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Jornalismo

Comentário no Jornal da Gazeta da terça-feira 26 de agosto de 2014

Comentário no Jornal da Gazeta da terça-feira 26 de agosto de 2014

 

Espectro de Celso Daniel paira sobre a eleição

Nesta quarta no Estadão: “Fantasma de Celso Daniel assombra companheiros”

Nesta quarta no Estadão: “Fantasma de Celso Daniel  assombra companheiros”

José Nêumanne

“Dívida” de Ronan com Valério revela conexão entre morte do prefeito, mensalão e doleiro

Quem poderia imaginar que na quarta campanha presidencial posterior ao aparecimento do cadáver do prefeito de Santo André licenciado para coordenar o programa de governo da candidatura vitoriosa de Luiz Inácio da Silva, do PT, o fantasma de Celso Daniel deixaria o limbo para assombrar seus companheiros? E, pelo visto, o espírito vindo do além não se limitou a puxar o dedão do pé de uns e outros em sono solto, mas deixou-os a descoberto em pleno inverno. Para sorte deles, este inverno não tem sido tão gélido assim. Mas a alma é fria que só. E como é!

Sábado, em reportagem assinada por Andreza Matais, de Brasília, e Fausto Macedo, este jornal noticiou que a Polícia Federal (PF) apreendeu no escritório da contadora Meire Poza, que prestou serviços ao famigerado doleiro Alberto Youssef, contrato de empréstimo de R$ 6 milhões. O documento, assinado em outubro de 2004, reconhece dívida de tal valor, a ser paga em prestações em 2004 e 2005 pelas empresas Expresso Nova Santo André e Remar Agenciamento e Assessoria à credora, a 2S Participações Ltda. A primeira pertence a Ronan Maria Pinto, empresário do ABC e personagem do sequestro e morte de Celso Daniel, cujo cadáver foi encontrado no mato em Itapecerica da Serra em janeiro de 2002. A 2S pertencia ao publicitário mineiro Marcos Valério Fernandes de Souza, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por formação de quadrilha, corrupção ativa, lavagem de dinheiro, peculato e evasão de divisas a pena de 37 anos, quatro meses e seis dias e multa de R$ 3,062 milhões.

O elo encontrado pelos federais entre o assassinato do principal assessor de Lula na campanha presidencial de 2002, o escândalo de corrupção do mensalão e as denúncias apuradas na Operação Lava Jato, protagonizadas pelo doleiro acusado de lavar R$ 10 bilhões de dinheiro sujo, estava numa pasta identificada como “Enivaldo” e “Confidencial”. A PF supõe que este seja Enivaldo Quadrado, condenado no mensalão.

A investigação em que o juiz federal Sérgio Moro encontrou provas suficientes para mandar prender o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa, que substituiu Sérgio Gabrielli na presidência da empresa 24 vezes, apurou que a corretora Bônus Banval não era de Enivaldo Quadrado, mas, sim, de Alberto Youssef. Costa, que o ex-presidente Lula, conforme testemunhos citados no noticiário do escândalo, chamava de Paulinho e teria oferecido ajuda nas investigações em troca de alívio na pena (pelo visto, ele conta até com a eventual liberdade), tem sido motivo de aflição de gente poderosa na República, temendo que suas revelações cheguem a comprometer a realização das eleições gerais de outubro.

O que já se sabe sem sua ajuda é grave. E a entrada em cena do espectro de Celso Daniel – que não é Hamlet, mas já expôs parte considerável da podridão que reina nestes tristes trópicos –, se não alterar o calendário eleitoral, abalará significativamente a imagem de vários figurões que disputam o posto mais poderoso de nossa velha e combalida República.

Em depoimento ao Ministério Público (MP) em dezembro de 2012, também revelado pelo Estado, Valério, chamado pejorativamente de “carequinha” pelo delator Roberto Jefferson, seu colega no banco dos réus do mensalão, contou que dirigentes do PT lhe pediram R$ 6 milhões a serem destinados ao empresário Ronan Maria Pinto. Conforme o depoente, o dinheiro serviria para calar Ronan, que estaria chantageando Lula, o secretário da Presidência, Gilberto Carvalho, e o então chefe da Casa Civil de Lula, José Dirceu. Gilberto Carvalho, conforme se há de lembrar quem ainda não perdeu a memória, tinha sido secretário de Celso Daniel e foi acusado pelos irmãos deste de transportar malas com as propinas cobradas de empresários de ônibus em Santo André para Dirceu, à época presidente do PT.

De acordo com a reportagem do Estado no sábado, há 20 meses “o PT não se manifestou oficialmente, mas dirigentes declararam que ele não merecia crédito”. Com a descoberta do documento, contudo, parte da versão de Valério – a que se refere à “dívida”, embora não se possa afirmar o mesmo em relação ao motivo desta – deve ter passado a merecer crédito, se não do PT, ao menos da PF. Crédito similar, por exemplo, ao dado pelo partido no poder federal ao chamado “operador do mensalão” quando o mineirinho emergiu como o gênio do esquema de distribuição de dinheiro, que o relator do processo no STF, Joaquim Barbosa, desvendou de maneira lógica e implacável.

O documento assinado por Valério nos papéis da contadora do doleiro acaba com qualquer dúvida, se é que alguém isento e de boa-fé possa ter tido alguma, de que nada há a imputar de político ou fictício à condenação de Dirceu, Valério, José Genoino e outros petistas de escol a viverem parte de sua vida no presídio da Papuda, em Brasília. Isso bastaria para lhe garantir a condição de histórico no combate à corrupção. Mais valor terá se inspirar o MP estadual a exigir da Polícia Civil paulista uma investigação mais atenta e competente sobre a morte de Daniel.

Ao expor a conexão entre o assassinato do prefeito, a compra de apoio ao governo Lula e a roubalheira desavergonhada na Petrobrás, a dívida contraída por Ronan põe em xeque todos quantos, entre os quais ministros do Supremo, retiraram a “formação de quadrilha” da lista de crimes cometidos por vários réus do mensalão. Negar a prática continuada por mais de dez anos de um delito em bando formado pelos mesmos personagens conotaria cinismo e até cumplicidade.

A delação de Paulo Roberto merecerá um prêmio, sim, se ele for capaz de informar quem são os verdadeiros chefões nos três delitos. Acreditar que possam ser um menor da favela, um publicitário obscuro e um doleiro emergente seria como nomear Papai Noel ministro dos Transportes.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. A2 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 27 de agosto de 2014)

Comentário no Jornal da Gazeta de quinta-feira 21 de agosto de 2014

Comentário no Jornal da Gazeta de quinta-feira 21 de agosto de 2014

 

Adams usa AGU como se significasse Advocacia Geral da Gracinha…

Comentário no Jornal da Gazeta de 15 de agosto de 2014

Comentário no Jornal da Gazeta de 15 de agosto de 2014

 

Sem Campos eleição e futuro da política no País viram pelo avesso:

Nesta quarta, no Estadão: A covardia da solidão e a garantia da impunidade

Nesta quarta, no Estadão: A covardia da solidão e a  garantia da impunidade

José Nêumanne

Interferência em verbetes de jornalistas na Wikipédia viola liberdade de opinião

A internet é o paraíso dos covardes e lhes dá a garantia da impunidade. Diante do computador, praticamente ao arrepio da lei, o poltrão sente-se deus, um titã implacável e agressivo, como Jeová no Velho Testamento, não seu compassivo filho no Novo. O autor destas linhas já sentiu isso na pele quando provou e se viciou numa droga que não faz mal ao organismo, mas praticamente anula o tempo e escraviza e expõe o adicto às vicissitudes e misérias da alma humana. Disso ninguém escapa. Nem Chico Buarque de Holanda, que uma vez mestre Millôr Fernandes chamou de “unanimidade nacional”. O compositor inspirado e censurado na ditadura, mimado por todos, cortejado nas ruas, descobriu-se odiado ao seguir o próprio apedrejamento moral na internet e nas redes sociais, como se fosse uma adúltera bíblica.

A rede mundial dos computadores é a ágora eletrônica do boato não confirmado e iniciativas tidas como exaltação à liberdade de expressão, caso da enciclopédia virtual Wikipédia, o paraíso achado de biógrafos não autorizados. Em seus verbetes, poder, prestígio, fama e glória viram cinzas nas mãos de qualquer caluniador com um ratinho ao seu alcance.

Em 2012, a revista CartaCapital fez reportagem de capa acusando o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes de “sonegação fiscal, de ter viajado em aviões cedidos pelo ex-senador Demóstenes Torres, de intervir em julgamentos em favor de José Serra, de nepotismo e testemunho falso ao relatar uma chantagem do ex-presidente Lula para que adiasse o processo do mensalão para depois das eleições municipais de 2012”. Segundo a “enciclopédia livre” relata em seu verbete até hoje, “a revista repercute acusações de certos movimentos sociais (quais?) de ele ser o ‘líder da oposição’, de estar destruindo o judiciário e de servir a interesses de grandes proprietários”. E faz uma concessão: “Mendes porém (sic)  volta a afirmar não ser o líder da oposição”. Dois anos depois, sem que nada tenha sido provado, Mendes atua no STF, mas o registro permanece.

A liberdade de que a enciclopédia virtual se jacta em seu lema e slogan dá ensejo à disseminação da maldade e serve de pretexto à impunidade de quem, por qualquer motivo, seja ódio pessoal, seja interesse político, resolver atirar na lama a reputação de qualquer desafeto. O fato de a imagem de um poderosíssimo dirigente do poder judicante da República se tornar impotente diante da aceitação generalizada de que prevalece o direito da liberdade de divulgar também mentiras é prova irrefutável de que na prática nada há a fazer para evitar que o veneno da maldade comprometa a fama de qualquer um. No reino da futrica cibernética, ninguém tem como defender a própria intimidade.

Na semana passada, contudo, surgiu um fato novo que pode esclarecer a origem de certas calúnias e levar à descoberta de caluniadores que devem, enfim, ser levados às barras dos tribunais e julgados por ofensas criminosas graves contra a honra alheia. Na sexta-feira 8 de agosto, o jornal O Globo, do Rio, noticiou que Miriam Leitão, sua colunista de economia, e Carlos Alberto Sardenberg, comentarista da rede de emissoras de televisão da empresa, tiveram seus perfis na Wikipédia alterados por mensagem transmitida pelo IP 200.181.15.10, da Presidência da República. Miriam teve análises desqualificadas como “desastrosas” e foi acusada de defender em sua coluna os interesses do milionário baiano Daniel Dantas, do grupo Opportunity. No mesmo IP do computador instalado no Palácio do Planalto, onde a presidente Dilma Rousseff despacha, Sardenberg foi “incriminado” por ser irmão do economista Rubens Sardenberg, funcionário da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), o que contraria o solerte autor das emendas aos perfis da Wikipédia. “A relação familiar denota um conflito de interesse em sua posição como colunista econômico”, escreveu. “Uma canalhice”, disse-o bem o ofendido.

Ao tomar conhecimento da lambança, a presidente Dilma Rousseff considerou “inadmissível” a intervenção do usuário do computador na sede do poder republicano e informou que abriu sindicância para descobrir e punir o autor da “baixaria” (apud novamente Sardenberg). “Esse tipo de ação é abominável. Faremos de tudo para punir duramente”, ecoou o secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. A Nação espera que a aparente indignação de dois dos mais poderosos usuários dos computadores instalados no Planalto resulte na identificação e exemplar punição do “aloprado” revisor de perfis de jornalistas independentes que desagradam a companheiros de partido de ambos.

O episódio não se circunscreve ao disparo a esmo de injúrias contra inimigos, abusando da “vulgaridade prazerosa” a que se refere o especialista Luiz Flávio Gomes ao debater o dilema da intimidade invadida e da “extimidade” procurada na internet e nas redes sociais. O intruso que feriu a honra dos dois jornalistas não pode sequer alegar o surrado pretexto de estar exercendo o seu direito de se expressar na “enciclopédia livre”. Nada disso: possivelmente se aproveitando do acesso ao computador a ser usado por funcionários públicos na sede do poder republicano, ele se arvora em censor da opinião de dois profissionais respeitados pelo público que lê a coluna ou vê o comentário. Cabe ao leitor e ao telespectador dar ou não crédito às opiniões que ambos enunciam. E cabe ao governo federal tratar o caso como crime.

Mas não basta limpar a sujeira debaixo do tapete e seguir pisando nele como se fosse um caso isolado. Não é. A disputa eleitoral é o cenário ideal para a disseminação desse delito. A covardia da solidão diante da máquina não pode usufruir a garantia da impunidade, não só porque o direito da liberdade de interferir assim na biografia de alguém termina onde começa o direito de este atuar livremente. Mas também porque isso configura canalha violação do direito de opinião.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag.A2 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 13 de agosto de 2014)

Adones Alves de Oliveira. Um amigo boa pinta, bom papo e boa praça.

Adones Alves de Oliveira. Um amigo boa pinta, bom papo e boa praça.

José Nêumanne

Jornalista, poeta e escritor

Recolhendo dados sobre meu querido e velho amigo Adones Alves de Oliveira, repassados pela viúva, Helô Machado, e pelo primogênito Felipe, escrevi um pequeno perfil para o obituário do Estadão. Logo na primeira frase topei com um mistério: por que cargas d’água o pai dele o teria ido registrar em outra cidade, em outro Estado? Adones nasceu na zona rural de Equador, hoje município, mas à época distrito de Parelhas, Rio Grande do Norte, e foi registrado em Santa Luzia do Sabugi, na Paraíba. Um relato simples e curto da historiadora Maria Isabel Pimentel de Castro Pinto, minha mulher desde 9 de junho último, me esclareceu tudo.

 

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Adones Alves de Oliveira

Isabel é neta de Ageu de Castro, dentista, farmacêutico, rábula e  revolucionário de 1930, personagem de causos que José Américo de Almeida contava e Sebastião Nery reproduziu em livros. Ele foi um político de destaque nos dois Estados vizinhos e ocupou várias prefeituras. Uma delas, a de Parelhas. Ela me esclareceu que foi seu avô quem deu esta denominação ao distrito, porque ele e a população não se conformavam com a denominação fescenina que a tradição cunhou: Priquito de Maria. Esclarecido o mistério: Adones nasceu na zona rural do vilarejo que ainda tinha um nome impublicável quando se deu o parto de dona Clotilde. João Caetano, o pai, preferiu registrá-lo num lugar de nome menos profano e mais sagrado: o da santa padroeira da visão. Não ficou esclarecido? Pois é: coisas do sertão!

Este sertanejo aqui cruzou com Adones sem saber, antes sequer de conhecê-lo. Regina Coeli, minha primeira namorada, minha noiva, minha primeira mulher, mãe de meus filhos, avó de meus netos, morava no Ponto de Cem Réis em Campina Grande. Quando ia me encontrar com ela na bodega de seu pai, seu Aluísio Felizardo, descia a rua João Alves de Oliveira, nomeada em homenagem a um parente bem mais velho dele.

Também conheci-o pelas mãos de uma mulher bonita: Helô Machado, que trabalhava no arquivo da Folha de S.Paulo, em cuja redação eu era repórter da editoria local. Eles eram casados e o primogênito, Felipe, era criança quando passei a frequentar seu apartamento na rua Dr. Veiga Filho, em Higienópolis. Numa festa dessas, Belchior, que, graças à ajuda de Adones e à minha, morava numa casa em construção de Irede Cardoso, colega de Helô e minha na Folha, terminou Como nossos pais. No mesmo lugar, comemoramos a decisão de nossa amiga comum Elis Regina gravar a canção e transformá-la num clássico da música popular brasileira.

 

Adones e Helô

Adones e Helô

Fazia parte de nosso folclore particular a história de Adones levando Helô, filha de coronel da PM paulista, portanto criada com conforto na Pauliceia Dilacerada, para passar a lua de mel em Junco do Seridó, no alto da Serra da Viração, a meio caminho entre Equador e Santa Luzia e perto de Caicó, onde nosso amigo cursou o primário. Conheci bem o Junco. Quando se quer dizer que uma cidade é pequena, diz-se que só tem uma rua. Junco tinha meia. À beira da estrada, meninos vendem excelente castanha de caju torrada. E foi a estrada (o princípio da BR230, que termina na Transamazônica) que permitiu que ela tivesse futuro. Antes ficava fora do caminho. Com a rodovia, ficou literalmente no meio do caminho. Eu estudava no Instituto Redentorista Santos Anjos, em Bodocongó, Campina Grande, e passava férias na casa de meus pais em Uiraúna, no sertão do Rio do Peixe, também limítrofe com o Rio Grande do Norte. Antes de chegar o asfalto, o ônibus parava no posto de João Galo para um lauto e gostoso café da manhã preparado pela excepcional cozinheira dona Lourdes, mulher do dono. Um doido local, Barrão 70, ruivo sarará e feliz proprietário de um único dente na boca inteira, carregou as malas do casal para a casa de um primo de Adones, Dr. Zequinha, local escolhido para a lua de mel.

Adones com Isabel e Nêumanne no Bar do Nelson, de Lilian Gonçalves

Adones com Isabel e Nêumanne no Bar do Nelson, de Lilian Gonçalves

Pouco antes de nosso casamento, Isabel e eu recebemos Adones em casa para um almoço em família. Adones era primo do dr. Zequinha, ou seja de Alexandre Tabajara, meu sogro. Para completar as coincidências, Isabel passou a infância andando de bicicleta na meia rua do Junco. Isabel e eu o encontrávamos frequentemente no Shopping Higienópolis. Conversávamos sobre os Balduíno, fundadores de cidades sertanejas e parentes de ambos ou amigos do passado no Pedro II, Franco Paulino, e em redações: Antônio Torres, do Última Hora de São Pauloo, Cícero Afonso Vieira, lendário chefe de revisão da Folha, e Mário Leônidas Casanova, do Estadão, principalmente. Este papo já faz falta em nossas vidas.

 

Reproduzo abaixo dois textos: o que escrevi para o Estado e o discurso de Felipe na missa de sétimo dia em que encontrei muitos antigos companheiros das redações que freqüentamos da Folha e do Estadão.

Aí vão, se lhe interessar:

 

Adones, 77 anos e 2 meses, jornalista

Adones Alves de Oliveira nasceu em 15 de setembro de 1936 numa fazenda perto do distrito  de Equador, município de Parelhas, no Rio Grande do Norte, mas foi registrado numa cidade próxima, Santa Luzia do Sabugi, no Seridó paraibano, notório pela boa fibra de seus algodoeiros e pela animação das festas juninas. Estudou no internato do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, cidade onde cursou a faculdade de Filosofia e Letras e se tornou profissional de jornalismo na Revista Radiolandia e no jornal Última Hora. Em 1964, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou no Última Hora e, em 1966, entrou na Folha de S.Paulo como repórter, redator e cronista de TV e MPB. Especializou-se, então, na cobertura dos festivais de Música Popular Brasileira, nas TVs Excelsior e na Record, e no Festival Internacional da Canção, da Globo. Foi jurado nos dois últimos. Atuou como galã de fotonovela e fez parte do elenco do filme Bebel, a Garota Propaganda, de Maurice Capovilla.  Nos anos 70, trabalhou como repórter e editor de variedades do Estado de S. Paulo.  Nos 80, fez parte da redação da revista Visão e se dedicou à área de turismo: escrevendo para o Shopping News e Brasilturis, viajou pelo mundo inteiro. Casou-se com a também jornalista Helô Machado, paulistana, e com ela teve dois filhos, Felipe, que dirigiu o portal do Estadão, e Fernando, executivo da indústria fonográfica, e duas netas, Isabel e Laura, ambas de 7 anos. Morava sozinho em Higienópolis e foi surpreendido, à noite, por um infarto fulminante no miocárdio.

 

Um homem vestido de sol

Felipe Machado

A lógica natural da vida exige que todo homem, mais cedo ou mais tarde, pronuncie as temidas palavras que ameaçam dobrar a esquina desde os tempos em que o menino descobre que ninguém vive para sempre.

Meu pai morreu.

Por mais que seja aparentemente contraditório, o mais difícil não é dizer essa frase dezenas de vezes em voz alta, quando a vida em sociedade torna necessário espalhar a triste notícia entre amigos e familiares. É muito mais dolorido quando chega o momento de tentar entender e contar o que aconteceu para si mesmo, longe do carinhoso ruído e das pesadas lágrimas de quem quer sofrer junto.

É o momento mais solitário e, ironicamente, o mais universal. Os que não passaram por isso, passarão. Os que já passaram compartilham o sentimento do navegante que se vê perdido no mar após olhar ao redor e perceber que o farol se apagou.

Mais que um farol, meu pai era um sol. Por várias razões. Pelas mais poéticas, diria que ele foi um ser que irradiou luz e fez girar em sua órbita corpos celestes e terrenos, atraídos por sua inteligência, simpatia e carisma. Pelas razões mais simples, diria que ele era um sol porque andava cada vez mais obcecado pelo calor, pela sensação dos raios solares cortando sua pele como lâminas de luz. Se pudesse escolher, tenho certeza de que nessa última viagem ele teria se vestido apenas de sol.

Meu pai viajou tanto na vida que enjoou. Depois de tanto tempo escrevendo sobre música e arte, foi escrever sobre o mundo. E gostou. Engraçado porque sempre me lembro dele voltando de algum lugar, nunca indo. Talvez eu tenha ficado com essa impressão porque viajar é sempre uma folha em branco, colorida com opiniões e impressões somente depois que se volta. As palavras, suas únicas companheiras constantes em todas as viagens, esperavam ansiosamente até chegar em casa para poder descansar das aventuras nas folhas de papel.

Antes das viagens, meu pai escreveu sobre música. Acho que foi sua grande paixão, mais forte do que o cinema, a literatura, a arte. Tinha orgulho de ver o sobrinho, meu primo Pedro, dividir o palco com as maiores orquestras do mundo. Nos últimos tempos, quando a saúde o obrigou a ficar mais introspectivo, a música se tornou ainda mais parte da sua vida, do seu corpo, da sua alma. Como nós respiramos, comemos e dormimos, meu pai ouvia música.

A vida do meu pai foi uma sinfonia. O primeiro movimento começou devagar, Andante, nos confins do Sertão do Brasil. Os documentos diziam que o filho da minha avó Clotilde e do meu avô João Caetano veio ao mundo em 15 de setembro de 1936 em Santa Luzia, Paraíba, mas ele insistia em dizer que havia nascido em uma fazenda no meio do nada em Equador, Rio Grande do Norte. O amor pelo sol deve ter nascido aí. Ao remexer em papeis antigos, descobri coisas e histórias que ele nunca me contou em vida – e nunca mais contará.

Resta ler que ele fez o primário no Ginásio Diocesano Seridoense, em Caicó, Rio Grande do Norte, uma cidade da qual eu nunca ouvi falar. Como um dos seus irmãos ficou no Rio Grande do Norte, um outro foi para Pernambuco e os outros ficaram na Paraíba, nunca pensamos na infância do meu pai em termos geográficos muito bem definidos: para nós, o lugar de origem do meu pai, o paraíso encontrado onde eu e meu irmão passamos tantas férias, era, simplesmente, o Nordeste.

O segundo movimento da sinfonia Adoniana, Presto, começou com uma viagem que mudou sua vida. Em 1951, o corajoso garoto de quinze anos chegou sozinho ao Rio de Janeiro, para estudar no prestigioso internato Colégio Pedro II. De lá sabemos apenas que fez grandes amizades e desenvolveu o amor pelo cinema, a música e as palavras. Gostou tanto delas que entrou para a Faculdade Nacional de Filosofia, onde cursou Letras Neo-Latinas. E de lá saiu direto para a redação da revista Radiolândia, onde passou a escrever sobre os artistas e as paradas de sucesso.

Em 1960 começa o terceiro e fortíssimo movimento dessa sinfonia: Adones muda-se para São Paulo para escrever no jornal Última Hora. E daí vieram os convites para ser jurado dos grandes festivais, os empregos nos grandes jornais da cidade, Folha e Estadão, as assessorias de imprensa para políticos, as bienais de arte, as intermináveis viagens. Ainda na Folha, conheceu uma jornalista chamada Helô Machado, por quem se apaixonou. Como não se apaixonar? Minha mãe era linda, talentosa, chique. E continua assim até hoje.

O quarto e último movimento da sinfonia do meu pai combina com seu nome. Adágio, Adones. Aposentado, passou a curtir a vida lentamente. Aproveitou para brincar com as netas, Bebel e Laura, conversar com os amigos na praça, passear por Higienópolis, bairro onde se sentia verdadeiramente em casa. O lugar, aliás, que escolheu para viver e morrer, em 24 de julho de 2014.

Meu pai morreu.

 

Adones e Felipe bebê

Adones e Felipe bebê

É duro para um filho dizer isso, mas não sei se cheguei a entender meu pai. A amar, sim, claro, mas acho que nunca cheguei a compreendê-lo direito. Não sei se esse sentimento também é universal, mas para mim meu pai foi um enigma. Nunca se abriu, nunca foi de contar muitas histórias da infância. Conversávamos sobre as músicas dos outros, os livros dos outros, a vida dos outros. E agora tento descobrir quem ele realmente era sem sua presença, lutando para entender as pequenas letras nos diários esquecidos em caixas no fundo do armário. Não há legendas, nem rodapés de página para explicar. As memórias morreram com ele, uma pena. Só nos resta ficar aqui, eu, minha mãe e meu irmão, sozinhos, pensando como seria a vida que nunca mais será.

 

 

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