boas intenções de todos quantos a aprovaram e a firmaram, com bravatas retóricas e fanfarras ideológicas, que, então, pareceriam estelionato eleitoral da pior categoria.

Seria impossível? A História o nega. Há uma guerra suja na cúpula do Judiciário em torno da jurisprudência de 2016 que autoriza mandar um condenado começar a cumprir pena, enquanto lhe é garantido o direito de recorrer até o trânsito em julgado, do qual fala o artigo 5.º, parágrafo único, da Constituição federal (que não se refere à prisão ou liberdade, mas à culpabilidade, ou seja, negação da inocência). Arre, égua! Esses tribunais já passaram o texto constitucional a limpo a serviço dos chefes de facções partidárias que os tornaram “supremos” (leia-se acima do bem e do mal).

Ricardo Lewandowski, quando presidia o STF e, por isso, também a sessão do Congresso que depôs Dilma Rousseff da Presidência,em 2016, rasurou uma linha do artigo 52 só para permitir que a petista escapasse da punição de passar oito anos sem exercer cargos públicos. Seria injusto, segundo o jurisconsulto de São Bernardo do Campo, que madama não pudesse mais, coitadinha, ser “merendeira de escola”. Recentemente, um colega do rasurador, Dias Toffoli, mandou soltar o próprio ex-chefinho José Dirceu, condenado a mais de 30 anos de cadeia, tornando letra morta a jurisprudência acima citada e cuspindo no plenário ao qual comparece todos os dias úteis de seu ofício, tratando todos de Excelência e por todos sendo tratado com iguais pompa e circunstância. Ou seja, pode ser até difícil, mas impossível não é, se for considerada a ética duvidosa de quem nem sempre tem reputação ilibada e os notórios conhecimentos jurídicos exigidos. Toffoli, reprovado em dois concursos para juiz, será em breve presidente do órgão que se julga acima de todos e de tudo, aí incluída a lei.

Mas digamos que Rosa Weber no TSE e seu colega advogado João Otávio de Noronha no STJ em setembro cumpram seu dever e Toffoli resolva seguir os passos da companheira ao lado dele no plenário, não permitindo mais uma esquisitice em sua biografia. E, dessa forma, Lula, ainda que venha a ser libertado pelo antigo subordinado, não possa mesmo candidatar-se. Sobrariam, então, os que estão ali logo abaixo nas pesquisas.

Será que o capitão que promete enquadrar os “coronéis” (assim mesmo com aspas, pois Jair Bolsonaro não é besta de desafiar os antigos superiores de farda) e manterá o primeiro lugar na campanha, mesmo com os pífios sete segundos ao seu dispor no horário eleitoral nada gratuito, menos até do que os do famoso dr. Enéas? Para isso terá de contar com o apoio denodado da bancada da bala, que não dispõe de tempo no tal horário pago pelo bolso surrado do contribuinte. Será por isso que tem imitado revólveres com dedos que, nus, não disparam projéteis, mas têm uma enorme carga simbólica? Se não tivessem, por que ele repete tanto o gesto? Mas não é bom reclamar aqui, pois ele já definiu qualquer comentário racional contra o ato de matar com uma palavra pouco gentil: “frescura”.

O candidato dos nostálgicos de golpes passados chegou à convenção nacional, domingo, sem tempo nem vice para chamar de seus. A advogada Janaína Paschoal, uma das signatárias do impeachment de Dilma Rousseff, parece uma pareceira promissora, mas fez um discurso louco de tal lucidez que enfureceu os fanáticos da chapa, que se assume mais à direita de todas. Ela advertiu apenas que não se ganha eleição sem apoio nem se governa sem aliança. Só não dará para chamá-la de Conselheiro Acácio porque a personagem de Eça e a professora da USP são de gêneros diferentes. Certo é que, com ou sem o discurso rebelde da quase vice, e quase não, do capitão dos revólveres de dedos em mãos infantis, ele não conseguiu o apoio de nenhum outro partido, nem sequer os de um “centrinho” qualquer.

Foi esse também o caso de Ciro Gomes, o “coronel” a quem os adeptos de Jair se referem quando ameaçam com o capitão deles. Entre tapas e beijos, o cearense de Pindamonhangaba (no vale paulista do Paraíba do Sul) tentou seduzir os “golpistas” com o canto da sereia da preferência de um dígito só do pretendente tucano à Presidência, Geraldo Alckmin, nascido na mesma cidade. Deu em nada e Ciro terminou a semana passada criticando duramente o “baronato” e fazendo acenos à esquerda, como registrou o noticiário. Mas, espere aí, o coronelzinho dos Gomes de Sobral já não é de esquerda? Ou só estaria acenando para o espelho da própria pia?

Alckmin foi recebido com marchas e dobrados pelo dito “Centrão”, grupo que se insinua nas decisões do Congresso desde que ajudou os tucanos de alta plumagem José Serra e Mário Covas, além de Ulysses Guimarães e Nelson Jobim, a redigirem a Constituição. Aliás, Jobim foi presidente da Constituinte e, como o coleguinha Lewandowski, mexeu no texto final da Carga Magna sem passar por anterior aprovação do plenário.

O anestesista paulista começou a semana passada com a perspectiva de ter de pagar algumas dívidas na Justiça, que podiam abalar suas pretensões a subir a rampa do Planalto,. Todas são relativas a suspeitas em torno de um tal de Santo, codinome no popinoduto da Odebrecht. E terminou-a definitivamente endividado com os dirigentes partidários mais sujos da História recente de uma República que nunca se destacou pela alvura da imagem. Entre seus novos aliados os únicos que não podem ser chamados de suspeitos de corrupção são Valdemar Costa Neto, dono do PR, e Roberto Jefferson, proprietário do PTB. Pois eles foram condenados, apenados, mas depois, indultados pela então presidente petista Dilma, mereceram o pródigo perdão da bondosa supremacia dos ministros do STF, que se habituaram a soltar quem os juízes de baixo prendem. Outros sócios desse clube sobre o qual se projeta o foco das lanternas dos guardas-noturnos são Gilberto Kassab, suserano do PSD, e Paulo Pereira, o Paulinho mandachuva da Força Sindical e do partido Solidariedade (afff!).

Jefferson e Paulinho já deram uma ideia a Alckmin de que deve preparar-se para pagar a dívida com eles abrindo mão, se não da honra, pelo menos da coerência. O PTB do delator do mensalão em Pernambuco  mandou dizer que está comprometido com outro. E não será o único: outras legendas fiéis ao presidiário mais célebre do Brasil no Nordeste certamente também terão más notícias a lhe mandar. E o magnata do sindicalismo, cuja vida à tripa-forra depende da cobrança forçada de um dia de trabalho de cada trabalhador, sindicalizado ou não, convenceu-o a desistir de apoiar a reforma trabalhista para evitar que verbas públicas mínguem ainda mais.

Não nos cabe omitir que o “Centrão” se comprometeu com Temer a aprovar a reforma da Previdência e terminou abrindo para o presidente a porta de saída da intervenção militar na segurança do Rio, prevista no dispositivo constitucional que proíbe reformas quando algum Estado esteja sob intervenção federal. A turma de Marun, Jovair e Rosso tem recebido cargos a mancheias para aliados, apaniguados e parentes em troca de derrotas frequentes do governo federal no Legislativo. Entre as quais a mais óbvia é o recorde de impopularidade do pródigo gestor federal.

Mas com mãos e pés sujos de lama Alckmin ainda se nega, em público, a juntar os trapinhos com o MDB do pessoal do palácio, com a desculpa de que não se junta com gatunos. Com os condenados e suspeitos, dos quais tirou o tempo de rádio e TV que deixou de ser dado a Bolsonaro, Ciro, Marina e outros, ao seu lado será impossível, para a recente esperança ressuscitada do mercado, convencer o distinto públicode que vai dar força à Lava Jato e pôr seus alvos nas prisões do Paraná. Conta outra, cara!

  • Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne segunda-feira 23 de julho de 2018)

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No Blog: Nêumanne entrevista Arthur Antunes Coimbra, Zico

No Blog: Nêumanne entrevista  Arthur Antunes Coimbra, Zico

Americanos não ganham mais porque imitam europeus, diz Zico

 

Zico estranha que as seleções sul-americanas não vençam mais Copas do Mundo, de vez que os melhores jogadores dos maiores clubes europeus nascem em nosso subcontinente

 

“Temos perdido um pouco da identidade do nosso futebol sul-americano, do drible, do um contra um, da magia, da técnica, da qualidade, e estamos jogando somente o plano tático, no estilo europeu. O jogador sul-americano está indo muito cedo para a Europa e, em vez de treinar a individualidade, evoluir o lado de jogador, ele está mais preocupado com a questão técnica e tática.” Esse diagnóstico é feito por Zico, o maior ídolo da história do clube mais popular do Brasil, o Flamengo, o verdadeiro fundador do futebol no Japão, onde passou 15 anos e atuou como jogador no Kashima Antlers, além de ter sido técnico da seleção nacional e dirigente. Preparando-se para voltar ao Japão em agosto e assumir um cargo na direção do mesmo clube que o projetou no Oriente, ele jura amor eterno à sua cidade, o Rio de Janeiro, assegurando que nunca se vai mudar definitivamente de lá, por mais difícil que seja viver na antiga “cidade maravilhosa”.

Experiência internacional como jogador, técnico, auxiliar e dirigente autoriza análise de Zico sobre Copa de 2018. Foto: Karim Jaafar/Al-Watan, Doha/AFP

Experiência internacional como jogador, técnico, auxiliar e dirigente autoriza análise de Zico sobre Copa de 2018. Foto: Karim Jaafar/Al-Watan, Doha/AFP

Filho de pais portugueses, irmão mais novo de uma família de craques, na qual se destacou Edu, que também foi jogador e técnico, aos 65 anos Arthur Antunes Coimbra, o “galinho de Quintino”, como é conhecido pela torcida do Flamengo, com o qual se tornou campeão mundial de clubes em 1981, não se surpreende com a supremacia atual do futebol europeu. Ex-jogador de um time médio da Itália, a Udinese, Zico é de uma geração que se formou no próprio país, ao contrário de Lionel Messi, que nasceu na Argentina, mas vive na Espanha desde a infância, e de Vinicius Júnior, a última grande revelação de seu clube de coração e que acaba de se apresentar ao Real Madrid, desde que completou a maioridade. Comentarista de televisão do Esporte Interativo, ao lado de craques do passado como Rivelino e Leão, e também de um canal de YouTube, no qual interage com jovens, que não o viram jogar, o craque também reclama que “não se pode confundir democracia com bagunça e, infelizmente no Brasil estamos confundido democracia com bagunça, desordem”.

N – Quando o lateral direito inglês Trippier abriu o placar nas quartas de final contra a Croácia, que sensação o senhor viveu: saudade daquelas tardes de domingo no Maracanã nos anos 70 e 80; nostalgia da época em que o futebol mundial em geral e o brasileiro em particular tinham um elenco muito maior de batedores de faltas, entre os quais o senhor mesmo; ou uma queixa dos novos esquemas dos treinadores de ponta que privilegiam outras jogadas de bola parada, como as faltas longe da área e os escanteios, conforme ficou comprovado nesta Copa da Rússia?

– Não sou nada nostálgico, não fico pensando no que passou. Admiro o futebol atual. Em função do futebol jogado hoje, com fortes marcações e táticas de jogo, acho que os times deveriam ter sempre bons batedores de bola parada, porque isso resolve o jogo e o Brasil, a meu ver, está pecando muito nisso. Há bastante tempo não fazemos gol de falta e só temos praticamente o Neymar, que cobra bem faltas. Então, vejo com bons olhos uma falta bem cobrada daquela maneira pelo lateral da Inglaterra. Assim como faz o Cristiano Ronaldo. A bola parada depende muito do talento do cobrador, mas exige dele muito treino. Deus dá o dom de bater na bola, mas é preciso aprimorar isso. O batedor tem de se aplicar, tem de separar um tempo, principalmente depois dos treinos, para praticar bastante e poder ter um índice de aproveitamento maior.

Zico contra Maradona em jogo de setembro de 1981 entre o Flamengo e o Boca Júniors. Foto: Carlos Chicarino/AE

Zico contra Maradona em jogo de setembro de 1981 entre o Flamengo e o Boca Júniors. Foto: Carlos Chicarino/AE

N – O que a seleção da Bélgica tem de semelhante e de diferente de outras “gerações de ouro” que não ganharam Copas, como as da Argentina nos anos 40, quando não foi jogado o Mundial, do Brasil nas Copas de 1950 e 1982, da Hungria em 1954 e da Holanda em 1974 e 1978? Como representante da geração de 1982, de alguma forma o senhor sentiu algum tipo de afinidade com os flamengos da Europa, que este ano nem chegaram à final?

Z – A Copa do Mundo é um torneio diferente de um campeonato, em que dificilmente times com a qualidade da Bélgica desta Copa, de nossas seleções de 1986 e 1982, ou da Hungria de 1954 perderiam. A diferença é que na Copa do Mundo é mata-mata: quem joga mal um dia é eliminado. Então, admiro bastante o futebol desses times. Nesta Copa do Mundo me chamou a atenção o futebol da Croácia e da Bélgica. Não importa se ganharam ou não. Mesmo que fique para a história quem ganhou, é melhor se for possível ganhar jogando bem, como aconteceu conosco em 1970 e em 2002, com a Espanha em 2010 e  com a Alemanha em 2014. Jogar bem, ter um jogo ofensivo de jogadas bacanas, isso é bom futebol. Mas não quer dizer que sempre vá funcionar na Copa do Mundo, em que os jogos das oitavas de final em diante são eliminatórios.

Zico comemora seu gol pelo Brasil contra seu companheiro de Flamengo Fillol, goleiro da Argentina, na Copa da Espanha. Foto: Arquivo AE

Zico comemora seu gol pelo Brasil contra seu companheiro de Flamengo Fillol, goleiro da Argentina, na Copa da Espanha. Foto: Arquivo AE

N – O senhor pertenceu à última geração dos craques que se identificavam com as torcidas dos clubes onde surgiram e se consagraram. Hoje os grandes jogadores são nômades da bola, que percorrem a Terra e não guardam fidelidade com nenhum clube, até nem com o país. Em que essa nova realidade de globetrotters altera a relação entre o ídolo e a camisa?

Z – Não existe mais nem o ídolo só de um clube nem a identificação da seleção com os torcedores de clubes. Existe, sim, a torcida brasileira em Copas do Mundo. Mas não tenho dúvida de que, sem ídolos de seus clubes, os torcedores não são fiéis a uma seleção nem motivados: se a seleção ganhar, ganhou; se não ganhar, tudo bem. Os torcedores não ficam tão chateados. Se a seleção brasileira fosse formada, digamos, por cinco craques do Flamengo, três do Corinthians, quatro do Vasco, dois do Botafogo… Não é o caso de agora, pois o grupo é formado por jogadores de clubes estrangeiros, com os quais as torcidas nacionais não se identificam. Por isso não existe discussão da Copa do Mundo no dia seguinte ao dia em que o Brasil foi ou for eliminado.

N – Além de sua ligação com o Flamengo, o senhor tem também uma história de protagonismo no futebol japonês, onde encerrou sua carreira de jogador e atuou como treinador da seleção. O senhor sentiu alguma frustração ao ver o Japão e o Brasil serem eliminados pelo mesmo adversário, a Bélgica, e com a mesma jogada: um escanteio a favor e um contra-ataque fulminante que podia ser parado com uma falta tática, mas não o foi?

Z – Primeiramente, não sou favorável à falta tática. Ao contrário, sou totalmente contra. Na falta tática, quando o jogador para uma jogada sem a bola, deverá ser expulso imediatamente. Em vez de procurar a bola, o jogador vai parar a jogada. Isso não deveria ser estimulado, pois acontece que a bola é o essencial do jogo. A falta, para mim, é legítima quando se disputa uma bola e o adversário chega primeiro; sou totalmente contra o jogador já ir com a intenção de fazer a falta tática. É um absurdo. Quanto à derrota do Japão e do Brasil para a Bélgica, o mérito é do time belga. A derrota do Japão, tudo bem, pois os japoneses ainda são inexperientes e sofreram um contra-ataque no fim do jogo. O biotipo do japonês expõe o time a gols de cabeça quando enfrenta seleções mais altas. Eu mesmo sofri muito com isso lá no Japão. Mas o Brasil foi muito infantil naquele gol e na cobrança do escanteio. O time já tinha vivido a mesma situação contra a Suíça, em que havia sete brasileiros e um da Suíça sozinho fugiu da marcação para fazer o gol. Isso, a meu ver, é um erro para o futebol brasileiro, para esses jogadores todos que têm esse know-how, essa experiência. Um completo absurdo.

N – Como ex-jogador, ex-técnico, ex-dirigente e agora comentarista de televisão, o senhor viu alguma coisa na Copa da Rússia que possa considerar novidade tática a predominar doravante?

– Não, nenhuma. E lamento que a final não tenha sido Croácia x Bélgica, pelo bem do futebol, porque normalmente vence a Copa o time que fez prevalecer aquele futebol de 11 atrás. Por exemplo, estavam dizendo que o Girou não faria gol na Copa. Mas, claro, ele não pode fazer gol, pois o cara estava marcando no meio-campo; da linha da intermediária até chegar lá no gol, ele não aguentava mais mesmo. O mesmo aconteceu com o Gabriel Jesus. São 11 atrás da linha da bola, o cara vai lá e não chega ao gol. A única evolução que vi no futebol foi o árbitro de vídeo. Em grandes competições, isso pode evitar injustiças que já aconteceram em outras Copas: gols com a mão, bola que entrou,  essas coisas todas que não gosto de ver no futebol. Afinal, alguém trabalha quatro anos, luta para se classificar e, de repente, é eliminado numa jogada ilegal.

N – O futebol hoje é um negócio bilionário do ramo do entretenimento, mais do que uma modalidade esportiva. A seu ver, é isso que está tirando o continente americano da liderança das competições, o que começou com a predominância europeia nos mundiais de clubes, um dos quais o senhor conquistou pelo Flamengo em 1981, e agora se consagra de vez com a América fora dos jogos finais da Copa de 2018?

Z – É, mas não deveria ser, porque os jogados sul-americanos são os mais caros e estão nos melhores times do futebol europeu. Estão todos lá no Barcelona, no Real Madrid, no Bayern, nos times principais da Europa: na Espanha, na França, na Inglaterra. O que pode ser uma das razões é termos perdido um pouco da identidade do nosso futebol sul-americano, do drible, do um contra um, da magia, da técnica, da qualidade, e estamos jogando somente o plano tático, no estilo europeu. O jogador sul-americano está indo muito cedo para a Europa e, em vez de treinar a individualidade, evoluir o lado de jogador, ele está mais preocupado com a questão técnica e tática.

Zico foi campeão mundial de clubes pelo Flamengo de Raul, Leandro, Mozer, Marinho e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Foto: Carlos Chicarino/AE

Zico foi campeão mundial de clubes pelo Flamengo de Raul, Leandro, Mozer, Marinho e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Foto: Carlos Chicarino/AE

N – Os projetos bem-sucedidos da Alemanha em 2014 e da França, Inglaterra e Bélgica neste Mundial passam pelo envolvimento dos clubes, enquanto na América em geral e no Brasil em particular os clubes são os primos pobres e oprimidos de confederações milionárias. É possível resgatar as conquistas do passado sem mudar radicalmente essa realidade?

Z – É duro ter um futebol comandado por um cara que está preso, um que está banido, um que está foragido, um que foi eleito às escuras e um que está no comando sem se saber o que ele fez no futebol. Então, é lógico que não há autoridade para reunir um time e refletir a importância do futebol para a federação, para o País. Os clubes são coniventes com essa situação em que, como célula mater do futebol, estão sendo jogados às traças, aceitando uma administração que não lhes traz nenhum benefício e os obriga a vender os jogadores da base o mais rápido possível.

N – As entidades que dirigem o futebol no Brasil e na América do Sul e a própria Fifa não resistem a investigações sérias e competentes de corrupção. Sua retirada do ambiente do futebol tem algo que ver com isso? Essa triste realidade influi, na sua opinião, no afastamento de nossos clubes e da seleção do protagonismo nos torneios internacionais disputados hoje?

Z – Não me retirei do futebol. Eu continuo no futebol. Não estou treinando nenhum time nem dirigindo clube algum, mas tenho uma atividade intensa na internet e no canal de televisão Esporte Interativo. Não creio que essa realidade que você descreve influa, mas acho que ela, de fato, diminui o crédito. O problema é que esses investimentos não foram feitos nos clubes e em grandes campeonatos. O melhor campeonato do mundo, a Champions League, da Inglaterra, que é a grande referência, demonstra a importância dos investimentos, mas esse espírito não está presente na Libertadores e isso atrapalha o desenvolvimento do futebol sul-americano. Ainda temos aqui os resquícios do ganhar na marra, de modo ilícito, no jeitinho, enquanto lá fora os caras estão organizados, jogando um futebol limpo e realmente de melhor qualidade.

Zico e Sócrates, que jogaram juntos no Flamengo, atuaram pela seleção brasileira na Copa de 1986, no México. Foto Arquivo/AE

Zico e Sócrates, que jogaram juntos no Flamengo, atuaram pela seleção brasileira na Copa de 1986, no México. Foto Arquivo/AE

N – O Brasil vive talvez o pior momento da sua História, com uma crise ética, econômica, financeira, institucional e política sem precedentes. Mas o senhor não dá sinais de que pretenda deixar o País definitivamente, como muitas pessoas na sua condição já o fizeram. Neste ambiente de desemprego, descrédito e até desespero, o senhor enxerga alguma luz num ano de eleições gerais, que pelo menos confirmam nossa opção pela democracia?

Z – Acho que não se pode confundir, e acabamos confundindo, democracia com bagunça, desordem. Estamos desrespeitando o lema da nossa bandeira, “ordem e progresso”. Pedimos tanto a democracia, só que virou bagunça. A disciplina inteligente nunca imperou no nosso país, com os nossos deveres e as nossas obrigações. Estamos em desvantagem, porque acreditamos em certas pessoas ultimamente e elas acabaram nos decepcionando. Mas não podemos desistir, temos sempre de tentar trabalhar sem o pensamento de votar em troca de um benefício individual. Não. Vamos fazer uma limpeza, para não nos enganarmos mais e não termos de pagar um preço tão alto como nos últimos anos.

 

Com Sandra, namorada da adolescência em Quintino, mulher e mãe de seus filhos, acompanha Zico no carnaval de 2018. Foto: Marcos Arcoverde/Estadão Conteúdo

Com Sandra, namorada da adolescência em Quintino, mulher e mãe de seus filhos, acompanha Zico no carnaval de 2018. Foto: Marcos Arcoverde/Estadão Conteúdo

N – Quando o senhor anda hoje pelas ruas do Rio encara uma realidade muito diferente da que viveu nos seus tempos no subúrbio de Quintino e mesmo nos anos de glória de sua carreira de ídolo do clube de maior torcida da cidade e do País. Como carioca, como o senhor convive com a tragédia de sua cidade, que foi maravilhosa e hoje está longe de poder ser considerada sequer um lugar aprazível para viver e criar a família?

Z – Amo muito esta cidade. Então, procuro, dentro da minha área, dar o meu melhor. O momento realmente é difícil, mas temos de ser otimistas e acreditar que isso pode mudar, para que a gente possa ter um Rio para os nossos netos mais agradável, mais tranquilo, menos violento, menos propineiro, menos vergonhoso para nós. Em algumas áreas temos coisas importantes e, em outras, decepcionantes. Não vou me mudar do Rio por nada, vivo muito bem aqui com o fruto do meu trabalho, do meu suor, do meu esforço. E vou tentando, nos limites do que posso fazer, ajudar o meu Estado.

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Ouça a entrevista com Zico. Clique no link abaixo:
https://soundcloud.com/jose-neumanne-pinto/zico

 

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No Aliás do Estadão deste domingo: O poeta contra o lugar-comum

No Aliás do Estadão deste domingo: O poeta contra o lugar-comum

A originalidade marca os dois livros de Antônio Carlos Secchin agora lançados, um com poemas seus, outro dedicado a obras alheias

O maior inimigo da boa literatura é o chavão. Não há verso ou prosa, por melhor que aparente ser, que resista ao poder corrosivo de uma platitude. Combater a praga da boa aparência que esconde a falta de originalidade é dever do crítico e professor de literatura. E só muita vigilância evita o literato de escorregar na mera mesmice. Poeta, crítico e professor, Antônio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras, é um cruzado contra o lugar-comum, como comprovam seus recentes lançamentos. Percursos da Poesia brasileira reúne lampejos de sua militância crítica e já encontra em nossas livrarias Desdizer, coletânea de poemas, que acaba de ser lançada em Portugal.

O acadêmico. Análises de Antônio Carlos Secchin dependem mais do trabalho do historiador do que propriamente de crítico. Foto: Ian Cheibub/Estadão

O acadêmico. Análises de Antônio Carlos Secchin dependem mais do trabalho do historiador do que propriamente de crítico. Foto: Ian Cheibub/Estadão

O que dá organicidade aos dois volumes não é o ineditismo, mas a originalidade. As análises do primeiro resultam mais do trabalho de historiador do que propriamente de crítico. Nele o autor reúne textos, já ou nunca publicados, num esforço que, mais do que de opinião, é de investigação das formas originais que a lírica brasileira – do romantismo ao pós-modernismo – engendrou para fugir da armadilha do facilitário, à disposição do escritor incauto. Essa fuga do repeteco comodista levou nossa poética a uma espécie de Olimpo distante do mercado, o que muitos apressados confundem com torre de marfim. Secchin defende quem se escondeu de recitais escolares em laboratórios do vernáculo.

É o caso de Bernardo Guimarães, romancista de A Escrava Isaura, sucesso em adaptações recentes para telenovelas, que tem lembrada a “vertente erótica-demoníaca” na visão do dublê de ensaísta e criador. Nas resenhas reunidas poetas consagrados como Alphonsus de Guimarães é analisada sua fase menos notória, antes da militância católica. Nesse livro Secchin enfrenta mitos consagrados como a inexistência de versos livres antes do modernismo, trazendo a lume a obra de Mário Pederneiras. E critica a Academia Sueca por não ter outorgado a Ferreira Gullar o Prêmio Nobel de Literatura. Duvidar quem há-de?

De Desdizer o título diz tudo. A obra contém a produção poética do acadêmico até o momento. Nela Secchin escapa de versos com pompa, frases feitas, trocadilhos e outras figuras de gramática como o diabo foge do Crucificado. Esse canto ao inusitado, que faz da arte poética mais semente do que fruto, e menos ainda repouso no certo e bem sabido, esgueira-se por todas as páginas e espanta traças e pó como adversários do novo que celebra a descoberta, e não a consagração, como o fizeram escritores citados no outro livro.

Na passagem do ano de 2002 para 2003, por exemplo, o poeta não deseja alvíssaras do calendário a inaugurar, mas deixa claro que propõe buscar em seus recantos disposição para avançar, não para renascer. Exemplo: “Teu corpo já bem maduro/ sustenta o tempo que virá depois./ Em ti revejo o avesso do futuro, / recém-amigo 2002”.

A poesia da desdita não é triste, como soem ser as baladas de desencontro e despedida. Na batalha contra o conformismo das formas rebuscadas, o autor se arma de um humor militante, quase feroz, quando, algumas páginas adiante, retoma o mesmo tema para mofar das listas de tarefas de virada de ano que compõem o réveillon de muita gente. A mordaz ferocidade torna o aparente retinir de taças de espumantes do título do poema Feliz Ano Novo um estilhaçar de cristais sem dó. Profetiza: “Encontrarás o amor de sua vida,/ inerte, num esquife de partida”. Ao chegar ao último verso, o leitor atento hesitará entre o susto e a gargalhada: “Chegará sorrindo ao Céu sonhado./ Mas é domingo. O portão está fechado”.

A impressão que algum desavisado pode fruir da poesia satírica de Secchin, como em sua militância crítica, é de que ele está atrás da porta, abafando o riso com a mão pelos próprios ardis. Sendo o autor, de ofício, professor de Literatura, pode ter encontrado inspiração na ironia aguda, mas sem amargura, de mestres como o maior de todos, Machado de Assis, e no senso de ritmo que Castro Alves aprendeu com Bocage. Ou ainda em autores contemporâneos de além-mar, casos do iconoclasta Cesário Verde, do polígrafo Fernando Pessoa ou da profunda e precisa Sophia de Mello Breiner Andresen. Mas não se deixe enganar: sua escrita é extremamente pessoal e, também por isso, inimitável.

Secchin sabe ser irreverente, quase blasfemo, no engraçadíssimo Soneto Pio, em que ele escorrega por uma irresistível pornografia profana ao tratar de tradição religiosa com palavras de duplo sentido e rimas ocultas: “E o sacerdote pega no pau, para espantar o exu. / ‘Quem no meu saco um bom óbolo mete?’, / fala um noviço tocando sineta”. Abordando a mais sagrada das formas, a dos sonetos parnasianos, o poeta põe à prova sua decisão de buscar o risco como objetivo, sem a qual a poesia não se realiza em sua forma mais ampla.

O mestre-escola exala conhecimento da teoria literária ao longo do livro todo, mas este leitor deslumbrado não poderia deixar de manifestar sua preferência por uma espécie de manifesto da instabilidade do balanço das ondas do mar e dos limites da grade que detém o voo das aves, num poema sem título que justifica sua veneração de pontífice do rito verbal. “O ar ancora no vazio. / Como preencher / seu signo precário? / Palavra, / nave da navalha, / gume da gaiola, / invente em mim / o avesso do neutro / o não assinalado, / o lado além / do outro lado”. Nessas 12 linhas de retas e curvas pretas sobre o papel, o poeta enfrenta o efêmero, navegando no fio da navalha, uma espécie de Ulisses indo a Ítaca em busca de Madame Satã. No caminho, ele para num porto para soltar o assum preto, cego dos olhos, para voar, mesmo na negra amplidão, solto da prisão do verso de Humberto Teixeira na toada de Luiz Gonzaga. O menestrel rebelde não dá bola para as armas e os brasões do caolho Camões, pois se dispõe sempre a buscar imagens atrás do reflexo do espelho na terceira margem do rio do conto de um prosador que ele conhece bem: João Guimarães Rosa. Aventura infinita, saga maldita, a do poeta na poesia, Gregório de Matos limado por João Cabral.

  • José Nêumanne Pinto. Jornalista, poeta, escritor e autor deBarcelona, Borborema

(Publicado no Aliás, O Estado de S. Paulo, Pag. E3 , domingo 15 de julho de 2018)

Serviços

Percursos da Poesia Brasileira
Editora: Autêntica
368 páginas
R$ 59,80

Desdizer
Autor: Antonio Carlos Secchin
Editora: Topbooks
211 páginas
R$ 50

No Blog: Nêumanne entrevista Elena Landau

No Blog: Nêumanne entrevista Elena Landau

Para Elena Landau, como instituições não funcionam, é hora de refundar o Estado, convencendo pessoas a desistirem de milagreiros e soluções fáceis e erradas

“O Estado brasileiro não precisa apenas ser reformado, mas refundado”, pontua a economista e advogada tucana carioca Elena Landau, entrevistada do Blog do Nêumanne esta semana. Decepcionada com o desempenho da seleção brasileira na Copa da Rússia, a botafoguense e defensora de Neymar Jr. não é pessimista quanto à continuação da discussão da pauta reformista, apesar da desistência da reforma da Previdência. Temerosa pelo futuro da economia, da democracia, do filho e do neto, ela constata que “as instituições não estão funcionando. Governo fraco, Congresso apenas tentando sobreviver, STF rachado, dando péssimo exemplo”. Tudo a leva a crer que “veremos de novo anos perdidos e um encontro com o destino populista autoritário. Na América Latina temos o exemplo do Chile, mas parece que o Brasil escolheu ser Bolívia… ou Venezuela.” Neste ano eleitoral, porém, enxerga uma luz no fim do túnel: “A luz que falta é as pessoas pararem de buscar milagreiros e soluções – supostamente — fáceis”.

Para Elena, as pessoas precisam ser convencidas a deixarem de esperar milagreiros e soluções fáceis

Para Elena, as pessoas precisam ser convencidas a deixarem de esperar milagreiros e soluções fáceis

Elena Landau é economista e advogada formada em ambos os cursos pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde também recebeu o título de mestre em Economia. Foi professora do Departamento de Economia da PUC-RJ e da Faculdade de Direito da FGV-RJ, assessora econômica da presidência do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), diretora do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e consultora e diretora jurídica da Associação Brasileira das Concessionárias de Energia Elétrica (ABCE). Foi ainda conselheira da Vale, da Cemig e da AES e presidente do Conselho da Eletrobrás. Organizadora e autora dos Tomos I e II do livro Regulação Jurídica do Setor Elétrico, autora de diversos artigos nas áreas do Direito e da Economia, com destaque para os temas da privatização, energia elétrica e organização do futebol no Brasil. Atualmente é sócia do escritório de advocacia Sérgio Bermudes, membro do Conselho Consultivo da Comgás e presidente do Conselho Acadêmico do Livres. Escreve um artigo quinzenal no Caderno de Economia do jornal O Estado de S. Paulo.

Elena em palestra na New York University

Elena em palestra na New York University

A seguir, Nêumanne entrevista Elena Landau:

Nêumanne – No início da Copa, enquanto no paredão das redes sociais se atirava em nosso único supercraque, Neymar Jr., mesmo caído, a senhora foi uma rara voz nos meios de comunicação a defendê-lo, numa atitude, mais que generosa lúcida, de vez que importavam duas conquistas: a Copa e o título de melhor jogador do mundo para um brasileiro. A reversão dessas expectativas a surpreendeu, decepcionou ou frustrou? A senhora, como muitos outros, exigia do jogador que se submetesse humilde e democraticamente a perguntas de repórteres na zona mista do estádio em Kazan, em vez de se recusar a isso?

Elena – Fiquei muito impressionada com o que fizeram nas mídias e redes sociais com Neymar. Chocou-me ainda mais o bullying dos próprios brasileiros. A quem interessa isso, a não ser aos próprios adversários? Não sei se foi complexo de vira-lata, incômodo com o sucesso dele, inveja mesmo. Mas foi um assédio virtual inaceitável. Ele é um jogador excepcional. Veio de uma lesão grave e se dedicou à recuperação para a Copa. Foi caçado em campo no primeiro jogo, o juiz não coibiu a deslealdade. Ele se defendeu do jeito que pôde.  Exagera? Quem nunca catimbou em campo? Qual seleção não fez isso? Um falso moralismo sufocando e ignorando o talento. Só quem perdeu foi a seleção brasileira. Mas, ainda assim, ele foi de longe o melhor jogador da equipe, todas as estatísticas mostram isso. Melhor jogador da Copa não virá porque fomos eliminados. Mas seria uma competição difícil: Modric, Griezmann, Hazard. Mbappé, tantos nomes incríveis. Esta Copa mostrou grandes jogadores. Continuo achando nosso elenco o melhor. Não acho que tenhamos jogado mal contra a Bélgica, mas não era nosso dia. A mídia arrasou com Neymar porque ele deveria dar entrevistas num dia tão difícil para ele? Para cobrarem dele os absurdos que falaram dele ao longo dos jogos? Ou para pedirem desculpas? Teve jornalista dizendo que ele precisava de tratamento psiquiátrico. O que vimos em todos os jogos foram jogadores emocionados, vários choraram. E por que só Neymar errou ao chorar? Para a imprensa, o choro dos outros era diferente. As faltas nos outros eram faltas de verdade, as nele, não. Nem depois de um pisão desleal que ele recebeu o agressor levou cartão. Vimos simulações patéticas da seleção inglesa e foram exatamente Cantona e Lineker que liderarem as críticas ao Neymar. Não sei o que faria no lugar dele.

 

Elena discorda dos críticos do desempenho de Neymar na Copa da Rússia

Elena discorda dos críticos do desempenho de Neymar na Copa da Rússia

N – A senhora acha que a conquista, que não houve, da taça produziria um efeito positivo que superaria a própria festa da vitória, mexendo no ânimo dos cidadãos humilhados pelo desemprego em massa, angustiados com a falta de perspectivas pessoais e coletivas e indignados com o comportamento dos figurões do Estado brasileiro na gestão pública?

E – Nunca misturei política, economia e futebol na vida. Não vou começar agora. Foi assim no regime militar quando o tri foi comemorado, apesar da ditadura. A Copa está dando um show. Torcidas, globalização, jogos incríveis. Nem a nossa economia nem a crise política receberiam impacto nenhum do hexa. Claro que serve para memes e piadas. Campeões em 1994 e 2002, com FHC, derrota de 7 a 1 com Dilma. E mesmo com o maior vexame da história da nossa seleção Dilma foi reeleita.

Com Newton Santos e Didi, do Botafogo, este melhor jogador de nossa primeira Copa, em 1958

Com Newton Santos e Didi, do Botafogo, este melhor jogador de nossa primeira Copa, em 1958

N – A senhora, como muitos patrícios de boa vontade, esperava que a boa escolha da equipe econômica pelo substituto da presidente deposta, que, sem dúvida, foi alvissareira, seria capaz de por si só afastar de vez o fantasma assustador da crise, que ainda paira sobre nós?

E – Nunca confiei muito no MDB. O fisiologismo lá faz parte do DNA. Acho que nunca votei no partido. Mas a equipe econômica fez e faz diferença. Este governo interrompeu a recessão profunda herdada de Dilma. A expectativa de retomada de crescimento e emprego não se consolidou, mas estamos muitas vezes melhor que antes. Fui contra o impeachment e continua achando um erro, não pelos argumentos de golpe, porque não foi, mas porque interrompemos uma curva de aprendizado do eleitor, que ainda não entendeu que o lulopetismo é receita certa para fracasso econômico e nada além do velho populismo latino-americano. Muitas reformas avançaram, como TLP, a trabalhista, outras mudanças micro, a discussão sobre Previdência, alterações na governança das estatais. E a equipe não se resume aos seus ex-ministros, pois ambos saíram e a equipe, com Guardia e Esteves, continua sendo uma ilha de sanidade no sanatório geral.

N – A contaminação pelo micróbio da corrupção, que tornou o presidente Michel Temer refém da quadrilha do partido que presidia e lidera, adiou para quando o necessário esforço de reconstrução do Estado brasileiro, a partir de providências irreversíveis como, só para falar de uma, a reforma da Previdência?

E – Se o áudio do Joesley tivesse sido divulgado uns dias depois, a reforma da Previdência teria passado no Congresso. Acho que Temer deveria ter usado seu cacife político para votá-la antes ou junto com a PEC do teto. Depois perdeu a credibilidade e agora só pensa na própria sobrevivência. É refém do Congresso, que decide a pauta conforme os próprios interesses, em geral elevando gastos, e do Judiciário. A crise institucional é evidente. Mas não acho que tudo se tenha perdido, a importância da reforma da Previdência está posta, a intolerância com privilégios também. Outros temas virão: estabilidade do funcionalismo, melhor gestão das políticas públicas, privatização.  O Estado brasileiro não precisa apenas ser reformado, mas refundado.

N – Os efeitos benéficos do limite dos gastos públicos e da reforma trabalhista, o que se salvou, mas ainda assim corre riscos, do esforço da equipe econômica para tirar o Brasil do buraco, ainda têm condições de ser mantidos e tornar possível a retomada das reformas que faltam? Aliás, quais são, a seu ver, as prioritárias?

E – Este ano estamos só cuidando de sobreviver. Estou acompanhando a privatização das distribuidoras da Eletrobrás. Espero que o futuro presidente ponha as reformas para andar. Infelizmente, quem está liderando as pesquisas fala de reformas só no conceito, não nos detalhes, e assim não vejo como vão criar ajuste fiscal. Tanto Ciro como Bolsonaro, se mantiverem o que estão falando até agora, vão piorar a crise fiscal, porque têm visão errado sobre Previdência e a forma de cumprir o teto. As reformas prioritárias, para mim, são as do Estado (gestão, funcionalismo e privatização) e o choque na educação.

N – Fala-se muito em crise de falta de legitimidade de Michel Temer e, por isso mesmo, espera-se, talvez de forma exagerada, que o presidente que vier a ser eleito em outubro, portanto, daqui a três meses. Mas terá ele, ou não, autoridade e força política para impor um programa reformista, mesmo que a renovação do Congresso não nos livre da sabotagem das medidas necessárias pelos políticos privilegiados e suspeitos de corrupção?

E – Ele não terá opção. Ou faz as reformas ou vamos para inflação ou controle de dívida, novo nome para calote. Não há milagre fora das reformas. Previdência, abertura comercial, simplificação e transparência tributária, desonerações, melhoria da gestão pública… E todo presidente começa seu mandato com credibilidade. Tem de ter experiência política e veia democrática para fazer as reformas. Na base do grito, como querem alguns, não passa nada.

N – Até agora não se revelou na campanha presidencial nenhum candidato que tenha assumido, como deveria, o papel de condutor da opinião pública para livrar a sociedade brasileira da marcha do rebanho de ovelhas rumo ao abismo inevitável. A senhora confia que ainda possa aparecer alguém que empolgue os mais de 40% dos eleitores sem candidato consultados pelos institutos de opinião com o discurso de “sangue, suor e lágrimas” de Churchill, que levou o mundo à vitória contra o Eixo nazi-fascista?

E – Não vejo. O melhores nomes, começando pelo meu favorito, Alckmin, não têm esse perfil. Nem Marina. Ao que parece, ninguém quer sangue nem lágrimas, muito menos suor, na construção de solução duradoura. Os líderes na pesquisa são os que estão propondo soluções fáceis, e erradas.

N – Em sua estreia na coluna quinzenal no caderno de Economia do Estadão, a senhora escreveu um artigo sereno, mas demolidor, contra a atitude do ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski, que agiu como líder do sindicato dos privilegiados que levam o País à bancarrota, argumentando com dados jurídicos de grande precisão. O que fazer para levar a cúpula do Poder Judiciário a servir ao cidadão nas lutas contra a corrupção e as benesses dos mandriões do serviço público, e não a funcionar como roleta-russa para a sociedade, como o fez até agora?

E – As instituições não estão funcionando. Governo fraco, Congresso apenas tentando sobreviver, STF rachado, dando péssimo exemplo. Ativismo jurídico, seja para que lado for, é o primeiro dos vícios recentes a serem consertados. O número exagerado de decisões monocráticas dificulta que se firme jurisprudência. Votos vencidos são usados para justificar decisões, ignorando-se posição do colegiado. Um individualismo excessivo, e não um tribunal. Além de bate-boca na frente das câmeras. Tudo isso contaminou instâncias inferiores, como se viu nessa escandalosa manobra recente do habeas corpus pedido no plantão do TRF-4. Difícil será a população entender por que não se aplica o que diz a Lei da Ficha Limpa de forma clara. Por que há fichas-sujas governando com base em liminares? Por que 78 recursos não são suficientes para se esgotar uma questão? Espero que um governo eleito, de perfil democrático, é obvio, consiga liderar um processo de fortalecimento institucional, como fez FHC.

O lado viajante de Elena em Petra, a cidade de pedra na Jordânia

O lado viajante de Elena em Petra, a cidade de pedra na Jordânia

N – A senhora teme pelo destino da economia ou pelo futuro da democracia no caso de vitória da direita neomilitarista truculenta ou da demagogia populista e larápia, que apresentam candidatos que têm mais preferência dos votos nas pesquisas até agora conhecidas?

E – Temo por tudo, economia, democracia, pelo futuro do meu filho, do meu neto. Veremos de novo anos perdidos e um encontro com o destino populista autoritário. Na América Latina temos o exemplo do Chile, mas com essas opções que você cita parece que escolheu ser Bolívia… ou Venezuela.

N – A seu ver, pode surgir ainda este ano uma luz que ilumine e guie no fim do túnel, mas que não seja sarça ardente nem farol do trem descarrilado que se precipita rumo ao abismo?

E – Estou muito pessimista. Os candidatos estão aí. Na minha opinião, o melhor deles é Alckmin. Tem experiência, sabe negociar com parlamentares, é ótimo administrador, tem o melhor resultado na segurança pública do País. O dele é o melhor assessor econômico de todos. E é um democrata. A luz que falta é as pessoas pararem de buscar milagreiros e soluções – supostamente – fáceis.

 

Nêumanne entrevista Elena Landau. 13ª. Edição da Série 10 Perguntas. http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne

Nêumanne entrevista Elena Landau. 13ª. Edição da Série 10 Perguntas. http://politica.estadao.com.br/blogs/neumanne

No Estadão desta quarta-feira: Molecagem nos tribunais

No Estadão desta quarta-feira: Molecagem nos tribunais

Atitudes de Executivo, Legislativo e Judiciário traem e desmoralizam Estado de Direito

A incrível e absurda malandragem perpetrada por três representantes do povo de um partido que diz servir aos trabalhadores e respeitar a democracia, com a cumplicidade de um desembargador federal, no primeiro domingo da Copa da Rússia sem o Brasil, expôs a explícita desmoralização do nosso Estado de Direito. Finda a semana em que os flagrantes delitos no registro espúrio de sindicatos no Ministério do Trabalho afundaram o Poder Executivo no pântano do descrédito, a manobra escusa tentada para retirar Lula da cela pela porta dos fundos foi a gota d’água que inundou as enlameadas cavernas do Judiciário.

Às vésperas de agosto, mês tido como “do desgosto”, o cidadão brasileiro já tinha sido exposto a sórdidos truques de parlamentares, legitimados para legislar em nome do povo. O projeto do deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP) perdoando as dívidas das multas de caminhoneiros e transportadoras que provocaram pane seca e desabastecimento de combustíveis e víveres foi incluído no relatório de Osmar Terra (MDB-PR) que torna o frete mínimo obrigatório. Essa iniciativa do Legislativo, com as bênçãos do Executivo, que distribui verbas do depauperado erário a mancheias entre deputados das bancadas governistas, reproduz hoje a mesma relação sórdida já antes condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O arrombamento da ordem constitucional, que consagra o mercado livre, para resolver uma crise criada pela ousadia dos chantagistas, que expuseram a fragilidade de um governo impopular e desacreditado, não passa de uma versão contemporânea do mensalão, que abriu a temporada de caça aos gatunos.

Durante curto interregno, a cúpula do Judiciário apoiou o combate à corrupção, efetuado por uma geração competente e proba de policiais, procuradores, juízes e desembargadores federais das instâncias iniciais. Isso deu à população espoliada a sensação de que a Justiça sanearia os altos e podres Poderes da República. Mas tal aliança durou muito pouco.

Logo as brechas, pelas quais criminosos de colarinho-branco passavam para ficar fora do alcance da lei, se abriram nas divisões internas da cúpula da atividade judiciária, em que boas iniciativas sempre sucumbiram ao corporativismo e à corrupção. Essas câmaras escuras são percorridas mercê da negação do decantado espírito da colegialidade, do qual somente uma ministra da “Suprema Corte”, Rosa Weber, parece ser adepta. Ao contrário dela, os outros quatro que deram votos vencidos na decisão pela jurisprudência que autoriza prisão de condenados em segunda instância – a dupla Mello e de Mello, Lewandowski e Toffoli – aliaram-se ao pagão novo Gilmar. E a desafiam em capciosas decisões monocráticas.

A tabelinha Lava Jato-STF não resistiu à nada gloriosa entrada dos tucanos nas listas dos delatados da operação. Isso causou a guinada de 180 graus de Gilmar, dos que apoiavam a jurisprudência firmada em três votações de 2016 para os adeptos da distorção de preceitos constitucionais. Essa prática é antiga. Tendo confessado que redigiu artigos da Constituição que não foram aprovados pela maioria do plenário, Nelson Jobim ora é tido por alguns como presidenciável da conciliação em outubro. E o  então presidente do STF Ricardo Lewandowski rasurou cinicamente o artigo da Constituição que proíbe condenados em impeachment de exercer cargo público por oito anos. A canetada, sugerida por Renan Calheiros, permite hoje que Dilma se candidate ao Senado pelo PT.

Quem não redigiu nem rasurou a Carta Magna apela para a leitura errada do artigo 5.º, segundo o qual ninguém é “considerado culpado antes do trânsito em julgado” de seu processo. A extensão da isenção da culpa à proibição da prisão ou à presunção de inocência, finda na segunda instância, não está no dicionário, mas pode ser incluída, mercê do “poder da grana, que ergue e destrói coisas belas” (apud Caetano Veloso).

Recentemente, o ministro Mello soltou traficantes condenados em segunda instância com a mesma desfaçatez com que Gilmar concedeu habeas corpus a clientes da banca da mulher. E Toffoli devolveu o ex-chefe Dirceu, condenado em segunda instância a mais de 30 anos de prisão, ao doce lar. Atribui-se a esse duas vezes apenado (no mensalão e no petrolão) o planejamento da molecagem do desembargador do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), Rogério Favreto, por ele indicado, a desafiar os colegas, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o STF, mandando soltar o mais famoso presidiário do Brasil.

Si non è vero, è ben trovato (se não é verdade é bem pensado), diria don Vito Corleone, O Poderoso Chefão da ficção de Mário Puzo. A fresta parecia promissora para o trio Paulo Pimenta, Paulo Teixeira e Wadih Damous, dois deputados federais e um levado à vaga aberta pela pressão do dirigente Quaquá na prefeitura do Rio. Um dos 27 desembargadores do TRF-4 em seu primeiro plantão teria de ser mais sensível à ideia “original” de que a pré-candidatura de Lula à Presidência seria o fato novo para lhe permitir conceder o habeas corpus pedido à sorrelfa. Meia hora depois do início do plantão do simpatizante na sexta-feira, deram à luz o mostrengo.

Como Toffoli, Favreto serviu a Dirceu. E como Toffoli mandou a jurisprudência da prisão pós-segunda instância às favas. Não havia mais a possibilidade de contar com o relaxamento da classificação do Brasil para a semifinal da Copa, pois a seleção de Tite fora eliminada duas horas e meia antes. Não é correto, então, perguntar se não combinaram com os belgas e pensar que a molecagem, de que a defesa de Lula se fingiu distante, passaria incólume na euforia geral.

Mas quando setembro vier, Toffoli, que como Favreto nunca foi juiz, será presidente do STF e terá à mão o martelo para triturar a jurisprudência dos colegas, Moro, o TRF-4 e o STJ.E tirar Lula da cadeia. Ingênuo será pensar que ele seria menos cínico que Favreto.

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Página 2A do Estado de S. Paulo de quarta-feira 11 de julho de 2018)

 

No Blog: Nêumanne entrevista Afonsinho

No Blog: Nêumanne entrevista Afonsinho

Ícone do passe livre, Afonsinho prega mais força para os clubes

Para “prezado amigo” de Gil, supremacia do futebol brasileiro depende hoje de fortalecimento dos times e de opções de educação e profissões para talentos

Com a autoridade de quem simbolizou o movimento que libertou os craques de futebol da escravidão do passe, que os prendia aos clubes, Afonso Celso Garcia Reis, o meia Afonsinho, do Botafogo do Rio dos tempos de Nilton Santos, Garrincha e Didi, acha que esta é a hora de valorizar esses clubes. Em entrevista ao Blog do Nêumanne, o personagem de Gilberto Gil, invocado no samba Meio de Campo — “Prezado amigo Afonsinho, eu continuo aqui mesmo, aperfeiçoando o imperfeito” –, enxerga no eventual fortalecimento deles o necessário contrapeso para os “empresários”. Estes, segundo o craque, “hoje grupos fortíssimos, intermediários, ganham o protagonismo, porque a ‘cartolagem’ usa o clube como balcão de feira, o torcedor (suporter) é apenas consumidor, não tem peso político, apenas pode fazer arruaça e violência quando o time perde”. Para ele, “as arenas e a multiplicação exagerada de canais de esporte são consequências dessa explosão financeira descontrolada pela sociedade.”

Afonsinho nasceu em São Paulo em 1947. Meia-armador de estilo elegante, foi descoberto no XV de Novembro de Jaú em 1962 e tornou-se conhecido nacionalmente como jogador do Botafogo do Rio, que o contratou em 1965, tendo sido várias vezes campeão e capitão na conquista da Taça Brasil de 1968. Em 1970, no auge de sua forma, foi emprestado para um time de subúrbio, o Olaria, à época treinado pelo supercraque Jair da Rosa Pinto, como punição por ter-se recusado a aparar os cabelos compridos e a barba. Voltou ao alvinegro da Rua General Severiano, mas encostado, e então ficou nacionalmente conhecido por sua luta contra o sistema escravagista de trabalho dos jogadores presos aos clubes nos quais jogavam pelo passe. Foi o primeiro jogador profissional a ganhar passe livre, em decisão do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), em 1971. Somente 27 anos depois, em 1998, a Lei n.º 9615 deu liberdade ao jogador para trabalhar onde quiser, no Brasil. Afonsinho jogou ainda nos times de Fluminense, Flamengo, Vasco, Santos (com Pelé), América de Minas e Madureira. E foi tema da canção Meio de Campo, de Gilberto Gil, dos filmes Passe Livre, de Osvaldo Caldeira, e Barba, Cabelo & Bigode, de Paulo Branco (com seus amigos Paulo Cézar Lima e Nei Conceição), e dos livros Prezado Amigo Afonsinho, de Kleber Mazziero de Souza, e Afonsinho e Edmundo – A Rebeldia no Futebol Brasileiro, de José Paulo Florenzano. Mora em Paquetá com a mulher, Regina, e é médico aposentado da saúde pública.

Nêumanne entrevista Afonsinho

Após deixar o futebol, Afonsinho trabalhou como médico na saúde pública na Ilha de Paquetá, onde, aposentado, hoje mora. Foto (2001): Otavio Magalhães/AE

Após deixar o futebol, Afonsinho trabalhou como médico na saúde pública na Ilha de Paquetá, onde, aposentado, hoje mora. Foto (2001): Otavio Magalhães/AE

Nêumanne – O senhor tornou-se conhecido no Brasil inteiro por sua luta pelo passe livre dos jogadores de futebol, numa época em que a carreira do futebolista se assemelhava ao trabalho escravo. De lá para cá, a Lei Pelé e a Lei Zico mudaram radicalmente esse panorama. A seu ver, essas leis modificaram as relações de trabalho entre clubes e craques para melhor?

Afonsinho – As leis que vigoram no esporte, atualmente chamadas de modo geral de Lei Pelé, mudaram muito pouco para o esporte em geral, sabemos que no Congresso Nacional existem as ditas bancadas do boi, da bala e da bola e o quanto todas são daninhas para a vida no Brasil. As proposições dos projetos do Pelé, Zico e várias outros que os precederam e lhes sucederam vão sendo “depenadas” à medida que passam pelas Casas Legislativas, de modo semelhante a outras de interesse popular. Cada ministro que entra anuncia para breve um Plano Brasileiro de Esportes, mas como é o patinho feio da política vai servindo apenas de moeda de troca. Em relação aos jogadores, mesmo assim mudaram, e muito, para melhor, embora de forma desequilibrada com setores correlatos que se mantêm amarrados (federações, etc.)

N – As novas legislações a que me referi puseram fim à época em que os ídolos dos clubes conquistavam a paixão das torcidas ao longo de muitas temporadas. Dida e Zico no Flamengo, Ademir de Menezes e Roberto Dinamite no Vasco, Garrincha e Quarentinha no seu Botafogo, Castilho e Carlos Alberto no Fluminense, Luisinho e Baltazar no Corinthians, Dudu e Ademir da Guia no Palmeiras, Pelé e Coutinho no Santos. São vários os exemplos. A constante mudança de camisas permitida pelas novas regras do mercado do futebol interferiu na devoção de seus ídolos pelas torcidas?

A – Mudou, sim, e para pior, a ligação dos torcedores com seus “ídolos”, de modo coerente com o funcionamento da sociedade brasileira, seguindo o exemplo clássico da abolição da escravatura negra. Quando o “passe” foi extinto na Europa, depois do processo Bosman, jogador belga que teve situação semelhante à minha algum tempo depois, foi imediatamente substituído pela “multa contratual”. Os clubes passaram a fazer contratos de cinco ou seis anos, de modo a proteger os investimentos feitos nas transferências entre eles. Os jogadores tornaram-se profissionais de fato, garantidos por contratos mais longos e tudo seguiu em frente. No Brasil, ainda hoje, vivemos na “falsa malandragem” de contratos curtos, até de seis meses ou menos (não sendo cumpridos), e vemos divulgados de boca cheia campeonatos de séries A,B,C,D (de profissionais?).

Os clubes que constituem a base larga de sustentação da grandeza do esporte brasileiro vão morrendo à míngua, sem calendário e com custos elevados. Os jogadores “formados” saem logo cedo dos clubes, não firmam uma identidade com os torcedores; fica rompido o elo mais forte que sustenta a paixão simbolizada pelas cores do seu clube; por sua vez, o torcedor é sempre o que move o esporte; independentemente de sistema político e econômico, o clube deve ser sempre a parte mais valorizada.

Afonsinho chegou a atuar no Santos ao lado de Pelé (na foto contra o Palmeiras no Pacaembu, em 1972) . Foto: Domício Pinheiro/JT

Afonsinho chegou a atuar no Santos ao lado de Pelé (na foto contra o Palmeiras no Pacaembu, em 1972) . Foto: Domício Pinheiro/JT

N – De certa forma, sua luta nos anos 60 e 70 do século passado foi visionária, porque de lá para cá o futebol deixou de ser romântico para se tornar o maior espetáculo da Terra, pela frequência dos espetáculos (os jogos e a variedade dos campeonatos) e pelas imensas audiências das transmissões pela televisão, o veículo mais importante de entretenimento e informação de nossa época. Como o senhor acompanhou e encara essa mudança?

A – Tenho pensado muito nesse fato de o futebol se ter tornado um dos grandes negócios da sociedade atual e a Copa praticamente parar o mundo por um mês a cada quatro anos. De cara vem o lado favorável, um fôlego na rigidez da vida cotidiana, um carnaval fora de época. A TV, responsável por essa explosão, está na cabeça do fenômeno, que vem sendo seguido por outros meios de comunicação (mídia) e outros formatos. Vamos ver como vai ficar daqui pra frente. Vejo as mudanças como o processo natural de evolução e, como sempre, o que pega é a distribuição de tudo o que isso produz.

N – A transformação do esporte em geral – e do futebol em particular – em imbatível campeão de audiência gera fortunas tanto para os executivos do negócio quanto para os intermediários (os empresários dos jogadores, hoje os verdadeiros donos de seus passes) e, é claro, as estrelas do show. O senhor sente saudade dos velhos tempos dos estádios ou uma pontinha de inveja dos milionários da bola nesta era das arenas e dos canais de esporte?

A – A todo momento sou instigado pelas pessoas com o raciocínio de não estar metido na Babel em que se transformou a atividade esportiva destes nossos dias. Não me impressiono nem um pouco: minha geração ganhou mais do que as que a antecederam, mesmo as de 58 e 62, que foram as melhores, no meu entendimento, saíram da derrota de 1950, foram bicampeãs e ainda produziram a geração de 1970, da qual fiz parte. Depois disso, foram 24 anos de jejum do período ditatorial. Insisto em dizer que o “clube” deve sempre ser a parte mais valorizada e os “empresários”, hoje grupos fortíssimos, são intermediários, ganham o protagonismo, porque a “cartolagem” usa o clube como balcão de feira, o torcedor (suporter) é apenas consumidor, não tem peso político, apenas pode fazer arruaça e violência quando o time perde. As arenas e a multiplicação exagerada de canais de esporte são consequências dessa explosão financeira descontrolada pela sociedade. Sinto muitas saudades da camaradagem entre os amigos, com os quais não posso conviver por diferentes razões e que são o tesouro maior que amealhei como esportista profissional: ter me tornado amigo do Zizinho, Didi e Nilton Santos, apenas como exemplo para não cometer injustiças com tantos parceiros queridos, é minha fortuna.

Médico aposentado da saúde pública, Afonsinho mora na ilha de Paquetá e guarda fichas dele no SNI. Foto (de 2014): Marcos de Paula/Estadão

Médico aposentado da saúde pública, Afonsinho mora na ilha de Paquetá e guarda fichas dele no SNI. Foto (de 2014): Marcos de Paula/Estadão

N – Desde os tempos do amadorismo marrom, a gestão do futebol já não era um exemplo de honestidade, limpeza e ética. Hoje, mais ainda, com os volumes de dinheiro em jogo, a corrupção é um componente importante em clubes, federações e confederações. Isso se reflete na organização dos torneios esportivos, eivados de suspeitas. Exemplo agora são as investigações policiais na Fifa, na CBF e em outras entidades. Esse aspecto o preocupa? O senhor tem alguma sugestão para combater esse mal?

A – O sistema Fifa tem natureza medieval, estruturada no esquema liga, federação, confederação de poder legado a familiares ou próximos, que apenas se adapta quando é molestado, como agora, nessas crises da CBF e do sistema como um todo. Consegue ser pré-capitalista, é muito atraso.

N – A circulação de fortunas, incomparável com o que acontecia antes, promove também uma distorção de natureza econômica, com os países de economia forte impondo suas regras aos mais pobres. A ida precoce de Vinicius Jr., do Flamengo, Rodrygo, do Santos, e Paulinho, do Vasco, para a Europa, e hoje também para o Oriente próximo e distante, é o exemplo extremo da exportação de craques. Hoje, na condição de ex-jogador e torcedor, o senhor lamenta a abissal diferença entre os campeonatos do Primeiro Mundo e os nossos, com nossos clubes fracos e as seleções ainda fortes?

A – Justamente isso, a contradição aviltante destes nossos dias, ao mesmo tempo que a pessoa com um celular à mão pode resolver tudo o que for necessário para assistir amanhã à final da Copa em Moscou, vemos o horror das correntes migratórias. Os jovens saem dos clubes sem dar sua contribuição ao futebol brasileiro. Exemplo disso foi a transferência oficial de um clube de empresário, como foi o caso do zagueiro Thiago Silva, que foi capitão num dos jogos da seleção brasileira na Copa da Rússia: ele saiu do Fluminense para o PSG da França, mas o vínculo era da Tombense. Pior ainda que, ao se fazerem as contas, os jogadores estão fatiados entre “investidores” e  o clube fica de mãos abanando. Penso que, em pouco tempo, deve haver alguma alteração. Como, por exemplo, o jogador que estiver vinculado a uma determinada federação por algum tempo (de três a cinco anos, talvez) poderá jogar pelo respectivo país automaticamente. Messi é o exemplo mais gritante: um dia é o melhor do mundo. no dia seguinte não joga nada (???!!!). Absurdo!

Com cabelos e barbas longas, Afonsinho foi símbolo da rebeldia no futebol brasileiro dos anos 60 em diante. Foto: Arquivo/AE

Com cabelos e barbas longas, Afonsinho foi símbolo da rebeldia no futebol brasileiro dos anos 60 em diante. Foto: Arquivo/AE

N – Em plena Copa do Mundo na Rússia, com o Brasil vivendo a pior crise moral, social, política e econômica da História, nos vemos diante daquelas velhas reclamações contra o fanatismo pela seleção, visto como alienação política, apontada como a maior culpada pela degradante situação de nosso povo e pela amoralidade explícita de nossa elite política dirigente. Mas essas queixas têm razão de ser?

A – Definitivamente. o esporte não é o ópio do povo. A política é a razão que está ao fundo de tudo, mas é apenas um momento da vida em sociedade. E de que a elite brasileira é perversa estamos tendo mais uma demonstração inequívoca…

N – O que o senhor viu até agora na Copa que está sendo jogada na Rússia é suficiente para animá-lo em relação à melhora da qualidade do jogo, à limpeza na condução administrativa do negócio do futebol e às perspectivas dos jovens craques que ainda se formam nos campos de pelada do Brasil?

A – Infelizmente, não! Mesmo quando a Copa já tiver 64 participantes, como se anuncia, ainda é muito pequeno o número de jovens que passam pelo funil estreito. Como sugestão, penso que deveria haver um equilíbrio entre o que se exige dos jovens, o que o esporte toma de seu tempo e o que os clubes oferecem de garantia para seu futuro. O caso é o seguinte: em qualquer rincão do País os clubes veem e ouvem na TV e no rádio que houve treino em tempo integral, musculação, regeneração e não sei o que mais, que outra atividade, e procuram fazer a mesma coisa, ocupando sem contrapartida o tempo de formação profissional e humana do jovem. E o que fará depois, se ele não se tornar jogador profissional e tiver outras obrigações, familiares, por exemplo?

N – Como médico, o senhor tem a oportunidade rara entre os membros da classe média do Brasil de conviver com as carências absurdas e desumanas em que vive nossa população mais pobre. O que mais o comove e o indigna em seu contato permanente com a realidade dura de seus clientes?

A – Aposentei-me recentemente como médico de Saúde da Família, estando bem próximo do dia a dia das situações mais agudas da maioria da população brasileira, apenas uma confirmação de que a questão é política, de injustiça social profunda.

N – Cresce no Brasil uma sensação geral de impotência, desconfiança, falta de credibilidade e até desespero em relação a nossas perspectivas, agora que estamos a quatro meses de eleições gerais. Quais são as suas expectativas quanto ao pleito e também à capacidade da sociedade de virar o jogo e melhorar nossas condições de vida?

A – As eleições, se houver, serão apenas mais um momento na dinâmica da população relegada à luta pela sobrevivência, calejada, outra vez diante do sufoco obrigada a seguir procurando a saída. Um abraço!

(Publicada no Blog do Nêumanne na quarta-feira 4 de julho de 2018)

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