Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Política

Eleição é uma coisa; unção, outra

61 milhões de votos não põem Lula acima da democracia

Uma euforia cívica tomou conta do Brasil na semana passada, quando, por unanimidade, os dez membros do Supremo Tribunal Federal (STF) abriram processo por corrupção ativa contra – e apenas um deles não enquadrou por formação de quadrilha – o ex-ministro José Dirceu e mais 39 acusados de comprar a adesão de parlamentares aliados para projetos de interesse do governo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva avisou logo que ninguém foi inocentado… nem inculpado. O truísmo presidencial certamente será insuficiente para retirar do julgamento a importância histórica e o incômodo que trouxe para seu governo e o partido em que milita. Mas também serve para alertar que esta decisão não é suficiente para dar um “basta” definitivo à impunidade reinante no País e enraizada na história, nos hábitos e nos costumes da sociedade – nem à permanência nociva dela nas engrenagens do Estado.
Sim: a histórica goleada que o goleiro Lula não quer admitir ter sofrido resolveu um jogo, empregando aqui uma metáfora tão de seu gosto pessoal, mas não decidiu o campeonato da impunidade. Ele próprio, contudo, pode ter-nos dado, sem querer, o caminho para desvendar e esclarecer a verdadeira importância daqueles votos que fizeram história. O observador desapaixonado terá dificuldade de entender por que o presidente não aproveitou a oportunosa ensancha para lembrar que a corajosa peça de acusação encaminhada ao STF foi da lavra de um servidor por ele nomeado e reconduzido ao cargo, Antônio Fernando de Souza, o procurador-geral da República. O relatório que acolheu a denúncia e encaminhou a votação também foi produzido por um ministro, Joaquim Barbosa, nomeado pelas mesmas mãos que conduziram ao plenário da cúpula do Poder Judiciário a maioria mais um de seus membros, seis em dez. Isso pode até ser debitado na conta do desgosto que lhe devem ter causado os votos dos ministros que indicou e que foram, como sempre, pressurosamente referendados nas sabatinas do Senado. Mas é mais provável que a lembrança lhe tenha faltado por desconhecimento de causa.
Talvez Sua Excelência não tenha percebido que a “vitaliciedade” (palavra desembarcada na linguagem corrente por culpa da sinecura confirmada pelo Órgão Especial do Ministério Público Estadual paulista ao promotor Thales Ferri Schoedl, que matou Diego Mondanez) é gêmea da independência. O general Charles de Gaulle dizia que a ingratidão é uma das maiores virtudes de que deve ser dotado um estadista. Talvez nosso presidente não conheça a sentença, mas tem uma biografia cheia de episódios que confirmam ser esta uma das qualidades que mais utilizou na escalada de uma diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo até o principal gabinete do Palácio do Planalto. Quem põe alguém numa cadeira que ele pensa ser maior que o ocupante deve estar sempre preparado para a possibilidade de o lugar exigir que ele cresça para ocupá-lo. Provavelmente o presidente da República e os 40 réus do “mensalão” não se tenham dado conta disso. Mas tudo indica que os membros do Supremo perceberam com clareza que a História lhes estava dando a oportunidade de ignorar o investidor para ficar no tamanho da investidura.
A ministra Ellen Gracie pôs indiretamente estas cartas na mesa quando lembrou, no encerramento da votação, que presidiu com brilho, que a história do STF o credencia perante a Nação por um “desempenho notável” no decorrer do tempo. No pronunciamento final dela e nos apartes de apoio que recebeu dos colegas Celso de Mello e Carlos Britto, ficou patente este compromisso do plenário do Supremo com a própria instituição, acusada de histórica leniência em relação à impunidade vigente – principalmente no que concerne ao julgamento de ilícitos de que têm sido acusados parlamentares e altos executivos federais aquinhoados com o foro privilegiado. Este zelo em relação à imagem da cúpula do Poder Judiciário, que o Senado não tem demonstrado no caso Renan e o Conselho Nacional do MP demonstrou honrar, ao corrigir a desastrada decisão corporativista do Órgão Especial do MP Estadual paulista, pode não bastar para garantir a punição exemplar para quem de fato delinqüiu no processo em debate. Mas pelo menos sinalizou que, mesmo tendo o acaso aquinhoado as duas atuais gestões com a nomeação de mais da metade de seus membros, o Supremo não fará vista grossa à marcha insensata que os maiorais petistas resolveram empreender contra a higidez das instituições democráticas vigentes. A popularidade de Lula não o põe acima delas.
Com a proverbial empáfia petista, o presidente fez o contrário do que fizeram os ministros do Supremo que nomeou e se apequenou apeando do trono presidencial onde o povo o pôs para exercer o papel, que não lhe é dado pela ordem constituída, de “perdoador-geral da república do PT”. Num encontro partidário, tomado pela certeza de que os 61 milhões de sufrágios que recebeu no ano passado o tornam portador do dom de ungir seus favoritos com o halo da santidade, mesmo quando eles cometem os mais graves pecados, Sua Excelência se deu ao desplante de dizer aos correligionários que não se deveriam envergonhar de seus companheiros processados pelo Supremo, mas se solidarizar com eles. Ungida pelo pai-patrão, o companheirada assumiu a vanguarda da marcha que tenta solapar as instituições, propondo absurdos, como a reestatização da Vale, e piadas de péssimo gosto, como a criação de um Conselho de Ética, sem que um só de seus ex-dirigentes e militantes tornados réus por corrupção e formação de quadrilha tenha sido sequer censurado. O passo do STF foi enorme e dado na direção e na hora certas, mas longa ainda é a caminhada para salvar as instituições do desmanche.
© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 5 de setembro de 2007, p. A2, Opinião

Lavando as mãos

A suspensão pelo Conselho Superior do Ministério Público da decisão tomada pelo Órgão Especial do Ministério Público Estadual de São Paulo, que manteve o promotor Thales Ferri Schoedl no cargo com todas as prerrogativas, entre as quais salário, aposentadoria e porte de arma, além de mandá-lo para Jales, onde sua vítima, Diego Mondanez, morou, lavou as mãos da instituição. É também esperta, pois o não à “vitaliciedade” dada (embora pela margem de apenas um voto), mais que a segurança dos cidadãos, salvaguarda a imagem da corporação, que goza desde 1988, quando foi aquinhoada com a condição de quarto poder pela Constituição em vigor, de muito prestígio na sociedade. Os membros do Conselho Superior, que nada têm que ver com a politicagem dos colegas paulistas, trataram de corrigir logo o erro.
Ao aceitarem a tese da “legítima defesa” de alguém que disparou 11 tiros contra um grupo de rapazes por motivo fútil, os promotores paulistas deixaram claro que, quando a questão atinge um de seus membros, eles podem ser tão sócios e cúmplices da impunidade reinante do País quanto quaisquer meliantes que acusam em nome da sociedade. A revisão determinada pelo órgão federal retira das mãos de um assassino confesso a arma que porta em nome do povo, mas mostrou também usar contra desafetos desarmados. Ela tem o condão de limpar a mácula na instituição justamente na semana em que o Supremo Tribunal Federal salvava a face do Poder Judiciário no histórico julgamento do “mensalão”. E confirma o passo correto dado pelos constituintes de prever um controle externo para a corporação.

© Jornal da Tarde, terça-feira, 04 de setembro de 2007, p. 2A

Uma esmolinha para Dr. Paulo, pelo amor de Deus

Quer ter uma idéia de o que e como é o Brasil? Exatamente no mesmo dia em que o promotor-matador Thales Schoedl foi “vitaliciado” pelos colegas; em que a Folha de S. Paulo publicou em manchete a queixa de Lewandovsky de que o STF teria aceitado a ação contra Dirceu “com a faca no pescoço”; e em que os amigos de Renan resolveram apenas para a CCJ do Senado e o STF contra a votação aberta do relatório contra o presidente do Congresso, os coleguinhas da Coordenadoria de Imprensa do STJ distribuíram a seguinte notícia:
Maluf receberá indenização de 100 salários mínimos
O deputado federal Paulo Salim Maluf receberá indenização no valor de 100 salários mínimos a título de indenização por dano moral a ser paga pelo jornal “O Estado de S. Paulo” e pelo jornalista José Nêumanne Pinto pela publicação e autoria do editorial intitulado “Viva o Voto”. O ministro Antônio de Pádua Ribeiro, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), negou a subida do recurso especial do jornal e do jornalista, que pretendia rever a decisão condenatória do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ/SP).

Para o ministro, os recorrentes não rebateram, de forma específica, os fundamentos da decisão agravada, o que inviabiliza o acolhimento do agravo de instrumento para fazer subir o recurso especial de forma que o STJ possa rediscutir a questão

Segundo o processo, Paulo Maluf moveu ação de indenização contra o “Estadão” e José Nêumane Pinto, em razão de editorial intitulado “Viva o Voto!”, escrito pelo jornalista e publicado na seção Espaço Aberto, na edição do dia 26 de abril de 2000. O texto foi considerado pelo político paulista “um compêndio de enojantes insinuações e aleivosidades”. No texto, José Nêumane lamenta, comentando frase de Pelé, que “o voto direto não tenha livrado o Brasil de pragas como Maluf” e que “hoje a possibilidade mais concreta de Maluf e sua escola virem a ser castigados por malfeitorias em território nacional está nas mãos do FBI”. Para o jornalista, “as instituições brasileiras são tão lerdas e tolerantes que só há a possibilidade concreta de capturar um chefão de nosso crime político organizado se ele violar alguma lei americana – principalmente a da lavagem de dinheiro sujo”.

A sentença, do juiz de Direito Marcos Roberto de Souza Bernicchi, julgou a ação improcedente, condenando Paulo Maluf ao pagamento das custas e despesas processuais e honorários. Para o juiz, as expressões do texto são voltadas a convicções políticas e não à pessoa do autor, são voltadas contra a pessoa pública e não contra a pessoa íntima do autor. Para o magistrado, “o autor ficou conhecido por dizer frases célebres como “se está com desejo, estupra, mas não mata” e “professora não ganha pouco, é mal casada”, nem por isso foi processado por professoras e mulheres estupradas pelo simples fato de ter emitido opinião sócio-política.

A apelação de Paulo Maluf foi provida pela Oitava Câmara do Tribunal de Justiça de São Paulo, que considerou “abuso do jornal veicular editorial em que o apelante era achincalhado e adjetivado de corrupto, incompetente e irresponsável, cujo nome significaria administrar com o lema ‘rouba, mas faz”. Por unanimidade, os desembargadores condenaram o jornal e o editorialista a pagar indenização de 100 salários mínimos a Maluf com juros de mora de 0,5% ao mês desde a data da publicação até o efetivo pagamento, além de 20% de honorários sobre o valor final da condenação.

Daí o recurso especial de “O Estado de S. Paulo” e de José Nêumanne Pinto, que não foi admitido na origem, tendo as partes entrado com agravo de instrumento para tentar fazer a questão voltar a ser reexaminada pelo STJ. Mas, para o relator, ministro Antônio de Pádua Ribeiro, os recorrentes não demonstraram, de modo inequívoco, a contrariedade ou negativa de vigência dos dispositivos considerados violados pela decisão atacada, não bastando a simples alegação de que a lei foi contrariada para justificar o cabimento do recurso especial, sendo evidente que, para modificar a decisão do TJ/SP, seria necessário o reexame das provas colhidas no processo, o que não é possível no âmbito do STJ, por meio da via escolhida pelos agravantes.
Minha vontade é oferecer mais 100 SM pela propaganda de graça que os advogados do dr. Paulo estão fazendo deste jornalista.

Em julgamento o “abre-te Sésamo”

A Justiça, diz-se, tarda, mas não falha.

A Justiça, diz-se, tarda, mas não falha. Os procuradores federais do Distrito Federal levaram dois anos e meio para requerer à Justiça a punição de figurões do governo Lula e ex-dirigentes do partido do presidente, o PT, acusados de comprar a adesão de parlamentares da base de apoio para projetos de interesse oficial. Mas, afinal, o fizeram e pediram, no começo desta semana, a abertura de cinco ações de improbidade administrativa contra 37 dentre os tidos como beneficiários do tal “mensalão” – termo impróprio pelo qual se tornou conhecido o esquema. Antecipando-os, aliás, o procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, já havia oferecido denúncia contra 40 ditos “mensaleiros” e esta vai ser julgada a partir de hoje pelo Supremo Tribunal Federal.
Da delação do ex-amigo Roberto Jefferson, então presidente nacional do PTB, partido da base aliada, até hoje muita água passou por baixo da ponte e, segundo dizia Heráclito de Éfeso, nunca ninguém se banha duas vezes nas mesmas águas, embora tenha ido ao mesmo rio. Da cabeça raspada do publicitário Marcos Valério, acusado pelo delator de principal operador do indigitado método, brotaram cabelos encanecidos, mas nunca pelas preocupações com a vida, pois ela segue mansa como dantes: este jornal revelou, domingo, que ele se tornou um próspero fazendeiro em sua Minas natal.
Não se pode dizer também que o professor de Matemática que virou tesoureiro do PT, Delúbio Soares, tenha muitas queixas do destino, mesmo tendo sido o único punido por seu partido. Não mais é visto pelos corredores do Planalto, como nos tempos em que passava cigarrilhas acesas por debaixo da mesa para o padrinho presidente. Mas é tratado como celebridade em sua terra natal, Buriti Alegre (GO), onde no domingo 12 de agosto subiu no palanque montado para receber o governador goiano, Alcides Rodrigues Filho (PP), depois de fazer parte da comitiva que o recepcionara no aeroporto.
Silvinho Pereira, célebre pelo jipão Land Rover de R$ 79 mil que lhe foi presenteado por uma fornecedora da Petrobrás, foi afastado da secretaria-geral do PT, mas hoje circula num Toyota Fielder, um pouquinho mais barato (de R$ 65 mil), só que, pelo menos, pago com o suor do próprio rosto: residente em Ilhabela, ele administra uma empresa de eventos, que tem a mesma estatal em sua carteira de clientes, e constrói uma pousada.
O ex-guerrilheiro José Genoino, flagrado por uma câmera de elevador ao lado do irmão, o deputado estadual cearense José Nobre Guimarães, antes de um assessor deste ser pilhado pela polícia com dólares escondidos na cueca, no Aeroporto de Congonhas, elegeu-se deputado federal. À época das acusações, explicou sua assinatura de presidente nacional do PT como um descuido de boa-fé de companheiro. Os brasileiros, que vivem sob a égide de leis de cuja redação participa, podem fazer pouco além de rezar e torcer para que ele tenha mais atenção ao escrevê-las.
Do lote de absolvidos pelos magnânimos companheiros deputados e perdoados pela majestática generosidade do chefe do governo, o Professor Luizinho não conseguiu repetir a proeza de Genoino, mas promete começar tudo de novo, e de baixo, como vereador em Santo André. Esta cidade do Grande ABC ganhou notoriedade política e criminal depois do seqüestro e assassínio do prefeito petista Celso Daniel.
Entre os raros punidos pelos colegas deputados, destacam-se dois. O acusador, Roberto Jefferson, voltou às origens de criminalista, com o mesmo talento que o levou, primeiro, ao Povo na TV e, depois, à tribuna da Câmara dos Deputados, de onde defendeu a permanência de Fernando Collor na Presidência da República e exigiu a saída de José Dirceu da Casa Civil. Embora dispondo de um único cliente, acusado de homicídio, não consta que Jefferson tenha sofrido uma redução de patrimônio pessoal que lhe tire a paz e o sono.
O mesmo pode ser dito do protagonista do escândalo, José Dirceu, que, embora tendo perdido o poder formal com a demissão da Casa Civil e a cassação do mandato e a perda dos direitos políticos pela Câmara, não parece contar com menos força informal. O moço de Passa Quatro, que se celebrizou como combatente contra a ditadura menos pelo sangue que nunca fez jorrar em conflitos com a repressão e mais pelo que ensopou a camisa do colega morto por ele hasteada como uma bandeira numa passeata estudantil, é um self made man de fazer inveja a Sebastião Camargo, da Camargo Corrêa, e Rolim Amaro, da TAM. Os meios de comunicação, que ele acusa de “partidários” em entrevista à Playboy que está nas bancas, continuam a lhe dar importância, como fica comprovado pela referida entrevista.
Dirceu é o símbolo do que passará a ser julgado na maratona de três sessões do STF, a partir de hoje: ele representa como poucos a devoção de um grupo de profissionais da revolução ao elementar princípio religioso da unção. Este amolda o lema adotado por Artur Bernardes – “aos amigos, tudo; aos inimigos, o rigor da lei” – ao princípio stalinista segundo o qual, “se o inimigo não tiver defeito, inventa-se; se o camarada não tiver defesa, perdoa-se”. Este estilo de fazer política e governar a República – expresso no acintoso perdão incondicional do PT aos próprios militantes às vésperas da sessão do STF – está agora para ser julgado. O Supremo não julgará apenas se os 40 acusados compraram de fato a adesão de parlamentares aos pleitos oficiais. Mas também decidirá se a vontade majoritária do eleitorado dá a um grupo de ungidos o poder de condenar e absolver apenas a seu bel-prazer.
Talvez não seja exagerado concluir que, além da definição do Brasil como o “país da impunidade”, se decidirá se as instituições podem evitar que alguns usufruam o fruto do suor de todos com um mero “abre-te, Sésamo”.

© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 22 de agosto de 2007, p. A2, Opinião

Doutor Pedalada

Como jogador do Internacional de Porto Alegre, Didi Pedalada não deixou lembranças similares às de craques como Tesourinha, Flávio, Falcão ou Alexandre Pato. Seu nome entrou mesmo para a história como o agente do Dops gaúcho que seqüestrou os uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Díaz, que os tiranos brasileiros entregaram de mão beijada aos colegas uruguaios.
As ditaduras militares no Cone Sul foram extintas, mas esse tipo de colaboração internacional, não! Agora mesmo, a zelite petista que manda no País despachou de volta para Cuba, a pedido do ditador Fidel Castro, os boxeadores Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que tentaram trocar o Paraíso socialista pelo inferno do capitalismo selvagem. Mas foram impedidos pela Polícia Federal, sob o comando do causídico gaúcho Tarso Genro.
Sua Excelência foi rápido e rasteiro para mandar seus Didis Pedaladas de agora localizarem e prenderem os “desertores”, conduzidos ao jatinho especial que o Comandante enviou ao Brasil para tornar efetiva a deportação decretada pelo governo dos amigos companheiros. E não lhe faltou cara-dura para mandar seus assessores contarem que o governo não tinha como impedi-los de voltar a Cuba, porque eles nem sequer pediram refúgio.
A presteza da deportação dos pugilistas contraria a tradição brasileira de abrigar assaltantes como o inglês Ronald Biggs e colegas de Fidel, caso do paraguaio Alfredo Stroessner. Mas, desta vez, Lula nem pode dizer “nunca antes neste País”, pois os militares já o tinham feito. Agora é torcer para que os deportados não tenham pior destino que os uruguaios. Afinal, eles sobreviveram.

© Jornal da Tarde, quinta-feira, 02 de agosto de 2007

Quem paga a conta vaia Lula

Governo dá pão a pobres e dinheiro a ricos e a classe média é que banca

Nos últimos dias, nós, os 160 milhões de brasileiros, temos recebido a graça de ser informados de umas tantas e quantas notícias – umas estranhas, outras animadoras, várias delas surpreendentes – dadas pela elite que nos dirige lá do distante e inacessível Planalto Central do País.
Informou-nos o presidente Luiz Inácio Lula da Silva que o Criador, em sua suprema magnanimidade, o dotou de duas orelhas, por uma das quais escuta as vaias e por outra os aplausos de seus súditos. É preciso ter cuidado com as orelhas, como alertou o colega jornalista e escritor de talento Renato Pompeu, pois elas costumam ter ouvidos e nem todas são tão seletivas quanto Sua Excelência diz serem as dele. O certo é que, entre os aplausos dos correligionários encantados com seu desempenho e os apupos de seus detratores, não teve o chefe do governo republicano disponibilidade para escutar o clamor rouco das ruas quanto ao Caos Aéreo Nacional, sobre o qual ele próprio já havia escrito e publicado. O Boeing da Gol desabou sobre a Amazônia desmatada e ele não ouviu o estrondo. Os passageiros, em franca desobediência civil aos conselhos de sua ministra sexóloga, não relaxaram nem gozaram na longa espera dos vôos que não partiram. Aí o Airbus da TAM explodiu no prédio da companhia e, depois de uma semana de silêncio, o ruído da explosão ultrapassou as vidraças e os tapetes do poder e chegaram a seus ouvidos, pelo visto apenas uma semana após o fato, pois foi este o prazo para que ele, enfim, falasse sobre o que ouvira.
A reação presidencial às vaias do público do Maracanã na abertura do Pan foi mais rápida, mas não menas alienada. Entrou para a História como o primeiro presidente anfitrião daquela competição a não saudar os atletas visitantes e deixou de ser vaiado pessoalmente (ele o foi, in absentia, de qualquer forma) para ouvir o descontentamento de um público normalmente menos hostil, em Natal. Em seu estilo desabusado de sempre, o máximo prócer atribuiu o protesto à ingratidão dos ricos, cujos bolsos seu governo nunca se cansou de encher, conforme cândida confissão que ele próprio fez em mais uma escala da única aeronave que permite a seu usuário não tomar conhecimento dos maus bofes dos controladores de vôo nem dos jogos de mercado das companhias aéreas. Nunca antes na História um presidente foi tão sincero e tão preciso. De fato, as estatísticas confirmam sua afirmação: os podres de ricos o estão sendo cada vez mais graças à generosidade de uma política econômica que os favorece com toda a franqueza.
Lula erra, contudo, quando trata seus primeiros beneficiários como ingratos. É pouco provável que houvesse um único representante da fina flor da burguesia nacional nas arquibancadas do “maior do mundo” naquela noite em que se cunhou a maldosa sentença segundo a qual “quem tem boca vaia Lula”. Rico não vaia. Primeiro, porque de fato não pode ter queixas da generosidade federal. Depois, porque tem à mão meios melhores para conseguir o que almeja. Com a facilidade com que se corrompe e a dificuldade com que se pune um corrupto no Brasil contemporâneo, seria estúpido quem preferisse defender os próprios interesses no desconforto das arquibancadas de um estádio. Quem vaiou o presidente foi a classe média e teve os melhores motivos para isso. Afinal, a fórmula genial encontrada pelo chefe da Nação – dinheiro nos bolsos dos ricos e comida nos pratos dos miseráveis – tem um lado negativo, como tudo na vida: o sacrifício da classe média, convocada para pagar a conta. Empobrecida, submetida à violência das ruas e obrigada a pagar pelos serviços que o Estado não presta, esta se fez ouvir do jeito que pôde. E conseguiu o que queria. O presidente que não tomou conhecimento do mensalão, do falso dossiê dos “aloprados”, da longa espera dos passageiros de avião e da dolorosa tragédia dos parentes das vítimas do desastre da TAM, ao ouvir a vaia, foi, enfim, informado, pelo menos, de sua existência. No último fim de semana, este jornal registrou o reconhecimento por uma das poucas bocas que têm acesso aos ouvidos do chefe, a de Luiz Dulci, hierarca da elite petista reinante, de que a classe média está insatisfeita com os rumos do País. Pode a oposição, débil e desnorteada como sempre, imaginar que se trata de um truísmo vulgar. Não é. É um fato da maior relevância o PT no pudê reconhecer que a classe média existe e está longe, muito longe, do Paraíso.
Não que isso resulte em alguma coisa. Pois este governo, se sabe, é bom de falar, mas péssimo de ouvir e, mais ainda, de fazer. Se o tal do PAC até agora não acelerou coisa nenhuma, imagine o leitor amigo se algum programa que beneficie a classe média poderá um dia vir a ser implementado neste país do “nunca antes” e do “não é bem assim”. Basta ler as pesquisas de opinião que garantem que o prestígio presidencial não caiu um milímetro depois da transubstanciação do Caos Aéreo Nacional em tragédia coletiva para concluir que a classe média indignada é incapaz de romper os acolchoados de algodão que impedem as duas orelhas dadas pelo Criador ao presidente de ouvir sua ira exposta em apupos.
Os beneficiários do atual sistema usam aviões próprios – sejam eles banqueiros ou a zelite dirigente republicana – ou simplesmente nunca entraram num aeroporto nem para fazer um lanche, porque a Bolsa-Família não chega para tais luxos. Os passageiros de avião de carreira não têm número suficiente para se fazerem ouvir por Lula, nem se Deus lhe tivesse dado quatro – e não dois – ouvidos encapsulados em orelhas à prova de queixas, muxoxos e recriminações e sempre disponíveis para a lisonja e a aprovação. No aulicismo reinante, mais vale uma nota fria que um boi pastando e o chefe se protege do amuo dos infelizes fazendo a felicidade dos bajuladores ao lado.

© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 08 de agosto de 2007, p. A2, Opinião

Página 30 de 56«...510152025...2829303132...3540455055...»
Criação de sites em recife Q.I Genial