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Silêncio de rádio

O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) teve uma idéia engenhosa: consultar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a possibilidade de cassar, desde já, os registros de candidaturas de todos os parlamentares comprovadamente envolvidos no escândalo da Máfia das Sanguessugas e com pretensões a voltar ao Congresso na legislatura que vem.
A idéia é duplamente engenhosa. Pois, de um lado, exige da Justiça eleitoral uma posição sobre a própria postura na questão da punição de candidatos com culpa reconhecida em cartório, mas também passa o problema da punição dos congressistas corruptos para a frente, tirando-o das costas do Legislativo.
Como reclamou ontem a colega Dora Kramer em sua coluna diária no Estadão, os presidentes da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), têm feito o que se chama em nossa região natal (deles e minha) de um obsequiosíssimo “silêncio de rádio”. Ou seja, resolveram seguir o paradigma stalinista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, a respeito do mensalão, se tem comportado como aquele sujeito da anedota que, ao cair do décimo andar e chegar à calçada, incólume, responde ao transeunte interessado em saber os motivos da aglomeração em seu redor: “Não sei de nada. Acabei de chegar”.
Os partidos, certos de que o problema será levado à Justiça, que lavará as mãos, à falta de textos legais rigorosos que punam os salafrários, começam a tomar providências para aplacar a ira do eleitor. E, no fim, a este será apresentada a dupla cobrança: da conta a pagar e da obrigação de punir os meliantes nas urnas. Quanto cinismo, hein?

 
© Jornal da Tarde, quinta-feira, 3 de agosto de 2006

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