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Política

Nesta quarta, no Estadão: Falácias e enganos acerca do mensalão

Nesta quarta, no Estadão: Falácias e enganos acerca do mensalão

Caberá ao Supremo julgar o futuro da impunidade de nossos políticos na democracia

O levantamento de peritos oficiais da Polícia Federal (PF), do Ministério Público Federal (MPF) e do Tribunal de Contas da União (TCU), após ouvirem 600 testemunhas e produzirem um relatório de 50 mil páginas, calcula em R$ 101,6 milhões o desvio de dinheiro, público ou privado, de que serão acusados os 38 réus do escândalo chamado de “mensalão”. Terá sido o maior episódio de corrupção de políticos e agentes públicos de todos os tempos? Vai saber! Por mais altos que sejam os números que dizem respeito aos “propinodutos” em todos os escalões da burocracia estatal, eles sempre podem parecer modestos após surgir o próximo à luz do noticiário. Mas é provável que tenha sido realmente o mais “atrevido” de todos, definição dada pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel.

Atrevimento incomum foi o do presidente nacional do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Roberto Jefferson, ao delatar a existência de um esquema de compra de votos em legendas governistas, que chamou indevidamente de “mensalão”, referindo-se ao que de menos relevante havia nele, a periodicidade. Mas atrevimento por atrevimento, truco! Os antigos aliados que ele delatou o superaram nesse quesito. Principalmente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que o delator tentou poupar, mas agora, se é que se pode confiar em escaramuças retóricas de advogados em véspera de júri, pretende transferir de José Dirceu para ele o papel de mandante do delito, se delito houve. Ou, como preferiu o procurador que antecedeu o atual, Antonio Fernando de Souza, e o denunciou, de chefe de uma rede de peculato e corrupção ativa e passiva.

Na Presidência, Lula foi a mais ambulante das metamorfoses citadas no sucesso de Raul Seixas, que ele adotou como lema. Nunca antes na História deste país um governante se mostrou tão pouco biruta ao se comportar como uma biruta ao sabor do vento que soprava na ocasião para dar a resposta que considerava mais conveniente para evitar que algum oposicionista ousasse tirar-lhe o escalpo.

Quando o escândalo eclodiu, Sua Excelência pôs a carapuça habitual do macaquinho da piada que nada sabe porque nada viu, nada ouviu e nada falou a respeito. Não faltaram testemunhas de que ele foi informado, entre elas o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), que terminou caindo na malha fina da PF em outro episódio de nossa grotesca República, a “rede criminosa” do bicheiro Carlinhos Cachoeira e da Delta. Em Paris, comodamente sentado, o então presidente deu um depoimento disfarçado de entrevista ao Fantástico e disse que seu Partido dos Trabalhadores (PT) recorreu ao estratagema comum do caixa 2 eleitoral. Eliane Tranchesi não podia fazê-lo, mas petista em campanha pode, é?

Lula também se disse traído e pediu perdão, como se isso fosse suficiente para extinguir delito e pena. E, depois, adotou a estratégia de assumir o crime menor para livrar os acusados da pena maior. Se o Supremo Tribunal Federal (STF) aceitar a tese, criará a jurisprudência que punirá o assaltante que matar o assaltado apenas pelo roubo. Sem contar o cinismo de imaginar que, numa adaptação corporativista do velho axioma de Artur Bernardes – “aos amigos, tudo; aos inimigos, o rigor da lei” –, a carteirinha de um partido político da base governista basta para liberar o cidadão do incômodo de cumprir as leis.

A desfaçatez do argumento, contudo, não sobreviveu ao tempo e ao exercício do poder. Reeleito por soberana decisão popular, tendo governado mais quatro anos no topo de uma popularidade crescente e contra uma oposição indigente, o ex-sindicalista deu-se ao luxo de trocar de falácia. Para que admitir o crime menor se a caradura, associada à boa-fé do povo, lhe permite a permanente presunção da inocência? Que caixa 2, que nada! O “mensalão” é fictício, mera intriga da oposição. Pois é notório que a PF, o MPF e o TCU são instituições comandadas por inimigos do PT e do governo. E não são mesmo?

Partindo do princípio público e notório de que o STF é um reduto de ferozes opositores, não convém confiar que esses sabotadores da República socialista, que só admitiram manter Cesare Battisti no País para disfarçar, aceitem a tese. Foi aí que Lula, em pessoa, saiu a campo para pregar a inconveniência do julgamento de um crime em ano de eleições municipais, cuja relevância é capital para a sobrevivência de nosso frágil Estado Democrático de Direito…

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, divulgou vídeo à militância negando a existência dos fatos relatados no relatório dos peritos da PF, do MPF e do TCU. Enquanto isso, os advogados do partido anunciaram que pedirão ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a proibição de eventuais alusões ao julgamento do STF nas campanhas municipais de seus filiados. Ou seja, a volta da Lei Falcão, da ditadura, com a qual o poder da época substituiu o debate político pelas fotografias e biografias dos candidatos a eleições, tentando impedir quaisquer exposições de ideias. Caso aceite a tese, a Justiça Eleitoral não precisará nem trocar a denominação, pois a interferência do falcão Armando, ministro da Justiça dos militares, virará a intervenção do falcão Rui, defensor perpétuo das causas dos militantes.

A corregedora do Conselho Nacional da Justiça, Eliana Calmon, em que pesem suas boas intenções, engana-se ao alertar que de amanhã em diante o STF se submeterá a julgamento da opinião pública. Não há como julgar a instância máxima do Judiciário: essa é uma característica pétrea da democracia, como esta tem de ser. Mas o STF contribuirá, sim, e muito, para aprimorar nossa democracia, fragilizada pelo atrevimento permanente de seus mais amados rebentos, se não contribuir para a impunidade ampla, geral e irrestrita, pela qual militam os que pregam o adiamento sine die do julgamento ou o perdão incondicional para os companheiros acusados. Afinal, nem pedir desculpas dispensa cumprimento de pena nem plena defesa é sinônimo de acusação nula. Ou não?

 

(Publicado na página 02A do Estado de S. Paulo da quarta-feira 1º de agosto de 2012)

No Estadão: A rede covarde da maledicência impune

No Estadão: A rede covarde da maledicência impune

Provedores e redes sociais na internet devem ser tidos como meios de comunicação

No fim do mês passado, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) deu provimento a recurso do Google contra decisão do Tribunal de Justiça do Rio que o obrigava a deixar de oferecer fotos e filmes de apelo erótico e sugestões de pedofilia da estrela de cinema e televisão Xuxa Meneghel. A jurisprudência foi firmada sob a alegação de que o provedor de internet não pode ser inculpado e punido por material que não produz nem fiscaliza, mas apenas faz circular. Antes disso, a Terceira Turma do STJ manteve condenação ao Orkut, de propriedade do Google, por ter mantido ofensas feitas por um blogueiro ao diretor de uma faculdade em Minas. Aquela turma fixou em 24 horas, depois de denunciada a ofensa, o prazo para o veículo suspender a exibição dela, sob pena de ser corresponsabilizado judicialmente.

Para qualquer leigo em meandros do jurisdiquês, caso do autor destas linhas, há uma contradição em termos. E certamente a confusão é provocada pela ausência de uma legislação clara e rigorosa para coibir a circulação de infâmias covardes e anônimas em redes sociais e quaisquer veículos que acolham e divulguem informações de todo tipo num dos meios mais utilizados de comunicação deste século da alta tecnologia, que é a rede mundial de computadores. A omissão jurídica a respeito do assunto não é uma exclusividade tupiniquim, mas nos países desenvolvidos alguns avanços têm sido registrados para impedir abusos sem violação de direitos elementares da liberdade de informação, expressão e opinião. A praticidade e a comodidade oferecidas pelo banco de informações vendido pelo Google são de tal ordem que tem passado ao largo dessas decisões o fato elementar de que esse provedor vende um produto que obtém de graça, o que caracteriza, obviamente, pirataria. E também que a tecnologia capaz de facilitar qualquer pesquisa ou informar algo relevante a alguém que trabalhe com informação ainda não desenvolveu meios que tornem possível separar o joio do trigo. Não se sabe como distinguir um dado correto de uma reles falsificação.

Na verdade, não é realista reivindicar a erradicação da falsidade proibindo que o instrumento funcione, pois isso provocaria uma revolta mundial de usuários já habituados à facilidade da obtenção dos dados necessários para uma pesquisa ou um texto. Mas urge mudar radicalmente o enfoque que tem sido dado à proteção das mensagens veiculadas – reais ou falsas. As redes sociais e os provedores dessas informações não são – como querem fazer crer os executivos de um dos mais bem-sucedidos negócios de alta tecnologia do mundo – apenas formas de relacionamento interpessoal, mas seu alcance permite defini-los como meios de comunicação social. Quem duvidar está convidado a refletir sobre a importância dada a esses meios pela publicidade comercial e pela propaganda política.

Por mais riscos que a falta de vigilância possa provocar, seja na boa imagem de produtos, seja na honra de cidadãos, ninguém resiste a anunciar, promover ou simplesmente se expor por esses meios. Neste ano de eleições municipais, o caluniômetro nacional ganhará velocidade maior até do que a do impostômetro da Associação Comercial de São Paulo, fazendo parecer folguedos de crianças as infâmias divulgadas na última campanha presidencial, tais como fotos de Luiz Inácio Lula da Silva com uma mancha de urina na calça ou lendo um livro de cabeça para baixo e de sua candidata, Dilma Rousseff, exibindo um fuzil a tiracolo. Dilma também foi citada falsamente como impedida de entrar nos Estados Unidos por causa de sua militância na guerra bruta e suja contra a ditadura militar brasileira, na qual os americanos simpatizavam com os militares.

No entanto, ainda que vítima, o governo do Partido dos Trabalhadores (PT) nunca manifestou interesse algum em reprimir a covarde rede de infâmias que circula impunemente entre os usuários de computadores no Brasil, como se ela fosse de somenos importância.
O petista Marco Maia (RS), presidente da Câmara dos Deputados, tem tratado com displicência acima do razoável a tramitação na Casa do Marco Civil da Internet, que, em teoria, poderia pôr fim à confusão a respeito da responsabilidade de provedores e redes sociais em crimes contra a honra, como exposto no início deste texto. Aliás, a expressão em teoria merece uma explicação. A proposta a ser debatida e votada no Congresso é de uma platitude que não assusta caluniadores pela internet nem tranquiliza suas vítimas eventuais – quaisquer que sejam. Seria ingênuo imaginar que os parlamentares, cujos partidos são vítimas e algozes da rede mundial da maledicência, enfrentassem temas que tampouco empolgam seus colegas nos países mais ricos, como a pirataria do Google ou os serviços prestados pelas redes sociais às agências de espionagem. Mas é sua obrigação precípua impedir que se confunda – como vem ocorrendo, e não só nos meios cibernéticos – liberdade de expressão com licença para enxovalhar a honra alheia.

A indiferença dos legisladores ao problema torna-os cúmplices de quem se aproveita da ausência de leis que impeçam expressar ressentimentos, manifestar desvios de comportamento e até tirar vantagem da difamação. Não há mais tempo hábil para evitar que essa prática daninha provoque turbulências indesejáveis nas campanhas eleitorais que estão para começar. Mas é preciso desde já empenhar a energia e o poder político que os membros do governo federal têm para pôr fim a esse massacre de reputações na telinha, em vez de gastá-los na discussão de marcos regulatórios da mídia e outros eufemismos a pretexto de disfarçar tentativas de controlar a informação ou a opinião desagradáveis ou nocivas aos donos do poder.

O primeiro passo a ser dado é a conscientização de que combater a veiculação da infâmia anônima em quaisquer meios, computadores pessoais inclusive, não é ferir as liberdades individuais, mas acudi-las, salvaguardando a honra do cidadão.

(Publicado na página A2 do Estado de S. Paulo na quarta-feira 18 de julho de 2012)

Lula quer provar que ‘neomalufismo’ compensa

Lula quer provar que ‘neomalufismo’ compensa

Ex-presidente foi contra volta dos exilados, fim da inflação e planos sociais dos tucanos

Nestes últimos dias, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem desafiado a própria fama de infalível em estratégias políticas com uma série de “pisadas na bola”, como se diz na gíria futebolística, que ele tanto aprecia, num território no qual sempre desfilou com desenvoltura.

Enquanto os adversários tucanos se engalfinhavam em lutas internas intermináveis e injustificáveis para escolher o candidato à sucessão de Gilberto Kassab (PSD) na Prefeitura de São Paulo, Lula não ouviu lideranças locais, federalizou o pleito e lançou Fernando Haddad com a justificativa de que aposta no “novo” e repete a audácia de ter indicado Dilma Rousseff para presidente, em 2010. O risco é que, se Haddad perder, dará a Dilma a oportunosa ensancha de mostrar que ela não ganhou só por causa do apoio dele, mas teve méritos próprios.

A aposta isolada de Lula ignorou a lição do poeta britânico William Congreve, que, no século 17, constatou o óbvio ululante: “Não há no céu fúria comparável ao amor transformado em ódio nem há no inferno ferocidade como a de uma mulher desprezada”. Da mesma forma como, segundo Arnaldo Jabor, teria escolhido Dilma para lhe suceder por imaginar que, sendo mulher, ela não o trairia, pensou que, depois de pisar nos calos da senadora Marta Suplicy (PT-SP), pudesse contar com seu apoio leal e entusiástico na campanha do favorito. Deu no que deu: a ex-prefeita virou a “fera ferida” da canção de Roberto Carlos e é, ninguém duvide, o maior empecilho para os planos de Lula conquistar uma vitória pessoal no pleito em São Paulo, cujo eleitorado lhe tem sido historicamente hostil. Ele próprio perdeu para José Serra e para Geraldo Alckmin e seus candidatos Marta Suplicy e Aloizio Mercadante Oliva foram derrotados por José Serra, ela também por Gilberto Kassab há quatro anos, além de Dilma Rousseff para o mesmo Serra nas urnas paulistanas. Outra lambança de Lula na mesma disputa foi deixar-se fotografar afagando o “filhote da ditadura” Paulo Maluf em troca do apoio do Partido Progressista (PP).

Os 95 segundos do PP malufista no horário gratuito, cedidos em troca dos afagos no jardim da mansão do dr. Paulo, geraram a crise da saída da ex-prefeita Luiza Erundina da chapa lulista, numa evidência de que, como o crime, o “neomalufismo” poderá não compensar.
No afã de eleger Haddad, o ex-presidente passou a seu eleitorado devoto e leal a impressão de Kassab – que se dispôs a apoiar o favorito dele e chegou a comparecer a uma reunião petista – lhe ter passado a perna. Tenha sido ou não esperteza do prefeito, a iniciativa dele empurrou o ex-governador José Serra para a disputa e convenceu seus desafetos no PSDB a compreenderem que a única forma de manter a oposição ao poder federal na maior prefeitura do País será apoiá-lo sem restrições, embora tapando o nariz.

Outro episódio posterior ao diagnóstico do câncer na laringe desmentiu mais até do que a fama de infalível do ex-presidente, pois contradisse um histórico de bom senso que o tem aproximado do cidadão comum, responsável por vitórias dele e de seus candidatos e altíssimos índices de popularidade por eles obtidos. Trata-se do encontro com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes no escritório do amigo comum Nelson Jobim. Mesmo que a versão do interlocutor – segundo quem Lula apelou para ele evitar que o julgamento do mensalão coincidisse com as eleições municipais – não seja absolutamente fidedigna, não faz sentido a exposição a que ele e alguns membros da última instância do Poder Judiciário – Gilmar, entre eles – se expuseram, às vésperas de um momento relevante como as sessões nas quais se julgará o maior escândalo de corrupção atribuída a seu governo na vigência do gozo da aposentadoria. Nada justificaria tal cruzada peripatética estando fora da Presidência, período no qual prometera se comportar com o máximo de discrição, e durante delicado tratamento de saúde.

Fato é que quem se surpreende com essas derrapadas do líder tido como infalível desconhece sua biografia. Nem sempre Lula foi sequer sensato como se pensa que foi. Em 1978, o ex-governador Cláudio Lembo, atendendo ao chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, lhe pediu apoio para a anistia e a volta dos exilados. Ele negou. Em 1985, apoiou a expulsão do Partido dos Trabalhadores (PT) dos deputados Bete Mendes, Airton Soares e José Eudes porque votaram em Tancredo Neves contra Paulo Maluf no Colégio Eleitoral, alegando que os dois candidatos eram “farinha do mesmo saco”. Em 1988, o partido só assinou a Constituição dita “cidadã” por apelo insistente do presidente do Congresso Constituinte, Ulysses Guimarães (PMDB-SP). No mesmo ano, omitiu-se na campanha da candidata petista à Prefeitura de São Paulo, Luiza Erundina, que tivera a ousadia de vencer seu favorito, Plínio de Arruda Sampaio, na convenção. Em 1993, apesar de ter participado da derrubada de Fernando Collor no Congresso, o PT recusou-se a participar do governo tampão do vice Itamar Franco e suspendeu a filiação da mesma Erundina, porque ela ousara desafiar novamente o chefão ao aceitar a Secretaria da Administração Federal – o que a levou a migrar para o PSB em 1997.

Aconselhado por Aloizio Mercadante Oliva, Lula levou os petistas a votarem contra o Plano Real, acusando-o de “estelionato eleitoral”, posição que o levou a duas derrotas eleitorais seguidas no primeiro turno para o criador do maior projeto social da História do País, Fernando Henrique Cardoso. E, na oposição, se opôs ferozmente à privatização, à adoção do câmbio flutuante, às metas de inflação, à Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e aos programas sociais propostos pelos tucanos.

Fiel à condição confessa de “metamorfose ambulante” (apud Raulzito Seixas), contudo, elegeu uma anistiada presidente. E agora enfrenta o desafio de provar que o “neomalufismo” não é crime e pode compensar. Se conseguirá só Deus sabe.

(Publicado na pág. A2 do Estado de S. Paulo da quarta-feira 4 de julho de 2012)

“Apoio de Maluf tira votos de Haddad”

“Apoio de Maluf tira votos de Haddad”

Lula ainda garante que não se arrependeu da troca de afagos com Maluf, mas rejeição de petistas já faz Haddad perder um quarto de eleitores conquistados

Uma das principais características de Paulo Maluf é o cinismo retórico. No entanto, nada há a lamentar ou a corrigir na declaração que ele deu sobre o polêmico flagrante no qual o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ele trocaram afagos diante do constrangido candidato petista à Prefeitura paulistana, Fernando Haddad. “Quero dizer em alto e bom tom que o PT se comportou à direita de Paulo Maluf. Eu perto do PT hoje sou comunista. Eles defenderam mais do que eu as multinacionais e os banqueiros”, pontificou. Impossível encontrar algo que se possa desmentir ou condenar: tudo é irretocavelmente verdadeiro.

No mesmo dia em que o novo aliado falou com a precisão de um analista político, Lula prometeu morder as canelas dos adversários, dirigindo-se indiretamente ao principal adversário de Haddad na eleição de outubro, José Serra, do PSDB. Sabe-se lá como o fundador da Psicanálise, o austríaco Sigmund Freud, classificaria esse a bazófia lulista em sua clássica coleção de atos falhos no belo texto de Psicopatologia da vida cotidiana.´ Mas é inegável que gente normalmente chuta canela, não morde. A bravata do guru petista foi tão infeliz que permitiu ao tucano Orlando Morando, de São Bernardo do Campo, pátria do sindicalismo que lançou o sindicalista que chegou ao topo da política fazer um comentário desrespeitoso: “Em São Paulo, Lula não é um pit bull. Ele não passa de uma Lassie”, cadela que foi estrela de cinema. A ousadia tem motivação histórica: o PT perdeu as duas últimas eleições municipais com Marta, derrotada pelo próprio Serra e um de seus baluartes agora, o prefeito Gilberto Kassab (PSD). Mas o ex-presidente não se fez de rogado e garantiu que não se arrependeu de se ter deixado fotografar com o risonho aliado que já foi por ele definido como “filhote da ditadura”.

Talvez ele devesse. Pesquisa da DataFolha publicada ontem deu conta de que 64% dos petistas rejeitaram o apoio de Maluf e concordaram com a ex-companheira Luiza Erundina, para quem o pragmatismo explica a coligação com o vilão por causa do minuto e meio a mais no horário eleitoral, mas provoca um desgaste político incalculável.

A mesma pesquisa desautorizou Lula, que ironizou o líder da preferência do voto, José Serra, que passou de 30% para 31%. De fato, um ponto porcentual a mais é pouco para quem seduziu quase um terço do eleitorado. Mas o que dizer da inversão de alta do favorito do ex-metalúrgico? Haddad perdeu 25% dos índices que quase tinham triplicado. Ele subiu de 3% para 8% e caiu para 6%. E agora, Luiz?

(Artigo publicado na página 2A do Jornal da Tarde de quinta-feira 28 de junho de 2012)

“Lula malufou para Maluf lular”

“Lula malufou para Maluf lular”

E os tucanos ficaram furiosos por terem perdido a chance de preceder o PT no afã

Há nos afagos entre o ex-governador Paulo Maluf (PP-SP) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP), sob os olhares embevecidos de Fernando Haddad, mais filustria do que possa perceber nossa vã filosofia. Mas, por incrível que pareça, há também muita sintonia. Ou, como reza o título do romance famoso de Goethe, Afinidades eletivas. Como? – perguntará o leigo desabituado aos vaivéns da política, que o ex-governador de Minas e banqueiro Magalhães Pinto comparava com a mutação das imagens formadas pelas nuvens no céu. Ele mesmo comprovou sua metáfora fundando o PP com seu principal adversário mineiro, Tancredo Neves – um, ex-UDN, outro, ex-PSD –, aparentemente inconciliáveis. Os mais ingênuos dirão que não há traços ideológicos comuns entre o PT de Lula e o PP atual, que conta entre seus mais fortes dirigentes com um sobrinho do presidente que foi sem nunca ter sido, como a Viúva Porcina, Francisco Dornelles, também aparentado do caudilho gaúcho Getúlio Dornelles Vargas. Ora, ora, mas quem está interessado em ideias? Na política contemporânea contam cargos na máquina administrativa pública e segundos no horário da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV. O PP ficou com um cargo; o PT, com mais 95 segundos para vender seu peixe fora d’água ao eleitorado escaldado, como sempre o foi o paulistano.

Maluf nunca deixou de ser o que dele dizia Lula nos tempos em que encarnava o furibundo João Ferrador, personagem das greves do ABC lideradas por ele nos jornais dos metalúrgicos nos anos 70 e 80 do século 20: um “filhote da ditadura”. Prefeito nomeado pelos militares para administrar a maior cidade do País, o ricaço descendente de libaneses ganhou de seus admiradores a imagem do realizador, tocador de obras. O símbolo desse gestor que faz mais é o horrendo Minhocão, sem o qual hoje o trânsito paulistano não fluiria. Seus detratores, entre os quais os petistas que estão no poder federal e os tucanos que governam o maior Estado da Federação, o rotularam como símbolo da malversação do ensebado dinheiro do Zé Mané, que paga impostos e quase nada recebe em troca do Estado. Essa moeda de duas faces, não necessariamente excludentes nem sequer opostas, poderia ter a inscrição “rouba, mas faz” do velho Adhemar.

Mas Lula está longe de ser o demônio execrado pelos malufistas de antanho como um perigoso inimigo do mercado e da democracia, um sindicalista subversivo que liderava grevistas furiosos no ABC e se deixou, depois, politizar por antigos guerrilheiros que queriam mudar o sinal de uma ditadura de direita por outra de esquerda. Mais longe ainda está o PT, que o sindicalista fundou, de sua imagem original de partido ideológico comprometido com a mudança de “tudo o que está aí”. Atolado até o pescoço num pântano de corrupção e desmandos em administrações municipais, estaduais e federal, o partido se deixou levar pelo canto da sereia da conciliação de seu principal líder e ocupou o bote salva-vidas ao lado de Jader Barbalho, Severino Cavalcanti e… Maluf.

Para sobreviver no campo minado da política partidária brasileira, Lula trocou os piquetes do ABC pelo toma lá dá cá franciscano, superando os aliados que combateu antes de cingir a faixa presidencial. Para tanto adotou, sem pejo, a retórica dos cultores da velha realpolitik tupiniquim. Nisso o milionário da madeireira foi um mestre valioso para o aplicado estudante egresso do miserável semiárido nordestino. Se não o superou em cinismo, tarefa reconhecidamente hercúlea, cultiva a caradura com eficiência ainda maior. Pilhado em algum passo em falso, aplica fintas que nem Mané Garrincha foi capaz de incluir em seu amplo repertório. E com muito mais credibilidade do que as tentativas de drible que seu mais recente aliado tem repetido para tirar o pé das armadilhas dos repórteres maledicentes e dos promotores incansáveis que vasculham as contabilidades de suas gestões. O dono do PP já foi muitas vezes alcançado pelos braços longos da lei, mas nessas ocasiões, até agora, escapou desse abraço escorregando como bagre ensaboado para o amplo território da impunidade do país da Justiça lerda e vesga. O senhor do PT lança mão de súditos que assumiram bandalheiras que chegaram pertinho de seu gabinete palaciano e se tem saído com habilidade de invejar Arsène Lupin, protagonista de populares folhetins policiais. Posto diante das evidências de que, no mínimo, não ignorava o que faziam seus auxiliares na fraude dita “mensalão”, saiu-se com a patacoada tornada dogma de fé de que tudo não passara de “intriga da oposição”.

É notório – e não deixa de ser ridículo – o truque chinfrim de marketing de Maluf de se apropriar de quase tudo o que pareça plausível de ter sido obra dele desde a posse de Tomé de Souza como governador-geral. Lula foi adiante em esperteza e criatividade ao criar o próprio slogan, “nunca antes na História deste País”. Maluf sabia que nunca precisaria comprovar afirmações duvidosas. Lula construiu o próprio mito de forma a sequer ser questionado a respeito.

Maluf foi beneficiário do arbítrio. E Lula tornou-se dirigente sindical atendendo ao anseio de parte dos militares que topavam tudo para impedir a influência de Leonel Brizola, herdeiro presuntivo do inimigo número um das casernas, Getúlio Vargas, no aparelho sindicalista que o caudilho de São Borja forjou. Com as greves, o esperto sobrevivente da pobreza do semiárido passou a simbolizar o ideal do povo brasileiro cultivado pela esquerda que ganharia nas urnas a guerra perdida na tentativa de tomar o poder com as armas. Maluf foi escorraçado dos palácios e virou uma aposta perdida de volta da direita ao topo.

Neste ambiente em que governabilidade justifica barganha e pouca vergonha se confunde com pragmatismo, Lula malufou para Maluf lular, enfurecendo os tucanos que perderam a chance de preceder o PT no afã.

 

O Estado de S. Paulo de quarta-feira 20 de junho de 2012, p. A2

Dirceu quer pintar a própria caradura

Dirceu quer pintar a própria caradura

Réu em processo penal pelo crime comum de furto, ex-chefe da Casa Civil de Lula convoca estudantes às ruas para desafiarem autonomia da Justiça no Estado Democrático de Direito

O ex-chefe da Casa Civil no governo Lula José Dirceu é acusado de ter chefiado uma quadrilha para desviar recursos públicos e privados para recompensar financeiramente o apoio de parlamentares de bancadas de partidos aliados do governo federal petista. A acusação não foi feita pelo líder de uma bancada de oposição, mas pelo ex-procurador-geral da  República Antônio Fernando de Souza. E foi recebida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e não pelos militantes da organização “reacionária” do que os blogueiros progressistas e companheiros de jornada chamam de Partido da Imprensa Golpista (PIG – porco em inglês). A Corte vai julgar um crime que não é político, ou seja de posição ou opinião, mas está capitulado em todos os códigos penais conhecidos, inclusive um que foi gravado em pedra no deserto e entregue ao profeta Moisés, os dez mandamentos da Lei de Deus – no caso o sétimo, “não furtarás”. E seus membros não podem ser acusados de antipatia pelo maior defensor público dos 38 réus, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que alçou a maioria ao topo da carreira e à glória em vida.

O que leva, então, o escaldado militante de extrema esquerda, cuja vida foi salva em troca da libertação do então embaixador americano no Brasil, Charles Elbrick, a percorrer o País em cruzada para pregar a mobilização dos devotos de sua doutrina para ir às ruas pressionar os juízes que decidirão seu destino? O desespero? Desesperar-se por esperar que a sentença lhe seja desfavorável se tem certeza da própria inocência é, no mínimo, insensato. O episódio batizado de mensalão não teria sido mentira inventada pela “mídia” e por seus adversários?

Neste fim de semana, em ousadia que jamais um réu de crime comum, o que é estritamente seu caso, jamais exibiu, Dirceu teve a pretensão de provocar episódio similar ao das “caras pintadas”, que ajudaram a derrubar seu atual aliado Fernando Collor de Mello da Presidência da República, em sua defesa pessoal. Ele conclamou os participantes do 16º Congresso Nacional da União da Juventude Socialista (UJS), ligada ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), a participarem do que chamou a “batalha final”.

Mais do que uma ousadia a conclamação configurou-se um acintoso desafio à ordem democrática instituída. A garantia de autonomia do Poder Judiciário não é um privilégio de juízes togados, mas um direito do cidadão comum. O STF é a última instância para garantir as prerrogativas do cidadania e impedir a ação solerte da violência estatal contra ela. Propor-se a estimular hordas de militantes partidários do socialismo totalitário a subordinarem o Poder Judiciário a pretensões de impunidade de um dirigente político, sobrepondo seu ideário político às obrigações comezinhas que o gestor público tem de respeitar é um grotesco ato fascistoide.

 Jornal da Tarde de terça-feira 12 de junho de 2012, p. 02

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