Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Jornalismo

No Estadão: Chamando a crise pra dançar

No Estadão: Chamando a crise pra dançar

José Nêumanne

Dilma não vai se safar desta se só se livrar da dupla aloprada Freddie Mercury e Pepe Legal

Assim como um adivinho preveniu Júlio César na rua que os idos de março poderiam ser-lhe aziagos, não faltou quem aconselhasse mudança de atitude à presidente Dilma Rousseff para ela recuperar poder e prestígio antes de chegar um abril ainda pior. Segundo xeretas palacianos, seu inspirador, pai político e profeta de plantão Luiz Inácio Lula da Silva o fez aos berros. Ex-aliados, amigos de ocasião e adversários de sempre insistem na tese, mas ela faz “ouvidos de Mercadante”, no exato trocadilho do professor Cláudio Couto.

Dois membros recentes de seu novo primeiro escalão preferiram pular fora do bote furado antes que este fizesse água em plena seca. No documento “sigiloso” encaminhado a ela própria pelo secretário da Comunicação, Thomas Traumann, ficou patente a confissão do pior dos crimes para uma gestão que se jacta de servir a um real, embora debilitado, Estado Democrático de Direito: a mistureba rastaquera do que é de César com o que é de Deus, ou do diabo: o culto à personalidade, o interesse do partido e os cofres da Viúva. A confissão pode ter passado batida na leitura do documento pela destinatária, mas não dos pobres coitados da planície que bancam a farra, entre os quais o autor destas mal traçadas linhas. Ao contrário de Brutus, que César havia escolhido para sucessor, Traumann apunhalou-a à distância, sem dar à chefona sequer a oportunosa ensancha de parodiar Suetônio: “Até tu, Thomas?”. Foi para o exterior, à espera de ter a traição premiada com o doce abacaxi da assessoria de comunicação da Petrobrás arrombada.

Cid Gomes estrelou “Os 300 de Sobral” em palco de circo mambembe, mas não conta mais com a mão amiga dela. Chutou o balde da coalizão governista e enfiou a peixeira no presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), mas fez sangrar a “presidenta” no lado oposto da Praça dos Três Poderes. Constatando a lorota da “Pátria Educadora”, preferiu bancar o Jânio Collor em 2018, esquecendo o malogro do mano Ciro em idêntica intentona.

Não se sabe ao certo se foi Cid que preferiu desertar do exército dos que combatem à sombra dos escudos inimigos ou se foi a “generala” que o defenestrou. Mas não há dúvida alguma de que, como nunca antes aconteceu na história deste país, o distinto público, que paga os vencimentos de todos os personagens desta tragicomédia bufa, ficou sabendo da demissão pela boca do presidente da Câmara, até então tido como desafeto. Como no Flamengo x Vasco do Maracanã no domingo, o goleiro Oliva, filho e irmão de briosos generais, rolou a bola no campo molhado para o ex-amigo de Garotinho bater a gol (como Alecsandro, artilheiro rubro-negro) e correr para a galera, com guarda-chuva e galocha.

Terá sido por isso que esta semana começou com a notícia de que parte do conselho do padim Lula de Caetés será aceita e o Freddie Mercury da dupla com Pepe Legal Vargas ficaria no emprego, mas não seria mais o articulador político? Ainda é duvidoso que a surdez aos apelos de aliados da coalizão possa confinar o ministro ao gabinete na função de subcarimbador de colegas. Não é pouco! Mas para quem se acha capaz de repetir a experiência de Richelieu no Paranoá não deve ser muito agradável perder o poder de dar as cartas na barganha. O eventual roque de Mercadante no xadrez do Planalto, contudo, é lana caprina em comparação com a tarefa árdua que a chefona do governo tem de amansar a massa.

Com 84% dos entrevistados do Datafolha dizendo que acham que ela sabia da roubalheira na Petrobrás, resultando em só 13% de quem avalia seu governo de bom a ótimo, Dilma não terá vida fácil. Vai ser difícil evitar que a maior concentração popular com a camisa da seleção (e depois dos 7 a 1 da Alemanha!) da história nos idos de março seja superada pela que se reunirá de novo nas ruas das cidades brasileiras em 12 de abril. O sangue de Traumann, Cid e Mercadante não saciará a sede da massa.

Sem ter o diagnóstico certo do mal que assola sua gestão, Dilma apelou para o receituário de sempre, aconselhada por algum “assessor para assuntos aleatórios”. Disseram-lhe que o povo não tem foco, como se a miopia tivesse ido à rua, e não ficado, como ficou, no palácio. Miguel Rossetto, o porta-voz de uma alocução só e o mais breve de todos os tempos e em qualquer governo, disse que só protestou quem não votou nela – uma absurda agressão sofrida pela aritmética dos antigos egípicios. Pois se 62% dos entrevistados acham seu governo ruim ou péssimo, não há como algum eleitor de Dilma – com 51,64% dos votos válidos no segundo turno, segundo o Tribunal Superior Eleitoral – não estar frustrado com madame.

Para tirar de foco o “Fora Dilma”, o governo tenta vender a ideia de que este foi um breve contra a corrupção, uma queixa genérica. E, aí, ressurgiu a velha lorota do pacote de leis anticorrupção, medida a que ela já tinha apelado na resposta às manifestações populares de junho de 2013, na campanha eleitoral e no discurso da vitória. Mas o advogado Modesto Carvalhosa escreveu, em artigo publicado neste espaço anteontem, que o pacote requenta iniciativas legais da ditadura militar (artigo 350 do Código Eleitoral, de 1965) e do extinto ex-inimigo número um e atual aliado preferencial Fernando Collor (a Lei da Improbidade Administrativa, de 1992, vigente). Um prato feito indigesto!

Para recuperar o fôlego perdido Dilma deveria trocar seus traques juninos por bombas de hidrogênio políticas. Implodir a coalizão de apoio, reduzindo o Ministério de 39 para 13, número de seu Partido dos Trabalhadores (PT), cuja estrela perdeu o fulgor, pode ser uma cartada para, pelo menos, embaralhar o jogo. Outra seria nomear logo um ministro acima de qualquer suspeita para completar o Supremo Tribunal Federal. Não se safará se só se livrar da dupla aloprada Freddie Mercury e Pepe Legal. Mas esta não será uma má ideia para tentar escapar – melhor do que chamar a crise pra dançar!

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. A2 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 25 de março de 2015)

No Estadão: “Desgoverno já acaba quando mal começou”

No Estadão: “Desgoverno já acaba quando mal começou”

José Nêumanne

Imponderável da Silva nas ruas em março pode fazer papel que foi dos militares e da oposição

Dilma perdeu uma oportunidade, se não boa, no mínimo razoável, de se levantar do banquinho no córner, onde está acuada pela crise política e pelo péssimo desempenho da economia, e, pelo menos, voltar ao ringue, no pronunciamento à Nação por TV e rádio no Dia Internacional da Mulher, domingo. Seu discurso inócuo, boboca e incompreensível teve o que merecia: panelaço, vaias e xingamentos pelo País inteiro. Só não se decepcionou com ela quem não viu.

De fato, não havia muito espaço para manobra. Mas pedir paciência a uma plateia que dela só tem ouvido mentiras autoindulgentes não poderia deixar de soar tolo, inútil, arrogante e alienado. Poderia ter começado com um pedido de desculpas por tudo quanto prometeu na campanha e começou a descumprir quando foi divulgada a vitória na reeleição. A continuação inevitável poderia ser uma demonstração de que a paciência exigida dos cidadãos, que ela trata como súditos, seria compensada por algum sacrifício: redução de ministérios, cujo número é absurdo, por exemplo. Nem fez a velha proposta de pacto. Talvez porque padim Lula se tenha recusado a apertar as mãos estendidas na eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral, no apoio à Constituição, que o Partido dos Trabalhadores (PT) assinou amargamente constrangido, e no governo de união nacional de Itamar Franco, depois da queda de Fernando Collor.

Em vez disso, preferiu adotar a tática stalinista de reescrever o passado para garantir as boquinhas por um tempo longe de ser promissor para ela, seu governo e, sobretudo, para o País. Atribuiu a conjuntura “à maior crise econômica desde a recessão de 1929”, a de 2008, que, para Lula, passaria por aqui feito uma “marolinha” e ela jura que paira sobre nós há sete anos, como nos sonhos das vacas magras de José do Egito. E à seca, desgraça perene do Nordeste, que, ela esquece, faz parte do Brasil, apesar de ter-lhe garantido, com milhões de votos, a permanência no trono. Lá se sabe que a chuva é incerta e caprichosa.

Os tomates imaginários jogados pelos “podres burgueses golpistas” partem do pressuposto de que a piada do barítono que anuncia um tenor pior à plateia que o apupa nem sequer servirá de metáfora para a crônica de seu desgoverno abortado: este, ao contrário do Cassino do Chacrinha, já acaba quando mal começou. Tudo indica que a militância armada contra a ditadura a impediu de frequentar aulas de História do Brasil, cujo aprendizado lhe faz falta. E mais ainda ao populacho, que verga sob sua inépcia. O desastrado discurso em que a mulher, festejada domingo no mundo todo, foi aqui celebrada às avessas evidencia que nossa experiência da dona da casa no poder será apenas um “duela a quién duela” coletivo.

Reconheça-se que os citados episódios históricos têm algumas diferenças em relação aos eventos destes idos de março em que o cego Tirésias teria a bendizer os temporais eventuais, prenunciados pelo cheiro. Nestes 61 anos foram aplicadas três soluções pessoais para resolver crises políticas. Em 1954, Getúlio Vargas disparou contra o próprio peito para não morrer afogado no “mar de lama” de uma corrupção de aprendiz, comparada com o caso Celso Daniel, o mensalão e as petrorroubalheiras – o crime continuado que ora corrói as bases da republiqueta sob os petralhas. Sabe-se que Getúlio era um suicida vocacional. O tiro foi o único jeito que teve para abortar o golpe dos militares da geração dos tenentes de 1930. Ao “sair da vida para entrar na História” adiou o golpe, sim, mas por apenas dez anos.

Contra o manhoso estancieiro de São Borja havia também a oratória inflamada e eficiente da UDN de Affonso Arinos de Mello Franco e de Carlos Frederico Werneck de Lacerda. A retórica, a ação parlamentar e a capacidade de construir caminhos para desviar o País da crise a que foi levado pela insana gula petista passam longe do perfil da oposição de hoje, indigna até dessa denominação.

Seis anos após o suicídio no Catete, um presidente popular, eleito acima dos partidos, com a vassoura feita símbolo e a faxina como missão, renunciou para livrar-se das dificuldades impostas por um Congresso dominado por partidos que desprezava. A renúncia de Jânio Quadros foi um autogolpe que falhou por conta da fé cega em si mesmo. “Renuncia, Dilma”, prega quem lhe atribui idêntico defeito. Mas ela não tem a persistência suicida revelada nos Diários de Getúlio, nem o perfil nobre de quem renuncia para facilitar a saída pela qual um governo de união nacional possa impedir a tragédia que se prenuncia com as fraturas da Nação, expostas na disputa eleitoral e agravadas com a determinação do grupo no poder de se agarrar ao que restar de bife no osso descarnado.

Fala-se ainda mais em deposição, repetindo a solução dada em 1992, 31 anos após os nove meses de Jânio, com 20 anos de ditadura militar no meio. Lá se vão apenas 23 anos, mas urge lembrar que o impedimento inevitável cedeu lugar à renúncia consentida do presidente, que, como Jânio, tentou em vão pôr de joelhos o Congresso (de 300 “picaretas” de Lula e 400 “achacadores” de El Cid Gomes?). Ao contrário de Dilma, a cujos propósitos ele serve, o ex-presidente tentou o lance do “Ministério ético”. Mas foi defenestrado sem dó.

Sábado O Globo informou que, conforme delação premiada, Mário Negromonte foi trocado no Ministério das Cidades por Aguinaldo Ribeiro por pressão de seus correligionários acusados de se abastecerem no propinoduto da Petrobrás. Foi Dilma quem assinou nomeações e demissão de ambos. Dizer que era assunto interno de aliados e não lhe diz respeito em nada vai ajudar a suspender a queda de sua reputação. Para piorar, a dupla protagoniza a mesma investigação, na qual ela não figura.

Mas, com os militares de 1930 mortos e sepultados e a oposição incapaz de apunhalá-la politicamente, Dilma depende do Imponderável da Silva nas ruas para escapar aos idos de março – chova ou faça sol.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. A2 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 11 de março de 2015)

Nesta quarta, no Estadão: “Fim de feira”

Nesta quarta, no Estadão: “Fim  de feira”

Para corruptores serem punidos, Dilma tem de desautorizar Cardozo, Simão, TCU e Adams

Faltam 46 meses para o governo Dilma acabar. É tolice tentar abreviar a agonia que, tudo indica (ou melhor, nada indica que não), nos afligirá em três longas prorrogações deste nada promissor ano de dois mil e cinzas. Impeachment já ou logo, como exigem alguns, que prometem sair em bloco às ruas no dia 15, é inviável e só interessa por enquanto ao ex abandonado Luiz Inácio Lula da Silva. Este não é mais o ai-jesus de antes, mas continua sem adversários na oposição, cuja única novidade a apresentar ao público pagante são as barbas de Aécio, que deveria pô-las de molho.

Talvez venha a ser a mais longa caminhada de um pato manco na História desta República, pois a chefe do governo só conseguirá ser a líder política de que o País precisa para administrar a herança maldita que ela própria se legou se parar de mentir e mancar a cada passo. Por enquanto, o único sucesso que ela tem a apresentar ao eleitorado que a levou de volta ao trono é que este não vai vergar sob seu peso por causa de uma invejável dieta evidentemente bem-sucedida. Fora isso, o que comemorar de uma governante(a) que só não erra quando cala – lembrando aquela frase cruel de Romário sobre Pelé: “Calado, é um poeta”?

Dilma cuspiu nos direitos trabalhistas que jurou proteger; aumentou a tarifa de luz (no Sudeste, calcula-se, em 70%), que prometeu reduzir; e deixou de pagar o Pronatec, que esfregou na cara do adversário em campanha. Agora, para dar um jeito no cofre, transferiu a responsabilidade para o economista ao alcance. Joaquim Levy saiu do segundo time do candidato derrotado para assumir o que este teria de fazer se ganhasse. E deve agradecer a Deus pelos três pontos porcentuais que ela teve a mais de votos, sempre que se persigna. Cabe-lhe defender o indefensável e salvar a pele da chefona. Se tiver sucesso, será substituído por um companheiro fiel às ideias muito próprias que ela tem da economia. Se não tiver, será apontado como o substituto de Fernando Henrique na condição de bode expiatório preferencial.

Mesmo tendo um escudo para se proteger do material orgânico em que pode resultar sua tentativa de corrigir os erros do próprio passado, contudo, Dilma continua empenhada em dizer e fazer tudo errado. Produziu, por exemplo, depois da Quarta-Feira de Cinzas a piada do carnaval – que tinha tudo para ser a do voo da Beija-Flor até a Guiné Equatorial –, ao transferir a culpa da roubalheira na Petrobrás ao tucano antecessor dos três governos petistas. Agarrou-se à tábua de salvação da delação premiada do ex-gerente Pedro Barusco, que confessou ter começado a roubar discretamente em 1996 (ou 1997?). O professor passou a ser acusado pelo dilúvio universal bíblico e pela seca em que São Paulo virou sertão.

Antes de ser acusado pela traição de Calabar e pela amputação dos braços da Vênus de Milo, o sociólogo desceu das tamancas e bateu abaixo da linha de sua cintura afinada, ao compará-la com o punguista “que mete a mão no bolso da vítima, rouba e sai gritando ‘pega ladrão’!” O adversário não foi muito elegante, mas, ainda se levando em conta a eventualidade, é possível concluir que, tendo sido ministra de Energia, presidente do conselho de administração da estatal assaltada , chefe da Casa Civil e presidente no período de 12 anos em que o furto foi “sistêmico”, segundo o delator, ela poderia ter ido dormir sem essa.

A galhofa é nossa, mas sugiro que se preste mais atenção em algo mais sério que ela também disse ao voltar da mudez dos idos de Momo. Depois de ter rasgado a bandeira socialista ao garantir que não se apena empresa, para evitar desemprego, mas gente, para punir corrupção, ela deu uma guinada de 180 graus ao afirmar: “Isso não significa de maneira alguma ser conivente ou apoiar ou impedir qualquer investigação ou qualquer punição a quem quer que seja”. E completou, repetindo o lugar-comum traduzido do portunhol do aliado Collor: “Doa a quem doer”.

O noticiário dá-lhe duas boas oportunidades de provar que será coerente com o “duela a quién duela” que assumiu. Para fazê-lo terá de interromper imediatamente a tentativa canhestra de seu novo controlador-geral da União, Valdir Moisés Simão, de celebrar acordos de leniência com as empreiteiras acusadas de pagar propina a petroleiros, partidos do governo e políticos aliados para tentar evitar delação premiada de empresários presos. A proposta foi avalizada pelo advogado-geral da União, Luís Inácio (que não se perca pelo nome) Adams, outro funcionário a ela diretamente subordinado, e abençoada pelo Tribunal de Contas da União (TCU), cuja composição é fiel a seu governo. É, porém, contestada pelo Ministério Público Federal, que tem todas as razões do mundo para temê-la. Pois jogaria por terra a oportunidade inédita que a presidente diz perseguir de, enfim, punir judicialmente corruptores.

Outro episódio constrangedor para ela é o das audiências do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo – um dos militantes que não riem da piada do Fernandinho primeiro bode expiatório –, aos advogados dos empreiteiros presos. Sabe-se que ele chamou de medievais nossas masmorras, mas nunca fixou um prego numa barra de sabão para mudar o fato. Agora recebe causídicos de luxo, mas não faz idêntico esforço para conseguir nas varas de execuções penais a soltura de 9 mil ex-condenados que já cumpriram pena e não saem da cela por não poderem pagar advogados que tenham acesso à agenda dele. Ou melhor: à agenda controlada pela assessora de confiança, e não a que aos pagadores de seus proventos é dado conhecer. Segundo a Folha, o que ele fez em 80 de 217 dias de trabalho desde o início da Operação Lava Jato foi mantido em segredo, o que torna Sua Excelência o primeiro ministro clandestino da história de qualquer democracia.

Só atitudes dela contra essas tentativas de melar o jogo dissiparão o clima de xepa. Segundo minha avó, “desculpa de cego é feira ruim e saco furado”.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pág.2A do Estado de S. Paulo na quarta-feira 25 de fevereiro de 2015)

Prefácio de “Dançar com facas”, livro de poesia de Hildeberto Barbosa Filho

Prefácio de “Dançar com facas”, livro de poesia de Hildeberto Barbosa Filho

A luz silenciosa da poesia

José Nêumanne

Poesia é discurso, mas não é retórica. Retórica é para oradores, tribunos, comunicadores. A oratória também é uma arte, a arte de confeitar bolos. Mas a poesia, mesmo a discursiva, é o método de descarnar o verbo, como no açougue o marchante desossa a carne de um animal pendurada no gancho. A palavra se introduz no verso e, depois, vai sendo exposta à deterioração do tempo, como um trapo secando num varal. Poesia nem sempre é só síntese, mas pode ser tratada como um pano molhado espremido até secar na pia da cozinha. Pois, enquanto a oralidade se exibe como num espetáculo de pirotecnia, a mancha gráfica no papel funciona como uma marca registrada, um desenho no qual os espaços vazios expressam o silêncio no branco que se contrapõe à sombra do tipo gráfico.

Nem tudo se encerra nesta obviedade acima descrita. Primeiro, porque nem toda poética é gráfica nem sequer escrita. Os repentistas do sertão de minha infância, por exemplo, são oradores com seus mantras com modos, ritmo, métrica e rimas. Se alguém tem a pretensão de considerar a cantoria de viola como um gênero menor está incorrendo não em preconceito, mas em mera ignorância. Manuel Bandeira, um dos maiores vates da literatura brasileira de todos os tempos, foi jurado de um torneio de menestréis sertanejos no teatro Santa Isabel, no Recife, e saiu de lá encantado com os cantadores, particularmente com os irmãos Patriota de São José do Egito, lá onde Lampião perdeu as botas. Depois da função, o bardo urbano se disse, em versos, convencido de que ele mesmo não era poeta, não. E completou justificando a súbita modéstia: “poeta é quem inventa / em boa improvisação, / como faz Dimas Batista / e Otacílio seu irmão; / como faz qualquer violeiro, / bom cantador do Sertão”.

Manuéis Bandeiras à parte, a verdade, que vale para os irmãos Patriota, em particular o maior de todos, Lourival, o Louro do Pajeú, é uma só: a poesia é múltipla. Ela se origina dos metros longos da tradição oral grega, reunida em torno de um mito chamado Homero, e se estende pelo tempo afora na épica de Virgílio em latim e dos criadores de idiomas – Dante Alighieri, na Toscana; e o luso Luís de Camões, que canonizou nosso galaico-português. Os decassílabos dos martelos agalopados permitem o truque mnemônico da repetição da invenção improvisada pelos tempos afora, tempos sem gravador e antes da disseminação de Gutenberg pelos sertões ermos. A reprodução elétrica (e agora eletrônica) dos sons levou a herança dos cantadores provençais ao universo da cibernética – das cantigas de amigo a Norbert Wiener. E o prelo velho de guerra permite consagrar os cordelistas de metro curto e os poetas de minuto, cujas estrofes salpicam em páginas quase vazias como bolhas de sabão em roupa lavada e estendida ao sol para quarar.

Hildeberto Barbosa Filho, meu colega no Instituto Redentorista Santos Anjos, em Bodocongó, Campina Grande, ele egresso de Aroeiras, eu, de Uiraúna, no sertão do Rio do Peixe, ele, irmão de Dudezão, forrozeiro de escol, eu, conterrâneo de Ciro de Uiraúna, o maior xilogravador do Brasil, é poeta para todo metro. Foi discursivo em Ira de viver, em que abordou o soneto, técnica elaborada, erudita, exigente e árdua, com maestria, e em O livro da agonia. E minimalista bem-sucedido em São teus estes boleros. Em Dançar com facas, o poeta de Aroeiras volta ao território do minimalismo com uma diferença. No livro anterior, ele abordou o fazer poético à semelhança de Philip Glass, o autor das canções minimalistas. Agora ele burila não mais o verso curto, mas praticamente a palavra solta no branco do papel, como John Cage fez com os sons, valorizando o máximo o silêncio, como se quisesse nos mostrar o óbvio que ninguém vê/ouve: o branco/silêncio interfere no preto/som, entrando na composição como parte dela. Um exemplo deste absoluto poder de síntese, no qual a alusão erudita dá sentido não enunciado ao que é enunciado é Sêneca: “Coisas perdidas. / Coisas vividas / Coisas mortas”. Outro ainda mais exemplar, por enunciar o que não é para enunciar, é Poesia: “Luz / e silêncio”. Este último, no papel, é pugilismo puro. E do bom!

A poética, digamos, mínima não se isenta da emoção, ao contrário do que imaginam os desavisados. Poucos poemas líricos em língua portuguesa têm a força que o modernista paulista Oswald de Andrade deu a seu magnífico Ditirambo: “Meu amor me ensinou a ser simples / como um largo de igreja / onde não há nem um sino / nem um lápis / nem uma sensualidade…” Lenilde de Freitas, de origem recifense, mas nascida e criada na mesma Campina Grande onde Hildeberto e eu estudamos na pré-adolescência e que ganhou uma Bienal Nestlé de Poesia na qual fui um dos jurados, tem enriquecido o florilégio dos brevíssimos cânticos do amor perene com obras notáveis. Eis uma delas, A paixão desmedida: “De tanto te desmontar / te reinvento / com pensamento macio. / Eis-me outra vez / no limiar de tua face. / Por precaução / Conto um-dois-três: / eu mesmo afio teu esporão”.

Hildeberto foi neste rastro em Confissão: “Nada desejo para mim, / exceto a tristeza sem cor / dos olhos teus, / inclassificável beleza / que me enlouqueceu”. Há no poema, como no de Oswald, todo o lirismo do mundo, mas pieguice, zero. Ao contrário, o lírico minimalista Hildeberto é de um antilirismo implacável, a exemplo de  Lenilde e no rastro do melhor da produção de Roberto Carlos, antes de se deixar sufocar com açúcar: “Se você pensa que vai fazer de mim o que faz com todo mundo que te ama…”

Do século XX para cá, desde Oswald, a poesia brasileira tem sido fértil em minimalismo e antilirismo. A paulista e contemporânea Eunice Arruda nos sapeca em seu Propósito uma lição de como dizer tudo falando quase nada: “Viver pouco / mas viver muito/ Ser todo o pensamento / Toda a esperança / Toda a alegria / ou angústia – mas ser // Nunca morrer / enquanto viver”. Sem levar em consideração o fato de que este fecho é de matar de inveja qualquer poeta em atividade, convém reparar no uso das maiúsculas ao abrir versos que exaltam a alegria de viver, resumindo o fardo do penar a um verso aberto com letra minúscula. O poema é realista, mas esperançoso. Nesta coletânea, que tenho a honra de apresentar, Hildeberto refaz o poema de Eunice pelo avesso em Suicida: “Não sou suicida, / mas quantas vezes pensei / em sair dessa para outra, / melhor. // O diabo é que a vida / é um grude e nos prende / à sua casca mágica, / pesar dos remorsos, horrores, / carências…” A palavra solta do fecho transmite uma sensação de abandono de quase levar às lágrimas, não é?

Em Velhice esta carência abriga um pessimismo amargo se espalhando na folha como bile: “Os fardos da idade / começam a humilhar / o pobre corpo. // E a alma, / papoula desgarrada, / nem está mais aqui”. A carência vira solidão. No caso, como se dá a perceber, se trata de um poema que, como poucos neste livro, pode (e até deve) ser lido em voz alta. Ou seja: estamos mais a ouvir pingos de Glass do que a (não) escutar o longo silêncio agoniado de Cage. Mais adiante, Hildeberto premia seu leitor com uma visão cáustica de quem não se dispõe a perdoar: “No fim da cidade, / um loteamento de velhos // Desertos na pele, / crateras no sangue. // Velhos com conhaque / na alma, lúcidos, sem horizonte” (Horizonte, um título que resume o poema). Uma imagem como esta “conhaque na alma” paga qualquer poema. Sem falar no truque da\ quebra da imagem que força o pobre leitor a bisar a leitura para não perder o inusitado da metáfora.

Poucos poetas tiveram a exatidão enxuta e a piada pronta como o caipira apaulistanado José Paulo Paes com suas peças que mais podem ser chamadas de epigramas pós-concretos (ou seriam pós-modernos?). O exemplo mais radical desta faceta dele está em Poética: “conciso?   com siso / prolixo?   pro lixo”. Se algum leitor muito avisado conseguir um manifesto mais curto, mais bruto e mais preciso do que este, por favor, me avise e mo mande. Um poema de Hildeberto, com o mesmo título do de Paes, acrescido de uma ordem de descendência nobiliárquica, o Poética IV troca a condenação feroz pela autocrítica rabugenta: “Desgosto / de muitos poemas / que fiz… // Este nada me diz / Aquele é pura mentira. / Outros, falsos brilhantes / que passam por lira”

Hildeberto Barbosa Filho amadurece e endurece recorrendo às raízes. Sua poesia de agora espelha o sol inclemente do Cariri que parece queimar mais plantas que nascem de pedras por acaso do que participar da urdidura da clorofila. À medida que o tempo passa, ele descobre na aspereza cinzenta de sua paisagem de origem, além da feiúra aparente, uma beleza secreta, para iniciados, que ele passou a apreciar assim como também passou a celebrar com poucas vezes as profundezas do silêncio de estepes sem vento. É o que nos expõe em Legado: “À noite se segue o dia / como as águas abrigam / calor e silêncio. // Resta ao homem / a pluma da linguagem, / ásperos navios de fogo / que iluminam os vazios”. Aqui o metro se alonga além do normal e isso se torna perceptível na leitura linear dos versos quebrados pelo sinal gráfico que reproduz a barra (/). É como se a forma desdissesse o conteúdo e a respiração cortasse o soluço. O luxo do verso abundante, quase um discurso a interromper a matraca, reforça pelo avesso a pregação permanente da ideologia da escassez, que nos leva na obra poética dele à exposição da carência como forma de verter até a última gota do vinho amargo no cálice da paixão. É como ele mesmo diz em Sentidos: “Apenas / vejo o que ouço. // Toco / o que cheiro // e saboreio as palavras”.

Este livro é para ser lido vagarosamente. Quando o leitor acaba, tem a sensação esquisita de que demorou pouco. Afinal, foi tudo muito rápido. Mas aprenda que brevidade nada tem que ver com facilidade. Ela também se conquista com a experiência. Experimente reler e, depois, repita. Faça-o à exaustão. Aprenderá, como eu, que só então sentirá o peso de cada palavra e a verá gotejar na secura alva da página impressa.

José Nêumanne, poeta, jornalista e escritor, é autor de Solos do silêncio – poesia reunida.

(Prefácio de Dançar com facas, livro de poemas de Hildeberto Barbosa Filho, no prelo)

No Estadão: O governo mente e a oposição cala

No Estadão: O governo mente e a oposição cala

Dilma e PT são os únicos responsáveis pelo desabamento da popularidade dela

Bruno Araújo (PSDB-PE), líder da minoria, provocou rebuliço no plenário da Câmara dos Deputados ao reproduzir do alto da tribuna áudio em que a presidente Dilma Rousseff garantia, há dois anos, reduzir a conta da luz em 18%. “O Brasil terá energia cada vez melhor e mais barata”, disse ela, então, condenando “previsões alarmistas”.

O diabo é que o consumidor bancará nas contas deste ano fundo de R$ 20 bilhões que antes era cobrado do contribuinte, via Tesouro Nacional: ou seja, tirará de um bolso em vez do outro. Fala-se em aumento de 40% a 80%. E mais: para o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, do governo federal, o risco de faltar eletricidade no Sudeste e Centro-Oeste chegou em fevereiro ao índice mais alto dos últimos anos: 7,3%. Em janeiro era de 4,9%. Essa foi a única das várias mentiras contadas por Dilma e pelo PT no poder há 12 anos exposta de forma cabal pelos oposicionistas após grande exposição nas redes sociais. Nesse ringue a luta tem sido feroz, com combativos e grosseiros militantes petistas e antipetistas abusando impunemente da liberdade de se insultarem.

Na mesma ocasião em que o parlamentar pernambucano expôs essa falácia, a Nação tomou conhecimento de depoimento em delação premiada do ex-gerente da Petrobrás Pedro Barusco. Nele este fez uma denúncia gravíssima: teriam sido transferidos US$ 200 milhões do propinoduto da Petrobrás para os cofres do partido pelo qual a presidente foi reeleita. Contou ainda que ele próprio tinha recebido da SBM holandesa de US$ 25 mil a US$ 50 mil por mês, dependendo do valor do contrato, desde 1997 ou 1998, ou seja, durante o segundo governo de Fernando Henrique Cardoso, do PSDB.

O tesoureiro João Vaccari Neto foi defendido pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na festa dos 35 anos do PT, com uma paródia da secular frase latina in dubio pro reo: “Na dúvida, fique com o companheiro”. Fernando Henrique disse, como repete Dilma, que “quer que a investigação vá até o fim”. E o PSDB calou.

Concomitantemente, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP) anulou a eleição do desagravado Vaccari para a presidência da Cooperativa dos Bancários (Bancoop), em 2009. Pela segunda vez a Justiça paulista concluiu que foi irregular a assembleia-geral da cooperativa que também aprovou contas da entidade. Esta, segundo o Ministério Público, serviu de fonte de recursos desviados para o PT. Em 27 de janeiro, a 9.ª Câmara de Direito Privado do TJSP rejeitou a apelação da Bancoop contra a sentença da primeira instância que já havia suspendido e considerado nulos todos os atos da assembleia, entres eles a aprovação das contas de Vaccari. Ainda cabe recurso ao Superior Tribunal de Justiça.

Será que a oposição vai esperar a decisão final do Supremo Tribunal Federal (STF) para fazer o que dela se espera desde 2009? Naquele ano, os computadores de jornalistas e políticos brasileiros passaram a receber diariamente as reclamações dos bancários que quitaram seus apartamentos financiados pela Bancoop, mas jamais os ocuparam. Até quando Lula e o presidente nacional do PT, Rui Falcão, poderão repetir sem contestação que o companheiro tesoureiro é um homem probo, que nunca embolsou um centavo que não fosse de direito seu? Talvez seja útil advertir ao presidente e ainda presidenciável do PSDB Aécio Neves que os petistas continuam contando com essa omissão deles para ousar.

E como ousam! O STF condenou a antiga cúpula do partido da presidente e do ex à prisão por vários crimes, entre os quais corrupção e formação de quadrilha. E os condenados até hoje são tratados como heróis. O ex-tesoureiro Delúbio Soares foi preso. Mas seu sucessor, que ainda responde na Justiça a várias acusações dos mutuários da Bancoop, se recusou a permitir a entrada dos policiais federais que foram buscá-lo em casa para depor “sob vara” no processo do petrolão.

Na festança do PT, Lula disse que “não querem nem deixar concluir o mandato da Dilma”. Ela não se fez de rogada e proclamou: “Os que são inconformados com o resultado das urnas só têm medo de uma coisa – da mobilização da sociedade em repúdio a qualquer tentativa de golpe”. Falta-nos alguém para explicar com paciência, clareza e firmeza que não se prepara golpe, mas só se exerce o direito inquestionável de discordar da autoridade e cobrar o estelionato eleitoral de quem mentiu para vencer e governa fazendo-se de surdo.

O cinismo petista não impediu, contudo, a queda da popularidade da presidente medida pelo Datafolha. Só que a oposição em nada contribuiu para isso. O cidadão tirou suas conclusões sozinho, para desgraça de João Santana, o Patinhas do Bendegó. Dois exemplos recentes autorizam essa conclusão. Primeiramente, em 29 de janeiro o jurista Modesto Carvalhosa, especialista em leis de combate à corrupção, teve publicado neste mesmo espaço o artigo A virgindade da Lei Anticorrupção, no qual adverte que, ao impor sua “vontade”, a presidente comete, sem saber, crime de responsabilidade. Nos últimos 12 dias ficou patente que Dilma não deu sinal de ter lido a advertência nem resolvido se precaver e corrigir os erros. Em compensação, prócer nenhum da oposição tratou de, pelo menos, divulgar o alerta e explicar as consequências funestas para qualquer cidadão do desgoverno de Dilma.

Em segundo lugar, no domingo outro jurista apartidário, Ary Oswaldo Mattos Filho, da Fundação Getúlio Vargas, garantiu, em entrevista ao Estado, que, ao reter o preço da gasolina, o governo Dilma infringiu a Constituição, a Lei das S.A. e o Estatuto da Petrobrás, sendo assim possível que acionistas minoritários movam ação de responsabilidade. Mas político nenhum até agora levou esse gravíssimo aviso aos plenários do Congresso ou o divulgou à opinião pública pelos meios de comunicação.

O governo mente, a oposição cala e nós ficamos no mato acuados pela cachorrada.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na p. A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 11 de fevereiro de 2015)

Um ‘dois mil e cinzas’ com sede, suor e trevas

Um ‘dois mil e cinzas’ com sede, suor e trevas

Presidente, que se acha economista, manda e desmanda. Levi, que o é, pensa que tem a força

Dilma Rousseff não sabe o que perdeu deixando de ir ao Fórum Econômico Mundial, em Davos. Pois, não indo, não teve a chance de ouvir o primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, pedir aos governantes coragem para mudar, para reformar. “Há uma janela e um período de oportunidade excepcional e o papel dos políticos é atender o momento, carpe diem, em que podemos escolher o futuro”, disse ele. Ela preferiu comparecer à posse do cocalero Evo Morales na presidência da Bolívia a aprender com o europeu o óbvio ululante de que para decepar os nós górdios da economia há que antes reduzir os ônus da política.

Nos Andes, ela ouviu o colega vizinho asseverar com franqueza: “Na Bolívia, não mandam os ‘Chicago boys’”. Enquanto isso, nos Alpes, um “Chicago boy” da melhor estirpe, o ministro da Fazenda dela, Joaquim Levy, vulgo “mãos de tesoura”, encantou o chamado mercado neocapitalista mundial por sua coragem de dar notícias ruins aos cidadãos brasileiros, mal eles foram expulsos da Disneylândia eleitoral dos petralhas. Enquanto o subordinado gozava seus cinco minutos (talvez de dois a três anos) de poder e glória, a chefe saboreava sua volta à segurança da clandestinidade. Depois de um ano inteiro prometendo ao Zé Mané mundos e fundos para arrebanhar votos, sob os auspícios do marqueteiro João Santana (o poeta Patinhas do Bendegó), nada como fugir para um lugar onde não tinha de explicar que era tudo “mentirinha de marketing”. Sem deixar de aplicar os beliscões de praxe para mostrar quem manda.

Levy é economista e pensa que tem a força. Dilma, que se acha economista, é que manda e desmanda. Manda quem pode, quem tem juízo obedece. No palanque, ela jurou que devolveria os excessos inflacionários tungados do contribuinte no Imposto de Renda. À sombra e água fresca do palácio, vetou a correção de 6,5% para facilitar a tarefa de tirar R$ 20 bilhões desviados da Petrobrás para partidos, incluindo o dela, do bolso do cidadão que, sem padrinho, morre pagão.

Em Davos, Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), encheu a bola do ministro brasileiro apoiando suas “medidas impopulares”. Fê-lo antes de Dilma, que só aprovou o subordinado em público na reunião ministerial de ontem. Com isso, o Partido dos Trabalhadores (PT) teve tempo para imitar o “multipresidente” Ulysses Guimarães, que dava as cartas no governo Sarney enquanto liderava a oposição. A candidata jurou de pés juntos que não daria cabo de nenhuma conquista dos trabalhadores. A presidente repetente mandou escrúpulos e promessas às favas, dificultando o acesso ao seguro-desemprego, quando há indícios de risco para o emprego.

Alérgica à política, jejuna em contabilidade e avessa a economizar, a presidente não deu explicações satisfatórias da traição à classe operária. Mas seus áulicos tentaram minimizar os efeitos deletérios da falseta assegurando que as conquistas dos trabalhadores não foram afetadas porque a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) não foi alterada. Falácia cínica! A CLT não é uma “conquista dos trabalhadores”, mas uma concessão do ditador Getúlio Vargas ao operariado para manipulá-lo a seu bel-prazer utilizando pelegos. Encarregado de consertar a lambança, Levy tentou dar sua contribuição teórica à tentativa de logro dela, assegurando: “O seguro-desemprego é um benefício ultrapassado”. Será? Pode até ser, mas isso nada tem que ver com a tunga. E, além de também ser outra falácia cínica, permitiu que ela lhe mostrasse que elogios de Lagarde não bastam para garanti-lo no cargo.

Só agora ela saiu da clandestinidade, mas ficou no palácio, para dizer a seus 39 ministros que teve de permitir a um auxiliar egresso da oposição que corte gastos com dor para manter seus programas sociais. Mas nunca pediu desculpas ao cidadão que votou nela e paga a conta pelo óbvio malogro.

Joaquim Levy era da segunda divisão da assessoria econômica do tucano Aécio Neves, derrotado por ela na eleição. O chefe dessa assessoria, Armínio Fraga, fez eco a Lagarde ao dizer que o ex-companheiro é “uma ilha no mar de mediocridade” que é o segundo governo Dilma. Se verdadeira, a afirmação traz uma boa e uma má notícia. A boa é que, como o governo anterior foi o pior de todos os tempos, dificilmente o atual terá como superá-lo em mediocridade. A ruim é que é mais provável que piore, sim!

O ex-ministro de Minas e Energia Edison Lobão, por exemplo, nunca condicionou à duvidosa brasilidade de Deus a chuva no sertão que virou país. Ou terá sido este país que virou sertão, eis a questão. Pelo visto, Lobão foi à aula de Geografia em que foi ensinado que Nordeste é Brasil e em muitos anos não chove no semiárido, apesar das súplicas dos sertanejos a São José, que criou o filho do Próprio. O devoto amazonense Eduardo Braga, que espera a interferência divina para pôr fim à “crise hídrica”, foi substituído na tarefa de pedir à população que aguente a falta de luz e água com resignação, e que devia caber a Dilma, pela ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, ainda mais insignificante do que ele.

Nossa presidente não foi a Paris repudiar o terror nem consolou os pais de Alex Schomaker, morto por bandidos no Rio. Mas criou uma crise diplomática porque a Indonésia fuzilou o traficante Marco Archer. Ressuscitou os lemas fascistoides “alma coletiva” e “pátria educadora”, mas cortou R$ 7 bilhões no orçamento da Educação quando 500 mil jovens tiraram zero na redação do Enem, acesso a um ensino superior cada dia mais inferior.

Ela falha e não se manca; e quanto mais erra, mais desmandos pratica. Reuniu o Ministério para desejar um feliz “dois mil e cinzas” negando o que prometeu e prometendo mais do mesmo sem oferecer garantias de que o fará. Devia aprender com Churchill, morto há 50 anos, que a dar só tem “sede, suor e trevas”. Foi o que Renzi ensinou na Suíça.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pag. A2 do Estado de S. Paulo na quarta-feira 28 de janeiro de 2015)

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