Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Política

Antes que algum avião vá pro brejo

A calmaria deste fim de ano não deve nos iludir: a situação dos aeroportos é muito precária e são bem preocupantes as perspectivas para o Mundial da Fifa de 2014 e a Olimpíada do Rio de 2016

Graças ao bom Deus, nossos aeroportos não provocaram notícias ruins na virada de ano. Apesar do espetacular crescimento da indústria da aviação civil e da ameaça de greve, felizmente gorada, de aeroviários e aeroportuários, não foram registradas as muvucas sazonais de outros anos no Natal e no reveillon. O Caos Aéreo Nacional não se manifestou e, por isso mesmo, não foi noticiado. O que, contudo, não quer dizer que nossas estações de embarque e desembarque em aviões de carreira estejam em condições de operação satisfatórias. E nem de longe elas estão preparadas para receber o aumento de afluxo de passageiros que circularão no Mundial da Fifa, em dois anos e meio, e na Olimpíada no Rio, em 2016.

Ao contrário. A relativa tranquilidade com que passageiros viajaram no fim de 2011 e neste começo do ano novo não é suficiente para jogar para baixo do tapete as precárias instalações dos aeroportos brasileiros e da necessária infraestrutura a seu redor. É praticamente insignificante a diferença existente entre o Aeroporto Internacional Tom Jobim, no Galeão, na Ilha do Governador, e a Estação Rodoviária Grande Rio, na área portuária da cidade que já foi conhecida como Maravilhosa. Não que os passageiros de avião merecessem gozar de mais conforto do que os usuários de ônibus. Não é isso. Mas a comparação leva em conta as instalações para lá de precárias das paradas de transportes rodoviários coletivos e a necessidade de receber com um mínimo de decência e conforto visitantes vindos do exterior para passear e gozar seu lazer no ponto turístico mais badalado do Brasil e um dos mais festejados no resto do mundo.

Reformado recentemente, o Santos-Dumont, frequentado prioritariamente por turistas internos e viajantes de negócios, tem melhores condições do que o Galeão, como em São Paulo o panorama visto de Congonhas é mais aceitável do que o de Cumbica. Este ponto de chegada e partida mais movimentado do Brasil está em situação deplorável: não é incomum o passageiro ficar feito barata tonta sem saber seu portão de embarque por não poder contar com os monitores eletrônicos que teriam de dar conta deles.

O estacionamento do aeroporto de Guarulhos é um território de ninguém com automóveis guardados em locais impróprios pela absoluta falta de vagas. Em Congonhas também faltam vagas na garagem, mas pelo menos o aspecto dela não chega a ser tão assustador.

Acima disso paira a Empresa Brasileira de Infraestrutura Portuária (Infraero), incapaz até de se informar sobre as lojas que alugam espaço nos maiores aeroportos do País.. Se a presidente Dilma Rousseff fosse a “gerentona” capaz e implacável vendida nos palanques pelo antecessor, Lula, já teria dado um choque de gestão antes que a vaca, ou melhor, algum avião vá pro brejo.

Bastidores Líderes© Jornal da Tarde, terça-feira, 3 de janeiro de 2011, p. A2

O falso milagre da água dos coronéis

Na queda de braço entre os dois Luizes, um presidente da República e o outro franciscano e bispo da cidade ribeirinha de Barra, na Bahia, em torno das águas do rio São Francisco, terminou prevalecendo, como sempre foi de esperar, a força da autoridade sobre a autoridade da razão. A segunda greve de fome de dom Luiz Cappio, interrompida pela debilitação de seu organismo provocada pela ausência de nutrientes, foi, desde o início o empreitada condenada ao malogro, seja por seu aspecto quixotesco intrínseco, seja pela insensibilidade do antagonista aos valores que ela cobrava. Nunca houve sentido nem lógica no desafio do indivíduo ao agente do interesse coletivo e nada mais podia fazer o Supremo Tribunal Federal a não ser dar a César o que era de César negando ao homem de Deus o direito de paralisar o curso de uma obra considerada prioritária – como na Bíblia Josué parou a trajetória do Sol. A Luiz Inácio Lula da Silva assiste a razão do Estado: eleito pela maioria do eleitorado para comandar os destinos da Nação, sente-se no direito quase divino de desviar a rota das águas do Velho Chico. Juízes não a negarão e os tratores farão cumpri-la. Para se apoderar da razão moral do adversário, buscou apoio na hierarquia da instituição em que o outro é barão e ele, vassalo, apelando para o princípio cristão da inviolabilidade do dom divino da vida.
O pomo da discórdia, as águas do rio que é dito ser da unidade nacional, poderá até seguir para o destino manifesto de produzir várzeas em solos estorricados pela seca. Afinal, a serena razão do prelado não basta para deter as máquinas das empreiteiras e a gula dos políticos por poder. O presidente e seus sequazes clamam pela transposição em nome da sede do sertanejo. Mas as águas que brotam na Serra da Canastra e banham Minas, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe alimentarão mesmo a agro-indústria, que é benfazeja para a pauta de exportações, mas não liberta o sertanejo do jugo dos coronéis. Para calar a voz clarividente do sacerdote, o governante se investe ilegitimamente do papel de profeta dos pobres e mata a sede de poder dos abonados. Instaura ainda mais uma equação perversa na República do pretexto, ao enriquecer a indústria da seca a pretexto de eliminar seus efeitos. Servindo aos adesistas que o bajulam, o chefe do governo cuspiu na mão que antes o acolhia e abençoava. Inúteis são milagres de taumaturgos sem fé.

© Jornal da Tarde, terça-feira, 1º de janeiro de 2008

Quem usa fantasia depois do carnaval?

Lula sabe que a estabilidade é fundamental para manter seu cacife

Parece até milagre de Frei Galvão: após ter usado uma retórica desaforada e agressiva para garantir a aprovação da prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) por um Senado no qual não dispõe dos três quintos necessários de votos para emendar a Constituição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a dizer, sensatamente, que aquele imposto não importa tanto, principalmente quando posto em confronto com a estabilidade. Do outro lado do guichê, a oposição também baixou o tom do confronto verbal, aproximando-se mais da confraternização do Dia da Paz Universal, a ser festejado na semana que vem, e se distanciando anos-luz do tom acerbo que seu principal líder, o senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), empregou para desacatar um venerando varão da casa, Pedro Simon (PMDB-RS), que, aos 48 minutos do segundo tempo, aderiu de maneira surpreendente às pretensões prorrogacionistas do governo.
O discurso pró-estabilidade do chefe desse mesmo governo é positivo, necessário e profilático. Pois, sempre que repetido, ele afasta da realidade das contas públicas os espantalhos desenvolvimentistas de uma patota que o cerca e não resiste à velha tentação de abrir as burras, ainda que isso implique um “pouquinho” a mais de inflação. Lula não atingiu os 65% de prestígio popular medidos na última pesquisa de opinião pública à toa ou por acaso. Esse feito espetacular, a ponto de desafiar o axioma do malogro inexorável no segundo mandato, é fruto de talento e bom senso. Quando ele brigou pela prorrogação da CPMF, deveria contar com a sobra de caixa que os recordes de arrecadação produzirão em 2008, mas sabia que os R$ 40 bilhões não eram tão essenciais assim. Só que também não eram – nem são – desprezíveis para ele nem para ninguém. Se era para incrementar a Bolsa Família ou pôr fim ao caos na saúde, irrigar o sertão ou os cofres das campanhas dos aliados nas campanhas municipais, pouco importa: há sempre algo de bom e útil a ser feito com sobras de caixa. Sua Excelência, contudo, nunca perdeu de vista o que a vida lhe ensinou: os programas sociais podem lhe dar votos e força, mas o fim da estabilidade levaria seu cacife de votos à breca.
A defesa intransigente do patrimônio político herdado de seus adversários tucanos – o controle da inflação, que corroía o salário do operário, reduzia o consumo da classe média e só favorecia os ricos – não resulta de convicções ideológicas, mas de mero pragmatismo. As provas de juízo, que o presidente tem dado na manutenção da política econômica traçada pelo chefe de sua campanha e depois seu ministro da Fazenda, Antonio Palocci, contrariando velhas palavras de ordem do partido dos dois, o PT, devem ser celebradas. Mas não podem ser vistas como um salvo-conduto genérico que garanta ao País um lugar nos vagões da frente do trem da prosperidade econômica mundial. Não devemos esquecer que o mesmo homem que se agarra com unhas e dentes aos princípios do rigor fiscal defende publicamente o conceito absurdo de que boa gestão faz quem aumenta despesas para pagar mais pessoal, e não quem demite para poupar.
Por isso, talvez seja precipitado festejar com idêntica efusividade as reiteradas notícias de que o governo federal não criará novos impostos nem aumentará alíquotas, mas cortará os próprios gastos. Lida ao fluir da pena, esta frase pode soar contraditória por ter sido escrita por quem sempre reclamou dos excessos cometidos não só por este, mas por todos os governos, na alocação de verbas do Orçamento. Mas convém ter presente que o fundamental não é apenas cortar, pois é preciso saber cortar. O corte linear das despesas da União, anunciado pelo líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), é imprudente e fatalmente será desastroso. Reduzir os recursos encaminhados para a saúde, setor ao qual estaria destinada a arrecadação que o Senado obstruiu, por exemplo, será uma atitude criminosa de um governo que continua acenando com miçangas milionárias, tais como a TV pública e as obras da transposição do Rio São Francisco. Deixar de construir escolas e aumentar salários de professores para bancar a produção caríssima de uma programação cuja audiência não existirá será uma demonstração de falta de critério na escolha de prioridades. Não tapar os buracos nas estradas nem construir esgotos, mas, ao invés disso, irrigar as terras dos latifundiários nordestinos, em nome da sede dos sertanejos, alimentando a indústria da seca, a pretexto de exterminá-la, manterá o País em déficit social crônico.
Parágrafo à parte merece a reforma tributária. A oposição, que rosnou contra a deserção de Simon, ouve, embevecida, o festival de cantigas da sereia das promessas vazias de um debate sério e realista sobre a demolição consensual da estrutura arcaica e onerosa da cobrança de impostos no País. Ora, se todos concordam que urge modificar o sistema de arrecadação de tributos, pois ele representa um dos mais importantes motivos da pífia participação do Brasil no cada vez mais próspero mercado das nações livres, por que não se consegue fazê-lo? Pelo simples motivo de que todos são a favor de mudar, mas ninguém é capaz de ceder, quando se trata de construir um sistema novo, mais simples, mais justo e, sobretudo, menos oneroso para a sociedade que sua, trabalha, produz e consome. Nada mudou desde a derrubada da CPMF, por mais histórica que esta tenha sido, que autorize a previsão panglossiana de que será possível chegar ao encontro de convergências capazes de contornar os interesses que se contrariam e digladiam numa guerra que não tem fim à vista.
Fantasias são próprias para o carnaval, mas ninguém de posse das faculdades mentais as veste depois da Quarta-Feira de Cinzas.

© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 26 de dezembro de 2007, p. A2, Opinião

Enterrar inocentes para salvar culpados

Duas implosões anunciadas e um projeto de lei que obriga os donos de boates de São Paulo a instalarem bebedouros em seus estabelecimentos para saciar a sede dos viciados em ecstasy, noticiados na semana passada, lembram a anedota do marido que encontrou a mulher fazendo amor com o amante no sofá da sala e decidiu se livrar do sofá.
O governo da Bahia, sob a égide de Jacques Wagner, tido como um dos presidenciáveis do PT, anunciou a disposição de demolir o Estádio da Fonte Nova, onde sete torcedores morreram no desabamento de um pedaço da arquibancada. A palavra “acidente” tem sido usada de forma imprópria muitas vezes no Brasil atual. Neste caso, mais que impropriedade há cinismo, pois perícias técnicas de instituições acreditadas alertavam para a iminência da ocorrência de um incidente do gênero. Isso sem contar o fato de, em que pesem a dor das famílias das vítimas e a solidariedade de que são merecedoras, termos de agradecer ao Senhor do Bom Fim por não ter morrido muito mais gente. Pois era de esperar que isso ocorresse nas circunstâncias em que ocorreu o desabamento.
Do mesmo partido de Wagner é a governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, que também resolveu pôr abaixo a cadeia de Abaetuba, onde a menor L., de presumíveis 16 anos, serviu de pasto a 27 condenados, com a anuência da polícia, da Justiça e do Ministério Público. Alertado por um colega de prisão, por isso mesmo tido como um pária (assim como a vítima), o Conselho Tutelar tomou as providências necessárias e tornou o caso público, evitando que mais esse absurdo da crueldade e da falta de sensibilidade de nossos agentes públicos caísse no esquecimento. Depois de demitir seu delegado-geral, que cometeu a estupidez de definir a garota como “débil mental” por não ter alegado a própria menoridade, Sua Excelência mandou implodir a cela onde a menor foi martirizada – como se isso apagasse essa humilhação, não apenas de L., mas de toda a cidadania desrespeitada por um Estado que ainda se pretende “de direito”.
As implosões e o hipócrita fornecimento gratuito de água, mais barata que a droga que provoca a sede dos consumidores, mostram que este não é mais o país onde só se põe a tranca na porta depois que ela é arrombada. É costume no Brasil de hoje, depois de se livrar do sofá, demolir a casa sobre os cadáveres dos inocentes para impedir que venham a lume as provas dos crimes de seus agentes e mandatários.

© Jornal da Tarde, terça-feira, 04 de dezembro de 2007

É bom ter sorte, mas convém ter juízo

Enquanto o óleo de Santos não jorra, o Brasil precisa de energia para andar


Muitas são as evidências do brilho da estrela da sorte do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De fato, ele tem ajudado a fortuna que lhe sorri com o imenso talento de se comunicar com seu eleitorado cativo. E também com o engenho político com que engorda os cofres dos bancos e a barriga dos miseráveis – fórmula da poção mágica que o mantém no topo. Mas muitas coisas fogem ao alcance desse talento ou da perícia em usar anteparos para evitar que o descontentamento lhe atinja a imagem e que contribuem para seu inegável carisma e para sua popularidade invejável. O que Getúlio Vargas não teria dado para que a oposição da UDN de seu tempo fosse mansa, dispersa e, sobretudo, atabalhoada quanto a feita pelo PSDB hoje? Quantas penas de sua cauda vistosa de pavão Fernando Henrique não trocaria pela bonança internacional cujos efeitos se reproduzem na ausência de crises econômicas para contornar, no plano interno? Isso sem pensar no general Ernesto Geisel, que, depois de presidir a Petrobrás, teve de conduzir a nau Brasil nas procelas do choque internacional da escassez de petróleo. Pois, se algo faltava, acaba de emergir: um lençol de petróleo leve debaixo de uma camada geológica salina no fundo do mar territorial brasileiro na Bacia de Santos.
Pode-se argumentar que a notícia nem nova é: este jornal revelou há um ano a farta ocorrência do óleo no campo de Tupi. E que, além de ótima, é oportuníssima, por ter sido dada no momento em que as expectativas de um apagão energético põem de novo o brasileiro diante da perspectiva sinistra de optar entre ficar para o bicho comer ou correr para o bicho pegar. Ou seja, ou o País sai da estagnação para cair no gargalo da infra-estrutura, incapaz de segurar o rojão. Ou fica estagnado para continuar derrapando nas curvas das estradas esburacadas, dos portos obsoletos, da dependência de gás da Bolívia (imaginem só!) e do Caos Aéreo Nacional. A superjazida anunciada pode ser uma bênção de Deus, como o presidente reconheceu, em humilde ato de contrita contenção, mas não resolverá a crise de abastecimento, prevista para os próximos quatro anos, do gás natural de que termoelétricas, indústrias e até alguns automóveis dependem para gerar energia, produzir e se mover.
Ou seja: ainda que se considere apenas um muxoxo despeitado de perdedor a leitura feita pela oposição de que o anúncio foi feito para tentar abafar os ecos da crise do gás, a verdade é que ele não retifica, mas, ao contrário, ratifica a evidência de que o governo Lula tem tido muito mais sorte que juízo. Além da decisão divina de prover depósitos invejáveis de combustíveis fósseis no subsolo de nossa bela e ampla costa marítima, urge bendizer agora a opção correta da Petrobrás, tomada ainda à época da ditadura militar que o líder sindical Lula combatia, de prospectar óleo nas profundezas do oceano, já que não havia mesmo o que encontrar em solo firme. Mas não há milagre de Frei Galvão capaz de suprir as carências energéticas do desenvolvimento brasileiro para os próximos sete anos, prazo tido como razoável para o início da extração, com o petróleo cubado do campo de Tupi.
É justo que Lula festeje publicamente mais um sintoma de sua sorte, já que sua estrela de hoje produzirá excelentes resultados para os brasileiros no decênio que vem. É natural que, como tem feito com argúcia ao longo de sua carreira pública, tente carrear esse êxito para o grupo político que chefia, como o fez ao transferir a honra do anúncio para sua chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Embora a candidatura dela à sua sucessão talvez venha a exigir muito mais combustível político que o equivalente em óleo cru que possa o campo de Tupi produzir. Mas a Nação terá mais motivos para comemorar se o óleo cheirado pelo presidente numa pedra nele incutisse a disposição de agir de forma mais sensata na gestão do perfil energético nacional, enquanto o petróleo esperado não jorrar.
A experiência internacional tem dado razões para mostrar que a má gestão de riquezas proporcionadas pela escassez mundial de combustíveis fósseis não tem melhorado significativamente a vida dos povos assentados sobre territórios cujos subsolos são irrigados pelo ouro negro. A riqueza produzida pelos poços de Maracaibo pode melhorar o arsenal das Forças Armadas venezuelanas e engrossar o tom arrogante do neocaudilho Hugo Chávez, mas não tornou a Venezuela um país desenvolvido. A ostentação de sinais exteriores de riqueza pelos xeques árabes não fez de suas tribos potências planetárias. Da mesma forma que a dependência da importação de derivados de petróleo não reduziu o poder econômico e bélico dos Estados Unidos, a prosperidade japonesa nem o padrão de vida dos europeus.
É claro que vai ser ótimo para o Brasil entrar no poderoso clube dos países produtores de petróleo, a Opep, embora isso, se realmente se concretizar, só venha a ocorrer no fim do governo que sucederá ao atual. Mas melhor ainda seria se o presidente que anuncia essa expectativa tivesse tirocínio suficiente para entender o ridículo que é propor petróleo mais barato para os pobres ou outras patacoadas que podem ficar bem na boca de Chávez, mas nunca na do presidente de um país que tanto perde por não parecer sério, como o nosso. Exportar petróleo deverá ser ótimo para o Brasil. Mas, enquanto isso não acontece, já seria bom se nosso presidente não se curvasse à truculência de Evo Morales e fosse capaz de entender o insulto irônico de Chávez ao chamá-lo de “magnata do petróleo”. E reagir à altura: em vez de contar com a omelete de um ovo que a galinha dos ovos de ouro de Santos ainda não pôs, bem que Lula poderia ter mandado o venezuelano calar a boca, antes de o rei Juan Carlos, da Espanha, fazê-lo. Sorte ajuda, mas não basta para impor o respeito que o senso de ridículo daria.

© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 14 de novembro de 2007, p. A2, Opinião

As ordens inúteis do comandante Jobim

Diante da notícia da queda do Learjet 35 da Reali Táxi Aéreo, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, tomou a providência que era capaz de tomar: mandou o diretor da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) Allemander Pereira Filho intensificar a fiscalização da aviação geral, que abrange jatos particulares, táxis aéreos e helicópteros. Comportou-se como de hábito: disparou ordens para onde o nariz apontou querendo dar a impressão de que, ao contrário do antecessor, o inerte Waldir Pires, decide. Não importa que decisões toma, mas está sempre disposto a decidir. Para o bem ou para o mal, dá ordens. Mesmo que elas sejam inócuas, inúteis e ninguém seja obrigado a cumpri-las.
Dias antes de caírem três helicópteros e da tragédia do jatinho na Casa Verde, com 12 mortos ao todo, Jobim já havia tomado uma decisão importante: porá fim à crise aérea em março de 2008. Sim, é isso aí: depois das festas de fim de ano e do carnaval, com os aeroportos na santa paz da entressafra, o ministro decretou que neles não haverá congestionamento. Não se trata de um plano do governo, de um projeto do ministério, mas de um capricho pessoal. O fim da crise em março é como a ordem para a Anac verificar se as regras na aviação geral são cumpridas ou se será preciso adotar normas mais rígidas. Terão o efeito de uma estratégia traçada pelo treinador campeão Muricy Ramalho para melhorar a defesa do Corinthians, treinado por seu antigo companheiro de time Nelsinho Batista e ameaçado de cair para a segunda divisão. A Anac deve tanta obediência a Jobim quanto a Força Aérea dos Estados Unidos.
Mesmo com a morte anunciada (para daqui a quatro meses), o Caos Aéreo Nacional continua em atividade: aeroportos cheios, vôos cancelados, passageiros agredindo funcionários das empresas aéreas e estas violando regras que, em tese, teriam de seguir. Enquanto isso, o ministro da Defesa dá ordens a quem não é obrigado a cumpri-las. As bruxas, que não lhe devem obediência, insistem em derrubar helicópteros e jatinhos, semeando tragédias, como as da véspera do feriado e do domingo posterior. Seria cruel dizer que o ministro é pé-frio. Mas será sensato apelar para que, pelo menos em respeito aos mortos de mais essas tragédias, nossas autoridades parem de fazer piadas de mau gosto – como o anúncio do fim da crise em março e o conselho do presidente da Infraero para os passageiros não voarem nos dias de muito movimento.

© Jornal da Tarde, terça-feira, 06 de novembro de 2007

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