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“O poeta do incômodo brilho da jaça”

“O poeta do incômodo brilho da jaça”

Pedro Galvão não é poeta de se abrigar nos confortos da lisonja e na passividade da contemplação: seu verso, longo ou curto, nervoso ou ritmado, um tanto apocalíptico, um tanto fotográfico, mais garimpa a jaça que o brilho geométrico e ofuscante do diamante lapidado. Na condição de fazedor de poemas, diz-se amador, embora pareça mais sê-lo no exercício profissional competente, e como tal reconhecido em Belém, São Paulo, Rio e Bahia, de publicitário. Este é pago para tecer loas, vender produtos, cativar ilusões. Aquele paga para berrar a insignificância da vida, o legado inexorável da morte, a podridão em que o belo fenece, o mau cheiro das cloacas onde a lama desliza, espessa e mole, a metáfora da qual não dá para fugir, a imagem na qual tudo se decompõe. O executivo da propaganda busca nas horas úteis do dia a fagulha do gênio que ilumina na alma do comprador o desejo do consumo do bem, do serviço ou da idéia, particular e genérica, da iniciativa, do empenho e do engenho. Este é permanente: almoça e janta, se barbeia e sai, ama e rejeita, abraça e trai. O amador bissexto, não: este, em vez de se erguer, cai e chafurda na vida o que ela tem de sórdido e sublime, o paladar refinado dos melhores vinhos e as fezes pútridas em que toda a gastronomia se consome. O vendedor de slogans, frases, lemas e palpites se compraz na ordem e se realiza no gozo do fátuo que se torna essencial: o supérfluo que vira salário, o suor do rosto do salafrário. O comprador do inútil e inconsútil desprazer de se desfazer em bolhas de ar recorre à desordem, recolhe os retalhos, tritura o lixo orgânico que se dissolve no ar, por ser sólido e vulgar, sangra o infinito, arranha a dor das mãos vazias. Mãos presas à bateia na qual vale mais a areia que a pepita, mais paga a saga que o peso do raro minério vão bamburrado. Pernas cambaleantes sobre o precipício afundam na areia movediça ou simplesmente se deixam suspender no ar do último andar do último edifício, a margem de todo precipício.
Pedro Galvão é um poeta incômodo e incomodado, lida com as palavras como se elas fossem a ponta rombuda do bisturi cego ou a lâmina enferrujada do canivete que a velha prostituta da piada de salão guardou para dar à jovem clientela na velhice. No vôo de Sérgio Galvão, “todo o insuportável problema de viver”. Da mesma forma, a garça urbana, sem graça e feia, pobretã, na água suja da praça, mendiga e pesca a própria desgraça, como os outros pedintes bebuns da mesma praça, o mesmo cansaço da entrega da carcaça, “já sem vôo de vôo” e a companhia solícita e solitária do cão vagabundo correndo, fugindo da praça.
Como o profissional competente da comunicação burila lemas e encontra palavras-de-ordem para conduzir o consumidor entre as prateleiras, fazendo-o deter-se num bem, num serviço ou numa missão entre tantas embalagens, o poeta impenitente e intrometido atravessa a vida vã com a ponta fina e fria de seu punhal e o corte anguloso de sua visão penetrante. “A noite é longa e longa a madrugada” é o verso final de seu poema sobre o fogaréu nas ruas de Paris em novembro de 2005. Ele captura o invisível e revela o indizível no fecho de Dona Santa no cemitério de Viseu: “Ele esperou a filha envelhecer / e viveu dentro dela até morrer”. Ou exibe seu despudor fulgurante numa baladinha brega cantando a temeridade de ser feliz: “Vai, balada, me acompanha / e sem medo da pieguice / diz-lhe: amor de minha estranha / e tão poética vísce-/ra: – Amor do meu coração”. Sim, a poesia de Pedro Galvão é víscera, entranha e músculo. É isso e mais: o relato da volta do outro Pedro, o velho, o pai, indo para casa pelas ruas e becos de Belém, sua Belém paraoara; a recepção no céu ao colega Vinicius com todos “mijando em comum numa festa de espuma”; a constatação simples, despojada, despudorada de que “esta mulher, viva em meus braços, é poesia”; e mais, muito mais, pode crer, aposte, não desista.
Bissexto é uma ode à jaça onde brilha o diamante de uma obra primorosa como é “Vitória, em silêncio”, na qual a impotência humana diante dos mistérios da doença da musa viva e imóvel em seu leito definitivo se expressa numa linha desesperada e sintética, capaz de resumir a comunicação sigilosa e imponderável entre o humano e o divino, aliás, a oração: “Então falo com Deus. E Deus não fala”. Este soneto monolítico, esta reza indignada, este sacrifício à beira do tálamo é o resumo de Bissexto e da obra poética de Pedro Galvão: a revolta diante da necessidade e da impossibilidade do milagre imprevisto.

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