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José Nêumanne: Leitura do poema “Barcelona”

José Nêumanne: Leitura do poema “Barcelona”

Barcelona, poema XVIII

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Barcelona XVIII
(de Barcelona, Borborema)

Daqui a tantos séculos
quantos conheçam
esta suntuosa luz solar
que banha as avenidas,
teu sangue escorrerá
por estas torres,
pelas luzes e pelos fogos
que queimam a cidade
esplêndida.

Olha esta cidade, artista velho,
ouve  seus carros e seus bondes,
ela será tua ópera.
Teu sangue de argamassa
descerá ramblas em rios,
num crepúsculo semelhante
àqueles que viram
surgir tua força.
Teu sangue se mesclará
ao sangue de teus irmãos
da Praça Catalunha
até a estátua de Colombo
no cais.
Homens diferentes,
por isso iguais a nós,
comporão a argila
de tuas paredes
e ouvirão as conchas surdas
de teus planos pés:
os passos de Francisco Ferrer,
fuzilado por ordem de Maura
e autorização de Afonso XIII,
os rastros de KIibaltchiche,
que logrou fugir do homem de aço;
as pegadas de Felipe González,
tomando manzanilla
na tasca de don José,
o cabo enfeitiçado pela cigana.

Toma esta cidade,
don Antoni Gaudí e Cornet,
e expia os pecados do mundo
com os óbolos que depões
em tuas pranchetas
de ilusão e delírio.

Poema do livro:

 06 Barcelona Borborema. São Paulo: Geração Editorial, 1992.

 Poemas sobre a arquitetura de Gaudi e o forró de Campina Grande. Naquela mesma viagem à Europa para conhecer projetos de privatização, conheci Barcelona e confirmei uma antiga paixão infanto-juvenil (inexplicável) pela capital da Catalunha e pela obra do mais importante arquiteto modernista da Europa. O impacto do Parque Güell e da Sagrada Família sobre mim foi tal que ao embarcar para Paris escrevi os primeiros versos da série “Barcelona” num guardanapo cedido pela aeromoça. Vários dos 25 poemas dessa série foram escritos em guardanapos de aviões e de restaurantes e papel de correspondência dos hotéis de Paris e Londres, por onde passou o grupo com que eu estava e que tinha antes visitado Madrid e Barcelona. Guardei as anotações numa gaveta e muito tempo depois a abri, li, fiz correções e pensei no primeiro projeto: um livro de poemas intitulado 24 horas de Gaudi. Procurei o publicitário barcelonês Francesc Petit, da DPZ, e lhe propus que traduzisse os poemas para o catalão e fizesse um contato com a Generalitat da Catalunya para possibilitar uma edição trilíngüe português-castelhano-catalão. Apesar de catalão, Petit não escreve em catalão. Inês, sua mulher, que é brasileira, escreve. Ele me aconselhou que eu obtivesse uma espécie de aval literário do poeta Mário Chamie. Mário escreveu um competentíssimo posfácio para o livro, que mudou de figura. Convidado por Sérgio Reis, diretor de marketing do Bamerindus, fui ver Antonio Gades dançar Carmen no Teatro Guaíra, em Curitiba. Dali me veio a idéia de escrever uma série sobre dança, o forró de Campina Grande, para servir de contraponto à arquitetura de Gaudi. E resolvi fazer um livro simétrico: 25 poemas sobre Barcelona, 25 poemas sobre Campina Grande (a Rainha da Borborema) e um sobre Gades (o poema vírgula) fazendo a passagem entre a arquitetura e a dança. O 25° poema, depois de muito tempo, me veio num sonho. É o único que nunca foi retocado, com a ajuda feroz de meu amigo editor, Pedro Paulo de Sena Madureira. Mas não foi ele quem editou o livro e, sim, Luiz Fernando Emediato, que agora tinha outra editora, sozinho, a Geração Editorial. O livro saiu com ilustrações, diagramação e capa de Petit e foi publicado porque eu, que fizera sucesso escrevendo um livro sobre a ascensão de Collor, topei a proposta do jornalista, escritor e editor para descrever o processo de sua derrubada.

 

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