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Uma dúzia de receitas para livro ou CD e mais

Uma dúzia de receitas para livro ou CD e mais

 Diante da perspectiva agradável de lhe contar, preclaro leitor, patrão e objetivo de qualquer escritor que se preze, como escrevo meus livros, descubro, entre confuso e espantado, que, da mesma forma como meus poemas, os 11 títulos que assinei (além do CD que gravei) têm histórias tão diferentes que o melhor meio de dar a receita será resumir na medida do possível a história particular deles.

 

  01 Mengele: A natureza do mal. São Paulo: EMW, 1985, romance-reportagem.

   Romance-reportagem lançado pela EMW Editores, de São Paulo. Eu era repórter da Sucursal do Jornal do Brasil do Rio em São Paulo e tive acesso privilegiado, graças ao então diretor do Dops, delegado Romeu Tuma (depois senador pelo PFL de São Paulo), e ao legista Nelson Massini, então na Unicamp, às informações sobre a descoberta da ossada do célebre criminoso de guerra nazista Josef Mengele num cemitério de Embu, na Grande São Paulo. Os colegas jornalistas Luiz Fernando Emediato e Marcos Wilson eram sócios na editora que me encomendou o livro, feito na esperança de nos aproveitarmos do interesse internacional do assunto. Os colegas da Sucursal coletaram vários dados sobre a descoberta da ossada e a vida pregressa de Mengele no Brasil e eu redigi o texto final, preenchendo as lacunas da parte ignota da vida do protagonista com capítulos romanceados. Ocioso dizer que demos, os colegas, os editores e eu, com os burros n’água. O livro fracassou comercialmente, nunca despertou o interesse de ninguém no exterior, não tendo sido, portanto, traduzido nem inspirado algum filme, como tínhamos a pretensão de que acontecesse.

   02As tábuas do sol. São Paulo: EMW, 1985, poesia.

  Coletânea de poemas, editada pela Secretaria de Cultura do Estado da Paraíba. Escrevo poesia desde os 14 anos e foi juntando todos os meus poemas inéditos em escarcelas de cartolina. Na juventude, pertenci ao grupo do poema/processo, que radicalizava a proposta da poesia concreta, abolindo o uso da palavra. Passada a febre vanguardista, peguei as velhas pastas, exumei os poemas verbais abandonados e lhes dei um tratamento crítico. A idéia era publicar poemas verbais e visuais numa coletânea chamada Ploft, que submeti ao poeta José Paulo Paes que, à época, trabalhava na Editora Cultrix e que eu havia conhecido como repórter da Folha de S. Paulo e depois do Jornal do Brasil. Com as bênçãos de José Paulo e até um texto de introdução escrito por ele, levei os poemas àquela que considerava a maior editora na ocasião, a Nova Fronteira, do Rio de Janeiro. Lá me surpreendi com a presença de um velho amigo, Pedro Paulo de Sena Madureira, que havia conhecido na Editorial Bruguera, em Olaria, onde ambos trabalháramos em 1969. Pedro deu o retoque final no livro, exigindo a retirada dos poemas visuais e reordenando os verbais. José Louzeiro, que havia sido meu colega na reportagem da Folha e então já era conhecido pelo sucesso de seu livro, Aracoeli, meu amor, me sugeriu o título retirado de um poema (“Tríptico Marinho”). A saída de Pedro da Nova Fronteira para a Salamandra, levou-me a mandar os originais para meu amigo Luiz Augusto Crispim, que era secretário da Cultura do Estado da Paraíba. O volume acanhado espantou seu chefe, o governador Milton Cabral, que ao receber o exemplar que lhe mandara pelas mãos de meu pai, Anchieta Pinto, exclamou: “Mas é um livrinho!” O livrinho, com belas ilustrações de um conterrâneo querido, Ciro de Uiraúna, está esgotadíssimo e é muito raro encontrar exemplares doados a escolas do interior da Paraíba ou simplesmente… perdidos.

       03 Atrás do palanque: Bastidores da eleição presidencial de 1989. São Paulo: Siciliano, 1989, reportagem

 Reportagem sobre os bastidores da eleição presidencial de 1989. Eu era editor de Política do jornal O Estado de S. Paulo e, estimulado por meu chefe, Miguel Jorge, saí a campo para cobrir a primeira eleição presidencial direta em 29 anos. Viajei e entrevistei os dez principais candidatos daquela campanha memorável. Escrevi no calor da hora e a realidade me fez acrescentar trechos ao texto original. Encomendado por Pedro Paulo, então na Siciliano, o livro foi um sucesso de vendas: ficou seis meses na lista dos dez mais vendidos da Veja e compareceu nos dez mais vendidos do ano. O maior elogio que recebi por causa dele foi dado pelo biógrafo de Che Guevara, que depois seria chanceler mexicano Carlos Castañeda. Nos bastidores de um Roda Viva, na TV Cultura, ele me disse: “Tudo o que sei de Brasil aprendi com seu livro”. Não sei se Castañeda sabe muito de Brasil, mas que foi gratificante ouvir isso, ah, se foi!…
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      04Reféns do passado. São Paulo: Siciliano, 1992, artigos e ensaios políticos.

Coletânea de ensaios e artigos políticos publicados na imprensa, encomendada por Pedro Paulo de Sena Madureira para a Editora Siciliano. Não gosto da idéia de reunir textos de jornal em brochura, mas fui convencido a fazê-lo. Embora tenha preparado um ensaio específico para abrir o livro, não gosto do resultado final. Nem o leitor gostou: o livro, como era de esperar, fracassou nas prateleiras.

   05Erundina: A mulher que veio com a chuva. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, perfil biográfico.

Perfil jornalístico e biográfico da ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina de Souza. Eu era editor de Política do Estado de S. Paulo, quando a então deputada estadual petista ganhou a eleição de Paulo Maluf. Atendendo a pauta de Augusto Nunes, que era diretor de redação do jornal, passei o fechamento da edição histórica para meu sub à época, o competente Wagner Kotsura, vulgo “Alemão”, apesar de ser descendente de russos, e me tranquei numa saleta de editorialistas para entrevistar vizinhos e amigos de infância da vitoriosa na eleição, que, por coincidência, havia nascido na mesma pequena cidade sertaneja, onde eu também nasci. Escrevi um perfil dela. Fernando Pedreira, que havia sido meu chefe no Jornal do Brasil, foi quem teve a idéia de me propor o livro e sugeri-lo a um amigo dele, empresário mineiro que morava no Rio e era dono da editora Espaço & Tempo. Viajei para a Paraíba com Erundina, que comemorou o aniversário (30 de novembro) em nossa cidade natal. Ela viajou comigo de Campina Grande a Patos e me deu a entrevista que faltava para completar o texto final, escrito num computador que havia comprado numa viagem a Londres para ver in loco a experiência de Dame Margaret Tatcher, comandando a privatização à inglesa. Foi a primeira vez que usei computador, por insistência de outro antigo colega do JB, Noênio Spinola, que defendia tão ardorosamente a informática que ganhou o apelido jocoso de “índio eletrônico”. Fi-lo na casa de meu cunhado Aluísio Felizardo do Nascimento Filho em Natal, Rio Grande do Norte, e também na casa de meu sogro, Aluísio Felizardo do Nascimento, no Ponto de Cem-Réis, em Campina Grande, Paraíba. O dono da editora morreu num desastre aéreo e o livro demorou a sair, perdendo o calor da hora. Mesmo assim, fez imenso sucesso no lançamento (mais de 400 livros foram vendidos no na Livraria Cultura, no Conjunto Nacional e houve gente que foi lá e, ainda assim, não conseguiu comprá-lo), mas nisso parou sua carreira. Logo estaria esgotado.

 06 Barcelona Borborema. São Paulo: Geração Editorial, 1992.

 Poemas sobre a arquitetura de Gaudi e o forró de Campina Grande. Naquela mesma viagem à Europa para conhecer projetos de privatização, conheci Barcelona e confirmei uma antiga paixão infanto-juvenil (inexplicável) pela capital da Catalunha e pela obra do mais importante arquiteto modernista da Europa. O impacto do Parque Güell e da Sagrada Família sobre mim foi tal que ao embarcar para Paris escrevi os primeiros versos da série “Barcelona” num guardanapo cedido pela aeromoça. Vários dos 25 poemas dessa série foram escritos em guardanapos de aviões e de restaurantes e papel de correspondência dos hotéis de Paris e Londres, por onde passou o grupo com que eu estava e que tinha antes visitado Madrid e Barcelona. Guardei as anotações numa gaveta e muito tempo depois a abri, li, fiz correções e pensei no primeiro projeto: um livro de poemas intitulado 24 horas de Gaudi. Procurei o publicitário barcelonês Francesc Petit, da DPZ, e lhe propus que traduzisse os poemas para o catalão e fizesse um contato com a Generalitat da Catalunya para possibilitar uma edição trilíngüe português-castelhano-catalão. Apesar de catalão, Petit não escreve em catalão. Inês, sua mulher, que é brasileira, escreve. Ele me aconselhou que eu obtivesse uma espécie de aval literário do poeta Mário Chamie. Mário escreveu um competentíssimo posfácio para o livro, que mudou de figura. Convidado por Sérgio Reis, diretor de marketing do Bamerindus, fui ver Antonio Gades dançar Carmen no Teatro Guaíra, em Curitiba. Dali me veio a idéia de escrever uma série sobre dança, o forró de Campina Grande, para servir de contraponto à arquitetura de Gaudi. E resolvi fazer um livro simétrico: 25 poemas sobre Barcelona, 25 poemas sobre Campina Grande (a Rainha da Borborema) e um sobre Gades (o poema vírgula) fazendo a passagem entre a arquitetura e a dança. O 25° poema, depois de muito tempo, me veio num sonho. É o único que nunca foi retocado, com a ajuda feroz de meu amigo editor, Pedro Paulo de Sena Madureira. Mas não foi ele quem editou o livro e, sim, Luiz Fernando Emediato, que agora tinha outra editora, sozinho, a Geração Editorial. O livro saiu com ilustrações, diagramação e capa de Petit e foi publicado porque eu, que fizera sucesso escrevendo um livro sobre a ascensão de Collor, topei a proposta do jornalista, escritor e editor para descrever o processo de sua derrubada.

 07 A república na lama: Uma tragédia brasileira.São Paulo: Geração Editorial, 1992.

Relato do folclore da República de Alagoas e história de sua queda. À época, eu era assessor do banqueiro e presidente nacional do PTB, senador José Eduardo de Andrade Vieira, no Senado. Ele me incentivou muito para que eu aproveitasse o ponto de vista privilegiado para descrever a queda do “carcará sanguinolento” da Presidência da República. Escrevi o livro no calor da hora, acompanhando os acontecimentos, tal como o fizera antes com Atrás do Palanque. Como aquele, é um livro feito às pressas, mas o resultado final me agrada muito. Fez muito sucesso de vendas e teve três edições.

   08 Veneno na veia. São Paulo: Siciliano, 1994, romance policial.

Romance policial sobre o episódio dos “anões do Orçamento”, publicado pela Editora Siciliano. O ator e escritor Juca de Oliveira me propôs que escrevêssemos uma comédia a quatro mãos sobre a rede de intrigas de Brasília, inserindo-a nos sete pecados capitais. Chegamos a trabalhar juntos três meses no esboço da comédia, mas ela não decolou. Juca abandonou o projeto para escrever seu grande sucesso, Caixa 2, e eu aceitei a proposta de Pedro Paulo de Sena Madureira, da Siciliano, para tentar realizar um best-seller programado. Li um livro que ele me deu do agente literário do best seller americano Ken Follet e fiz o que mandava a receita: planejei o livro, capítulo a capítulo, aproveitando o motivo dos sete pecados capitais da comédia que não escrevemos Juca e eu. Resolvi contar a incrível história do burocrata (José Carlos dos Santos) que matou a mulher para queimar arquivo e aproveitar para falar de Brasília, da mesma forma como havia aproveitado do episódio da vitória eleitoral de Erundina para falar de meu sertão natal. Um livro, Brasília, uma cidade modernista, do antropólogo americano James Holstein, me serviu de guia para traçar o perfil da cidade. Escrevi um roman-à-clef, como se diz em linguagem teórica. Ao me referir a ele num seminário de literatura no Teatro Municipal de Campina Grande, disse: “Este não é um romance de aventuras, mas um romance sobre nossa desventura”. Ariano Suassuna me telefonou pedindo para usar a frase como epígrafe do romance que ele estava escrevendo. Ah, e tem mais: fui à estréia de Caixa 2, no Teatro Cultura Artística, fiquei na primeira fila, ri para valer, gostei muito e, depois de aplaudir muito, fui à coxia cumprimentar Juca. E lhe disse: “Juca, esta é a melhor contribuição que eu poderia dar ao teatro brasileiro”. Juca estranhou: “Mas a peça não tem nada seu”. E eu concluí: “Exatamente por isso”.


09 Solos do silêncio
. São Paulo: Geração Editorial, 1996.

Poesia reunida, editada por Luiz Fernando Emediato na Geração Editorial. Ele mesmo cuidou do projeto da capa e eu reuni tudo o que tinha produzido até então: As tábuas do Sol, Barcelona, Borborema, poemas inéditos e algumas traduções. A respeito das traduções, meu amigo Alexandre Daunt vivia me citando uma frase de Millôr Fernandes que, segundo ele, dizia que o importante para o tradutor era dominar bem a língua para a qual traduzia, não tanto a língua da qual traduzia. Fiz um teste e, além de traduzir o magnífico soneto “Les voyelles”, de Artur Rimbaud, passei para o português poemas do catalão, que não falo e não leio, para provar que Millôr estava certo. Contrariando minhas expectativas e do editor, o livro chegou à segunda edição.

   10 As fugas do sol. São Paulo: CPC-UMES, 1998, cd, diretor-artístico, Marcus Vinícius de Andrade.

CD em que leio poemas de minha autoria com trilha sonora original do maestro Marcus Vinicius de Andrade, lançado pelo selo CPC/Umes. Certo dia, a convite de minha amiga Maria Elisa Porchat, li meu poema “Seara de Saramago” (de As Tábuas do Sol) em seu programa na rádio Trianon, de outro querido amigo, Fernando Vieira de Mello. Tereza Rachel, a mais maravilhosa voz do teatro e da televisão e ex-mulher de meu amigo cineasta Ipojuca Pontes, me telefonou para dizer: “Nunca mais leia seus poemas. Eles são lindos demais e você os lê muito mal”. Citei essa frase da atriz ao maestro, meu amigo de infância, quando ele me convidou para fazer o segundo título da coleção “Poesia Viva”, que tinha sido aberta por Mário Chamie, com Caravana Contrária. Mas Marcus insistiu e lembrou que a experiência de dois comentários diários na Rádio Jovem Pan me havia ensinado a colocar melhor a voz. Ele tinha razão: orgulho-me do resultado final. Digamos que seja um livro de poemas, só que para ser ouvido, e não lido.

  11  Os cem melhores poetas brasileiros do século. São Paulo: Geração Editorial, 2001.

 Antologia preparada por encomenda de Luiz Fernando Emediato, da Geração Editorial. Emediato estava impressionado com o sucesso da antologia que Ítalo Moriconi fez dos melhores contistas e resolveu sair antes com a dos poetas. Entreguei-me ao trabalho com a competente ajuda do professor maranhense da Universidade Federal da Paraíba Rinaldo de Fernandes. Tentei fazer um trabalho de editor de jornal e o resultado, com trabalho gráfico magnífico de Tide Hellmeister, que eu sugeri ao editor, foi pra lá de satisfatório. Apesar do bafafá causado entre os poetas preteridos. Uma cisterna até aqui de mágoa… Ainda assim, valeu.

 12 O silêncio do delator. São Paulo: A Girafa, 2004, Prêmio José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras.

Romance editado por A Girafa Editora em 2004. Em 1984, imaginei escrever um romance sobre um triângulo amoroso formado por passado, presente e futuro, sob o título de O enigma do vôo 160. Escrito a máquina, o texto, muito complexo formalmente, foi submetido ao poeta Álvaro Mendes, que o considerou de má feitura. Projetei, depois, encaixar nesse projeto outro, no qual homenagearia os 20 anos do lançamento do LP dos Beatles Sergeant Pepper’s lonely hearts club band, em 1986, mas não levei o projeto adiante. Anos mais tarde, imaginei adaptar o samba de Paulinho da Viola O velório de Heitor ao filme Rashomon, de Akira Kurosawa, mas também não o realizei. Em fins de 2003, ao ver o filme As invasões bárbaras, de Denys Arcand, tive a impressão de que o cineasta adaptou o romance que não havia escrito sobre o fracasso da geração que viveu a fervura dos anos 60 e malogrou na revolução política, que terminou nas ditaduras de direita e de esquerda, e na dos costumes, pois o amor livre desembocou na “galinhagem” generalizada. O filme sugeria uma forma simples (“texto zero”) e o desfecho mais “natural” que o do texto inicial (em que o protagonista jogava o carro embaixo de uma carreta na Via Dutra). Ao longo de dez meses, escrevendo um capítulo por semana, travei uma batalha com o texto. Segui o conselho de meu amigo de infância Bráulio Tavares de escrever sem olhar para trás e terminei não virando mesmo uma estátua de sal, como a mulher de Lot: só parei para reler depois de ter escrito a palavra Fim. Mas meu projeto de “texto zero” sucumbiu e mais uma vez predominou em mim o “James Joyce de Bodocongó” sobre o “Machado de Assis do Rio do Peixe”. Radicalizei na verossimilhança ao substituir a agonia do filme pelo velório no livro, mas recorri a uma estrutura polifônica (sete vozes, baseadas me versos do samba A voz do morto, de Caetano Veloso), dando ao cadáver a parte do corifeu. Escrevendo o livro, ocorreu-me que a vitoriosa da geração dos anos 60 foi a mulher e que o português Lobo Antunes tinha razão quando escreveu que um bom livro se faz, não é feito. Tomara que ele não tenha tido razão quando disse que não há cenas de sexo bem realizadas literariamente: neste meu livro, o sexo é importante e foi narrado da forma mais poética possível.

O que sei de Lula, Topbooks Editores, Rio de Janeiro, 2011.

Luiz Inácio Lula da Silva cumpriu uma trajetória invejável, ao deixar o semi-árido miserável de seu Nordeste natal e vencer, primeiro como dirigente sindical e, depois, como fundador e principal líder de uma agremiação partidária relevante na construção da democracia brasileira, o Partido dos Trabalhadores (PT). Presidente da República em dois mandatos, saiu do segundo deles com índices de popularidade impressionantes de 80%, algo inusitado para quem acabava de completar o oitavo ano na Presidência da República. O livro é um perfil biográfico no qual o autor usa de seu conhecimento das origens do personagem, similares à dele, e de sua iniciação no universo sindical, que ele acompanhou de perto como repórter, para tentar capturar o perfil humano do líder político que conquistou o brasileiro comum, com o qual sempre se identificou, e encantou o mundo inteiro. Não à toa: o protagonista é descrito como uma espécie de Macunaíma ou Pedro Malazartes, malandros heróis da literatura de cordel e do romance modernista que se tornou o mais hábil político da História republicana. E também uma saga espetacular de sucesso de self made man, o personagem-símbolo do sucesso no capitalismo. Não é todo mundo que apeia de um pau-de-arara vindo do planeta fome e depois pega uma carona na carruagem de Sua Majestade Britânica como representante de uma sociedade que logo a seguir superaria a própria Grã Bretanha no ranking das maiores economias do mundo, tomando-lhe o sexto lugar. Nada é poupado nem tratado com preconceito como fariam, de um lado, seus áulicos e, de outro, seus ferozes detratores. A tônica do texto é a imparcialidade e a tentativa de encontrar o humano debaixo da pátina da mitologia política e da fantasia ideológica.

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