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Posse na APH: Discurso da historiadora Isabel de Castro Pinto na posse de José Nêumanne

Posse na APH: Discurso da historiadora Isabel de Castro Pinto na posse de José Nêumanne

Discurso da historiadora Isabel de Castro Pinto na posse de José Nêumanne Pinto na cadeira 2 da Academia Paulista de História na quarta-feira

1º de julho de 2015

Isabel de Castro Pinto e José Nêumanne Pinto na posse na APH

Isabel de Castro Pinto e José Nêumanne Pinto na posse na APH

Uma historiadora e um poeta.  Aqueles que antes de se conhecerem suas vidas já se cruzavam em O Silêncio do delator.  Era tudo ficção, invencionices de infância, misturadas às lembranças de adolescente em Campina Grande e a cruzada rumo à Paulicéia. Até que a Musa da História tratou de marcar esse encontro, irremediável pelo mais solene dos motivos: Isabel de Castro e José Nêumanne, desde tempos que não se conhecem em linha imaginária de Cronos, já se reconheciam como servos da musa, responsável por nossos encontros e, por que não, desencontros

Nos encontros nos amamos e o poeta rimou para sua Isabelescência. Nos desencontros travamos embates com a memória, sobre o tempo perdido de Proust e a francesa de Nevers, aquela de Resnais, em Hiroshima, meu amor, que, apaixonada por um alemão em tempos de guerra, foi forçada a esquecê-lo em tempos de paz. Angustiada, nesse diálogo travado com a memória, disse que se lembraria do envolvimento com o soldado germânico como grande símbolo do horror do esquecimento de um amor.  Nossa história, mesmo que nos lembremos dela todos os dias, iremos esquecê-la. Eu irei esquecer, você irá esquecer todo santo dia como se o esquecimento fosse uma espécie de entorpecente sobre o qual não temos como ter controle. Compreendi que o fio de Ariadne desta história é o fato de que, um dia, amando ou não, sendo inteiramente correspondidos ou não, vamos esquecer.

Não! Não, historiador! Graças a Clio e sob as bênçãos de Tucídides, eu não tive que esquecer para sobreviver à dor da sua ausência. Estou aqui. O reencontro aconteceu e o nosso delicioso sacrifício é ter de lembrar todo dia que nos devaneios do tempo e da vida cotidiana o gosto pela notícia, pelos poemas que me presenteia de tempos em tempos e a devoção à Musa dos historiadores nos farão próximos antes que termine este dia, antes que o mundo se acabe e antes que lembremos a Paraíba, Campina Grande, e sintamos vontade de voltar pra São Paulo que acolheu o poeta e agora a historiadora.

A Baronesa da Borborema, agora em plagas uspianas, orgulhosa de ser uma das pupilas do ilustre Jobson Arruda, relembra em uma de suas aulas primorosas, de elevado requinte acadêmico, um resumo de tudo que Santo Agostinho podia ensinar aos historiadores. De próprio punho, divagou com maestria: “Se para o teólogo Santo Agostinho, o ser é o tempo e o tempo é o ser, resta para a história ser o coletivo dos seres no tempo e, ao historiador, o senhor do seu tempo”.  Sei que o bispo de Hipona o toca e prontamente lembrei-me do poeta, não com a máxima do Santo, que em agruras profundas teria dito: “Senhor, dai-me a castidade, mas não agora”; mas do quanto que suas condutas o fazem crer que é, sem qualquer ranço de dúvida, o senhor de seu tempo de poeta, de jornalista, de homem público, de historiador e senhor daquilo que a vida dá de presente a poucos iluminados: talento, inteligência, eloquência e uma intimidade indiscutível com a palavra.

Que soem as trombetas da Clio, mais um imortal para o seu panteão é agraciado neste 1º de julho de 2015, e sua historiadeusa que fazia pose de moça malcriada e ensaiou dar as costas pra Pauliceia, porque desejava esquecer o seu amor perdido, hoje, assim como todos aqui presentes, chega à conclusão, que, assim como a Hiroshima de Alain Resnais, São Paulo foi feita sob medida para o amor.  São Paulo foi feita também sob medida para celebrar historiadores ilustres. Por isso mesmo estamos aqui.

Muito obrigada!

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