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Tio Zé Bastos

Tio Zé Bastos

Quando eu era pequeno, leitor míope, mas ávido, devorava as revistas que meu pai, caminhoneiro, levava de suas viagens a São Paulo e ao Rio, no sertão (ainda sem luz de Paulo Afonso) do Rio do Peixe. Minha leitura favorita era da coluna “Meu personagem inesquecível”, de Nelson Rodrigues na Manchete Esportiva. Hoje, ao escrever sobre o sertão de minha infância, ocorreu-me que alguns conterrâneos meus tornaram-se, ao longo de minha vida, protagonistas que nunca esqueci. Um deles era Zé Bastos, marido de minha tia Floripes, irmã de meu pai, Anchieta Pinto.

Zé Bastos, com a mulher, tia Floripes, e as filhas Lourdinha e Corrinha

Zé Bastos era capaz de proezas incríveis. Começo por uma que testemunhei. Nos anos 70 do século passado, eu trabalhava na Folha de S. Paulo, na Alameda Barão de Limeira, em Campos Elíseos, quando fui avisado de que um tio meu me esperava à porta do prédio onde trabalhava, a três mil quilômetros dos sertões da Paraíba, onde ele morava. Seu João, o chefe da portaria, apontou o homem miúdo, franzino, de rosto escaveirado e sorriso aberto. Só podia ser Zé Bastos em pessoa. Ou melhor, tio Zé Bastos, como o chamei, respeitosamente, após lhe pedir a bênção.
Visita à Paulicéia Desvairada – A inesperada viagem a São Paulo tinha uma explicação muito simples. Zé Bastos tinha feito algum negócio e ganhara um bom dinheiro. Resolveu gastá-lo num cabaré em Souza, a 36 quilômetros da Beleza, fazendola às portas de Uiraúna, onde morava com a mulher e os filhos, Lourdinha, Corrinha e Toinho. Sua preferência pela casa de prostituição da cidade vizinha se explicava pelo fato de a de sua cidade ficar muito perto de sua casa, no outro lado da estrada.
No cabaré da Cidade Sorriso, fez amizade com o piloto do jatinho do governador de Alagoas à época, Divaldo Suruagy, que comparecia a uma reunião da Sudene no hotel estatal da estância climática de Brejo das Freiras, entre Uiraúna e Antenor Navarro (hoje novamente São João do Rio do Peixe), e também muito próxima de Souza. Quando o porre acabou, ele estava no aeroporto de Congonhas em São Paulo, sem um tostão no bolso, a roupa do corpo e sua irresistível simpatia. Além disso, tinha uma informação de cocheira: o filho de seu cunhado Anchieta era jornalista e morava lá.
Aí começa a parte mais espantosa da saga do marido de tia Floripes: localizar um jovem profissional iniciante numa cidade de mais de 10 milhões de habitantes e chegar até ele não seria fácil para ninguém. Mas para Zé Bastos era café pequeno, como, à época, se costumava dizer. É um mistério para mim como foi que antes de a fome vencê-lo, ele se apresentou faceiro e lampeiro à minha frente na portaria da Folha. Contou-me uma história improvável, mas todos os causos dele eram improváveis: no aeroporto conversou com alguém que já tinha lido meu nome na Folha e convenceu um motorista de táxi a levá-lo ao jornal. Ali conseguiu emprestado de seu João, chefe da portaria, o dinheiro para pagar a corrida, que eu prontamente devolvi ao solícito colega de empresa. E lá estava ele. Ficou uns dias pela cidade e, quando deu vontade, me procurou, pediu-me dinheiro para a passagem de ônibus e voltou para casa. Deve ter sido recebido como de rotina, sem grandes reações de fúria ou saudade de minha tia.
Mulherengo e valente – São Paulo foi certamente o lugar mais distante a que foi levado após uma farra com mulheres da vida. Mas o único não. Nunca. Jamais. Quando não conseguia dinheiro para sair da cidade, cruzava a estrada e ia ali mesmo visitar suas amigas do cabaré de Cirilo Félix, um padeiro que tocava fole de oito baixos e batizou seus companheiros do regional que animava as noites de sua casa de “seus cabras da peste”, citação do conjunto de forró que fazia muito sucesso à época, liderado por Zito Borborema.
A relação dele com o cunhado Anchieta foi longa e profícua. Zé Bastos era vendedor numa loja de tecidos e foi procurado por um credor de uma violenta e poderosa família de seu Estado natal, o Ceará. Chamado de velhaco pelo credor, ao lhe dizer que não poderia naquele momento pagar a dívida, mas logo a pagaria, conseguiu um revólver, foi ao circo onde sabia que o homem estava e o abateu a tiros. Ato contínuo, dirigiu-se à delegacia, entregou-se e entregou a arma do crime. Foi condenado, preso e cumpriu longa pena. Anchieta, com 14 anos à época, foi encarregado pelo pai, João Pinto, de tomar conta da irmã. Foi sua primeira experiência como pai de família.
Na cadeia, Zé Bastos fazia negócios e ganhava dinheiro, como de hábito. Um dia, sabendo das dificuldades do Estado de manter o prédio, decidiu comprá-lo. Tia Floripes se desesperou com a idéia aparentemente absurda e pediu a ajuda do irmão mais velho. Zé Pinto o procurou e ouviu dele uma explicação lógica:
– Ora esta, quero morar no que é meu.
Orador desaforado – Além de cachaça e de mulher, Zé Bastos gostava muito de política, principalmente de palanque. Um dia, bêbado, teve a palavra recusada no palanque de seu candidato. Não teve dúvidas, atravessou a rua e se ofereceu para falar no comício do adversário. Foi autorizado. E disparou:
– Canalhas de Uiraúna!
Outro dia, meu pai estava jantando quando foi abordado por um esbaforido filho do prefeito Ananias Figueiredo.
– Vai haver uma desgraça lá em casa, Anchieta. Venha, pelo amor de Deus.
Meu pai conseguiu salvar tio Zé Bastos da fúria da família do prefeito. Fúria justificada, pois pediu a palavra e disse, com sua voz clara e escandindo cada sílaba:
– Não é uma honra para mim discursar na casa do maior ladrão de Uiraúna.
Meu pai conseguiu tirá-lo de lá, mas com a camisa em farrapos.
Tinha um tino comercial equiparável à capacidade de gastar o dinheiro que ganhava nos negócios com prodigalidade. Sempre viveu pobremente. E morreu na cama, de morte natural, desafiando uma vez mais a velha lógica aristotélica.
Caminhava trôpego pelas ruas de Uiraúna e nunca nenhum dos inimigos que maldizia o molestou. Às vezes era ameaçado pela cadela de Chiquinho Nogueira, chefe de uma família que não costumava cruzar a soleira de casa carregando desaforos. Um dia, percebeu a cadela dormindo. Aproximou-se, passo a passo, silenciosamente, e lhe cravou a peixeira no coração. Antes de morrer, a cadela ouviu a expressão de seu escárnio:
– Não se dorme com um inimigo à espreita.

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