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O mar chega ao sertão pelo Recife

O mar chega ao sertão pelo Recife

José Nêumanne Pinto

Meu caminho do sertão ao mar foi feito com uma escala: de Uiraúna a Campina Grande e, sem passar em João Pessoa, direto para Recife. O fascínio pela Rainha da Borborema começou cedinho, na infância. Cheguei, ainda pré-adolescente, ao burgo fundado por Nassau, seguindo o rumo do Atlântico, traçado por meus pais desde os ermos do Vale do Rio do Peixe.

Campina Grande, Açude de Bodocongó - Foto Divulgação

Campina Grande, Açude de Bodocongó – Foto Divulgação

Fui estudar num internato em Campina Grande e na biblioteca do seminário redentorista de Bodocongó encontrei-me com Karl May, com quem viajei pelo mundo afora em mil aventuras, os livros de capa azul do Tesouro da Juventude e as obras completas dos poetas cuja obra minha mãe, Mundica Ferreira, costumava dizer de cor nas noites quentes e escuras do sertão sem luz de Paulo Afonso. Destas leituras emergiu minha opção pelo mundo dos estudos, que me levou à galáxia das letras. E a paixão pela cultura fomentou e fermentou meu amor pela cidade de que tinha ouvido falar ainda menino, na leitura dos poemas de Augusto dos Anjos. Ela foi marcada pela cadência repetida dos versos iniciais de seu poema As cismas do destino: “Recife. Ponte Buarque de Macedo. Eu, indo em direção à Casa do Agra, assombrado com a minha sombra magra, pensava no destino, e tinha medo!”.

Ponte Buarque de Macedo - Foto Divulgação

Ponte Buarque de Macedo – Foto Divulgação

Ali me hospedava na casa de uma família sertaneja no Derby e perto dela, na Ilha do Retiro, campo do Sport, vi um jogo de futebol inesquecível entre o Náutico e o Cruzeiro de Belo Horizonte. Este, com Dirceu Lopes e Tostão. Mas, desculpe, não consigo escalar o time todo. O anfitrião sustentou o zero a zero com Lula; Gena, Mauro, Fraga e Clóvis: Salomão e Ivan; Nado, Bita, Nino e Lala. Salomão, médico campinense, era um volante como não há mais: clássico e elegante. Como Carlinhos, do Flamengo. Ou Araponga, que, como ele, também jogou no Campinense.

Recife, Ilha do Retiro. Foto Divulgação

Recife, Ilha do Retiro. Foto Divulgação

Ainda imberbe, passei a frequentar a intelligentsia recifense, meio sem querer querendo, forçando a barra. Numa incursão noturna, imprópria para menores de 18 anos (e eu tinha 15), fui ver o show Memórias de dois cantadores, com Edy e Teca, acompanhados por Geraldinho Azevedo, Naná Vasconcelos e Marcelo Melo (depois do Quinteto Violado), dirigidos por Carlos Fernando. Era um espetáculo de poesia popular e cancioneiro folclórico. Edivaldo Souza virou Edy Star, um dos Dzi Croquettes, e morou na Espanha. Teca Calazans casou-se com Ricardo Villas, com quem formou dupla na guerrilha de esquerda contra a ditadura militar e na música brasileira.

Foto Divulgação. Um anúncio original do TPN

Foto Divulgação. Um anúncio original do TPN

Nunca mais me esqueci de um episódio ocorrido no bar defronte ao Teatro Popular do Nordeste (TPN). Lá estavam Zélia e Ariano Suassuna, ao lado de Leda e Hermilo Borba Filho. Leda é muito amiga de meu amigo de infância Marcus Vinicius de Andrade, maestro, poeta, recifense, criado em João Pessoa. Abordei os quatro a partir daí e a conversa rolou. Na platéia, mas em fila diferente, estava o professor Jomard Muniz de Britto, acompanhando seu amigo Roberto Cavalcanti a irmã deste, a adolescente Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque. Lembrado do episódio na Casa das Rosas em São Paulo, JMB comentou:

– Pois é. Cristina me analisa desde a adolescência dela.

Na platéia, Edy Star, que mora a alguns quarteirões dali, aplaudiu. Naquela noite eu, pré-adolescente conheci de uma vez só Ariano, Hermilo, Jomard, Cristina, Roberto (co-autor de Coronel, coronéis com Marcus Vinicius Villaça), Geraldinho Azevedo, Naná, Marcelo – a fina flor da tradicionalista e da vanguardista Pernambucália de todos os tempos.

Reencontrei Jomard em jornadas pré-tropicalistas. E nunca mais perdi seu arqui-inimigo Ariano de vista. Certa vez, ele me telefonou para pedir licença (imagine!) para citar uma frase que usei ao falar de meu livro Veneno na veia num seminário de literatura em Campina Grande: “Este não é um romance de aventuras, mas o romance de nossa desventura”. Na ocasião em que o convidei para minha posse na Academia Paraibana de Letras, da qual ele fez parte e na qual ocupo a cadeira nª 1, cujo patrono é Augusto dos Anjos, Ariano me avisou que a dita sentença seria a epígrafe do capítulo em que tratava da morte do pai em seu romance inédito. E me perguntou quantos enes tinha meu nome. Respondi que eram três.

–  Como três? – questionou, intrigado.

E eu soletrei:

– Ene (primeiro)-e-u-eme-a-ene (segundo) -ene (terceiro)-e.

– Sujeitinho mais ordinário, você – ele disparou, depois de gargalhar.

Mas Ariano não foi o único interlocutor que tive na capital pernambucana. Depois que virei jornalista no Sudeste, passei a visitar a cidade por conta de compromissos profissionais. O diretor do Jornal do Brasil Mauro Guimarães me escalou para fazer a cobertura de uma reunião da Sudene. Nela Tancredo Neves, então governador de Minas, foi indicado para ser protagonista da coligação civil armada para derrubar a ditadura militar. Tomando um uísque com gelo no salão de refeições opíparas do Palácio do Campo das Princesas, arrisquei:

– Então, o sr. vai ser presidente, hein, dr. Tancredo?

– Que é isso, Zé Nêumanne? O presidente vai ser o Andreazza. Figueiredo não vai permitir que Maluf sequer se candidate.

Maluf se candidatou, Tancredo o venceu, mas não tomou posse.

Recife, Palácio do Campo das Princesas. Foto Divulgação

Recife, Palácio do Campo das Princesas. Foto Divulgação

A política seria o motivo de minhas visitas seguintes a Recife. Fui comensal dos banquetes magníficos que Gustavo Krause dava no palácio. Com meu primo Sávio Vieira (também uiraunense), passei a acompanhar em outras refeições, às vezes em suas casas, às vezes em restaurantes, Roberto Magalhães, Joaquim Francisco, José Múcio Monteiro, Marco Antônio Maciel e, naturalmente, Miguel Arraes.

Certa vez, eleito governador após o interregno do exílio durante a ditadura militar, dr. Miguel me recebeu numa casa majestosa no bairro dos Aflitos, na qual tinha funcionado o QG de sua campanha vitoriosa. Ali me deu uma entrevista para o Estadão, do qual eu era editor de Política. Fazia muito calor, o ar condicionado era muito barulhento e o assessor de Arraes, Ricardo Leitão, fazia ouvidos de mercador a meus insistentes apelos para desligá-lo. Carlos Garcia, correspondente do jornal, também não pôde me ajudar, pois nada havia entendido do que Arraes tinha dito. A única frase que consegui captar foi quando este me anunciou:

– Você não acha que já dei tempo demais para um adversário político?

– Mas, Dr. Arraes, quem sou eu para ser seu adversário político?

– Você pode não ser. Mas seu jornal é.

No arquivo do Estadão encontrei frases do governador eleito para escrever uma página de perguntas e respostas. Foi publicada domingo. Na segunda, ele me telefonou, feliz e solícito:

– Jornalista, cumprimento-o pela extrema fidelidade do que o sr. publicou em seu jornal. Não me lembro se falei aquilo. Mas pensei…

Foi Arraes quem me apresentou seu neto Eduardo Campos, primo de Malu, mulher de Bob Viana, cuja casa, herdada de Pompeia, mãe dela, na Rua das Pernambucanas, era um museu com quadros de Brennand, Cícero Dias, Vicente do Rego Monteiro e de seu chefe, meu conterrâneo e amigo João Câmara, que fez da mansão a sede da fundação que leva seu nome. Meu logradouro favorito no mundo todo é o Largo de Apipucos, onde já morava Letícia, filha de Osman Lins (autor de Avalovara e que conheci em São Paulo) e à época minha colega no Jornal do Brasil. No bairro, notório refúgio de Gilberto Freyre, também morava Thales Ramalho para cuja casa avarandada de Brasília o Recife se mudava sempre que Sávio Vieira, Helena, ele e eu nos reuníamos por lá.

Cidade do Recife vista do Alto da Sé, em Olinda. Foto Divulgação

Cidade do Recife vista do Alto da Sé, em Olinda. Foto Divulgação

Agora que Alberto da Cunha Melo, Toinho Alves, Lula Cortes, Carlos Fernando e Zé Fernandes morreram, resta-me voltar à Livraria do Paço da Alfândega, uma das mais lindas do mundo, de preferência para mais um lançamento de Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque, cuja obra-prima, Luz do abismo, foi editada no Sudeste pela Girafa, da qual eu era sócio. Ou vadear pelas ruas de Olinda com Yanê e Alceu Valença, Amelinha e Raul Córdula, Chico Pereira e Cláudia Cordeiro. Sem me esquecer de comer uma cartola supimpa no Leite, o melhor restaurante do planeta, com Lectícia e Zé Paulinho Cavalcanti, ao som do pianista Edson, de cujos dedos mágicos brota a mais pura vertente da obra do maestro brasileiro Tom Jobim.

É lá que o mar entra Pernambuco adentro até se resumir ao Riacho da Brígida, de volta às brenhas de meu sertão de origem.

Jornalista, poeta e escritor.

(Publicado na revista Uiraúna, 12a. edição, dezembro de 2014, Págs. 54 e 55)

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