Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

Quintal sem favas para patos

Quintal sem favas para patos

O horizonte dos políticos é curto e o cidadão paga a conta

 

A última legislatura é tida como a pior de todos os tempos. A próxima promete. Promete o quê? Vamos ver!
Esta que acaba daqui a uma semana foi inaugurada com um traumatismo exposto na moral do Congresso com a eleição de Severino Cavalcanti, representante do baixo clero e outras claras baixezas, para a presidência da Câmara dos Deputados, posto que o pôs na condição de segundo substituto eventual do presidente da República. O precedente Severino foi notório. Convém relembrá-lo para poder iluminar melhor os porões onde se desenrolam os fatos que interferem na ocupação do mesmo posto importante, agora. O Partido dos Trabalhadores (PT) rachou ao peso da candidatura oficial de um postulante tido como inflexível e intratável, o advogado preferencial das vítimas da ditadura Luiz Eduardo Greenhalgh (SP), contestada pelo grupo que apoiava o maleável Virgílio Guimarães (MG). O PFL apresentou-se ao páreo com José Carlos Aleluia (BA), mas nem o desafiante petista nem este chegaram ao segundo turno, disputado pelo pretendente palaciano e pelo favorito dos corredores.
A posição do PSDB na disputa foi de uma estupidez que prenunciava a série de lambanças que culminaram com a desastrosa campanha de Geraldo Alckmin (SP) à sucessão de Lula. Orientados pelo líder da bancada, Alberto Goldman (ex-comunista, ex-quercista, atual serrista), os tucanos desprezaram a lógica elementar da luta política enunciada por Maquiavel – “dividir para reinar” -, perdendo a oportunidade dada pela divisão nas hostes adversárias para manter a duvidosa coerência da discutível tradição da escolha de um membro da maior bancada para presidir a Mesa da Casa. Deu no que deu: após sufragar o candidato do Planalto sob a égide petista no primeiro turno, o alto tucanato arregimentou o movimento terrorista suicida que ungiu o “fisiológico do agreste” no segundo. Este, leal aos vícios do fisiologismo sem pejo, arrastou a baixa moral da Câmara na lama até ser apeado do lugar. E os tucanos fingiram que nada daquilo era com eles. O governo aproveitou e, mandando sem solenidade alguma às favas os tais escrúpulos “proporcionalistas” dos principais adversários, elegeu para o lugar um notório serviçal, apesar de ser ele um reconhecido “zumbi”, numa demonstração de que os petistas dominam melhor a matemática do poder que seus opositores.
O triunfo do governista Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e a obviedade de que a bancada do PT, que era a maior, e não majoritária, deixara de ser até a mais numerosa não impediram que, de novo sob os auspícios de José Serra, o PSDB ensaiasse o bis para o primeiro ato da tragicomédia severina. Por incrível que pareça, o líder do partido na Câmara, Jutahy Júnior (BA), anunciou de público o voto no candidato do PT ao cargo, Arlindo Chinaglia (SP). A gramática e a matemática jamais justificariam o tresloucado gesto, que foi, sobretudo, uma agressão à lógica política. Qualquer pretendente a síndico sabe que Chinaglia seria a última opção do PSDB, pois, se é verdade que Aldo Rebelo é tão submisso aos caprichos do petismo planaltino quanto ele, a onda de adesões de oportunistas de todos os quadrantes, de Paulo Maluf (PP-SP) ao PMDB, não deixa dúvidas de que os propósitos de Lula, sejam quais forem, estarão mais bem servidos se ele vencer do que se o outro for reeleito. Desta vez, a opção foi tão absurda que um movimento externo ao PSDB forçou um recuo e até o governador de São Paulo teve de reconhecer publicamente a obviedade das qualidades da candidatura de seu correligionário Gustavo Fruet (PR), mais resultante da resistência digna da “terceira via” que dos inexplicáveis conchavos da própria bancada. Mas, numa amostra de que cegueira política não é exclusividade de seus aliados de ocasião, o PFL insistiu teimosamente em manter seu apoio à reeleição do “zumbi” Aldo Rebelo, não se sabe se por vingança da negação do apoio a Aleluia na disputa anterior, implicância ou inércia.
A esta altura, com a disputa, em teoria, limitada aos dois candidatos oficiais, a timidez do PSDB em apoiar a iniciativa da “terceira via” e a teimosia do PFL ao manter o apoio prometido ao continuísmo podem não passar de lanas caprinas. Mas, diante das perspectivas de que o petismo demonstra inegável competência na conquista do voto popular, proporcional ao apetite pelo controle das “boquinhas” na máquina pública e ao empenho em amordaçar quaisquer adversários recalcitrantes que se aventurem a desafiá-los, a ocupação da presidência da Câmara ganha relevo extraordinário. Fará uma enorme diferença ela ser entregue a um submisso às ordens e aos caprichos do Planalto, seja Chinaglia, seja Aldo, ou a alguém como Fruet, que pode, se não obstar os devaneios populistas do Executivo, ao menos impedir que os sonhos de uma casta se transformem no pesadelo de quem dela for excluído. Todos os movimentos da oposição, incapaz de se aproveitar da divisão do adversário provocada por seu apetite desmedido de poder, só servem para mostrar que o horizonte da política brasileira continua sendo o de sempre, ou seja, o do pato – o fundo do quintal. Não surpreende que tucanos e liberais enxerguem na escolha do presidente da Câmara não uma oportunidade de ocupar um cargo importante para salvar as instituições da velha democracia burguesa da sanha dessa “neodemocracia” popularesca, mas, sim, a chance de facilitar a própria vida nas disputas paroquiais pela direção das Assembléias Legislativas e até em pleitos ainda menores. O que essa gente não percebe é que a eleição de 2010 fica muito além do horizonte do pato. Quando perceber, já no fim da próxima legislatura, aí talvez já seja tarde demais para recuperar o terreno perdido. O pior é que eles mandam no quintal e alcançam o horizonte. A nós outros, cidadãos, caberá sempre pagar o pato.

© O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 24 de janeiro de 2007, página A2

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