Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Um tiro no pé e outro pela culatra

A truculência contra o caseiro atinge o povo que o PT diz representar

Quem imaginou que a República do PT tivesse esgotado seu estoque de desfaçatez no exílio do irmão de Celso Daniel, Bruno, sua mulher, Marilena Nakano, que é cunhada de Betinho, o irmão do Henfil da canção de João Bosco e Aldir Blanc, e os três filhos do casal, na terça-feira de carnaval, não perdeu muito tempo para constatar o próprio engano. Na Quaresma, o senador Tião Vianna (PT-AC) conseguiu do ministro do Supremo Tribunal Federal César Peluso a interrupção do depoimento do caseiro Francenildo Santos Costa para evitar que ele narrasse certas visitas do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, a uma casa suspeita, denominada “República de Ribeirão Preto”, onde, a julgar pelo noticiário, se misturavam prazeres mundanos e corrupção. O cala-a-boca prenunciou a violência contra um excluído, que o PT diz representar: seu sigilo bancário foi violado e ele se viu forçado a revelar em público um segredo de família.

Em matéria de torpeza, talvez não seja exagerado concluir que o exílio da cunhada do irmão do Henfil e a indevida divulgação do fato de um depoente da importância do caseiro ser filho natural (a cúpula petista certamente preferirá defini-lo com o sinônimo impublicável de bastardo) ganham até do “mensalão” e do “valerioduto”. Decerto, é muito grave a denúncia, feita pelo ex-amigo dos poderosos Roberto Jefferson (PTB-RJ), de que o PT comprava a transferência de parlamentares para bancadas de apoio ao governo e a adesão de aliados aos projetos de interesse oficial. Mas o que dizer da ignomínia de um casal de militantes petistas fugir às escondidas do País para se proteger e aos filhos da sanha dos livres, leves e soltos suspeitos de terem mandado executar um membro do clã, que também era um importante e íntimo componente do alto comando da campanha que fez de um companheiro da grei feliz beneficiário do mais poderoso mandato desta República?

Este já seria motivo para uma oposição militante e lúcida cobrar diariamente, mas acaba de ser superado pelo tratamento dispensado ao humilde brasileiro que ousou mais ao testemunhar ter visto, quando trabalhava como caseiro na mansão, os poderosos lá se refestelarem à tripa forra. No caso, a caradura do senador Tião Vianna (à falta de provas que incriminem o autêntico autor da tal representação, não resta alternativa à dura crítica do signatário da mesma) é dupla. Como representante do povo, calou a voz livre de um homem do povo, sob a alegação da necessidade de manter intacta a reputação do ministro de Estado que carrega na algibeira a chave do cofre em que se guarda a suada poupança de todos os Nildos do Brasil.

E mais: quando a Nação sabia apenas da sordidez do cala-a-boca, Sua Excelência insinuou a quem o procurou que logo todos seriam informados das verdadeiras razões do denunciante de seu companheiro. Sherlock Holmes não precisaria explicar ao dr. Watson que alguma boa alma da Polícia Federal ou da Caixa Econômica (as mesmas boas almas que sempre forneceram informações sigilosas sobre contas bancárias aos solertes parlamentares petistas, José Dirceu entre eles, quando na oposição?) lhe havia segredado o resultado da quebra clandestina do sigilo do pobretão que ousou delatar o figurão. Com a inata pressa dos incompetentes, os detratores do caseiro se esqueceram da elementar apuração sobre a possível causa do depósito acima das posses do titular da conta numa instituição bancária que se mostrou no episódio indigna da confiança de seus depositantes. E aí surgiu um detalhe a mais nesse episódio de motivação sórdida: a vítima da truculência do poder policialesco tinha uma boa explicação a dar. E a deu. Embora se visse forçado a quebrar o segredo de sua origem.

Aí se configura o primeiro tiro, este no pé, do poder petista. Que dispositivo constitucional garante o sagrado direito à privacidade de um membro do primeiro escalão federal em visita a uma casa suspeita, mas, em diversa medida, recusa ao empresário de ônibus de Teresina o recurso de não informar à própria família sobre a existência do filho fora do casamento? A dúvida leva necessariamente a outra questão: por que zelar tanto pelo direito (bastante discutível, aliás) de um homem público (da elite, como dizem os petistas) manter em sigilo suas escapadas, se foi negado a Benta Maria dos Santos Costa e a Eurípedes Silva manterem o fruto de seu amor clandestino a salvo do conhecimento da família do pai e da curiosidade do País inteiro?

O segundo tiro, este dado pela culatra, foi a indesejada confirmação da crédito da Nação no testemunho do caseiro, o que resulta, numa operação de lógica aristotélica de simplicidade acaciana, na desconfiança generalizada em torno da sinceridade de Palocci em sua tentativa de reafirmar que nunca foi à mansão alugada por seus amigos e ex-amigos, assessores e ex-assessores. Ou seja: se havia pouca gente capaz de acreditar em Sua Excelência, ainda mais estando já enterrada a Velhinha de Taubaté, haverá agora muito menos brasileiros capazes de lhe darem um crédito de confiança.

A bem da verdade, não será sensato que a oposição conte com esses episódios como combustíveis para fazerem decolar o foguete de Geraldo Alckmin rumo ao Planalto. Da mesma forma como os fogos do “mensalão” e do “valerioduto” se têm mostrado bem artificiais nas pesquisas recentes, não é lá muito provável que a clandestinidade absurda do clã Daniel, que não comove o poder petista nem mobiliza a oposição tucana e pefelista, nem essa brutalidade nada cidadã cometida contra uma anônima família piauiense e seu ramo natural alterem a disposição do capital financeiro e do lúmpen-proletariado de continuarem usufruindo de boas graças num segundo governo socialista do peão Lula da Silva. Mas que vergonha, hein?

 

© O Estado de São Paulo, 22 de fevereiro de 2006
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