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Um fantasma que assusta

Mesmo cassado, Dirceu dispõe de poder para atrelar poderosos a seus interesses e projetos políticos

Para quem diz ter perdido algo (1 ano e 1 mês de mandato de deputado federal e a possibilidade de disputar eleições para qualquer cargo de representação popular nos próximos 8 anos) comparável em valor à própria vida, até que o comissário José Dirceu (PT-SP) não parece tão desesperado assim. Ao contrário, seus interlocutores têm percebido um bom humor contagiante, que o ex-deputado, cassado há menos de uma semana, não faz questão de esconder. Dizem até que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lhe prometeu papel relevante na articulação de alianças na campanha pela reeleição.

Talvez o militante da luta armada, aluno de espionagem em Cuba, comerciante clandestino no Paraná, deputado oposicionista inflexível, brutal dirigente partidário e arrogante chefe da Casa Civil no primeiro governo esquerdista no Brasil tenha, enfim, descoberto que a punição não é tão dolorosa. Para alguém como ele, com suas ambições, não deve ter sido fácil ser impedido de disputar um mandato parlamentar, raiz da força de todo político, ainda que um homem de máquina, um organizador de estruturas, que ele se jactava de ser antes de ser denunciado pelo ex-aliado Roberto Jefferson (PTB-RJ) e desabado do pedestal. Mas, na verdade, a punição pelo delito de que ele é acusado é bem leve.

Ele pode vir a ser, por exemplo, dirigente do PT, sob seu comando até hoje por meio dessa robusta marionete que é o deputado Ricardo Berzoini (SP). O escândalo reduziu bastante seu espaço para manobras no partido, mas o discurso sabujo do ex-ministro da Previdência e do Trabalho na sessão da cassação não deixa dúvidas sobre quem manda, quem obedece e, então, quem precisa, ou não, ter juízo no PT. A notícia de que percorrerá o Brasil pregando contra a política econômica “neoliberal” do governo do qual chefiou a Casa Civil deixa claro que, mesmo sem cargo formal, pois isso poderia representar um acinte inaceitável contra o Congresso, ele pretende pôr pedras nos sapatos de velhos companheiros desafetos, caso de Antônio Palocci.

Lula pode, sim, se quiser, fazê-lo articulador das alianças políticas em suas pretensões de voltar ao Planalto por mais quatro anos. Se fosse fiel mesmo aos lamentos que andou gemendo nos improvisos feitos após sua cassação, o chefe do governo poderia nomeá-lo para o ministério, quem sabe até o da Fazenda, sobre cujo titular concentram-se o “fogo amigo” da patota de Dirceu e a chama branda do banho-maria da fritura do Planalto. Por que não? Dificilmente este faria uma provocação do gênero, pois a lealdade com os subordinados que se queimam para evitar que o chefe seja chamuscado não é a virtude mais exaltada do líder sindical que virou presidente.

Mas, seja como for, Dirceu é um quadro muito importante do Campo Majoritário (bolchevique em português) e foi o operador do sistema de governabilidade e aparelhamento da máquina estatal, cujo chefe, conforme têm lembrado muitos dos que lamentam sua “degola”, ainda detém nas próprias mãos os cordéis que comandam o movimento das marionetes. Com o poder que demonstrou ter no processo da perda do próprio mandato por quebra de decoro parlamentar, promovendo protelações inéditas até mesmo no impedimento do ex-presidente Collor e na renúncia forçada dos chefões partidários Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) e Jader Barbalho, José Dirceu sabe que ainda tem muito espaço a preencher na atividade que não admite vácuos.

Isso o tornará um cassado diferente dos que habitaram, nos anos da ditadura militar e, depois da anistia, desta democracia de cuja conquista, ao contrário do que proclama, ele não participou, os necrotérios e os purgatórios políticos. O fantasma José Dirceu não arrasta correntes pelos corredores do poder: ao contrário, seu poder de assombração o mantém de mãos e pés livres para assustar e atrelar aos grilhões muita gente que se crê imune.

José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde, comentarista da Rádio Jovem Pan e autor de O silêncio do delator, romance ganhador do Prêmio Senador José Ermírio de Morais, da Academia Brasileira de Letras,como melhor livro de 2004.

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