Site oficial do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto

O que não está sendo só porque quer ser

José Nêumanne Pinto

Como provar que não há 300 picaretas no Congresso

Velho conhecedor da alma e das manhas nacionais, o dramaturgo pernambucano (mas cuja obra retrata a vida nos subúrbios cariocas) Nélson Rodrigues decretou, quando a seleção canarinha ganhou a Copa de 1958 na Suécia, que ali tinha fim nosso complexo de vira-latas, contraído na derrota para o Uruguai na partida final da de 1950, no Maracanã. A quase meio século da conquista, talvez não seja fora de propósito concluir que, se evoluímos em algo, continuamos com hábitos próprios dos cães, cuja condição inspirou aos gregos o termo cinismo. E, se a velha elite dirigente nacional se esmerou na arte de desafiar a lógica, os bons modos e a ética, a República atual se tem aprimorado em práticas cínicas com inusitada desfaçatez. No campeonato internacional da malandragem política o troféu só pode ser nosso. Já no torneio interno é difícil apontar um favorito inconteste.
Sesquipedal é a reação do presidenciável campista Anthony Garotinho ao ser interpelado sobre a divulgação antecipada pela Rede Globo, da mesma empresa da revista semanal Época, de pesquisa feita pelo Ibope por encomenda (ao custo nada modesto de R$ 126 mil) da concorrente desta, a IstoÉ. Confrontado com o ineditismo de uma pesquisa registrada, como demanda o figurino legal, no Tribunal Superior Eleitoral, em que se divulgaram resultados parciais, mas faltaram os definitivos do segundo turno, o ex-governador exclamou: “É muito estranho!” Ao encarar o fato de, não estando entre os ponteiros nem tendo sequer obtido o beneplácito dos companheiros de partido para assumir a própria candidatura, ter sido ele o único pretendente entre os citados a ser contemplado com pedidos para o entrevistado listar ações capazes de conquistar seu voto para ele, o comunicador e pregador evangélico apelou para o superlativo: “Estranhíssimo!” Talvez não seja o caso de estranhar isso num país em que o presidente da República desconhecia o que faziam o chefe da Casa Civil e os dirigentes de seu partido.
Luiz Inácio Lula da Silva, aliás, concorre com reais chances ao título. Sua Excelência foi a São José do Mipibu (RN), Alhandra (PB) e Goiana (PE) inspecionar a duplicação do trecho da rodovia BR 101 entre Natal e Recife, estreando o modelito inauguração de obras a serem iniciadas. Nos canteiros convocou a companhia de candidatos, garantindo ser aquele o lugar deles, mas informou aos repórteres que ele próprio não se candidatara a nada, reservando-se o direito de surpreender os adversários com o anúncio às vésperas do fim do prazo para inscrição na Justiça Eleitoral. Antes de repetir essa afirmação em La Paz, o presidente levou a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, à casa de seu fiel aliado e líder da bancada do PMDB no Senado, Ney Suassuna (PB), para exibir transparências com gráficos que mostram as realizações desse governo sempre apto a cacarejar sobre ovos que ainda não foram postos.
A crônica republicana nacional registra ter a “não-candidatura” de Ulysses Guimarães, do MDB, contra o general Geisel servido para registrar nas mentes e nos corações da cidadania a existência de uma oposição democrática civil à ditadura militar. Mas a “não-candidatura” do ex-dirigente sindical que ajudou a construir a democracia sobre os escombros do autoritarismo é a primeira em nossa História a ter chances de vitória. Ao contrário da viúva Porcina, da novela Roque Santeiro, sucesso de Dias Gomes na televisão, “a que foi sem nunca ter sido”, o presidente que não desce do palanque nem para governar um pouquinho é o que “não está sendo só porque quer ser”. A “maledicência” da “opinião publicada” (expressão usada pelo ex-chefe da Casa Civil José Dirceu para desqualificar a imprensa, chamada pejorativamente de “mídia” porque publica maracutaias da “companheirada”) dá à contradição entre o que o governante nega e o que o candidato faz foros de estratagema. Lula teria confidenciado ao companheiro petista Jorge Viana, governador de Acre, que tem desmentido a intenção de se candidatar tentando evitar interpelações da Justiça Eleitoral. A oposição promete desmascará-lo e o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Marco Aurélio Mello, mandou o chefe do Executivo “dar o exemplo”. Mas até agora ninguém viu efeito prático nenhum nestes “freios” ao galope eleitoral do chefe do governo.
E, por falar em fazer, ainda é o caso de incluir neste torneio de cinismo duas personagens que, apesar de pouco terem em comum, estão a ver os destinos atrelados no noticiário nestes dias: o publicitário Duda Mendonça e o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). O relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), insuspeito de militância oposicionista, concluiu que o tal “mensalão” denunciado pelo ex-amigo do governo Roberto Jefferson não foi engendrado nem comandado, mas apenas operado, por Marcos Valério, cabendo as primícias ao marqueteiro baiano que ajudou a eleger Paulo Maluf e Lula. Após a revelação de mais uma conta (de US$ 15 milhões) no exterior, Duda está para ser convocado pela CPI para depor novamente. E, segundo más línguas ouvidas pela revista Veja, resolveu chantagear os políticos que podem expor eventuais ilegalidades de sua contabilidade, ameaçando contar o que sabe aos parlamentares que o interrogarem. Conforme esta mesma fofoca, o silêncio de Duda poderia manter no pescoço a cabeça do ex-presidente nacional do PSDB, numa demonstração de que ainda não caiu em desuso em nossa vida pública a prática de uma mão lavar a outra.
A notícia pode ser comprovada ou desmentida facilmente. Basta ver o que acontecerá. Se os requerimentos para ouvir Duda Mendonça passarem pelo crivo da CPI, será o caso de acreditar que os picaretas do Congresso não são mais os 300 do censo particular de Lula, feito quando ele ainda não mandava.Ou então.

 
José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde e autor de O silêncio do delator, prêmio Senador José Ermírio de Morais, da Academia Brasileira de Letras, em 2005. Clique na capa para ter acesso à livraria virtual.

© O Estado de São Paulo

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