Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

No Blog do Nêumanne no Estadão: De golpista basta presidente

No Blog do Nêumanne no Estadão: De golpista basta presidente

José Nêumanne

Bolsonaro vai a manifestação contra democracia num dia e no outro diz que defende instituições democráticas, mentindo duas vezes, uma a seus devotos e outra a democratas que devem defendê-la.

O presidente da República, Jair Bolsonaro, aderiu a um ato de apoiadores à frente do Quartel-General do Exército, antigamente conhecido como “forte apache”, onde discursou de cima de uma caminhonete, dizendo, explicitamente: “Eu estou aqui porque acredito em vocês”. Nas imagens colhidas no domingo, 19 de abril, Dia do Exército, fez circular em suas redes sociais, forma oficiosa de comunicação com o país que governa, uma faixa explicitando: “Intervenção militar, com Bolsonaro no poder”. Se  discordava dessa palavra de ordem, que motivos teve para compartilhar a mensagem naquele lugar e naquela data específica?

Na manhã de segunda-feira, 20 de abril, contudo, Sua Excelência, ao se dirigir mais uma vez a meia dúzia de gatos-pingados que ele insiste em chamar erroneamente de “povo”, parodiou a repetição da tragédia institucional como farsa, citando Hegel via Marx no texto clássico O 18 Brumário de Luís Bonaparte, dando-se o direito de repreender um  manifestante que berrava a palavra de ordem da faixa antidemocrática. “Sem essa conversa de fechar. Aqui não tem que fechar nada, dá licença aí. Aqui é democracia, aqui é respeito à Constituição brasileira. E aqui é minha casa, é a tua casa. Então, peço, por favor, que não se fale isso aqui. Supremo aberto, transparente. Congresso aberto, transparente”, disse. Ninguém riu da piada, é claro. Mas não era uma piada. Ou era?

Vamos aos fatos. Ninguém vai a um comício para enfrentar a fúria dos próprios apoiadores e discordar dela. No domingo 19, o chefe do Poder Executivo da República Federativa do Brasil visitou os filhos Flávio, senador, Eduardo, deputado federal, e Carlos, vereador no Rio, na casa do segundo. De lá foi direto de carro, com agentes de segurança de seu séquito habitual, para uma aglomeração de meia dúzia de fervorosos admiradores, acotovelando-se e carregando faixas como aquela, exigindo do condottiere o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF). O agente federal Alexandre Ramagem, diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (?) – Abin –, não o teria informado do teor das agressões aos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Rodrigo Maia, presidentes como ele de outro Poder, o Legislativo? Quando dirigiu a palavra a seus eleitores, disse: “Vocês estão aqui porque acreditam no Brasil”. Ou seja, ele sabia a quem se dirigia e, portanto, não havia nenhuma hipótese de ignorar do que se tratava. Além disso, a aglomeração desafiava a proibição de proximidade física e, portanto, aumentava a velocidade do contágio do novo coronavírus, que no momento, produz a maior crise sanitária da História do Brasil e do mundo.

 No entanto, no dia seguinte, segunda-feira, logo cedo, ao sair para seu encontro com o “povo” que ele reconhece e venera, os bolsonaristas fanáticos que se postam à frente do Palácio da Alvorada, onde mora, fez discurso oposto ao que fez para apoiar a manifestação pública da véspera. Um apoiador gritou uma palavra de ordem contra o STF e ele respondeu com a frase citada entre aspas no segundo parágrafo deste texto. E completou: “No que depender do presidente Jair Bolsonaro, democracia e liberdade acima de tudo”. Ou seja, ele só defende liberdade na frente da casa dele (ou melhor, da nossa, como corrigiu depois). O Palácio da Alvorada não é a casa dele, mas do presidente da República por quatro anos, ou oito, se for reeleito. A residência oficial de um servidor público.

Vamos ao bê-á-bá da liberdade e da democracia, tal como as descreveu Montesquieu e como as configuraram os pais fundadores da democracia norte-americana. Todo o poder emana do povo de verdade, mais de 100 milhões de eleitores que, por maioria, o escolheram para presidir não o Brasil, mas um dos três Poderes, o Executivo. De acordo com a Constituição que ele jurou cumprir e fazer cumprir quando empossado em 1.º de janeiro de 2019, esse Poder é compartilhado com outros dois: o Legislativo, que aprova leis, e o Judiciário, que julga se elas estão na moldura do mesmo texto constitucional. Então, o cidadão que deu entrevista virulenta à CNN há uma semana dizendo cobras e lagartos do deputado Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, que representam o tal do povo, ou seja, aquele que não vai bajulá-lo na “porta de casa” ou na frente do “forte apache”, não era o “presidente”, mas o ex-oficial agitador que fora convidado a se retirar do convívio da caserna? Há um médico (no caso, exercendo clandestinamente o ofício) e um monstro (que venera o torturador Brilhante Ustra como herói militar) habitando o mesmo corpo, um quando vai a manifestações subversivas e outro, ao sair de casa para despachar em dias úteis em outro palácio, o do Planalto?

Aliás, no fim de semana houve carreatas no mesmo tom e com idênticas reivindicações em todo o País. Em São Paulo, no sábado e no domingo, com estímulo pessoal de Bolsonaro, foram promovidas carreatas contra o governador do Estado, João Doria, por exercer seu direito constitucional de decretar isolamento social, garantido por nove a zero pelo STF. No domingo, ele também estimulou inimigos do governador em fala no celular do publicitário Sérgio Lima, encarregado de propagar seu partido Aliança pelo Brasil. Em Porto Alegre, bolsonaristas em outro comício a favor da volta do Ato Institucional n.º 5 (AI-5) agrediram um casal pelo crime de usarem roupas vermelhas, cor do Partido dos Trabalhadores. Essas carreatas são inspiradas num crime contra a saúde pública, pregado pelo próprio presidente (ou será seu lado fã de Ustra?), o de boicotar o isolamento social, única estratégia reconhecida como viável pelos cientistas para reduzir a velocidade de propagação do novo coronavírus.

Aliás, tais carreatas cometem explicitamente um crime. A Avenida Paulista, onde elas ocorrem, é a rota de ambulâncias rumo a vários hospitais para onde são transportados doentes graves, incluídos as vítimas terminais de covid-19. Como já o fez antes, Bolsonaro (charlatão ou fã de monstro?) acusou cidadãos que ficam em casa, acatando recomendações de autoridades sanitárias de países do mundo inteiro, de serem “covardes”.

No caso específico, talvez seja o caso de questionar se não estaria ele próprio a se olhar nos espelhos dos palácios por onde desfila uma dúvida: como nunca expôs o atestado do Hospital das Forças Armadas em que se submeteu duas vezes a teste de contágio do novo coronavírus, será ele um portador assintomático, embora diga ser negativo para covid-19? Bem, terá uma grande oportunidade de provar se respeita a Câmara dos Deputados ao atender à determinação de mostrar os resultados em 30 dias.

Em relação ao vaivém de domingo 19 e segunda 20, é útil lembrar que, sendo calculista, não destemperado, obedece à tática de virar a casaca quando cruza a linha da fidelidade ao Estado de Direito. Domingo ele disse aos golpistas batendo literalmente à porta do Exército, que lhes fez ouvidos de mercador quando deveria ter rechaçado a ofensa à Constituição, que lhe cabe salvaguardar, que “esses políticos têm que entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro”. Esse apelo à democracia direta (“esquerdopata”. no glossário bolsonarista) nada tem que ver com o que ele disse à porta do Alvorada: “Não falei nada contra qualquer outro Poder, muito pelo contrário”. Ou seja, o devoto do monstro quer impor submissão aos representantes do povo de verdade. E o charlatão de feira, jurar submissão ao primado constitucional. Na Campina Grande de minha adolescência, isso é chamado de “bater o pino”. Pino foi feito para se bater, também se diz por lá. Mas há que reconhecer humildemente…

Só para virar ponta de prego batido, este feroz perseguidor da incoerência deve ainda lembrar que à porta da caserna, à qual foi conduzido para sair sem farda, o capitão irredento ainda perpetrou uma falácia: “Nós não iremos negociar nada”. Que mentira, que lorota má, parodiando Luiz Gonzaga. Foi tudo o que o capitão de gravata fez na semana anterior: negociar com os velhos políticos do centrão o que eles querem de nosso dinheirinho do governo em troca de desafiar a liderança de Rodrigo Maia.

E o ápice da genuflexão à política velha foi inserir o depoimento do delator do mensalão, Roberto Jefferson, que cumpre pena por corrupção em casa, acusando Maia e Alcolumbre de conspirar contra a democracia. Uau!

Fugindo da tentação de ser golpista como ele é, concluo citando o desembargador Walter Fanganiello Maierovitch, em WhatsApp: “Acordem, senhores deputados, senadores e governadores”. E lembrando aos 11 ministros do STF: “O Código Penal, nos crimes contra a paz pública, tipifica, no artigo 286, o delito de incitação: incitar publicamente”…

*Jornalista, poeta e escritor

(Publicado no Blog do Nêumanne na segunda-feira 20 de abril de 2020)

Para ler no Blog do Nêumanne, Política, Estadão, clique aqui. 

 

Direto ao Assunto no YouTube: Bolsonaro e inimigos da democracia

Direto ao Assunto no YouTube: Bolsonaro e inimigos da democracia

No domingo 19, dia do Exército, Bolsonaro foi a ato em favor de intervenção militar (com ele no poder, é claro), AI-5 e o fechamento do Congresso e do STF e declarou em discurso a manifestantes: “Estou aqui porque acredito em vocês.” Na manhã seguinte, na segunda 20, a um apoiador na porta do Palácio da Alvorada que gritou palavra de ordem contra instituições disse: “Supremo aberto, transparente. Congresso aberto, transparente”. Tudo isso tem uma razão, pois ele não é um destemperado, mas, sim, um frio calculista. Mordeu, testou efeito da mordida e disse o oposto. É rotina. Mas neste país, com mortes às pencas pela pandemia, de golpista basta o chefe do Poder Executivo. Enquanto ele e os filhos paranoicos combatem inimigos por toda a parte, os democratas de verdade precisam unir-se para evitar que Estado de Direito vá à breca, como fazem em Israel seu idolo Netanyahu e Gantz, o adversário dele, Direto ao assunto. Inté. E só a verdade nos salvará.

Para ver vídeo no YouTube clique no play abaixo:

 

 

DIRETO AO ASSUNTO NA REDE

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

Clique nestes links:

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

 

 

Direto ao Assunto no YouTube: Bolsonaro vai a ato pró golpe

Direto ao Assunto no YouTube: Bolsonaro vai a ato pró golpe

O presidente Jair Bolsonaro participou de manifestação em favor de um golpe, que reuniu centenas de pessoas que o apoiam e exigem, além da intervenção militar, fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, além da edição de um novo Ato Institucional número 5, documento que marcou o início do período mais violento da ditadura militar no Brasil. O evento ocorreu à frente do Quartel General do Exército, o célebre Forte Apache. “Não queremos negociar nada, nós queremos é ação pelo Brasil”, disse ele, que compartilhou trecho de seu discurso em seu perfil pessoal do Twitter. O chefe do governo continua pregando o fim do isolamento social no momento em que o empreendedor Florian Hagenbuch fez um post no WhatsApp em que mostra estatísticas comprovando que o ato de ficar em casa de pelo menos metade da população pode evitar o colapso do sistema de saúde e levar o País ao limiar do pico da curva de contágio e às vésperas da volta à normalidade. Direto ao assunto. Inté. E só a verdade nos salvará.

Para ver vídeo no YouTube clique no play abaixo:

 

 

DIRETO AO ASSUNTO NA REDE

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

Clique nestes links:

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

 

 

 

Direto ao Assunto no YouTube: Teich fará o que Bolsonaro quer

Direto ao Assunto no YouTube: Teich fará o que Bolsonaro quer

No dia em que o presidente Jair Bolsonaro anunciou estar nomeando o oncologista carioca Nelson Teich ministro da Saúde no lugar do ortopedista pediátrico matogrossense do sul Luiz Henrique Mandetta, foi reproduzida nas redes sociais uma frase dita pelo nomeado a respeito da opção a ser posta para intensivistas para ocupar um leito de UTI com respirador por um jovem com chance de viver muitos anos ou um velho desenganado. Em teoria, não é ético retirar qualquer frase de seu contexto. Mas basta ouvir o que ele disse para perceber o uso do verbo investir, que é mais próprio de atividades econômicas do que em salvação de vidas por médicos. A adaptação de “isolamento vertical”, expressão da preferência de seu chefe, para “inteligente” ou “estratégico” mostra claramente que a eugenia proposta pelo presidente (jovem sai de casa, pega a doença e, ao voltar para casa, a transmite ao parente idoso) foi revestida de eufemismos espertos para não chocar classe médica. Direto ao assunto. Inté. E só a verdade nos salvará. 

Para  ver vídeo no YouTube clique no play abaixo:

 

 

DIRETO AO ASSUNTO NA REDE

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

Clique nestes links:

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

 

 

Comentário no Jornal da Gazeta: Teich não seguirá Mandetta

Comentário no Jornal da Gazeta: Teich não seguirá Mandetta

O total de mortes pela covid-19 ultrapassou 2 mil, Doria adiou para 10 de maio o fim do isolamento social em São Paulo, o STF assegurou por 7 a 0 a governadores e prefeitos fazerem o que ele fez e Bolsonaro deu posse a Nelson Teich no lugar de Mandetta no Ministério da Saúde. Tem quem ache que o substituto seguirá a linha do substituído por tê-la apoiado em artigo. Eu duvido e faço pouco.

Para ouvir comentário clique no play abaixo.


 

DIRETO AO ASSUNTO NA REDE

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

Clique nestes links:

Twitter, Youtube, FaceBook, Instagram

 

Página 20 de 1.162«...51015...1819202122...2530354045...»
Criação de sites em recife Q.I Genial