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Jornalismo

Nesta quarta-feira no Estadão: Supremo reduzido a elemento da briga eleitoral

Nesta quarta-feira no Estadão: Supremo reduzido a elemento da briga eleitoral

Moro no STF pode ser a solução para Bolsonaro,

Centrão e esquerda o afastarem das urnas

A dois anos e meio da campanha eleitoral em que o sucessor de Jair Messias Bolsonaro será eleito pela maioria dos cidadãos aptos a votar e a três do começo do futuro governo, a sucessão em questão está introduzindo no debate uma novidade insólita e maligna. Pela primeira vez na História cada vez mais insana desta República, uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) poderá ser preenchida por interesses eleiçoeiros. O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, entra no páreo não mais para preencher a condição de jurista de notório saber e reputação ilibada, como exige a ordem constitucional vigente. Mas por poder representar eventual empecilho a seu chefe e ser, com certeza, disparado favorito na disputa contra qualquer adversário.

Durante o ano inteiro de 2019, primeiro da nova legislatura e também do mandato presidencial, os condenados, acusados, denunciados e suspeitos de corrupção na cúpula dos três Poderes da República fizeram das tripas coração para reduzir seu poder. E, se possível, desalojar do cargo de primeiro escalão o ex-juiz federal que comandou a mais bem-sucedida e popular operação de combate à corrupção no País. Congressistas sabotaram, primeiro, suas dez medidas contra o furto levadas ao Legislativo por procuradores. Em seguida, fizeram o diabo para desidratar as sugestões que o agora chefe da pasta lhes encaminhou oficialmente sob o nome genérico de fantasia “pacote anticrime”. Nesse afã, introduziram no texto projeto soprado pelo ministro do STF Alexandre de Moraes e adotado por Margarete Coelho (do PP de Paulo Maluf no Piauí governado por Wellington Dias, do PT), presidente da comissão instalada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Nada disso, contudo, reduziu em um mísero ponto porcentual a popularidade de quem pretendiam atingir.

A esquerda, que atribui a Moro a liderança da conspiração para excluir da disputa eleitoral seu ídolo Lula, recorreu para tanto a um expediente em que misturou delito com cavilação. Um grupo de estelionatários habituados a crimes virtuais, hackers de Araraquara (daí o neologismo genial da colega Cora Rónai, “arararraquers”) invadiu os diálogos de cerca de mil autoridades, entre as quais o inimigo comum, no aplicativo russo Telegram. E neles encontrou – em alguns casos, inseriu – diálogos com os quais tentaram insinuar que o magistrado que condenou seu líder na primeira instância comandou as ações do Ministério Público em relação ao réu. O resultado, divulgado pelo site The Interecept Brasil, passou a ser a bola sete para desmoralizar a Lava Jato.

A conspiração, comandada pelo próprio Lula na chamada sala “de estado-maior” da Superintendência da Polícia Federal (PF) em Curitiba, contou com a ajuda da candidata a vice na chapa do poste 2 do ex-metalúrgico, Manuela d’Ávila, e os serviços do americano Glenn Greenwald. Este deixou no condado de Nova York, onde vivia, um rastro de participação em pornografia numa empresa em que era associado de seu então companheiro e uma prática pouco recomendável de sonegação de impostos.

O conta-gotas de ácido venenoso usado no estratagema, efetuado em parceria com a Folha de S.Paulo, a Band News e a revista Veja, também em nada atingiu o objetivo do truque empregado. Recentes pesquisas de opinião, inclusive da Datafolha, de uma das empresas parceiras, revelam, ao contrário, a alta dos índices de popularidade do ministro da Justiça, superando os do chefe e dos empenhados em derrubá-lo.

O fiasco da invasão criminosa das mensagens telefônicas – nunca submetidas a perícia – e a constatação de que o inimigo continua fora do alcance de suas punhaladas parecem ter levado os desafetos políticos do juiz paranaense a alterar a tática. Isso inclui a mudança de planos do próprio presidente da República para a indicação do sucessor do decano do STF, Celso de Mello, em dez meses. É público e notório que ele há muito havia desistido de indicar Moro para a vaga, sob a falsa alegação de que o Senado não aprovaria. E já anunciou nomes para essa cadeira e para a que será desocupada no ano que vem por Marco Aurélio Mello.

Para a primeira Bolsonaro sacou do colete o advogado-geral da União, André Mendonça, bajulador de Lula e de Dias Toffoli. Para a outra já foi anunciado o ex-major da PM Jorge Oliveira, “Jorginho” para o clã presidencial, secretário-geral da Presidência e bacharel em Direito há 13 anos. A razão para a nomeação foi dada sem subterfúgios pelo deputado Eduardo Bolsonaro: ele é de todos os pretendentes o mais leal a Jair Messias Bolsonaro.

As duas eventuais indicações seriam o apanágio da decadência do STF. Mas o próprio chefe do governo já parece ter entendido o recado dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Rodrigo Maia, de que o herói do populacho em justiça seria aprovado na sabatina pelos senadores.

Conselhos de interlocutores palacianos parecem ter convencido o capitão a se livrar e deixar os chefões partidários liberados da disputa talvez inglória com a eventual presença do nome de Moro na urna eletrônica em 2022. O custo dessa operação “salve-se quem puder” poderá ser uma quarentena de seis anos sem disputa nas urnas para o ministro. Será a confirmação de que Deus escreve certo

José Nêumanne Pinto. Jornalista, poeta e escritor

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No Blog do Nêumanne: Bob Dylan, BNDES e Oi na mesma parada dura

No Blog do Nêumanne: Bob Dylan, BNDES e Oi na mesma parada dura

José Nêumanne

A Justiça e o Congresso tornarão inúteis explicações toscas do presidente do BNDES sobre propinas no banco e ex-executivo da Oi promete mais uma delação bomba sobre supertele

Sabe aquela canção de Bob Dylan que o colocou nas paradas como ídolo no topo da roda-gigante do mercado musical e o consagrou como ícone da cultura pop, Blowin’ in the wind? Se não sabe, lembre-se que o petista Eduardo Suplicy adorava cantá-la no microfone da tribuna do Senado. E os ventos, ao que tudo indica, estão mudando mesmo. Seu refrão irresistível é: “A resposta, meu amigo, está soprando no vento”. E também mudam os tempos, como revela outro clássico de Dylan em canção de protesto, The times they are a-changing.

Algum bom amigo, desses que não se acham normalmente em subordinados, mas podem florescer em parceiros de verdade, poderia avisar ao presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, que seu enorme esforço de originalidade, cinismo e interpretação na entrevista que deu a respeito do relatório dos auditores dos escritórios de advogados Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP (americano) e Levy &. Salomão Advogados (seus associados brasileiros) não enganou ninguém, nem o mais tolo dos interlocutores.

Em nenhuma resposta foi justificado o fato de a auditoria contratada por Paulo Rabello de Castro no governo Temer ter seguido a um custo muito maior nas gestões de Joaquim Levy e do próprio “yuppie da Tijuca” sob nova direção. Seja qual for o custo – R$ 70 milhões, como dizem alguns incrédulos do mercado, R$ 48 milhões, conforme foi divulgado anteriormente pelo próprio banco público, ou R$ 42,7 milhões, valor, enfim, informado pelo atual presidente –, ele é absurdo. Com propinas citadas nas delações de Antônio Palocci, vasculhadas na comissão parlamentar de inquérito (CPI) da Câmara dos Deputados, graças, sobretudo, aos esforços da vice-presidente Paula Belmonte (CID-DF), não havia por que omitir os resultados até agora alcançados por esses instrumentos de investigação e ficar na dependência exclusiva de um escritório de advocacia que nunca, em momento algum, poderia alegar a necessária imparcialidade para produzir o que dela a Nação (e o próprio presidente Jair Bolsonaro) esperava. Cleary Gottlieb advogou para a Petrobrás, que fez acordo com os acionistas americanos, aos quais pagou US$ 3 bilhões (R$ 12 bilhões em valores atualizados) para desistirem das ações movidas contra a petroleira. A Odebrecht, que está dando um calote de R$ 4,7 bilhões no banco presidido pelo jovem operador de mercado, também foi cliente do mesmo escritório. Faltou Montezano explicar por quê. Será que encontrar podres na contabilidade do BNDES será semelhante a topar com água no Mar da Tranquilidade, na Lua?

Paulo Rabello de Castro, Joaquim Levy e Gustavo Montezano também deveriam saber que foi por isso que essas empresas não acharam irregularidades no BNDES. Primeiro, seu relatório, ainda escondido do contribuinte, que paga o salário dos dois ilustres economistas e do boy do clã Bolsonaro e de Paulo Guedes, reconhece que não teve acesso a toda a documentação sobre a relação dos marchantes Batista de Anápolis com a mais generosa instituição bancária de que há notícia ter existido cá entre nós. Juan Giráldez, um dos sócios do escritório, testemunhou a favor de Lula no processo da cobertura no Guarujá. Uma audiência com o ministro da Justiça, Sergio Moro, explicaria por que este determinou que Cleary Gottlieb pagasse a tradução do depoimento favorável do gringo. Por que não foi pedida? Na verdade, o trio citado liderou uma operação abafa.

Mas a CPI do BNDES, a Justiça e Palocci já fizeram o serviço pelo qual a empresa Cleary foi contratada, e não o fez. O clã Bolsonaro e o dr. Paulo Guedes não estão cobrando do “yuppie da Tijuca” que assuma as consequências? Afinal, seus dois antecessores já pularam fora do barco.

E com os ventos que mudam vêm mais boas notícias, prenunciando bom tempo. No final de 2019 Paulo Guedes baixou uma norma que acabou com as eleições para o comando dos fundos de pensão Previ, do Banco do Brasil, Funcef, da Caixa Econômica Federal, e Petros, da Petrobrás. O objetivo é pôr fim a indicações políticas no comando das fundações, que eram o último reduto do PT, um bunker de onde vinha parte dos recursos para o financiamento ilegal de campanhas políticas. A ideia é que os Pizzolatos, os Sergios Rosas, os  Wagners Pinheiros não venham a existir mais. Até que enfim, a influência do PT nessas fundações vai acabar. Nesta semana o Banco do Brasil nomeou um novo diretor para o Previ, profissional experiente sem ligações partidárias. É assim que deve ser. A ordem do Bolsonaro e do Paulo Guedes é faxinar.

E olha que vem bomba aí. Lula e o BNDES são alvo de novas delações premiadas. A abertura da caixa-preta do BNDES não perde por esperar. Sem o yuppie e o contrato milionário de mais de R$ 42 milhões, da Cleary Gottlieb, a caixa-preta já aberta pela Justiça será escancarada por novas delações premiadas. Já comentei neste blog sobre as omissões premiadas que começam  aparecer. Otávio Azevedo, da Andrade Gutierrez, omitiu de sua delação premiada as irregularidades envolvendo o filho de Lula. O executivo nada mencionou sobre a compra do sítio em Atibaia. Essas omissões levam a força-tarefa do Ministério Público a rever a delação premiada do desmemoriado. Por isso ele foi alvo de três mandados de busca e apreensão na Operação Mapa da Mina, 69.ª fase da Lava Jato, deflagrada em dezembro de 2019, que  apura repasses milionários da Oi para a Gamecorp, do Lulinha. Enquanto isso, as omissões premiados estão sendo reveladas em outra seara, a das maracutaias telefônicas.

Otávio Azevedo, por exemplo, terá sua delação premiada revisada por haver omitido o pagamento da Telemar, da Andrade Gutiérrez, para Fábio Luiz Lula da Silva, o prodigioso Lulinha, e sua empresa Gamecorp.

A força-tarefa ligou Azevedo, à frente da Oi, aos repasses de R$ 132 milhões à empresa do filho de Lula e concluiu que parte de tais recursos pode ter sido usada na compra do Sítio Santa Bárbara, em Atibaia. E mais: nova delação – vamos dizer, a delação das delações, a bala de prata no Lula – está a caminho e vai deixar Lula, Lulinha, Gamecorp, supertele e seus maestros e cúmplices mais enrolados ainda na Justiça. É que Marco Schroeder, ex-executivo da Oi, fechou acordo de delação premiada. Ele foi executivo da Oi de 2002 a 2017, ocupou  vários postos de comando na telefônica, da Contax, empresa controlada pela  Andrade  Gutierrez, e foi conselheiro da Gamecorp, do “gênio” Lulinha, indicado por  Azevedo. Schroeder participou de todos os principais eventos da história da Oi.

A recompensa da Oi pela assessoria do ex-catador de fezes no Simba Safári, a criação da supertele, que não sairia sem mudança na legislação, uma lei de pai para filho, foi permitida e assinada pelo próprio presidente (chamo-a de Lei Telesoca, lembrando a Lei Teresoca, com que Getúlio Vargas presenteou Chatô para permitir que exercesse o pátrio poder sobre a filha Teresa Acuña). E Lula não vai ter como dizer que não sabia.

Pois a supertele remunerava a empresa do Lulinha com uma verba corporativa contabilizada como assessoria jurídica. Com esse notório saber jurídico, Lula deve estar arrependido  de não ter indicado seu filho  para o Supremo Tribunal Federal. E vai sobrar para a Dilma também, pois ela era a ministra todo-poderosa que cuidava da criação da tal da supertele.

Schroeder, como  diretor da Contax, havia sido  citado na Lava Jato e foi alvo de busca e apreensão na Operação Mapa da Mina. Ele fechou um acordo de delação premiada e está delatando a supertele. Vai envolver Lula, Dilma, Lulinha, sítio em  Atibaia e Previ, que estava  na moita, bem escondidinha. É, minha gente, só a verdade nos salvará.

E não vai ficar nisso, não, viu? Nessa tarefa de fuçar o lixo enterrado, advogados também estão na mira da Polícia Federal e do Ministério Público (MP). Causídico a serviços de famosos como Delcídio Amaral e Palocci, especializado em delações, ou, melhor dizendo, em omissões premiadas, Figueiredo Basto foi denunciado pelo MP por enviar dinheiro ilegalmente para fora do País. Agora, o doutor é investigado pela acusação de receber mesada de US$ 50 mil (R$ 200 mil) por mês para proteger Dario Messer, doleiro dos doleiros, das autoridades.

Como é apropriado recordar nesta temporada de chuvas de véspera de carnaval, as águas vão rolar…

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 3 de fevereiro de 2020)

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No Blog do Nêumanne: Lula e Bolsonaro, a panela e o testo

No Blog do Nêumanne: Lula e Bolsonaro, a panela e o testo

Presidente precisa manter petista em evidência para lhe servir de contraponto na tentativa de reeleição em 2002 e ex-sindicalista tem no capitão seu melhor meio de sobreviver no ostracismo

O ladrão e lavador de dinheiro Lula da Silva perdeu grande parte do capital político com o qual construiu seu império financeiro e seu poderio político, sob cuja sombra sobrevivem a esquerda e os áulicos sem moral nem caráter de todas as filiações partidárias. Não se trata apenas de dependentes diretos, como os que precisam da Bolsa Família para comer, mas também de marajás do serviço público e chefões partidários que catam sobejos (mas não migalhas) com os quais cevam suas proles e azeitam invejáveis patrimônios pessoais que os tornam nababos.

Na periferia dessa sombra de um passado sem glórias, mas com ótimas rendas, ainda há muita gente que depende das graças e da pecúnia amealhada no maior assalto aos cofres públicos da História de nossa triste República e de muitos Estados estrangeiros que desta se aproveitaram. O ex-presidente aprista Alan García meteu uma bala no próprio crânio para não ter de enfrentar a prisão em seu país, o vizinho Peru. Isabel dos Santos, a mais rica mulher da África, beneficiária do roubo do PT em Angola, começa agora a enfrentar as agruras da legislação penal internacional, depois da queda da longeva ditadura comunista sob a chefia de seu pai, José Eduardo dos Santos. A Cuba dos irmãos Castro e a Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro vivem, a duras penas, das esmolas de aliados poderosos e ambiciosos como a Rússia de Putin e a China de Xi Jinping. São os restos do império soviético espalhados por um planeta desgovernado pela cobiça, pela corrupção e pelo medo.

Quando Lula foi preso, em 2018, havia o temor generalizado de que houvesse uma convulsão social no País. Ele mesmo se referia ao tal “exército do Stédile”, que pararia máquinas e veículos e conturbaria as ruas das grandes cidades brasileiras. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello, que faz parte da patota que aboliu a jurisprudência do próprio plenário da mais alta cúpula da Justiça, vivia alertando para isso. Lula foi condenado por nove votos a zero por causa da tal cobertura na Praia das Astúrias no Guarujá e não há notícia de alguma greve de monta ou mesmo de manifestação que chamasse a atenção para justificar a quebra de ordem jurídica adotada por seus cupinchas na tal da “alta Corte”, que terminou por mandá-lo de volta ao luxuoso apartamento de São Bernardo do Campo, maior evidência de frutos de rendimentos que não podem ter sido reunidos com salário de operário que nunca trabalhou, sindicalista que vendia greves e dirigente político da era pré-fundões. Só o furto do erário sem fundo pode justificar sua mudança de um casebre de vila operária para o luxuoso edifício.

Mas no meio do enxundioso manifesto que ele dirigiu aos coleguinhas do UOL e foi impresso e divulgado pela Folha de S.Paulo, é possível encontrar um vestígio de sua noção, embora embriagada por libações e bajulações, de que ele contava com uma recepção mais calorosa e relevante ao alcançar o objetivo da campanha “Lula livre”. Preste atenção no que ele disse e entrou no longo texto final de seu lorotário de hábito. “Tem muita gente que fala o seguinte: fiquei decepcionado porque o Lula saiu da cadeia e não aconteceu nada. A grande coisa que aconteceu foi eu ficar livre, o que mais poderia acontecer? As pessoas acham que eu iria fazer comício. Eu saí numa época que não é de fazer comício, é época de Natal, época do Papai Noel. E numa época em que o PT estava em seu congresso interno. Esse país só começa a funcionar a partir do Carnaval, tem uma turma que entra de férias em dezembro e só volta depois do Carnaval.” No meio da desculpa esfarrapada, que seria cômica se não fosse trágica para milhões de brasileiros desempregados nas sarjetas, percebe-se claramente a noção que o macaco velho tem de que não basta sair da jaula do zoológico para assumir o reinado da selva.

Qualquer leitor vacinado contra a fantasia que Lula e seus acólitos usam para iludir incautos encontrará outras causas ainda mais graves para mandar cantar o Te Deum na Sé pela graça alcançada de serem retiradas as mãos peludas das ratazanas do socialismo de rapina dos repositórios da poupança nacional. Essa poupança foi seriamente danificada, mas o que restou ainda é suficiente para atrair a volúpia de gente como a que ele lidera. Um exemplo completo dessa desfaçatez, adotada para buscar um caminho de volta às chaves dos cofres públicos, é a explicação que ele deu para a “descoberta” da salvação do PT pela conquista de evangélicos e desassistidos dos bairros periféricos das metrópoles nacionais.

Disse ele ao UOL: “O que o PT tem que entender é que essas pessoas estão na periferia, oferecendo às pessoas pobres uma saída espiritual. As pessoas estão ilhadas na periferia, sem receber a figura do Estado. E recebem quem? De um lado, o traficante. De outro lado, a Igreja Evangélica, a Igreja Católica”. Lula e os repórteres que registraram esse truísmo vil sabem muito bem que o Estado que abandonou a periferia, chegando ao cúmulo de entregar os pobres a quadrilhas e milícias de bandidos ferozes e desonestos ex-agentes da lei, foi governado durante 16 anos por presidentes filiados ao Partido dos Trabalhadores (PT) – ele mesmo e Dilma Rousseff – e um aliado sem o qual não teriam conseguido mais dois mandatos, o PMDB de Michel Temer. Sem contar a aliança de cúmplices de PP, PR e PCdoB, entre outros da miríade de apoio que conseguiu. E do PSDB, que antes governou oito anos sob a chefia de Fernando Henrique, cujo primeiro cargo político foi obtido com apoio dele e que hoje não esconde de ninguém que a velha simpatia não acabou. Até porque os tucanos trocaram sua oposição de fancaria por grandes propinas.

Apesar de não ter mais importância no cenário político nacional para justificar o espaço concedido, convém reconhecer que Lula pelo menos vislumbrou nele a esdrúxula simbiose que o faz hoje caudatário do projeto político do presidente Jair Bolsonaro. A respeito deste, pontificou: “Acho que tem crítica que ele faz que é correta. Dê a ele o mesmo direito que dá aos outros, direito de falar, abra para ele falar. Na greve dos jornalistas de 1979, os donos de jornais descobriram que não precisavam tanto de jornalistas, que poderiam fazer jornalismo sem precisar do jornalista. Agora, o Bolsonaro está provando que é possível fazer notícia sem precisar dos jornais, da televisão. Ele faz por ele mesmo. Aliás, o Trump já fez escola”. E não perdeu a chance de dar lições a quem lhe desagrada e ao adversário: “O que eu acho é que a imprensa tem que dar informação correta. Se o Lula errou, dê a informação correta. Se Lula caiu, diga que ele caiu. Mas se ele não caiu, não inventa uma mentira. Quando a imprensa mente, ela não está desrespeitando o atingido, ela está desrespeitando o eleitor, o telespectador, o ouvinte, que merece respeito. ‘Ah, eu sou legal porque o Lula fala mal de mim e o Bolsonaro fala mal de mim.’ Vai no estádio para ver quantas pessoas gritam, ao mesmo tempo inteiro, ‘abaixo a Rede Globo, que o povo não é bobo’. Eles não agem como jornalismo, agem com interesse político”. Isso tudo dito por um ex-presidente que tentou calar os críticos que no noticiário rotineiro do dia a dia revelaram ao cidadão enganado a ciclópica dimensão do engano de elegê-lo leva a introduzir o outro lado dessa equação, que está longe de ser uma incógnita.

Lula precisa de um adversário como Jair Messias, porque sem este sua farsa não ficaria de pé. Sem o capitão o ex-sindicalista não teria o inimigo encarnado a abater. Pouco lhe importa se é justamente a sua existência que justifica a do outro. O que vale a pena, para ele, é seduzir quem vê no presidente da República uma ameaça real à possibilidade de voltar ao poder para esvaziar o que ainda resta do erário a ser usado. Bolsonaro foi lançado pela direita que dormiu seu sono de urso desde a queda da ditadura e ressuscitou da noite polar para oferecer a única opção que parecia antipetista. E só venceu por isso. As nesgas de lucidez no porre do ex-presidente parecem indicar que ele sabe que seus aliados dos velhos tempos mantidos em altos postos do Legislativo, do Judiciário e, pasmem, do Executivo não terão suficiente força para erguê-lo de novo ao cume. Enquanto ele continuar aparecendo, Bolsonaro será favorito à reeleição.

Lula depende de Bolsonaro para manter o vampiro em movimento e não perde um segundo de vista que só Sergio Moro poderá fincar nele um letal punhal de prata no peito.

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 27 de janeiro de 2020)

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Nesta quarta-feira no Estadão: A máscara de Lula cai de novo

Nesta quarta-feira no Estadão: A máscara de Lula cai de novo

Levado a petista por Covas,

Emílio salva Odebrecht

e quase afunda Petrobrás

Lula foi poupado pelo simpatizante Joaquim Barbosa, relator do chamado mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), pela presunção de que não poderia responder por crimes de subordinados, por não ser diretamente responsável por suas nomeações. A Ação Penal 470 condenou apenas bagrinhos sem mandato e poupou chefões políticos das próprias penas após indulto da companheira “presidenta” Dilma Rousseff e do perdão subsequente da maioria dos ministros da dita Suprema Corte.

Citado em delações premiadas de corruptores e corruptos de vários escalões, o ex-presidente foi condenado em três instâncias por nove a zero e confinado numa sala de hospedagem de agentes da Polícia Federal (PF) em Curitiba até ser liberado dessa privação por 6 dos 11 ministros do STF. Desde sempre, insistiu e o faz até hoje, mais preso no próprio apartamento luxuoso de São Bernardo do Campo do que na sala de Estado Maior, o chefão dos três mandatos e meio dele próprio e do poste Dilma, que elegeu e reelegeu, este ainda garante ser inocente. Para tanto, recorre ao artifício da presunção de inocência, que perdeu na condenação em segunda instância, depois resgatada pelos amigões das altas instâncias judiciais, e da perseguição política dos inimigos do povo atribuindo-se a própria condição de “mais honesto do Brasil”. As investigações da Operação Lava Jato, chefiadas pelo procurador Deltan Dallagnol, e as condenações do ex-juiz Sergio Moro e de sua substituta eventual, Gabriela Hardt, foram jogadas no lixo da mixórdia dos entulhos ideológicos do socialismo de rapina.

A abundância de provas conseguidas por pistas obtidas por ex-executivos das empreitiras, da petroleira estatal e do Legislativo, que delataram comparsas e chefes em troca de alívio de pena, não abalou a férrea convicção de seus devotos domésticos e de além fronteiras. Mas a história implacável não se cansa de produzir mais evidências, apesar de sua liberdade, de que não se aproveita pela reação popular a seu evidente cinismo e pelo ressurgimento de fatos que o fanatismo não logra enterrar.

Para desmascarar Lula, seus acólitos e seus falsos opositores remunerados pelo propinoduto comum se deparam agora com uma reportagem investigativa que desenterra os primórdios do maior escândalo de corrupção de todos os tempos no Brasil. A mesma revista Piauí, insuspeita de culto ao fascismo, a cujos arreganhos o PT atribui a perseguição ao sacerdote supremo de sua seita que perdoa o furto da poupança popular pelas pretensas vantagens usufruídas pelo povo em suas gestões, volta à tona para esclarecer de vez a composição química do veneno das ratazanas da República.

Antes da atuação da Operação Lava Jato, a repórter Consuelo Dieguez havia partido do desabafo do chefão do PcdoB da Bahis Haroldo Lima narrando as votações do Conselho da Petrobrás que deram início ao assalto aos cofres da petroleira estatal (Petróleo depois da festa, de 2012). Mesmo um leitor leigo como o autor destas linhas detectou naquele texto profétio o ácido que levou a enormes pejuízos produzidos pela compra mais que onerosa da refinaria “Ruivinha” da Astra Oil e pelo acordo com acionistas americanos para remunerar seus prejuízos bilionários provocados pela corrupção.

A edição nas bancas da mesma Piauí presenteia leitores com texto de Malu Gaspar narrando em detalhes a anabolização da sobrevalorização dos contratos da Petrobrás e de outras fontes de despesas públicas ao longo dos dois desgovernos de Lula e do um e meio de sua poste. Conforme o relato, o ex-governador paulista Mário Covas, que havia conhecido Lula quando ambos atuavam em favor da candidatura ao Senado de Fernando Henrique pelo MDB, o apresentou ao patriarca da Odebrecht, Emílio. Esta seria a oportunidade que o magnata baiano teria para fugir a uma situação próxima da bancarrota da empresa que havia herdado do pai, Norberto. Manifestada à época em que PT e PSDB fingiam ser adversários (e até inimigos), esta cordialidade figura na pré-história da aliança secreta que tornaria os tucanos beneficiários de propinas distribuídas fartamente entre aliados, como PMDB, PP, PcdoBm PSB e muitos outros aliados.

A narrativa prossegue com a remoção de adversários do empenho do PT de quebrar a Petrobrás para salvar o patrimônio da família do “amigo do meu pai”, como tentou um antigo executivo da petroleira, Rodrigo Manso, substituído por Paulo Roberto Costa, espécie de delator premiado símbolo da devassa da Lava Jato.

Conforme o relato da Piauí, este foi introduzido no roteiro pelo deputado paranaense José Janene, do PP de Paulo Maluf, que morreu no transcurso da devassa, mas deixou indelével sua marca registrada. Quem o introduzira nas tratativas fora José Dirceu, que não foi perdoado pelo STF, assim como Pedro Correa, por terem delinquido cumprindo pena na Papuda. Dirceu hoje goza dos benefícios patrocinados pelo presidente do STF, Dias Toffoli, empregado da vida toda do PT, e, segundo Marcelo, fiho de Emílio, cognominado “amigo do amigo de meu pai” no propinoduto.

A mesma reportagem registra o emprego do ex-sindicalista Frei Chico, irmão do papa do PT, de assessor para desmobilizar greves, de que o que Lula foi acusado por Emílio em delação premiada. E também a adoção desavergonhada propina, ocorrida por decisão de um lobista da Odebrecht, Márcio Faria, ao autorizar pagamento de R$ 8 milhões “não contabilizados” a Pedro Barusco, gerente da área de Renato Duque, tido como homem de Dirceu na diretoria da Petrobrás, e falso “durão”, como mais tarde o comprovaria a Lava Jato.

A história é absurda e porca. É a milésima vez em que falsos heróis do povo, como Lula e Dirceu, são desmascarados em relatos históricos isentos, que põem por terra versões fantasiosas cretinas, como as postas em circulação pelo Vaza Jato do ianque Glenn Greenwald, a serviço do PT. Mas dificilmente produzirá os punitivos efeitos necessários. Infelizmente.

JOSÉ NÊUMANNE PINTO

JORNALISTA, POETA E ESCRITOR

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No Estadão desta quarta-feira: Toffoli no paraíso do infrator

No Estadão desta quarta-feira: Toffoli no paraíso do infrator

Presidente do STF

manda e desmanda

em favor de réus

e desprezando vítimas

No tempo do mensalão, o Supremo Tribunal Federal (STF) já não era mais exclusivo de juristas de notório saber e decência acima de quaisquer suspeitas. Sua composição dependia de critérios pessoais, políticos e partidários. O atual decano, por exemplo, foi nomeado por José Sarney, longe de ser uma unanimidade nacional acima de qualquer suspeita e de conhecimento além do normal. Quis indicar o advogado Saulo Ramos, que não era um jurista renomado, mas chefiava a banca de advocacia do reputado Vicente Rau. Saulo preferiu ficar no Ministério da Justiça. E passou a vez para Celso de Mello, seu jovem assessor em começo de carreira.

Nenhum dos 11 membros do dito “pretório excelso” hoje dispõe de reputação acadêmica capaz de preencher o requisito mínimo de exercer um poder sem vigilância externa nenhuma, defeito capital da Constituição de 1988. Os chefões dos partidos promoveram membros de suas assessorias com o óbvio intuito de garantir simpatia do plenário, caso deles viessem a depender. Assim ocorreu com o obscuro procurador de Mato Grosso Gilmar Mendes, alçado ao topo por Fernando Henrique sem prestígio universitário que exaltasse seus méritos. E com o advogado Dias Toffoli, cujo currículo é manchado por duas reprovações para ocupar cargos da magistratura de primeiro grau.

Nos debates do mensalão, Gilmar destacou-se pelos votos veementes contra o Partido dos Trabalhadores (PT), e por isso se destacou como principal crítico de Lula e de seus asseclas na gestão republicana. Toffoli, que nunca teve na carreira inteira ocupação nenhuma que não fosse na assessoria de petistas – assessor de bancadas legislativas e da chefia da Casa Civil (sob José Dirceu) e advogado-geral da União sob Lula –, era permanente voto vencido, sob a liderança de Ricardo Lewandowski, que fez das tripas coração para reduzir as penas dos companheiros de partido do ex-líder sindical, depois de promovido de assessor do ex-prefeito de São Bernardo Aron Galante a desembargador, nas gestões do PMDB, e ao STF.

Encerrado o mensalão, contudo, veio a Operação Lava Jato, que desde 2014 tem desmascarado a falsa oposição entre petistas e tucanos. Estes foram alcançados pelos agentes policiais, procuradores e juízes federais do Paraná. Isso irritou Gilmar, ex-assessor jurídico da Secretaria-Geral da Presidência sob Aloysio Nunes Ferreira e ex-advogado-geral da União de Fernando Henrique. Quanto a Toffoli, cujo irmão ex-prefeito também fora incomodado pelos implacáveis agentes do combate à corrupção, essa antiga oposição virou devoção. Tornou-se, então, devoto discípulo de Gilmar, cuja virada de voto na jurisdição do início de cumprimento de pena após condenação na segunda instância tornou possível a volta ao lar de seus antigos patrões: Lula e Dirceu.

Tornada imbatível com a virada de casaca de Rosa Weber, a dupla reeditou o famigerado método de tortura: um torturador morde e outro assopra. Gilmar morde e Toffoli assopra. Ambos impuseram à Nação, que fora surpreendida com a prisão de Lula e de Odebrecht pela Lava Jato, jurisprudências infames. Como a derrubada da possibilidade de prisão em segunda instância, o apoio à absurda instituição do juizado de garantias e, sobretudo, o decreto infame da mordaça a cidadãos descontentes com os 11 “supremos”, que resultou na censura à revista [ITALIC]Crusoé[/ITALIC] pelo coleguinha Alexandre de Moraes, cuja carreira pública foi patrocinada por Gilberto Kassab e Geraldo Alckmin, o “dr. Geraldo” da televisão, e Michel Temer.

Toffoli chegou perto de alcançar o poder absoluto pela via sem voto do Judiciário. Firmou pacto para impedir a continuação do inquérito do Ministério Público do Rio sobre Flávio Bolsonaro. E, apesar da acachapante derrota em plenário por 9 a 2, incluindo a virada de voto dele mesmo e a de Gilmar, conseguiu do pai do beneficiado, o presidente Jair, a promessa de fazer de seu antigo acólito na Advocacia-Geral da União (AGU), André Mendonça, sucessor do decano na primeira vaga no STF. No primeiro ano na chefia da instituição que agora dirige, Mendonça não deixa dúvidas de que seguirá fielmente seu “grande chefe”.

Para salvar a pele do filho, papai Jair apresentou o argumento de que, se quisesse interferir em favor do primogênito, o teria feito antes – seria cômico se não fosse trágico. Havia uma esperança difusa de quem votou no ex-deputado de que ele indicaria seu ministro da Justiça, Sergio Moro. De qualquer maneira, essa não foi a única promessa de campanha descumprida.

Bastidores do Planalto dão conta de que Mendonça aconselhou o chefe a sancionar o absurdo juiz de instrução, dado por Toffoli como “avanço civilizatório”. Outro conselheiro teria sido Jorge Oliveira, secretário-geral da Presidência.

Toffoli e Gilmar conseguirão mais uma vitória se o ex-major PM Jorginho ocupar a vaga a ser aberta por Marco Aurélio Mello no STF em 2021. Este é protegido pelo “maçaneta” Gustavo do Vale Rocha, chefe dos advogados que livraram Temer da prisão, quando presidente. Indicado por Temer para o STF, Alexandre de Moraes inspirou os aleijões incluídos no pacote anticrime de Moro. A convite de Rodrigo Maia, inspirou uma versão mais “palatável” ao Congresso. Nela a presidente da comissão constituída para apresentar o texto final do pacote desfigurado, deputada Margarete Coelho (PP-PI), do partido que mais dividiu propinas com o PT, inseriu o jabuti do juiz de garantias. Em parceria com Paulo Teixeira, do PT propriamente dito.

Se confirmadas, as futuras penadas do capitão darão poder absoluto a Toffoli e inaugurarão a era dos “maçanetas dos maçanetas” na Corte. Assim, ele comandará o paraíso dos infratores. Neste jardim do éden pelo avesso, os réus serão sempre compreendidos e socorridos. E as vítimas, cada vez mais desprezadas e oprimidas.

José Nêumanne Pinto 

JORNALISTA, POETA E ESCRITOR

 

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Nesta quarta-feira no Estadão: Cinismo atroz de um falso herói do povo espoliado

Nesta quarta-feira no Estadão: Cinismo atroz de um falso herói do povo espoliado

José Nêumanne

Do sindicalismo à chefia de organização criminosa,

trajetória de mais um socialista

Ao traçar em tese acadêmica a saga da família Pessoa – Política e Parentela na Paraíba -, Linda Lewin, professora da Universidade de Berkeley, na Califórnia, observou que todos os governadores do Estado descendiam de constituintes de 1823. O conflito de 1930, com “epitacistas” cindidos entre João Pessoa e Zé Pereira, os tiroteios na campanha de José de Américo contra Argemiro de Figueiredo e a polarização da esquerda contra a direita desde 1950 não mudaram essa realidade: as disputas paraibanas não saíam das fronteiras da oligarquia estadual.

Nascido na capital do Estado e sem conexões genealógicas com latifundiários, juízes e bacharéis poderosos, Ricardo Coutinho é dado como o primeiro exemplar de outro tipo de oligarquia, surgida depois da queda da ditadura militar e da promulgação da Constituição vigente, a sindical. Egresso dos movimentos estudantis de esquerda, presidiu o Sindicato dos Farmacêuticos do Estado e fundou outro, dos Servidores Estaduais. Daí sua aproximação com o Partido dos Trabalhadores (PT), que durou pouco, mas o suficiente para marcar seu estilo autocrático e mandão. Ao contrário dos outros militantes, não se filiou a nenhuma das tendências em que a sigla de Lula se dividiu, mas fundou e comandou com pulso de ferro o coletivo Ricardo Coutinho. Nela foi eleito vereador em João Pessoa e duas vezes deputado estadual. Seu personalismo intransigente o isolou dos grupos dominantes no PT e filiou-se ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), fundado por Miguel Arraes, para disputar a prefeitura da capital.

A boa fama adquirida nas gestões municipais e, posteriormente, em mais duas estaduais tornou-o independente em relação aos dois ex-governadores que então polarizavam as disputas, o emedebista José Maranhão e o tucano Cássio Cunha Lima. A fama de competente e probo fez dele uma espécie de chefão paraibano, levando à vitória para o Palácio da Redenção um desconhecido, João Azevêdo. Nas sombras manteve-se o chefão da Orcrim Ricardo Coutinho.

Líder inconteste da esquerda nordestina, chegou ao ponto de convidar Lula e Dilma para a farsa da inauguração da fictícia transposição do Rio São Francisco em Monteiro (PB). Parecia distante da hecatombe do PT após as explosões do mensalão e do petrolão. Até ficar claro que a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Federal (MPF) não se submetiam às suas ordens, que não admitiam desobediência, nem a seu carisma de feioso sedutor.

Dois magistrados infensos a seu poder e a sua fama de herói do povo demoliram sua biografia e seu charme: o desembargador Ricardo Vital e o titular da 1.ª Vara Criminal Federal da Paraíba, Adilson Fabrício Gomes da Silva, reduzindo sua glória inoxidável a cinzas políticas.

A pá de cal foi jogada por cinco delatores premiados que protagonizaram uma reportagem do Fantástico, da Globo, no domingo. O empresário Daniel Gomes – que confessou haver pago propinas no valor de R$ 134,2 milhões, por superfaturamento bilionário nas áreas de saúde e educação de um Estado paupérrimo – entregou à PF e ao MPF oito anos de gravações. A série começou em 2010 e acompanhou os dois mandatos de Ricardo até o fim, em 2018. Policiais e procuradores assistiram a mais de mil horas de reuniões e pedidos de propina. A defesa considera as gravações inverossímeis porque as quantias citadas são “estratosféricas”. De fato, os valores lembram os que levaram o ex-governador do Rio Sérgio Cabral à condenação a 267 anos de cadeia. Mas é difícil aceitar essa desculpa amarela como argumento de defesa.

O choque supremo foi dado por sua secretária de Administração Livânia Farias, que confessou ter-lhe entregado na residência oficial R$ 4 milhões em caixas de dinheiro vivo. Foi ela que forneceu o detalhe mais pitoresco aos investigadores, ao contar que interrompia a agenda oficial do chefe usando uma senha, “trouxe mangas de Sousa”, cidade natal dela.

Ivan Burity, Maria Laura Farias e Leandro Nunes confirmaram, em delações premiadas, essas narrativas. E ninguém percebe esforço nenhum do tido como destinatário dessas propinas para disfarçar que o assunto tratado era mesmo moeda corrente. Muitos dos áudios revelados pela PF e pelo MPF foram feitos em 2017, terceiro ano de atividade da Operação Lava Jato, o que por si só dá ideia do risco.

Em entrevista ao UOL, Coutinho deu-se ao luxo de defender seu líder máximo, o também ex-sindicalista Lula da Silva, e execrar a Lava Jato e o ministro da Justiça, Sergio Moro. Condenado por 9 a 0 em três instâncias, o petista também não se fez de rogado ao se pronunciar publicamente a respeito de “exageros no mandado de prisão”. No que foi seguido, é claro, pela presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, que acusa a operação de “mais um exagero daqueles que têm sido praxe de setores do Judiciário, envolvendo show midiático e interesses políticos”.

O mandado de prisão de Coutinho não foi executado de pronto porque ele se manteve foragido no exterior até ser encerrado o ano judicial. Desembarcou em Natal na sexta 20, de madrugada, e apresentou-se na Penitenciária de Segurança Média Juiz Adolfo Hitler Cantalice, na Mangabeira, em João Pessoa, no sábado 21, às 3 horas. À tarde foi solto por decisão monocrática do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Napoleão Maia. O plantão natalino está por conta do presidente da Corte, José Otávio de Noronha, mas este se disse impedido, pois seus filhos advogam para Coriolano, irmão de Ricardo. Com Félix Fisher doente e Francisco Falcão e Laurita Vaz ausentes, o caso foi entregue ao ministro que já concedeu dois habeas corpus ao socialista: um, de cassação do mandato extinto há quase um ano e ainda pendente de julgamento do plenário. Como de hábito.

Ou seja, se há juízes na Paraíba, usando a célebre frase dita pelo moleiro ao rei da Prússia, não se pode dizer o mesmo das altas Cortes de Brasília. Não é?

Jornalista, poeta e escritor

(Publicado na Pág. 2A do Estado de S. Paulo da quarta-feira 25 de dezembro de 2019)

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