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No Blog: Nêumanne entrevista Afonsinho

No Blog: Nêumanne entrevista Afonsinho

Ícone do passe livre, Afonsinho prega mais força para os clubes

Para “prezado amigo” de Gil, supremacia do futebol brasileiro depende hoje de fortalecimento dos times e de opções de educação e profissões para talentos

Com a autoridade de quem simbolizou o movimento que libertou os craques de futebol da escravidão do passe, que os prendia aos clubes, Afonso Celso Garcia Reis, o meia Afonsinho, do Botafogo do Rio dos tempos de Nilton Santos, Garrincha e Didi, acha que esta é a hora de valorizar esses clubes. Em entrevista ao Blog do Nêumanne, o personagem de Gilberto Gil, invocado no samba Meio de Campo — “Prezado amigo Afonsinho, eu continuo aqui mesmo, aperfeiçoando o imperfeito” –, enxerga no eventual fortalecimento deles o necessário contrapeso para os “empresários”. Estes, segundo o craque, “hoje grupos fortíssimos, intermediários, ganham o protagonismo, porque a ‘cartolagem’ usa o clube como balcão de feira, o torcedor (suporter) é apenas consumidor, não tem peso político, apenas pode fazer arruaça e violência quando o time perde”. Para ele, “as arenas e a multiplicação exagerada de canais de esporte são consequências dessa explosão financeira descontrolada pela sociedade.”

Afonsinho nasceu em São Paulo em 1947. Meia-armador de estilo elegante, foi descoberto no XV de Novembro de Jaú em 1962 e tornou-se conhecido nacionalmente como jogador do Botafogo do Rio, que o contratou em 1965, tendo sido várias vezes campeão e capitão na conquista da Taça Brasil de 1968. Em 1970, no auge de sua forma, foi emprestado para um time de subúrbio, o Olaria, à época treinado pelo supercraque Jair da Rosa Pinto, como punição por ter-se recusado a aparar os cabelos compridos e a barba. Voltou ao alvinegro da Rua General Severiano, mas encostado, e então ficou nacionalmente conhecido por sua luta contra o sistema escravagista de trabalho dos jogadores presos aos clubes nos quais jogavam pelo passe. Foi o primeiro jogador profissional a ganhar passe livre, em decisão do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), em 1971. Somente 27 anos depois, em 1998, a Lei n.º 9615 deu liberdade ao jogador para trabalhar onde quiser, no Brasil. Afonsinho jogou ainda nos times de Fluminense, Flamengo, Vasco, Santos (com Pelé), América de Minas e Madureira. E foi tema da canção Meio de Campo, de Gilberto Gil, dos filmes Passe Livre, de Osvaldo Caldeira, e Barba, Cabelo & Bigode, de Paulo Branco (com seus amigos Paulo Cézar Lima e Nei Conceição), e dos livros Prezado Amigo Afonsinho, de Kleber Mazziero de Souza, e Afonsinho e Edmundo – A Rebeldia no Futebol Brasileiro, de José Paulo Florenzano. Mora em Paquetá com a mulher, Regina, e é médico aposentado da saúde pública.

Nêumanne entrevista Afonsinho

Após deixar o futebol, Afonsinho trabalhou como médico na saúde pública na Ilha de Paquetá, onde, aposentado, hoje mora. Foto (2001): Otavio Magalhães/AE

Após deixar o futebol, Afonsinho trabalhou como médico na saúde pública na Ilha de Paquetá, onde, aposentado, hoje mora. Foto (2001): Otavio Magalhães/AE

Nêumanne – O senhor tornou-se conhecido no Brasil inteiro por sua luta pelo passe livre dos jogadores de futebol, numa época em que a carreira do futebolista se assemelhava ao trabalho escravo. De lá para cá, a Lei Pelé e a Lei Zico mudaram radicalmente esse panorama. A seu ver, essas leis modificaram as relações de trabalho entre clubes e craques para melhor?

Afonsinho – As leis que vigoram no esporte, atualmente chamadas de modo geral de Lei Pelé, mudaram muito pouco para o esporte em geral, sabemos que no Congresso Nacional existem as ditas bancadas do boi, da bala e da bola e o quanto todas são daninhas para a vida no Brasil. As proposições dos projetos do Pelé, Zico e várias outros que os precederam e lhes sucederam vão sendo “depenadas” à medida que passam pelas Casas Legislativas, de modo semelhante a outras de interesse popular. Cada ministro que entra anuncia para breve um Plano Brasileiro de Esportes, mas como é o patinho feio da política vai servindo apenas de moeda de troca. Em relação aos jogadores, mesmo assim mudaram, e muito, para melhor, embora de forma desequilibrada com setores correlatos que se mantêm amarrados (federações, etc.)

N – As novas legislações a que me referi puseram fim à época em que os ídolos dos clubes conquistavam a paixão das torcidas ao longo de muitas temporadas. Dida e Zico no Flamengo, Ademir de Menezes e Roberto Dinamite no Vasco, Garrincha e Quarentinha no seu Botafogo, Castilho e Carlos Alberto no Fluminense, Luisinho e Baltazar no Corinthians, Dudu e Ademir da Guia no Palmeiras, Pelé e Coutinho no Santos. São vários os exemplos. A constante mudança de camisas permitida pelas novas regras do mercado do futebol interferiu na devoção de seus ídolos pelas torcidas?

A – Mudou, sim, e para pior, a ligação dos torcedores com seus “ídolos”, de modo coerente com o funcionamento da sociedade brasileira, seguindo o exemplo clássico da abolição da escravatura negra. Quando o “passe” foi extinto na Europa, depois do processo Bosman, jogador belga que teve situação semelhante à minha algum tempo depois, foi imediatamente substituído pela “multa contratual”. Os clubes passaram a fazer contratos de cinco ou seis anos, de modo a proteger os investimentos feitos nas transferências entre eles. Os jogadores tornaram-se profissionais de fato, garantidos por contratos mais longos e tudo seguiu em frente. No Brasil, ainda hoje, vivemos na “falsa malandragem” de contratos curtos, até de seis meses ou menos (não sendo cumpridos), e vemos divulgados de boca cheia campeonatos de séries A,B,C,D (de profissionais?).

Os clubes que constituem a base larga de sustentação da grandeza do esporte brasileiro vão morrendo à míngua, sem calendário e com custos elevados. Os jogadores “formados” saem logo cedo dos clubes, não firmam uma identidade com os torcedores; fica rompido o elo mais forte que sustenta a paixão simbolizada pelas cores do seu clube; por sua vez, o torcedor é sempre o que move o esporte; independentemente de sistema político e econômico, o clube deve ser sempre a parte mais valorizada.

Afonsinho chegou a atuar no Santos ao lado de Pelé (na foto contra o Palmeiras no Pacaembu, em 1972) . Foto: Domício Pinheiro/JT

Afonsinho chegou a atuar no Santos ao lado de Pelé (na foto contra o Palmeiras no Pacaembu, em 1972) . Foto: Domício Pinheiro/JT

N – De certa forma, sua luta nos anos 60 e 70 do século passado foi visionária, porque de lá para cá o futebol deixou de ser romântico para se tornar o maior espetáculo da Terra, pela frequência dos espetáculos (os jogos e a variedade dos campeonatos) e pelas imensas audiências das transmissões pela televisão, o veículo mais importante de entretenimento e informação de nossa época. Como o senhor acompanhou e encara essa mudança?

A – Tenho pensado muito nesse fato de o futebol se ter tornado um dos grandes negócios da sociedade atual e a Copa praticamente parar o mundo por um mês a cada quatro anos. De cara vem o lado favorável, um fôlego na rigidez da vida cotidiana, um carnaval fora de época. A TV, responsável por essa explosão, está na cabeça do fenômeno, que vem sendo seguido por outros meios de comunicação (mídia) e outros formatos. Vamos ver como vai ficar daqui pra frente. Vejo as mudanças como o processo natural de evolução e, como sempre, o que pega é a distribuição de tudo o que isso produz.

N – A transformação do esporte em geral – e do futebol em particular – em imbatível campeão de audiência gera fortunas tanto para os executivos do negócio quanto para os intermediários (os empresários dos jogadores, hoje os verdadeiros donos de seus passes) e, é claro, as estrelas do show. O senhor sente saudade dos velhos tempos dos estádios ou uma pontinha de inveja dos milionários da bola nesta era das arenas e dos canais de esporte?

A – A todo momento sou instigado pelas pessoas com o raciocínio de não estar metido na Babel em que se transformou a atividade esportiva destes nossos dias. Não me impressiono nem um pouco: minha geração ganhou mais do que as que a antecederam, mesmo as de 58 e 62, que foram as melhores, no meu entendimento, saíram da derrota de 1950, foram bicampeãs e ainda produziram a geração de 1970, da qual fiz parte. Depois disso, foram 24 anos de jejum do período ditatorial. Insisto em dizer que o “clube” deve sempre ser a parte mais valorizada e os “empresários”, hoje grupos fortíssimos, são intermediários, ganham o protagonismo, porque a “cartolagem” usa o clube como balcão de feira, o torcedor (suporter) é apenas consumidor, não tem peso político, apenas pode fazer arruaça e violência quando o time perde. As arenas e a multiplicação exagerada de canais de esporte são consequências dessa explosão financeira descontrolada pela sociedade. Sinto muitas saudades da camaradagem entre os amigos, com os quais não posso conviver por diferentes razões e que são o tesouro maior que amealhei como esportista profissional: ter me tornado amigo do Zizinho, Didi e Nilton Santos, apenas como exemplo para não cometer injustiças com tantos parceiros queridos, é minha fortuna.

Médico aposentado da saúde pública, Afonsinho mora na ilha de Paquetá e guarda fichas dele no SNI. Foto (de 2014): Marcos de Paula/Estadão

Médico aposentado da saúde pública, Afonsinho mora na ilha de Paquetá e guarda fichas dele no SNI. Foto (de 2014): Marcos de Paula/Estadão

N – Desde os tempos do amadorismo marrom, a gestão do futebol já não era um exemplo de honestidade, limpeza e ética. Hoje, mais ainda, com os volumes de dinheiro em jogo, a corrupção é um componente importante em clubes, federações e confederações. Isso se reflete na organização dos torneios esportivos, eivados de suspeitas. Exemplo agora são as investigações policiais na Fifa, na CBF e em outras entidades. Esse aspecto o preocupa? O senhor tem alguma sugestão para combater esse mal?

A – O sistema Fifa tem natureza medieval, estruturada no esquema liga, federação, confederação de poder legado a familiares ou próximos, que apenas se adapta quando é molestado, como agora, nessas crises da CBF e do sistema como um todo. Consegue ser pré-capitalista, é muito atraso.

N – A circulação de fortunas, incomparável com o que acontecia antes, promove também uma distorção de natureza econômica, com os países de economia forte impondo suas regras aos mais pobres. A ida precoce de Vinicius Jr., do Flamengo, Rodrygo, do Santos, e Paulinho, do Vasco, para a Europa, e hoje também para o Oriente próximo e distante, é o exemplo extremo da exportação de craques. Hoje, na condição de ex-jogador e torcedor, o senhor lamenta a abissal diferença entre os campeonatos do Primeiro Mundo e os nossos, com nossos clubes fracos e as seleções ainda fortes?

A – Justamente isso, a contradição aviltante destes nossos dias, ao mesmo tempo que a pessoa com um celular à mão pode resolver tudo o que for necessário para assistir amanhã à final da Copa em Moscou, vemos o horror das correntes migratórias. Os jovens saem dos clubes sem dar sua contribuição ao futebol brasileiro. Exemplo disso foi a transferência oficial de um clube de empresário, como foi o caso do zagueiro Thiago Silva, que foi capitão num dos jogos da seleção brasileira na Copa da Rússia: ele saiu do Fluminense para o PSG da França, mas o vínculo era da Tombense. Pior ainda que, ao se fazerem as contas, os jogadores estão fatiados entre “investidores” e  o clube fica de mãos abanando. Penso que, em pouco tempo, deve haver alguma alteração. Como, por exemplo, o jogador que estiver vinculado a uma determinada federação por algum tempo (de três a cinco anos, talvez) poderá jogar pelo respectivo país automaticamente. Messi é o exemplo mais gritante: um dia é o melhor do mundo. no dia seguinte não joga nada (???!!!). Absurdo!

Com cabelos e barbas longas, Afonsinho foi símbolo da rebeldia no futebol brasileiro dos anos 60 em diante. Foto: Arquivo/AE

Com cabelos e barbas longas, Afonsinho foi símbolo da rebeldia no futebol brasileiro dos anos 60 em diante. Foto: Arquivo/AE

N – Em plena Copa do Mundo na Rússia, com o Brasil vivendo a pior crise moral, social, política e econômica da História, nos vemos diante daquelas velhas reclamações contra o fanatismo pela seleção, visto como alienação política, apontada como a maior culpada pela degradante situação de nosso povo e pela amoralidade explícita de nossa elite política dirigente. Mas essas queixas têm razão de ser?

A – Definitivamente. o esporte não é o ópio do povo. A política é a razão que está ao fundo de tudo, mas é apenas um momento da vida em sociedade. E de que a elite brasileira é perversa estamos tendo mais uma demonstração inequívoca…

N – O que o senhor viu até agora na Copa que está sendo jogada na Rússia é suficiente para animá-lo em relação à melhora da qualidade do jogo, à limpeza na condução administrativa do negócio do futebol e às perspectivas dos jovens craques que ainda se formam nos campos de pelada do Brasil?

A – Infelizmente, não! Mesmo quando a Copa já tiver 64 participantes, como se anuncia, ainda é muito pequeno o número de jovens que passam pelo funil estreito. Como sugestão, penso que deveria haver um equilíbrio entre o que se exige dos jovens, o que o esporte toma de seu tempo e o que os clubes oferecem de garantia para seu futuro. O caso é o seguinte: em qualquer rincão do País os clubes veem e ouvem na TV e no rádio que houve treino em tempo integral, musculação, regeneração e não sei o que mais, que outra atividade, e procuram fazer a mesma coisa, ocupando sem contrapartida o tempo de formação profissional e humana do jovem. E o que fará depois, se ele não se tornar jogador profissional e tiver outras obrigações, familiares, por exemplo?

N – Como médico, o senhor tem a oportunidade rara entre os membros da classe média do Brasil de conviver com as carências absurdas e desumanas em que vive nossa população mais pobre. O que mais o comove e o indigna em seu contato permanente com a realidade dura de seus clientes?

A – Aposentei-me recentemente como médico de Saúde da Família, estando bem próximo do dia a dia das situações mais agudas da maioria da população brasileira, apenas uma confirmação de que a questão é política, de injustiça social profunda.

N – Cresce no Brasil uma sensação geral de impotência, desconfiança, falta de credibilidade e até desespero em relação a nossas perspectivas, agora que estamos a quatro meses de eleições gerais. Quais são as suas expectativas quanto ao pleito e também à capacidade da sociedade de virar o jogo e melhorar nossas condições de vida?

A – As eleições, se houver, serão apenas mais um momento na dinâmica da população relegada à luta pela sobrevivência, calejada, outra vez diante do sufoco obrigada a seguir procurando a saída. Um abraço!

(Publicada no Blog do Nêumanne na quarta-feira 4 de julho de 2018)

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Nêumanne entrevista Afonso Celso Garcia Reis, Afonsinho. 12ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

Nêumanne entrevista Afonso Celso Garcia Reis, Afonsinho. 12ª edição da SÉRIE 10 PERGUNTAS

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